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sábado, 13 de fevereiro de 2010

QUEM DIRIA: EU EM RIBA DUM CARRO ALEGÓRICO...

O amigo Paulo Vanzolini, de Ronda e Volta por Cima, e de outros sambas inesquecíveis do cancioneiro popular, do alto da sua experiência e convicção, diz que desfilar na avenida “para o povão” foi uma das suas maiores emoções já vividas, até hoje. Essas emoções ocorreram em 1988, quando desfilou pela Mocidade Alegre. Tema: O Cientista Paulo Vanzolini, de Roberto da Tijuca, Nenê Capitão e Wagner do Cavaco. Terminava assim:

...De noite eu rondo a cidade
Em busca de paz e de amor
Uma triste cena aconteceu
Que abalou meu coração
Na Avenida São João.

Ôôôôôô, ai que saudade me dá
Oi, deixa a lira me levar
Levanta sacode a poeira, dá volta por cima
Entra na roda, quero ver você sambar.

Inezita Barroso, também amiga e grande intérprete da nossa música, diz com o sorriso largo que a caracteriza desde sempre que desfilar lhe é tão importante quanto cantar uma bela canção; ou, mesmo, respirar nestes tempos de Momo e folia.
Faz tempo que ela desfila. Até tema de samba-enredo já foi. O primeiro em 1992, assinado pelos carnavalescos da escola Combinados de Sapopemba, campeã do carnaval (Grupo III) daquele ano. Tema: Inezita Barroso, a Estrela da Manhã, de Kilder, Saraiva, Fubá e Bispo do Banjo. Começava assim:

Olha que beleza
Isto é São Paulo glorioso
Vem a Combinados cantar
Com Inezita Barroso

Naturalmente o carnaval ficou mais belo
Nasceu a menina no meio do samba
Entre danças e cirandas
Na moda caipira imperou
Na arte da comunicação
Seu sonho de vencer
Se fez realidade
Atriz, mulher de verdade...

E eu, hein? Ainda não conheço essas aludidas emoções.
Há uns cinco anos me chamaram para uns passos na avenida. Na dúvida, desisti.
Há uns dias, recebi novo convite e segundos depois nem quis crer que havia topado.
Acho que estou ficando besta...
O tema carnaval me remete à minha querida cidade-berço, João Pessoa.
No começo dos anos de 1970, adentrei ao carnaval via o Clube Astréa, da capital paraibana, mas no papel de repórter-narrador ao vivo da folia de Momo para a Rádio Correio da Paraíba, onde trabalhei como redator e locutor noticiarista.
Anos depois, já em Sampa, fui escalado em momentos diferentes pela Folha e Diário Popular, já extinto (hoje, Diário de S. Paulo), para cobrir eleição de rainha e rei momos e preparativos outros para os dias de carnaval. Mas os pés na avenida, mesmo, eu nunca os pus.
Essas lembranças me levam a outras.
Numa entrevista para a revista Visão, já extinta, o compositor, cantor e ator bissexto itapirense Henricão, de batismo Henrique Felipe da Costa, ex-marido de Carmen Costa e autor do hino carnavalesco Está Chegando a Hora, versão não revelada da canção mexicana Cielito Lindo, me disse que o seu sonho maior era ser Rei Momo do carnaval de São Paulo. O sonho foi realizado em 1984, quatro meses antes de morrer, pobre e feliz.
Zé Kétti (foto acima) foi outro grande bamba que a vida levou, porém realizado com tudo que fez: A Voz do Morro, Opinião, Nega Dina, Acender as Velas, Malvadeza Durão, O Meu Pecado...
Conversei muito com Zé, com uísque e sem uísque, ora no seu apartamento, no meu ou na casa do amigo comum Artúlio Reis.
Uma vez, porém, o irritei perguntando se Máscara Negra era mesmo dele ou só de Pereira Matos.
Pra quê?
O Zé ficou bravo, subiu nos tamancos, soltou impropérios.
Disse que essa não era pergunta de amigo.
Depois, já calmo, eu lhe disse que é do instinto ou natureza do repórter perguntar, perguntar e perguntar quando sabe, e quando não sabe também.
Quando sabe, para ter certeza do que acha que sabe.
Quando não sabe, para aprender. Enfim...
Zé Kétti nunca desfilou na avenida e nem dançou em salão de baile, fosse ou não tempo de carnaval. “O meu negócio”, dizia, “é fazer o povo dançar”. E fevereiro era seu mês para ganhar dinheiro.
Máscara negra foi a última grande marcha rancho do carnaval.
Bom, vou tomar um negocim ali pra espantar aqui o calor que me toma; um banho frio depois e seguir lépido para a avenida, onde me aguardam os poetas Celso Alencar, Álvaro Alves de Faria...
Por volta da primeira hora da madrugada que vem, estarei me amostrando em riba do carro alegórico nº 2 (da Língua Portuguesa), da X9 Paulistana.
Skindô! E vamos que vamos!
Ah, o enredo da escola é Do Além-mar, a Herança Lusitana nos Une... Ora, Pois! A X-9 é Portuguesa com Certeza, de Júnior ABC, Márcio Camargo, Wagner, Rodney Cheto, Leonardo Trindade e Danilo Brito. A letra:

Veio d'além-mar...
E ancorou em nossa terra
Paraíso de belezas naturais
Jardim das Delícias de tantas riquezas
E o índio ele encontrou
E difundiu novas culturas
A miscigenação então surgiu
Salve a Pátria mãe gentil
Poetas, escritores, trovadores eternizaram
Um lindo idioma que jamais se viu
A língua máter do nosso Brasil
Vem pra cá cantar, sambar
Vem no balancê da nossa musicalidade
No futebol, a mesma paixão
Num só coração
A fé, a devoção em procissão... Ave-Maria
A religião traz emoção... nas romarias
Vem dessa crença a proteção
Pra nossa escola sambar feliz
Um centenário de história
Heranças deixadas em nosso País
Hoje faço a festa com a minha bateria
Meus 35 anos de alegria!
Ora, pois, quem vem aí
É a X-9 com certeza!
Valente, guerreira, luso-brasileira
Canta a herança portuguesa

Um comentário:

Dulce Pereira Alves disse...

Desfilei na Mancha Verde e não te vi na X-9.
Dulce,


do Geraldo Nunes

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