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sábado, 29 de agosto de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (59)

 


_ Puxa, Assis, gostei. O Cego Sinfrônio existiu mesmo ou é invenção de algum cordelista?
_ Sim, existiu. E tinha uma memória incrível, tanto que guardava com facilidade na cachola embates pra ninguém botar defeito. O embate a que se refere Cascudo, Rodrigues e Mota chegou até aqui por Sinfrônio tê-lo guardado na memória. 
_ Guardava tudo mesmo ou ele aqui e acolá inventava alguma coisa?
_ É possível, é possível. 
_ Mais uma coisinha, Assis. Bom, o Sinfrônio relata como ocorreu o encontro poético entre Jerônimo e Zefinha. A Zefinha é muito bem descrita pelo Jerônimo. Não seria o caso de ela mostrar como era ele?
_ Sim, Flor Maria, você tem razão. Vamos lá: 

Ella ahi me arrespondeu 
Largando de rijo a taca: 
Gerome, tú tás doente,
Toma purga de jalapa,
Quebra o ovo e bebe a gemma 
Que tú dessa não escapa...

— Senhora Dona Zefinha,
Eu sou moleque teimoso,
Sou pobre, dou-me a respeito, 
Sou preto, porém mimoso...
Vou lhe dá um enxarope 
De nove pau amargoso:
Parreira com manacá,
Gordião com fedegoso,
Milome com cabacinha, 
Melão-caetano verdoso,
Pereiro com quina-quina,
São nove pau rigoroso...
Tudo isso é bom remedio 
P’ra quem soffre de nervoso...

— Gerome, eu tou conhecendo 
Que você sabe cantá...
Você sabe e eu também sei: 
Temo nós que desbulhá,
Temo nós que picá fumo,
Daqui p'r'a barra quebrá.

— Desgraçada da cantora 
Que eu lhe ganhá na batida...
Si eu não pegá no descanço, 
Pego sempre na drumida;
Boto laço nas verêda,
Boto tinguí na bebida:
Você me paga o que deve 
Ou um de nós perde a vida!

— Eu canto no mansidão;
Mas quando eu mudo o rotêro, 
Tocó touro marruá,
Dou em gallo campinêro,
Açoito pirú de roda 
Quando chega em meu terrêro.

— Zefinha, quando eu me assanho, 
Sou gado do Piôhy...
Sou estreito como ganga,

Estiro: sou sarnambi...
Cheiro mais do que extracto, 
Fêdo mais do que tipi,
Queimo que nem cansansão, 
Travo mais do que oiti,
Amargo mais do que fel,
Mato mais do que tingui...

— Vou fazê-lhe uma pergunta 
P'r'o senhô me respostá:
Como é que a moça foge 
Sem ella querê casá?

— Senhora Dona Zefinha,
Eu posso lhe ispilicá:
É o home que se casa 
P’ra despois enviuvá;
A muié deixou dois fío,
Elie torna a se casá;
A madrasta de judia 
Bate o aço a judiá;
Um dia, vão a um passeio,
Entréte o dia por lá;
Os menino fica em casa 
Logo pega a conversá: 
«Maninha, nós temo vó 
0 Que podia nos criá,
P’ra botá nós numa escola, 
P’ra nos mandá ensiná;
Vive-se aqui nesta casa 
Morrendo só de apanhá, 
Dormindo só pelo chão,
Sem tê onde se deitá...
A moça pensou naquillo,
Fox p’ra dentro se arrumá, 
Foi-se emboi-a mais o mano: 
Fugiu sem. querê casá...

— É isso mesmo, Gerome,
O sinhô sabe cantá:
Qual foi o bruto no mundo 
Que aprendeu a falá,
Morreu chamando Jesus 
Mas não poude se salvá?!...

— Isso nunca foi pergunta 
Pra ninguém me perguntá:
Foi o papagaio dum véio 
Que elle ensinou a falá: 
Morreu chamando Jesus 
Mas não poude se salvá...

— Pois eu agora, Gerome, 
Numa pergunta lhe enterro: 
Quero que Você me diga
O que é mais duro que ferro.

— Zefinha, tua pergunta
  Ê besta já por demais:
O que é mais duro que ferro 
E nenhum ferreiro faz 
É a palavra do home,
Inda que seja um rapaz:
Trinca o ferro e se arrebenta,
O home não volta atraz!

— Gerome, tú pra cantá 
Fizesses pauta c’o cão...

_ Pois bem, aí está. Pelo menos parte do que se acha no relato popular. 
_ Agora uma provocaçãozinha: você seria capaz de improvisar umas quadrinhas sobre Zefinha?
_ Hiiii.... Vou tentar, assim:

Era bom testemunhar
Zefinha do Chabocão 
Derrubando cantador 
Metido a valentão 

Fez isso muitas vezes
Sem se quer pestanejar
De tudo que mais gostava
Era à viola cantar

Eu vi com os meus olhos
Cego Sinfrônio penar
Na unha de Nha Zefinha 
Catando verso sem achar


_ Muito bem, seu Assis. Gostei de ver você pondo as zuinhas pra fora.
_ Tá bom, tá bom. Obrigado e inté!

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (58)

Cego Sinfrônio (Crédito: Creative Commons)
 _ Nos livros dos nossos grandes escritores do século 19 já havia figuras parecidas com o seu Joãozinho Bem-Bem do mineiro Guimarães Rosa?

_ Claro, Flor Maria. Existiam, sim. O Zé de Alencar, por exemplo, nos apresenta figuras ingênuas e violentas como no romance Til (1871).
_ E cantadores, violeiros, também já apareciam nos livros como personagens reais ou fictícios?
_ A Serra do Teixeira é uma localidade paraibana que faz divisa com Pernambuco. Foi nessa região que surgiram os primeiros poetas improvisadores autoacompanhando-se de viola ou pandeiro. Aliás, entrou para a história do repentismo a peleja de Romano de Mãe D'água e de Inácio da Catingueira, que era um negro escravizado sem pai nem mãe. No improviso poético e no toque do pandeiro era tido como gênio. Essa peleja é citada em livros de Rodrigues de Carvalho, Câmara Cascudo, Leonardo Mota e tal. Mota chega a registrar no livro Cantadores (1921) um embate histórico de Zefinha do Chabocão e Jerônimo do Junqueiro . Esse encontro foi narrado a Mota pelo cego cearense Sinfrônio. Começa assim:

Quando estralou a notiça
Que o fama tá na ribêra, 
Era tanto do canto 
Que enchia o quadro da fera: 
Accudiu Antonio dc Salle 
Mais o Gerome Morêra;
Accudiu Antonio Pendença, 
Santiago de Otivera; 
 Accudiu o Virgolino 
E o Romano do Teixêra;
Herculano de Messia 
Cego Vicente Barréra, 
E o Fausto Correia Lima 
Das Lavra da Mangabêra. 

Nenhum destes me passou 
O pé adiente da mão; 
Só achei duas mulhére; 
Tinha a pintura do cão; 
Naninha Gorda dos Brejo, 
Zefinha do Chabocão. 

Eu tava numa funcção 
Na fazenda «Cacimbinha», 
Quando vejo um positivo Pedindo notiça minha, 
Dando um recado atrevido, 
Que me mandava a Zefinha. 

Nesse tempo eu era limpo, 
Mettido um tanto a pimpão, 
Vesti-me todo de preto, 
Calcei um par de calção.  
Botei chapéo na cabeça 
E um chapéo de sol na mão; 
Calcei os meus bruziguim, 
Ageitei meu correntão, 
Nos dedo da mão direita 
Levava seis annelão, 
Tres meu e tres emprestado: 
Ia nestas condição... 

Quando eu cheguei no terreiro 
Um moço vêi me falá: 
«Cidadão, se desapeie, 
Venha logo se abancá, 
Faz favo de entrá pra dentro, 
Tome um copo de alua». 

Me assentei perante o povo, 
(Parecia uma sessão) 
Quando me saiu Zefinha 
Com grande preparação: 
Era baixa, grossa e alva, 
Bonita até de feição; 
Cheia de laço de fita, 
Trancellim, collá, cordão; 
Nos dedo da mão direita 
Não sei quantos annelão... 
Vinha tão perfeitazinha, 
Bonitinha como o cão! 
Para confeito da obra: 
Uma viola na mão...

No repentismo e na literatura de cordel existem muitos personagens criados pela imaginação vigorosa de poetas populares como Leandro Gomes de Barros (1865-1918). É dele, por exemplo, o vagabundo profissional Cancão de Fogo, criatura inspirada numa ave muito comum no Nordeste. 
O moleque Cancão, que na história era órfão de pai, especializou-se em fazer nada. Vivia de golpes que aplicava em pessoas abonadas. Justificava isso dizendo que nada mais estava fazendo do que apossar-se dos próprios bens. Quer dizer: não respeitava as regras do capitalismo. 
Uma hora de papo pro ar, soltou essa quadrinha:

Eu creio no que vejo
E acredito no que pego
Reza pra quem já morreu
É como luz para cego

Bom, ele disse isso e eu digo isto:

Mas só a luz nos olhos 
Não basta para quem quer ver
É preciso abrir as portas
Da escola do saber

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (57)

O moço Chico Bem-Bem do paraibano Zé Lins não tem, literariamente, nenhum parentesco ou amizade sequer com seu Joãozinho Bem-Bem do bom mineiro Rosa.

O Bem-Bem de Rosa é um cabra simples, de voz branda e sorriso largo, acostumado a não levar desaforo para casa. Aliás, nem casa tinha. O seu teto era o céu aberto sobre si e a estrada o sertão do seu mundo. 
O Bem-Bem de que aqui falo, na intimidade da cabroeira chamado simplesmente de seu Joãozinho, nada mais nada menos era chefe de jagunços. Mansinho só na aparência. 
A fama de seu Joãozinho Bem-Bem pulou das páginas do livro Sagarana (1946) e caiu direto na boca de valentões de Grande Sertão: Veredas (1956). 
Era esse Joãozinho o Cão escrito comendo cocada nas beiradas do sertão.
O aqui citado personagem do Rosa era o exato contrário de o Chico de Zé Lins. 

Num dia sem conversa
Porém de provocação 
Dois valentes se cruzaram 
De armas firmes na mão 
Um deles morreria 
Mas o outro talvez não 

Assim eram os duelos
Conforme a descrição 
Armados de pistola
Punhal, faca e facão 
Os homens duelavam 
Até um cair no chão 

Duelos sempre houve
No real e na ficção 
João Guimarães Rosa 
No livro Grande Sertão 
Falou de duelista
Jagunço e Cramunhão

Falou de Riobaldo
De Diadorim também 
Lembrou de Zé Bedelo
E de mais ou outro alguém 
Falou de Joca Ramiro
E da mira qu'ele tem

Nosso João também falou 
Do Tirésias do sertão 
Sim, o cego Borromeu 
Exemplo da criação 
Levado por seu guia
Um guri de boa ação 

Por outras trilhas andava
Seu Joãozinho Bem-Bem 
Moço de fala mansa 
E de tiro certo também 
Matava como quem reza
Em nome do pai... Amém!


_ Assis, como termina essa história do Chico Bem-Bem e do Joãozinho Bem-Bem?
_ Flor Maria, o Chico Bem-Bem é um cara muito simples, matuto, que aparece do nada nas páginas de Pureza e se apaixona loucamente por uma das duas filhas do chefe da estação, Antônio Cavalcante, um louro de olhos azuis viciado em jogo e coisa e tal. Tipo corno manso. Quanto ao Bem-Bem de Rosa, esse não é de brincadeira não. Ele aparece com seus comparsas numa povoaçãozinha fincada no fim do mundo. Um dia, ele conhece um cara de nome Nhô Augusto (Matraga), um ricão fazendeiro das Gerais que perde a mulher para outro homem. Antes ele é alvo de assassinato, mas escapa. Quando ele acorda é outro homem. Chega até a ajudar pessoas simples por onde passa. 
Tem uma hora que Nhô Augusto dá de cara com seu Joãozinho Bem-Bem. E ambos partem para as vias de fato. Ao fim do duelo... E chega!
_ Você não vai nos dizer o final?
_ Que tal voltarmos a ler mais livros, hein?
_ Correto, mas você bem que poderia falar mais um pouquinho sobre Grande Sertão: Veredas.
_ Então, tá. Clique:



quarta-feira, 19 de agosto de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (56)

Não são poucas as histórias envolvendo cães e gatos. Aliás, até um dia especial tem o cão. É o 26 de agosto, lembrado ou comemorado em todo o mundo. 


Em 1972, o compositor e cantor baiano Waldick Soriano (1933-2008) pôs na sua longa lista de sucessos o bolero Eu Não Sou Cachorro Não. 
Em 1950, o jornalista e dramaturgo pernambucano Nelson Rodrigues (1912-1980) emplacou na boca do povo a expressão "complexo de vira-lata". Essa expressão foi cravada logo após a derrota da seleção brasileira perante as botinas dos jogadores uruguaios. O significado... Bom, com o tempo foi mudando. Hoje a famosa frase do Nelson é dirigida a quem se ajoelha perante o gringos norte-americanos. Pois, pois.
E já que abordamos a temática musical com bichos domésticos, não custa lembrar que no tempo da Jovem Guarda Erasmo e Roberto ganharam as paradas com aquela coisinha chamada Gatinha Manhosa. Quer dizer: a gata abriu a composição com o carinhoso diminutivo gatinha.
Há muitas e boas histórias contidas na literatura e música de todo canto, com registros desde quando se prensavam discos de 78 RPM.
Parodiando o bom escritor mineiro João Guimarães Rosa, cegos e tudo o mais estão em todo canto.
É de 1937 o romance Pureza, de José Lins do Rego.
O enredo desenvolvido em Pureza começa logo após a morte da mãe e da irmã do personagem central denominado Lourenço de Mello, o Lola.
Lola ainda era criança quando a mãe e a irmã menor morreram de tuberculose.
Ante tal fatalidade, o pequeno Lola foi criado com todos os cuidados possíveis dispensados pelo pai e pela criada negra Felismina. 
Como se fosse pouco, não demora muito e o pai de Lola tomba vítima de fulminante colapso.
Um dia, Lola chama Felismina para acompanhá-lo numa estadia em meio à natureza. Seguia recomendações médicas. E aí, num começo de tarde, Lola e Felismina desembarcam numa estação de trem de um lugar chamado Pureza.
O que os pais deixaram para Lola foi fortuna que lhe possibilitaria viver sem trabalhar a vida toda.
Aos 24 anos de idade, Lola ainda não havia mantido relações sexuais com mulher nenhuma. Era tímida, inseguro.
Após alguns meses no retiro indicado pelo médico, Lola conhece Margarida e logo depois, Maria Paula. As duas eram filhas do chefe da estação Antônio Cavalcante e de dona Francisquinha. 
Antes de conhecerem Lola, Margarida e Maria Paula já haviam caído no boca do povo. 
No correr dessa história de Zé Lins, aparece um cego chamado Ladislau. Sabido que só. Seu guia era uma espécie de bengala e com ela não errava caminho. Era viúvo e foi pai duas vezes. E dele mais não digo. 
Ali já perto do fim, surge um personagem de convivência pacata, mas um tanto arredio de nome Chico Bem-Bem. 
E quem quiser saber mais da beleza que é Pureza, é só abrir o livro e ler.



segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O CEGO NA HISTÒRIA (55)

Crédito: Joni and Friends

O dia 11 de setembro de 2001 entrou para a história como um dos mais trágicos do mundo. 

Naquele dia, terroristas oriundos do Oriente Médio jogaram contra as Torres Gêmeas do agora extinto World Trade Center, em Nova York, dois aviões com passageiros e tudo provocando a morte de mais de três mil pessoas. Chocante!
As torres estavam desabando quando, numa delas, se achavam um cego e a sua cadela-guia, Roselle.
O cego, um certo Michael Hingson, conseguiu tranquilizar-se perante a loucura que então sucedia, enquanto a cachorrinha o guiava em direção à saída do edifício. Dezenas e dezenas de pessoas que lá se encontravam seguiam o cego, que seguia a cachorrinha. Ao fim de mais de mil degraus todos chegaram sãos e salvos à rua. Detalhe: Roselle não parou até chegar à casa onde ela e o cego moravam.
A cachorrinha chegou a receber muitos prêmios e até virou a heroína central  de um livro. Título: Thunder Dog, de Michael Hingson.
Em 2025, no Canadá, boa parte da população daquele país tomou conhecimento da existência de um cachorro e de um gato. No melhor dos sentidos, a dupla parecia duas pessoas amigas e educadas convivendo na maior paz e amizade do mundo. O curioso nessa história é: o cachorro, Spike, era cego e o gatinho, Max, todo sadio e vendo tudo, virou o seu guia. 
O mundo animal é cheio de bons exemplos e curiosidades. E também de maus exemplos. 
Em 1950, o compositor cearense Humberto Teixeira e o cantor e sanfoneiro pernambucano Luiz Gonzaga levaram ao disco (78 rpm) a toada Assum Preto. É cantiga triste, muito triste. Fala da tristeza de alguém que sofre com a perda do seu amor como o pássaro do título que perdeu seus olhos pela malvadeza de quem assim fazendo o ouviria cantar melhor. 
Historicamente é de conhecimento geral de que os cães sempre foram amigos dos homens. E dos cegos mais ainda. 
Os chamados vira-latas são cães que sempre docilmente acompanhavam pedintes cegos. 
Esses cães não recebem nenhum treinamento especial para desenvolver-se como guias.
Fora isso, há cães de raça especialmente treinados para guiar pessoas sem visão. 
O Labrador e o Golden Retriever são as raças mais procuradas para treinamento como guias.
No Brasil há pouquíssimos canis construídos especialmente para treinar esses cães.
A população de cães e gatos no Brasil é muito grande. 
Se o 11 de setembro de 2001 chocou o mundo, pode-se dizer que o dia 13 de maio de 1888 levou o nome do Brasil como o último país a livrar do trabalho forçado os negros vindos de fora e mesmo nascidos aqui. Emblemático, não?
Um dos mais agitados abolicionistas da história brasileira foi José do Patrocínio (1854-1905),  filho de um padre fazendeiro e de uma escrava adolescente. É dele a frase: "A escravidão é  um roubo e todo dono de escravo é ladrão".
Patrocínio formou trio com André Rebouças (1838-1898) e Luís Gama (1830-1882).
André foi o primeiro engenheiro negro do Brasil e Luís o primeiro poeta saído dos grilhões, já que foi vendido pelo próprio pai quando tinha apenas 10 anos de idade. 
Antes de a princesa Isabel assinar a Lei Áurea, outras leis foram aprovadas no Império a favor das pessoas escravizadas: a Lei Eusébio de Queiroz (1850), a Lei do Ventre Livre (1871) e a Lei do Sexagenário (1885).
O 13 de maio de 88 pôs literalmente na rua todas as pessoas escravizadas, porém sem nenhuma maneira que as possibilitasse viver com dignidade através da própria força. Quer dizer, ficaram todas ao Deus-dará. 

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (54)

No lugar denominado Pedra Bonita, em Pernambuco, havia um feiticeiro de nome Pedro. Zé Pedro, levado às páginas do livro Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, de Ariano Suassuna. 

A multidão de infelizes presentes em Pedra Bonita era na maioria retirantes desesperados à espera de um milagre que os salvasse por um momento qualquer. 
Além de Suassuna e seu conterrâneo José Lins do Rego, o fluminense Euclides da Cunha abordou na sua obra acontecimentos desse episódio. 
Zé Lins escreveu Cangaceiros, continuação de Pedra Bonita. 
Cangaceiros, um clássico da literatura brasileira, foi lançado no dia 28 de abril de 1953, em São Paulo. 
Carlinhos é um menino bem pequeno que assiste o assassinato da mãe pelo pai. Chocante. O pai é preso e posto num asilo de loucos, onde acaba morrendo. Órfão, o menino é levado a morar num engenho do avô José Paulino.
Esse Paulino foi quem criou o órfão identificado como Carlinhos. 
Carlinhos vai crescendo e se inteirando do dia a dia do engenho do avô.
Muitas coisas acontecem na vida do menino. Tem um momento em que ele conhece um ídolo do povo: Antônio Silvino, Cangaceiro.
Isso se acha no livro Menino de Engenho. 
Menino de Engenho é o primeiro livro de José Lins do Rego. Isso tudo mundo sabe ou deveria saber, até porque o segundo livro desse autor,  Doidinho, é continuação do primeiro. 
Doidinho é obra-prima. 
Em Doidinho há um personagem chamado José João. 
José João é apelidado carinhosamente de Coruja. É o melhor amigo de Carlinhos.
Carlinhos, a essa altura, é Carlos de Melo. Tem 12 anos. Conversa vai, conversa vem, Coruja revela que jamais deixará de sentir-se culpado por ter cegado um dos olhos da irmã, quando com ela brincava nos seus tempos de criança. 
No terceiro livro de Zé Lins, Banguê (1934), não aparece nenhum personagem cego. O cego na leitura desse livro está presente metaforicamente. Ao invés de cegos ou cegas, o autor faz oportunas referências a cachorros.
Cachorro ou cadela é bicho doméstico que aparece muito frequentemente na literatura brasileira e estrangeira. 
Em 1954, o vaqueiro pernambucano Raimundo Jacó foi assassinado covardemente. Pelas costas, meteram-lhe uma pedra sobre a sua cabeça. Dois dias depois, foi encontrado morto e ao seu lado, um fiel cão. 
Essa história rendeu e ainda rende muita discussão no Nordeste brasileiro. 
A Morte do Vaqueiro é uma música clássica do repertório de Luiz Gonzaga. 
Em Odisséia, obra do cego Homero, o herói Ulisses volta para casa 20 anos depois dela sair. Foi lutar em Troia e de lá saiu herói. O primeiro ser vivo que o identificou foi o cachorro Argos. Ao notar a presença do seu dono, embora cego, Argos balançou o rabo e morreu. 

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (53)

Bem cedo me disseram na escola que o Brasil foi descoberto por um português danado de corajoso chamado Pedro Álvares Cabral. Isso no dia 22 de abril no ano de 1500. 

Não demorou muito para que eu soubesse logo depois de ligeira alteração da primeira informação por mim recebida na escola. Essa alteração dava conta de que o Brasil não fora descoberto, mas sim achado pelo mesmo Cabral.
O tempo foi passando, passando até que os primeiros invasores da nossa terra dividiram o Brasil em capitanias hereditárias, sesmarias e daí veio o pior: latifúndio. 
Os latifúndios geraram riquezas individuais enormes, passadas de pai para filho.
Os latifundiários eram e são temidos como déspotas, grosso modo. 
E como o tempo não para e jamais parará, boa gente de boa parte do País foi ganhando espaço e firmeza onde antes a garantia era apenas um buraco de sete palmos para se enterrar de morte matada ou de morte morrida. 
Antes de o pequeno proprietário de terra ocupar  espaço devido, muitos trabalhadores em regime de escravidão foram postos para correr pelos latifundiários. E como se não bastasse, as estiagens se repetiam com frequência absurda. E se repetem, menos hoje do que ontem. 
A seca de três anos seguidos no Ceará, entre 77 e 79 do século 19, foi um horror sem tamanho que deveria ter tocado profundamente a alma dos poderosos daquele tempo. Mas não foi isso o que ocorreu. Nem o maior mandachuva de plantão daquele momento, D. Pedro II, fez o que deveria fazer: acudir o povo que morria à toa que nem mosca em todo canto. Ou seja, nas ruas, nas praças... Até campos de concentração foram criados para isolar os flagelados da seca que chegavam aos montes à Fortaleza cheios de fome, sede e doenças diversas.
No mesmo século 19 outras secas ocorreram Brasil afora.
A estiagem de 1915 de novo parou o Ceará. Em 1930, a cearense Rachel de Queiroz estreava na literatura com o romance O Quinze. Ela tinha 20 anos de idade. 
Na referida obra, a escritora conta o infortúnio de uma família, entre tantas, que cai na estrada em busca de água e comida.
Algo parecido com a narrativa de Queiroz acontece também no Rio Grande do Norte, Paraíba, Sergipe e Pernambuco. 
Da região potiguar era um moço que ficou conhecido como Jesuíno Brilhante. 
Jesuíno era de família de posses e um dia um cara sacou um revólver e atirou no irmão. Sem saber bem o que fazer, Jesuino sacou a arma que trazia consigo e vingou-se do assassino do mano. É isso que diz a história. 
A história diz também que a partir do entrevero mortal, o Rio Grande do Norte ganhou o cangaceiro Jesuíno Brilhante. 
Jesuíno era um fora da lei que não fazia conchavos com poderosos. O seu caráter tendia para o lado bom da vida, beneficiando os pobres que de um modo ou outro o cercavam.
Os males do governo eram exibidos e punidos publicamente por Jesuíno. Foi muito ativo na longa seca do Ceará, aquela que durou três anos seguidos impedindo que caísse um pingo de chuva sequer no chão. E assim ajudou muitos flagelados. 
A morte apanhou Jesuíno Brilhante no interior da Paraíba. Tinha 35 anos de idade quando isso aconteceu, em 1879.
O poeta cearense Patativa do Assaré, de batismo Antônio Gonçalves da Silva, andava em 1932 na casa dos 20 anos. Por esse tempo nova seca assolava a região nordestina, da qual era a pequena Nanã uma das milhares de vítimas inocentes. 
No tempo disso tudo, Patativa já havia perdido por doença um dos olhos.
É desse ano o poema A Morte de Nanã.
Em A Morte de Nanã o autor da obra prima A Triste Partida que Luiz Gonzaga gravou em 1964, conta o drama então vivido pela personagem que dá título ao poema. É tocante. Um trecho:

Depois veio a seca cruel e assoladora,
Contra aquela linda florzinha encantadora
E a coitada morreu, mirrada pela fome.

Hoje, um poeta chora triste esta saudade
E as aves cantam a chamar na solidão:
Nanã! Nanã! Nanã! seu doce e belo nome.

Patativa do Assaré morreu em 2002 com 93 anos e completamente cego. 



quinta-feira, 30 de julho de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (52)

Nos escritos sagrados que formam a Bíblia há mais de duas centenas de citações da velhíssima cidade de Jerusalém, por onde um dia passaria Jesus Cristo. Nessa sua passagem, chegou a curar um cego. 

Muitos anos se passaram até que poderosos e miseráveis da Turquia se defrontaram pra matar e pra morrer. Isso ali já pelo século 19. Notícias a respeito desse desigual embate chegavam em pílulas às páginas dos periódicos da sede da Corte, Rio de Janeiro. 
Em agosto de 1875, era fundado aquele que se transformaria num dos principais jornais do seu tempo: Gazeta de Notícias.
Em 1876, a Gazeta começava a pôr em discussão questões referentes ao cotidiano. Políticas, inclusive. 
E assim foi, seguidamente. 
Em 1878, o jornal passou a publicar um folhetim assinado por Araripe Júnior (1848-1911), sobre a crença de que o rei D. Sebastião de Portugal retornaria para salvar o mundo. Isso ficou conhecido como Sebastianismo, crença que chegou ao interior de Pernambuco, em 1836. Dois anos depois, tudo acabou em sangue de crianças,  virgens e inocentes em geral.
O caso aqui lembrado tinha por líder um sujeito de nome João Antônio, em seguida substituído por João Ferreira. Essa história ficou conhecida como Pedra Bonita.
Pedra Bonita inspirou Araripe Júnior a escrever o romance O Reino Encantado (1878), livro lançado logo após a edição em folhetim no jornal Gazeta de Notícias. 
Exatamente um século após essa tragédia, o paraibano José Lins do Rego entrou na história escrevendo Pedra Bonita (1938), livro que despertou a atenção literária do Brasil inteiro e, posteriormente, Cangaceiros (1953). 
Na obra de José Lins do Rêgo, como na obra de Jorge Amado, há muito tocador de viola cego cantando causos e façanhas de cangaceiros. 
Sinhá Josefina é mulher de um certo Bento, preguiçoso que nem o Bute. Vive se balançando na rede prá lá e prá cá e dando de comida na mão para um bode. Quando não fazia isso, estava no curral alisando vaca. Falava pouco, mas o que falava calava fundo a mulher. Era ordem. Ela fazia tudo e tremia de medo diante dele.
A história de Josefina com seu marido machão está completa no romance Cangaceiros, mas começa em Pedra Bonita. 
Josefina e Bento têm quatro filhos: Aparício, Domício e Bentinho, o caçula. 
O quarto filho do casal, Deodato, desaparece de cena sumindo no oco do mundo. Houve quem dissesse que ele embrenhara-se na mata amazônica. 
Aparício torna-se cangaceiro famoso e temido depois de matar um soldado. 
Domício, antes de juntar-se ao grupo cangaceiro do irmão, era admirado pela gente do lugar onde morava por seu belo canto e encantador toque de viola.
Bentinho, de batismo Antônio Bento, foi dado pela mãe a um padre, Amâncio,  que o criou. Tinha 5 anos de idade. Aos 17, foi de passagem à casa dos pais. Lá demorou-se por três meses e dia nenhum desse tempo o pai se quer dirigiu-lhe uma palavra. Era como se o filho o repugnasse.
O caso aqui contado lembra um pouco o caso do menino que tinha vergonha da mãe caolha contado por Júlia Lopes de Almeida. 
Os pais de Bentinho e os irmãos eram naturais da localidade denominada Pedra Bonita.
Pedra Bonita era o lugar mais azarento do mundo para os fazendeiros da região. Justificavam dizendo que nada de bom colhia-se por lá. 
Bom, fosse o que fosse, o fato é que o episódio aqui lembrado também inspirou Ariano Suassuna a escrever o caudaloso Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta (1971). Virou minissérie da Globo em 2007. No elenco, grandes nomes. O personagem Pedro Cego toma conta do espaço. 
Na obra de José Lins e Jorge Amado, a terra e a gente que dela depende aparecem em primeiro lugar. E como tal, aos dependentes da terra são dirigidos louvores que vêm da luta pela justiça. É o  forte contra o fraco ou o rico contra o pobre. Na pena desses escritores se acha a defesa de quem dela mais precisa. Sempre foi assim nos livros dos autores aqui citados.
Certa vez, o autor de Pedra Bonita disse: "Vim da terra, sou da terra e quero continuar na terra".

domingo, 26 de julho de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (51)

Senhora! A Poesia outrora era Estrangeira, 

Pálida, aventureira, errante a viajar,
Batendo em duas portas — ao grito das procelas —
Ao céu — pedindo estrelas, à terra — um pobre lar!

Visão-de áureos lauréis-porém de manto esquálido,
Mulher-de lábio pálido-e olhar-cheio de luz.
Seus passos nos espinhos em sangue se assinalam...
E os astros lhe resvalam-à flor dos ombros nus...

II

Olhai! O sol descamba... A tarde harmoniosa
Envolve luminosa a Grécia em frouxo véu.
Na estrada ao som da vaga, ao suspirar do vento,
De um marco poeirento um velho então se ergueu.

Ergueu-se tateando... é cego... o cego anseia...
Porém o que tateia aquela augusta mão?...
Talvez busca pegar o sol, que lento expira!...
Fado cruel... mentira!... Homero pede pão!

III

Mas ai! volvei, Senhora, os vossos belos olhos...



Como se vê no trecho aí do poema  Poesia e Mendicidade, publicado no livro Espumas Flutuantes (1870), tema algum escapou da visão aguçada e privilegiada de Castro Alves. Falou e escreveu tudo que lhe vinha à mente. Escreveu sobre sol, lua, céu, estrelas, flor, justiça, Deus, natureza, amor, paixão, liberdade, liberdade, liberdade... Também não deixou de referir-se nos seus textos a nomes consagrados na literatura universal como Victor Hugo, Dante, Camões e Homero. 

O autor de Os Escravos conheceu de perto José de Alencar e o bruxo Machado de Assis.

Castro Alves não foi vítima da seca ou de qualquer outra catástrofe natural, mas entendia perfeitamente as mazelas do tempo.

As desgraceiras da vida ocorrem em todo e qualquer lugar, mas parece que Deus escolheu o Nordeste brasileiro para testar a força e a paciência do povo que vive lá.

As três maiores secas ocorridas no Brasil até hoje ocuparam espaço violento e fatal no Ceará de José de Alencar. Essas catástrofes tiveram lugar nos calendários de 1877, 1915 e 1932.

A seca de 1877 durou até 1879, deixando mais de meio milhão de mortos. 

Essa primeira grande seca, que durou três anos, passou incrivelmente despercebida pelos poderosos de plantão daquele tempo. Entre esses e mais aqueles se achavam intelectuais e políticos do porte de José Martiniano de Alencar. À época, o autor de O Sertanejo, livro publicado em 1875, não dava bola para os miseráveis da vida. 

Jornais da Corte começaram a dar uma nota aqui e outra acolá sobre o que acontecia no Ceará a partir do momento em que um cara de nome José do Patrocínio (1854-1905) arrumou as malas e decidido partiu rumo ao local para cobrir, jornalisticamente, a tragédia que caía sobre os cearenses. Essa viagem deu-se no dia 10 de maio de 1878. Alguns colegas seus, de jornal, chegaram a ironizar sua ida à região, dizendo algo como "não vá morrer de fome por lá, hein?".

Patrocínio retornou são e salvo ao Rio, nem mais magro nem mais gordo, no dia 12 de agosto do trágico ano de 1878. Mais triste, é verdade.

No geral, deve ser dito que os textos de Patrocínio chamaram a atenção dos leitores que mais e mais pareciam ter interesse ou curiosidade do que se passava na terra de Alencar.

No jornal Gazeta de Notícias, RJ, os textos de Patrocínio ganhavam destaque na 1a. página sob o título Viagem ao Norte, por ele mesmo assinada.

Destaque também ganhavam os textos e fotos que Patrocínio enviava para o semanário anarquista O Besouro, criado e editado pelo chargista de origem portuguesa Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905). 

As duas primeiras fotos, de uma série de 14, foram publicadas na edição do dia 20 de julho de 1878. Chocantes. 

Essas fotos podem ser classificadas hoje como fotorreportagens do repórter fotográfico Joaquim Antônio Correia ou J. Correia. Detalhe: à época, as expressões  fotorreportagem  e repórter fotográfico ainda não existiam.

Depois de tudo, em 1879, José do Patrocínio pôs à praça o livro Os Retirantes. Arrepia. Personagens masculinas e femininas movimentam-se como podem e até morrendo à míngua. É romance. Entre as personagens desse livro, achavam-se crianças e idosos. Mulheres, muitas delas ainda na flor da idade, entregavam seus corpos por migalhas oferecidas por canalhas, como o padreco sem escrúpulos denominado Paula.

No livro de Patrocínio, o pai de uma das jovens vítimas da seca, Rogério Monte, acaba morrendo doente e cego. A essa altura, a sua família já estava destroçada. 

Cenas igualmente violentas são narradas no livro de poucas páginas, mas denso, intitulado Violação (1898). O autor foi o baiano radicado no Ceará Rodolfo Teófilo (1853-1932).

Teófilo era farmacêutico de formação, como coincidentemente o fluminense José do Patrocínio. 

Sem dúvida, esses são dois dos grandes heróis do Brasil. 

Cá pra nós, considero também Joaquim Maria Machado de Assis um herói. Das letras, pelo menos. 

E coincidência por coincidência, não será impróprio dizer que Castro Alves estreou na literatura com 15 anos de idade, mesma idade em que estreou em jornal o bruxo do Cosme Velho. 

O poema de estreia de Castro Alves foi A Destruição de Jerusalém




quarta-feira, 22 de julho de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (50)

No Brasil houve sempre pessoas que acreditaram nas pessoas e na liberdade necessária para a sobrevivência do bem comum. 
Entre pessoas que sempre acreditaram nas outras houve aquelas que desenvolveram o bem viver pelo caminho das artes, caminhos esses sempre tornados fonte do livre pensar e agir. 
Bom, o Brasil foi durante muito tempo quintal dos invasores europeus. Mas a liberdade sempre foi objetivo e esperança de artistas da palavra como Gregório de Matos e Guerra (1636-1696).
Esse Guerra sempre foi da paz e usou as palavras como arma e divertimento. 
O tempo passou e guerras várias com derramamento de sangue ocorreram de canto a canto do território nacional. 
Como Gregório de Matos, na Bahia também nasceu Antônio Frederico de Castro Alves. 
Castro Alves muito cedo viu nas letras o caminho da liberdade. E gritou: "A praça é do povo como o céu é do condor".
Como Gregório e Castro Alves, o baiano  de Itabuna Jorge Leal Amado de Faria via na liberdade o caminho natural da vida.
Toda a obra literária de Jorge Amado traz a luta do povo contra as injustiças sociais. Independentemente de cor e sexo, Jorge exalta a força e a coragem dos personagens que vão se movimentando nas páginas dos seus livros. 
Não são poucos ou poucas os heróis e heroínas que ganham forma e força nas histórias de Jorge Amado. Tereza Batista é, por exemplo, personagem capaz de encantar o mais frio dos leitores. 
E o que dizer de Gabriela e de Tieta do Agreste?
Centenas de personagens anônimos, para dizer o mínimo, pululam nos capítulos das dezenas de romances de Jorge Amado. Entre esses, são incontáveis os cegos tocadores de viola que cantam nas feiras livres do Nordeste profundo. 
No romance Seara Vermelha (1946) aparece de raspão um certo Cosme. Esse Cosme, cego de um olho, está noivo de uma Teresa. Sonham, almejam a felicidade com o matrimônio. Casamento marcado, casamento realizado. Porém, um porém: uma bidu, adivinhona de plantão, diz que má notícia está chegando. 
E a história começa por aí. 
A má notícia chega numa carta selada. O conteúdo, escrito pelo dono das terras onde mora o casal e outros agregados igualmente explorados, dá conta de que todos que ali vivem devem ser postos no olho cego da rua.
A determinação contida na carta é cumprida à risca. E a partir daí, as pobres personagens lançam-se à própria sorte, subindo e descendo ladeira com a barriga vazia e a morte à espreita como maligna companhia. E as crianças vão morrendo de fome, de tifo e outros males como a menininha Noca que carrega consigo o tempo todo a gatinha Marisca.
A história de Marisca lembra um pouco a história do papagaio que acompanha a fuga da seca de uma família nordestina narrada pelo alagoano Graciliano Ramos no seu clássico Vidas Secas(1938).
Há um momento em Seara Vermelha que remete o bom leitor ao romance Lucíola (1862) do romântico cearense José de Alencar. Nesse livro, a personagem título prostitui-se para salvar a família de uma epidemia que grassava no tempo em que a história é contada. 
Ao tomar conhecimento do que fizera a filha, o pai a expulsa de casa. E é a partir daí que Lucíola vira mulher-dama. 
Na história de Amado acontece em parte com a personagem Marta, o que acontece com Lucíola. 
Marta para conseguir documento que salvaria o pai Jerônimo, rende-se à calhordice do médico e assim acaba por obter o que almejava. Ao saber disso, o pai a expulsa e aos gritos diz que nunca mais quer vê-la.
O fim de Marta é num cabaré, doente e pobre. 
Seara Vermelha é um livro no qual o autor expõe-se completamente como romancista engajado. Começa com a dedicatória que faz a Luís Carlos Prestes (1898-1990) e a João Amazonas (1912-2002).
Jorge Amado, não custa lembrar, identificava-se plenamente com Castro Alves. Tanto que em 1941 lançou à praça ABC de Castro Alves. É uma biografia supimpa. 
O título Seara Vermelha foi extraído do poema Bandido Negro, de Castro Alves. Esse poema foi  publicado no livro póstumo Os Escravos (1883). Um trecho:

Trema a terra de susto aterrada...
Minha égua veloz, desgrenhada,
Negra, escura nas lapas voou.
Trema o céu... ó ruína! ó desgraça!
Porque o negro bandido é quem passa,
Porque o negro bandido bradou:

Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

Castro Alves morreu de tuberculose com 24 anos, três semanas e um dia, em 1871. 

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