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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

TIMES, CORDEL E BURCA PARA GEISY

Li:
Repórter do The New York Times vira fã de autor de cordel gay.
Opa!
Li de novo e entendi que o repórter Larry Rother tem paixão por folhetos que tratam do tema gay. ele tem um monte em casa: 2 mil.
Pois bem, Rohter é da terra detonada por Bin Laden.
Morou aqui, no Brasil, durante uns trinta e tantos anos sem que ninguém o incomodasse.
Não o questiono como profissional, inclusive porque não o conheço pessoalmente; mas ele nos conhece de sobra e sobre nós escreveu – e deve continuar a escrever – o que bem quis e quer, em centenas de reportagens publicadas no seu jornal, The New York Times.
Até sobre a nossa cachaçinha gostosinha querida etc. e tal, quente que só, do dia-a-dia santo-santificado ele escreveu.
Rohter uma vez desceu a lenha no Lula só porque, coitado, como eu e milhões e milhões, gosta, Lula, de uma branquinha um dia sim, outro também.
Ora, e que mal há nisso?
Lula parece estar fazendo bem ao País...
E o Rohter?
Paulo Vanzolini, mestre, gênio, amigo querido, também gosta da branquinha popularmente chamada de cana, caninha, água benta, metida e tal, como tantos. E olha que o Paulo, moço estudado e doutor até em Harvard, está quase acima do bem e do mal... Outro amigo, o Bill Hinchberger, jornalista norte-americano como Rohter, morador destas paragens por 22 anos – hoje na França –, correspondente de jornais e revistas como a velha Variety, de 1905, também gosta.
De quê? De uma gostosinha, não é mesmo Marco Haurélio?
Marco é dos cordelistas brasileiros hoje um dos melhores, como os irmãos Ari e Klévisson Viana.
Ari também é chegado.
A quê?
Ora, ora...
Uma vez nos sentamos à mesa eu, Paulo e Bill.
Foi ali pelas bandas do Museu de Zoologia.
Paulo era seu diretor.
A conversa fluiu muito bem, como sempre. E olha que nada falamos de cobras e lagartos, a especialidade profissional do autor de Ronda e Volta por Cima. Aliás, a biblioteca do Museu foi toda constituída por grana advinda dos autorais de Ronda, doada por Paulo.
Repito: que mal há beber o que é bebível, hein?
O mal é a desinformação.
Larry Rohter, que lhe pese o fato de morar tanto tempo no País, ainda não conhece direito a cultura popular de cá. De certo modo, essa questão beira o campo da gravidade porque ele, Rohter, tem espalhado mundo afora que a literatura de cordel no Brasil é feita basicamente por J. Borges.
Não é.
São mais de três mil cordelistas, pelos meus cálculos.
Borges é um xilogravurista de grandes qualidades, mas não é um cordelista nos moldes tradicionais de um Leandro Gomes de Barros ou João Martins de Athayde, José Bernardo da Silva, José Camelo de Melo Resende, Firmino Teixeira do Amaral, José Pacheco e Francisco das Chagas Batista, entre tantos e tantos da galeria dos antigos; e dos mais novos os já citados Ari, Klévisson e Marco, além de Audifax Rios, Moreira de Acopiara, Antônio Alves da Silva, Valdir Soares, Pedro Costa, Sinzenando Cerqueira Lima, Horácio Custódio de Sousa, William Brito, Mateus José dos Santos, Aparecido Balbino, Roberto Coutinho da Motta, Gilmar S. Ferreira, Francisco Salviano da Cruz, Varneci Nascimento, Pedro Monteiro e João Gomes de Sá.
Sem falar no grande Patativa do Assaré e também no Chico Pedrosa, Jessier Quirino...
Rohter não sabe o que está dizendo.
Pena.
Sugiro que ele se inteire um pouco mais antes de voltar a ocupar páginas do seu jornal com meias informações a respeito de cana e literatura de cordel. Pode começar lendo os 40 folhetos resultantes do 1º e do 2º concursos paulista de literatura de cordel que promovemos em 2001 e 2003, em São Paulo através do Metrô e da CPTM. Os folhetos selecionados em ambos concursos tiveram uma tiragem de 410 mil e foram distribuídos nas escolas da rede pública do Estado.
E por falar em cordel, replico aqui o folheto de ocasião escrito por Miguezim de Princesa a mim enviado por Peter Alouche. Claro, é sobre a cliente da Uniban que continua provocando um tumulto danado. Título: Uma Burca para Geisy.

I
Quando Geisy apareceu
Balançando o mucumbu
Na Faculdade Uniban,
Foi o maior sururu:
Teve reza e ladainha;
Não sabia que uma calcinha
Causava tanto rebu.

II
Trajava um mini-vestido,
Arrochado e cor de rosa;
Perfumada de extrato,
Toda ancha e toda prosa,
Pensou que estava abafando
E ia ter rapaz gritando:
"Arrocha a tampa, gostosa!"

III
Mas Geisy se enganou,
O paulista é acanhado:
Quando vê lance de perna,
Fica logo indignado.
Os motivos eu não sei,
Mas pra passeata gay
Vai todo mundo animado!

IV
Ainda na escadaria,
Só se ouvia a estudantada
Dando urros, dando gritos,
Colérica e indignada
Como quem vai para a luta,
Chamando-a de prostituta
E de mulherzinha safada.

V
Geisy ficou acuada,
Num canto, triste a chorar,
Procurou um agasalho
Para cobrir o lugar,
Quando um rapaz inocente
Disse: "Oh troço mais indecente,
Acho que vou desmaiar!".

VI
A Faculdade Uniban,
Que está em último lugar
Nas provas que o MEC faz,
Quis logo se destacar:
Decidiu no mesmo instante
Expulsar a estudante
Do seu quadro regular.

VII
Totalmente escorraçada,
Sem ter mais onde estudar,
Geisy precisa de ajuda
Para a vida retomar,
Mas na novela das oito
É um tal de molhar biscoito
E ninguém pra reclamar.

VIII
O fato repercutiu
De Paris até Omã.
Soube que Ahmadinejad
Festejou lá no Irã,
Foi uma festa de arromba
Com direito a carro-bomba
Da milícia Talibã.

IX
E o rico Osama Bin Laden,
Agradecendo a Alá,
Nas montanhas cazaquistãs
Onde foi se homiziar
Com uma cigana turca,
Mandou fazer uma burca
Para a brasileira usar.

X
Fica pra Geisy a lição
Desse poeta matuto:
Proteja seu bom guardado
Da cólera dos impolutos,
Guarde bem o tacacá
E só resolva mostrar
A quem gosta do produto.

Quem é Miguezim de Princesa? Em versos, o próprio responde:

Meu nome é Miguel Lucena,
O Miguezim de Princesa,
Saio espalhando alegria
Para espantar a tristeza;
No entulho da feiúra
Boto um rio de beleza.

Meu pai é Migué Fotogra,
Minha mãe é dona Emília,
Minha casa é de oito irmãos,
Meu filho é uma maravilha,
Minha mulher é meu amparo,
Meu coração é família.

Concursado delegado,
Há duas décadas jornalista,
Vivo a escrever versos tortos,
Inspirado em repentista,
A quem me chama doutor:
Em sou mesmo é cordelista.

2 comentários:

Marco Haurélio disse...

É isso aí, Assis.
Recebi, há uma semana, um questionário para uma entrevista no qual o entrevistador, entre outras asneiras, perguntava se, para ser adotado nas escolas, o cordel deveria ser traduzido. Como se nós, cordelistas e nordestinos, vivêssemos num outro país. E, mais: questionava a validade do cordel como livro infantil e sugeria que sua reprodução fosse restrita a livros didáticos, como se a escola estivesse separada da vida.
Para você ver que há "gringos" dentro de nosso país, que, sob a máscara das boas intenções, escondem seus preconceitos: social e linguístico.
Felizmente há pessoas como você que entendem e apregoam que somos uma nação plural e que a nossa maior riqueza ainda é a cultura.
Obrigado mais uma vez!

Marco Antonio Zanfra disse...

É isso aí: a Geisy que vá balançar o mucumbu para quem aprecia, o que parece não ser o caso do pessoal da Uniban. Mas que fique claro: não é todo paulista que vai animado para a passeata gay.

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