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quarta-feira, 20 de maio de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (34)

Assis Ângelo entrevista Glauco Mattoso

É sério, como se vê, o papo cego, este papo cego que iniciamos no

dia tal neste nosso Jornalistas&Cia. Há pouco, enviei uma dúzia de perguntas ao camarada Glauco Mattoso. O cabra é bom. Bom, não: é ótimo. 

As perguntas que pediram respostas podem não ser o suprassumo de um caboco como eu, mas as respostas são pra lá de ótimas. Dividimos este papo pelas ondas da Internet em duas partes. Na primeira, Glauco conta de si e dos outros findando com citação ao mestre inglês John Milton. Esse Milton, autor do clássico Paraíso Perdido nasceu no 9 de dezembro de 1608. E deste planetinha despediu-se em no dia 8 de novembro de 1674. Bom, vamos nessa edigam o que acharam.

1. Glauco, conte-nos um pouco sobre a sua vida incluindo filiação, irmãos etc...

GM - Ja fallei e escrevi muito sobre tudo isso e muito ja escreveramsobre mim. Mas neste caso nossa conversa é como si fossebattepappo entre collegas no bar. Vale repisar toda a coisa. Paracomeçar, quem lê para você vae reparar que escrevo pela antigaorthographia neste computador fallante. A orthographia é uma deminhas muitas manias e faz parte da rebeldia que me characteriza. Nocaso, contra um sacco de gattos pingados que se acha no direito decagar regras a toda uma communidade lusophona. Ser retrô, àsvezes, significa ser anarchista, até vanguardista. Mas vamos la. SouFerreira da Sylva só por parte do avô paterno, mas os outros antepassados são italianos, os Canettieri e os Torrezani. Sou da ZonaLeste de Sampa, redondezas da Mooca. Mais velho de trez irmãos. Só eu nasci com glaucoma, como o Ray Charles e o filho do Roberto Carlos. Ray Charles não era rico e perdeu a visão ainda creança. O filho do Roberto, mesmo rico, tambem accabou perdendo.

Eu, da classe media baixa, passei por oito cirurgias, perdi primeiro o olho direito e, ja muito myope, o olho esquerdo depois dos quarenta. 

Suppondo que ficaria cego, e sem poder fazer tudo que a molecada fazia, virei leitor e escriptor desde cedo. Melhor alumno tambem, claro. Por causa disso sempre me bullyingavam, dentro e fora da eschola, e por causa disso virei sadomasochista: me fizeram lamber pés e chupar paus. 

Molecada typica de peripheria: nos annos cincoenta os arredores da avenida Sapopemba ainda eram muito baldios e os mattagaes o melhor scenario para curras entre moleques. Trauma duplo, o da deficiencia visual e o das curras, mas a litteratura serviu para desabbafar e a poesia para glosar. Para gozar, bastava a punheta. Até que eu encontrasse minha turma, nos annos septenta, nos gruppos de theatro e de militancia gay. Emquanto isso, me formei bibliothecario, trabalhei como bancario e desbundei como um dos poetas "marginaes" daquella geração. O que me destaccou foi um poezine muito anarchico, chamado JORNAL DOBRABIL (parodiando o JORNAL DO BRAZIL), que era uma folha dobravel, ou seja, "dobrabil". Recyclei a anthropophagia oswaldiana, mas, como sou mais escatologico, a minha foi uma "coprophagia". Durante a dictadura, tal irreverencia chamou a attenção dos artistas e intellectuaes. Virei discipulo do Augusto de Campos e do Millor Fernandes, que me davam força. Até Caetano Velloso deu. Esse pamphleto virou livro e se tornou meu chartão de visita. Em seguida escrevi um romance autobiographico, o MANUAL DO PODOLATRA AMADOR: ADVENTURAS E LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS, onde narro essa porra toda. Mas o que eu queria mesmo era ser poeta. 

Junctei os poemas do DOBRABIL em livro, mas não eram os sonnettos que hoje faço. Essa disciplina e esse rigor vieram depois da cegueira completa, ou talvez por causa della, ja que a metrica e a rhyma adjudam a memorizar e a compor na cabeça antes de passar para o computador fallante. Prompto, fallei, por fallar nisso.

2. Sei que o seu nome de batismo é Pedro José Ferreira da Silva.

Como surgiu o pseudônimo Mattoso? Conte detalhes.

GM - Paresce piada prompta. O portador de glaucoma é

glaucomatoso. Claroque eu percebi a analogia com Gregorio de

Mattos, outro satyrico e fescennino. Mas a intenção era usar meu

logar de falla como deficiente para sacanear todas as deficiencias

como parte duma "missão" sadomasochista, ja que meu pae era

kardecista e eu, embora não siga nenhuma chartilha, me tornei uma

mixtura de antagonismos: sou exsistencialista e espirita. A


contradicção e o paradoxo são outra de minhas manias. Gosto de

explorar os conflictos humanos, a dupla personalidade, entre a

perversão e a perversidade, entre a compaixão e a

humanidade, en tudo e em todos. Por isso desdenho das censuras,

que só visam a apparencia pornographica exterior, ignorando

contehudos mais profundos. Nem sei o que é peor, a censura de

"bons costumes" da direita ou a "politicamente correcta" da esquerda.

Para mim, pisar no callo dos excluidos me irmana a todos os

injustiçados, os da graça divina e os da desgraça humana.


3. Particularmente, tenho muita dificuldade de aceitar com

naturalidade o problema que me causou o descolamento de retina. Eu

estava entrando na casa dos sessenta. Fui submetido a nove cirurgias

em vão. E você como recebeu a

notícia dos médicos dando conta de que você estava cego? Passou

por tua cabeça a ideia de suicídio?

GM - Como eu dizia, passei por oito cirurgias, a primeira aos oito

annos e a ultima aos quarenta e quattro. A cada operação, os medicos

repetiam que, si eu continuasse enxergando, estaria no lucro, pois

meu glaucoma congenito é fatal. Perdi o olho direito depois dos vinte e

o esquerdo depois dos quarenta. Ja sem visão no direito, fui morar no

Rio para poder trabalhar como bibliothecario no Banco do Brazil, mas

na verdade eu queria sahir da casa dos paes para não me suicidar

emquanto la morasse, a fim de poupar a familia do choque directo.

Elles receberiam a noticia à distancia. No Rio os abysmos são faceis

de accessar e eu queria seguir o exemplo de outros artistas que se

precipitaram. Para mim a perda do olho esquerdo viria logo, mas não

veiu e segui tocando a vida, mas ja convivendo com gente do meio

artistico e intellectual. Foi la que comecei a editar o DOBRABIL. Isso

me entreteve e accabei addiando o suicidio. Na volta a Sampa,

comecei a morar em appartamento (no Rio a pensão ficava num

casarão), primeiro num segundo andar, depois num nono,

donde planejei me jogar assim que perdesse o olho esquerdo. Depois

da perda total, mamãe veiu morar commigo uns mezes e addiei de

novo. Mais tarde, percebi que conseguia me virar sozinho dentro de

casa e, de repente, o sobrenatural interferiu. Traduzi Borges juncto


com o professor Jorge Schwartz, ganhamos um Jaboty pela

traducção, e adquiri meu primeiro computador fallante, installado com

o programma DOSVOX, da UFRJ, editor de texto que uso até hoje.

Esse programma me permittiu digitar tudo que vinha na cabeça,

inclusive uma poesia rhymada e metrificada que eu nem imaginara

poder compor. No primeiro anno, passei dos trezentos sonnettos e, no

terceiro, dos mil. Hoje passei dos quattorze mil poemas, interrompi

varias vezes a producção poetica para escrever e publicar outras

coisas e, depois de duzentos livros, entendo que esse affan me

dissuadiu do suicidio, appesar duma cegueira cada vez

mais soffrida com a chegada da velhice e de outras doenças, como a

neuropathia diabetica. Entretanto, a coincidencia com Borges não foi

só na cegueira progressiva e na perda em meia edade: foi tambem na

vida conjugal, ja que, a exemplo da Maria Kodama, tambem me casei

com um japonez, cuja companhia me reforçou a decisão de ir

addiando o suicidio,

que não está definitivamente deschartado, ja que a morte assistida do

Antonio Cicero me suggere que agora a coisa fica mais viavel.

4. Pra falar a verdade, ainda não me considero com a cabeça

totalmente no lugar. Ainda entro em depressão... A literatura me faz

bem. É como se fosse remédio. Ouço livros e dito textos a pessoas

queridas como a historiadora Flor Maria. E você ouve muito livro,

mexe na Internet com facilidade?


GM - Não gosto de audiolivros. Prefiro ler/ouvir um texto no

computador fallante, digitado por mim mesmo ou por outros auctores.

Meu esposo lê para mim, inclusive jornaes, e ouço radio para me

informar do noticiario. Tambem ouço muita musica em CD e cheguei a

produzir CDs de punk rock em sociedade com o membro duma

dessas bandas. Um desses CDs, chamado MELOPÉA, junctou gente

que musicou meus sonnettos, desde Arnaldo Antunes ao cearense

Falcão. Mas o DOSVOX só me permitte trocar emails,

pois nas redes é meu esposo Akira, alem do meu editor Lucio

Medeiros, quem monitora o facebook, o instagram e o twitter. Nada

disso remedia a depressão, a insomnia e a angustia exsistencial,

todavia. Continuo maldizendo a cegueira e, ao contrario de Borges,

não acho que seja uma dadiva divina. Dadiva foi a veia poetica,


graças à assistência espiritual de Borges, Homero, Milton, Joyce, sem

fallar no Cego Adheraldo...

5. Eu sempre li autores diversos, nacionais e estrangeiros. E você, de

quais autores mais gosta? E gêneros literários como romance, conto,

poesia...?

GM - As influencias directas são do Augusto de Campos na poesia e

do Millor no livre pensar. Com elles convivi e dialoguei. Mas as

influencias remotas vão da sexualidade violada à cantoria violeira,

passando por Sade, Masoch, Aretino, Bocage, Gregorio e chordelistas

da "litteratura de bordel", practicantes da chamada glosa fescennina,

herdeira dos epigrammas latinos e dos goliardos medievaes. Sou,

portanto, um legitimo expoente da tradição pornographica na litteratura

canonica, ja que sou estudado em theses de universidades nacionaes

e extrangeiras. Na prosa tambem curto Genet, Henry Miller, Orwell e

Burgess, mas, como tenho a cultura encyclopedica dos bibliothecarios,

apprecio muitos classicos universaes, de Boccaccio a Rabelais.

6. Acabei de escrever uma série sobre licenciosidade na cultura

popular. Nesse trabalho, que pretendo que vire livro sob o título Do

Popular ao Erudito: o Sexo como Expressão Artística, tem de tudo,

incluindo obras de autores como Gregório de Matos e Guerra, Dalton

Trevisan, Hilda Hilst, Marquês de Sade, Restif de La Bretonne, entre

muitos outros. Você é um apaixonado pelo Boca do Inferno. O que

você tem escrito sobre ele? E no campo propriamente poético, de que 

você mais gosta: quadra, redondilhas, sextilhas, décimas ou sonetos?

GM - Estou nas principaes anthologias eroticas, inclusive a da Eliane

Robert Moraes e a do Alexei Bueno, subtitulada DE GREGORIO DE

MATTOS A GLAUCO MATTOSO. Em Gregorio sigo a linha satyrica,

não só sexual mas tambem politica, alem do modello sonnettistico

camoneano. Minha producção mais volumosa é de sonnettos (onze

mil, um recorde), mas já glosei muito motte e pellejei com gente de

respeito, como o Moreira de Acopiara, que publicou nosso folheto.

Não satisfeito, inventei gêneros alternativos, como o dissonnetto de

quattro quartettos ou o "infinitilho" de estrophes illimitadas, cada

estrophe sem limite de versos, mas rhymadas na sequencia das

anteriores, typo ABCDEFG... O exemplo barroco de Gregorio é


instigante no sentido de crearmos jogos de palavras e eschemas

estrophicos/rhymaticos engenhosos. O concretismo tambem me

estimulou nesse terreno. Em alguns cyclos narrativos mais

longos usei formatos estrophicos variados, como decima seguida de

quartetto, oitava camoneana e verso livre, mas a cegueira sempre

predominando como thema, como em "São Sansão, Sancta Dalilah",

"Evangelho de Judas Izrahiah" ou "Historia da cegueira", estes

reunidos no livro OBSCURAS ESCRIPTURAS, satyrizando a

mythologia biblica, a exemplo do John Milton, que revisitou a lenda de

Sansão.

Meu amigo, minha amiga: você está gostando desse nosso papo?

Tem mais. Aguarde...

segunda-feira, 18 de maio de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (33)

Antes de os portugueses aportarem na nossa costa baiana, habitavam nossas matas, nossas terras, muito mais de cinco milhões de indígenas. A esse número também chegaram africanos e africanas trazidos à força para cuidar dos interesses dos ricos e poderosos aboletados na terra brasilis. Sim, essa mesma terra em que vivemos em nome de Deus e da paz.

O escriba Pero Vaz de Caminha, integrante da frota cabralina, enviou carta ao rei D. Manuel I dizendo das maravilhas que o seus olhos vislumbravam. Referindo-se ao Brasil, escreveu: "...querendo-a [a terra] aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem".
Tivemos, entre tantos um escritor cearense da mais alta inspiração: José Martiniano de Alencar (1829-1877).
Alencar é considerado o pai da literatura brasileira. É considerado também o principal expoente do indianismo. 
Sobre a temática indianista, José de Alencar escreveu o clássico O Guarani (1857), seguido de Iracema (1865) "a virgem dos lábios de mel" e Ubirajara (1874).
No romance Ubirajara, o mestre cearense mostra quão valente é o personagem que dá título ao livro. Em luta com uma centena de indígenas de uma tribo inimiga, o herói de Alencar acaba com todos e ganha como prêmio Araci, a filha do cacique. Antes, o imbatível guerreiro vencera e cegara Pojucã, numa briga à toa.
As histórias do Brasil não são poucas e não são poucas as histórias criadas em prosa e verso por nossos intelectuais.
As histórias verdadeiras e inventadas no nosso Patropi ocorreram e ocorrem todos os dias independentemente do mês. 
O bom e velho Machado de Assis falou nos seus textos de tudo ou quase tudo, incluindo temas políticos e religiosos. 
Em 1893, Machado escreveu e publicou na coluna A Semana, do jornal Gazeta de Notícias, um dos seus contos mais famosos: Missa do Galo, cujo enredo conta com um jovem chamado Nogueira e o amigo Menezes, casado em segunda núpcias com Conceição. 
Nogueira tinha 17 anos e Conceição 30.
O mocetão Nogueira achava-se  hospedado na casa de Menezes. Só que Menezes trabalhava a semana inteira e nos fins de semana ia encontrar-se com uma amante. Todos em casa sabiam disso: dona Inácia, mãe de Conceição; dois escravos e a própria Conceição que achava natural o que o maridão fazia.
A história desenvolve-se numa noite de Natal e entre Nogueira e Conceição rola um clima...
Machado de Assis escreveu em gêneros diversos incluindo romances, contos e poemas, além de peças para teatro e crônicas para jornais e revistas do seu tempo. Aliás, seu primeiro texto publicado num jornal foi um poema. Tinha 14 anos. Com o passar dos anos, ele tornou público Soneto de Natal. Este: 

Um homem, - era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno, -
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno. 

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"


E por falar em soneto, é do Brasil o autor até agora com o maior número de sonetos escritos. São milhares. Seu nome? Glauco Mattoso, como todo mundo o conhece. 
Glauco, de batismo Pedro José Ferreira da Silva, tem publicados em papel e no formato de PDF pelo menos 200 livros. É um tarado. Escreve todos os dias, incluindo feriados, sábados e domingos. É daqueles poetas que não vai dormir com a garganta apertada. Isto é: diz sempre o que quer, no papel e na fala ouvida.
Lá pelos anos de 1970, Glauco já era chamado de poeta maldito. Aliás, essa expressão foi cunhada por Alfred de Vigny (1797-1863), francês de profissão dramaturgo e poeta. Depois, essa expressão foi popularizada por Paul Verlaine ao publicar a seleta Les Poètes Maudits (1884).
O detalhe nessa história toda é que Glauco perdeu completamente a visão em 1995, vitimado que foi pelo glaucoma. E para não sofrer demais além da conta, o poeta se reinventou de todas as maneiras. Trocou até de nome.
No Brasil, atualmente, há pelo menos 1,7 milhão de pessoas portadoras de glaucoma. 
Bom, ao invés da bandeira de Pedro I, Independência ou Morte, a bandeira de Glauco Mattoso sempre foi Independência e Arte!
Sobre tudo e também sobre o Natal, Glauco escreveu o soneto que aqui segue:

SONETO 925 - NATAL

Nasci glaucomatoso, não poeta. 
Poeta me tornei pela revolta
Que contra o mundo a língua suja solta
E a vida como báratro interpreta.

Bastardo como bardo, minha meta
Jamais foi ao guru servir de escolta
Nem crer que do Messias venha a volta,
Mas sim invectivar tudo o que veta.

Compenso o que no abuso se me impôs
(pedal humilhação) com meu fetiche 
lambendo, por debaixo, os pés do algoz

Mas não compenso, nem que o gozo esguiche,
Masoca, esta cegueira, e meus pornôs
Poemas de Bocage são pastiche.


A partir da próxima semana publicaremos, neste espaço, inspirado bate-papo que Glauco e eu tivemos. Aguarde, pois valerá a pena. 
Ah! Sim: ia me esquecendo de dizer que Glauco é leitor contumaz de Sade, Masoch, Rimbaud e autodeclarado herdeiro intelectual do baiano Gregório de Matos e Guerra, o Boca do Inferno.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (32)

A história registra a presença de escravos desde tempos imemoriais. Foi assim na Grécia, no Egito, na Inglaterra, na Itália,  nos EUA e mais e mais em todo canto.

Nos primeiros 320 anos de história, o Brasil registrou a presença de pelo menos 5 milhões de escravizados oriundos do continente africano. 
O primeiro Censo realizado no Brasil, em 1872, registrou a existência de aproximadamente 1,5 milhão de homens, mulheres e crianças escravizados. À época, o número de habitantes do país girava em torno de 10 milhões de pessoas. 
De acordo com os números apresentados até então, aproximadamente 10% a 20% dos brasileiros eram alfabetizados.
As mulheres escravizadas que nasciam cegas ou cegas ficavam no correr da vida, eram levadas para trabalhos domésticos, quando não eram disponibilizadas para a prostituição por seus senhores.
Aliás, pouco tem se falado a respeito desse que foi gravíssimo problema da vida brasileira num tempo ainda não tão distante de hoje.
De modo geral, o período escravocrata no Brasil tem sido contado e cantado em prosa e verso. 
Em 1916, o cordelista piauiense Firmino Teixeira do Amaral (1896-1926) escreveu e fez publicar o folheto que virou clássico:  Peleja do Cego Aderaldo com Zé Pretinho dos Tucuns. Um trecho:


Apreciem, meus leitores, 
Uma forte discussão, 
Que tive com Zé Pretinho,
Um cantador do sertão,
O qual, no tanger do verso,
Vencia qualquer questão. 

Um dia, determinei
A sair de Quixadá - 
Uma das belas cidades 
Do estado do Ceará. 
Fui até o Piauí, 
Ver os cantores de lá.

Me hospedei na Pimenteira
Depois em Alagoinha;
Cantei em Campo Maior,
No Angico e na Baixinha.
De lá eu tive um convite
Para cantar na Varzinha... 


Cego Aderaldo, de batismo Aderaldo Ferreira de Araújo (1878-1967), ficou órfão de pai e mãe, sem irmãos e cego quando tinha 18 anos de idade. Até então, a sua atividade profissional era a de descaroçador de algodão. 
Um tanto perdido, o jovem Aderaldo descartou totalmente a possibilidade de andar pelas ruas pedindo fosse o que fosse a quem quer que fosse. A propósito, palavras sabia o Cego muito bem trabalhá-las de modo curioso para do público arrancar risos e palmas. Nisso era mestre. Aqui e ali ele fazia assim:

Quem a paca cara compra
Cara a paca pagará
Pagará a paca cara
Quem a paca cara compra...

Pois é, o Cego Aderaldo era um cara muito engraçado e competentíssimo em tudo que fazia. Criou 26 crianças órfãs e aprendeu a tocar viola, violão e rabeca. Um dia, alguém achou de provocá-lo numa cantoria, perguntando porque nunca se casara. Numa sextilha, despachou os seguintes versos: 

Pensar em casar,
Eu pensei isso eu não nego
Mas com minha experiência 
Batata quente eu não pego
Quem enxerga leva chifres
Imagina eu que sou cego

De acordo com o Censo de 2022, havia  no país  uma população de 203 milhões de habitantes.  Nesse total se achavam 14,4 milhões de pessoas portadoras de algum problema físico ou visual que lhes impediam de se locomover com total naturalidade no seu cotidiano. Entre essas pessoas estavam indígenas cegos e surdos. 
As indígenas eram as pessoas mais vulneráveis e suscetíveis à cegueira. 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (31)

Sob as rodas de um trem também sucumbiu a protagonista de um romance do russo Tolstói, Anna Karênina. 

O conto de Gorki me fez lembrar também um conto do francês Voltaire (1694-1778) intitulado O Carregador Zarolho. 
O zarolho do conto de Voltaire é personagem excepcional. Jovem, forte, sem compromisso amoroso com ninguém. Sentia-se bem e feliz trabalhando, comendo e dormindo num cotidiano inalterável. 
A história aqui lembrada passa-se no mundo árabe. 
Num dia indefinido, o carregador, de nome não explicitado no conto, tem a visão despertada por uma carruagem levando uma belíssima mulher. Princesa. Encantado, o carregador segue o que vê a sua frente. 
Bom que se diga meu amigo, minha amiga, que naquele tempo passado dessa história era comum que essas mulheres belíssimas viajassem sem cocheiro e sem lacaio. Era o caso.
O carregador corria, corria, corria ao lado da carruagem sem se cansar. Achava-se apaixonado pela bela figura feminina.
De repente, os cavalos que levavam a bela se assustaram e por pouco não a levaram precipício abaixo. 
Num passe de mágica, o carregador conseguiu cortar as rédeas e salvar a carruagem e sua ocupante.
O final dessa história tem a ver com As Mil e Uma Noites. Bagdá.
Bagdá tem muito a ver com a figura de maior destaque do romance O Conde de Monte Cristo, do velho Alexandre Dumas (1802-1870). 
Dumas Pai, como ficou conhecido Alexandre, autor de pérolas da literatura mundial como Os Três Mosqueteiros e tantas outras belezas que todo mundo conhece, era de origem negra. O seu pai Tomás (1762-1806), foi o primeiro general negro da história da França. A sua avó, Marie-Cessette Dumas, era escrava.
O livro O Conde Negro, livro biográfico escrito pelo norte-americano Tom Reiss, prêmio Pulitzer de 2003,  conta toda essa história, inclusive o fato de ele ter provocado a ira do seu chefe Napoleão Bonaparte. Fantástica. 
O general Tomás foi preso na Itália e morreu jovem com apenas 43 anos de idade. 
O avô do autor de O Conde de Monte Cristo casou-se com uma negra escrava haitiana e com ela teve quatro filhos, entre eles Tomás.
Tomás e os seus irmãos foram vendidos pelo pai, que sumiu do mapa.
Algo exatamente parecido aconteceu no Brasil ali pelos anos de 1840. Fato: Luiz Gonzaga Pinto da Gama foi também vendido pelo inescrupuloso pai português Antônio Agostinho Carlos Pinto da Gama. Tinha 10 anos de idade e era baiano. Aos 17 anos lutou e lutou para provar que fora vítima de injustiça. E nessa luta, como rábula que foi, Gama conseguiu legalmente a alforria de 700 escravizados e escravizadas.
A história de Luiz Gama (1830-1882) é história para jamais ser esquecida, principalmente por quem tem um mínimo de lucidez e consciência. 
Antes de Alexandre Dumas e seu pai, a história registra a presença negra na velha Rússia. Foi lá, no final do século 17, que Pedro, o Grande, acolheu e alforriou o bisavô do primeiro e mais importante romancista e poeta russo: Alexandre Pushkin, autor de A Dama de Espadas e A Filha do Capitão. E não custa lembrar que esse Alexandre inspirou Dostoiévski a escrever o clássico Crime e Castigo.
Como curiosidade, diga-se: o bisavô de Pushkin virou general do exército russo. Era africano.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (30)


Bom, meu amigo minha amiga: alguma vez você ouviu dizer que num passado remotíssimo existiu um sujeito doido para ver pessoas cegadas e ele próprio cegava quando não mandava cegá-las?

O sujeito a quem me refiro tinha por nome Basílio. Era imperador, Imperador Basílio II. Era o mandachuva, o bambambã absoluto daquelas plagas onde hoje se acha Istambul.
Refiro-me ao Império Bizantino, cuja área territorial ia da Península Balcânica ou Balcãs até o norte da África, passando antes pela Ásia Menor, Síria, Palestina e norte da Mesopotâmia.
Houve um tempo em que parte da Itália e sul da Península Ibérica fizeram parte daquele império que chegou a adotar a língua grega como oficial. 
Conta a história que, durante uma guerra, Basílio II teve sob as suas ordens cerca de 15 mil prisioneiros. De uma hora pra outra, o tal determinou que os presos fossem cegados. Esses foram divididos em grupos de 100. Apenas um em cada um desses grupos tinha só um olho cegado. Isso porque o preso transformado em caolho era obrigado a levar de volta à pátria os seus colegas búlgaros. 
Quando o rei búlgaro viu os seus soldados em estado deplorável, humilhados, cegos, sofreu um ataque do coração e caiu duro morto no chão. 
Isso ocorreu, ainda segundo a história, em 1014 d.C.
É impossível, completamente impossível, que se saiba o número mesmo aproximado de conflitos, revoltas, revoluções e guerras ocorridos desde que o homem desceu das árvores. Aliás, sequer é conhecido o número de feridos e mortos em conflitos e tal no Brasil. 
O paulista Hernâni Donato (1922-2012), autor da obra Dicionário das Batalhas Brasileiras (1996), dizia que pelo menos um tumulto popular ocorria diariamente no Brasil. Mas essa é outra história...
Completamente diferente de Sonho de Uma Noite de Verão é o conto Sonho de Uma Noite de Natal de Maximo Gorki (1868-1936).
O conto de Gorki começa com um autor na sua casa escrevendo mais uma história. Passa-se na Rússia. O texto diz que uma velha e o seu marido cego, de quem era guia, saíram numa véspera de Natal para pedir aos corações solidários alguma coisa para matar a fome.
O tique-taque intermitente do relógio o fez cochilar...   de repente o autor teve a atenção atraída por um certo bulício que vinha de fora. Da janela foi como se visse vultos em movimento. A velha do conto recém escrito bradou irritada, raivosa mesmo, atirando impropérios contra quem lhe criara: 


"Não nos reconheces?... Não me reconheces?... Nós somos os heróis dos contos, que passas a vida escrevendo; somos os tristes e desgraçados filhos da tua imaginação... Ali estão os dois meninos que fizeste morrer de frio, diante das janelas de uma casa onde fulgia, magnífica e opulenta, uma árvore de Natal. Aquela mulher, ali, é a desgraçada que fizeste morrer sob as rodas de um trem, quando corria, ansiosa por levar aos filhos um presente de Natal. Aquele ancião..."


No dia seguinte, logo cedo, o autor pegou os originais e os rasgou, jogando tudo fora. 


sábado, 9 de maio de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (29)



 Não foram duas nem três vezes, mas muito mais, que o poeta inglês John Milton fez referência à perda da luz de seus olhos. 

Num de seus belos escritos poéticos, no soneto 19 ("Quando considero como  minha luz é gasta") diz o mestre: 


"Quando considero como minha luz é gasta,
Antes da metade dos meus dias neste mundo escuro e vasto,
E aquele talento que é a morte para esconder 
Alojado comigo inútil, embora minha alma mais curvada

Para servir com ele meu Criador e apresentar 
Minha verdadeira conta, para que Ele não repreenda ao retornar;
"Deus exige trabalho diário, negando-lhe a luz?"
Peço com carinho. Mas paciência, para evitar 

Aquele murmúrio logo responde: "Deus não precisa 
Seja a obra do homem ou seus próprios dons. Quem melhor
Suportam o seu jugo suave, eles o servem melhor. Seu estado

É real: milhares em Sua velocidade de comando,
E postar sobre a terra e o oceano sem descanso;
Também servem aqueles que apenas ficam parados e esperam."


O poema aqui transcrito data da metade do século 17. E foi ele o autor inglês que menos metáforas usou ao abordar a temática cego/cegueira. Antes dele, Shakespeare fazia referência a algo como "o amor é cego", que instantaneamente caiu na boca do povo. Cravou essa frase porque, segundo ele e nós, dizemos que o amor e a paixão cegam e deixam os amantes bobificados, incapazes de aterem-se às tolices que dizem uns aos outros como se anestesiados estivessem.
Noutro momento, na obra Sonho de Uma Noite de Verão, o autor de Rei Lear escreveu: "O amor não vê com os olhos, vê com a mente; por isso é alado, é cego e tão potente".
Pois bem, muitos outros autores usaram e abusaram de metáforas, no Brasil e em todo canto. 
O norte-americano Stephen King adorava dizer e escrever coisas como "ódio cego" e "esperança cega".
Na extensa obra de King se acham tipos os mais diversos, de crianças a adultos e tal. 
No conto Vovó, o famoso autor dá voz e forma a uma velha senhora temida pelos netos George e Buddy. Essa velha é descrita como grandona, pesadona, enfim, disforme. Além disso é cega. Fala aos berros, chamando a filha para que lhe leve os netos para abraçá-los. Mas eles tremem só ao ouvi-la gritar, pois têm medo da feiura dela, da boca sem dentes e dos cabelos brancos desgrenhados. 
Um dia, a mãe pede para George ficar em casa para atender eventuais pedidos ou desejos da velhota, por muitos considerada bruxa. Em suma: ela morre e apossa-se do corpo do neto.
A cegueira física pode ser real ou não. 
A história conta que vítimas da Inquisição foram maltratadas e torturadas ao extremo em Portugal, na Espanha e noutras partes do mundo. Muita gente foi queimada viva e cegada sem dó nem piedade.
Os regimes ditatoriais praticam a cegueira nos seus inimigos até nos dias de hoje. Um exemplo?
Em 9 de maio de 1979 o mineiro Rubens Pinto Fiuza, nascido em 1940, foi preso e teve os olhos vazados pelos poderosos e violentos canalhas de plantão. Foi solto no mesmo dia, já cego e todo ensanguentado. Há registros na Imprensa. 
A desgraça com esse brasileiro ocorreu na capital de Mato Grosso, Cuiabá. 
Em 1936, o escritor Aldous Huxley escreveu um interessantíssimo romance a que intitulou Sem Olhos em Gaza.
O título desse livro foi extraído de uma peça dramática de John Milton, intitulada Sansão Antagonista
Essa obra reconta a tragédia de que foi vítima o sempre lembrado Sansão, hebreu traído pela mulher por quem havia se apaixonado: Dalila, que era filisteia.
Foi em Gaza, uma cidadezinha do Oriente Médio, que Sansão foi preso e acorrentado. Sob tortura, os canalhas daquele tempo furaram-lhe os olhos.
Sansão era, segundo os escritos bíblicos, cidadão israelita e juiz durante anos do lugar hoje chamado Israel.
A violência física e moral, que ainda hoje grassam mundo afora, deixam pessoas de todo tipo vitimadas. 
Até maio de 2025, ficou-se sabendo que pelo menos 1.500 pessoas haviam ficado cegas em Gaza em decorrência do último conflito entre o grupo terrorista Hamas e Israel, iniciado em outubro de 2023.



quarta-feira, 6 de maio de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (28)

 

O grande poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973) deixou uma obra enorme, em todos os sentidos. 

Ainda na adolescência costumava escrever dois a cinco poemas diariamente. 
Com a idade de quinze ou dezesseis anos, Neruda publicava seus escritos em periódicos da sua terra, em capítulos. 
Em 1923, o mestre chileno das letras estreava no mundo da poesia com o livro Crepusculário. Nesse livro se acha o soneto Velho Cego, Choravas. Ei-lo:

"Velho Cego, choravas quando a tua vida
era boa, quando possuías nos teus olhos o sol:
mas se o silêncio já chegou, o que é que esperas,
o que é que esperas, cego, desta maior dor?

Em teu rincão pareces menino nascido 
sem pés para a terra e sem olhos de mar
e como os animais dentro da noite cega
- sem dia e sem crepúsculo - cansas de esperar.

Porque se conheces o caminho que leva
em dois ou três minutos para a vida nova,
velho cego, o que esperas, que podes esperar?

E se pela amargura mais dura e destino, 
animal velho e cego em caminho e tino,
eu que tenho dois olhos saberei te ensinar".


Neruda andou por nossas plagas entre 1945 e 1954, ciceroneado pelo bom baiano Jorge Amado. E não custa dizer que, ao contrário do argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), detestava poderosos de direita. E ao contrário de Neruda, que era declaradamente comunista, Borges que tinha especial admiração por poderosos fardados, desenvolveu toda a sua literatura sem a visão dos olhos. É dele o poema Um Cego. É muito bonito:


"Não sei qual é a face que me fita
Quando observo a face de algum espelho;
No seu reflexo espreita-me esse velho
Com ira muda, fatigada, aflita.
Lento na sombra, com as mãos exploro
Meus invisíveis traços. O mais belo
Fulgor me atinge. Vi o teu cabelo 
Que é já de cinza ou é ainda de ouro.
Repito que perdi unicamente 
A superfície sempre vã das coisas.
O consolo é de Milton e é valente,
Mas eu penso nas letras e nas rosas,
Penso que se pudesse ver a cara
Saberia quem sou na terra rara".


O mestre argentino tinha entre seus leitores o conterrâneo que virou papa: Francisco. 
Outro grande poeta que findou seus dias cego foi o inglês John Milton (1608-1674).
John Milton escreveu muita coisa bonita em línguas diversas: latim, italiano, inglês, francês, alemão etc. Entre seus escritos poéticos se acha Paraíso Perdido de 1667, no qual há um embate entre Deus e o Diabo. 
Ainda não foi dito, creio, que o nosso Machado de Assis inspirou-se em Milton para escrever o conto A Igreja do Diabo de 1884. Tanto numa como na outra obra, o Diabo acaba onde sempre deveria ou deverá estar: no Inferno. 
É em Paraíso Perdido, poema desenvolvido em 10.565 versos brancos, que se lê a famosa frase "É melhor reinar no Inferno do que servir no Céu".
Atenção meus amigos e amigas, pergunto: o Milton a quem nos referimos é o Milton nascido e crescido na Inglaterra. Enfim, lá na terra dele chegou a ser preso político por criticar a monarquia. Detestava esse tipo de governo. E por defender o que defendia politicamente, pagou caro: seus direitos foram cassados, inclusive o da profissão que exercia como professor. 
O mais importante épico poético na língua inglesa de Shakespeare foi feito por John Milton e nasceu de modo ditado quando já estava completamente cego.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (27)


 A Segunda Grande Guerra terminou bem no começo de setembro de 1945, com a rendição das Forças Japonesas.

Um dos grandes repórteres norte-americanos, Ernest Hemingway (1899-1961), fez história cobrindo para jornais o desespero que foi aquela guerra. Fez história também com os livros que escreveu, entre os quais o último: O Velho e o Mar. Esse livro foi concluído em 1951. Em 1952, o mesmo livro foi publicado e no ano seguinte destacou-se com o Prêmio Pulitzer.
O Nobel de literatura de 1954 foi encontrar em Hemingway o escritor mais importante do mundo naqueles tempos.
O Velho e o Mar foi publicado em muitas línguas. Conta a história de um pescador que passa meses indo e vindo sem nada pescar no barco que o leva ao mar. Sobre a sua idade e origens nada é dito. Seu primeiro acompanhante foi um garotinho de 5 anos, chamado Manolin.
Ali logo nas primeiras páginas do livro, Hemingway escreve um diálogo entre o Velho protagonista e seu companheiro de jornada.
Como o Velho praticamente nada pescava, o garoto foi pelo pai obrigado a trabalhar num barco cujo dono, de vista curta, tinha dinheiro e era isso o que  o pai do menino mais queria. 
Anos depois, o velho pescador e o seu amigo já grande lembram parte do passado que juntos viveram. Conversa vai, conversa vem...

"- Amanhã, com esta corrente, vai ser um bom dia - disse.
- Para onde vais? - perguntou o rapaz.
- Muito para o largo, para vir quando levantar o vento. Quero sair antes de ser dia.
- Hei de ver se o levo bem para o largo - disse o rapaz. - E, se pescas alguma coisa das grandes, podemos ir ajudar-te.
- Ele não gosta de trabalhar muito ao largo.
- Pois não - reconheceu o rapaz. - Mas hei de ver o que ele não pode ver, assim um pássaro à pesca, e levá-lo aos delfins.
- Vê assim tão mal?
- Está quase cego. 
- É estranho - disse o velho. - Ele nunca andou às tartarugas. E é o que dá cabo dos olhos.
- Mas tu andaste anos e anos às tartarugas na Costa do Mosquito, e vês bem.
- É que eu sou um velho estranho. 
- Mas ainda tens força para um peixe dos grandes a valer".

Antes de cobrir a Segunda Grande Guerra, Ernest Hemingway como repórter também cobriu a Guerra Civil Espanhola, que durou de 1936 a 1939.
No livro As Areias do Tempo (1980) do estadunidense Sidney Sheldon, se acha parte da história recente da Espanha. 
Na trama de Sheldon o leitor acompanha ações de um grupo guerrilheiro liderado por um basco de nome Jaime Miró.
Tudo começa e praticamente termina com a queda de Franco, ditador que permaneceu à frente do destino dos espanhóis entre os anos de 1939 até 1975. 
Na história engendrada pelo mestre do romance de intrigas e mistérios, o líder guerrilheiro Miró tem no seu encalço o Fleury daquelas terras. Seu nome: Ramón Acoca. 
Fora os citados personagens, acrescente-se quatro mulheres tornadas freiras: Irmã Teresa, que é estuprada e assassinada;  Irmã Graciela, Irmã Megan  e Irmã Lúcia. 
Ao fim da história, depois de ameaçar arrancar os olhos de um cara, Lúcia troca a Espanha pelo Brasil e vai morar no Rio. 
Quanto ao guerrilheiro Miró, deve-se dizer que escapa do pior contra tudo e contra todos. E mais não digo. 
O curioso disso tudo é que Sheldon abre As Areias do Tempo com epígrafes assinadas por Ernest Hemingway e Pablo Neruda. A parte tocante ao autor de O Velho e o Mar é esta:

"Os mortos não precisam levantar. São uma parte da terra agora, e a terra nunca pode ser conquistada, sobreviverá a todos os sistemas de tirania.
Aqueles que nela entraram de maneira honrada - e não houve homens que entraram mais honrosamente do que os que morreram na Espanha - já alcançaram a Imortalidade"

segunda-feira, 27 de abril de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (26)



Voltando, voltando, devo dizer que essa história de reis é pra lá de curiosa. Tem lá a sua importância, mas nem tanto. 

Rei disso, rei daquilo...
Édipo tinha dois olhos e os furou desesperadamente ao descobrir que cometera um erro, um crime imperdoável: matou o pai e desposou a mãe. Antes, tinha dois olhos vivos...
E o que tem a ver D. Manuel I com Édipo?
D. Manuel I tinha dois olhos sadios como os tinha Édipo. 
E o que tinha a ver tudo isso com Lampião, o rei brasileiro do Cangaço?
Lampião e Pontaria diziam que não precisavam de dois olhos para acertar o alvo.
D. Manuel I não usava pistola e não sei que lá de outras armas de fogo. No entanto, em tudo que mirava acertava.
Em 1498, um ano e meio antes de Pedro Álvares Cabral desembarcar na Bahia, o navegador e cosmógrafo Duarte Pacheco Pereira pôs os pés no norte do Brasil.
Enquanto Duarte Pacheco punha os pés no Brasil, ali na divisa do Maranhão e Pará, Vasco da Gama naquele mesmo ano de 1498 desembarcava com força nas terras da Índia. 
D. Manuel I era certeiro nos alvos que escolhia.
Foi esse mesmo D. Manuel que apostou e patrocinou a esquadra que chegou ao Brasil em 1500.
Muita coisa aconteceu desde então. 
E aqui não vou falar daquele cara chamado Pinzón, espanhol, que passou dando adeus sem saber a Pernambuco três meses antes de Cabral desembarcar na Costa baiana.
Vocês devem, a essa altura, pensar o que estou querendo dizer com isso.
Sim, não estou fugindo da temática cego, cegueira. 
Rei é uma coisa, imperador é outra.
Já falamos de reis disso e daquilo. 
Os nossos primeiros e grandes intelectuais desabrocharam com obras marcantes e inesquecíveis como Teixeira e Sousa.
O tempo foi passando e outros autores da literatura brasileira foram surgindo. 
Em 1886, Júlia Lopes de Almeida publicou o primeiro livro de literatura infantil, junto com a irmã Adelina Lopes Vieira. 
Até então, vivíamos o segundo Império, com D. Pedro II.
Julia Lopes de Almeida começou a marcar de modo mais visível a sua vida literária depois da proclamação da República, em 1889.
Estamos aqui falando do tempo da Belle Époque.
Foi nesse período que Júlia Lopes escreveu belos textos que com o tempo enriqueceram a literatura brasileira. Foi ela, por exemplo, a primeira escritora a gerar textos abordando a condição em que viviam as mulheres de seu tempo.
Bom, Júlia Lopes de Almeida foi a primeira intectual brasileira a escrever contos sobre mulheres que sofreram terrivelmente pelo fato de serem cegas. E sem sombra de dúvida foi ela também a primeira mulher a criar personagens cegas. Exemplos: A Caolha, A Pobre Cega, A Morte da Velha e O Último Raio de Luz. 
Muitos e muitos anos depois, foi publicado mundo afora o romance intitulado Toda Luz que Não  Podemos Ver, obra-prima do norte-americano Anthony Doerr. Virou filme. Trata de uma garota de seis anos, órfã de mãe e criada com todas as atenções pelo pai. Claro, ela é cega e a história se passa no correr da 2a. Guerra Mundial. 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (25)


Pois é, como todo mundo sabe ou deveria saber: na história traçada por Sófocles o personagem central (Édipo) mata o pai Laio e casa-se com a mãe, Jocasta. 
A tragédia edipiana é como todas as obras do grego Sófocles, trágica. Acaba com ele arrependido furando os próprios olhos e correndo e gritando feito um doido varrido. Enquanto isso ela, a mãe, suicida-se. 
Pouco antes dessa incrível tragédia, o cego Tirésias fora chamado por Édipo para fazer previsões do curso da sua vida. Mas não deu bola e deu no que deu. 
Todo mundo sabe ou deveria saber que Édipo tinha por pai um rei de Tebas. 
O Brasil foi achado por iniciativa do rei D. Manuel I.
A partir de 1808, o Brasil teve como dono reinante D. João.
A partir de 1822 assumiu o trono destas nossas terras brasileiras Pedro I. 
Depois desse Pedro, reinou entre nós o imperador Pedro II. É quando em 1889 o Brasil vira República. 
Enquanto República, o Brasil tornou-se esquisitamente uma casa de muitos reis. Explico: tivemos rei da Voz, rei do Samba, rei do Bolero, rei da Embolada, rei do Baião, rei da Sanfona, rei do Pandeiro, rei do Futebol, entre outros.
E ainda não falamos das rainhas que tivemos, mas não custa lembrar: rainha do Baião, rainha do Xaxado, rainha do Forró... e mais rainhas disso e daquilo.
E o rei da Cocada Preta, hein?
Bom, Lampião foi rei do Cangaço e matou muita gente, incluindo mulheres e crianças. 
Lampião entrou no cangaço em 1922, quando se realizava no Theatro Municipal de São Paulo a Semana de Arte Moderna.
No começo do 2° semestre de 1925, engrossou a fileira do bando de Lampião um cara que pela alcunha já diz bastante: Pontaria. Enxergava com um só olho.
Lampião, Pontaria e outros e outros sanguinários pagaram com a vida o mal que fizeram no Sertão nordestino. Muitos até chegaram a perder a cabeça...
Ainda há reis espalhados mandando e desmandando mundo afora. Porém não custa contar ou recontar que Lampião perdeu o olho direito em luta contra volantes de Pernambuco, em 1925. Na verdade, tiros dos policiais de então atingiram e fragmentaram espinhos de um cacto qualquer. Um desses espinhos atingiu um olho do famoso cangaceiro. 
Tanto Lampião como Pontaria diziam que não precisavam de  dois olhos para acertar o alvo mirado.


quarta-feira, 22 de abril de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (24)




Autoridades de verdade são, naturalmente, respeitadas aqui e alhures. 
Autoridades canalhas, vagabundas, têm de ser extirpadas da boa convivência social, pois não merecem respeito algum. 
Como sabemos, e todos deveriam saber, nós brasileiros de tempos atrás vivemos perrengues de todos os tipos. Amordaçados, inclusive. 
Passamos dolorosamente por golpes e tentativas de golpes desencadeados por milicos de altos coturnos. Marechais, generais e outras figuras de péssima lembrança. 
O período de mordaça mais longo que vivemos durou 21 anos, ininterruptamente. Começou em 1964 e terminou em 1985. Tivemos nesse período cinco poderosos verdes-oliva predizendo o nosso destino: Castello Branco, Costa e Silva, Médici, Ernesto Geisel e Figueiredo... Todos esses se acham a ferver nos caldeirões em brasa do Inferno. E que lá continuem. 
Por pouco, muito pouco, escapamos de cair numa nova ditadura. Isso em 2023.
No dia 21 de setembro de 2025, mais no final da tarde,  alguns dos mais expressivos artistas da nossa música popular foram às ruas do Rio engrossar o desejo dos brasileiros de boa índole que lutam pela paz do Brasil. Entre esses artistas estavam Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Djavan. Cantaram, inclusive. Foi uma festa e tanto, ali em Copacabana. 
Além do Rio, o movimento pela paz e contra o retrocesso se estendeu por outras capitais brasileiras. 
Todos pediam o cancelamento de pautas da Câmara e do Senado, especialmente as que blindam os parlamentares de qualquer investigação e os cabeças e participantes da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, anistiando-os.
É bom que se saiba e que nunca se esqueça que todo e verdadeiro poder emana do povo. 
Dito o que disse, lembro da história contada por Shakespeare no ano de 1601. Título: Rei Lear. 
A história trata da divisão de um reino por seu rei. A divisão coube a duas das três filhas do rei. Quem fica fora é a caçula, Cordélia. 
Depois de muita traição, violência de todo tipo e mais o inimaginável, o pobre rei perde tudo e fica doido. As filhas todas morrem. 
Ainda no decorrer da trama, um poderoso nobre de nome Gloucester tem um filho legítimo, Edgar e outro bastardo, Edmund.
Edmund tece uma tramoia contra seu irmão por parte de pai. A ideia era deserdá-lo. Resultado: o velho nobre Gloucester se revolta e, além de traído,  tem os olhos arrancados.
O fim de Rei Lear é tragicamente patético. 
Outro livro muito bom de ser lido é A Culpa é das Estrelas, de John Green. A trama envolve adolescentes  portadores de câncer. A protagonista tem 16 anos e o seu amado, 17.
O livro, publicado em 2012, começa com a protagonista Hazel sendo chamada à atenção pela mãe, que a vê em depressão profunda. A menina lê muito e muitas vezes, um livro só: Uma Aflição Imperial, de Peter Van Houten. 
Na trama de Uma Aflição Imperial se acha uma mulher que vê apenas com um olho. É viúva. 
Hazel e o seu namorado Augustus, têm um amigo em comum. É o adolescente Isaac que fica cego de um olho e, pouco depois, do outro olho.
Todos os personagens de John Green são muito bem humorados mesmo carregando consigo a marca breve de um fim de tempo. 
Curiosidade: Uma Ambição Imperial é um livro irreal, nunca foi publicado. E o seu autor na vida real jamais existiu, mas são muito importantes na trama criada por Green. E mais não digo. 
E rei por rei, tivemos o do Sertão: Lampião (1898-1938).
Houve vários cangaceiros cegos. Um deles, Serapião das Almas, que fez o que fez Édipo Rei, de Sófocles. 

sexta-feira, 17 de abril de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (23)

 


Mais uma vez o Brasil 

Escapou de mergulhar 
No terreno movediço 
Da ditadura militar 
Feia e sanguinária
Que não se cansa de matar...

O começo da tarde daquele 8 de janeiro de 2023 pegou de surpresa os brasilienses e  brasileiros em geral.
Era um domingo ensolarado quando pelo menos 4 mil malucos e malucas quebraram tudo que encontravam na Praça dos Três Poderes. Muitos foram presos e pelo menos 1,6 mil teve de prestar contas à Justiça. 
No começo da noite de 11 de setembro de 2025, os principais líderes golpistas pegaram penas pra eles inesperadas.
Ditadura, sabemos, é coisa que não presta. 
O Livro dos Cegos é obra do jornalista Marcio Salgado. Conta a história de uma mulher desaparecida durante os chamados anos de chumbo (1964-1974). Quem anda louco à procura da personagem é o filho, Antônio. O narrador, em determinado momento, se depara com anotações em Braille feitas por alguém de nome Jeremias e com isso passa a juntar pedrinhas do jogo. Interessantíssimo. 
Enquanto a ficção e a realidade se juntam no livro de Salgado, a realidade nua e crua ponteia a vida de uma mãe em busca do filho que fora sequestrado e levado à base aérea do Galeão, RJ, onde teria sido assassinado. Corria o ano de 1971. A mãe chamava-se Zuzu e o filho Stuart. Ela morreu cinco anos depois do filho, vítima de um atentado provocado por trogloditas da ditadura militar. 
Foi em 1976 que o baiano Milton Coelho de Carvalho foi preso e duramente castigado por ser militante do PCB. Perdeu a visão durante sessões de tortura. Morreu em abril de 2024, em Sergipe, aos 82 anos de idade. 
Pululam nas crônicas, contos, poemas e romances a figura do cego, do míope...
No ótimo Fogo Morto (1943), do paraibano José Lins do Rego, se acham o cego Torquato e o vagabundo José Passarinho. A essa personagem é perguntado com quem aprendeu a cantar. Adorava beber e cantar. Era das proximidades do seleiro mestre Amaro. E ele responde mais ou menos assim: "Aprendi a cantar cantiga com um cego de Itambé".
Em Fogo Morto aparecem soldados rasos,  capitães, tenentes, coronéis, além de delegado, cangaceiro e juiz. 
Tem até suicídio em Fogo Morto. 
Num conto do autor paulistano Antônio de Alcântara Machado (1901-1935) intitulado Apólogo Brasileiro Sem Véu de Alegoria, o protagonista é um cego conhecido pela alcunha de Baiano. É rabequeiro. Ele está num trem lotado. De repente, o seu guia diz que o trem está completamente às escuras. E o cego na dele. O trem chega a seu destino aos trancos e barrancos, com seu interior todo depredado. A razão foi simples: o cego baiano improvisou um discurso dizendo que estava tudo errado, pois o preço das passagens cobria o que fosse preciso. Não cuidar do trem era algo impensável. Ao desembarcarem, pessoas eram abordadas pela polícia local. Um policial perguntou a um sujeitinho que carregava uma Bíblia nas mãos como tudo começou. E a resposta veio depressa: "Foi aquele cego".
O policial, com cara amarrada, não pensou duas vezes e ao portador da Bíblia deu voz de prisão, dizendo  : "Com autoridade não se brinca!".




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