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sábado, 20 de julho de 2024

HÁ 90 ANOS MORRIA O PADRE CÍCERO

O céu de Juazeiro do Norte, CE, amanheceu embaçado no dia 20 de julho de 1934. 

Sobre árvores, pássaros trinavam menos do que dias anteriores. 

De um lugar qualquer ouvia-se o canto agourento da acauã. 

Nas proximidades do centro da cidade, um mar de pessoas formava-se diante de uma casa. Nessa casa morava "o santo padre" Cícero Romão Batista. 

O corpo do padre Padin Cícero do Juazeiro jazia num leito, cercado pelos amigos mais próximos. 

Portanto, hoje 20 completam-se 90 anos da morte do famoso padre.

Cícero nasceu no dia 24 de março de 1844. Teve vida atribulada, atribuladíssima. Chegou até a ser castigado pelo Vaticano que o proibiu de celebrar missas, batizar e casar fosse quem fosse. Isso foi provocado por uma suposta armação que resultou num "milagre". Tal milagre teria ocorrido quando o padre enfiava uma hóstia na boca de uma beata. Essa beata, Mocinha, inspirou o rei da embolada Manezinho Araújo a compor uma música para Luiz Gonzaga gravar.

Quatro anos, uma semana e um dia depois em Sergipe, o mais famoso bandoleiro do Nordeste: Lampião. 

Virgulino Ferreira foi expulso de uma igreja em Juazeiro a bengaladas dadas pelo padre Cícero. 

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (115)

Júlia Lopes de Almeida

Os contos de Júlia Lopes de Almeida são fortíssimos como A Caolha, originalmente publicado no jornal argentino La Nación; Os Porcos, dedicado a Artur Azevedo e Os Conventos. Esse último trata de uma mulher que perde o marido e fica com as filhas para criar.

Com o passar do tempo, Artur Azevedo inspira-se num texto de Júlia (Reflexões de um Marido) para escrever uma comédia em três atos intitulada O Dote, em 1907. Essa peça o autor dedicou à escritora.

O enredo de Artur gira em torno do casal Ângelo e Henriqueta. Ambos são apaixonados.

Henriqueta é do tipo gastona, viciada em supérfluos. Isso leva o varão a tremer na base, prevendo a bancarrota. Preocupado ele procura o amigo Rodrigo, a quem pede conselho. E o conselho é: divórcio.

Machado de Assis foi também agraciado com uma dedicatória de Júlia. A dedicatória aparece no conto Perfil de Preta, escrita em 1903.

Perfil de Preta é a história de um triângulo amoroso, cuja vítima é um mulato de nome João Romão.

Entre os romances de Júlia destaco, além de A Viúva Simões, A Falência e A Intrusa.

O romance A Falência trata de um português que vem ao Brasil ainda jovem e pobre. Enriquece negociando café. Uma hora ele é tentado a investir na bolsa de valores americana. Começo do século 20. A bolsa quebra e com ela o personagem português.

A Intrusa conta a história de um advogado que depois de perder a mulher e ficar viúvo, promete nunca mais se casar. Mas há uma reviravolta. O viúvo tem um adolescente para criar e a casa para cuidar. Sozinho… É quando ele contrata uma governanta. E mais não digo.

sexta-feira, 19 de julho de 2024

EU SOU DO TEMPO DA PAZ E DO AMOR

Fiquei de orelha de pé ao ouvir no rádio notícia de um "apagão cibernético mundial". Isso hoje 19.
Ouvi também tentativas de explicação da parte de empresas que monitoram o sistema responsável pela segurança geral da Internet. Não me convenceu. Pior: uma pulga instalou-se derrepentemente cá de lado do meu ouvido.
Fico pensando: e se essa história se repetir de maneira mais violenta, hein?
Fico ainda pensando se não é possível, numa hora qualquer, o caos abrir suas garras contra o mundo e também nos pegar. E aí?
Fato é que vivo num tempo, vivemos num tempo, instável e terrivelmente maligno. Pra dizer o mínimo...
Sim, sim: antes que me digam que eu sou atrasado, rebato dizendo que não sou. 
Saudoso? Também não sou, mas gosto do que canta o parceiro pernambucano e forrozeiro Luiz Wilson:

quarta-feira, 17 de julho de 2024

O REBELDE CAMÕES

Luís Vaz de Camões, o primeiro e mais famoso poeta da língua portuguesa, tinha 28 anos de idade quando foi levado de Portugal para a Índia numa esquadra comandada por Fernão Álvares Cabral (1514-1571).
Esse Fernão era filho de Pedro Álvares Cabral, nascido num 11 de julho. 
Sobre a vida pessoal do poeta português pouco se sabe, mas o pouco que se sabe já é muito.
Camões foi um jovem rebelde, de família conhecida em Lisboa. Gostava da noite e estava sempre rodeado por arruaceiros, prostitutas, deserdados da vida. Tinha entre seus admiradores e admiradoras estudantes de Coimbra e tal. Estava sempre envolvido em brigas e cachaçadas. Foi preso algumas vezes por dívidas e agressões.
Em 1549, em batalha pela praça de Ceuta, Marrocos, perdeu o olho direito.
Sua ida à Índia não foi escolha pessoal. Pra lá foi mandado como castigo e voltou em 1569.
Três anos depois de voltar da Índia, teve impressa a sua obra-prima.
Camões morreu pobre e o seu corpo foi enterrado numa vala comum.

terça-feira, 16 de julho de 2024

CAMÕES NO MEMORIAL DA AMÉRICA LATINA


Atenção, atenção, amigos e amigas: o dia 2 de agosto está chegando.
"O que é que vai acontecer nesse dia?", pergunta curiosa a menina Anna Clara, Anninha.
O dia 2 de agosto, além de ser o dia do encantamento do rei do baião Luiz Gonzaga, é o dia em que faremos coisas bonitas em torno da memória do poeta português Luís Vaz de Camões.
Neste 2024 completam-se 500 anos do nascimento do poeta.
Pouco antes de findar a pandemia provocada pela Covid-19 eu me debrucei no passado recordando a beleza poética de Camões. Fiz mais: ouvi algumas vezes Os Lusíadas. Uma pérola! Fiz isso e fiz mais, adaptei Os Lusíadas "para Canto e Cordel". Imaginei essa adaptação, que ganhou título de A Fabulosa Viagem de Vasco da Gama, como "ópera popular".
No próximo 2 de agosto, no Memorial da América Latina, estaremos debatendo a obra camoniana. Na ocasião será lançada, em braile, essa adaptação.
Essa obra tem a apresentação do maestro Julio Medaglia e do poeta popular Oliveira de Panelas.
Medaglia faz a apresentação em texto corrido e Oliveira, em versos.
Na ocasião também será lançada uma gravação do texto feita por profissional do ramo e que ficará à disposição de todos os internautas. À propósito, A Fabulosa Viagem de Vasco da Gama será, na ocasião, interpretada por um ator especialmente convidado para o evento. Leitura dramática. 
E mais coisas havará em torno da adaptação que fiz de Os Lusíadas.
Este ano completa-se o bicentenário da criação do sistema braile de leitura para cegos.
Agendem-se!

segunda-feira, 15 de julho de 2024

A CULTURA POPULAR PERDE SÉRGIO CABRAL

Clique para ler a reportagem de Tinhorão e Sérgio Cabral

O mundo cultural está de luto: morreu Sérgio Cabral.
O jornalista e estudioso da cultura popular do Rio de Janeiro Sérgio Cabral morreu ontem, aos 87 anos.
Sérgio iniciou a carreira de jornalista no Diário da Noite, quando tinha 20 anos de idade. Trabalhou no JB e noutros jornais. Deixou muitos livros publicados sobre o samba carioca. Além disso, escreveu biografias de Tom Jobim, Pixinguinha, Nara Leão e Eliseth Cardoso, a Divina. 
No começo dos anos de 1960, Sérgio Cabral se achava trabalhando no Jornal do Brasil. Nesse jornal ele chegou a assinar uma coluna com José Ramos Tinhorão (1928-2021) intitulada Primeiras Lições de Samba (acima).
O jornalista estava internado num hospital do Rio há três meses. Sofria de Alzheimer.
Em fevereiro de 1997, Sérgio foi o convidado do programa Roda Viva da TV Cultura. Foi falar da sua tragetoria profissional. Naquele ano estava lançando o livro As Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Para entrevistá-lo na Roda estavam Paulo Vanzolini, Leci Brandão, Rosângela Petta, Nenê da Vila Matilde, Sérgio Roveri, João Máximo e eu. Confira abaixo:



domingo, 14 de julho de 2024

VIVA CLARISSA!

Clarissa
Primeiro foi invadida e tomada pelos franceses que já não aguentavam mais o rei Luís XVI, que sugava até a última moeda do povo trabalhador para se locupletar junto com seus assessores nababos.
Depois da invasão e tomada, foi destruída.
Estou-me referindo à Bastilha, prisão medieval francesa construída em 1383.
A tomada e destruição da Bastilha, ocorrida no dia 14 de julho de 1789, foi um fato que deixou em alerta os tiranos do mundo todo, a partir da Europa.
A data ficou conhecida como Revolução Francesa.
No dia 14 de julho de 1989, quando a Revolução Francesa completava 200 anos, nascia num hospital da Capital paulista um símbolo de paz e liberdade com o nome de Clarissa. 
Quando ela tinha ali uns 9 anos, compus junto com Téo Azevedo uma canção denominada Clarissa para a cantora mineira Fatel Barbosa cantar. Ouça:



Essa canção integrou a trilha sonora do filme franco-brasileiro Saudade do Futuro. 

Agora, o seguinte: no rigor, no rigor mesmo, fato importante ocorrido no dia 14 de julho de 1989 foi, sem dúvida, o nascimento de Clarissa.
A Revolução Francesa foi desencadeada num dia de verão. No Brasil, principalmente no RS, desabava mais uma nevasca. E nada mais. Ah! Sim: o santo do dia era e é São Camilo de Lellis (1550- 1614), padroeiro dos hospitais, doentes e profissionais da saúde.

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (114)

Outra mulher que também abriu o coração e a mente para o sexo foi a goiana Cora Coralina, de batismo Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1889-1985). Deixou uma obra pequena, porém resistente. É dela Pouso de Boiadas:


Conversa sem sentido.

Os homens estirados

nas redes e nos forros,

assuntam de mulheres...

- Fêmea. Erotismo de macho.

Palavreado obsceno.

(...)

Manelão canta sozinho.

Manelão canta baixinho.

Moda de mulher.

...Dola... Xandrina...

... o chamado obscuro, sexual.

(...)

Manelão canta em surdina,

Manelão canta baixinho,

Manelão canta sozinho

Toada de mulher.

Dola... Xandrina...

O rude chamado sexual.

A saga bárbara

dos boiadeiros. 


Quatro anos depois de seu falecimento, foi lançado o LP Cora Coralina com 13 poemas, entre os quais: Velho Sobrado, Estas Mãos, O Cântico da Terra, Todas as Vidas e Meu Epitáfio, que diz:


Morta… serei árvore

Serei tronco, serei fronde

E minhas raízes

Enlaçadas às pedras de meu berço

são as cordas que brotam de uma lira.


Enfeitei de folhas verdes

A pedra de meu túmulo

num simbolismo

de vida vegetal.


Não morre aquele

que deixou na terra

a melodia de seu cântico

na música de seus versos


Num dos contos incluídos no livro Contos Novos (1947), o autor Mário de Andrade fala de dois jovens estudantes que sentem atração física mútua. Ainda nesse livro, Mário escreve a história que tem como personagens centrais Nízia e Rufina. Já falamos. O final desse conto é dúbio, como dúbio é o final do conto Frederico Paciência.

Enfim, quem transou com quem?

Amor e preconceito sexual sempre geraram discussões febris, no Brasil e noutras plagas. 

A escritora inglesa Jane Austen (1775-1817), mostra isso no livro Orgulho e Preconceito, publicado pela primeira vez em 1813.

Nesse livro, Austen conta a história de um casal que tem cinco filhas prontas para se casar. A mãe, Sra. Bennet, faz tudo e muito mais para que suas belas donzelas não padeçam no poço profundo do caritó. A mais nova, porém, de 16 anos, foge de casa com um cara sem futuro. A partir daí o romance ganha força.

A leitura de Orgulho e Preconceito nos leva à cena rural onde tudo se passa. Lá a mulher solteira que saía de casa e não se casava logo caía na boca ferina do povo. Isso, para uma família bem constituída, era o pior que podia acontecer.

Maria Firmina dos Reis, boa no verso como Cora Coralina, foi a primeira brasileira a publicar um romance no Brasil. Úrsula foi levado à praça em 1859. Três anos depois nascia no Rio de Janeiro Júlia Lopes de Almeida.

Júlia, primeira e única mulher a participar das reuniões que resultaram na fundação da Academia Brasileira de Letras, ABL, foi a segunda mulher brasileira a escrever e a publicar um romance: A Viúva Simões.

O livro de Júlia, lançado em 1897, conta a história de uma mulher que perdeu o marido e por bom tempo passou a cuidar apenas da filha Sara, enquanto a criadagem cuidava das duas.

O isolamento da viúva, Ernestina, dura até o momento em que ela reencontra um namorado da adolescência. Esse, Luciano, de tanto atentar, finda por amolecer o coração da protagonista. O fim beira a tragédia.

Júlia Lopes de Almeida foi, até aqui, a escritora que mais contos e romances publicou. Seus títulos andam na casa dos 50.


Foto e reproduções de Flor Maria e Anna da Hora

sábado, 13 de julho de 2024

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (113)

Nos 800 a literatura estava ganhando forma no Brasil. 

Maria Firmina dos Reis (1822-1917) foi uma professora do Maranhão e a primeira mulher a escrever um romance intitulado Úrsula (1859). Era abolicionista. Amor e paixão se misturam na história. Bonito, bem movimentado. Personagens negros. Era também poeta.

Discretíssima no comportamento pessoal, Maria Firmina abriu o coração para poucas paixões. Um exemplo disso é o poema Ela!, incluído no livro Cantos a Beira-mar:


Ela! Quanto é bela, essa donzela,

A quem tenho rendido o coração!

A quem votei minh’alma, a quem meu peito

Num êxtase de amor vive sujeito...

Seu nome!... não — meus lábios não dirão!


Ela! minha estrela, viva e bela,

Que ameiga meu sofrer, minha aflição;

Que transmuda meu pranto em mago riso.

Que da terra me eleva ao paraíso...

Seu nome!... Oh! meus lábios não dirão!


Ela! virgem bela, tão singela

Como os anjos de Deus. Ela... oh! não,

Jamais o saberá na terra alguém,

De meus lábios, o nome que ela tem...

Que esse nome meus lábios não dirão.


Esse poema tem tudo a ver com amor feminino, entre uma mulher e outra. Apesar disso, não chamou a atenção de ninguém. Quer dizer: embora tabu, o tema aqui abordado por Firmina dos Reis não provocou espanto nem polêmica. 

Essa poetisa, de origem maranhense, morreu pobre e cega na casa de uma amiga no ano de 1917.

sexta-feira, 12 de julho de 2024

EM CAMPO, FUTEBOL E CEGUEIRA

Confesso que nunca vi tantas agremiações esportivas no Brasil. São milhares nas várzeas e em todo canto. 
Se são milhares de agremiações esportivas Brasil afora, imaginemos agora a quantidade de agremiações esportivas no mundo todo. E referi-me aqui apenas aos times de futebol.
Dito isso, pergunto: quem aí pode me dizer quantos profissionais de futebol existem no Brasil?
Além dos profissionais aos milhares, existem os candidatos a profissionais de futebol. 
A verdade é que são poucos os profissionais que ganham muito. O resto é lanterna, lanterninha, apagada. 
Confesso que já faz tempo que não dou bola ao futebol. 
Noutros tempos eu estaria ligado aos grandes campeonatos. 
Domingo que vem Espanha e Inglaterra disputam o final da Eurocopa em Berlim, Alemanha. 
Eu estaria também ligado à finalíssima da Copa América no domingo que vem em Miami, entre as equipes da Argentina e Colômbia. 
E a Seleção Brasileira por onde anda, hein?
A verdade é que o nível do futebol não anda bem, principalmente no tocante aos nossos profissionais...
Agora fico imaginando coisas de ontem, do passado.
Lembro que gostei de ver a Seleção Canarinho, em campo, em 70. Foi um show. Todos botaram pra quebrar. Muitos já partiram, entre os quais Pelé. 
Tostão, de batismo Eduardo Gonçalves de Andrade, tinha 26 anos de idade quando brilhou em Guadalajara e lugares outros. Curioso e lamentável foi o fato de ele estar jogando com a  retina esquerda desabando. 
Três anos depois da Copa 70, Tostão perdeu completamente a visão esquerda. 
São muitos os atletas que atuam cegos põe aí afora.
Em 1920, na Espanha, cegos começaram a praticar futebol em campo. No Brasil, isso ocorreria trinta e poucos anos depois. 
Organizados, cegos criaram o Futebol de 5.
O Futebol de 5 parece um pouco com Futebol de Salão.
O Brasil tem um tricampeão nessa modalidade. Seu nome é Ricardinho, gaúcho. 
Até um técnico de futebol cego nos temos: Márcio Bastos Moreira. 
Ricardinho ficou cego aos seis anos de idade, vítima de glaucoma. 
O Márcio sofreu descolamento de retina. 


quinta-feira, 11 de julho de 2024

A CEGUEIRA NÃO É O FIM

Conheci no correr da vida muita gente bonita. E feia também. Porém entre feias e bonitas, creio que destaque maior fica para as bonitas. Inda bem, né?
Na infância conheci bons professores e professoras e gente mais da lida cotidiana.
Conheci gente de todo tipo, enquanto ganhava forma e mais vontade de viver. 
Aprendi muita coisa com pessoas de profissões diversas portadoras de saber. 
Entre a gente que conheci se acham cordelistas e cantadores de viola. 
No mundo da sabedoria se acham pessoas fisicamente tortas e desprovidas de visão via olhos.
Quem já não ouviu falar da obra do grande gênio mineiro Aleijadinho?
Quem já também não ouviu falar do cego Homero dos tempos gregos, autor de Ilíada e Odisséia. 
E Camões, hein?
Camões perdeu um dos olhos e continuou a ver as coisas da vida...
O argentino Jorge Luis Borges, escritor de grande categoria, seguiu fazendo história depois de pelos olhos nada mais ver.
Mais pra cá surgiram cegos Aderaldo, Sinfrônio...
Não conheci pessoalmente nenhuma dessas pessoas, mas conheci Patativa do Assaré, José Ramos Tinhorão, Paulo Vanzolini, Luiz Gonzaga. 
O poeta Patativa perdeu os olhos nos seus tempos de infância no Assaré, CE.
O jornalista Tinhorão, estudioso da nossa música, deixou que lhe escapasse a visão de um olho. 
Quando eu próprio estava para perder os olhos, o cientista e compositor bissexto da boa música pediu que eu o olhasse bem nos olhos. E perguntou: "Está vendo aqui, no olho esquerdo, por ele já não vejo nada". 
O sanfoneiro Luiz Gonzaga, Rei do Baião, perdeu o olho direito num acidente de automóvel. 
Nunca, em nenhum momento, ouvi dessas pessoas qualquer lamentação referente à visão parcial ou total perdida. Ao contrário, até brincavam.
Pouco tempo antes de elevar-se às nuvens, em tom de galhofa, disse-me Tinhorão: "Estou ficando que nem você. Daqui a pouco vamos estar dois ceguinhos andando tontos pelas ruas".
E Lampião, hein?



quarta-feira, 10 de julho de 2024

TODO DIA É DIA DE CUIDAR DOS OLHOS

No mundo doido em que vivemos há mais de oito bilhões de humanos. Humanos pero no mucho. É fato.
Dos mais de oito bilhões da raça homosapiens, pelo menos 1,2 bi vive com algum grau de deficiência visual. Desse total, cerca de 300 milhões de homens e mulheres, mais mulheres, não vê um milímetro à frente do nariz. Ou seja: é uma multidão que vive totalmente cega.
No Brasil, o número de pessoas totalmente cegas se acha na casa dos 500 mil.
Os números globais referentes a cegos e cegas são da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Os números tocantes ao Brasil, referentes ao mesmo problema, são disponibilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Por que venho eu cá com esses números?
Hoje 10 é o Dia Mundial da Saúde Ocular.
A data foi criada com o propósito de tomarmos vergonha na cara para a cara ficar mais bonita com os olhos distinguindo cores e sorrindo.
Eu cuidei muito bem dos meus olhos, mas mesmo assim fugiram de mim. Descolamento de retina e coisa e tal.
Existem centenas de doenças d'olhos.
E aí o jeito é seguir a vida criando novos caminhos.
Descobri que há vida além da cegueira.



terça-feira, 9 de julho de 2024

SÃO PAULO DE PERNAS PRO AR



Hoje 9 é feriado em São Paulo. 

O feriado paulistano deve-se à Revolução Constitucionalista ou Revolução de 32, como também ficou conhecido o levante do povo de São Paulo contra Getúlio Vargas e o seu governo. Durou pouco tempo, mas deixou expressivo saldo de mortos e feridos.

A revolta do povo de São Paulo perdura até os dias de hoje, tanto que não existe nenhuma rua, avenida, praça, monumentos e coisa e tal em nome do velho caudilho gaúcho. Oficialmente, claro.

A FGV, Fundação Getúlio Vargas, é uma entidade de constituição particular. 

O dia 9 de julho, hoje, marca também a fundação da Sala São Paulo. 

A Sala São Paulo, instalada ali no que foi a gare da estação ferroviária da Luz, foi criada no governo Montoro. Isso exatamente há 25 anos, ou seja, há um quarto de século.

Franco Montoro foi um governador que deu muita atenção às artes e artistas.

Antes de criar a Sala São Paulo, Montoro cuidou de reerguer o Teatro São Pedro. Esse teatro foi construído por um jovem empresário português e entregue aos paulistanos em 1917.

Hoje, em Campina Grande, PB, será sepultado o corpo do cantor e compositor paraibano Biliu de Campina. Tinha 75 anos de idade quando morreu ontem, num hospital campinense. Não era casado e nem deixou filhos.

Biliu gravou vários discos, incluindo dois LPs. 


Biliu de Campina


segunda-feira, 8 de julho de 2024

VIVA PROCÓPIO FERREIRA!

Procópio foi um marco do teatro brasileiro, como Cascudo marcou profundamente o campo do estudo da cultura popular.
Cascudo é Luís da Câmara Cascudo, potiguar.
Pois bem, o Procópio a quem me refiro todo mundo sabe: é Procópio Ferreira, o mais importante ator da comédia brasileira, como Chico é ainda o mais presente compositor da nossa música popular, ao lado de Caetano e Gil.
Dizendo assim só pelo nome ou apelido todo mundo sabe a quem nos referimos: Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil... Como Vandré, Gonzaga... No campo internacional: Beethoven, Bach, Chopin...
Se eu falar de Lampião todo mundo também vai saber de quem eu estou falando: Virgulino Ferreira da Silva, bandoleiro que durante muito tempo reinou absoluto no Sertão nordestino.
Lampião nasceu em 1898.
Cascudo nasceu em 1898.
Procópio, pois é, Procópio Ferreira nasceu também naquele ano de 1898; mais precisamente no dia 8 de julho, um dia como hoje.
Filho dos portugueses Francisco e Maria, Procópio estava fadado a ser um advogado de carreira. Era o que queria o pai, que irritou-se ao saber que o filho pretendia seguir a carreira de ator. Confirmado isso, o sisudo português pôs o filho pra correr de casa.
Tinha Procópio 18 anos quando trocou o curso de Direito por um curso de Dramaturgia e em seguida foi admitido na companhia de Lucília Peres. E aí não parou mais.
O ano de 1924 foi marcante para Procópio porque foi nesse ano que ele estreou como ator nas peças Dick, de Max Dearly; e Meu Bebê, de Margaret Mayor.
No decorrer do tempo Procópio apresentou-se mais de 3.600 vezes no palco da vida brasileira. Eu o conheci em João Pessoa, PB, quando ele se apresentava no velho Teatro Santa Rosa. Não lembro a peça e nem exatamente o ano, mas foi por ali entre 1973 e 74.
Era baixinho, miúdo, meio troncudo, narigudo e não exatamente um exemplo da figura de galã a que nos acostumamos a ver. E até aplaudir. Deixou três livros publicados: Arte de fazer graça (1925), Como se faz rir – O que penso… quando não tenho em que pensar (1967) e O Ator Vasques (1979).
Em 1965, o dramaturgo Lauro César Muniz escreveu para Procópio encenar a peça A Infidelidade ao Alcance de Todos. Tem duas partes: a 1ª Tuba e a 2ª A Transa, que trata basicamente de uma orgia na qual quatro ou cinco pessoas se divertem fazendo amor. Virou filme em 1972.
Foram muitos os filmes de que participou Procópio Ferreira. Tem um até com o Rei do Baião, Luiz Gonzaga. Título: O Comprador de Fazendas.
Procópio morreu em 1979, deixando uma filha: Bibi Ferreira, outra figura ilustre do teatro brasileiro.

domingo, 7 de julho de 2024

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (112)

Foram poucos os livros escritos e publicados por Inglês de Sousa, mas os que conhecemos são de suma importância na história da literatura brasileira.

No livro Contos Amazônicos (1893), Sousa nos apresenta uma curiosa personagem: Maria, no conto Amor de Maria. No texto o autor conta a história de uma jovem muito bonita que finda por apaixonar-se por um desconhecido que de repente chega à cidade onde ela vive. O cara é do tipo bonitão, enxerido, disputado pelas moçoilas. O caso termina em morte.

O primeiro livro de Inglês de Sousa foi O Cacaulista, publicado em 1876.

Os textos inseridos no Contos Amazônicos não são, grosso modo, contos. O último, O Rebelde, por exemplo, é memorial. É texto em que o autor encontra na infância a morte do pai e tal. Nesse texto há momentos muito fortes:


Paulo da Rocha pareceu hesitar algum tempo, mas um novo gesto de meu pai, cheio de uma desesperada energia, o decidiu. Carregando-me ao ombro com um vigor incrível, pôs-se a

correr para o quintal, donde em breve saímos pelo portão, apesar das minhas súplicas e dos esforços que fazia para que me deixasse.

Bem compreendia eu que era a última vez que via a meu velho pai, e doía-me abandoná-lo naquele supremo momento.

Durante algum tempo andou Paulo da Rocha dando voltas  pela vila, até que chegamos ao porto. Na extremidade da vila, em uma enseada, estava uma canoa, e nessa canoa se achavam três pessoas: Padre João da Costa, minha mãe e Júlia.

Caí nos braços de minha mãe que me recebeu soluçando. Depois da primeira efusão, minha mãe perguntou:

— E teu pai?

Lágrimas foram a única resposta que dei. Para fazer diversão a esta cena, o pernambucano empurrou a canoa, saltando dentro dela, e armando-se do mará exclamou em voz que procurou tornar alegre.

— Agora, fujamos!...


Perguntar, não custa: quem foi o pioneiro do Naturalismo no Brasil, Aluísio de Azevedo ou Inglês de Sousa?

Bom, não digo. Porém a mim não custa dizer que o francês Émile Zola (1840-1902), foi o criador do movimento naturalista. O cabra era bom em verso e prosa.

Em 1890, o maranhense Aluísio de Azevedo publicou o romance O Cortiço. Obra-prima sobre a qual já falamos. 

Em 1890, a contista e romancista carioca Júlia Lopes de Almeida publicou o livro Memórias de Marta. A história toda, quase toda se passa num cortiço. 

O livro de Júlia é o primeiro na nossa historiografia literária que rola num cortiço. Pois, pois.

Em 1964, a escritora Lygia Fagundes Telles abordou a temática religiosa no livro Verão no Aquário, no qual cria um nervosíssimo triângulo amoroso entre a mãe Patrícia e a filha Raíza, com o seminarista André. O caso de Lygia dói nos nervos, é tenso, como só ela sabia fazer. Aliás, esse foi o primeiro livro de uma escritora brasileira abordando essa temática, no século 20. No fim o padreco se mata, cortando os pulsos. 


Foto e reproduções de Flor Maria e Anna da Hora

sábado, 6 de julho de 2024

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (111)

Em 1881 o maranhense Aluísio Azevedo põe o clérigo na história O Mulato. O moço aí é o vilão da narrativa, que faz de tudo para separar dois jovens: Raimundo e Ana Rosa.
O Missionário, romance do paraense de Óbidos Herculano Marcos Inglês de Sousa (1853-1918), trata de um religioso que resiste o quanto pode aos clamores da carne. Seu nome: padre Antônio de Morais.
O padre de Inglês de Sousa é um idealista, mas passa a duvidar dos seus princípios quando jovens raparigas o assediam na paróquia que é titular.
E aí, já viu, não tem jeito: a carne fraca que é, não resiste aos ímpetos de um corpo de uma jovem…
 A história se passa numa fictícia cidade chamada Silves, localizada nas brenhas do fim do mundo amazônico.
Antônio deixa Silves para reencontrar no coração da floresta uma razão para resgatar a firmeza que tinha na carreira sacerdotal. Porém quanto mais foge para se reencontrar, se perde. À pág. 145 do livro de Sousa, diz o narrador:

… Então ele, saindo de uma luta suprema, silencioso, com um frio mortal no coração, com o cérebro despedaçado por um turbilhão de sentimentos contrários, atirou-se à moça, agarrou-a pela cintura e mordeu-lhe o lábio inferior numa carícia brutal. Foi breve a luta. A neta de João Pimenta caiu exausta sobre o tapete de folhas úmidas do orvalho, douradas pelo sol. Entre os ramos dos cacaueiros os passarinhos sensuais cantavam…


O personagem aí não é outro senão o padre Antônio.

Foi publicado em 1891, tornando o autor mais apreciado pelos leitores e crítica.

ADEUS LAÉRCIO DE FREITAS!

A vida é uma caixinha de surpresas. Pois, pois.

Na última quinta 4, Paulo Garfunkel, o Magrão, falava comigo sobre o pianista paulista de Campinas Laércio de Freitas. 

Essa conversa foi ali pelos começos da tarde de anteontem. 

No começo da tarde de ontem 5 ouço no rádio notícia dando conta da morte de Laércio. Estou pasmo até agora. 

Laércio Freitas tinha 83 anos de idade quando a Megera o levou. Nessa hora ele se achava dormindo como dormindo também partiram Charles Chaplin, Manezinho Araújo e Zuza  Homem de Melo. 

Manezinho, o Rei da Embolada, era amigo meu, como amigo meu era o colega jornalista Zuza Homem de Melo. 

Pois é, a vida é de morte.


GUERRA PAULISTA

Era um sábado como hoje o dia 5 de julho de 1924,  quando São Paulo acordou com gritos e ruídos incomuns até então provocados por manobras militares nas ruas da cidade.  À frente desses ruídos todos se achava o general de brigada gaúcho Isidoro Dias Lopes. Esse general comandava o repúdio dos militares contra o presidente Artur Bernardes. 

Bom, a revolta de São Paulo em 1924 durou 23 dias. 

Não custa lembrar que os revoltosos, pelo menos parte, reforçaram a Coluna Prestes que seria gerada no Rio Grande do Sul em abril de 1925.

quinta-feira, 4 de julho de 2024

VIVA IRENE DIAS CAVALCANTI!

Contos e romances se misturam com poemas de Irene Dias Cavalcanti. Sua obra eclética é resultante das observações que tem feito do viver cotidiano. Aliás, em Irene se acham o real e a fantasia num mundo de prazer e violência, de rudeza.
No seu novo livro Intolerância, a autora nos brinda com o melhor que se encontra ora nas prateleiras da Paraíba e do Nordeste. Lendo Intolerência lembro dos queridos amigos jornalistas Evandro Nóbrega, Jurandyr Moura, Gonzaga Rodrigues e Zé Cavalcanti, autor de belos livros sobre o anedotário político paraibano como Potocas, Piadas e Pilhérias. 
A obra de Irene diverte e faz bem a quem a ela tem acesso.
É mais do que necessário ler o que essa Irene tem escrito e publicado como Lirerótica, Eu Mulher Mulher, O Amor do Reverendo.
Bonito é esse Intolerância, lançado à praça em 2022.



quarta-feira, 3 de julho de 2024

O MUNDO EM DESGRACEIRA

O mundo está caindo aos pedaços. Sim, isso mesmo: o nosso. 

O mundo a que me refiro é a Terra, onde nascemos e morremos. Alguns viram santos. Mas isso já faz tempo, pois santos já não se fazem. O que se faz e refaz são loucos endemoniados.

Pois, pois, a Terra virou um inferno só. Pra tanto basta ver tudo se acabando em guerra na Rússia, Ucrânia, Israel/Faixa de Gaza e outros países daquela região maiormente chamada Arábia. 




O Irã está engatilhando armas.

N'alguns lugares de África gatilhos já foram apertados.

Na América Central...

Nos EUA o barulho provocado por incompreensões está beirando o auge. 

E na França, hein?

Na Turquia, Itália, Alemanha, Holanda... Na Argentina o povo está comendo miséria misturada com vento e outros ingredientes de sabor amargo.

No Brasil, o dólar está chegando aos píncaros. Foi de repente. Está subindo, subindo... Quanto mais o dólar sobe, mais desce o poder aquisitivo do povo. E sabemos: a inflação pega carona no dólar. Ora subindo, ora descendo.

Como se isso tudo não bastasse, ainda tem o diabo de um furacão se multiplicando em violência. Ganhou forma no mar e anda por aí assustando os viventes, bicho animal ou bicho gente. 

Esse maldito furacão, que vou chamar de Lampião, é filho bastardo da natureza violentada pela ignorância humana, que nada respeita. 

Não é à toa que furacões do tipo citado nascem da força quente das águas do mar.

Enquanto isso, o Pantanal arde em brasa.

E tenho dito!



terça-feira, 2 de julho de 2024

E O PANNUNZIO POR ONDE ANDA, HEIN?

A TV Jovem Pan já não existe, o que existe é a rádio "com imagens".
A TV Pan estava instalada no bairro da Barra Funda, região de origem do samba de São Paulo. No lugar da Pan, funcionam hoje a TV e rádio Record.
Não lembro bem, mas sei que faz tempo, quando o apresentador da TV Jovem Pan era o querido amigo Fábio Pannunzio, hoje com 63 anos de idade e com muita história pra contar.
Pois bem, no tempo que Pannunzio era apresentador da TV Pan eu certa noite lá estive junto com o craque baiano Tom Zé e a pernambucana de São José do Egito Edelzuíta Rabelo.
Edelzuíta foi a mulher que completou o rei do baião, Luiz Gonzaga, nos últimos anos de sua vida após a separação de Helena.
Enquanto rodava o Brasil de cabo a rabo, Gonzaga deixava a sua espera Helena naquele tempo morando em Recife num pequeno apartamento que ele comprou pra ela.
Luiz Gonzaga morreu em 1989 e Edelzuíta, em 2005.
Ah! Sim: Gonzaga conheceu Edelzuíta no São João de Caruaru, em 1968. Um pouco dessa história eu conto no livro Dicionário Gonzagueano de A a Z (2006).

segunda-feira, 1 de julho de 2024

HISTÓRIAS DE ROGACIANO

Poeta de bancada, repentista e jornalista pernambucano Rogaciano Leite estaria hoje bem velhinho caso vivo fosse.
Rogaciano nasceu no dia 1º de julho de 1920, em Itapetim, e morreu no dia 7 de outubro de 1969, em Fortaleza. Deixou livros e muitas histórias.
É famoso um dos encontros que Rogaciano teve com o Cego Aderaldo, no Rio de Janeiro.
Conta-se que, bonito que era, Rogaciano quando abria a boca numa cantoria as mulheres o aplaudiam antes mesmo de terminar a estrofe que estava sendo cantada. Certa vez, irritado com isso, Cego Aderaldo tascou:

Andei procurando um besta
Um besta que fosse capaz
De tanto procurar um besta
Eu achei esse rapaz
Que nem pra besta serve
Porque é besta demais!

Certa vez o cantor Silvio Caldas me contou ter conhecido Rogaciano e com ele chegou até a compor uma música. Título: Cabelos Cor de Prata, lançado em maio de 1951. Ouça:


domingo, 30 de junho de 2024

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (110)

Dalton Trevisan
Na literatura brasileira do século 19 fácil, fácil, acham-se muitos padres como personagens. Em Portugal, inclusive. Eça de Queiroz era craque em criar padres e padrecos.
São muitos os casos de padres envolvidos com freiras e não freiras de idades diversas.
Padres geraram músicos, escritores, advogados.
Entre os autores famosos gerados por padres se acham José de Alencar e José do Patrocínio.
Há muitos filhos renegados por padres e freiras.
Na literatura estrangeira e da nossa Pátria há muitos casos verídicos e inventados em que os personagens são católicos.
Entre os casos inventados, não custa lembrar Mocinha de Luto, do curitibano Dalton Trevisan. Trata do caso de uma jovem seduzida pelo namorado e depois por um advogado, um médico e um padre. Ai, ai, ai…
Livro que dá o que pensar, do mesmo Trevisan, é Novelas Nada Exemplares (1979). 
A Polaquinha, livro de 1985, é um personagem que Trevisan foi buscar no noticiário de antigamente, pois foi antigamente, ali no começo do século 19, que as polacas ou polaquinhas passaram a desembarcar no Rio de Janeiro, São Paulo e outras grandes cidades. Eram jovens mulheres que vinham da Rússia, Polônia e proximidades para ganhar a vida como prostitutas no Brasil. 
No livro A Polaquinha o autor Trevisan conta suas aventuras nas noites curitibanas. 
Dalton quieto no seu canto, dificilmente dá em público o ar da sua graça. Não recebe visita de amigos e admiradores. Vive enclausurado. Difícil saber o que faz, além do que diz nos seus textos curtos e provocadores. No gênero e forma não tem paralelo.
É difícil, impossível, seja quem for pegar um livro de Trevisan e não gostar. Ele é cirúrgico com sua pena infalível.
Dalton Jérson Trevisan continua escondido em lugar incerto e não sabido feito um ermitão.
Trevisan é a versão brasileira do norte-americano J. D. Salinger (1919-2010), autor do livro O Apanhador no Campo de Centeio.
Trevisan nasceu no dia 14 de junho de 1925.

Foto e reproduções de Flor Maria e Anna da Hora

sábado, 29 de junho de 2024

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (109)

Júlia Lopes de Almeida
Não tem como não dizer da importância do paulistano Mário de Andrade na literatura e nos estudos de cunho poético/musicais. Importantíssimo.
Mário, pianista e compositor bissexto, andou fazendo pesquisa de campo Brasil afora. No Rio Grande do Norte foi ciceroneado pelo estudioso da cultura popular Luís da Câmara Cascudo.
Foi Cascudo quem apresentou o embolador Chico Antônio à Mário.
Esse Chico teve o nome incluído em três livros do Mário de Andrade, entre os quais O Turista Aprendiz.
Chico foi tão importante para Mário, como Manuelzão (1904-1997) para João Guimarães Rosa.
A obra de Mário de Andrade é recheada de erotismo e sensualidade. O amor nas páginas de Mário é uma constante. 
Entre 1923 e 1926, Mário escreveu quase uma dezena de contos. Esses contos, sete, foram publicados em 1947 no livro Contos novos.
Nesse livro o autor parecer identificar-se com um ou outro personagem. Em Frederico Paciência, por exemplo. 
Mas Mário de Andrade mostrava preocupação com o dia a dia negativo do seu tempo. 
O conto Nízia Figueira, sua criada fala duas mulheres: uma branca e uma negra. Patroa e criada.
A criada atendia com toda dedicação a Nízia. 
Um dia, Rufina é enrolada por um cara que a engravida. Ele some e ela entra em desespero passando a viciar-se em cachaça. 
Pois é, na literatura brasileira se acha o comportamento dos brasileiros e brasileiras. 
No livro Memórias de Marta, a autora Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) fala através da protagonista que dá título ao livro que a vida é dura, duríssima. Sem arrodeios, Júlia não mede palavras para criticar a sociedade do seu tempo.
Memórias de Marta foi publicado em folhetim no jornal carioca Tribuna Liberal, entre os anos de 1888 e 1889. Uma década depois o texto ganhou o formato de livro.
A história é fantástica, seja ela ficcionista ou realista.
Em janeiro de 2024, o Papa Francisco voltou a surpreender a ateus e cristãos quando afirmou que “o prazer sexual é uma dádiva de Deus”.
Já falamos aqui de filhos de papa. História real, sem possibilidade nenhuma de dizer o contrário. História é história.
A história inspira ficção.
Em 1959, o jornalista, contista, romancista e novelista Rodrigues Marques escreveu o livro de contos Os Quatro Filhos do Papa.
A história que dá título ao livro fala de um cara que faz uma turnê mundo afora. Um “bon vivant”. Ele conta a uma tia querida das suas andanças. Na Itália, conheceu filhos de um papa. A tia fica em êxtase. E mais ainda quando o tal diz que os filhos do papa que conheceu vão estar no carnaval do Rio de Janeiro.

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