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quarta-feira, 22 de junho de 2011

HOJE É DIA DE HERMETO PASCOAL

O mais famoso filho de Lagoa da Canoa, o multitudo Hermeto Pascoal, gênio brasileiro da nossa rica música, tem, a partir de hoje, 75 anos de idade no talo.
Talo, no Nordeste, é espinha dorsal.
E Lagoa da Canoa, poética até no nome, é uma cidade localizada a leste de Arapiraca, principal aglomerado humano do agreste alagoano que passou à categoria de município no dia 28 de agosto de 1962.
Tem mais ou menos 20 mil habitantes, de acordo com o último censo.
Essa totalização, claro, não conta com Hermeto que foi não foi está ao mesmo tempo em todos os cantos na condição de cidadão do mundo.
E assim sendo, nem sempre é possível saber com exatidão a onde ele se acha.
Mas isso é apenas um detalhe.
Hermeto, filho de dona Divina e seu Pascoal, é um multiinstrumentista declaradamente intuitivo.
Ele faz com a música o que Patativa do Assaré fazia com a poesia.
Antes mesmo de aprender a ler e a escrever partituras, ele já tocava flauta e sanfona.
Tinha uns oito anos de idade, à época.
E não parou mais: hoje ele toca, além de flauta e sanfona, violão, clarineta, trompete e todos os instrumentos de percussão e outros mais, incluindo os instrumentos que inventa a toda hora.
Não esqueço: uma vez, ali pelos começos dos anos de 1980, caí na besteira de entrar numa discussão com ele, com o dia raiando.
Foi no extinto Vou Vivendo, de Eduardo Gudin.
Eu tinha tomado umas águas de coco além da conta, junto com Heraldo do Monte, que é discreto nesse assunto; Carlos Poyares, que não era discreto nesse assunto; e mais alguns amigos acostumados a brindar à vida por qualquer motivo.
Lá pras tantas, Hermeto, enrolando a língua, pediu que eu escrevesse uma partitura na parede do bar.
Ah! Sim: o assunto girava em torno de jornalistas que escreviam sobre música nos jornais e revistas.
Todos uns tontos, segundo ele.
Eu disse que não ia escrever coisa nenhuma.
Bravo, vociferando até, ele deu de garra de uma caneta Pilot e compôs num instnte uma canção que ficou lá pregada durante anos.
Pois é.
Outra vez pedi que ele me desse um depoimento sobre o Rei do Baião.
E ele não se fez de rogado:
- Se Luiz Gonzaga estivesse aqui presente, ele tocaria moderno. Ou Sivuca e outros grandes músicos.
O que acontece é que a gente não tem memória da época.
Quando cheguei a São Paulo, eu era apelidado pejorativamente como um cara que só tocava baião.
Aí eu falei para os músicos que hoje querem tocar baião, mas não sabem por que não quiseram aprender, por preconceito: o baião é a musica do futuro, porque nos dá a oportunidade de usar várias tendências em volta dele.
Por exemplo: hoje faço um trabalho com sinfônica, ou com big band, ou com qualquer formação e em qualquer jornal do mundo sai assim: até que, enfim, surgiu alguma música para substituir o jazz. Esse brasileiro é original, ele não perdeu a identidade dele, a essência dele. Por quê? Justamente isto: tem que evoluir. Se você evolui, você vai evoluindo com aquela essência sua e vai misturando. O que chamo hoje a música que nós fazemos é a musica universal. Exatamente porque a gente não tem medo de nada.
Agora, além do visual, Luiz Gonzaga tinha tudo.
Uma novidade pra você: eu não conheci Luiz Gonzaga pessoalmente.
A Dominguinhos, a Gonzaguinha, eu dizia: como é, rapaz, não vai me levar para conhecer o coroa, não? “Pode deixar, um dia eu vou”. Uma hora era o Gonzaguinha, uma hora era o Dominguinhos com aquela voz dele.
Um dia ele (Luiz Gonzaga) me deixou uma porção de chapéus de couro. “Já que eu não vejo o Hermeto, vou deixar um chapéu de couro praquele cabra da peste”.
Os ritmos formam um balaio.

Trecho de depoimento constante nas páginas 172 e 173 do livro Dicionário Gonzagueano de A a Z, que publiquei em 1996 via Trends Engenharia e Tecnologia.

FERNANDO COELHO
O poeta e jornalista baiano Fernando Coelho daqui a pouco estará conosco, proseando no programa O BRASIL TÁ NA MODA. Bom não perder nosso papo. Acesse: rádio Trianon AM 740, às 14 horas, também pela Internet.

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