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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (70)

 - Você lembrou bem, pois eu tinha me esquecido que o Hélio Fernandes era irmão do humorista Millôr Fernandes. Dois grandes nomes da vida brasileira. E eram autodidatas, certo?

- Certíssimo, Flor Maria. E isso por isso, não custa lembrar que o nosso Machado de Assis frequentou bancos escolares por menos de um ano. O mesmo aconteceu com o poeta do povo Patativa do Assaré. Mas essa é outra história. 
- Você tem falado muito sobre o Guimarães Rosa e isso é muito bom. Até porque os 70 anos da primeira edição de Grande Sertão: Veredas tem sido pouco lembrados. 
- Falar dos nossos autores nunca é demais.
- E a história de que havia uma mulher repentista que era fã de carteirinha do Rosa, hein?
- Verdade. Você está falando de Maria dos Olhos Tortos, não é mesmo?
- Sim. Você lembra no poema: "Não sou cega nem surda/ E ouço só se quiser ver/ O senhor mire veja...".
- Ótimo, bem lembrado. 
- E lá pras tantas você diz: "Cantou com todo mundo/ E no mundo todo brilhou/ De repente criou asas...".
- Ótimo, ótimo! A Maria foi até o céu e de cara cantou com Cristo, mas com Deus ela não cantou. Titubeou. Vamos lá:

Maria estremeceu
Quando ouviu Cristo falar
Querendo saber por que
Com seu pai não quis cantar
Sem saber o que dizer
O que fez foi só chorar

Chorando ela jurou 
Que de novo não faria
O papel que fez no céu 
Isto é não fugiria 
De convite pra tocar
E cantar com Deus um dia

Cara a cara com Ele
Ela passou a pensar 
A pensar no que dizer
Nas linhas do seu cantar
Sobre o Grande Sertão 
Que o Rosa ousou criar

Sertão bruto e belo
Sertão mítico sem par
Sertão de gente forte
Sempre pronta pra lutar
Sertão misterioso
Como as veredas do mar 

Dito o que já disse
Algo mais eu vou dizer:
Maria dos Olhos Tortos 
Viveu bem mesmo sem ver
Aprendendo a ensinar 
Ensinando a aprender 

Mas um dia ela se foi 
Livre, leve, faceira 
Tocando sua viola
Cantando nossa bandeira
Enaltecendo a mulher
E a terra brasileira!

- Gostei. Essa Maria foi realmente incrível, como o são tantas Marias Brasil afora. Lembro da Firmina dos Reis, nossa primeira mulher a escrever e publicar um romance. 
- Úrsula, um grande romance que tem como temática o tempo da escravatura no país. 
- Sem dúvida, falar de autores e autoras brasileiros é fundamental. 
- Maria, a escrita do Rosa e a sua abordagem em temas referentes ao sertão que criou são incomparáveis. Teve um húngaro chamado Sándor Márai, autor do romance As Brasas, que a mim mostrou-se excepcional na abordagem do amor, da amizade, da traição... O livro, lançado em 1942, traz no enredo um triângulo amoroso. Isso é comum, claro. Incomum é a forma de apresentar tal triângulo. Foi a mulher que traiu o marido ou foi o amante que traiu o amigo? Encontrei situação idêntica em Sarapalha (1946), de Guimarães Rosa. Nesse conto, a mulher troca o marido por outro homem, um vaqueiro. O caso vem à tona durante um diálogo do marido com um primo, que a certa altura confessa ser também apaixonado pela mulher. O traído endoida. Detalhe: Sándor Márai ficou cego e deu um tiro na cabeça. 
- Tudo bem, tudo bem, Assis. Porém, há sempre um porém em todo canto. O que eu quero dizer é o seguinte: o Euclides da Cunha viu-se uma hora forçado a patentear a frase famosa essa "O sertanejo é, antes de tudo, um forte".
- Você tem razão, Maria. Depois de cunhar tal frase, o Cunha descreveu o sertanejo de modo lamentável, com palavras péssimas:

"É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas..."