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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (15)

Neste mundo velho sem porteira, todos influenciam todos. Quando todos têm o que dizer, pra lá ou pra cá.
Inteligência não é produto. 
No campo da filosofia, Sócrates influenciou Platão, que influenciou Aristóteles, que influenciou...
O francês René Descartes (1596-1650) estudou filosofia e matemática. Como Newton, tinha também paixão pela Ciência. 
Isaac Newton (1643-1727) foi aquele cara que tentou descobrir e provar que a luz saía dos olhos, da retina, ao contrário do que pensavam os gregos. Pra isso, chegou a furar seus olhos... 
Em 1637, Descartes publicou Discurso do Método. Nesse livro, ele definiu com primor a razão do ser em movimento na vida. Está lá: "Penso, logo existo".
A isso chamou-se racionalismo. Quer dizer: a razão antes de qualquer compreensão. 
Claro que Descartes leu os gregos, pois não à toa cravou com simplicidade a frase que nos faz pensar até hoje: "Viver sem filosofar é o que se chama ter os olhos fechados sem nunca os haver tentado abrir".
E nesse mundo velho sem porteira quem não filosofa, hein?
Muita gente deve saber, e se não sabe fica sabendo agora, que o mineiro João Guimarães Rosa falava bem e muito bem umas 20 línguas incluindo inglês, francês, italiano, espanhol, russo, árabe, húngaro, chinês, japonês e alemão. 
Entre os autores alemães, Rosa apreciava e muito Schopenhauer e Nietzsche. Além desses dois, que ele cita aqui e ali em livros, gostava também de Franz Kafka (1883-1924).
De Kafka, Rosa colheu como fruto o fantástico permeado de um humor irretocável. Só dele.
Como se seguisse a dica de viver filosofando, o mestre de Minas faz isso em todos os seus contos e romances. Quer ver?

"As pessoas não morrem, ficam encantadas".

"Viver é muito perigoso".

"Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura".

"Felicidade se acha é em horinha de descuido".

"Metafísica: é um cego, com olhos vendados, num quarto escuro à procura de um gato preto que não existe". 

O nosso Rosa tinha óculos com lentes dessa grossura. Ele e tantos outros escritores e poetas como Manuel Bandeira (1886-1968) e Carlos Drumond de Andrade (1902-1987).
Não são poucos os cegos que Rosa põe pra andar nas páginas dos seus livros. 
No conto Um Moço Muito Branco, aparece o cego Nicolau  e um padre de nome Baião. Esses dois personagens, como o moço branco,  dão vida ao povoado Serro Frio.
Em Grande Sertão, o cego é Borromeu. A propósito, Bandeira enviou uma curiosa e engraçada carta a Guimarães Rosa datada de 13 de março de 1957. Nessa carta, é elogiado o autor e personagens lá contidos como o cego e o seu guia, Guirigó. 
João Guimarães Rosa era uma pessoa muito antenada. Anotava tudo que lhe interessava.
Os filósofos da predileção de Rosa eram ateus. Ele, não. 
Manuel Bandeira também não era de frequentar igreja, mas era também um cara muito curioso. Lia muito. Entre as leituras de seu interesse, a história antiga. 
Era menino ainda Bandeira quando a história de Pasárgada lhe chamou a atenção. Atenção essa que resultou,  em 1930, no poema famoso Vou-me embora pra Pasárgada :

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada 
Aqui não sou feliz
Lá a existência é uma aventura 
De tal modo inconsequente 
Que Joana a Louca de Espanha 
Rainha e falsa demente 
Vem a ser contraparente 
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica 
Andarei de bicicleta 
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio 
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias 
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada 

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização 
Tem um processo seguro
De impedir a concepção 
Tem telefone automático 
Tem alcaloide à vontade 
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito 
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero 
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada 



Passárgada foi a primeira capital do Império Persa.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (14)





Kant foi influenciado por Aristóteles que influenciou Artur Schopenhauer, que influenciou Richard Wagner e Friedrich Nietzsche
Schopenhauer e Nietzsche, além de grandes filósofos que foram, encontraram na música momentos de paz e conciliação consigo mesmos. O primeiro era flautista e o segundo, pianista.
Muito possivelmente Wagner seria apenas compositor e copista, mas depois que descobriu Schopenhauer mergulhou fundo no mundo da música. 
A ópera Tristão e Isolda, um tema medieval, foi musicalmente desenvolvida sob inspiração de Schopenhauer. 
Composta entre 1857 e 1859, Tristão e Isolda estreou no Teatro da Corte de Munique, no dia 10 de junho de 1865.
Bom, é sabido que Schopenhauer (1778-1860) tinha problemas com a religião católica. 
É sabido também que Schopenhauer batia e assoprava no item Catolicismo. 
Schopenhauer referia-se a Platão como "o Divino".
Meu amigo, minha amiga, Schopenhauer escreveu coisas interessantíssimas sobre visão e cores. Escreveu também sobre o cego de nascença, o cego de "vista curta", o estrábico... É dele: "A vontade é um cego robusto que carrega um aleijado que enxerga". Dizia também que curar a visão de um cego que não quer ver, não adiantaria nada, até porque "Tudo que um ressentido possui é a dor, a raiva".
Saber é pensar, pensar é saber.
E Friedrich Nietzsche, hein?
Como Schopenhauer, Nietzsche (1844-1900) era ateu e misógino de primeiro grau. Rousseau também. 
Um dos motivos que levaram Nietzsche a ser "ressuscitado" na primeira metade do século 20, foi a crença de que ele inspirou Hitler a fazer o que fez do começo ao fim da 2a. Guerra Mundial. Mas faltam provas. 
Todo mundo sabe que o autor do livro Para Além do Bem e do Mal morreu com a idade de 55 anos em 1900, louco. O que pouco se sabe é que a sua única irmã, Elizabeth, apossou-se dos inéditos do irmão, alterando-os.
A mesma Elizabeth era nacionalíssima dos pés à cabeça e casou-se com um militar de patente do exército alemão e com ele foi morar no Paraguai, onde tentou com o maridão criar um ambiente parecido com o que faria depois o sangrento "Führer".
Ao contrário de Nietzsche, Wagner (1813-1883) caiu na graça de Hitler que o adotou e fez de sua música a trilha dos  seus horrores.
Friedrich Nietzsche não chegou a ver a tragédia que deixou milhões e milhões de mortos, até porque morreu cego. Antes, porém, matou Deus. Disse: "Deus morreu. Deus está morto. Nós matamos Deus".



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (13)


Crédito: A Morte de Sócrates de Jacques-Louis David

Os filósofos de ontem e de hoje fizeram e fazem incursões no mundo do imaginável. E dentro desse mundo se acham deuses e deusas.
Entre tudo e todos deuses e deusas o nome mais presente e discutível é... Deus, o criador de tudo que há no real e no imaginável. 
Aristóteles foi das figuras gregas mais importantes no tocante à filosofia. Tentou entender tudo e tudo tentou passar para as gerações além dele. E é da Antiguidade que estamos falando.
Aristóteles estudou tudo, até no campo da Astronomia. 
Foi Aristóteles que passou pra frente a Lei das Causalidades. O cego está na parada, nessa lei. Ele foi longe. Em todas as conclusões a que chegou deu-se por achado. Um detalhe: não conseguiu resposta para a existência dos planetas, do Sol, da Lua, do Universo...
E como não soube dizer quem foi o criador disso tudo, rendeu-se: Deus. 
Isso está na Lei das Causalidades.
Naqueles tempos, quer dizer tempos muito antigos de que nada ou pouca notícia se tem, formaram-se sábios que tentaram de todas as formas explicar a criação do mundo com suas incongruências e barbaridades.
Sócrates foi professor de Platão, que foi professor de Aristóteles. 
Muito pouco se sabe sobre Sócrates. 
A história conta que Sócrates era um cabeção privilegiado, que gostava de interromper pessoas para lhes fazer perguntas. 
A filosofia socrática teve por base a dialética. 
Provocador à exaustão, o mestre de Platão e Aristóteles foi acusado de rebeldia por não respeitar os deuses do seu tempo e de aliciar ou pôr no mal caminho a juventude. Vejam só! Por isso acabou condenado à morte. A opção que tinha era obedecer a tudo o que as autoridades de plantão lhe determinassem. Sem saída, recusou-se a obedecer as ordens dos seus algozes. E o que fez? Matou-se envenenado dizendo: "Só sei que nada sei".
O fato de Sócrates não ter legado à posteridade nenhum escrito de próprio punho, levou-se a crer que ele era cego ou quase cego. 
Esse trio de bambambãs da Filosofia influenciou e continua a influenciar estudiosos no mundo todo, inclusive no campo da Matemática e Astronomia. 


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (12)

Crédito: Potty Lazzaroto

Guimarães Rosa foi realmente uma figura importantíssima para a literatura brasileira. 
Ele, Rosa, estreou pra lascar no ano da graça de 1946. Seu livro de estreia foi Sagarana. 
Em Sagarana, acha-se o conto São Marcos.
No conto São Marcos nos deparamos com o Brasil real de todos os tempos e até aqui. 
São Marcos começa com um médico recém-formado chegando a um vilarejo de nome Calango-Frito, localizado no fim do mundo de Minas.
O médico tem por nome João José. É figurinha antipática e metida a besta, movida a preconceito e tudo o mais que não presta. A cor da sua pele é branca. 
O branco médico passa na frente de um local onde mora o preto curandeiro Mangolô. Não resistindo, o médico recém-saído dos cueiros vai chegando e já dizendo: 
"Todo negro é cachaceiro. Todo negro é vagabundo. Todo negro é feiticeiro".
Mangolô até então ouvindo com paciência o que dizia o doutorzinho, cuspiu de lado e bateu a porta furioso. 
Encurtando conversa: o doutor, montado no seu cavalinho, seguiu trilhas até um bosque. Na verdade, uma mata cheia de plantas e bichos cuja beleza ia além da imaginação. De repente, o doutor João José ficou cego e desesperado sem saber o que fazer. Apurou o ouvido e ouvido apurado conseguiu chegar à casa do curandeiro Mangolô. E mais não digo.
Pois é, a vida é cheia de mistérios. 
Mistérios há em todo canto desde sempre. 



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (11)


Ali mais pra frente do que pra trás do livro Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa põe no livro o seu Riobaldo convencendo o cego bom Borromeu e o seu guia menino Guirigó a irem com ele para o bando que comanda. E lá vão eles. 
Outros cegos aparecem nas histórias do escritor. 
No conto A Benfazeja, inserido no livro Primeiras Estórias (1962), Rosa cria uma mulher, Mula-Marmela, como guia de um cego chamado Retrupé. 
O cego Retrupé tem cara de mau, de matador de gente. Por essa razão é evitado o tempo todo por quem cruza o seu caminho. A sua guia também tem cara de gente que não gosta de gente. Há quem diga que ela é assassina. 
A Benfazeja é um conto quase fora de rota de Guimarães Rosa. Claro, tem o seu lado fantástico. 
Sei não, mas acho que Rosa trouxe de leituras antigas o personagem refeito que representava para os gregos Tirésias. 
Não só Tirésias, mas na Antiguidade os cegos eram tidos como figuras especiais capazes de prever o futuro. Foi nesse contexto que Rosa pôs Borromeu no caminho do jagunço Riobaldo. 
Riobaldo via nos cegos algo como um bom amuleto. 
Entre os grandes personagens criados por por Rosa se acha Miguilim, um garoto muito sabido de apenas oito anos. Sofria com as agressões que o pai Bernardo desferia na mãe. 
Miguilim tinha vários irmãos e um tio de nome Terez que vivia esticando os olhos em direção à mulher de Bernardo. Mas isso o pai de Miguilim estava longe de desconfiar. Desconfiou de um amigo, Luisaltino. 
Enciumado, o suposto candidato a corno matou aquele que considerava rival. Após matar o amigo, o assassino pendurou-se num cipó e morreu. Tragédia por tragédia, ainda adianto que um irmão de Miguilim, Dito, de quem ele muito gostava, cortou-se num caco de vidro que o levou à morte.
Miguilim tinha os olhos avariados desde nascença. Sua visão era curtíssima. Tudo que viam os seus olhos eram figuras embaçadas, irreconhecíveis. Até que um dia, bateu à porta da casa onde morava um doutor, que emprestou-lhe um par de óculos. Foi uma festa. O menino saiu às carreiras feliz da vida.
A tragédia grega que tanta gente inspirou e continua inspirando, levou o alagoano Graciliano Ramos a criar o guia de cego Paulo Honório, personagem do livro São Bernardo. 
João Guimarães Rosa nasceu no dia 27 de junho de 1908. Foi cônsul e tudo mais. Falava bem um monte de línguas, umas 15.
À boca miúda, Guimarães Rosa dizia que morreria logo depois de assumir a cadeira de n° 2 da Academia Brasileira de Letras, ABL, por isso prorrogou enquanto pôde a sua posse. 
O escritor famoso de Minas trocou de andar no dia 19 de novembro de 1967, três dias após assumir a tal cadeira.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

VIVA O BRASIL!

O dia 8 de janeiro de 2023 é para nunca ser esquecido. Foi nesse dia que um canalha esperou nos EUA que os seus cupinchas, militarmente graduados, o chamassem de volta para assumir uma cadeira que já não era dele.Ele, lá na moita.
Meus amigos, minhas amigas, o Lula pernambucano é brasileiro do tamanho da nossa alma. É de paz. Pacífico. 
Bom, hoje 8 de janeiro de 2026 houve uma lembrança histórica na capital federal desse dia que foi uma tentativa de golpe para derrubar a nossa democracia. 
Aquele que arquitetou esse golpe continua na cadeia choramingando lágrimas de crocodilo, posicionando-se como vítima. 
Eu pergunto a meu amigo, minha amiga: Bolsonoro deve ou deveria viver eternamente abraçado com
- Trump
- Belzebu
- Capeta?



domingo, 4 de janeiro de 2026

BOM, CUIDADO COM O ANDOR...

Crédito: InfoMoney

O mundo está pegando fogo. Está não, sempre esteve.
Não temos salvação e certamente nunca teremos.
Exploramos e matamos o nosso próximo sob o pretexto de uma vida melhor. 
Na madrugada de sábado eu estava ouvindo rádio, quando ouvi a notícia de bombardeio aéreo sobre a capital venezuelana, Caracas.
A Venezuela é um país que fica aqui pertinho da gente, cujo povo sofre como o povo de todo canto. 
Venezuela é um país que nunca teve tradição fonográfica. 
Sempre quando ouço o nome desse nosso país vizinho, lembro de uma espanhola que cresceu e viveu respirando a vida venezuelana: Soledad Bravo. 
Soledad e os seus pais adotaram a Venezuela como, digamos, pátria. Segunda pátria, talvez. 
Em 1972, Soledad Bravo defendeu a canção Pátria Amada Idolatrada Salve Salve, de Vandré e Manduka.
Eu conheci o Manduka na casa do Vandré. Manduka era filho do poeta Thiago de Mello, principal tradutor do poeta chileno Pablo Neruda.
Thiago de Mello, uma vez participou do meu programa São Paulo Capital Nordeste, na rádio Capital.
Ana Belém, conterrânea de Soledad, gravou em 1982/83 a guarânia Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores. Na língua da cantora, Caminando...
O que está acontecendo na Venezuela é algo perigosíssimo. 
Claro que não dá pra defender o ditador Nicolas Maduro: canalha, assassino, ladrão e explorador do povo em todos os sentidos. 
A ética e o Direito Internacional têm de prevalecer no mundo da Democracia. 



quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

PAZ E ARTES COMBINAM


Hoje 1° de janeiro é o Dia Mundial da Paz.
Esse dia é de importância fundamental e deveria ser ainda mais do nosso pensamento e ação. 
O Brasil hoje 1° ficou ligado o tempo todo numa coisa chamada Sena da Virada. Seis apostas vão dividir 1 bilhão e 90 milhões de reais. 
Bom, felicidade a todos e ponto.
2025 terminou consagrando o já até então consagrado Oliveira de Panelas. 
Oliveira ganhou no ano que passou o título de doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Paraíba. 
Oliveira de Panelas é pernambucano de Panelas. 
O município de Areia, PB, criou no ano que passou a Academia de Artes, Letras e Ciências Oliveira de Panelas. 
Essa história é fantástica. 

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