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segunda-feira, 4 de maio de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (27)


 A Segunda Grande Guerra terminou bem no começo de setembro de 1945, com a rendição das Forças Japonesas.

Um dos grandes repórteres norte-americanos, Ernest Hemingway (1899-1961), fez história cobrindo para jornais o desespero que foi aquela guerra. Fez história também com os livros que escreveu, entre os quais o último: O Velho e o Mar. Esse livro foi concluído em 1951. Em 1952, o mesmo livro foi publicado e no ano seguinte destacou-se com o Prêmio Pulitzer.
O Nobel de literatura de 1954 foi encontrar em Hemingway o escritor mais importante do mundo naqueles tempos.
O Velho e o Mar foi publicado em muitas línguas. Conta a história de um pescador que passa meses indo e vindo sem nada pescar no barco que o leva ao mar. Sobre a sua idade e origens nada é dito. Seu primeiro acompanhante foi um garotinho de 5 anos, chamado Manolin.
Ali logo nas primeiras páginas do livro, Hemingway escreve um diálogo entre o Velho protagonista e seu companheiro de jornada.
Como o Velho praticamente nada pescava, o garoto foi pelo pai obrigado a trabalhar num barco cujo dono, de vista curta, tinha dinheiro e era isso o que  o pai do menino mais queria. 
Anos depois, o velho pescador e o seu amigo já grande lembram parte do passado que juntos viveram. Conversa vai, conversa vem...

"- Amanhã, com esta corrente, vai ser um bom dia - disse.
- Para onde vais? - perguntou o rapaz.
- Muito para o largo, para vir quando levantar o vento. Quero sair antes de ser dia.
- Hei de ver se o levo bem para o largo - disse o rapaz. - E, se pescas alguma coisa das grandes, podemos ir ajudar-te.
- Ele não gosta de trabalhar muito ao largo.
- Pois não - reconheceu o rapaz. - Mas hei de ver o que ele não pode ver, assim um pássaro à pesca, e levá-lo aos delfins.
- Vê assim tão mal?
- Está quase cego. 
- É estranho - disse o velho. - Ele nunca andou às tartarugas. E é o que dá cabo dos olhos.
- Mas tu andaste anos e anos às tartarugas na Costa do Mosquito, e vês bem.
- É que eu sou um velho estranho. 
- Mas ainda tens força para um peixe dos grandes a valer".

Antes de cobrir a Segunda Grande Guerra, Ernest Hemingway como repórter também cobriu a Guerra Civil Espanhola, que durou de 1936 a 1939.
No livro As Areias do Tempo (1980) do estadunidense Sidney Sheldon, se acha parte da história recente da Espanha. 
Na trama de Sheldon o leitor acompanha ações de um grupo guerrilheiro liderado por um basco de nome Jaime Miró.
Tudo começa e praticamente termina com a queda de Franco, ditador que permaneceu à frente do destino dos espanhóis entre os anos de 1939 até 1975. 
Na história engendrada pelo mestre do romance de intrigas e mistérios, o líder guerrilheiro Miró tem no seu encalço o Fleury daquelas terras. Seu nome: Ramón Acoca. 
Fora os citados personagens, acrescente-se quatro mulheres tornadas freiras: Irmã Teresa, que é estuprada e assassinada;  Irmã Graciela, Irmã Megan  e Irmã Lúcia. 
Ao fim da história, depois de ameaçar arrancar os olhos de um cara, Lúcia troca a Espanha pelo Brasil e vai morar no Rio. 
Quanto ao guerrilheiro Miró, deve-se dizer que escapa do pior contra tudo e contra todos. E mais não digo. 
O curioso disso tudo é que Sheldon abre As Areias do Tempo com epígrafes assinadas por Ernest Hemingway e Pablo Neruda. A parte tocante ao autor de O Velho e o Mar é esta:

"Os mortos não precisam levantar. São uma parte da terra agora, e a terra nunca pode ser conquistada, sobreviverá a todos os sistemas de tirania.
Aqueles que nela entraram de maneira honrada - e não houve homens que entraram mais honrosamente do que os que morreram na Espanha - já alcançaram a Imortalidade"