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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

PLÁGIOS E A ALMA DO POVO, O FOLCLORE

Como Águas de Março, lançada no projeto Disco de Bolso, do Pasquim, em 1972, há muitas e muitas músicas recolhidas do folclore e assumidas integralmente ou com variações por artistas dos mais diversos calibres.
Asa Branca, assinada por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, entra no rol.
Leiam o livro Patativa do Assaré, o Poeta do Povo.
Há coisas interessantes, lá.
Há casos muitos, muitíssimos, de apropriação pura e simples.
Em 1982, por exemplo, o capixaba Roberto Carlos pegou uma bobagem intitulada Loucuras de Amor, de um obscuro Sebastião Braga, e a gravou como se fosse sua, com o título O Careta.
Deu pau e o reclamante ganhou o que quis, na Justiça.
Mas nem tudo vai parar na casa dos homens togados.
Em 1976, o cearense Belchior gostou do que leu no livro Zé Limeira Poeta do Absurdo, de Orlando Tejo e, sem creditar, deu de garra dos últimos dois versos da sextilha do doido (maravilhoso Zé) para compor a canção Sujeito de Sorte. A referida sextilha (forma de encaixar versos de sete a 11 sílabas em estrofes rimando o segundo com o quarto e o sexto) é esta:

“Eu já cantei no Recife
Dentro do Pronto-Socorro
Ganhei duzentos mil réis
Comprei duzentos cachorro
Morri no ano passado
Mas esse ano eu não morro”.

Pior, porém, fez o alagoano Djavan em 1992, que pegou uma dezena de versos seguidos do poeta pernambucano Manuel Bandeira e deles se apropriou totalmente, na maior, incluindo o título: Violeiros, que pode ser conferido no LP Coisa de Acender.
E está lá pra quem quiser ler, abrindo o lado 2 com crédito à letra e à música: Djavan.
Casos assim são diferentes de alguém ler num jornal uma frase, um título, e desenvolve um poema ou compõe uma canção como fez o baiano Caetano Veloso ao se deparar com matéria da extinta revista Manchete tratando dos conflitos de rua em maio do agitado 68: “Il est interdit d´interdire”, que resultou na polêmica canção tropicalista É Proibido Proibir, inscrita no III Festival Internacional da Canção.
Também é diferente Chico Buarque escolher Tom como parceiro para Sabiá.
Sabiá, uma bela canção, foi inspirada no poema Canção do Exílio, do maranhense Gonçalves Dias.
E diga-se: esse é o poema com maior número de poemas nele inspirados até hoje no Brasil.
Sabiá ganhou o 1º lugar do III FIC, na noite de 29 de setembro do ano do bode(1968), no Maracanãzinho, quando alvoraçada a multidão presente ouviu o paraibano Geraldo Vandré dizer, alto e bom som:
- Antônio Carlos Jobim e Chico Buarque de Hollanda merecem o nosso respeito!
Vandré ganhou o 2º lugar, com Caminhando ou Pra Não Dizer que Não Falei de Flores.
É Proibido Proibir ficou no 5º lugar na eliminatória paulista, realizada no Tuca.
Mas plágios, enfim, são feitos no mundo todo.
Normal e aceitável?
Não.
O paulista Maurício Alberto Kaisermann, o Morris Albert, um dia ouviu a canção Pour Toi, do francês Loulou Gasté e gostou.
Daí trocou o título para Feelings e gravou em 74.
O resto se sabe.
Há milhares de gravações e versões em muitas línguas dessa música.
Até The Voice a gravou.
Há casos inversos, ou seja: de brasileiros plagiados no Exterior.
Um dos mais notários é o caso de Jorge Ben, vítima do escocês Rod Stewart.
Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira também foram vítimas de gringos do Norte.
O fato aconteceu no começo dos 50, quando os norte-americanos Harold Stevens e Irving Taylor se apropriaram do baião Juazeiro e deram para A Voz da América Peggy Lee gravar, com o título Wandering Swallow.
Teixeira, que era letrado e poliglota, denunciou a safadeza nos Estados Unidos, mas não adiantou: perdeu o processo.
Gonzaga e Teixeira também foram engalobados, num primeiro momento, quando a portuguesinha maravilhosa Carmen Miranda gravou Baião (Ca-room-pa-pa) para a trilha sonora do filme roliudiano Nancy Goes to Rio (Romance Carioca), sem seus nomes no bolachão de 78 rpm (foto).
Mas um processo ajeitou as coisas.
E tem até Bob Dylan, que já disse e repetiu que várias músicas que assina foram garfadas do folclore escocês, como The Times They Are A-Changin, título do seu 3º disco, lançado no ano de 64.
Águas de Março tem raízes no folclore, se sabe.
Asa Branca também.
No livro Dicionário Gonzagueano de A a Z, eu lembro de mais alguns casos do folclore que ganharam paternidade inesperada.
Lembro, por exemplo, do batuque O Canto da Ema, gravado pelo rei do ritmo paraibano Jackson do Pandeiro, mas na origem alagoana um baião muito bonito intitulado Contramestra, que existe desde, pelo menos, 1920.
Enfim, essa é uma história sem fim.
O maestro Villa-Lobos bebia no folclore, mas dizia isso.
Exemplo são suas cirandas, numa delas com parceria pós-morte de Teca Calazans: Caicó.
Há pouco assistindo o filme As Bachianas, o meu nome é Villa-Lobos, ouvi do perfilado Villa:
- Um compositor sério deverá estudar a herança musical do seu país; a geografia, a etnografia, sua e de outras terras; o folclore quer sob o aspecto ideário, quer sob o aspecto político. Só dessa maneira se pode entender a alma de um povo.
Certo!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

É PAU, É PEDRA/É PLÁGIO/É O FIM DO CAMINHO...

Leio no jornal que sítio de Tom Jobim, compositor e músico carioca nascido nos miolos americanos, talentoso que só, e de mil manhas, some na lama em São José do Vale do Rio Preto, área das serras do Rio atingida pela tromba d´água descomunal que engoliu inocentes e pecadores há poucos dias, deixando no rastro destruição e medo medonhos, impossíveis de serem esquecidos, pelo menos, nos próximos cem anos.
Mas o que me chamou a atenção na tragédia não foi isso.
E também não foi o fato de ele, Tom, gostar de passar férias lá no sítio dele e receber, naturalmente, com honras e canas pra bate-papos amigos e informais de bossa nova o esquisito João Gilberto.
Sim, ele mesmo: o das caretinhas engraçadas de Bim, Bom, que não citou Gonzaga mas fez baião; mesmo um "baiãozinho"...
O que me chamou a atenção, na verdade, foi a informação incorreta de que ele, Tom, compôs lá, no sítio dele, pelo menos três músicas: Águas de Março, Dindi e Matita Perê.
Tom até pode ter composto Dindi e Matita Perê lá, no sítio, mas Águas de Março, não.
No máximo, ele, Tom, teve o trabalho apenas de re-arranjar a música que ficaria famosa no mundo e pôr o seu nome no crédito como ilustração.
Explico melhor: essa música é do nosso rico balaio folclórico, adaptada por Inara Simões de Irajá; com arranjo do maestro Antônio Sergi, o Totó, autor do Hino do Palmeiras, lançada originalmente em 1956, no LP 5 Estrelas Apresentam Inara.
Nesse disco, uma das “estrelas” é a norte-americana de Santos, SP, Leny Eversong.
Eversong canta com o purismo dos anjos... Águas do Céu.
Águas do Céu tem a ver com Águas de Março.
Os versos iniciais dizem:
“É chuva de Deus/É chuva abençoada/É água divina/É alma lavada...”.
O ritmo é um pouco mais levado do que a música assinada por Tom.
Só.
Um dos meus poucos amigos mais antigos, seu José, lembra que essa música tem origens num ponto de macumba dos anos de 1930, que diz, e ele cantarola:
- É pau, é pedra/Seixo miúdo/Roda baiana por cima de tudo...
Vou dar uma remexida no meu acerco e voltarei ao assunto.
Pois, pois.
Lembrando, antes: Villa-Lobos, grande maestro procurou no folclore a riqueza do País.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

LIXO NAS RUAS DO BRASIL E NA SUIÇA

Outro dia, cá neste espaço, encerrei texto dizendo estar na hora de pararmos de jogar lixo na rua.
Agora, lendo o blog do amigo Carlos Brickmann, competente língua de fogo do jornalismo pátrio, fiquei sabendo que o confrade Mauro Chaves, editorialista do Estadão e sanfoneiro nas horas vagas, como me disse um dia na casa do pianista João Carlos Martins, indagou num dos seus escritos a razão de não jogarmos lixo nas ruas da Suíça e os suíços jogarem lixo nas nossas ruas.
Ora, as leis de lá são outras.
Lá nas lonjuras suíças não se pode jogar lixo nas ruas, mas aqui tudo ou quase tudo pode sem que se cumpra o rigor da lei.
Ora a lei!
Questão de educação, não é?
Nas plataformas e interior dos trens do Metrô paulistano não se vê lixo, já logo à saída...
Brickmann cita Chaves para falar dos políticos de São Paulo e do Rio, diante das tragédias provocadas frequentemente pelas chuvas. Ele fala do lixo dos rios Tietê e Pinheiros e lembra que Alckmin governador chegou a elogiar o seu antecessor por retirar cerca um milhão de metros cúbicos de lixo das águas fedorentas dos rios, mesmo deixando lá outros quatro milhões e tralalá que promete retirá-los até o fim do seu mandato.
É esperar pra ver.
Com relação ao Rio, o nosso língua de fogo lembra que a ex-secretária de Serviços Sociais de Lacerda, Sandra Cavalcanti, tentou extinguir casas e casebres das encostas dos morros, mas não conseguiu. Houve até show em protesto e uso de música (Opinião), de Zé Kétti, que diz:

Podem me prender,
Podem me bater,
Podem até deixar-me (sic) sem comer
Que eu não mudo de opinião.
Daqui do morro eu não saio, não.
Se não tem àgua,
Eu furo um poço
Se não tem carne,
Eu compro um osso e ponho na sopa
E deixa andar, deixa andar...

E outra (Ave Maria no Morro) que fala da vida da gente que vive pendurada nos barracos, nos barrancos, de Herivelto Martins, que diz:

Barracão de zinco,
Sem telhado,
Sem pintura, lá no morro,
Barracão é bangalô.
Lá não existe
Felicidade de arranha-céu,
Pois quem mora lá no morro
Já vive pertinho do céu.
Tem alvorada,
Tem passarada...

A primeira foi feita especialmente para o show Opinião e gravada no LP nº 632.732 A Opinião de Nara, Philips, e depois inserida no LP nº 632.775 Show Opinião, Philips, gravada ao vivo no dia 23 de agosto de 1965; enquanto a segunda, anterior a Opinião, foi gravada originalmente em disco de 78 rpm Odeon, no dia 5 de junho de 1942, pelo Trio de Ouro, à época formado por Nilo Chagas, Dalva de Oliveira e Herivelto Martins.
Pois é, na Suiça a educação e o bom-senso recomendam não jogar lixo nas ruas.

CHICO BUARQUE
Recebo e-mail esculhambando o compositor Chico Buarque de Hollanda. Pois é, aí está: até os nossos grandes artistas são apedrejados irracionalmente, injustificadamente, em carta sem identificação do autor. Opinar sem se identificar é covardia, minha gente. Por que isso, alguém explica?

PS - Na foto, Zé Kétti com o blogueiro num ano que não sei qual.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

CACHORROS DÃO EXEMPLOS NA VIDA E NA FICÇÃO

Faz hoje uma semana que o fim do mundo chegou de cara feia, amarrada, arrastando tudo que encontrou pela frente na região serrana do Rio de Janeiro, sem perdoar nem pobres nem ricos, negros ou brancos, gordos ou magros, homem, mulher ou criança.
Um horror!
Gatos, cachorros e outros bichos, domésticos ou não, tiveram também a vida abreviada de forma abrupta.
Entre os estragos, destaque para milagres e fatos inusitados, como o que li nos jornais a respeito de um jovem casal, casado há pouco, encontrado morto e de mãos dadas nos escombros de Teresópolis.
De cortar o coração.
Li também que um pai salvou o filho - um bebê de sete meses - dando-lhe sua própria saliva, enquanto durante horas e horas estiveram ambos soterrados e dados como mortos, a exemplo da mulher e também da sua mãe, que jaziam ao lado.
Também de maneira fantástica, inacreditável mesmo, li que uma mulher de idade ganhou o noticiário internacional ao ser içada de uma tromba d´água por vizinhos solidários. Para salvar-se, ela amarrou-se a uma corda em segundos. Detalhe: nunca, na vida, ela deu um nó sequer numa corda ou num cordão.
Outras cenas igualmente incríveis foram anotadas na operação de socorro urgente desenvolvida por bombeiros e pelo exército de voluntários que rastreiam em busca de corpos e sobreviventes a região escolhida como alvo da violência, de origens naturais, que desabou num piscar de olhos e diante de meio mundo.
Mas o episódio que me tocou sobremaneira foi o referente a um cachorro que não abandonou o dono nem na hora da morte.
Ele ficou o tempo todo no local onde o dono fora encoberto pela danação e lá achado sem vida.
E nem lá, no cemitério, o cachorro o abandonou.
Fez-me lembrar a história do vaqueiro pernambucano Raimundo Jacó, primo do rei do baião Luiz Gonzaga.
Jacó foi encontrado morto sob uma árvore, em julho de 1954.
A seu lado, um fiel vira-lata.
E como no caso do cachorro do Rio, o cachorro de Pernambuco acompanhou o dono ao cemitério e lá, ao lado da cova, permaneceu por vários dias; até que também foi encontrado morto, sem tocar na água e na comida que lhe deram numa cumbuca.
Tanto na vida quanto na ficção, há histórias fabulosas envolvendo cachorros.
Graciliano Ramos, por exemplo, no seu romance Vidas Secas, dos anos de 1930, dá vida a uma cachorra chamada Baleia.
Sugiro leitura.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O HOMEM, A CHUVA E AS TRAGÉDIAS

Eu não ia falar sobre esse assunto, por estar ele em tudo quanto é jornal, rádio, TV e Internet. De qualquer modo, vamos lá.
Partes do Sudeste deste Brasil brasileiro, belo e frondoso, estão se afogando em água e lama sem que, de fato, nada se faça para impedir que tal ocorra.
Casas e edifícios inteiros estão desabando que nem pecinhas de brinquedo ou de papel.
Estradas estão sendo destruídas pela violência incomum dos vendavais e trombas d´água.
Gentes e bichos têm desaparecido em piscares d´olhos, em frações de segundo.
Onde havia bairro, o que se ver agora, com infinita tristeza, é um amontoado de paus, vigas, pedras, lixo, barro.
Terrível, sem dúvida.
Ensaio do apocalipse?
E de Deus é que não é a culpa.
Em São Paulo, nem sei quantos já se foram.
Em Minas também há desaparecidos desabrigados aos milhares e dezenas de cidades com estado de calamidade decretada.
Na região serrana do Rio de Janeiro, o fim do mundo é um desenho concreto e feio.
Assustador é tudo o que se vê em volta, de qualquer ângulo.
Um coleguinha repórter, desses tapados, toupeira, fazendo balanço da cobertura ao vivo, na televisão, disse parecendo vibrar:
- Começamos o programa com 381 mortos. Uma hora depois, esse número subia para 397. Agora já são 423!
Ele falava como se torcesse para que ocorresse algo pior. E dizia, ainda eufórico:
- Essa é a maior tragédia do Brasil!
Eu, com meus pacatos botões, retruquei quieto na poltrona: cala a boca, peste!
As tragédias brasileiras são muitas e de todos os tipos e magnitude, infelizmente; e ocorrem desde os tempos das invasões estrangeiras no nosso território, com os celerados de Cabral, por exemplo, prendendo, arrebentando, escravizando, estuprando e matando inocentes.
Ocorreram milhares de tragédias entre nós, como a de Canudos; mas a besta que disse asneiras na TV parece não leu nem ouviu falar do massacre do Exército contra pobres desavalidos do sertão da Bahia da virada do século 19 para o século 20: 25 mil mortos.
No livro Os Sertões, o carioca de Cantagalo Euclides da Cunha (foto) escreve, ao fim, sobre a grandeza dos brasileiros mais humildes, mesmo aparentemente vencidos por forças gigantes:
- Canudos não se rendeu (...) Eram quatro apenas: um velho, dois homens e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados (pág. 611, 9ª edição corrigida, Livraria Francisco Alves; 1926).
Aquela não foi uma tragédia como a que assistimos agora, claro.
Mas alguém de sã consciência ou minimamente informado pode dizer que o que está ocorrendo em Teresópolis, Petrópolis e noutras cidades do Sudeste é a maior tragédia do Brasil?
Claro que não.
O que pode é dizer que o que assistimos pela TV é uma tragédia natural, climática, que de certo modo poderia ser evitada, pelo menos em parte, se as autoridades dessem a devida importância ao povo e que o povo fosse instruído, orientado, para não construir, por exemplo, imóveis em locais de risco, como as encostas de morros.
Pode dizer também que já está mais do que na hora de o governo parar de investir em resgate e reconstrução.
Pode ainda dizeder que está mais do que na hora investir na prevenção etc., pois sabemos que é ao homem possível fazer chover, mas não a ele é dado o dom de fazer parar de chover.
Ah, sim! E paremos de jogar lixo na rua.

domingo, 9 de janeiro de 2011

UMA HISTÓRIA PRONTA PARA O CINEMA

Há coisas no nosso mercado editorial que, confesso, eu ainda não entendo.
Um exemplo?
Este:
Por que danado a Editora Brasiliense demorou tanto para levar às livrarias o romance policial As Covas Gêmeas, tão bom?
Aliás, até prova em contrário, o mercado carece desse tipo de livro.
Sua trama chama de cara a atenção do leitor pela forma intrincada como se desenvolve no correr de 250 páginas.
As Covas Gêmeas é um livro que nasce fadado a ir às telas de cinema, anotem. E, detalhe: ele marca a estréia de pelo menos dois grandes personagens: a do próprio autor, o paulistano Marco Antonio Zanfra, e a do anti-herói Marlowe, criado para dar cabo nessa história de marginais que têm sob seu poder um dos garotos de desesperada mãe pobre e sem marido.
Marlowe, típico policial de carreira, surge logo nas primeiras páginas.
Ele é casado, pai de uma menina, separado e beberrão, e embora afastado de suas atividades policiais por um corregedor que o persegue, após acidente de automóvel que deixou pregado a uma cadeira de rodas um velho colega de profissão, finda por dar conta da tarefa a que se propôs: resgatar o garoto...
No Brasil, são ainda poucos os autores que enveredam pelo campo da literatura policial.
Por que, não sei.
Mas só esse fato deveria chamar a atenção das editoras, imagino.
Zanfra estréia com o pé direito.
É sucinto, curto nas frases.
E isso é bom.
O leitor gosta de frases assim, de parágrafos idem, e que os personagens se movimentem com rapidez.
O único “mas” que vejo no livro é: não custaria o autor informar as origens de frases que o inspiraram aqui e ali. Sua criatura Marlowe, por exemplo, diz que há pessoas que estranham quando ouvem o seu nome esquisito e cita:
“Nossos ídolos ainda são os mesmos, dizia o poeta” (pág. 21).
O poeta no caso é o cearense Belchior e o verso citado enriquece a música Como Nossos Pais, que a cantora gaúcha Elis Regina lançou em 1976.
O texto de Zanfra traz também frases bonitas, literárias, como:
“(...) longe, muito longe, sons de um tráfego que parecia fluir cuidadosamente para não acordar os mortos” (pág. 92), que Marlowe pronuncia como narrador da história de que faz parte.
Há também frases do balaio da cultura popular, como esta:
“A necessidade é a mãe de todas as virtudes” (pág. 221).
E esta:
“Vamos em frente, que atrás vem gente”, ditada pela delegada Maria Marge (pág. 229).
No entanto, isso tudo está longe de ofuscar a originalidade da história de Zanfra.
Acho só uma coisa: que Marlowe deveria ter sobrenome que o identificasse como brasileiro. Tudo bem que ele goste de músicas erudita e até de assobiar “alguns acordes de Noturno nº 1, de Chopim”, enquanto caminha perigosamente à noite por uma rua de uma cidadezinha cheia de cabras doidos para lhe por fim à vida (pág. 89).
Parabéns, Marco Zanfra! E traga o durão e sortudo Marlowe no próximo livro.
O doutor referido pelo bêbado da rodoviária é o delegado corregedor André Wolff?

sábado, 8 de janeiro de 2011

POESIA POPULAR, CORDEL E REPENTE

Ontem fiz referência à décimas de Allan Sales e Zé Limeira.
Allan Sales é um cearense de atividades culturais múltiplas, nascido na cidade de Crato, CE. É professor de violão, compositor e poeta popular, com várias músicas gravadas e autor de cerca de 300 folhetos de feira publicados a partir de 1997, quando passou a se dedicar a esse gênero literário e também a ensinar o que tem aprendido ao longo do tempo. Mora na capital pernambucana desde 1969.
Zé Limeira, por sua vez, foi um poeta fantástico, sem trocadilhos; paraibano a quem comparo sem favor ou bairrismo com o pintor catalão Salvador Dalí.
Pois bem, décimas são formas literárias desenvolvidas desde os tempos da Idade Média.
Há pelo menos dois, três ou quatro tipos de décimas.
As formas que apresentei ontem aqui, neste espaço, de Sales e Limeira, são desenvolvidas em estrofes ou linhas de dez versos setissílabos, ou seja: o primeiro rimando com o quarto e o quinto, o sexto com o sétimo e o décimo e o oitavo com o nono. Exemplo:

O Brasil tem povo bonito
Que não merece sofrer
Pois ele quer é aprender
Tudo com grande gabarito
Sem provocar nenhum atrito
Entre quem quer que seja
O que esse povo todo almeja
É sempre viver em paz
Isso brasileiro é capaz
Porque é tudo que deseja

Há as décimas de duas quintilhas inventadas no século XVI e fácil de achar na obra de Camões e no Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende, como lembra Sebastião Nunes da Silva no opúsculo Poética Popular do Nordeste.
Quintilhas são formadas por estrofes de cinco versos com rimas iguais, sem graça.
Mas há as décimas com decassílabos seguindo a métrica heptassilábica ou de sete sílabas (setissílabo).
Fora isso, há também a décima com rimas idênticas e a décima corrida ou desmancha, própria do cantador ou poeta repentista com viola ao peito, no exemplo de Sebastião Nunes:

1º cantador:

Um só Deus: o Pai dos pais.
Dois caminhos: bem e mal
Três dias de carnaval
Quatro pontos cardeais
Cinco lançados mortais
Seis pontos nos regimentos
Sete grandes sacramentos
Oito incelenças de pena
Nove terços de novena
Dez divinos mandamentos.

2º cantador, desconstruindo a estrofe de traz pra frente:

Dez divinos mandamentos
Nove terços de novena
Oito incelenças de pena
Sete grandes sacramentos
Seis pontos nos regimentos
Cinco lançadas mortais
Quatro pontos cardeais
Três dias de carnaval
Dois caminhos: bem e mal
Um só Deus: o Pai dos pais.

Sem dúvida, é muito rico o mundo do poeta repentista.
E viva a cultura popular!

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

MOURA REIS, SAYAD E ZÉ LIMEIRA

É bom ter amigos, e vejam se não.
O querido piauiense Moura Reis, que anos atrás me substituiu na chefia de reportagem da editoria Política do diário centenário O Estado de S.Paulo, manda mensagem provocadora sob pretexto do que publiquei ontem, neste espaço. Ele escreve:

Caro guru - vejam só -, poeta, nordestinólogo, mestre e o escambal. Seu admirador incondicional, assumo, pela primeira vez, a democrática postura de discordante: discordo com toda a ênfase sua ideia de voltar a misturar o Ministério da Cultura com o da Educação. Era assim no passado, você deve lembrar, e não deu certo. Não vejo razão para o que considero retrocesso. Acredito que devemos apoiar o fortalecimento do Ministério da Cultura neste momento especial sob o comando da Ana Buarque (de Hollanda). Creio que devemos participar do debate sobre direito autoral e da bolsa ingresso, entre outros fatos da atual agenda do Minc. E proponho que você inicie imediatamente campanha para tirar o burocrata João Sayad da TV Cultura. Sugiro o argumento: burocrata no comando de instituição cultural é, no mínimo, sacrilégio à cultura brasileira, portanto insulto à inteligência dos cidadãos e cidadãs brasileiros que vivem e amam São Paulo.

Pois bem, a idéia de fundir o Minc com o MEC (a sigla permanece) se justifica pelo simples fato de cultura ter de andar lado a lado com educação.
Quanto à questão sobre autorais acho de extrema necessidade o prosseguimento da discussão. Pra começar, acho que uma obra deveria cair em domínio público no máximo 50 anos, e não 70, após a morte do autor.
E pronto!
Campanha?
Não sou do ramo, mas acho que o presidente da Fundação Padre Anchieta deve entender que o novo é filho do velho; portanto o argumento de que Ensaio é velho, cai por terra. Ora, o programa Ensaio - não custa repetir - é um dos mais belos e importantes da nossa TV. E tomara que não passe pela cabeça do Sr. Sayad a idéia de jogar fora os discos de 78 rpm da Fundação, como fizeram muitos diretores de emissoras de rádio do País, justificando ser “tudo coisa velha”.
Muitos artistas, e também escritores, não guardam seus discos, é sabido. Eu mesmo já dei 78 rpm a Paulo Vanzolini com música de sua autoria, no caso Volta Por Cima. E também a Inezita Barroso, com a gravação de Ronda. E até eu já recebi de presente livro de minha autoria, como Eu Vou Contar Pra Vocês. Isso, porém, não é razão para que se jogue no lixo livros e discos de 78 rpm.
Neles se acha a história do Brasil.
Toco nesse assunto por uma razão: já me disseram que a Fundação Padre Anchieta há muito não aceita doação de discos nesse formato e nos formatos de compactos e LPs.
Eu, hein!
Para encerrar, uma décima do poeta repentista Allan Sales:

Zé Limeira viu Sayad
Certo dia vendo Ensaio
Disse sim é do caraio
Quando viu sua cumade
Pois Sayad virou pade
Mas sem ganhar bom salaro
Mas andava de camaro
Do timão usando um gorro
Não precisa ser cachorro
Para dar valor ao Faro.

Zé Limeira foi o poeta dos disparates, uma espécie de Salvador Dalí das letras e idéias em estado bruto. Sobre ele, o jornalista e advogado paraibano Orlando Tejo escreveu o livro Zé Limeira, o Poeta do Absurdo. Curiosidade: depois de Shakespeare, é Zé Limeira o mestre da preferência de Paulo Vanzolini, de quem, aliás, declama estes versos feitos de improviso e na forma de décima:

O velho Tomé de Souza
Governador da Bahia
Casou-se e no mesmo dia
Passou a pica na esposa
Ele fez que nem a raposa
Comeu na frente e atrás
Chegou na beira do cais
Onde o navio trefega
Comeu o padre Nobrega
Os tempos não voltam mais.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

FERNANDO FARO E AINDA ANA DE HOLLANDA

Somente agora, passeando por blogs de alguns amigos, como Luiz Nassif, eu tomei conhecimento de um lamentável encontro do novo presidente da Fundação Padre Anchieta, que mantém o rádio e a TV Cultura, e funcionários.
Diz texto, capturado do blog de Nassif:

Em reunião ontem, na TV Cultura, com o pessoal da área de musicais, João Sayad afirmou que o programa Ensaio – o mais importante programa de música da história da televisão brasileira – está ultrapassado e será revisto, porque ele não gosta e o modelo é de quarenta anos atrás.
Um dos funcionários rebateu:
- O senhor é um economista, acostumado com calculadoras e planilhas. Nós aqui dos musicais estamos acostumados com sonhos, música e sentimentos. E a gente se espelha não em números, mas nesse senhor aqui do lado, que se chama Fernando Faro.
Justamente o pai do Ensaio e do programa Mobile (que foi desativado).
Sayad virou-se para um assessor do lado e cochichou:
- Quem é?
Não sabia quem era Fernando Faro, o “Baixo”, um dos mais importantes personagens da música e da cultura brasileira das últimas cinco décadas. O programa símbolo da TV brasileira, que documentou a música brasileira ao longo de tantas décadas foi julgado e condenado… pelo Sayad, que nem sabia quem era Faro e o que representa o Ensaio.

O que mais dizer?
...E pensar que a cultura popular, que é a reunião de formas e meios pelas quais o povo se manifesta e faz história, se acha nas mãos de figuras como essa é, de fato, de se lamentar.
O que se pode vislumbrar a partir desse encontro da burocracia fria e insensível com a história é que o povo corre o risco seriíssimo de ter seus meios (e formas) de manifestação interrompidos.
Um recadinho ao presidente da Fundação:
Não há o novo sem o velho, que é a base de tudo, incluindo a história.

AINDA ANA
Tenho recebido alguns e-mails sobre o que escrevi ontem a respeito da nova ministra da Cultura. Num deles, assinado pelo jornalista Marco Zanfra, uma fria:
- Proponho que Ana de Hollanda crie uma secretaria para assuntos de cultura nordestina e convide o compadre Assis Ângelo para pilotá-la.

Já pensou a ministra ter que criar secretarias para assuntos de cultura gaúcha, nortista etc.?
Eu, hein!

LITERATURA DE CORDEL
Este é de um cidadão chamado Matias, que quer saber se há por aí, fácil de achar, folhetos de cordel e discos de poetas repentistas:
- Meu nome é Matias, sou de Jundiaí, e assisti as entrevistas que você deu à Recordnews e, na semana passada, a que passou no Globo Rural. Tenho bastante curiosidade e interesse em cantadores repentistas nordestinos e em cordel. Ouço o programa do Geraldo do Norte, na Rádio Nacional, só para esperar a hora do repente, que dureza! Não confundir com Castanha e Caju. Tem uns caras que falam coisas inimagináveis de tão profundas. A partir daí me interessei, tipo Ivanildo Vila Nova... Tem alguma forma de cordel e algum material sonoro desses repentistas?

A dica é a seguinte, e serve para o Matias e para outros eventuais interessados no assunto: folhetos de cordel às centenas podem ser adquiridos nas editoras Luzeiro (editoraluzeiro@com.br), com Gregório, e Tupynanquim (tupynanquim_editora@ibest.com.br), com Klévisson Viana.

PS - Na foto acima, de 2001: Ana de Hollanda, Fernando Faro e este escrevinhador em prosa das boas, ao vivo, no extinto São Paulo Capital Nordeste, programa de rádio que produzi e apresentei durante seis anos e meio, na Capital.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

ANA DE HOLLANDA E O MINISTÉRIO DA CULTURA

O Ministério da Cultura, Minc, tem novo titular desde segunda-feira 3.
Melhor: uma titular; aliás, pela primeira vez na sua história.
Nome: Ana de Hollanda, filha do historiador Sérgio e irmão do cantor e compositor Chico.
Fez discurso bonito, alinhado com as metas da presidenta Dilma.
Ana falou em privilegiar a criação e criadores etc.
Bom.
Melhor ainda é não esquecer que há uma criação extremamente importante a merecer olhares especiais: a popular.
A criação popular; a cultura popular, anônima, dita folclórica, é de fundamental importância como identidade do País.
Dilma fez referência a isso, quando disse que “a cultura é a alma de um povo”.
Pois bem, na verdade eu gostaria mesmo era de ver fundidos num só o Ministério da Cultura com o Ministério da Educação. E ao invés de Minc, Minc-educa.
Por ue não?
Gostaria também de ver mais qualidade na programação da televisão, e também do rádio.
A música, sei, vai estar de volta logo logo às escolas.
Ouso dizer que tenho a ver com isso.
Aos mais esquecidos sugiro um passeio por 2006 pelo Google, quando estive no Congresso Nacional expondo sobre o tema.
Com isso, quero dizer o seguinte: que é preciso dinamismo tanto no Ministério da Cultura quanto no Ministério da Educação.
Um tem tudo a ver com o outro, certo? Por isso, os seus titulares têm de estar cada vez mais afinados em prol do bem comum.
A televisão anda pobre, capenga, com suas riquezas visuais e hipnóticas.
O rádio, idem.
Cadê a qualidade, o gato comeu?
Curiosidade: no fim de 2002, acho, Ana esteve no programa São Paulo Capital Nordeste, por mim apresentado durante anos. Ela foi falar sobre cultura e sobre o centenário do pai, que se daria no ano seguinte. E para sua surpresa, reencontrou o produtor musical e mais que isso Fernando Faro, criador do Ensaio, o mais longevo programa da televisão brasileira. Ana contou coisas legais e curiosidades, como a possibilidade de o seu pai ter feito filho na Alemanha...
Claro, sei: está mais no que na hora de o São Paulo Capital Nordeste voltar.
Nada melhor do que um dia atrás do outro, né não?

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A CULTURA POPULAR É A IDENTIDADE DO POVO

Eu mentiria se dissesse que não gostei do discurso de posse da Dilma.
Acho que ela falou o que todos - e todas - esperavam ouvir.
Comprometeu-se com o Brasil, com as liberdades individuais, com a justiça social, com os deserdados da vida. Disse que seria rigorosa no combate à corrupção e que não compactuará com erros e malfeitos que porventura venham a ser identificados no seu governo.
Tomara.
Do longo discurso de 3.604 palavras, no qual o povo foi citado 13 vezes em contextos diversos e cultura 4, só não gostei do fato de ela não ter pronunciado o nome de Guimarães Rosa, a quem se referiu apenas como um poeta da sua terra.
Ora, ora. Poeta?
Guimarães Rosa foi bem mais do que poeta.
A pergunta que me faço é: Por que Dilma não citou com todas as letras o nome do autor de Grande Sertão: Veredas? Isso teria sido importante.
Guimarães Rosa continua sendo um dos maiores autores da literatura brasileira. E isso não é pouco num país que já deu tantos poetas e romancistas de gabarito inquestionável, como Machado de Assis, Aluizio de Azevedo, José de Alencar, Monteiro Lobato; Castro Alves, Casimiro de Abreu, Augusto dos Anjos, Carlos Drummond e Manuel Bandeira.
Usar trechos de obras e citar seus autores sempre será importante.
Sobre cultura, Dilma lembrou que “O caminho para uma nação desenvolvida não está somente no campo econômico. Ele pressupõe o avanço social e a valorização da diversidade cultural. A cultura é a alma de um povo, essência de sua identidade”.
Gostei da frase: "A cultura é a alma de um povo, essência de sua identidade”.
Aí ao lado, à direita, há anos escrevi algo parecido.
Bonito, não é?
Em seguida, ela garantiu:
“Vamos investir em cultura, ampliando a produção e o consumo em todas as regiões de nossos bens culturais e expandindo a exportação da nossa música, cinema e literatura, signos vivos de nossa presença no mundo”.
Agora é esperar, dar corda.
Particularmente, acredito que Dilma Rousself fará um bom governo.

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