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segunda-feira, 7 de novembro de 2022

PAÍS DE SANFONEIRO. VIVA CHIQUINHO DO ACORDEON!

O Brasil é um país com grande predominância de sanfoneiros, de Sul a Nordeste, de Sudeste a Centro-Oeste. No Sul nasceu Romeo Seibel chamado de Chiquinho do Acordeon, contemporâneo de Pedro Raymundo. E muitos e muitos mais, Teixeirinha inclusive. E Gaúcho da Fronteira, mais recentemente. Sem falar no pioneiro Moisés Mandadori.
O Nordeste deu Luiz Gonzaga e, antes dele, o pai Januário. E Dominguinhos. E antes, Sivuca. Sem falar em Pinto do Acordeon e do baiano Pedro Sertanejo, pai do carioca Oswaldinho do Acordeon. E por aí vai.
Chiquinho do Acordeon marcou época depois que trocou sua cidade, Santa Cruz do Sul, pelo Rio de Janeiro em 1949. Tinha 21 anos de idade, à época. O primeiro disco que gravou foi um de 78RPM, com os chorinhos Casca Grossa e Sereno. Fez-se acompanhar do Regional de Claudionor Cruz. Passados dois anos, juntou-se aos grandes violonistas Garoto e Fafá Lemos. O resultado foi a formação do Trio Surdina. Esse Trio gravou belas músicas de Ary Barroso e Dorival Caymmi.
Após centenas de gravações em estúdio, acompanhando outros artistas, Chiquinho andou pela Itália, França, Portugal, Inglaterra e outros países, integrando a III Caravana de Artistas criada pelo cearense Humberto Teixeira, ao tempo que era deputado federal.
Em 1989, Chiquinho do Acordeon tomou para si a responsabilidade de fazer o arranjo daquele que seria o último LP do rei do baião Luiz Gonzaga, Aquarela Nordestina. Esse disco foi à praça através da extinta gravadora Copacabana. Curiosidade: todas as faixas desse LP, traz o som mágico da sanfona de Chiquinho e não de Gonzaga, como todo mundo pensa.
Eu não me lembro direito em qual emissora me achava, mas lembro que Dominguinhos telefonou para mim dando a triste notícia do passamento de Romeo Seibel, o Chiquinho. Isso foi no dia 13 de fevereiro de 1993.
Chiquinho nasceu no dia 7 de novembro de 1928.
Vamos ouvir o LP Aquarela Nordestina?

domingo, 6 de novembro de 2022

HÁ 120 ANOS NASCIA CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

"Democracia é a forma de governo em que o povo imagina estar no poder".
A frase aí é do jornalista, contista, cronista e poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade.
Drummond, que nasceu no dia 31 de outubro de 1902, deixou uma obra de grande importância para a cultura literária brasileira. Preocupava-se com as questões sociais do seu tempo e não omitia-se nas questões de cunho político. Mesmo sem disputar nenhum cargo eletivo, tinha ampla visão sobre o que ocorria na Câmara e no Senado. E nas ruas. Em todo canto. Foi, aliás, chefe de gabinete do deputado Gustavo Capanema (1900-1986).
Capanema, que era mineiro como Drummond, foi o primeiro e mais longevo ministro da Educação (e Saúde Pública).
No livro Rosa do Povo (1945) Drummond aponta em versos os problemas reais que o Brasil vivia à época, incluindo os reflexos da 2ª Guerra Mundial.
O crítico austríaco Otto Maria Carpeaux (1900-1978), amigo do romancista surrealista Franz Kafka (1883-1924), classificou Drummond como “o poeta público”.
O primeiro livro de Carlos Drummond, Alguma Poesia, foi lançado à praça em 1930 por iniciativa dele próprio que bancou os custos editoriais para uma tiragem de apenas 500 exemplares. Fez o mesmo que fizera, em 1912, o paraibano Augusto dos Anjos.
Eu, de Augusto, teve tiragem igual ou inferior ao livro de Drummond.
Drummond é por muita gente considerado um modernista.
Em 1922, Carlos Drummond de Andrade tinha 20 anos e alguns textos publicados no jornal Diário de Minas, do qual seria redator chefe. Entre esses textos os contos se achavam Rosarita (1919) e Joaquim do Telhado (1922). Não eram grandes coisas.
 

 
Os seus primeiros e mais conhecidos poemas são No Meio do Caminho e Quadrilha.
No Meio do Caminho, publicado pela primeira vez na Revista de Antropofagia, ano 1 nº 03, SP, é este:

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.


Particularmente, eu gosto muito da obra de Carlos Drummond. Acho fundamental, pra quem gosta do que é bom, o texto De Notícias e Não Notícias Face a Crônicas. Esse texto eu o li por volta de 1975. Está no livro Reunião, cuja primeira edição data de 1969.
Também de extremo bom gosto é o poema A Máquina do Mundo, que se acha no livro Claro Enigma (1951), inspirado no último dos dez Cantos do épico camoneano Os Lusíadas (1572).
Drummond foi um autor múltiplo, de textos encantadores. Na poesia, nem sempre seguia a métrica. Gostava de versos livres, brancos. Era um prosador poético. Eu o entrevistei num dia qualquer de dezembro de 1979. O texto foi inserido numa edição especial do extinto suplemento Folhetim, do paulistano Folha de S.Paulo, que punha em discussão a literatura brasileira da década de 70. Saiu no dia 13 de janeiro de 1980.
Comecei falando da visão social e política que o mineiro Drummond tinha. Falei da sua passagem pelo gabinete de Capanema (governo Vargas; 1930 - 1945). Esqueci de dizer, porém, que ele teve uma passagem rápida pelas fileiras do Comunismo, cooptado que foi pelo Cavaleiro da Esperança, Luís Carlos Prestes.
Lembro que perguntei a Drummond o que achava do Partido dos Trabalhadores, PT, que estava se formando. E ele: "Homem de partido é partido".
Uma vez no Pasquim saiu matéria dando conta de que Lula resolvera ler o poeta. Título: Estamos Salvos! Lula vai ler Drummond.
E não custa dizer: vários poemas de Drummond foram musicados e como tais gravados em disco. Num desses o clássico José na voz do pernambucano Paulo Diniz. A gravação original foi lançada em 1972, há exatamente 50 anos.
 

No ano do centenário de nascimento de Drummond foi inaugurado, em Copacabana, um monumento em sua homenagem. Em bronze. Os óculos que ilustram o monumento já foi roubado 13 vezes. A última em abril deste ano de 2022.
Carlos Drummond de Andrade morreu no dia 17 de agosto de 1987, no Rio.

Foto e reproduções por Flor Maria e Anna da Hora.
Colagem do cartunista Fausto Bergocce.

sábado, 5 de novembro de 2022

EU E MEUS BOTÕES (52)

Barrica entra nervoso carregando um jornal na mão, lendo quase gritando: "O ministro Luís Roberto Barroso, do STF, foi hostilizado e acuado num restaurante por bolsonaristas enfurecidos na cidade de Porto Belo, em Santa Catarina...".
"Chega! Chega! Chega, Barrica! Essa confusão aí aconteceu quinta dia 3 passado", interrompeu por sua vez o botão Biu, irmão de Barrica. "O negócio tá feio, feio mesmo! No dia 30, dia da eleição, uma criança de 7 anos por pouco não morreu sufocada por um bolsonarista desclassificado", contou ainda tenso o botão Jão. "É, a coisa tá feia. O menino aí chegou a desmaiar e a ser levado às pressas para o hospital. Felizmente escapou, mas é coisa que não pode acontecer no nosso País", acrescentou o botão alagoano Zé.
"E em Jundiaí, hein?", perguntou contrariado Zoião.
"Em Jundiaí, estudantes foram atacados quinta passada por uns desocupados que fazem de Bolsonaro o seu deus", disse Mané.
Lá no seu canto, quieto, Zilidoro parecia matutar. Devagar, levantou-se. E com ar professoral, quase medindo as palavras, externou: "O Brasil escolheu Lula para nos governar. Lula chega e pega o nosso País esculhambado, ferido, respirando via tubos hospitalares. Mas, depois da tormenta, vem a calmaria. A paz".
Não tive como evitar, bati palmas. Você tem razão e a sua razão é a esperança que todos nós temos por um Brasil melhor. O Brasil vai melhorar sim! Sabemos que não vai ser fácil. É triste vermos brasileiros e brasileiras com opinião desbotada, sem rumo, sem fé... "São pessoas, seu Assis, que sofreram uma espécie de lavagem cerebral. Lembra do dito Maria-vai-com-as-outras?", disse Barrica.
Estou sentindo falta de alguém aqui. Onde anda Lampa?
"Lampa está no hospital desde a semana passada", informou Zilidoro. E eu: Mas por quê? O que foi que houve?
"Lembra, seu Assis, que quinta 27 o Lampa chegou aqui todo esbaforido chutando a porta e perguntando se aqui havia macho?", perguntou Zilidoro com ar de preocupação. E eu: Hmmm... Lembro. E ele: "Pois bem, ele chegou daquele jeito e deu-se mal: quebrou três dedos do pé direito. Além disso, ficou com a perna direita comprometida. O chute que ele deu na porta não foi brinquedo não".
"Mas ele está já completamente fora de perigo", informou Zoião com aquela cara de sei-lá-o-quê lambendo os beiços. "Lampa foi para o hospital, ficou três dias lá, recebeu alta e está em casa pagando pecado. Tem sentido muitas dores, mas comparando com a surra que levou dos bolsonaristas é fichinha", completou.
Muito bem, muito bem, é pra ele aprender a não ser tão espalhafatoso. Não é assim que devemos andar na vida. Tudo tem regra e regra tem que ser respeitada. Lula ganhou a eleição e é o novo presidente do Brasil. O Bolsonaro perdeu a eleição... "E tem mais é que ficar quieto, no seu canto, sem encher o saco de ninguém", interrompeu-me Mané. 
Bom pessoal, a boa notícia é esta que eu leio agora. Da CNN: "Rebeca Andrade conquistou, nesta quinta-feira (3), a medalha de ouro no Mundial de Ginástica, disputado em Liverpool, na Inglaterra, tendo 56.899 de nota total".
Zilidoro levantou-se, depois de pedir licença. Foi à geladeira, pegou água e bebeu. Biu e seu irmão Barrica fizeram o mesmo e dei por encerrada a nossa roda de conversa, lembrando que amanhã é outro dia.

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

TRISTE FIM DE NÃO SEI QUEM

O escritor Lima Barreto legou ao Brasil histórias incríveis publicadas ora em folhetins, ora no formato de livros.
Dentre as histórias de Barreto, destaque para Recordações do Escrivão Isaías Caminha, Triste fim de Policarpo Quaresma e Os Bruzundangas.
São histórias incríveis as histórias de Lima Barreto
Os personagens de Barreto são personagens tirados da imaginação e da vida real.
No livro Triste Fim de Policarpo Quaresma o autor misturou o real com a ficção e o resultado é uma obra-prima. Quaresma é, aparentemente, um personagem ingênuo ao extremo. Isso, ao extremo! Como funcionário público ganha pouco, vive sem luxo, com naturalidade, enfiado num sítio que comprou ao lado de uma irmã. É solteiro e tal. Politicamente é conservador e sonha com um Brasil feliz. É projeto seu trocar a língua portuguesa pelo Tupy-Guarany. Não dá.
No tempo vivido por Quaresma, que é o tempo do marechal Floriano Peixoto, muita coisa louca acontece no Rio de Janeiro. Até a Revolta da Armada, planejada e posta em prática por marinheiros insatisfeitos com os rumos do Brasil traçados por Peixoto.
As ideias de Policarpo Quaresma o levam a ser considerado louco e como louco, internado num hospício. Depois de uma temporada no hospício, o personagem volta para casa. E numa hora qualquer, insatisfeito com o levante dos marinheiros, apresenta-se ao Exército para combater os revoltosos. Mata um deles e agora é ele mesmo que se considera louco. Como se não bastasse isso, Quaresma é acusado de "traidor da Pátria". Condenado à morte, morre no fundo de uma prisão.
Hmmm...

Presidente também morre
De morte matada ou não
Lugar de quem não presta
É lá no fundo da prisão!
 
A cadeia te espera 
Presidente predador
Hoje quem foge é caça
Amanhã é caçador
 
Ingenuidade à moda de Quaresma é alienação.
Há milhões e milhões de brasileiros e brasileiras alienados. A prova disso é o número absurdo de votos que o candidato a reeleição à presidência recebeu no 2º turno das eleições deste ano inesquecível de 2022.
Fred Ghedini e Assis Angelo durante a entrevista
Meu amigo, minha amiga, você já leu Os Bruzundangas, do nosso Lima Barreto? Sugiro leitura imediata. Tem tudo a ver com o que ora vivemos.
Lima Barreto publicou Os Bruzundangas no ano de sua morte, em 1922. Há 100 anos, portanto.
O texto de Os Bruzundangas continua atualíssimo.

ENTREVISTA

Ontem 3 andei falando pelos cotovelos, instigado que fui por colegas jornalistas. Falei de tudo e mais um pouco, inclusive sobre jornalismo. Do papo, ao vivo, participaram Leda Beck, Jorge Araújo, o cartunista JAL e Fred Ghedini, ex-presidente do Sindicato dos Jornalista no Estado de São Paulo. Durou três horas. Virge, como esse povo fala! Pra ver e ouvir o que falamos, clique:
 

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

GOLPE CONTINUA NO RADAR BOLSONARISTA

Como no romance Esaú e Jacó, de Machado de Assis, os irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro quebraram o pau pra ver qual ideia de um ou de outro o pai assumiria. Flávio defendia moderação e fala imediata de reconhecimento das urnas pró-Lula. O irmão Eduardo defendia ideia contrária, ou seja: que o pai aumentasse o tom e defendesse de modo mais explícito os seus apoiadores mais fiéis e radicais. No vira e mexe da hora, Bolsonaro optou pela ideia do filho senador. Michelle tentou entrar na história, mas ouviu um sonoro "CALA A BOCA!" de Carluxo.
A primeira fala do presidente Bolsonaro foi, digamos, uma fala insossa e com gosto de pão adormecido.
A segunda fala do presidente Bolsonaro foi, digamos, um pouquinho mais compreensível. Dessa compreensão subtrai-se a ideia de que o presidente está se retirando do palco sem, porém, abandonar a tática que imagina levá-lo à condição de absolutista.
O sonho de Bolsonaro, pesadelo para os brasileiros de bem, é subir nos tamancos e virar um Stroessner. 
O plano ditatorial de Bolsonaro há muito foi captado por quem analisa o jogo político.
O seu interesse pelo Totalitarismo é antigo. Desde que se entende por gente, diga-se. Estreou no campo da safadeza político-militar quando ainda nem alcançara a vida adulta. Era apenas um fedelho interessado em dedurar pessoas. Essa história é amplamente conhecida.
Lendo outro dia um ótimo texto do português Boaventura de Sousa Santos, publicado na edição de 31 de outubro no Jornal Público, descobri que não estou só na conclusão do que pretende Bolsonaro. Ele sai de cena, mas nos bastidores continuará cooptando radicais como ele na pretensão de transformar o Brasil num imenso quartel. 
Sobre isso, sobre o golpe que pretende aplicar, já falei bastante.
Boaventura, que é Diretor Emérito do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, começa o seu conclusivo texto dizendo já no primeiro parágrafo: "Neste domingo (30) tornou-se evidente que está em curso um golpe de Estado no Brasil. É um golpe de tipo novo, cujo curso poderá não ser substancialmente afetado pelo resultado das eleições, ainda que a vitória de Lula da Silva certamente afetará o seu ritmo".
Sem dúvida, a vitória de Lula não estava no radar bolsonarista.
Os últimos acontecimentos envolvendo Bob Jefferson, Carla Zambelli e, agora, os caminhoneiros levaram bolsonaristas ao descontentamento e frustração provocados pelo comportamento do chefe Bolsonaro.
Por sua vez, Bolsonaro está sendo aos poucos abandonado pelos timoneiros do Centrão. 
Há preocupação nas hostes bolsonaristas.
Seguidores de Bolsonaro e o próprio Bolsonaro temem prisão.
Envolvendo Bolsonaro há, no momento, 58 processos esperando a hora certa para serem devidamente concluídos. Estão no STF. Um desses processos pode levá-lo à prisão.
O professor Boaventura de Sousa no parágrafo antes de concluir o seu texto, diz:
O golpe de Estado continuado vai entrar numa nova fase. De imediato, será provavelmente a contestação dos resultados eleitorais para compensar o fracasso dos golpistas em não terem conseguido os resultados que pretendiam com as múltiplas fraudes que praticaram. Depois, o golpe assumirá outras formas, ora mais subterrâneas com a utilização do crime organizado para intimidar as forças democráticas, ora mais institucionais com a mobilização desviante do poder legislativo para criar uma situação de permanente ingovernabilidade, nomeadamente com a ameaça de impeachment do governo eleito e dos quadros superiores do sistema judicial.

Pois é, não podemos fechar os olhos diante das manobras de Bolsonaro e seus "soldados". 

Leia o texto completo do professor Boaventura de Sousa Santos, no clique: O golpe de Estado continuado

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

O BRASIL TEM JEITO

Até agora o atual presidente da República não falou com clareza se aceita ou não o resultado das urnas, pró-Lula.
O seu lamentável silêncio sobre a questão inquieta a maioria dos brasileiros e brasileiras. Essa inquietação aumenta com o movimento dos caminhoneiros que ocupam mais de 150 pontos das rodovias federais. A respeito, disse ontem 1º o presidente Bolsonaro:

"Os atuais movimentos populares são fruto de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral. As manifestações pacíficas sempre serão bem-vindas, mas os nossos métodos não podem ser os da esquerda, que sempre prejudicaram a população".

No decorrer do seu mandato, Bolsonaro e apoiadores radicais descumpriram várias vezes artigos da nossa Constituição. Por isso e por outras razões foram enquadrados em processos que ganham cada vez mais especificidade jurídica.
O movimento dos caminhoneiros contra o resultado das urnas já rendeu mais de 5 milhões de reais em multas.
Nas redes circula um vídeo em que aparecem policiais rodoviários de braços cruzados e até batendo continência para caminhoneiros bolsonaristas. Notícias dão conta de que a Corregedoria da Polícia Rodoviária Federal, PRF, está apurando os fatos.
A coisa é grave.
Ontem 1º torcedores corinthianos fizeram o que até então a polícia rodoviária não havia feito: desbloquearam parte da marginal do Tietê, a via expressa mais importante da Capital paulista.
A atuação dos corinthianos fez-me lembrar do movimento chamado Democracia Corinthiana, iniciado há exatamente 40 anos (1982-1984) e liderado por Sócrates, Casagrande, Wladimir, Biro-Biro, Zé Maria e Zenon.
O Brasil tem jeito.
Ah! Sim: E a Michelle, hein?
Tudo indica que ela parou de acompanhar as postagens do maridão.
Nesse angú tem caroço, diria minha sábia avó Alcina.

ADOÇÃO

Lula e sua mulher Janja, futuros ocupantes do Palácio da Alvorada, adotaram uma cachorrinha. Nome: Resistência.

 

ENTREVISTA

Amanhã quinta-feira 03, estarei falando no Boteco APJor, da Associação Profissão Jornalista, programa online, pelas plataformas Youtube e Facebook. A entrevista começa às 16h. Temas: todos, incluindo jornalismo.

LIMA BARRETO, UMA HISTÓRIA DE BRASIL

No rigor, no rigor, não sei quando o mundo começou. 
Adão e Eva? 
Não, não, a rigor não sabemos quando o mundo começou. Não sei, não saberemos. É possível, porém, imaginar que o mundo possa ter começado com os sons das aves, das árvores, dos ventos e tudo o mais.   
E nesse mundo todo, cheio de gente de todas as formas e conteúdos, é possível identificar gente além de nós como Machado de Assis e Lima Barreto. 
Lima e Machado eram negros e, silenciosamente, brigavam entre si. 
Somos isso: nada ou quase nada.
Amo Machado e amo Barreto. 
Machado e Barreto comeram o pão que o Diabo amassou.
Cabeças incríveis!
Hoje, 1° de novembro de 2022, faz 100 anos que o brasileiro Afonso Henriques de Lima Barreto partiu para a eternidade.  
O legado de Barreto é a sua própria história. 
 

terça-feira, 1 de novembro de 2022

O BOI NA CULTURA POPULAR

 

Os primeiros bovinos desembarcados no Brasil, precisamente na Bahia, vieram da Ilha da Madeira no ano de 1532.
Em 1534, já havia bois pastando e dando duro na capitania de São Vicente, SP.
O português Martin Afonso de Souza foi o primeiro bam bam bam a dar cartas no que é hoje o município de São Vicente.
Foi em São Vicente que surgiu o primeiro engenho de moagem de cana no Brasil.
A Nova Guiné é a terra de origem da cana de açúcar.
São muitos os tipos de cana-de-açúcar. Para os especialistas, a cana caiana é uma das mais doces e resistentes à pragas.
Foi por intermédio de Martin Afonso que a cana chegou ao Brasil.
A força humana e a força bovina fizeram do Brasil Colônia o maior exportador de cana do mundo.
A contribuição dos animais bovinos para o sucesso do Brasil no exterior é, historicamente, imensurável.
Primeiro os bois foram atrelados a carros, carroças ou carretas em pares ou juntas.
O número de bois atrelados a carros foi se multiplicando rapidamente, à medida que o volume de cana ia aumentando.
Carros, carroças ou carretas chegaram a ser puxados por até 20 juntas de bois. Todos devidamente treinados para a tarefa.
No correr do tempo, os carros de boi, ou de bois, passaram a transportar das plantações os mais variados produtos: batata, milho, mandioca, café e tudo o mais. Inclusive, lenha. E não custa lembrar que o carro de boi foi também o nosso primeiro meio de transporte coletivo. Quer dizer, carregava produtos do campo e gente. Morta inclusive, diretamente para o cemitério.
O carro de boi ainda se acha presente em alguns cantos do Brasil, principalmente no Nordeste.
Em 1889, ano da proclamação da República, o paraibano de Areia Pedro Américo pintou do seu ateliê em Paris o quadro tornado histórico O Grito do Ipiranga. Nessa obra, curiosamente, se acha um carro de boi e trabalhadores ao lado.
Muitas histórias derivadas do chamado "ciclo do carro de boi" entraram para o fantástico mundo da cultura popular.
O bumba-meu-boi ou boi-bumbá, calemba, mamão, pintadinho e outros mais, que são o mesmo bumbá, tem sua origem numa lenda segundo a qual havia numa fazenda do Maranhão um homem e uma mulher escravizados. Século 18. A mulher, grávida, morrendo de desejo pediu ao marido uma língua de boi para comer. Sem dinheiro, decidiu roubar um boi do patrão. Matou o boi e tirou a língua, mas logo foi descoberto. Pra encurtar a história: o boi ressuscitou por obra e graça de um curandeiro. A mulher chamava-se Caterine, corruptela de Catarina; e o marido Francisco ou nego Chico.
A festa do boi ou auto do boi é uma festa bonita, tanto pra quem encena e pra quem assiste. Essa festa continua espalhada no Brasil inteiro. E há uma discografia enorme sobre ela ou a figura do boi.
A 1ª música com título Carro de Boi é uma moda de viola de autoria Ariowaldo Pires e Orlando Palzone, gravada num estúdio da extinta Victor em maio de 1942. Os intérpretes dessa música são Palmeira e Piraci.
Ouça Luiz Gonzaga cantando Boi Bumbá, de autoria de Gonzaguinha:



Recomendo a leitura dos livros Ciclo do Carro de Bois no Brasil, de Bernardino José de Souza; e Boi da Paraíba de Rafael de Carvalho.
Bernardino de Souza (1884-1949) era sergipano e de profissões várias: jornalista, advogado, geógrafo e historiador. Chegou a ser ministro e presidente do Tribunal de Contas da União,TCU. Seu livro clássico sobre carro de bois foi publicado em 1958.
Rafael de Carvalho (1918-1981) era paraibano e ator de teatro e cinema.

Foto e reproduções de Flor Maria e Anna da Hora.
Aquarela de Fausto Bergocce.
 
Em tempo: nesta quinta-feira (03/11), Assis dará uma entrevista ao vivo para o Boteco APJor, da Associação Profissão Jornalista, programa online, pela plataforma StreamYard. Falará sobre sua trajetória profissional, seu começo, glórias, dificuldades, sua avaliação do jornalismo atual etc. Começa às 16h e segue até 18h/18h30.

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

LULA GANHOU. O POVO GANHOU. VIVA A DEMOCRACIA!


Até o momento em que dito estas mal batidas linhas, o candidato à reeleição Bolsonaro continuava em lugar desconhecido e não sabido. Na moita, arquitetando loucuras radicais. É do seu feitio.
Bolsonaro passou 38 dias para reconhecer a vitória de Biden à presidência dos EUA. Biden, por sua vez, não demorou nem 38 minutos para reconhecer e aplaudir a vitória de Luís Inácio Lula da Silva, ontem 30.
Essa é a 3ª vitória de Lula à presidência da República.
Lula ganhou com uma diferença de 2,1 milhões de votos. Nos detalhes, o TSE divulgou números totais: Lula recebeu 60.345.999 votos, 2.139.645 a mais que Bolsonaro.
Na parte da manhã de ontem eu calculava a diferença pro Lula em 2.225.000 votos.
Os brasileiros residentes do estrangeiro aptos a votar eram de 697 mil, desses votaram 298.169. Lula ganhou com 152.605 votos.
As abstenções somaram 32.200.558, um pouco a menos que no 1º turno.
O presidente derrotado ganhou porém, em 13 Estados e no Distrito Federal.
O candidato do PSDB no Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, de virada faturou mais uma eleição derrotando o candidato bolsonarista Onyx Lorenzoni. Leite teve, no total, 3.687.126. A diferença de votos a seu oponente foi de 919.340.
Lorenzoni é aquele radical negacionista que, depois de virar as costas e recusar-se a apertar a mão de Leite, disse que a melhor vacina contra o Coronavírus era pegar o Coronavírus. Homofóbico, disse também que "iria ter uma 1ª Dama de verdade", no governo gaúcho. Quebrou a cara.
Em São Paulo, Bolsonaro fez da sua sombra Tarcísio de Freitas, governador.
Em Minas, mesmo com toda máquina do Estado, Bolsonaro perdeu. Curiosidade: historicamente, o candidato a presidente da República que ganha em Minas, ganha o Brasil.
Lula, no seu discurso após a vitória, disse que "A partir de 1º de janeiro de 2023, vou governar para 215 milhões de brasileiros e brasileiras, e não apenas para aqueles que votaram em mim. Não existem dois Brasis, somos um único país, um único povo, uma grande nação".
E disse também: "Nosso compromisso mais urgente é acabar outra vez com a fome. Não podemos aceitar como normal que milhões de homens, mulheres e crianças neste país não tenham o que comer, ou que consumam menos calorias e proteínas do que o necessário. Se somos o terceiro maior produtor mundial de alimentos e o primeiro de proteína animal, se temos tecnologia e uma imensidão de terras agricultáveis, se somos capazes de exportar para o mundo inteiro, temos o dever de garantir que todo brasileiro possa tomar café da manhã, almoçar e jantar todos os dias".
As principais ruas e avenidas do Brasil se encheram de brasileiros comemorando a vitória de Lula, a vitória do próprio povo, da Democracia.
A avenida Paulista ficou completamente tomada de pessoas de todas as idades e credos.
Fica o registro.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

O poeta mineiro de Itabira Carlos Drummond nasceu no dia 31 de outubro de 1902. Há exatamente 120 anos, portanto.
Drummond, que morreu no dia 17 de agosto de 1987, deixou uma obra excepcional. Chegou a ser indicado pra receber o Nobel de Literatura. Não deu. 
Eu entrevistei o poeta num dia qualquer de dezembro de 1980. 
É de Drummond a frase "Democracia é a forma de governo em que o povo imagina estar no poder".
Viva Drummond!

domingo, 30 de outubro de 2022

ZAMBELLI PEGA PRA CAPÁ

Depois de o terrorista Bob Jefferson atacar policiais federais foi a vez de a pistoleira Carla Zambelli sacar uma pistola e mandar ver contra o jornalista Luan Araújo, de 32 anos. O primeiro caso aconteceu domingo passado no Rio e o segundo ontem 29 em Sampa.
Jefferson, que é presidente do PTB, se acha no xilindró de Bangu 8.
Zambelli, que é deputada federal, ainda está solta. Solto também está um de seus seguranças, cujo nome não foi revelado. O tal pagou fiança de um salário mínimo e está tirando onda da cara do povo pacato.
Neste domingo 30 de eleição é visível o desespero de Bolsonaro e seus asseclas. Caso percam, estarão afunhenhados. 
Os pontos de votação foram abertos pontualmente às 8hs, no horário de Brasília; e assim seguirão até às 5 da tarde.
A apuração dos votos para governador de 12 Estados e para presidente começará logo após o fechamento das zonas eleitorais. 
Até a conclusão deste texto, a situação no Brasil era aparentemente tranquila.
Fica o registro. 


sábado, 29 de outubro de 2022

DUELO NA TV

Uma coisa é certa: o Brasil não aguenta mais o Bolsonaro.
Bolsonaro entrou ontem 28, à noite, com os cascos afiados nos estúdios da TV Globo não para discutir, debater, mas para brigar. Chegou gritando, afobado. Os olhos pareciam querer sair da cara. A boca, os trejeitos, afe! Começou perguntando a Lula se ele, Bolsonaro, iria mesmo cortar o 13º salário do trabalhador. E perguntou e perguntou e perguntou. Diante do silêncio, passou a agredir o concorrente à cadeira de presidente.
Dessa vez, ao contrário da vez anterior na Band, Lula evitou cair nas armadilhas do Coiso.
Muita baixaria da parte do Coiso.
Lula chamou o adversário várias vezes à discussão pertinente aos interesses dos eleitores, da população brasileira. Disse, lá pras tantas, que estava cansado de ouvir tanta besteira.
Bolsonaro chamou Lula de ladrão e corrupto o tempo todo e lá pras tantas disse que sua ida recente ao Complexo do Alemão foi resultante da negociação da campanha do PT com traficantes e chefes do tráfico. Nos bastidores, Bolsonaro foi de uma grossura incomparável com os repórteres. Chegou a bater boca com Fábio Wajngarten, da Folha.
Lula bateu na tecla da valorização do trabalhador, dizendo que irá aumentar o salário mínimo acima da inflação. O Coiso também disse que iria aumentar o salário mínimo. Ora, ora! Lula lembrou que isso ele não fez nos 4 anos em que se encontra como presidente do Brasil. E não será agora que irá fazer isso, não é mesmo?
Lula disse que vai apostar cada vez mais na educação, na valorização do trabalho da mulher e na própria mulher. Disse também que a Amazônia será respeitada e que o Brasil sairá do limbo em que se acha para voltar a ganhar o aplauso e o reconhecimento da sua grandeza perante o mundo.
No confronto com Bolsonaro, Lula falou da importância da cultura e dos artistas, que vivem ao Deus-dará. 
Bolsonaro foi grosso com os correspondentes estrangeiros após o malfadado debate com o Lula.
Em muitos momentos, Bolsonaro parecia explodir e o fato é que perdeu terreno, e muito, no confronto de ontem na Globo.
Era pra ter sido um belíssimo debate se Bolsonaro levasse a sério o Brasil e os brasileiros. Mas como isso poderia ocorrer se ele, Bolsonaro é um cara sem caráter, de baixíssimo nível?
O Brasil não aguenta mais Jair Messias Bolsonaro. O seu lugar é a cadeia, e isso ele teme. Sua derrota se aproxima.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

DOMINGO ESTÁ CHEGANDO. HOJE TEM DEBATE NA GLOBO

 
Domingo 30 está chegando. É o nosso dia D. Nesse dia deverão ir às urnas pelo menos 130 milhões de brasileiros. No total, estão aptos a votar, pouco mais de 156 milhões de brasileiros e brasileiras, a partir dos 16 anos de idade.
No 1º turno das eleições deste 2022 foram às urnas 123.682.372 eleitores. Desses 118.229.719 foram votos válidos; brancos e nulos foram 5.452.653. 
Deixaram de votar no último dia 2 de outubro quase 32 milhões de brasileiros.
Eleições em 2º turno existem no Brasil desde 1989, quando Fernando Collor e Luís Inácio Lula da Silva disputaram o cargo de presidente. Collor ganhou, mas foi obrigado a renunciar ao cargo no dia 29 de dezembro de 1992. A renúncia deveu-se a denúncias feitas pelo irmão Pedro Collor (1952-1994).
Hoje 28, a partir das 21:30, ocorrerá o último debate envolvendo os dois candidatos à presidência da República: Bolsonaro e Lula. Será na TV Globo.
Ontem 27, também na Globo, ocorreu um debate entre Haddad e Tarcísio. No meu ponto de vista, Haddad deu uma surra no carioca.
O carioca candidato a governador de São Paulo mente tanto quanto o seu chefe, um horror. E é milico enrustido.
No livro Inspiração Nordestina (1956), o poeta popular cearense Patativa do Assaré (1909-2002) publicou o belíssimo poema Eu Quero. Leia:

Eu quero

Quero um chefe brasileiro
Fiel, firme e justiceiro
Capaz de nos proteger
Que do campo até à rua
O povo todo possua
O direito de viver

Quero paz e liberdade
Sossego e fraternidade
Na nossa pátria natal
Desde a cidade ao deserto
Quero o operário liberto
Da exploração patronal

Quero ver do Sul ao Norte
O nosso caboclo forte
Trocar a casa de palha
Por confortável guarida
Quero a terra dividida
Para quem nela trabalha

Eu quero o agregado isento
Do terrível sofrimento
Do maldito cativeiro
Quero ver o meu país
Rico, ditoso e feliz
Livre do jugo estrangeiro

A bem do nosso progresso
Quero o apoio do Congresso
Sobre uma reforma agrária
Que venha por sua vez
Libertar o camponês
Da situação precária

Finalmente, meus senhores,
Quero ouvir entre os primores
Debaixo do céu de anil
As mais sonoras notas
Dos cantos dos patriotas
Cantando a paz do Brasil.

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

EU E MEUS BOTÕES (50)

"Estou preocupado, muito preocupado seu Assis", começou o botão poeta de plantão Zilidoro.
Eu quis saber o que tanto preocupa Zilidoro. E ele: "Estou preocupado com os rumos que a política está tomando. O Bolsonaro está arquitetando nos bastidores. E isso me preocupa. É isso o que me preocupa!".
Zoião pediu a palavra pra perguntar se eu já trabalhara na rádio Jovem Pan. Sim, eu disse. Trabalhei na rádio Jovem Pan em anos do século passado. E Zoião: "A Pan era tão direitísta como hoje?".
Além de direitísta, foi falando Barrica, "a rádio Jovem Pan está jogando fora sua história, sua imagem de grande emissora de rádio do País. Além de marchar junto com os milicos e ex-milicos golpistas, a Pan e seus repórteres e colaboradores mentem, deturpam as notícias. E isso é grave, muito grave!".
Jão pediu licença pra dizer que várias entidades democráticas estão se manifestando a favor da democracia e da verdade. E destacou um trecho do manifesto assinado por entidades como Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, Instituto Vladimir Herzog, Associação Brasileira de Imprensa, Federação Nacional dos Jornalistas: "Lamentamos que, neste momento, esse conceito esteja sendo usado de forma tão deturpada por veículos de comunicação, principalmente concessionários públicos, na tentativa de levarem à frente uma espécie de vitimismo tacanho e obterem licença para continuarem a mentir, difamar e avariar os pilares do regime democrático". Respirando fundo, Jão contou que jornalistas de todo canto estão se manifestando contra os absurdos transmitidos pela Pan: "Repudiamos toda e qualquer forma de censura e não admitimos que a liberdade de expressão seja distorcida para permitir a prevalência de mentiras na campanha eleitoral".
O botão alagoano Zé disse que também está preocupado: "Ora, ora, e a Pan anuncia aos quatro ventos que está sendo censurada pelo TSE. É mentira, é mentira, é mentira! As pessoas de bem deste nosso país precisam se manifestar e assinar o documento intitulado Manifesto de apoio à democracia".
Balançando a cabeça, irritado, Mané disse que viveu um pedaço da ditadura militar no Brasil. E gritando: "DITADURA NUNCA MAIS! DITADURA NUNCA MAIS!".
De repente ouviu-se o barulho de um chute na porta. Era Lampa, bradando: "AQUI TEM MACHO! AQUI TEM MACHO!". 
O espanto foi geral. Biu caiu na risada, sem se conter: "Esse Lampa! Esse Lampa não tem jeito!".
Não pude também deixar de rir. A cena além de engraçada, era ridícula. 
Zilidoro disse algo como "Esse Lampa é um maluco!".
Lampa, com uns quilos a mais e a barba mal feita, olhou na cara de Zilidoro e disse: "Maluco aqui é você e o feladaputa do Bolsonaro".
Pedi calma. Um problema não se resolve com outro problema. É preciso analisar direitinho o problema que nos incomoda. É claro que a Jovem Pan é um problema extremamente incômodo para as pessoas de bom senso...
"Mas ela não pode se comportar desse jeito, contra o povo e a democracia", interrompeu-me Zoião. Mané acrescentou: "O Zoião tem razão e não custa lembrar que a Pan é uma concessão do governo. E essa concessão não é de hoje é desde muito tempo".
"Numa boa, seu Assis? A Pan com essas maluquices, provoca humor e ódio. Humor porque chega a ser engraçado as mentiras que inventa e ódio porque ódio é ódio. O ódio está saindo da cabeça de Bolsonaro e afetando a cabeça das pessoas. Isso é triste, muito triste e preocupante", disse Zilidoro.
Bom pessoal, a conversa tá boa, mas por hoje é só. 
"Seu Assis! Seu Assis! Eu posso compartilhar com seus leitores o Manifesto 'Fake news não é notícia. Desinformação não é jornalismo', assinado por entidades democráticas como o Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo?", pediu Jão.
Claro!

https://www.sjsp.org.br/noticias/fake-news-nao-e-noticia-desinformacao-nao-e-jornalismo-1d3e

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

"MEU VOTO É 13!", DIZ STREAMER CASIMIRO

O dia D está chegando: domingo 30.
O Brasil da liberdade e da responsabilidade é um Brasil bonito.
O Brasil da irracionalidade e da censura é triste, é feio, é horroroso. Não é esse Brasil que o Brasil bonito, livre, quer.
O que o Brasil bonito quer é a beleza cada vez mais reluzente na cara, no rosto, na alma.
O Brasil, como um todo, está quebrado. Mas tem jeito. Ainda tem jeito. 
O Brasil da cultura popular, o Brasil da cultura erudita, é o Brasil cidadão. O Brasil que deu Câmara Cascudo, Bernardinho José de Souza, Mário Souto Maior e artistas da música como Chiquinha Gonzaga, Joaquim Antônio da Silva Callado, Patápio Silva, Chico Alves, Pixinguinha, Braguinha, Noel Rosa, Villa-Lobos, Carlos Gomes, Tom Jobim, Luiz Gonzaga, Manezinho Araújo e tantos e tantos mais.
O Brasil bonito é incomparável com quaisquer dos quase 200 países alinhados e identificados na Organização das Nações Unidas, ONU. E no cinema, hein?
E nas artes plásticas, hein?
No canto operístico o Brasil bonito guarda no coração e na memória Bidú Sayão.
O dia D, domingo 30, está chegando.
Domingo que vem será o dia que a Democracia se levantará, combalida que anda, para espraiar-se sobre nós.
Domingo será o dia D: 13!
Segunda 24 o teatro da PUC recebeu grandes representantes da nossa democracia, incluindo artistas de todos os seguimentos.
Entre os compositores, cantores e instrumentistas que apoiam a bandeira da democracia, via PT, se acham Jarbas Mariz, Jorge Ribbas, Cacá Lopes, Luiz Wilson, Costa Sena, Wilson Seraine, Dantas do Forró, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e suas filhas Preta e Bela Gil; Djavan, Martinho da Vila e sua filha Mart'nalia; Ivete Sangalo, Maria Rita, Gal Costa, Fatel, Socorro Lira, Anastácia, Anitta...
Mas há no Brasil ainda pessoas em dúvida, que não sabem exatamente ainda em quem votar.
Numa conversa ontem 25 com o amigo Geraldo Vandré, ousei perguntar sobre a atual situação política. O que ele está achando e tal. Se vai votar no Lula ou no outro. Sua resposta, melancolicamente: "Pra mim, tanto faz".
Problemas de foro íntimo têm deixado Geraldo muito triste. Já não faz poesia, já não faz música, já não lê livros nem nada: "Fico vendo TV, Ângelo".
O cidadão Geraldo Pedrosa de Araújo Dias completou no último setembro 87 anos de idade.

FAKE NEWS E STF

O Supremo Tribunal Federal derrubou ontem 25, por 9 a 2, pedido de revisão a um processo que dava mais forças ao exército de mentirosos do presidente Bolsonaro. O pedido foi encaminhado ao STF pelo PGR Augusto Aras. Em suma: Aras queria que o STF não retirasse das redes sociais as fake news postas pelos bolsonaritas. Caiu do cavalo. À propósito, o streamer Casimiro Miguel abriu o bocão para protestar contra o uso da sua imagem. O causo é que Casimiro teve um de seus posts adulterado, dando a entender que ele estaria apoiando a reeleição do atual presidente. Disse o famoso streamer:


ENTREVISTA

Amanhã, quinta 27, a partir das 16h estarei falando a respeito de jornalismo e tal no programa BOTECO APJor. O papo será transmitido ao vivo pelo Youtube/Facebook. Convido todo mundo a acompanhar nossa conversa, que terá entre os entrevistadores o ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo Fred Ghedini.
APJor é a sigla para Associação Profissão Jornalista.

terça-feira, 25 de outubro de 2022

BRASIL DA CULTURA POPULAR

O Brasil é, culturalmente, um país fora do esquadro. No sentido melhor do termo. 
Embora novo, o Brasil posiciona-se como o 5º maior do mundo em dimensão e população.
A cultura brasileira é rica e diversificada.
O indígena, o negro e o branco formam a nossa Nação.
Há riqueza em todos os cantos brasileiros. No canto propriamente musical e tudo o mais.
Os nossos autores literários, musicais e historiadores de todos os formatos dão o tom e a forma necessários para o fortalecimento do Brasil.
O potiguar Luís da Câmara Cascudo marcou presença na historiografia brasileira. Escreveu de tudo, sobre tudo. Deixou cerca de 150 títulos publicados e não só no campo dito folclórico. Falava muitas línguas e era de uma sabedoria incrível. Eu o conheci de perto.
No campo da cultura popular outro brasileiro, esse quase desconhecido, também deixou uma marca indelével. Refiro-me ao sergipano Bernardinho José de Souza.
Bernardinho José de Souza nasceu no dia 8 de fevereiro de 1884 e morreu no dia 11 de janeiro de 1949 depois de ver publicados os livros Heroínas Bahianas (1936), O Pau-Brasil na História Nacional (1939) e Dicionário da Terra e da Gente do Brasil (1939).
Por volta de 1945, Bernardinho tentou publicar Ciclo do Carro de Bois no Brasil. Não conseguiu. Esse livro, uma pérola, só foi publicado em 1958.
Exemplar a história desse sergipano que teve seus estudos desenvolvidos na Bahia de Castro Alves e Jorge Amado, mesmo lugar em que o paraibano de Caiçara Rafael de Carvalho firmou-se como cantor, ator, autor e tudo o mais relacionado às artes.
No livro Boi da Paraíba, Rafael conta sua história  desde seu berço paraibano.
Rafael de Carvalho morreu vítima de um infarto depois de participar do filme O Baiano Fantasma, dirigido por Denoy de Oliveira.
Rafael participou das novelas O Bem-Amado, Gabriela, Saramandaia e Rosa Baiana, entre outras; e dos filmes Aguenta o Rojão, Um Candango na Belacap e O Homem que Virou Suco, que traz no elenco o cantor e instrumentista paraibano Vital Farias. Pra recordar, ouça:

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

EU E MEUS BOTÕES (49)

"Seu Assis! Seu Assis! O Brasil tá pegando fogo. O fim do mundo parece que já começou", entrou afobado na casa o botão Biu.
Enquanto Biu afobado falava, o botão Barrica disse não estar espantado com o que está ocorrendo: "Essa violência toda já estava prevista, já estava e está no nosso radar".
É, eu disse. A situação está esquentando. O que aconteceu ontem no Rio não foi garapa. Como é que um ex-deputado e presidente de um partido político não só descumpre uma ordem policial como ataca a tiros e granadas policiais federais destacados para cumprir a determinação da Justiça, de um juiz?
"O que o Jefferson fez foi um crime calculado, previamente calculado. Ele estava armado até os dentes e com armas pesadas, sem que o Exército fizesse nada. E isso é grave!", disse analisando o caso o poeta botão Zilidoro.
"E ainda tem mais um detalhe, seu Assis. O tal Jefferson, uma besta horrorosa, mantinha e mantém um arsenal na sua casa como um CAC", emendou à fala de Zilidoro o botão paraibano Mané.
"O que é CAC, Mané?", quis saber Jão. 
"Iiiih! CAC, Jão, é Colecionador, Atirador desportivo e Caçador", esclareceu Mané.
O mais grave nessa situação, eu disse, é que existem milhares e milhares e milhões, talvez, de CACs espalhados Brasil afora. E armados por incentivo do presidente da República.
"Esse presidente aí, o Bolsonaro, é um criminoso e o lugar dele, mais cedo ou mais tarde, é na cadeia", disse nervoso Zoião.
Barrica, coçando a cabeça, dirigiu-se a mim tecendo elogios por um poema que fiz e que falo de cadeia. Zilidoro pediu a palavra e de memória declamou as duas últimas estrofes do poema referido. Assim:

...Presidente também morre
De morte matada ou não
Lugar de quem não presta
É lá no fundo da prisão!
 
A cadeia te espera 
Presidente predador
Hoje quem foge é caça
Amanhã é caçador
 
Ainda não de todo calmo, Biu disse que além dos dois policiais atingidos à bala por Jefferson, um cinegrafista da TV Globo foi atacado covardemente por um bolsonarista que fora prestar "solidariedade" ao ex-deputado Jefferson. O profissional da Globo, Rogério de Paula, continua nesta manhã 24 internado na UTI do Hospital Nossa Senhora da Conceição, no Rio. E acrescentou Biu: "Enquanto ocorria o furdunço provocado por Jefferson, no município potiguar de Macaíba um bolsonarista numa moto meteu bala contra uma passeata pacífica que tinha a frente o candidato Lula. A governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra, estava presente e foi retirada às pressas por sua segurança".
Pois é, pois é, a coisa tá feia.

domingo, 23 de outubro de 2022

NORDESTINO VOTA EM NORDESTINO

Um bandido acaba de se entregar à Polícia, exatamente nesta hora: às 19h09, depois de a casa ser cercada. Antes balas dele levaram para o hospital um policial e uma policial federal. 
Ainda bem que a força policial não reagiu à ação desse bandido, Roberto Jefferson, presidente de um partido político (PTB).
O Brasil sofre.
O Brasil violento que ora se apresenta é o Brasil Bolsonaro. O Brasil da Michelle, que engana o povo prometendo espaço no céu. Em nome de Deus e dos crápulas enrustidos. Fazem misérias.
O Brasil violento que ora se apresenta é o Brasil dos milicianos. Brasil que mata e promete matar mais ainda. É o Brasil bolsonarista. O Brasil sem pudor, despudorado. O Brasil...
Este domingo 23 está sendo marcado pela violência, mais uma vez, de um bolsonarista radical como é caracterizado um bolsonarista.
Jefferson recebeu à bala a Polícia que foi a sua casa para cumprir uma determinação judicial. Esse Jefferson é aquele que não presta. É aquele ser que baba veneno na gola o tempo todo. É o cara que ontem 22 comparou a ministra Carmen Lúcia com uma prostituta, no mais abjeto do termo.
O Brasil bolsonarista é o Brasil da ditadura horrorista.
A vida brasileira, nossa vida, tem que ser regida o tempo todo pela regra democrática.
Para presidente, nordestino vota em nordestino. E de tabela o Brasil todo vota e tem que votar, neste momento, no Lula para o bem do bem.
Viva a Democracia!

A terra de Homero
E da Mitologia
Dos deuses do Olimpo
E da Democracia
Plantou em Diógenes
A flor da Anarquia

Diógenes era um doido
Diplomado em Poesia
Com sua lanterna acesa
Em pleno dia
Procurou mas não achou
No poder cidadania

Outras coisas ele achou
Mas não o que queria:
Um Ser que fosse honesto
A verdade sem fantasia
e um santo que falasse
Do valor da valentia

Valente é todo Ser
Que vive de teimosia
Que detesta injustiça
E a lei da "Mais Valia"
E não vou falar mais disso
Adeus, até outro dia!

UMA HISTÓRIA DE CARRO DE BOI E GENTE

 
Com os seus cocões cantando
No nosso Brasil rural
Os carros de boi vieram
Das bandas de Portugal
Já prontos pra transportar
Cana do canavial

Primeiro foi na Bahia
E depois em São Vicente
Os carros de boi moldaram
O gosto de muita gente
Mas hoje são só lembrança
Que guardo na minha mente

Nesses carros eu andei
e brinquei com alegria
Em um tempo já distante
Que lembro com nostalgia
No nosso Brasil querido
Tem beleza e fantasia

Quem conduz um boi de carro
Por tradição é carreiro
Por tradução é um craque
Valente, bom estradeiro
Companheiro de um ser de luz
Chamado de Candieiro


https://www.youtube.com/watch?v=IQehVnx_fm8&t

Esse barulhinho aí é esquisito, não é?
Eu ouvi esse barulhinho quando era menino, e ele nunca mais saiu daqui da minha cachola. É o barulhinho do carro de boi chorando, gemendo estrada afora.
Qual menino do meu sertão não ouviu esse chorar e viu o lento rodar dos velhos carros de boi?
Sim, qual o menino que nunca viu isso?
Pois é. Dia de feira, dia de festa, de gente pra lá e de gente pra cá. De gente vinda de tudo quanto é lugar, numa agitação dos infernos! Gente gritando, rindo, moleque chorando, outros vendendo e comprando fosse o que fosse. E à distância, o carro de boi: oooooonnn... Comendo a poeira levantada pelo tropel dos cavalos.
Naqueles dias distantes da minha infância, lembro que tinha também os bebuns de plantão de boteco para quem os dias pareciam não passar.
Mas apesar disso, e por isso mesmo, o que fica pregado na memória é o chiadinho do carro de boi. Esse chiadinho que arrepia a alma, choroso, é diferente do choro de gente. É um choro chorado, dorido, diferente de tudo. Um choro que vem de lá de nem sei de onde.
Esse choro me entristecia, profundamente. Para ter tristeza e chorar num precisa ser frouxo, não. Cabra macho também chora.
Seu Nonô mesmo, que era raçudo e tinha lá nas costas uma penca de morte feita a bala e faca, um dia, escondido, eu o vi chorar. Aliás, até os bois choram. Choro demais chega a ferir o coração da gente.
Ah! Sim, todo mundo sabe: coração de sertanejo é duro de doer. É calejado, cheio de marca que nem seus pés e suas mãos. Notei isso quando cresci. Olha aqui as minhas mãos, tá vendo? Todas cheinhas de calo de tanto amargar o cabo da enxada de sol a sol. Doem. E os pés? Olha aqui. Tudo rachado que nem a terra seca à espera da água do céu que parece nunca vir. Por cá, por essas bandas, falta d´água mata gente e mata boi.
Pois é, coração de sertanejo não é mole, não. Quando dá de doer, seu moço, de machucar feito moenda com toras de cana ou aquelas maquininhas de repuxar agave, no muque, ah!, danou-se! E fique certo: o sofrimento é tanto que lembra dor de dente na hora do meio-dia, do pino, sob a danação da seca pesada. É de lascar o cano!
Por essas bandas tudo é triste. O nosso andar, a nossa fala puxada, o nosso riso, até o nosso espirro é triste. Pode reparar. Tudo é triste na gente. Menos a esperança. Ah! Essa, não. É tudo que nos resta... Mas que a nossa vidinha por aqui é braba, lá isso é. Daí a tristeza. Deus que me perdoe, mas acho que até ele esquece da gente. E né não?
Mas eu tava falando mesmo era dos carros de boi. Quando os carros de boi param, tudo para. Até o tempo. Eita tristeza danada é a falta do gemido, do choro inacoluto do carro de boi!... Eu sempre quis falar esta palavra: inacoluto. Nem sei o que é inacoluto, nem sei se existe, mas que é uma palavrinha bonita, hein? Lá isso é!
Essa história de carro de boi é triste, mas é bonita. Nem sei se pelo carro ou pelos bois. Para os meninos do sertão, o boi não é só um bicho trabalhador, não. É amigo, amigo mesmo! Boa companhia. Bem comparando, é que nem cão e gato na cidade grande. Mas um dia tudo se acaba. Nós, inclusive. E os bois. De morte morrida ou de morte matada, não interessa. Isso é detalhe. Quando o boi morre de morte matada, a sua carne é vendida no açougue. Que fazer? Das duas, uma: ou se morre de barriga cheia ou se morre de barriga vazia.
A cena do boi indo pro sacrifício é feia, o moço aí já viu? Ele adivinha que vai morrer, tanto que dos cantos dos seus olhos escorre lágrima. Pode ver. E numa rápida manobra, o carrasco, poft!, dá cabo à vida dele. Tem gente que disfarça, que olha de banda, que não quer olhar. Eu olhei e chorei, como muitos amigos meus, meninos do meu tempo, de calça curta, de um tempo que já vai longe, e como vai!
Jamais vou esquecer o boi entrando no matadouro, escorregando no sangue de outros bois e caindo pesado, num baque seco, surdo, sem um mugido sequer. O difícil, depois, é achar entre os corpos esquartejados a carne do boi de carro, de estimação, de brinquedo, do boi querido, do boi amigo, do boi quase irmão, do boi que virou calemba, bumbá, mamão. Do boi que virou lembrança, uma dolorosa e triste lembrança no mais fundo de nós.
Mas é essa a sina do boi. Depois de passar a vida toda puxando carro ou arando de sol a sol, morre pelas mãos assassinas do homem. Com Jesus também não foi diferente: veio para nos salvar e nós o matamos. Sem pena nem piedade.
Foi assim, é assim e será sempre assim. Não tem jeito. O homem é mau, o boi é bom.
O homem não nasceu pra se salvar.

Carro de boi
Boi de carro
Carro que geme
Boi que cala
Seja no cipó
Seja na bala

É boi, é gente
É gente, é boi
Carro, boi, gente
A vida no sertão
Ai meu coração!
Gente e boi
Boi, gente
É tudo um pedaço,
Um pedaço que sente,
Que sente que vida
É suor, é semente

Seja boi de reis
Seja boi de carro
Seja boi calemba
Seja boi de carro

Seja boi-bumbá
Seja boi de mamão
Seja, meu Deus!
Bois do coração

É boi de cá
É boi de lá
Tudo é boi
É boi pra se amar
No sol e na poeira
Na subida e na ladeira
Segue o homem
Segue o boi
O carro puxando
Sobre pedra
Sobre barro
Ora aqui
Ora acolá
Sem nada reclamar

O carro, o boi, o homem
O homem, o boi, o carro
O carro geme a dor do homem
Que geme a dor do boi
Que puxa o carro do homem
Sem preguiça
Justiça!
Sem ódio
Sem rancor
Segue assim o homem
Andando, correndo
Comendo poeira
No silêncio do trabalho
Óh! Deus
Segue assim o homem o seu destino
A sua sina…
No cangote doido da vida Severina


https://www.youtube.com/watch?v=-A2RG0dNC68


Foto e ilustração de Flor Maria e Fausto Bergocce

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

O QUE ORA VIVEMOS SÃO TEMPOS DIFÍCEIS

Pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, aponta que há no Brasil milhões e milhões de brasileiros portadores de algum tipo de deficiência visual, auditiva, motora, intelectual etc. Dentre esses milhões, um número incalculável de cegos. 
Eu perdi a luz dos meus olhos entre 2013 e 2014. A razão foi descolamento de retina.
O que a pesquisa do IBGE não mostra com clareza é o número absurdo de eleitores deficientes. E eleitores simples, carentes de tudo. Pobres, desempregados e tantos mais revelam-se bolsonaristas.
Bolsonaro ganhou o governo, em 2018, após convencer os eleitores e eleitoras de que faria uma administração diferente do que, grosso modo, sempre fizeram os políticos tradicionais. Começou a mentir aí. Quer dizer a mentir mentira grande, pois mentir sempre mentiu, negando no seu "staff" a existência de funcionários fantasmas.
A prática de rachadinhas Bolsonaro iniciou há muito tempo. 
O time que cerca Bolsonaro é um time altamente eficiente no quesito "fake news".
Até agora Lula e o seu "staff" andam um tanto perdidos diante da produção incrivelmente escandalosa de mentiras produzidas pelos bolsonaristas. E eu, aqui, já disse: Bolsonaro mente, mente, mente. Mente e depois se auto desmente, mentindo de novo.
Ontem 20, Lula disse em entrevista no Rio que nem ele, nem o PT, estavam preparados para enfrentar a fábrica monstruosa de fake news armada e comandada pelos bolsonaristas. "É preciso que se reconheça a capacidade do exército de milicianos dele de fazer os enfrentamentos de rede social. Eu acho que a gente não tinha experiência, o Brasil não estava habituado com isso. Mesmo assim eu acho que vamos ganhar as eleições. Acho impossível ele virar em uma semana, mesmo fazendo as loucuras que ele faz", acrescentou.
E põe loucura nisso.
No começo da semana Bolsonaro entrou na casa de umas meninas, em Brasília, e entusiasmou-se. Disse, com todas as letras, que diante delas "pintou um clima".
As meninas em questão são adolescentes nascidas na Venezuela. Depois de dizer isso, desdiu-se na Internet. Quer dizer, além de mentiroso é covarde por não assumir suas falas nojentas.
Ainda nesta semana ouvi um vídeo em que o candidato à reeleição tece loas a Alfredo Stroessner (1912-2006).
Stroessner foi ditador do Paraguai entre 1954 e 1989. Nesse período, perseguiu o povo simples da sua terra. Muita gente morreu nas suas unhas, nas unhas da sua polícia. Enquanto matava quem queria, estuprava meninas de 10 a 15 anos de idade. Foi um pedófilo sem mais classificação. Praticou mais de 1.600 estupros e foi a esse sujeito que Bolsonaro elogiou, depois de elogiar os generais Geisel e Médici, creditando a eles o sucesso do agronegócio.
Essa fala se acha na Internet.
Na Internet também se acha notícia dando conta de que Bolsonaro jogou suas asas em direção a uma garotinha de 10 anos. Afe! Foi numa de suas "lives", no dia 10 de setembro de 2020. A menininha, uma "youtuber" mirim, tremeu ao perceber os olhos maliciosos de Bolsonaro sobre os seus. "Isso é feio", disse ela. 
O Brasil nunca viveu um momento tão delicado como agora. Sem falar no Coronavírus que contaminou e matou meio mundo. Esse vírus fez Bolsonaro imitar, de modo debochado, uma pessoa morrendo por falta de ar. Quanta desumanidade!
Para lembrar o caráter assassino do presidente, fiz o poeminha este:

Já não são quinhentas mortes
Já não são quinhentas mil
A desgraça toma corpo
No coração do Brasil

Não são mortes naturais
As mortes de Silvas e Bragas
São mortes provocadas
Por vírus, pestes e pragas

Praga viva inda mata
Homem, menino e mulher
Mata completamente
Do jeito que o Bicho quer

Maldito Coronavírus
Que pega e mata gente
O Brasil está morrendo
Nas garras do presidente

Presidente também morre
De morte matada ou não
Lugar de quem não presta
É lá no fundo da prisão!

A cadeia te espera 
Presidente predador
Hoje quem foge é caça
Amanhã é caçador
 

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

"VAMOS COM LULA PELO BRASIL!"

 
É falsa a ideia de que somos um povo alegre.
Em 1928, o paulistano Paulo Prado levou à praça o livro Retrato do Brasil, com o subtítulo Ensaio sobre a Tristeza Brasileira. Esse livro alcançou três edições no mesmo ano de 28.
O título do livro de Prado já diz tudo.
Em 1941, o austríaco Stefan Zweig (1881-1942) publicou o livro Brasil, Um País do Futuro.
Retrato do Brasil traça um doloroso perfil da gente brasileira. Dói, mas é verdade.
De 28 pra cá, a tristeza brasileira só aumentou, em consequência do altíssimo índice de desemprego, fome e miséria.
O livro de Zweig é, com todas as letras, um livro de conteúdo otimista.
O País do Futuro referido por Stefan Zweig ainda está pra nascer. 
Stefan Zweig matou-se, junto com a mulher, um ano depois de lançar Um País do Futuro, no dia 23 de fevereiro.
O livro de Paulo Prado continua sendo cópia da nossa cara. Infelizmente.
Mas uma coisa é certa: precisamos nos reinventar, acreditando ser possível a transformação do negativo com o positivo.
Ouvi há pouco Simone Tebet dizer que o Brasil não aguenta mais viver sob o negacionismo bolsonarista. Estamos quebrados, ela disse. E conclamou: "Vamos com Lula pelo Brasil!".
Por enquanto, alegria mesmo só no carnaval. Aliás Carnaval é o título do livro do baiano Jorge Amado (1912-2001).
Mas até no carnaval há tragédias, como nos conta o poeta Carlos Paraná (1932-1970): 
 
Nasceu Maria quando a folia
Perdia a noite, ganhava o dia
Foi fantasia seu enxoval
Nasceu Maria no Carnaval

E não lhe chamaram assim como tantas
Marias de santas, Marias de flor
Seria Maria, Maria somente
Maria semente de samba e de amor

Não era noite, não era dia
Só madrugada, só fantasia
Só morro e samba Viva Maria
Quem sabe a sorte lhe sorriria

E um dia viria
De porta-estandarte
Sambando com arte
Puxando cordões
E em plena folia
Decerto estaria
Nos olhos e sonhos
De mil foliões

Morreu Maria quando a folia
Na quarta-feira também morria
E foi de cinzas seu enxoval
Viveu apenas um Carnaval...
 
O carioca Zé Kéti (1921-1999) também pegou o carnaval como tema e cantou, tirando a máscara:
 
Tanto riso, oh quanta alegria
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando pelo amor da Colombina
No meio da multidão

Foi bom te ver outra vez
Tá fazendo um ano
Foi no carnaval que passou
Eu sou aquele pierrô
Que te abraçou
Que te beijou, meu amor
Na mesma máscara negra
Que esconde o teu rosto
Eu quero matar a saudade
Vou beijar-te agora
Não me leve a mal
Hoje é carnaval

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

EU E MEUS BOTÕES (48)

"Atenção, atenção, atenção, pessoal! O doutor do hospital garantiu que o Lampa vai receber alta ainda esta semana. Ele já está até falando. Está lúcido. Disse que vai votar no Lula", falou enfático o botão alagoano Zé.
A fala de Zé foi seguida de um estrondoso bater de palmas. "Que bom! Que bom! O Lampa nos faz falta!", disse Zilidoro.
"Seu Assis, estamos há poucos dias do 2º turno. O feladaputa do Bolsonaro não pode continuar presidindo o nosso País", falou o quase sempre quieto Jão. E Mané: "Isso mesmo! Isso mesmo! Esse aí é resultado de um aborto da natureza. Um horror!".
"Estamos vivendo momentos delicados e decisivos. O Brasil está no fundo do poço. À beira do fundo do poço. E esse poço a que me refiro é sem fundo. Um buraco sem fundo!", foi a vez de Barrica dizer mais uma vez o que pensa a respeito da situação que ora todos nós vivemos.
Aproveitei o momento pra perguntar a Biu e a Zoião se têm acompanhado o noticiário... "Sim, sim! Eu tenho acompanhado tudo. É impressionante o comportamento e a fala do presidente Bolsonaro. Desde sempre, ele xinga tudo e todos. Ele esculhamba com nordestino, negro, gays, pobres e todos mais", disse Biu. E Zoião: "Esse cara aí é inqualificável. Ainda não foi inventada uma palavra pra dizer realmente quem ele é".
Não tem como não concordar com vocês. O que o Zoião acaba de falar é completamente compreensível. Bolsonaro é lixo, produto do esgoto mais fedorento de todos. Hitler começou como ele, falando de pobres, gays, analfabetos e judeus. E deu no que deu. Hitler começou imitando Mussolini. Ambos mataram milhões e milhões de pessoas desde a Segunda Guerra Mundial.
"Seu Assis, eu andei levantando umas frases loucas ditas por Bolsonaro", começou Biu. E Mané: "Eu também! Eu também! Eu também tenho recorrido à Internet pra procurar o pensamento maldito do presidente. O Brasil não merece Bolsonaro como presidente. Bolsonaro merece ir para o fundo da cadeia. Ele tem muitos crimes pra pagar". Depois de dizer o que disse, Biu pediu licença a seus companheiros botões pra citar algumas frases ditas pelo atual presidente da República. Estas:
“A atual Constituição garante a intervenção das Forças Armadas para a manutenção da lei e da ordem. Sou a favor, sim, de uma ditadura, de um regime de exceção, desde que este Congresso dê mais um passo rumo ao abismo, que no meu entender está muito próximo" (1999)

“O pau-de-arara funciona. Eu sou favorável à tortura” (1999)

“Tudo é coitadismo. Coitado do negro, coitado da mulher, coitado do gay, coitado do nordestino, coitado do piauiense. Vamos acabar com isso” (2018)
Muito bem Biu. Na Internet tem muita coisa mostrando quem é, de fato, Bolsonaro. E o incrível é que corremos o risco de ele ser reeleito. A Federação da Indústria do Estado de São Paulo, Fiesp, está dividida. Uma parte dos grandes empresários quer Bolsonaro reeleito. o Nordeste não quer. O Nordeste e boa parte do Sudeste querem ver esse sujeito no esgoto de onde veio. Claro, o Brasil corre um risco profundo de cair no Nada. No 1º turno, mais de 30 milhões de brasileiros cruzaram os braços, sequer saíram de casa. Não deram bola às urnas, à Democracia.
"Seu Assis! Seu Assis! Sabemos que boa parte dos brasileiros não liga pra nada. É como se seguissem a letra do samba do Zeca Pagodinho: Deixa a vida me levar/Vida leva eu...", cantarolou o potiguar Barrica. 
"Que pena, que pena. Somos em grande parte cidadãos alienados", lamentou Zilidoro. Jão acrescentou: "As frases revelam o sujeito maledicente que é Bolsonaro".
Bom, pessoal, pra encerrar tem esta: “Através do voto você não vai mudar nada nesse país, nada, absolutamente nada! Só vai mudar, infelizmente, se um dia nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro, e fazendo o trabalho que o regime militar não fez: matando uns 30 mil, começando com o FHC, não deixar para fora não, matando! Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente” (1999).
"Essa frase aí também é do Bolsonaro?", perguntou um tanto atordoado o paraibano Mané. Sim, respondi. E aproveitei pra perguntar se Mané e seus colegas tinham visto o podcast do Lula, que está batendo recorde de audiência. "Onde eu acho isso?", perguntou Zilidoro. O endereço é este: LULA NO FLOW PODCAST
Levantando-se do tamborete onde até então se achava, Barrica cantarolou acompanhado por todos: 
 
Vai passarNessa avenida um sambaPopularCada paralelepípedoDa velha cidadeEssa noite vaiSe arrepiarAo lembrarQue aqui passaramSambas imortaisQue aqui sangraram pelosNossos pésQue aqui sambaramNossos ancestrais
  

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

EU E MEUS BOTÕES (47)

Antes de perguntar a meus botões o que acharam do debate de ontem 16 promovido pela Band, ouvi uma voz cavernosa dizendo algo como "Arrasou, arrasou!". Procurei identificar a voz, mas tive dúvidas, Barrica deu uma risada escrachada dizendo: "É o Biu! É o Biu! O Biu quando quer é irônico até na hora do choro, seu Assis". Mas não entendi o "Arrasou! Arrasou!". E Biu: "O Bolsonaro, o Bolsonaro!". De outro canto, Jão comentou: "Arrasou se foi pras quengas dele. E dos cachorros!". Calma, pedi calma. Não podemos entrar na baixaria da propaganda eleitoral.
"Muito bem, seu Assis. Parabéns, de fato a propaganda política está que é uma baixaria só. Um horror!", foi a vez de Zilidoro falar, emendando: "Gostei muito do formato do debate formulado pelo pessoal da Bandeirantes".
O Zilidoro tem razão. A Band inovou no formato para debates políticos. E Zé: "Achei que o Lula ganhou, mas podia ter ganhado de goleada. 
Até então quieto no seu canto, Zoião fez hummm e ameaçou dizer alguma coisa, mas não disse.
O Lula começou falando de educação e perguntando ao seu adversário quantas faculdades novas ele fez no seu governo. Silêncio. Bolsonaro tergiversou. A primeira parte, apesar de tudo, até que foi boa. Depois Bolsonaro só xingou o Lula, chamando-o de ladrão, amigo de bandido. Lamentável. 
Na verdade, na verdade pessoal, a Bandeirantes ganhou no formato para debates e ganhou também a Democracia e todos nós.
Um debate assim, entre dois políticos graduados não poderia ser feito se vivêssemos numa ditadura. Interrompendo-me, disse Zoião: "O Bolsonaro, antes de tudo é um escroto. Sacana. Bicho ruim. Ele mente, ele engana o povo falando de liberdade e democracia. Na verdade ele quer é ditadura, apertar o torniquete. Se ele for reeleito, estaremos todos afunhenhados".
"O cabra não tem conserto. O cabra não tem jeito, é um horror sob todos os aspectos. Fala mal de nordestino, diz que nordestino é analfabeto e que foram os nordestinos analfabetos que deram a vitória ao Lula", lembrou Zé. E Jão emendou: "E ainda desrespeita as mulheres, os negros, os gays, os jornalistas e agora até jovens adolescentes venezuelanas que, pra ele, são prostitutas. E posso dizer mais uma coisa seu Assis? Esse cara, com o perdão da palavra, é um filho da puta!!!".
Pois é pessoal, e ele disse que com as meninas venezuelanas "pintou um clima". Ai, ai, ai...

Pra encerrar, perguntei a Biu como está o Lampa. Resposta: "O Lampa está fora de perigo, já está respirando sem uso de instrumentos. Está na enfermaria do hospital e quem sabe receberá alta nesta ou na próxima semana. Torçamos".
Barrica lembrou que o dia 30 de outubro está chegando e que antes, no dia 28, será a vez de a Globo promover o seu debate entre Lula e Bolsonaro.
Zilidoro, mexendo no computador, fazendo de conta que nada ouvia clicou:  

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