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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

DE SILVINO PIRAUÁ A OUTROS CABRAS BONS DE VERSOS


Foi não foi, eu me lembro do conterrâneo Silvino Pirauá. Ele transitava com imensa facilidade entre o poeta de bancada e o poeta repentista, aquele que guiado por Deus, consegue nos encantar com extrema facilidade. Pois bem, Silvino eu considero um artista injustiçado. Por que? Simples: Ele e sua arte foram esquecidos atrás da porta. Mas, claro, essa é apenas a minha opinião. Klévisson Viana, por exemplo, que é do ramo, discorda completamente disso que digo. Sua justificativa: “Silvino não é tão lembrado quando os seus contemporâneos Leandro Gomes de Barros e Francisco das Chagas Batista porque sua produção se restringiu a poucos títulos, apesar da altíssima qualidade da sua obra.”
Na verdade, esse injustificável esquecimento do gigante da poesia popular deve-se a nos todos e em ultimo caso às bancas oficiais, como o MINC – Ministério da Cultura, por exemplo.
Segundo o pesquisador Sebastião Nunes Batista, filho de Francisco das Chagas Batista, Silvino Pirauá de Lima nasceu e 1848, no município de Patos, estado da Paraíba, e faleceu em Bezerros, Pernambuco, em 1913. Cantador, glosador e poeta popular, foi discípulo de Romano do Teixeira. Escreveu, entre outras estórias: História do capitão do navio, As três moças que quiseram casar com um só moço e Verdadeira peleja de Francisco Romano com Inácio da Catingueira.
Abaixo, uma mostra do gênio desse paraibano arretado:


E TUDO VEM A SER NADA
Autor: Silvino Pirauá de Lima

Tanta riqueza inserida
Por tanta gente orgulhosa
Se julgando poderosa
No curto espaço da vida
Oh! que idéia perdida
Oh! que mente tão errada
Dessa gente que enlevada
Nessa fingida grandeza
Junta montões de riqueza
E tudo vem a ser nada

Vemos um rico pomposo
Afetando gravidade
Ali só reina bondade
Nesse mortal orgulhoso
Quer se fazer caprichoso
Vive de venta inchada
Sua cara empantufada
Só apresenta denodos
Tem esses inchaços todos
E tudo vem a ser nada

Trabalha o homem, peleja
Mesmo a ponto de morrer
É somente para ter
Que ele se esmoreja
Às vezes chove troveja
E ele nessa enredada
Alguns se põem na estrada
À lama, ao sol ao chuveiro
Ajuntam muito dinheiro
E tudo vem a ser nada

Temos palácios pomposos
Dos grandes imperadores
Ministros e senadores
E mais vultos majestosos
Temos papas virtuosos
De uma vida regrada
Temos também a espada
De soberbos generais
Comandantes, marechais
E tudo vem a ser nada

Honra, grandeza, brazões
Entusiasmos, bondades
São completas vaidades
São perfeitas ilusões
Argumentos, discussões
Algazarra, palavrada
Sinagoga, caçoada
Murmúrios, tricas, censura
Muito tem a criatura
E tudo vem a ser nada

Vai tudo numa carreira
Envelhece a mocidade
A avareza e a vaidade
E quer queira ou não queira
Tudo se torna em poeira
Cá nesta vida cansada
É uma lei promulgada
Que vem pela mão divina
O dever assim destina
E tudo vem a ser nada

Formosuras e ilusões
Passatempos e prazeres
Mandatos, altos poderes
De distintos figurões
Cantilenas de salões
E festa engalanada
Virgem donzela enfeitada
No goso de namorar
Mancebos a flautear
E tudo vem a ser nada

Lascivas, depravações
Na imoral petulância
São enlevos da infância
São infames corrupções
São fingidas seduções
Que faz a dama enfeitada
Influi-se a rapaziada
Velhos também de permeio
E vivem nesse paleio
E tudo vem a ser nada

Bailes, teatros, festins
Comédia, drama, assembléia
Clube, liceu, epopéia
Todos aguardam seus fins
Flores, relvas e jardins
Festas com grande zuada
Oiteiro e campinada
Frondam copam e florescem
Brilha, luzem, resplandecem
E tudo vem a ser nada

O homem se julga honrado
Repleto de garantia
De brasões e fidalguia
É ele considerado
Mas quanto está enganado
Nesta ilusória pousada
Cá nesta breve morada
Não vemos nada imortal
Temos um ponto final
E tudo vem a ser nada

Tudo quanto se divisa
Neste cruento torrão
As árvores, a criação
Tudo enfim se finaliza
Até mesmo a própria brisa
Soprando a terra escarpada
Com força descompassada
Se transformando em tufão
Deita pau rola no chão
E tudo vem a ser nada

Infindo só temos Deus
Senhor de toda grandeza
Dos céus e da natureza
De todos os mundos seus
Do Brasil, dos Europeus
Da terra toda englobada
Até mesmo da manada
Que vemos no arrebol
Nuvem, lua estrela e sol
Tudo mais vem a ser nada

FIM

Cá do meu lado, Klévisson lembra a linhagem de alguns poetas populares do Nordeste como Ugulino Nunes da Costa, José Camelo de Melo Rezende e Joaquim Batista de Sena. E ao lembrar desses nomes, recordo agora com tristeza do passamento recente do amigo jornalista e apologista da poesia Moacir Japiassu. Viva Japi!!! Os últimos meses têm sido de grandes perdas para o universo da poesia popular, partiram, como Japi, João Paraibano e Silvio Granjeiro.



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