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sábado, 29 de agosto de 2026

HUMOR E CRÍTICA EM PIRACICABA


Fausto é um dos mais inspirados e importantes cartunistas do Brasil. Começou a carreira em 1974. 
Em 1974 o Brasil vivia sob coices e pontapés dos milicos embotinados. Isto é, vivíamos os primeiros dez anos da violenta escuridão sobre nós desabada. Essa escuridão, violenta e sangrenta deixou profundas marcas na alma do povo do Brasil. 
A população brasileira em 1974 era de 100,5 milhões. 
Durante os 21 anos da ditadura militar que sofremos, muitos trabalhadores e operários das letras foram implacavelmente perseguidos, presos, torturados e mortos. Quem teve sorte, alguma sorte, foi exilado como o educador pernambucano Paulo Freire (1921-1997).
Tive o prazer de conhecer de perto Freire. 
No dia 26 de agosto de 1974 foi inaugurada a primeira edição do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, SP.
Muita gente boa do cartum e da HQ foi revelada. Entre esses craques, Laerte.
O Salão de Humor de Piracicaba teve entre seus principais incentivadores Millôr Fernandes, Ziraldo, Jaguar e o maranhense de São Luís Reginaldo José de Azevedo Fortuna (1931-1994).
Conheci Fortuna na Folha. Trabalhamos lado a lado na redação do Folhetim. O ano era 1978. Tomamos muita água de coco e nas nossas conversas tentamos ajeitar politicamente o Brasil, mas não deu. 
Um dos seus livros é dedicado a mim. Ele editou livro meu com ilustração do Jaguar. Título: O Coronel e a Borboleta e outras Histórias Nordestinas (1992), lançado lá no Salão. 
Há muita coisa bonita na vida do grande profissional do cartum que foi Fortuna. 
Hoje, 29 de agosto, foi aberto ao público o 53° Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Esse é no gênero, o salão mais antigo do mundo. Nunca falhou um ano sequer, desde 1974.
Em 1995, os organizadores desse Salão  criaram a Medalha Reginaldo Fortuna. Ele, certamente, iria achar graça nisso.
Fausto está participando de uma belíssima exposição promovida pelo Salão, que foi criado para criticar o estado de exceção que o Brasil vivia à época. 
Eu, se fosse você, iria correndo com amigos para ver a obra de Fausto e de seus amigos de traço.





O CEGO NA HISTÓRIA (59)

 


_ Puxa, Assis, gostei. O Cego Sinfrônio existiu mesmo ou é invenção de algum cordelista?
_ Sim, existiu. E tinha uma memória incrível, tanto que guardava com facilidade na cachola embates pra ninguém botar defeito. O embate a que se refere Cascudo, Rodrigues e Mota chegou até aqui por Sinfrônio tê-lo guardado na memória. 
_ Guardava tudo mesmo ou ele aqui e acolá inventava alguma coisa?
_ É possível, é possível. 
_ Mais uma coisinha, Assis. Bom, o Sinfrônio relata como ocorreu o encontro poético entre Jerônimo e Zefinha. A Zefinha é muito bem descrita pelo Jerônimo. Não seria o caso de ela mostrar como era ele?
_ Sim, Flor Maria, você tem razão. Vamos lá: 

Ella ahi me arrespondeu 
Largando de rijo a taca: 
Gerome, tú tás doente,
Toma purga de jalapa,
Quebra o ovo e bebe a gemma 
Que tú dessa não escapa...

— Senhora Dona Zefinha,
Eu sou moleque teimoso,
Sou pobre, dou-me a respeito, 
Sou preto, porém mimoso...
Vou lhe dá um enxarope 
De nove pau amargoso:
Parreira com manacá,
Gordião com fedegoso,
Milome com cabacinha, 
Melão-caetano verdoso,
Pereiro com quina-quina,
São nove pau rigoroso...
Tudo isso é bom remedio 
P’ra quem soffre de nervoso...

— Gerome, eu tou conhecendo 
Que você sabe cantá...
Você sabe e eu também sei: 
Temo nós que desbulhá,
Temo nós que picá fumo,
Daqui p'r'a barra quebrá.

— Desgraçada da cantora 
Que eu lhe ganhá na batida...
Si eu não pegá no descanço, 
Pego sempre na drumida;
Boto laço nas verêda,
Boto tinguí na bebida:
Você me paga o que deve 
Ou um de nós perde a vida!

— Eu canto no mansidão;
Mas quando eu mudo o rotêro, 
Tocó touro marruá,
Dou em gallo campinêro,
Açoito pirú de roda 
Quando chega em meu terrêro.

— Zefinha, quando eu me assanho, 
Sou gado do Piôhy...
Sou estreito como ganga,

Estiro: sou sarnambi...
Cheiro mais do que extracto, 
Fêdo mais do que tipi,
Queimo que nem cansansão, 
Travo mais do que oiti,
Amargo mais do que fel,
Mato mais do que tingui...

— Vou fazê-lhe uma pergunta 
P'r'o senhô me respostá:
Como é que a moça foge 
Sem ella querê casá?

— Senhora Dona Zefinha,
Eu posso lhe ispilicá:
É o home que se casa 
P’ra despois enviuvá;
A muié deixou dois fío,
Elie torna a se casá;
A madrasta de judia 
Bate o aço a judiá;
Um dia, vão a um passeio,
Entréte o dia por lá;
Os menino fica em casa 
Logo pega a conversá: 
«Maninha, nós temo vó 
0 Que podia nos criá,
P’ra botá nós numa escola, 
P’ra nos mandá ensiná;
Vive-se aqui nesta casa 
Morrendo só de apanhá, 
Dormindo só pelo chão,
Sem tê onde se deitá...
A moça pensou naquillo,
Fox p’ra dentro se arrumá, 
Foi-se emboi-a mais o mano: 
Fugiu sem. querê casá...

— É isso mesmo, Gerome,
O sinhô sabe cantá:
Qual foi o bruto no mundo 
Que aprendeu a falá,
Morreu chamando Jesus 
Mas não poude se salvá?!...

— Isso nunca foi pergunta 
Pra ninguém me perguntá:
Foi o papagaio dum véio 
Que elle ensinou a falá: 
Morreu chamando Jesus 
Mas não poude se salvá...

— Pois eu agora, Gerome, 
Numa pergunta lhe enterro: 
Quero que Você me diga
O que é mais duro que ferro.

— Zefinha, tua pergunta
  Ê besta já por demais:
O que é mais duro que ferro 
E nenhum ferreiro faz 
É a palavra do home,
Inda que seja um rapaz:
Trinca o ferro e se arrebenta,
O home não volta atraz!

— Gerome, tú pra cantá 
Fizesses pauta c’o cão...

_ Pois bem, aí está. Pelo menos parte do que se acha no relato popular. 
_ Agora uma provocaçãozinha: você seria capaz de improvisar umas quadrinhas sobre Zefinha?
_ Hiiii.... Vou tentar, assim:

Era bom testemunhar
Zefinha do Chabocão 
Derrubando cantador 
Metido a valentão 

Fez isso muitas vezes
Sem se quer pestanejar
De tudo que mais gostava
Era à viola cantar

Eu vi com os meus olhos
Cego Sinfrônio penar
Na unha de Nha Zefinha 
Catando verso sem achar


_ Muito bem, seu Assis. Gostei de ver você pondo as zuinhas pra fora.
_ Tá bom, tá bom. Obrigado e inté!

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