As desgraças do mundo foram tantas que quase desnecessário é dizer que já não cabem no balaio do passado. E por não caberem completamente nesse balaio, dificilmente caberão no espaço do presente que vivemos.
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quarta-feira, 8 de julho de 2026
O CEGO NA HISTÓRIA (47)
quarta-feira, 1 de julho de 2026
O CEGO NA HISTÓRIA (46)
A onda de cristãos-novos começou na última década do século 15 em Portugal, quando o rei D. Manuel I determinou que judeus e muçulmanos assumissem a fé católica.
paixão de frade
em seu engenho
da Paraíba
repele o amor
pecaminoso.
O amor se vinga:
é acusada
de judaísmo.
Já vão prendê-la.
Atira joias
e prataria
na correnteza.
A água vira
Riacho da Prata.
Morre queimada
no santo lume
da Inquisição
em Portugal.
Reaparece
na Paraíba
em Pernambuco
sob o luar
toda de branco
sandálias brancas
cinto azul-ouro.
Branca Dias
— garantem livros —
nunca existiu,
é lenda pura
de lua cheia.
E a Inquisição
provavelmente
outra ilusão.
Eram. O pai sentado,
Calado e triste. Reclinada a fronte
No espaldar da cadeira, a filha os olhos
E o rosto esconde, mas tremor contínuo
De um abafado soluçar o esbelto
Corpo lhe agita. Nuno aos dois se chega;
Ia a falar, quando a formosa virgem,
Os lacrimosos olhos levantando,
Um grito solta do íntimo do peito
E se lhe prostra aos pés: “Oh! vivo, és vivo!
Inda bem... Mas o céu, que por nós vela,
Aqui te envia... Salva-o tu, se podes,
Salva meu pobre pai!” Estremecendo
Nela e no velho fita Nuno os olhos,
E agitado pergunta: “Qual ousado
Braço lhe ameaça a vida?” Cavernosa
Uma voz lhe responde: “O santo ofício!”
Volve o mancebo o rosto
E o merencório aspecto
De dois familiares todo o sangue
Nas veias lhe gelou...
segunda-feira, 29 de junho de 2026
O CEGO NA HISTÓRIA (45)
Não foram muitos os astrônomos e intelectuais que tais que escaparam vivos da fogueira dos juízes malucos do Tribunal do Santo Ofício. Galileu foi uma dessas figuras que ganharam a oportunidade de viver por mais algum tempo ao concordar, sob pressão, com a tese católica de que a Terra seria o centro do Universo.
Um negro magro de sufulié justo,
Dois azorragues de um joá pendentes,
Barbado o Peres, mais dois penitentes,
Seis crianças com asas sem mais custo.
De vermelho o mulato mais robusto,
Três fradinhos meninos inocentes,
Dez ou doze brichotes mui agentes,
Vinte ou trinta canelas de ombro onusto.
Sem débita reverência seis andores,
Um pendão de algodão tinto em tijuco,
Em fileira dez pares de menores.
Atrás um cego, um negro, um mameluco,
Três lotes de rapazes gritadores:
É a procissão de cinza em Pernambuco.
segunda-feira, 22 de junho de 2026
O CEGO NA HISTÓRIA (44)
segunda-feira, 15 de junho de 2026
O CEGO NA HISTÓRIA (43)
A terra prometida constante da Bíblia hebraica ficava ali onde hoje se acham Israel e Palestina.
quarta-feira, 10 de junho de 2026
O CEGO NA HISTÓRIA (42)
Em 1968 quando França, Vietnã e EUA pegavam fogo e mudavam até o modo de pensar e agir de muita gente ao redor do mundo, países emblemáticos e poderosos como os aqui já citados, tinham representantes sentados à mesa de discussões para assinar o que passou a ser chamado Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP).
segunda-feira, 8 de junho de 2026
O CEGO NA HISTÓRIA (41)
Pois é, o filho do Homem dá um beijo no Inquisidor e vai-se embora depois que a porta da prisão lhe é aberta. E vai-se com a expressa recomendação de que nunca mais retorne à Terra. Nossa Terra, nosso planetinha, que parece a tudo sobreviver engolindo seus entes. Algo como a mitológica Fênix, aquela que renasce com mais vigor das próprias cinzas.
quarta-feira, 3 de junho de 2026
O CEGO NA HISTÓRIA (40)
Não é de todo surpreendente a afirmação de que a montanha de páginas que forma Os Irmãos Karamázov é pérola de brilho tão intenso capaz de até cegar olhos desavisados.
segunda-feira, 1 de junho de 2026
O CEGO NA HISTÓRIA (39)
| Crédito: Biblioteca Mundial |
Os Irmãos Karamázov, calhamaço também clássico do mestre russo Fiódor Dostoiévski, trata da história de um cara completamente anômalo que aprendeu a viver tirando proveito de tudo e de todos. Mais do que boçal e oportunista, o personagem Fiódor Pavlovich Karamázov chegou a casar-se duas vezes. Na primeira, juntou seus interesses a uma jovem ingênua e bem dotada em todos os sentidos. Ela não aguenta viver com o malandro e foge com um seminarista que não tinha onde "cair morto", na expressão do próprio romancista. A mulher, Adelaida, acaba morrendo de febre tifoide ou de fome. Ou as duas coisas. Fiódor quando soube da notícia saiu correndo feliz, alegre. Estava rico e livre.
sexta-feira, 29 de maio de 2026
O CEGO NA HISTÓRIA (38)
O feminicídio é uma praga universal. Sempre foi.
quinta-feira, 28 de maio de 2026
O CEGO NA HISTÓRIA (37)
Pois é, Glauco Mattoso é personagem do cotidiano brasileiro. Isso porque diz e escreve o que pensa. Seus pensamentos se interligam com tudo que vive no dia a dia. E detalhe é que tudo que faz nos chama atenção pelo fato puro e simples do talento que tem como intelectual.
sábado, 23 de maio de 2026
O CEGO NA HISTÓRIA (36)
Glauco Mattoso é autor de uma obra extensíssima e que não para de crescer. Seria o caso até de se dizer que esse genial escriba começou a bagunçar o coreto literário desta parte do mundo desde de tenra era. Buliçoso de nascença, Glauco chutou o pau da barraca da censura de plantão e de censuras paralelas sem pestanejar. Sempre disse o que quis e assim continua dizendo o que quer, seja na forma poética ou na forma de prosa. É um nome marcante, na verdade inesquecível. Numa frase? Glauco é da nossa literatura um tsunami ou uma explosão múltipla de vulcões sempre a nos chamar a atenção. E por que não dizer, a nos ferir com graça, amor e rebeldia?
Não são poucos os especialistas em literatura que já falaram do Glauco aqui em questão. Pedro Ulysses Campos, por exemplo, escreveu o seguinte:
"a poesia de Glauco Mattoso pode ser dividida, chronologica e formalmente, em duas phases distinctas: a primeira seria chamada de PHASE VISUAL, emquanto o poeta practicava um experimentalismo parodico de diversas tendencias contemporaneas, desde o modernismo até o underground, passando, principalmente, pelo concretismo, o que privilegiava o aspecto graphico do poema; a segunda seria chamada de PHASE CEGA, quando o auctor, ja privado da visão, abbandona os processos artezanaes, taes como o concretismo dactylographico, e passa a compor sonnettos e glosas, onde o rigor da metrica, da rhyma e do rhythmo funcciona como alicerce mnemonico para uma releitura dos velhos themas mattosianos (a fealdade, a sujidade, a maldade, o vicio, o trauma, o estigma), reapproveitando technicas barrocas e concretistas (paronomasia, allitteração, euphonia e cacophonia dos echos verbaes) de mixtura com o calão e o colloquialismo que sempre characterizaram o estylo hybrido do auctor. A phase visual vae da decada de 1970 até o final dos annos 1980; a phase cega abre-se em 1999, com a publicação dos primeiros livros de sonnettos."
Agora, meus amigos e amigas, que tal conhecer mais um pouco arespeito desse cabra?
Então, lá vai: GLAUCO POR GLAUCO.
O nome artistico do poeta Glauco Mattoso (que tambem é ficcionista, chronista e philologo) é um dos pseudonymos de Pedro Joseph Ferreira da
Sylva (paulistano de 1951) e trocadilha com "glaucomatoso" (portador de glaucoma, doença congenita que lhe accarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995), alem de alludir a Gregorio de Mattos, de quem é herdeiro na satyra politica e na critica de costumes.
Como poeta, GM notabilizou-se por mais de oito mil sonnettos (superando, em nivel canonico, a historica marca do italiano Giuseppe Belli, auctor
de 2279 sonnettos no seculo XIX), muitos dos quaes em cyclos narrativos.
O maior destes cyclos compõe o romance lyrico RAYMUNDO CURUPYRA, O CAYPORA (2012), que lhe valeu um premio Jaboty; outros cyclos
compuzeram o volume SACCOLA DE FEIRA (2014), que lhe valeu um premio Oceanos.
Como prosador, seus principaes titulos são os romances MANUAL DO PODOLATRA AMADOR (1986, reeditado em 2006), A PLANTA DADONZELLA (2005, reeditado em 2020, paraphraseando A PATTA DA GAZELLA de José
de Alencar), alem das collectaneas CONTOS HEDIONDOS (2009), TRIPÉ DO TRIPUDIO E OUTROS CONTOS HEDIONDOS (2011) e CONTOS QUANTICOS (2016). Na prosa poetica, seus titulos de destaque são PROMPTOS PONCTOS: CONTOS (2023) e INEXSISTENCIALISMO: ENSAIOS PHILOSOPHICOS (2023).
Como estichologo, publicou um TRACTADO DE VERSIFICAÇÃO (2010); como philologo, organizou um DICCIONARINHO DO PALAVRÃO (inglez/portuguez e vice-versa) e um DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO PHONETICO/ETYMOLOGICO para fundamentar sua predilecção pela norma classica da escripta portugueza.
Sua obra comprehende centenas de titulos, quasi todos disponiveis na nuvem em:
https://www.dropbox.com/sh/m8jq3615v16g2zt/AACEKn9GzBQUpQm
yutQU6Bnha?dl=0
Os titulos mais recentes estão gratuitamente disponiveis na nuvem pelo sello Casa de Ferreiro, no instagram:
@ed.casadeferreiro
[2] NOTA BIOGRAPHICA
Appós cursar bibliotheconomia (na Eschola de Sociologia e Politica de São Paulo, bacharelando-se em 1972) e lettras vernaculas (na USP,
sem concluir), ainda nos annos 1970 participou, entre os chamados "poetas marginaes", da resistencia cultural à dictadura militar, epocha em que, residindo temporariamente no Rio, editou o fanzine poetico-pamphletario JORNAL DOBRABIL (trocadilho com o JORNAL DO BRAZIL e com o formato dobravel do folheto satyrico, publicado como livro em 1981 e reeditado em 2001) e começou a collaborar em diversos organs da imprensa alternativa, como LAMPEÃO (tabloide gay) e PASQUIM (tabloide
humoristico). Em 1978 participou da fundação do gruppo SOMOS, pioneiro do movimento homosexual organizado no paiz.
Durante a decada de 1980 e o inicio dos annos 1990 continuou militando no periodismo contracultural, desde a HQ (diversos gibis, entre os quaes
CHICLETTE COM BANANA, mas não deve ser confundido com o cartunista Glauco Villas Boas) até a musica (revistas SOMTREZ e TOP ROCK), alem de collaborar na grande imprensa (critica litteraria no JORNAL DA TARDE, ensaios na STATUS e na AROUND), e publicou varios volumes de poesia e prosa.
Na decada de 1990, com a perda da visão, abbandonou a creação de cunho graphico (poesia concreta, quadrinhos) para dedicar-se à lettra de musica e à producção phonographica, associado ao sello independente Rotten Records.
Com o advento da internet e da computação sonora, voltou, na virada do seculo, a produzir poesia escripta e textos virtuaes, seja em livros, seja em seu exstincto sitio pessoal, seja em diversas revistas electronicas
(como www.cronopios.com.br ou www.blocosonline.com.br) e
impressas (CAROS AMIGOS, OUTRACOISA, G MAGAZINE, DISCUTINDO LITTERATURA,
METAPHORA). Jamais deixou, entretanto, de explorar themas polemicos, transgressivos ou politicamente incorrectos (violencia, repugnancia, humilhação, discriminação) que lhe alimentam a reputação de "poeta maldicto" e lhe inscrevem o nome na linhagem dos auctores
fescenninos e submundanos, como Bocage, Aretino, Apollinaire, Sade ou Genet.
Em collaboração com o professor Jorge Schwartz (da USP) traduziu a obra inaugural de Jorge Luis Borges, trabalho que lhes valeu um premio
Jaboty em 1999. Nesse terreno bilingue GM tem-se dedicado a outros auctores latinoamericanos, como Salvador Novo e Severo Sarduy, e tem sido traduzido por collegas argentinos, mexicanos e chilenos.
No cinema, GM foi objecto do documentario "Filme para poeta cego", de Gustavo Vinagre, que venceu o festival de curtas da 20ª edição do Mix Brazil, em 2012.
Em 2009, GM readopta a orthographia etymologica que practicava nos primeiros poemas e no DOBRABIL: naquella epocha, satyrizava osclassicismos canonicos; agora, reage contra os auctoritarismos culturaes, suppostamente reformistas. Seu anachronismo radical fica evidente no titulo da columna no portal "Chronopios": "Anarchico Archaico".
Em 2013, é rankeado em 26º logar entre 50 escriptores brazileiros vivos, numa enquete do CORREIO BRAZILIENSE votada por especialistas.
Em 2015, por seu appreço pela "litteratura de bordel" (vertente fescennina da litteratura de chordel), GM é diplomado como membrohonorario da ACLAME (Academia Canindeense de Lettras, Artes e Memoria),sediada naquella cidade cearense.
Em 2023, GM é eleito, pela Academia Brazileira de Sonnettistas (ABRASSO), para a cadeira nº 35, cujo patrono é o Lobo da Madragoa (Antonio Lobo de Carvalho).
sexta-feira, 22 de maio de 2026
O CEGO NA HISTÓRIA (35)
Agora, meus amigos e amigas, vamos para a parte final do papo que mantive com o mais prolífico autor brasileiro de sonetos. Digo brasileiro, mas pode ser o mais prolífico autor de sonetos do mundo desde sempre. Vamos lá!
7. Você também tem escrito textos em prosa? E textos para música?
GM - Sim, fiz parceria com musicos de varias tendencias, geralmente pondo melodia em meus sonnettos. Mas fiz pausas na producção poética para escrever trez volumes de contos, um romance parodico, A PLANTA DA DONZELLA (pervertendo a podolatria do José de Alencar em A PATTA DA GAZELLA), e em tractados orthographicos e estichologicos, alem de ensaios sobre sadomasochismo e fetichismo, chronicas e columnas naimprensa, como na revista CAROS AMIGOS.
8. No dia a dia você ouve rádio, TV, CD, LP, que mais? Cinema, teatro...?
GM - Fiz parte do gruppo de theatro do Paschoal da Conceição (discípulo do Zé Celso) emquanto ainda enxergava, mas agora não vou mais a shows, peças nem filmes. Sahir de casa é muito sacrificado e inseguro. Prefiro curtir som nos phones de ouvido e ouvir filmes pela TV, com áudio descripção do meu esposo. Meus cineastas predilectos são Kubrick, Ken Russell, Pasolini, David Lynch e Almodovar. Nenhum brazileiro.
Todos, aqui, são bundas molles. Só Zé do Caixão passa perto do que quero. Ja que o cinema não me faz tanta falta, preencho o meu quotidiano como posso. Nestes dois sonnettos dou idéa, practica e theorica:
TERRITORIO TRANSITORIO [4454]
Si longa for demais a minha estrada,
talvez nem haja tempo de voltar.
Si houver, voltar aonde? A qual logar
pertenço? Algo acharei, voltando, ou nada?
Na duvida, prosigo. Penso, a cada
momento, si na vida vou deixar
alguma coisa prompta e, quando o par
de botas pendurar, si a coisa aggrada.
A vida passa rapido! Me enganno
achando que algum plano poderia
fazer, pois muda tudo, ao fim dum anno.
Melhor, mesmo, é prever uma utopia
mensal, ou semanal, cumprindo um plano
a cada minutinho do meu dia.
///
DIA DO BRAILLE [10.692]
Cansei ja de fallar! Essa mania
que todos os que enxergam teem me cansa,
pois acham que mais pesa na ballança
dum cego si elle em braille se vicia!
Àquelle que ja viu e que ja lia
nas lettras normaes, é desesperança
total que, nuns ponctinhos, haja mansa
leitura pelo tacto! Nem podia!
Ponctinhos appalpar é como ousar
ler algo por um pão com gergelim
ou, por um brigadeiro, solettrar!
Prefiro, pois, comel-os! Para mim,
programmas de informatica logar
tomaram desse braille tão ruim!
///
9. Glauco, dá uma resumida da vida vivida até aqui.
GM - Não recompensou mas compensou. Não recompensou porque sancto de casa não faz milagre. Si eu fosse francez ou inglez ja teria sido reconhescido, seja pela qualidade, seja pela quantidade, seja pelo contehudo pornô, seja pelo lado mais "nobre" e "elevado" dathematica philosophica, mas nem siquer tenho contracto com uma editora commercial. Só pela Braziliense publiquei ensaios sobre poesia marginal e tortura e, pela Record, um diccionario bilingue de palavrões, mas para a poesia não exsiste editor. Tenho eu mesmo que publicar, pelo meu sello Casa de Ferreiro, os livros de poemas, preparados pelo Lucio: um catalogo de cento e cincoenta titulos, na maioria ebooks e alguns impressos. Ou seja, compensou nesse sentido, da obra produzida, publicada e estudada no meio academico. Por fallar em academia, sou membro benemerito da ABRASSO, Academia Brazileira de Sonnettistas.
10. E essa coisa de família, amor, esperança... Você tem medo da morte? E da violência que grassa no mundo, hein? Nós humanos temos salvação, nascemos para ter felicidade?
GM - Salvação? Necas de tupybirybas! Si me perguntarem si sou racista, respondo que sim: acho que a raça humana deveria ser exstincta por um cometa ou por um attaque extraterrestre. Só tenho pena do viralatta caramello e do basset hound, as raças mais fofas.
Meu esposo ainda me deixa accreditar no affecto e no companheirismo. A culinaria italiana e as sobremesas mineiras me deixam accreditar no lado approveitavel da vida, desaffiando o quadro diabetico. Serve de consolo.
11. Em 1905, Olavo Bilac e Guimarães Passos publicaram um livro intitulado Tratado de Versificação. Você tem um livro com esse mesmo título. Fale da sua obra e de quantos livros publicou até agora. Tem pensado em roteiro para cinema?
GM - Meu tractado tinha o titulo de O SEXO DO VERSO: MACHISMO E FEMINISMO NA REGRA DA POESIA, typo uma these, mas accabou sahindo impresso com o titulo mais obvio. Ja o reeditei pelo meu sello. Já publiquei mais de duzentos livros, na maioria digitaes, pela Casa de Ferreiro, alguns impressos em pequena tiragem. Todos serão raridades nos sebos virtuaes ou physicos do paiz... Para cinema quem me ropteirizou e dirigiu foi Gustavo Vinagre, no premiado FILME PARA POETA CEGO, mas almejo um longa metragem para meu romance lyrico RAYMUNDO CURUPYRA, O CAYPORA, todo composto em sonnettos, mas de enredo repleto de acção, adventura e sexo, ambientado em Sampa, que até ganhou um Jaboty.
Não creio num director nem numa productora capazes de encarar um argumento tão violento e cruel, que aliaz termina em suicidio, sem querer querendo dar spoiler.
12. O seu sobrenome é o mesmo sobrenome de um caboclo pernambucano chamado Virgulino e que entrou para a história como Lampião. Esse era cego de um olho e dizia que não precisava de dois porque para acertar no alvo tinha de fechar um deles. Pergunta: dá pra comparar a violência lampiônica com a violência praticada ora em dia pelos soldadecos do crime organizado?
GM - Não. Lampeão foi mais malvado ainda. Umas lendas dizem que elle perdeu um olho galopando pela caatinga, de raspão num cacto, mas outras dizem que elle tambem teve glaucoma. Seja como for, elle me fascina e já foi thema de meus poemas. Ja sonhei que entrava para o bando delle só para poder massagear os pés delle e dos demais jagunços... Por fallar nisso, me especializei na massagem podotherapeutica, chamada reflexologia, e frequento uma clinica onde todos os massagistas são cegos. La sou massageado e tambem massageio. O effeito é relaxante e allivia o estresse do dia a dia.
Emfim, os pés não são somente fonte de fetichismo, mas tambem de tractamento holistico. Outra de minhas manias, essa especie de bruxaria do bem. A bruxaria do mal eu deixo para revidar o mau olhado dos meus inimigos, que não se conformam que um cego possa ser escriptor... Mas, para não perder a deixa, observo que, si sou xará do Lampe pelo sobrenome, sou pelo prenome xará do Pedro José Constancio, um pornô contemporaneo do Bocage. Versejei sobre esses xarás e dou exemplo abbaixo, num sonnetto que virou dissonnetto (com quattro quartettos) e numa ode decasyllaba.
PRETO NO BRANCO [4113]
Que eu tenha o sobrenome de Ferreira
da Sylva, que é tambem do Virgulino,
não causa expanto algum, sendo destino
commum a muita gente brazileira.
Mas, caso de outros dados alguem queira
saber, e quando os factos examino,
descubro que o bandido nordestino
estava, num dos olhos, com cegueira.
Glaucoma tambem teve Lampeão,
molestia que, supponho, a ponctaria
em nada lhe affectara no olho são
nem sua vida activa affectaria.
Bandidos, todos somos, todos são.
Commigo algo em commum a mais teria
aquelle cangaceiro: uma visão
normal da crueldade, noite e dia.
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