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quinta-feira, 30 de julho de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (52)

Nos escritos sagrados que formam a Bíblia há mais de duas centenas de citações da velhíssima cidade de Jerusalém, por onde um dia passaria Jesus Cristo. Nessa sua passagem, chegou a curar um cego. 

Muitos anos se passaram até que poderosos e miseráveis da Turquia se defrontaram pra matar e pra morrer. Isso ali já pelo século 19. Notícias a respeito desse desigual embate chegavam em pílulas às páginas dos periódicos da sede da Corte, Rio de Janeiro. 
Em agosto de 1875, era fundado aquele que se transformaria num dos principais jornais do seu tempo: Gazeta de Notícias.
Em 1876, a Gazeta começava a pôr em discussão questões referentes ao cotidiano. Políticas, inclusive. 
E assim foi, seguidamente. 
Em 1878, o jornal passou a publicar um folhetim assinado por Araripe Júnior (1848-1911), sobre a crença de que o rei D. Sebastião de Portugal retornaria para salvar o mundo. Isso ficou conhecido como Sebastianismo, crença que chegou ao interior de Pernambuco, em 1836. Dois anos depois, tudo acabou em sangue de crianças,  virgens e inocentes em geral.
O caso aqui lembrado tinha por líder um sujeito de nome João Antônio, em seguida substituído por João Ferreira. Essa história ficou conhecida como Pedra Bonita.
Pedra Bonita inspirou Araripe Júnior a escrever o romance O Reino Encantado (1878), livro lançado logo após a edição em folhetim no jornal Gazeta de Notícias. 
Exatamente um século após essa tragédia, o paraibano José Lins do Rego entrou na história escrevendo Pedra Bonita (1938), livro que despertou a atenção literária do Brasil inteiro e, posteriormente, Cangaceiros (1953). 
Na obra de José Lins do Rêgo, como na obra de Jorge Amado, há muito tocador de viola cego cantando causos e façanhas de cangaceiros. 
Sinhá Josefina é mulher de um certo Bento, preguiçoso que nem o Bute. Vive se balançando na rede prá lá e prá cá e dando de comida na mão para um bode. Quando não fazia isso, estava no curral alisando vaca. Falava pouco, mas o que falava calava fundo a mulher. Era ordem. Ela fazia tudo e tremia de medo diante dele.
A história de Josefina com seu marido machão está completa no romance Cangaceiros, mas começa em Pedra Bonita. 
Josefina e Bento têm quatro filhos: Aparício, Domício e Bentinho, o caçula. 
O quarto filho do casal, Deodato, desaparece de cena sumindo no oco do mundo. Houve quem dissesse que ele embrenhara-se na mata amazônica. 
Aparício torna-se cangaceiro famoso e temido depois de matar um soldado. 
Domício, antes de juntar-se ao grupo cangaceiro do irmão, era admirado pela gente do lugar onde morava por seu belo canto e encantador toque de viola.
Bentinho, de batismo Antônio Bento, foi dado pela mãe a um padre, Amâncio,  que o criou. Tinha 5 anos de idade. Aos 17, foi de passagem à casa dos pais. Lá demorou-se por três meses e dia nenhum desse tempo o pai se quer dirigiu-lhe uma palavra. Era como se o filho o repugnasse.
O caso aqui contado lembra um pouco o caso do menino que tinha vergonha da mãe caolha contado por Júlia Lopes de Almeida. 
Os pais de Bentinho e os irmãos eram naturais da localidade denominada Pedra Bonita.
Pedra Bonita era o lugar mais azarento do mundo para os fazendeiros da região. Justificavam dizendo que nada de bom colhia-se por lá. 
Bom, fosse o que fosse, o fato é que o episódio aqui lembrado também inspirou Ariano Suassuna a escrever o caudaloso Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta (1971). Virou minissérie da Globo em 2007. No elenco, grandes nomes. O personagem Pedro Cego toma conta do espaço. 
Na obra de José Lins e Jorge Amado, a terra e a gente que dela depende aparecem em primeiro lugar. E como tal, aos dependentes da terra são dirigidos louvores que vêm da luta pela justiça. É o  forte contra o fraco ou o rico contra o pobre. Na pena desses escritores se acha a defesa de quem dela mais precisa. Sempre foi assim nos livros dos autores aqui citados.
Certa vez, o autor de Pedra Bonita disse: "Vim da terra, sou da terra e quero continuar na terra".

domingo, 26 de julho de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (51)

Senhora! A Poesia outrora era Estrangeira, 

Pálida, aventureira, errante a viajar,
Batendo em duas portas — ao grito das procelas —
Ao céu — pedindo estrelas, à terra — um pobre lar!

Visão-de áureos lauréis-porém de manto esquálido,
Mulher-de lábio pálido-e olhar-cheio de luz.
Seus passos nos espinhos em sangue se assinalam...
E os astros lhe resvalam-à flor dos ombros nus...

II

Olhai! O sol descamba... A tarde harmoniosa
Envolve luminosa a Grécia em frouxo véu.
Na estrada ao som da vaga, ao suspirar do vento,
De um marco poeirento um velho então se ergueu.

Ergueu-se tateando... é cego... o cego anseia...
Porém o que tateia aquela augusta mão?...
Talvez busca pegar o sol, que lento expira!...
Fado cruel... mentira!... Homero pede pão!

III

Mas ai! volvei, Senhora, os vossos belos olhos...



Como se vê no trecho aí do poema  Poesia e Mendicidade, publicado no livro Espumas Flutuantes (1870), tema algum escapou da visão aguçada e privilegiada de Castro Alves. Falou e escreveu tudo que lhe vinha à mente. Escreveu sobre sol, lua, céu, estrelas, flor, justiça, Deus, natureza, amor, paixão, liberdade, liberdade, liberdade... Também não deixou de referir-se nos seus textos a nomes consagrados na literatura universal como Victor Hugo, Dante, Camões e Homero. 

O autor de Os Escravos conheceu de perto José de Alencar e o bruxo Machado de Assis.

Castro Alves não foi vítima da seca ou de qualquer outra catástrofe natural, mas entendia perfeitamente as mazelas do tempo.

As desgraceiras da vida ocorrem em todo e qualquer lugar, mas parece que Deus escolheu o Nordeste brasileiro para testar a força e a paciência do povo que vive lá.

As três maiores secas ocorridas no Brasil até hoje ocuparam espaço violento e fatal no Ceará de José de Alencar. Essas catástrofes tiveram lugar nos calendários de 1877, 1915 e 1932.

A seca de 1877 durou até 1879, deixando mais de meio milhão de mortos. 

Essa primeira grande seca, que durou três anos, passou incrivelmente despercebida pelos poderosos de plantão daquele tempo. Entre esses e mais aqueles se achavam intelectuais e políticos do porte de José Martiniano de Alencar. À época, o autor de O Sertanejo, livro publicado em 1875, não dava bola para os miseráveis da vida. 

Jornais da Corte começaram a dar uma nota aqui e outra acolá sobre o que acontecia no Ceará a partir do momento em que um cara de nome José do Patrocínio (1854-1905) arrumou as malas e decidido partiu rumo ao local para cobrir, jornalisticamente, a tragédia que caía sobre os cearenses. Essa viagem deu-se no dia 10 de maio de 1878. Alguns colegas seus, de jornal, chegaram a ironizar sua ida à região, dizendo algo como "não vá morrer de fome por lá, hein?".

Patrocínio retornou são e salvo ao Rio, nem mais magro nem mais gordo, no dia 12 de agosto do trágico ano de 1878. Mais triste, é verdade.

No geral, deve ser dito que os textos de Patrocínio chamaram a atenção dos leitores que mais e mais pareciam ter interesse ou curiosidade do que se passava na terra de Alencar.

No jornal Gazeta de Notícias, RJ, os textos de Patrocínio ganhavam destaque na 1a. página sob o título Viagem ao Norte, por ele mesmo assinada.

Destaque também ganhavam os textos e fotos que Patrocínio enviava para o semanário anarquista O Besouro, criado e editado pelo chargista de origem portuguesa Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905). 

As duas primeiras fotos, de uma série de 14, foram publicadas na edição do dia 20 de julho de 1878. Chocantes. 

Essas fotos podem ser classificadas hoje como fotorreportagens do repórter fotográfico Joaquim Antônio Correia ou J. Correia. Detalhe: à época, as expressões  fotorreportagem  e repórter fotográfico ainda não existiam.

Depois de tudo, em 1879, José do Patrocínio pôs à praça o livro Os Retirantes. Arrepia. Personagens masculinas e femininas movimentam-se como podem e até morrendo à míngua. É romance. Entre as personagens desse livro, achavam-se crianças e idosos. Mulheres, muitas delas ainda na flor da idade, entregavam seus corpos por migalhas oferecidas por canalhas, como o padreco sem escrúpulos denominado Paula.

No livro de Patrocínio, o pai de uma das jovens vítimas da seca, Rogério Monte, acaba morrendo doente e cego. A essa altura, a sua família já estava destroçada. 

Cenas igualmente violentas são narradas no livro de poucas páginas, mas denso, intitulado Violação (1898). O autor foi o baiano radicado no Ceará Rodolfo Teófilo (1853-1932).

Teófilo era farmacêutico de formação, como coincidentemente o fluminense José do Patrocínio. 

Sem dúvida, esses são dois dos grandes heróis do Brasil. 

Cá pra nós, considero também Joaquim Maria Machado de Assis um herói. Das letras, pelo menos. 

E coincidência por coincidência, não será impróprio dizer que Castro Alves estreou na literatura com 15 anos de idade, mesma idade em que estreou em jornal o bruxo do Cosme Velho. 

O poema de estreia de Castro Alves foi A Destruição de Jerusalém




quarta-feira, 22 de julho de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (50)

No Brasil houve sempre pessoas que acreditaram nas pessoas e na liberdade necessária para a sobrevivência do bem comum. 
Entre pessoas que sempre acreditaram nas outras houve aquelas que desenvolveram o bem viver pelo caminho das artes, caminhos esses sempre tornados fonte do livre pensar e agir. 
Bom, o Brasil foi durante muito tempo quintal dos invasores europeus. Mas a liberdade sempre foi objetivo e esperança de artistas da palavra como Gregório de Matos e Guerra (1636-1696).
Esse Guerra sempre foi da paz e usou as palavras como arma e divertimento. 
O tempo passou e guerras várias com derramamento de sangue ocorreram de canto a canto do território nacional. 
Como Gregório de Matos, na Bahia também nasceu Antônio Frederico de Castro Alves. 
Castro Alves muito cedo viu nas letras o caminho da liberdade. E gritou: "A praça é do povo como o céu é do condor".
Como Gregório e Castro Alves, o baiano  de Itabuna Jorge Leal Amado de Faria via na liberdade o caminho natural da vida.
Toda a obra literária de Jorge Amado traz a luta do povo contra as injustiças sociais. Independentemente de cor e sexo, Jorge exalta a força e a coragem dos personagens que vão se movimentando nas páginas dos seus livros. 
Não são poucos ou poucas os heróis e heroínas que ganham forma e força nas histórias de Jorge Amado. Tereza Batista é, por exemplo, personagem capaz de encantar o mais frio dos leitores. 
E o que dizer de Gabriela e de Tieta do Agreste?
Centenas de personagens anônimos, para dizer o mínimo, pululam nos capítulos das dezenas de romances de Jorge Amado. Entre esses, são incontáveis os cegos tocadores de viola que cantam nas feiras livres do Nordeste profundo. 
No romance Seara Vermelha (1946) aparece de raspão um certo Cosme. Esse Cosme, cego de um olho, está noivo de uma Teresa. Sonham, almejam a felicidade com o matrimônio. Casamento marcado, casamento realizado. Porém, um porém: uma bidu, adivinhona de plantão, diz que má notícia está chegando. 
E a história começa por aí. 
A má notícia chega numa carta selada. O conteúdo, escrito pelo dono das terras onde mora o casal e outros agregados igualmente explorados, dá conta de que todos que ali vivem devem ser postos no olho cego da rua.
A determinação contida na carta é cumprida à risca. E a partir daí, as pobres personagens lançam-se à própria sorte, subindo e descendo ladeira com a barriga vazia e a morte à espreita como maligna companhia. E as crianças vão morrendo de fome, de tifo e outros males como a menininha Noca que carrega consigo o tempo todo a gatinha Marisca.
A história de Marisca lembra um pouco a história do papagaio que acompanha a fuga da seca de uma família nordestina narrada pelo alagoano Graciliano Ramos no seu clássico Vidas Secas(1938).
Há um momento em Seara Vermelha que remete o bom leitor ao romance Lucíola (1862) do romântico cearense José de Alencar. Nesse livro, a personagem título prostitui-se para salvar a família de uma epidemia que grassava no tempo em que a história é contada. 
Ao tomar conhecimento do que fizera a filha, o pai a expulsa de casa. E é a partir daí que Lucíola vira mulher-dama. 
Na história de Amado acontece em parte com a personagem Marta, o que acontece com Lucíola. 
Marta para conseguir documento que salvaria o pai Jerônimo, rende-se à calhordice do médico e assim acaba por obter o que almejava. Ao saber disso, o pai a expulsa e aos gritos diz que nunca mais quer vê-la.
O fim de Marta é num cabaré, doente e pobre. 
Seara Vermelha é um livro no qual o autor expõe-se completamente como romancista engajado. Começa com a dedicatória que faz a Luís Carlos Prestes (1898-1990) e a João Amazonas (1912-2002).
Jorge Amado, não custa lembrar, identificava-se plenamente com Castro Alves. Tanto que em 1941 lançou à praça ABC de Castro Alves. É uma biografia supimpa. 
O título Seara Vermelha foi extraído do poema Bandido Negro, de Castro Alves. Esse poema foi  publicado no livro póstumo Os Escravos (1883). Um trecho:

Trema a terra de susto aterrada...
Minha égua veloz, desgrenhada,
Negra, escura nas lapas voou.
Trema o céu... ó ruína! ó desgraça!
Porque o negro bandido é quem passa,
Porque o negro bandido bradou:

Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

Castro Alves morreu de tuberculose com 24 anos, três semanas e um dia, em 1871. 

sábado, 18 de julho de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (49)

Guerra por guerra ou isso mesmo no plural, há registro na história dando conta de que algumas centenas de soldados franceses foram obrigados a voltar para casa com olhos cegos. A luta de que participaram teve lugar no Egito do século 13, ali pelo ano de 1254. Foram cegados pelos sarracenos. A partir daí, o rei Luís IX (2014-1270) criou o que se pode considerar a primeira entidade construída especialmente para o acolhimento de soldados cegados em batalhas e civis em geral.

Luís IX é visto pela história como um rei honesto e justo. Três décadas depois da sua morte, foi canonizado e virou santo no pontificado de Bonifácio VIII. Curiosidade: esse rei acabaria por dar nome à cidade brasileira de São Luís do Maranhão. 
Muitas outras coisas doidas foram registradas nas páginas da história. 
Obviedades à parte, não é demais lembrar que foi no século 13 que grandes descalabros passaram a ser cometidos por poderosos malucos da Igreja Católica.  Não foram poucas as vítimas que sucumbiram envoltas nas redes da Inquisição. 
Alguns dos representantes do maldito Santo Ofício andaram com olhos grandes e mal intencionados pelo solo brasileiro visitando algumas das principais regiões do nosso país, como Nordeste e Sudeste. 
Essa história marcou época e registro no romance brasileiro. 
Alguns dos nossos grandes escritores criaram personagens que os inquisidores agradeceriam ao Diabo caso tivessem tido a oportunidade de pegá-los.
Antes de Jorge Amado carregar nas páginas dos seus livros personagens portadoras de dons como feitiço, outro baiano antecipou-se. Seu nome: Francisco Xavier Ferreira Marques (1861-1942).
Esse Francisco, nascido na Ilha de Itaparica, assinava suas obras simplesmente como Xavier Marques. É dele, por exemplo, o romance O Feiticeiro (1922).
Em 1871 o escritor cearense José de Alencar levou à praça O Tronco do Ipê. O primeiro capítulo desse livro começa sob o título O Feiticeiro. 
O feiticeiro de Alencar é, como pode-se dizer, do bem. Chama-se Pai Benedito, africano octogenário há muito vivendo num casebre localizado nas imediações de uma espécie de lagoa brava e encantada. 
O enredo traçado por José de Alencar lembra um pouco da trama desenvolvida no segundo romance da carreira bem sucedida de Jorge Amado: Cacau (1933). Nesse livro,  o personagem Sergipano vê-se obrigado a trocar a terra onde nasceu por outra onde julgava viver melhor. Isso porque o pai ao morrer teve todos os bens usurpados pelo irmão, deixando-o à mingua junto com a mãe e uma irmã. Foi para a Bahia, mas lá deu tudo errado. Poderia ter sido o contrário, caso aceitasse a proposta espúrias da filha do patrão. Prepotente e sem escrúpulo, essa mulher ao topar com um cego na rua atirou-lhe uma moeda como alguém que cospe na cara de alguém. O gesto transtornou Sergipano. 
O preto velho de O Tronco do Ipê guarda consigo muitos segredos. Um desses segredos vem à tona quando o personagem Mário salva de afogamento a menina Alice, filha do dono da fazenda onde esse personagem passou a morar após a morte do pai, José Figueira.
O Tronco do Ipê é cheio de muito amor, ódio e feitiço. 
A rigor,  bem a rigor,  o cacau entra como riqueza na obra de Amado a partir de 1933.
Em 1931, Jorge Amado estreou na literatura com o romance O País do Carnaval. Nesse livro o autor mostra com clareza com que olhos passaria a ver a vida operária do nosso povo. Até o velho barbudo Marx é citado por um dos personagens. Prostíbulos e mulheres ditas da vida se acham no decorrer das páginas. 
Um dos personagens mais marcantes do livro é o jornalista Pedro Ticiano, esquerdista de atuação extremada, em cujos textos publicados no jornal que dirigia não poupava figurões da elite do seu tempo. O fim do enredo tem um quê de nostalgia: Ticiano acaba morrendo cego na casa de um filho. 
Exatos trinta anos depois de lançado O País do Carnaval, Jorge Amado ganha cadeira na Academia Brasileira de Letras. 

terça-feira, 14 de julho de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (48)

São frequentes as pesquisas que resultam em calhamaços estatísticos. O primeiro censo demográfico no Brasil foi feito no começo da segunda parte do século 19 a partir do Rio de Janeiro, ainda sede da governança portuguesa. O total chegou à casa de 10 milhões de homens e mulheres.

Grande parte da população, oficialmente bem contada, era constituída de pessoas escravizadas. Entre essas, crianças e adolescentes. 
A prostituição feminina, do tempo aqui lembrado, era prática comum. Os estupros também. 
Num dos seus livros, Jubiabá (1935), o escritor Jorge Amado põe na boca de uma personagem a fala dando conta de que os senhores fazendeiros chegavam a forçar seus escravos a engravidar as escravas o maior número de vezes possível.
Pesquisas pouco comuns, pelo menos no Brasil, são as que se referem à cegueira física entre a população. 
Os últimos dados colhidos pelo IBGE datam, oficialmente, do ano de 2022.
Sobre brasileiros com deficiência visual, o IBGE apurou que 7,9 milhões de pessoas com 2 anos ou mais de idade tinham dificuldade permanente para enxergar.        
No Brasil há muitas entidades direcionadas ao atendimento de pessoas portadoras de deficiências visuais. Uma dessas, a Fundação Dorina Nowill para Cegos,  também dá conta de que há no território nacional  mais de 6 milhões de pessoas com deficiência visual severa.
Essa entidade foi criada em 11 de março de 1946.
A OMS, Organização Mundial de Saúde, divulga números que se aproximam de 2 bilhões de pessoas completa ou parcialmente cegas.
E assim vai a vida e com ela nós.
As guerras se multiplicam, pipocando aqui e acolá. 
O feiticeiro francês Michel Nostradamus (1503-1566) era descendente de família judaica e por pouco escapou da ira dos inquisidores. Casou-se e foi pai de oito filhos. 
Em 1555, Nostradamus previu a morte de Henrique II, rei de França, e suas circunstâncias. Esse rei morreria quatro anos depois dessa previsão. 
Henrique II foi atingido pelos fragmentos de uma lança que  perfuraram a viseira do capacete, durante uma festa com demonstração de coragem. O cavaleiro que o atingiu fazia parte de sua guarda, Gabriel de Montgomery. Era mais jovem. Os estilhaços atingiram o olho e a têmpora do rei, resultando em duas feridas que se tornaram uma.
As previsões do notório francês foram escritas em quadras e em línguas diversas, o que possibilita as mais diferentes interpretações. 

O leão jovem vencerá o mais velho,
No campo de batalha em combate singular;
Na gaiola de ouro seus olhos perfurará, 
Dois ferimentos um, depois morrer, morte cruel.

Especialistas  debitam a Nostradamus a previsão da Queda da Bastilha (1789), a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o surgimento de Hitler e a consequente Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e tantas e tantas.
Caso fossem levadas rigorosamente a sério, as previsões de Nostradamus teriam sido sentidas por toda a humanidade. Pois, segundo elas, este nosso mundinho de coisa nenhuma teria chegado ao fim com as guerras no Oriente Médio em 2023.
E não custa lembrar que exércitos de Israel e Irã têm o péssimo hábito de ensinar a seus soldados a atirar nos olhos dos inimigos. 


quarta-feira, 8 de julho de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (47)

As desgraças do mundo foram tantas que  quase desnecessário é dizer que já não cabem no balaio do passado. E por não caberem completamente nesse balaio, dificilmente caberão no espaço do presente que vivemos.

E as desgraceiras do futuro, hein?
Antes da cegueira dos olhos, a humanidade quase toda sempre foi cega. Metaforicamente falando, claro. Claríssimo, não é mesmo?
A história conta das pequenas e grandes guerras provocadas pela estupidez humana. 
Pois é, a história se repete.
Na Antiguidade as pessoas portadoras de qualquer tipo de deficiência eram descartadas do meio social já logo ao nascer.
Essas pessoas já não são mais eliminadas como nos tempos de antanho, mas ainda assim comem o pão que o Diabo amassa e torra nos fornos do Inferno. 
As pessoas cegas hoje somam-se aos milhões mundo afora. E grave, mas gravíssimo mesmo, é sabermos dos números absurdos referentes às pessoas desprovidas de visão nos olhos que são violentadas de todas as formas no dia a dia cachorro que vivemos. 
Saber que crianças cegas são violentadas física e sexualmente no seio familiar, mais das vezes, é nos deixar de crer no próximo, não é?
Tereza Batista Cansada de Guerra (1972), romance de Jorge Amado (1912-2001), começa de modo a nos sangrar o coração.
A Tereza do Jorge, órfã de pai e mãe aos 8 anos, é vendida pela tia Felipa ao capitão canalha Justiniano Duarte da Rosa. Esse tal é um pedófilo que deveria ter nascido morto. Rico e violento, compra meninas na flor da idade com o propósito de deflorá-las. E isso o faz dezenas e dezenas de vezes, impunemente. Mas seus dias estão contados, desde o momento que ele faz o que faz com a pequena Tereza, no tempo dos seus 12 anos de idade.
Até conseguir violentar a menina Tereza, apanha dela e quase sai cego, depois de atingido por suas unhas cravadas no rosto. 
Enfim, dias contados...
Tereza finda por matar o seu algoz com uma bem dada facada nas costas, enquanto ele a esbofeteava.
Enfim, a vida passa que nem uva e como espinhoso cacto, duro, Tereza transforma-se numa espécie de heroína das mulheres até então desvalidas como ela. Briguenta que só!
Muitos livros do bom baiano Jorge Amado têm a mulher como heroína.
As heroínas de Jorge vêm sempre dos cafundós do Judas. Das quebradas, do bem longe que nem os olhos veem.
Dentre os livros com heroínas do Jorge destaque para, além da aqui já citada Tereza, Gabriela (1958), Dona Flor (1966) e Bernarda de Tocaia Grande (1984).
Claro, há também grandes heróis criados por Jorge. Entre esses, Joaquim, de A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água (1959).
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgou dados em 2025 dando conta de que em 2024 o Brasil bateu triste recorde de 87.545 estupros: 77% das vítimas tinham menos de 14 anos e 88% das vítimas eram do sexo feminino. 
Os romances de Jorge Amado quase sempre mostram as vivências do povo do Nordeste, especialmente da Bahia e Sergipe. 
A citação a sergipanos e sergipanas deve-se certamente ao fato de o autor ter morado em Sergipe nos seus tempos de rapaz. 
O machismo corre solto em Tocaia Grande, Dona Flor, Gabriela...
Gabriela Cravo e Canela começa com um duplo homicídio. O autor é traído pela mulher com um dentista. Os dois morrem na hora.
Pois é, não é só na literatura que o machismo encontra espaço. 
Em 2024 registraram-se, no Brasil, 1.492 feminicídios e 3.870 tentativas de feminicídio.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (46)


A onda de cristãos-novos começou na última década do século 15 em Portugal, quando o rei D. Manuel I determinou que judeus e muçulmanos assumissem a fé católica. 

O Brasil foi um dos países mais procurados pelos novos cristãos, que aqui desejavam retomar a vida que viviam especialmente em Portugal e Espanha. Mas nem tudo ocorreu como queriam.
Centenas de cristãos-novos foram do Brasil levados para Portugal onde tiveram seu fim.
Há casos curiosos e até legendários referidos na nossa história, como o que trata de Branca Dias.
Branca, dizem alguns, nasceu em Portugal e viveu entre Pernambuco e Paraíba. Era detentora de muitos bens e esse detalhe deixava os inquisidores de olhos arregalados de tanta cobiça.
Há quem diga que Branca era brasileira e acabou-se em 1761, ardendo numa fogueira. 
A história dessa mulher é muito confusa, embora seja ampla a literatura a seu respeito em Portugal e no Brasil. 
O dramaturgo baiano Dias Gomes (1922-1999) escreveu, sem compromisso com a história, a peça O Santo Inquérito (1966). Ótima. A personagem central é Branca Dias.
Não há referência direta à eventual cegueira física de Branca, mas são muitas e muitas as referências figuradas ou metafóricas de quem nada enxergava da selvageria praticada pelos criminosos do Santo Ofício. Aliás, é história, os inquisidores prendiam e torturavam suas vítimas de todas as formas. Havia até um instrumento especial para cegar pessoas. 
O escritor e poeta Edgar Allan Poe andou pondo no papel suas impressões sobre o tema cá em questão. Vale a pena ler ou reler o conto O Poço e o Pêndulo, de 1842.
Bom, voltando a Branca Dias: o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) publicou texto de rara beleza incluído no livro Discurso de Primavera e Algumas Sombras (1978), enaltecendo essa controvertida personagem.  Este:

Branca Dias
paixão de frade
em seu engenho
da Paraíba
repele o amor
pecaminoso.
O amor se vinga:
é acusada
de judaísmo.
Já vão prendê-la.
Atira joias
e prataria
na correnteza.
A água vira
Riacho da Prata.
Morre queimada
no santo lume
da Inquisição
em Portugal.
Reaparece
na Paraíba
em Pernambuco
sob o luar
toda de branco
sandálias brancas
cinto azul-ouro.
Branca Dias
— garantem livros —
nunca existiu,
é lenda pura
de lua cheia.
E a Inquisição
provavelmente
outra ilusão.

Não foram poucos os literatos brasileiros que se debruçaram sobre o tema judeus e cristãos-novos.
Machado de Assis, uma das nossas glórias literárias, não deixou por menos. No seu livro Americanas (1875), de poesias, se acha a pérola que intitulou A Cristã-Nova. Um trecho:

....

Quatro vultos na câmara paterna

Eram. O pai sentado,

Calado e triste. Reclinada a fronte

No espaldar da cadeira, a filha os olhos

E o rosto esconde, mas tremor contínuo

De um abafado soluçar o esbelto

Corpo lhe agita. Nuno aos dois se chega;

Ia a falar, quando a formosa virgem,

Os lacrimosos olhos levantando,

Um grito solta do íntimo do peito

E se lhe prostra aos pés: “Oh! vivo, és vivo!

Inda bem... Mas o céu, que por nós vela,

Aqui te envia... Salva-o tu, se podes,

Salva meu pobre pai!” Estremecendo

Nela e no velho fita Nuno os olhos,

E agitado pergunta: “Qual ousado

Braço lhe ameaça a vida?” Cavernosa

Uma voz lhe responde: “O santo ofício!”

Volve o mancebo o rosto

E o merencório aspecto

De dois familiares todo o sangue

Nas veias lhe gelou...

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