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quarta-feira, 3 de julho de 2013

O PLEBISCITO

O maranhense Artur Azevedo, cujo nome completo era Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo, nasceu no dia 7 de julho de 1885. Jornalista, contista e poeta, Azevedo, fundador da Academia Brasileira de Letras, ABL, junto com Machado de Assis e outros intelectuais, deixou vários livros. Num deles, Contos Fora de Moda, de 1894, pode-se apreciar com gosto o texto O Plebiscito. E já que a palavra está entrando de novo em moda...
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A cena passa-se em 1890.
A família está toda reunida na sala de jantar.
O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade.
Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga.
Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.
Silêncio.
De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta:
— Papai, que é plebiscito?
O senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme.
O pequeno insiste:
— Papai?
Pausa:
— Papai?
Dona Bernardina intervém:
— Ó seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar, que lhe faz mal.
O senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir os olhos.
— Que é? Que desejam vocês?
— Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito.
— Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?
— Se soubesse, não perguntava.
O senhor Rodrigues volta-se para dona Bernardina, que continua muito ocupada com a gaiola:
— Ó senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito!
— Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei.
— Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que é plebiscito?
— Nem eu, nem você; aqui em casa ninguém sabe o que é plebiscito.
— Ninguém, alto lá! Creio que tenho dado provas de não ser nenhum ignorante!
— A sua cara não me engana. Você é muito prosa. Vamos: se sabe, diga o que é plebiscito! Então? A gente está esperando! Diga!...
— A senhora o que quer é enfezar-me!
— Mas, homem de Deus, para que você não há de confessar que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. Já outro dia foi a mesma coisa quando Manduca lhe perguntou o que era proletário. Você falou, falou, falou, e o menino ficou sem saber!
— Proletário — acudiu o senhor Rodrigues — é o cidadão pobre que vive do trabalho mal remunerado.
— Sim, agora sabe porque foi ao dicionário; mas dou-lhe um doce, se me disser o que é plebiscito sem se arredar dessa cadeira!
— Que gostinho tem a senhora em tornar-me ridículo na presença destas crianças!
— Oh! Ridículo é você mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer: — Não sei, Manduca, não sei o que é plebiscito; vai buscar o dicionário, meu filho.
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O senhor Rodrigues ergue-se de um ímpeto e brada:
— Mas se eu sei!
— Pois se sabe, diga!
— Não digo para me não humilhar diante de meus filhos! Não dou o braço a torcer! Quero conservar a força moral que devo ter nesta casa! Vá para o diabo!
E o senhor Rodrigues, exasperadíssimo, nervoso, deixa a sala de jantar e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta.
-oOo-
No quarto havia o que ele mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de água de flor de laranja e um dicionário...
-oOo-
A menina toma a palavra:
— Coitado de papai! Zangou-se logo depois do jantar! Dizem que é tão perigoso!
— Não fosse tolo — observa dona Bernardina — e confessasse francamente que não sabia o que é plebiscito!
— Pois sim — acode Manduca, muito pesaroso por ter sido o causador involuntário de toda aquela discussão — pois sim, mamãe; chame papai e façam as pazes.
— Sim! Sim! Façam as pazes! — diz a menina em tom meigo e suplicante. — Que tolice! Duas pessoas que se estimam tanto zangarem-se por causa do plebiscito!
Dona Bernardina dá um beijo na filha, e vai bater à porta do quarto:
— Seu Rodrigues, venha sentar-se; não vale a pena zangar-se por tão pouco.
O negociante esperava a deixa. A porta abre-se imediatamente.
Ele entra, atravessa a casa, e vai sentar-se na cadeira de balanço.
— É boa! — brada o senhor Rodrigues depois de largo silêncio — é muito boa! Eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu!
A mulher e os filhos aproximam-se dele.
O homem continua num tom profundamente dogmático:
— Plebiscito...
E olha para todos os lados a ver se há ali mais alguém que possa aproveitar a lição.
— Plebiscito é uma lei decretada pelo povo romano, estabelecido em comícios.
— Ah! — suspiram todos, aliviados.
— Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil! É mais um estrangeirismo!

CORREIO DAS ARTES
Logo mais, às 19 horas, será lançado na Usina Cultural Energisa, em João Pessoa, Paraíba, o livro Uma Viagem no Tempo, organizado pelo professor Alarico Correia e pelo editor Juca Pontes. “Esse livro retoma o papel de A União publicar obras de autores paraibanos”, diz o superintendente do jornal, Fernando Moura, acrescentando que esse será o primeiro dentre vários a serem lançados no correr deste ano e 2014.
As páginas de A União abrigaram textos originais de Augusto dos Anjos, Celso Mariz, Ascendino Leite e Horácio de Almeida, entre outros autores paraibanos.
A intenção é lançar livros em todas as áreas, “com olhar mais pedagógico e viés educativo, de contribuição para a ampliação do conhecimento coletivo da Paraíba”, informa Fernando Moura.
O próximo título será uma biografia do pintor Pedro Américo, feita por Horácio de Almeida.
Hoje também será lançada uma edição especial do suplemento literário Correio das Artes, no mesmo local e horário.
O homenageado da noite é o decano da imprensa paraibana, Luiz Gonzaga Rodrigues, que está completando 80 anos de idade.

100 ANOS
Hoje faz 100 anos que nasceu em Campos de Goytacazes, RJ, o compositor Wilson Batista. A sua primeira música, o samba-canção Na Estrada da Vida, foi gravada em disco Victor por Luiz Barbosa no dia 28 de abril de 1933 e lançada à praça no mesmo ano, em dezembro. Ele tinha 20 anos quando Sílvio Caldas gravou seu samba Lenço no Pescoço, provocando Noel Rosa e iniciando uma polêmica musical que entrou para a história. Em 1956, a Odeon reuniu as nove músicas compostas pelos dois e chamou Francisco Egydio e Roberto Paiva para regravá-las. O resultado foi o LP de 10 polegadas Polêmica (acima, reprodução da capa).

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