O feminicídio é uma praga universal. Sempre foi.
Seguir o blog
sexta-feira, 29 de maio de 2026
O CEGO NA HISTÓRIA (38)
O feminicídio é uma praga universal. Sempre foi.
quinta-feira, 28 de maio de 2026
O CEGO NA HISTÓRIA (37)
Pois é, Glauco Mattoso é personagem do cotidiano brasileiro. Isso porque diz e escreve o que pensa. Seus pensamentos se interligam com tudo que vive no dia a dia. E detalhe é que tudo que faz nos chama atenção pelo fato puro e simples do talento que tem como intelectual.
sábado, 23 de maio de 2026
O CEGO NA HISTÓRIA (36)
Glauco Mattoso é autor de uma obra extensíssima e que não para de crescer. Seria o caso até de se dizer que esse genial escriba começou a bagunçar o coreto literário desta parte do mundo desde de tenra era. Buliçoso de nascença, Glauco chutou o pau da barraca da censura de plantão e de censuras paralelas sem pestanejar. Sempre disse o que quis e assim continua dizendo o que quer, seja na forma poética ou na forma de prosa. É um nome marcante, na verdade inesquecível. Numa frase? Glauco é da nossa literatura um tsunami ou uma explosão múltipla de vulcões sempre a nos chamar a atenção. E por que não dizer, a nos ferir com graça, amor e rebeldia?
Não são poucos os especialistas em literatura que já falaram do Glauco aqui em questão. Pedro Ulysses Campos, por exemplo, escreveu o seguinte:
"a poesia de Glauco Mattoso pode ser dividida, chronologica e formalmente, em duas phases distinctas: a primeira seria chamada de PHASE VISUAL, emquanto o poeta practicava um experimentalismo parodico de diversas tendencias contemporaneas, desde o modernismo até o underground, passando, principalmente, pelo concretismo, o que privilegiava o aspecto graphico do poema; a segunda seria chamada de PHASE CEGA, quando o auctor, ja privado da visão, abbandona os processos artezanaes, taes como o concretismo dactylographico, e passa a compor sonnettos e glosas, onde o rigor da metrica, da rhyma e do rhythmo funcciona como alicerce mnemonico para uma releitura dos velhos themas mattosianos (a fealdade, a sujidade, a maldade, o vicio, o trauma, o estigma), reapproveitando technicas barrocas e concretistas (paronomasia, allitteração, euphonia e cacophonia dos echos verbaes) de mixtura com o calão e o colloquialismo que sempre characterizaram o estylo hybrido do auctor. A phase visual vae da decada de 1970 até o final dos annos 1980; a phase cega abre-se em 1999, com a publicação dos primeiros livros de sonnettos."
Agora, meus amigos e amigas, que tal conhecer mais um pouco arespeito desse cabra?
Então, lá vai: GLAUCO POR GLAUCO.
O nome artistico do poeta Glauco Mattoso (que tambem é ficcionista, chronista e philologo) é um dos pseudonymos de Pedro Joseph Ferreira da
Sylva (paulistano de 1951) e trocadilha com "glaucomatoso" (portador de glaucoma, doença congenita que lhe accarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995), alem de alludir a Gregorio de Mattos, de quem é herdeiro na satyra politica e na critica de costumes.
Como poeta, GM notabilizou-se por mais de oito mil sonnettos (superando, em nivel canonico, a historica marca do italiano Giuseppe Belli, auctor
de 2279 sonnettos no seculo XIX), muitos dos quaes em cyclos narrativos.
O maior destes cyclos compõe o romance lyrico RAYMUNDO CURUPYRA, O CAYPORA (2012), que lhe valeu um premio Jaboty; outros cyclos
compuzeram o volume SACCOLA DE FEIRA (2014), que lhe valeu um premio Oceanos.
Como prosador, seus principaes titulos são os romances MANUAL DO PODOLATRA AMADOR (1986, reeditado em 2006), A PLANTA DADONZELLA (2005, reeditado em 2020, paraphraseando A PATTA DA GAZELLA de José
de Alencar), alem das collectaneas CONTOS HEDIONDOS (2009), TRIPÉ DO TRIPUDIO E OUTROS CONTOS HEDIONDOS (2011) e CONTOS QUANTICOS (2016). Na prosa poetica, seus titulos de destaque são PROMPTOS PONCTOS: CONTOS (2023) e INEXSISTENCIALISMO: ENSAIOS PHILOSOPHICOS (2023).
Como estichologo, publicou um TRACTADO DE VERSIFICAÇÃO (2010); como philologo, organizou um DICCIONARINHO DO PALAVRÃO (inglez/portuguez e vice-versa) e um DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO PHONETICO/ETYMOLOGICO para fundamentar sua predilecção pela norma classica da escripta portugueza.
Sua obra comprehende centenas de titulos, quasi todos disponiveis na nuvem em:
https://www.dropbox.com/sh/m8jq3615v16g2zt/AACEKn9GzBQUpQm
yutQU6Bnha?dl=0
Os titulos mais recentes estão gratuitamente disponiveis na nuvem pelo sello Casa de Ferreiro, no instagram:
@ed.casadeferreiro
[2] NOTA BIOGRAPHICA
Appós cursar bibliotheconomia (na Eschola de Sociologia e Politica de São Paulo, bacharelando-se em 1972) e lettras vernaculas (na USP,
sem concluir), ainda nos annos 1970 participou, entre os chamados "poetas marginaes", da resistencia cultural à dictadura militar, epocha em que, residindo temporariamente no Rio, editou o fanzine poetico-pamphletario JORNAL DOBRABIL (trocadilho com o JORNAL DO BRAZIL e com o formato dobravel do folheto satyrico, publicado como livro em 1981 e reeditado em 2001) e começou a collaborar em diversos organs da imprensa alternativa, como LAMPEÃO (tabloide gay) e PASQUIM (tabloide
humoristico). Em 1978 participou da fundação do gruppo SOMOS, pioneiro do movimento homosexual organizado no paiz.
Durante a decada de 1980 e o inicio dos annos 1990 continuou militando no periodismo contracultural, desde a HQ (diversos gibis, entre os quaes
CHICLETTE COM BANANA, mas não deve ser confundido com o cartunista Glauco Villas Boas) até a musica (revistas SOMTREZ e TOP ROCK), alem de collaborar na grande imprensa (critica litteraria no JORNAL DA TARDE, ensaios na STATUS e na AROUND), e publicou varios volumes de poesia e prosa.
Na decada de 1990, com a perda da visão, abbandonou a creação de cunho graphico (poesia concreta, quadrinhos) para dedicar-se à lettra de musica e à producção phonographica, associado ao sello independente Rotten Records.
Com o advento da internet e da computação sonora, voltou, na virada do seculo, a produzir poesia escripta e textos virtuaes, seja em livros, seja em seu exstincto sitio pessoal, seja em diversas revistas electronicas
(como www.cronopios.com.br ou www.blocosonline.com.br) e
impressas (CAROS AMIGOS, OUTRACOISA, G MAGAZINE, DISCUTINDO LITTERATURA,
METAPHORA). Jamais deixou, entretanto, de explorar themas polemicos, transgressivos ou politicamente incorrectos (violencia, repugnancia, humilhação, discriminação) que lhe alimentam a reputação de "poeta maldicto" e lhe inscrevem o nome na linhagem dos auctores
fescenninos e submundanos, como Bocage, Aretino, Apollinaire, Sade ou Genet.
Em collaboração com o professor Jorge Schwartz (da USP) traduziu a obra inaugural de Jorge Luis Borges, trabalho que lhes valeu um premio
Jaboty em 1999. Nesse terreno bilingue GM tem-se dedicado a outros auctores latinoamericanos, como Salvador Novo e Severo Sarduy, e tem sido traduzido por collegas argentinos, mexicanos e chilenos.
No cinema, GM foi objecto do documentario "Filme para poeta cego", de Gustavo Vinagre, que venceu o festival de curtas da 20ª edição do Mix Brazil, em 2012.
Em 2009, GM readopta a orthographia etymologica que practicava nos primeiros poemas e no DOBRABIL: naquella epocha, satyrizava osclassicismos canonicos; agora, reage contra os auctoritarismos culturaes, suppostamente reformistas. Seu anachronismo radical fica evidente no titulo da columna no portal "Chronopios": "Anarchico Archaico".
Em 2013, é rankeado em 26º logar entre 50 escriptores brazileiros vivos, numa enquete do CORREIO BRAZILIENSE votada por especialistas.
Em 2015, por seu appreço pela "litteratura de bordel" (vertente fescennina da litteratura de chordel), GM é diplomado como membrohonorario da ACLAME (Academia Canindeense de Lettras, Artes e Memoria),sediada naquella cidade cearense.
Em 2023, GM é eleito, pela Academia Brazileira de Sonnettistas (ABRASSO), para a cadeira nº 35, cujo patrono é o Lobo da Madragoa (Antonio Lobo de Carvalho).
sexta-feira, 22 de maio de 2026
O CEGO NA HISTÓRIA (35)
Agora, meus amigos e amigas, vamos para a parte final do papo que mantive com o mais prolífico autor brasileiro de sonetos. Digo brasileiro, mas pode ser o mais prolífico autor de sonetos do mundo desde sempre. Vamos lá!
7. Você também tem escrito textos em prosa? E textos para música?
GM - Sim, fiz parceria com musicos de varias tendencias, geralmente pondo melodia em meus sonnettos. Mas fiz pausas na producção poética para escrever trez volumes de contos, um romance parodico, A PLANTA DA DONZELLA (pervertendo a podolatria do José de Alencar em A PATTA DA GAZELLA), e em tractados orthographicos e estichologicos, alem de ensaios sobre sadomasochismo e fetichismo, chronicas e columnas naimprensa, como na revista CAROS AMIGOS.
8. No dia a dia você ouve rádio, TV, CD, LP, que mais? Cinema, teatro...?
GM - Fiz parte do gruppo de theatro do Paschoal da Conceição (discípulo do Zé Celso) emquanto ainda enxergava, mas agora não vou mais a shows, peças nem filmes. Sahir de casa é muito sacrificado e inseguro. Prefiro curtir som nos phones de ouvido e ouvir filmes pela TV, com áudio descripção do meu esposo. Meus cineastas predilectos são Kubrick, Ken Russell, Pasolini, David Lynch e Almodovar. Nenhum brazileiro.
Todos, aqui, são bundas molles. Só Zé do Caixão passa perto do que quero. Ja que o cinema não me faz tanta falta, preencho o meu quotidiano como posso. Nestes dois sonnettos dou idéa, practica e theorica:
TERRITORIO TRANSITORIO [4454]
Si longa for demais a minha estrada,
talvez nem haja tempo de voltar.
Si houver, voltar aonde? A qual logar
pertenço? Algo acharei, voltando, ou nada?
Na duvida, prosigo. Penso, a cada
momento, si na vida vou deixar
alguma coisa prompta e, quando o par
de botas pendurar, si a coisa aggrada.
A vida passa rapido! Me enganno
achando que algum plano poderia
fazer, pois muda tudo, ao fim dum anno.
Melhor, mesmo, é prever uma utopia
mensal, ou semanal, cumprindo um plano
a cada minutinho do meu dia.
///
DIA DO BRAILLE [10.692]
Cansei ja de fallar! Essa mania
que todos os que enxergam teem me cansa,
pois acham que mais pesa na ballança
dum cego si elle em braille se vicia!
Àquelle que ja viu e que ja lia
nas lettras normaes, é desesperança
total que, nuns ponctinhos, haja mansa
leitura pelo tacto! Nem podia!
Ponctinhos appalpar é como ousar
ler algo por um pão com gergelim
ou, por um brigadeiro, solettrar!
Prefiro, pois, comel-os! Para mim,
programmas de informatica logar
tomaram desse braille tão ruim!
///
9. Glauco, dá uma resumida da vida vivida até aqui.
GM - Não recompensou mas compensou. Não recompensou porque sancto de casa não faz milagre. Si eu fosse francez ou inglez ja teria sido reconhescido, seja pela qualidade, seja pela quantidade, seja pelo contehudo pornô, seja pelo lado mais "nobre" e "elevado" dathematica philosophica, mas nem siquer tenho contracto com uma editora commercial. Só pela Braziliense publiquei ensaios sobre poesia marginal e tortura e, pela Record, um diccionario bilingue de palavrões, mas para a poesia não exsiste editor. Tenho eu mesmo que publicar, pelo meu sello Casa de Ferreiro, os livros de poemas, preparados pelo Lucio: um catalogo de cento e cincoenta titulos, na maioria ebooks e alguns impressos. Ou seja, compensou nesse sentido, da obra produzida, publicada e estudada no meio academico. Por fallar em academia, sou membro benemerito da ABRASSO, Academia Brazileira de Sonnettistas.
10. E essa coisa de família, amor, esperança... Você tem medo da morte? E da violência que grassa no mundo, hein? Nós humanos temos salvação, nascemos para ter felicidade?
GM - Salvação? Necas de tupybirybas! Si me perguntarem si sou racista, respondo que sim: acho que a raça humana deveria ser exstincta por um cometa ou por um attaque extraterrestre. Só tenho pena do viralatta caramello e do basset hound, as raças mais fofas.
Meu esposo ainda me deixa accreditar no affecto e no companheirismo. A culinaria italiana e as sobremesas mineiras me deixam accreditar no lado approveitavel da vida, desaffiando o quadro diabetico. Serve de consolo.
11. Em 1905, Olavo Bilac e Guimarães Passos publicaram um livro intitulado Tratado de Versificação. Você tem um livro com esse mesmo título. Fale da sua obra e de quantos livros publicou até agora. Tem pensado em roteiro para cinema?
GM - Meu tractado tinha o titulo de O SEXO DO VERSO: MACHISMO E FEMINISMO NA REGRA DA POESIA, typo uma these, mas accabou sahindo impresso com o titulo mais obvio. Ja o reeditei pelo meu sello. Já publiquei mais de duzentos livros, na maioria digitaes, pela Casa de Ferreiro, alguns impressos em pequena tiragem. Todos serão raridades nos sebos virtuaes ou physicos do paiz... Para cinema quem me ropteirizou e dirigiu foi Gustavo Vinagre, no premiado FILME PARA POETA CEGO, mas almejo um longa metragem para meu romance lyrico RAYMUNDO CURUPYRA, O CAYPORA, todo composto em sonnettos, mas de enredo repleto de acção, adventura e sexo, ambientado em Sampa, que até ganhou um Jaboty.
Não creio num director nem numa productora capazes de encarar um argumento tão violento e cruel, que aliaz termina em suicidio, sem querer querendo dar spoiler.
12. O seu sobrenome é o mesmo sobrenome de um caboclo pernambucano chamado Virgulino e que entrou para a história como Lampião. Esse era cego de um olho e dizia que não precisava de dois porque para acertar no alvo tinha de fechar um deles. Pergunta: dá pra comparar a violência lampiônica com a violência praticada ora em dia pelos soldadecos do crime organizado?
GM - Não. Lampeão foi mais malvado ainda. Umas lendas dizem que elle perdeu um olho galopando pela caatinga, de raspão num cacto, mas outras dizem que elle tambem teve glaucoma. Seja como for, elle me fascina e já foi thema de meus poemas. Ja sonhei que entrava para o bando delle só para poder massagear os pés delle e dos demais jagunços... Por fallar nisso, me especializei na massagem podotherapeutica, chamada reflexologia, e frequento uma clinica onde todos os massagistas são cegos. La sou massageado e tambem massageio. O effeito é relaxante e allivia o estresse do dia a dia.
Emfim, os pés não são somente fonte de fetichismo, mas tambem de tractamento holistico. Outra de minhas manias, essa especie de bruxaria do bem. A bruxaria do mal eu deixo para revidar o mau olhado dos meus inimigos, que não se conformam que um cego possa ser escriptor... Mas, para não perder a deixa, observo que, si sou xará do Lampe pelo sobrenome, sou pelo prenome xará do Pedro José Constancio, um pornô contemporaneo do Bocage. Versejei sobre esses xarás e dou exemplo abbaixo, num sonnetto que virou dissonnetto (com quattro quartettos) e numa ode decasyllaba.
PRETO NO BRANCO [4113]
Que eu tenha o sobrenome de Ferreira
da Sylva, que é tambem do Virgulino,
não causa expanto algum, sendo destino
commum a muita gente brazileira.
Mas, caso de outros dados alguem queira
saber, e quando os factos examino,
descubro que o bandido nordestino
estava, num dos olhos, com cegueira.
Glaucoma tambem teve Lampeão,
molestia que, supponho, a ponctaria
em nada lhe affectara no olho são
nem sua vida activa affectaria.
Bandidos, todos somos, todos são.
Commigo algo em commum a mais teria
aquelle cangaceiro: uma visão
normal da crueldade, noite e dia.
quarta-feira, 20 de maio de 2026
O CEGO NA HISTÓRIA (34)
Assis Ângelo entrevista Glauco Mattoso
É sério, como se vê, o papo cego, este papo cego que iniciamos no
dia tal neste nosso Jornalistas&Cia. Há pouco, enviei uma dúzia de perguntas ao camarada Glauco Mattoso. O cabra é bom. Bom, não: é ótimo.
As perguntas que pediram respostas podem não ser o suprassumo de um caboco como eu, mas as respostas são pra lá de ótimas. Dividimos este papo pelas ondas da Internet em duas partes. Na primeira, Glauco conta de si e dos outros findando com citação ao mestre inglês John Milton. Esse Milton, autor do clássico Paraíso Perdido nasceu no 9 de dezembro de 1608. E deste planetinha despediu-se em no dia 8 de novembro de 1674. Bom, vamos nessa edigam o que acharam.
1. Glauco, conte-nos um pouco sobre a sua vida incluindo filiação, irmãos etc...
GM - Ja fallei e escrevi muito sobre tudo isso e muito ja escreveram sobre mim. Mas neste caso nossa conversa é como si fosse battepappo entre collegas no bar. Vale repisar toda a coisa. Para começar, quem lê para você vae reparar que escrevo pela antiga orthographia neste computador fallante. A orthographia é uma de minhas muitas manias e faz parte da rebeldia que me characteriza. No caso, contra um sacco de gattos pingados que se acha no direito de cagar regras a toda uma communidade lusophona. Ser retrô, às vezes, significa ser anarchista, até vanguardista. Mas vamos la. Sou Ferreira da Sylva só por parte do avô paterno, mas os outros antepassados são italianos, os Canettieri e os Torrezani. Sou da Zona Leste de Sampa, redondezas da Mooca. Mais velho de trez irmãos. Só eu nasci com glaucoma, como o Ray Charles e o filho do Roberto Carlos. Ray Charles não era rico e perdeu a visão ainda creança. O filho do Roberto, mesmo rico, tambem accabou perdendo.
Eu, da classe media baixa, passei por oito cirurgias, perdi primeiro o olho direito e, ja muito myope, o olho esquerdo depois dos quarenta.
Suppondo que ficaria cego, e sem poder fazer tudo que a molecada fazia, virei leitor e escriptor desde cedo. Melhor alumno tambem, claro. Por causa disso sempre me bullyingavam, dentro e fora da eschola, e por causa disso virei sadomasochista: me fizeram lamber pés e chupar paus.
Molecada typica de peripheria: nos annos cincoenta os arredores da avenida Sapopemba ainda eram muito baldios e os mattagaes o melhor scenario para curras entre moleques. Trauma duplo, o da deficiencia visual e o das curras, mas a litteratura serviu para desabbafar e a poesia para glosar. Para gozar, bastava a punheta. Até que eu encontrasse minha turma, nos annos septenta, nos gruppos de theatro e de militancia gay. Emquanto isso, me formei bibliothecario, trabalhei como bancario e desbundei como um dos poetas "marginaes" daquella geração. O que me destaccou foi um poezine muito anarchico, chamado JORNAL DOBRABIL (parodiando o JORNAL DO BRAZIL), que era uma folha dobravel, ou seja, "dobrabil". Recyclei a anthropophagia oswaldiana, mas, como sou mais escatologico, a minha foi uma "coprophagia". Durante a dictadura, tal irreverencia chamou a attenção dos artistas e intellectuaes. Virei discipulo do Augusto de Campos e do Millor Fernandes, que me davam força. Até Caetano Velloso deu. Esse pamphleto virou livro e se tornou meu chartão de visita. Em seguida escrevi um romance autobiographico, o MANUAL DO PODOLATRA AMADOR: ADVENTURAS E LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS, onde narro essa porra toda. Mas o que eu queria mesmo era ser poeta.
Junctei os poemas do DOBRABIL em livro, mas não eram os sonnettos que hoje faço. Essa disciplina e esse rigor vieram depois da cegueira completa, ou talvez por causa della, ja que a metrica e a rhyma adjudam a memorizar e a compor na cabeça antes de passar para o computador fallante. Prompto, fallei, por fallar nisso.
2. Sei que o seu nome de batismo é Pedro José Ferreira da Silva.
Como surgiu o pseudônimo Mattoso? Conte detalhes.
GM - Paresce piada prompta. O portador de glaucoma é glaucomatoso. Claro que eu percebi a analogia com Gregorio de Mattos, outro satyrico e fescennino. Mas a intenção era usar meu logar de falla como deficiente para sacanear todas as deficiencias como parte duma "missão" sadomasochista, ja que meu pae era kardecista e eu, embora não siga nenhuma chartilha, me tornei uma mixtura de antagonismos: sou exsistencialista e espirita. A contradicção e o paradoxo são outra de minhas manias. Gosto de explorar os conflictos humanos, a dupla personalidade, entre a perversão e a perversidade, entre a compaixão e a humanidade, en tudo e em todos. Por isso desdenho das censuras, que só visam a apparencia pornographica exterior, ignorando contehudos mais profundos. Nem sei o que é peor, a censura de "bons costumes" da direita ou a "politicamente correcta" da esquerda.
Para mim, pisar no callo dos excluidos me irmana a todos os injustiçados, os da graça divina e os da desgraça humana.
3. Particularmente, tenho muita dificuldade de aceitar com naturalidade o problema que me causou o descolamento de retina. Eu estava entrando na casa dos sessenta. Fui submetido a nove cirurgias em vão. E você como recebeu a notícia dos médicos dando conta de que você estava cego? Passou por tua cabeça a ideia de suicídio?
GM - Como eu dizia, passei por oito cirurgias, a primeira aos oito annos e a ultima aos quarenta e quattro. A cada operação, os medicos repetiam que, si eu continuasse enxergando, estaria no lucro, pois meu glaucoma congenito é fatal. Perdi o olho direito depois dos vinte e o esquerdo depois dos quarenta. Ja sem visão no direito, fui morar no Rio para poder trabalhar como bibliothecario no Banco do Brazil, mas na verdade eu queria sahir da casa dos paes para não me suicidar emquanto la morasse, a fim de poupar a familia do choque directo.
Elles receberiam a noticia à distancia. No Rio os abysmos são faceis de accessar e eu queria seguir o exemplo de outros artistas que se precipitaram. Para mim a perda do olho esquerdo viria logo, mas não veiu e segui tocando a vida, mas ja convivendo com gente do meio artistico e intellectual. Foi la que comecei a editar o DOBRABIL. Isso me entreteve e accabei addiando o suicidio. Na volta a Sampa, comecei a morar em appartamento (no Rio a pensão ficava num casarão), primeiro num segundo andar, depois num nono, donde planejei me jogar assim que perdesse o olho esquerdo. Depois da perda total, mamãe veiu morar commigo uns mezes e addiei de novo. Mais tarde, percebi que conseguia me virar sozinho dentro de casa e, de repente, o sobrenatural interferiu. Traduzi Borges juncto com o professor Jorge Schwartz, ganhamos um Jaboty pela traducção, e adquiri meu primeiro computador fallante, installado com o programma DOSVOX, da UFRJ, editor de texto que uso até hoje. Esse programma me permittiu digitar tudo que vinha na cabeça, inclusive uma poesia rhymada e metrificada que eu nem imaginara poder compor. No primeiro anno, passei dos trezentos sonnettos e, no terceiro, dos mil. Hoje passei dos quattorze mil poemas, interrompi varias vezes a producção poetica para escrever e publicar outras coisas e, depois de duzentos livros, entendo que esse affan me dissuadiu do suicidio, appesar duma cegueira cada vez mais soffrida com a chegada da velhice e de outras doenças, como a neuropathia diabetica. Entretanto, a coincidencia com Borges não foi só na cegueira progressiva e na perda em meia edade: foi tambem na vida conjugal, ja que, a exemplo da Maria Kodama, tambem me casei com um japonez, cuja companhia me reforçou a decisão de ir
addiando o suicidio, que não está definitivamente deschartado, ja que a morte assistida do Antonio Cicero me suggere que agora a coisa fica mais viavel.
4. Pra falar a verdade, ainda não me considero com a cabeça totalmente no lugar. Ainda entro em depressão... A literatura me faz bem. É como se fosse remédio. Ouço livros e dito textos a pessoas queridas como a historiadora Flor Maria. E você ouve muito livro, mexe na Internet com facilidade?
GM - Não gosto de audiolivros. Prefiro ler/ouvir um texto no computador fallante, digitado por mim mesmo ou por outros auctores. Meu esposo lê para mim, inclusive jornaes, e ouço radio para me informar do noticiario. Tambem ouço muita musica em CD e cheguei a produzir CDs de punk rock em sociedade com o membro duma dessas bandas. Um desses CDs, chamado MELOPÉA, junctou gente que musicou meus sonnettos, desde Arnaldo Antunes ao cearense Falcão. Mas o DOSVOX só me permitte trocar emails, pois nas redes é meu esposo Akira, alem do meu editor Lucio Medeiros, quem monitora o facebook, o instagram e o twitter. Nada disso remedia a depressão, a insomnia e a angustia exsistencial, todavia. Continuo maldizendo a cegueira e, ao contrario de Borges, não acho que seja uma dadiva divina. Dadiva foi a veia poetica, graças à assistência espiritual de Borges, Homero, Milton, Joyce, sem fallar no Cego Adheraldo...
5. Eu sempre li autores diversos, nacionais e estrangeiros. E você, de quais autores mais gosta? E gêneros literários como romance, conto, poesia...?
GM - As influencias directas são do Augusto de Campos na poesia e do Millor no livre pensar. Com elles convivi e dialoguei. Mas as influencias remotas vão da sexualidade violada à cantoria violeira, passando por Sade, Masoch, Aretino, Bocage, Gregorio e chordelistas da "litteratura de bordel", practicantes da chamada glosa fescennina, herdeira dos epigrammas latinos e dos goliardos medievaes. Sou, portanto, um legitimo expoente da tradição pornographica na litteratura canonica, ja que sou estudado em theses de universidades nacionaes e extrangeiras. Na prosa tambem curto Genet, Henry Miller, Orwell e Burgess, mas, como tenho a cultura encyclopedica dos bibliothecarios, apprecio muitos classicos universaes, de Boccaccio a Rabelais.
6. Acabei de escrever uma série sobre licenciosidade na cultura popular. Nesse trabalho, que pretendo que vire livro sob o título Do Popular ao Erudito: o Sexo como Expressão Artística, tem de tudo, incluindo obras de autores como Gregório de Matos e Guerra, Dalton Trevisan, Hilda Hilst, Marquês de Sade, Restif de La Bretonne, entre muitos outros. Você é um apaixonado pelo Boca do Inferno. O que você tem escrito sobre ele? E no campo propriamente poético, de que você mais gosta: quadra, redondilhas, sextilhas, décimas ou sonetos?
GM - Estou nas principaes anthologias eroticas, inclusive a da Eliane Robert Moraes e a do Alexei Bueno, subtitulada DE GREGORIO DE MATTOS A GLAUCO MATTOSO. Em Gregorio sigo a linha satyrica, não só sexual mas tambem politica, alem do modello sonnettistico camoneano. Minha producção mais volumosa é de sonnettos (onze mil, um recorde), mas já glosei muito motte e pellejei com gente de respeito, como o Moreira de Acopiara, que publicou nosso folheto.
Não satisfeito, inventei gêneros alternativos, como o dissonnetto de quattro quartettos ou o "infinitilho" de estrophes illimitadas, cada estrophe sem limite de versos, mas rhymadas na sequencia das anteriores, typo ABCDEFG... O exemplo barroco de Gregorio é instigante no sentido de crearmos jogos de palavras e eschemas estrophicos/rhymaticos engenhosos. O concretismo tambem me estimulou nesse terreno. Em alguns cyclos narrativos mais longos usei formatos estrophicos variados, como decima seguida de quartetto, oitava camoneana e verso livre, mas a cegueira sempre predominando como thema, como em "São Sansão, Sancta Dalila", "Evangelho de Judas Izrahiah" ou "Historia da cegueira", estes reunidos no livro OBSCURAS ESCRIPTURAS, satyrizando a mythologia biblica, a exemplo do John Milton, que revisitou a lenda de Sansão.
Meu amigo, minha amiga: você está gostando desse nosso papo?
Tem mais. Aguarde...
segunda-feira, 18 de maio de 2026
O CEGO NA HISTÓRIA (33)
Antes de os portugueses aportarem na nossa costa baiana, habitavam nossas matas, nossas terras, muito mais de cinco milhões de indígenas. A esse número também chegaram africanos e africanas trazidos à força para cuidar dos interesses dos ricos e poderosos aboletados na terra brasilis. Sim, essa mesma terra em que vivemos em nome de Deus e da paz.
sexta-feira, 15 de maio de 2026
O CEGO NA HISTÓRIA (32)
A história registra a presença de escravos desde tempos imemoriais. Foi assim na Grécia, no Egito, na Inglaterra, na Itália, nos EUA e mais e mais em todo canto.
quarta-feira, 13 de maio de 2026
O CEGO NA HISTÓRIA (31)
Sob as rodas de um trem também sucumbiu a protagonista de um romance do russo Tolstói, Anna Karênina.
POSTAGENS MAIS VISTAS
-
Coisas da vida. Zica Bergami, autora da valsinha Lampião de Gás partiu. Tinha 97 anos completados em agosto. O caso se deu ontem por volta d...
-
http://www.youtube.com/watch?v=XlfAgl7PcM0 O pernambucano de Olho da Agua, João Leocádio da Silva, um dos mais inspirados compositores...
-
Cegos e demais pessoas portadoras de deficiência, seja ela qual for, come o pão que o diabo amassou. Diariamente. SER CEGO É UMA MERDA! Nã...
-
Este ano terrível de 2020 está chegando ao fim, sem deixar saudade. Saudade é coisa que machuca, que dói. É uma coisa que Deus botou no mund...
-
Escondidinho de carne seca e caldinho de feijão antecederam o tirinete poético travado ao som de violas repentistas ontem à noite, na casa ...
-
Intriga, suspense, confusão, mentira, emoção atentado contra a ordem e a lei e otras cositas mas . O cantor, compositor e instrumentista To...