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domingo, 19 de abril de 2020

O POETA MAIS MUSICAL DO BRASIL (2)


Sem dúvida nenhuma, Manuel Bandeira foi o peota mais musical que o Brasil teve até hoje. Seus poemas começaram a ser musicados nos anos de 1920. O primeiro parceiro foi Villa-Lobos (1887-1959), que melodiou 14 poemas seus. Dentre esses, um que faz parte das Bachianas.
No correr da sua vida, Bandeira flertou o tempo todo com eruditos e populares.
O mineiro Jayme Ovalle, de Bandeira melodiou Modinha e Azulão.
Azulão virou clássico.
Vinicius de Moraes dizia que quando Ovalle chegava num ambiente, a temperatura subia 2 graus. Motivo? Ela dominava tudo, pela presença.
No primeiro LP do extinto grupo Secos & Molhados (Continental, 1973), que tinha à frente o cantor Ney Matogrosso trouxe, na faixa seis do lado B, o poema-cantiga Rondó do Capitão (ouvir, acima) musicado pelo paulista João Ricardo. Para a criançada, foi uma festa.




A poesia de Manuel Bandeira está na boca do mundo, cantada e declamada por muita gente bonita e competente como a gaúcha Mirianês Zabot.
Em 2009, Mirianês estreou, no teatro do Centro Cultural São Paulo o espetáculo Mosaico Foto-Prosaico. Nesse espetáculo ela declamou entre Disparada (Théo de Barros/Geraldo Vandré) e Reza (Marcelo Onofri/Raul Boeira), o poema Desencanto, de Bandeira. Ouçam:



Manuel Bandeira era baixinho e triste, desconjuntado como se diz lá no nordeste. Tocava violão e piano, mas nunca teve coragem de se apresentar em público como tal. Achava-se feio fisicamente.
Há, pelo menos 130 poemas de Bandeira musicados por artistas os mais diversos, incluindo Francisco Mignone, registrados no ECAD.
O poeta pernambucano também foi plagiado, até por Djavan. Mas essa é outra história...
Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho nasceu no dia 19 de abril de 1886. Sua obra é m-o-n-u-m-e-n-t-a-l.
Em 1968, a cantora lírica mineira Maria Lúcia Godoy gravou um LP inteiro interpretando Bandeira. Ouçam-na interpretando o 5º movimento das Bachianas Brasileiras:

O POETA MAIS MUSICAL DO BRASIL (1)

O poeta recifense Manuel Bandeira (1886-1968) passou a vida à margem de pragas; edemias, epidemias e até uma pandemia, a de 1918.
A pandemia de 1918, conhecida como Gripe Espanhola, levou ao túmulo milhares e milhares de brasileiro no curto tempo de quatro, cinco meses. Essa doença, a espanhola, chegou ao Brasil em setembro de 1918. Nesse ano, em dezembro, morreu "gripado" o poeta Olavo Bilac. Em janeiro de 19 foi a vez de a gripe matar o presidente da República Rodrigues Alves.
Gripe é gripe. E como tal também é chamada a Tuberculose.
Manuel Bandeira teve o peito atacado pelos bacilos do Koch, que o levaram a morte aos 82 anos de idade.
Muita gente morreu de Tuberculose no Brasil e no mundo todo...
A literatura é rica no tema.
A Montanha Mágica é um romance do alemão Thomas Mann (1875-1955). Conta a história Hans Castrop que sobe os Alpes pra visitar o primo Joachim que estava se curando da "gripe". Num sanatório, é claro. E nesse sanatório o Hans acaba ficando por anos. Vale a pena ler esse livro.
Outro livro que vale a pena ler, que tem como tema a Tuberculose, é Floradas na Serra, da paulistana Dinah Silveira de Queiroz (1911-82), cuja leitura também recomendo.
Manuel Bandeira deixou um rastro de beleza no mundo, pela poesia que fez.
Embora nascido de família abastada, Bandeira identificou-se poeticamente com os deserdados da vida. Exemplo?

"Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem."

Bandeira, na sua obra falou de tudo. Nada lhe escapou aos olhos. Falou de belezas e tristezas, de feiuras e tudo mais.
Na sua poética, Bandeira inspirou muita gente. Inclusive Chico Buarque, de quem foi amigo.
Bandeira e Chico nasceram tímidos. Chico superou a sua timidez, Bandeira não.
Ouve um tempo em que Chico Buarque, estudante de arquitetura em São Paulo, ia duas vezes por semana à região da Praça da Luz distribuir, com amigos, cobertores para os miseráveis da vida. A região da Luz paulistana era, principalmente no passado, uma região de desesperados e prostitutas. Isso foi registrado numa música feita por David Nasser e Nelson Gonçalves. Ouçam: