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sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

É NATAL, O RECOMEÇO DE UNTUDO.

Mais um ano está chegando ao fim. Antes tem o Natal, causo renovador no calendário gregoriano. Antes até, mas é o que temos. É o que temos.
Grande Sertão: Veredas, do mestre mineiro Guimarães Rosa, um João de um tamanho sem fim, traça uma história pra lá de fabulosa. Há cousas e novidades a cada parágrafo. Sem exagero. João era gigante. Maior do que um pé de coco, dum centenário jequitibá, dum pé de cedro e coisa e tal. Madeira de lei, de dar em doido.
João Guimarães Rosa é a união de universos. Quer duvidar? Duvide, não!
À página 658, ele diz com suas palavras derramadas no mar do Sertão. Assim: 

A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação – porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada.
Pois é, a vida é um eterno recomeço.
A respeito desse João, atirei o meu pensar numa folha de papel em branco. Saiu isto:

Nonada não é nada
Nas veredas do Sertão
Nonada é apenas
Começo de confusão
Prá macho que nasce frouxo
pedindo a padre perdão

Nonada não é nada
É um sim, talvez um não
É Hermógenes morrendo
No meio dum furacão
É Joca Ramiro vingado
Com muito sangue no chão

Nonada não é nada
É bendito, é oração
É padre puxando reza
Na frente de procissão
Convencendo o pecador
A fazer bem ao seu irmão

Nonada não é nada
Nem é tiro de canhão
É começo de conversa
De gente forte do Sertão
Inventada por um cabra
De nome chamado João


O belíssimo Sertão: Veredas, publicada em 1956, é pra ser lido por todo mundo. Até por quem já o leu.
Na primeira página desse livro, o autor mostra com todos os olhos, pernas e braços, a que veio. Encantado, inventei de gravar o que senti. Ouça: