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domingo, 24 de março de 2013

INAUGURADA BRASILIANA NA USP

Lereno Selenuntino foi o primeiro brasileiro poeta improvisador de tercetos, quadras e sextilhas ao tom de viola de arame, de batismo Domingos Caldas Barbosa (1740-1800), mulato filho de um português, Antônio, e de uma africana alforriada de Angola, Maria de Jesus. 
Mas Lereno/Domingos foi muito mais do que isso: ele foi o cara que deu forma (e nome) à modinha e levou o lundu a Portugal do século 18, quando tinha a idade de aproximadamente 30 anos.
Passei muito tempo procurando nos alfarrábios da vida um de seus livrinhos em dois volumes, Viola de Lereno: Collecção de Suas Cantigas Offerecidas a Seus Amigos, lançado originalmente em Lisboa nos anos de 1798 (1º volume) e 1826 (2º volume).
Consegui apenas a edição brasileira, lançada na primeira parte do século passado.
Lembro isso porque folheando o catálogo de destaques da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, inaugurada ontem à tarde merecidamente com todas as pompas e circunstância na Universidade de São Paulo, USP, na zona Oeste da capital paulista, identifiquei a publicação que por tanto tempo procurei.
Não teve samba, forró nem baião, mas foi uma festa e tanto a inauguração da “indisciplinada” biblioteca de 32 mil volumes que o advogado, empresário e bibliófilo paulistano José Ephim Mindlin (1914-2010) e a sua companheira, Guita Mindlin (1916-2006), transferiram ainda em vida aos cuidados da USP.
Indisciplinada era como Mindlin classificava a sua biblioteca incrível, que agora ocupa uma área construída de 21 mil m2, ao custo total de R$ 130 milhões.
Centenas de pessoas compareceram ao ato de inauguração.
Revi amigos como Luís Ernesto Kawall, um dos fundadores do Museu da Imagem e do Som, MIS, no Rio, e ex-assessor de imprensa da Carlos Lacerda.  
Enquanto revia e abraçava amigos, eu anotava presenças ilustres em discursos corretos, incluindo o prefeito Haddad e a ministra da Cultura, Marta, que prometeu atenção à Biblioteca Nacional pelo menos igual a que começa a ser dada à Brasiliana Guita e José Mindlin.
Marta foi muito aplaudida pelo que disse.
Centenas de obras raríssimas formam a biblioteca inaugurada ontem.
Além da 1ª edição de Viola de Lereno, se acham lá manuscritos de Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas) e Graciliano Ramos (Vidas Secas), por exemplo.
Domingos Caldas Barbosa foi tradutor de Voltaire e de outros nomes importantes da literatura de seu tempo. E foi também o primeiro erudito sem formação acadêmica que melhor traduziu a alma brasileira em Portugal, cantando a graça das mulatas, os amores e a saudade que ele deixou para trás.
Eis um exemplo da sua verve, em sextilha:

Coração, que tens com Lídia?
Desde que seus olhos vi,
Pulas e bates no peito
Tape, tape, tape ti;
Coração não goste dela
Que ela não gosta de ti.

José Mindlin foi um apaixonado pela história e pela literatura, independentemente de origem, desde os 13 anos de idade.
Além do acervo que lega à posteridade, ele deixa muitas histórias engraçadas e quase trágicas, como aquela em que quatro ladrões invadem a sua casa exigindo dinheiro.
Ameaçavam tacar fogo nos livros, caso o desejo deles não fosse atendido. 
Desesperado, Mindlin fez um telefonema de urgência e, por fim, conseguiu o que os criminosos queriam.
E foi assim que o acervo se salvou.

Um comentário:

Anônimo disse...

Caro Assis - Também estive na inauguração da Biblioteca Brasiliana,e trouxe o livrinho "Destaques da Biblioteca..." Fiquei com um sentimento que a memória do Rubens Borba de Moraes não está registrada naquela imensa biblioteca que ele ajudou a levantar. Na apresentação do livrinho, fala que que o Rubens era um dos grandes amigos do Mindlin. Na introdução, o próprio Mindlin reforça esta afirmação e diz que o Rubens deixou "sua biblioteca em testamento, e ela se conserva em nossa casa tal como ele a mantinha". Tal afirmação confirma a história que lhe contei quando estive na casa do Rubens em meados da década de 1980, onde ele informou sobre a venda de 1/3 de sua biblioteca ao Mindlin (que interrompeu a venda aos americanos). Assim, vemos que os 2/3 restamtes da grande biblioteca do Rubens foi para o Mindlin, e juntas formam a grande brasiliana agora à disposição do público.
Então, veja você que tremenda ironia da história ou da memória, pois estamos falando exatamente dela: Esqueceram de mencionar um dos grandes idealizadores da biblioteca: Rubens Borba de Moraes, o grande bibliófilo e bibliotecário brasileiro. E tenho dito.
J.D. Brito

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