Seguir o blog

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

NO PLANETA DAS ESTRELAS

Meus amigos estão indo embora, sem avisar.
Simplesmente, fecham os olhos e partem.
Os dois últimos a fazer isso foram Juvenal Fernandes e Roberto Stanganelli.
Juvenal, paulistano nascido em outubro de 1925, partiu no dia 22 de junho e desde o dia 27 de agosto tem seu nome exposto no auditório da Editora Arlequim, por iniciativa do empresário Waldemar Marchetti, o Corisco, com quem trabalhou nos últimos anos.
Juvenal viveu o tempo todo no mundo do disco, compondo, fazendo versões e publicando livros de poesias.
É dele, por exemplo, a versão da faixa 2 do disco de estréia da cantora Elis Regina, Sonhando (Dream).
Juvenal foi sócio-diretor da Fermata e, nessa condição, responsável pela edição de algumas obras-primas da música brasileira, entre as quais Disparada, de Vandré-Théo de Barros, e Desafinado, de Tom Jobim-Newton Mendonça.
Conheceu meio mundo e foi amigo de muita gente, como Vicente Celestino.
Dizia que gostava muito do Vicente.
Stanganelli era, na sua modéstia mineira, um ser requintado, exemplar, caladão e observador.
Compositor, instrumentista e produtor fonográfico dos mais valiosos, nascido em fevereiro de 1931, ele acreditava na vida pós-partida.
Partiu domingo passado.
Uma vez, sem mais nem menos, ele olhou pra mim, riu e disse:
- Fique com meus discos, com você serão mais úteis.
Isso faz anos e eram uns trinta LPs.
Tentei várias vezes levá-lo para entrevista nos meus programas de rádio, mas ele, sempre rindo, com a maior naturalidade, dizia:
- Eu vou outro dia.
E esse dia nunca veio.
O mesmo aconteceu com Juvenal.
Eu insistia, mas não adiantava.
Algumas vezes fui à sua casa, no tempo que ainda morava nas proximidades do Museu da Imagem e do Som, nas proximidades da Avenida Europa.
Oferecia-me sempre que ia lá uma boa cachaça, enquanto sorvia café e jogava palavras fora.
Conheci seu arquivo com milhares de verbetes que, acho, nunca publicou na forma de enciclopédia, como desejava.
Como era do seu feitio, Juvenal ia deixando pra depois o que podia fazer logo, como as parcerias que assinou com vários artistas, entre os quais Adoniran Barbosa.
Stanganelli deixou pelo menos duas centenas de composições inéditas, como me disse o seu amigo editor Valdimir D´Angelo, da Arlequim.
De Juvenal, como lembrança, ficou o seu prefácio para um dos meus livros: O Brasileiro Carlos Gomes, que publiquei pela Companhia Editora Nacional, em 1987. No primeiro parágrafo, ele escreveu:
“Fazendo um apanhado sincero, honesto e corajoso sobre o Tonico de Campinas, desde a sua infância e até o seu final melancólico, Assis Angelo colabora, assim, com mais este trabalho, para fazer chegar às gerações mais novas o valor e a importância de um gênio musical e do maior herói não militar das terras brasileiras: Antônio Carlos Gomes”.
Curiosamente, e seguindo essa mesma linha de interpretação, escreveu também o maestro cearense de Iguatu Eleazar de Carvalho:
“Dominando a árdua tarefa da pesquisa, Assis Angelo escreveu o livro O Brasileiro Carlos Gomes preocupado não com um sucesso comercial, mas, simplesmente, plasmando suas observações sob a inteira proteção de resultados dos fatos reais que marcaram a vida e a obra do nosso maior compositor operístico das Américas”.
O maestro partiu em setembro de 1996.
A vida segue seu rumo.

2 comentários:

Alcides disse...

Assis : não sabia que o Roberto Stanganelli havia partido, conhecia ele mais pelo lado de um dos mais antigos sebos de discos daqui de S.Paulo, não seria exagero dizer que me ajudou a escolher essa ingrata mas prazerosa profissão de vendedor de bolachas antigas, pois muitos anos atras eu era um dos seus clientes e me maravilhava com as velhas novidades adquiridas pelo Stanganelli as quais ele gostava de vender sempre por preços módicos.Sempre simpático e também criador duma espécie de Associação Mundial dos Otimistas.Tenho otimismo então que ele esteja num lugar melhor do que nesse mundo.Amém.

Valdimir disse...

Amigo Assis, só você mesmo poderia lembrar com tanta imparcialidade e honestidade de dois grandes alicerces de nossa música brasileira: Juvenal Fernandes e Roberto Stanganelli. Tive a honra de compartilhar da vida de ambos e o saúdo como uma das pontas deste tripé da nossa história musical. Parabéns, amigo.

POSTAGENS MAIS VISTAS