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domingo, 18 de agosto de 2024

O LADO "B" DE SILVIO SANTOS

Bom, vocês sabem muito bem o que eu acho do Sílvio Santos. 
O que eu acho dele, está estampado no título do texto publicado ontem 17 neste Blog.
O Silvio agora ao morrer conseguiu juntar unanimidades. Positivamente. Todo mundo, de canto a canto continua a bater palmas. Ele foi isso, foi aquilo...
Mas, sabemos nós, que nem todo mundo é santo, nasce santo ou morre santo. Embora Silvio carregue no próprio nome "Santos".
Cá no nosso acervo sobre cultura brasileira há alguns LPs e compactos nos quais se ouve o Silvio cantando marchinhas de  carnaval com letras em duplo sentido. Putaria pura. Nesses discos há também músicas que falam do Corinthians, time pelo qual torcia. Não ardorosamente, mas com fé em Deus pela grana.
Silvio Santos não era bobo não. De tudo fez um pouco na rua, no rádio e na TV. 
Dom & Ravel foi uma dupla que marcou presença na música nacionalista. 
Quem não se lembra daquela coisa Brasil Ame-o ou Deixe-o?
Uma vez o Ravel (1947-2011) me contou histórias loucas sobre como o Silvio fez para ganhar a concessão do Governo para o seu SBT. A propósito, amanhã 19 completam-se 43 anos de existência do SBT.
Silvio, segundo Ravel, pra se sair bem fazia parceria com todos os demônios. 
Uma vez o jornalista e publicitário Archimedes Messina (1932-2017) me disse que estava processando o dono do SBT por não pagar devidamente os direitos autorais do jingle Silvio Santos Vem Aí. Isso ele me disse no programa que eu apresentava nas noites de sábado na all TV, a primeira televisão feita e levada ao ar pela Internet. Nesse processo, Messina levou algo em torno de 1,5 milhão. 
Outro processo perdido por Silvio foi o da jornalista paraibana Rachel Sheherazade. Ela levou 500 paus, por injúria, calúnia e tal.
Bom, Silvio Santos partiu deixando mais de 600 processos nos quais é acusado disso e daquilo.
Além de marchinhas sacanas de Carnaval, Silvio gravou outros gêneros musicais do tipo junino. Fora isso, também gravou discos narrando histórias infantis.
Amanhã 19 marca os 110 anos de nascimento da cantora Aracy de Almeida, a principal intérprete de Noel Rosa. Aliás, Aracy começou a carreira ali com seus 20 anos gravando riso de criança, samba do Noel.
É isso, minha gente!

domingo, 22 de outubro de 2023

VIVA O CHORO E OS CHORÕES!

Callado e Patápio 
Mais o craque Pixinguinha 
Ao Choro deram formas
Diferentes da modinha

Quem sabe tocar choro
É chamado de "chorão"
O Choro vem da flauta 
Do cavaco e violão 

Quem não sabe tocar choro
Se quiser pode aprender
Impossível isso não é 
Para tanto é só querer 

O caso é que o choro
É bonito e delicado
Foi feito por Patápio 
Pixinguinha e Callado!

Foi o tempo em que as mídias, como rádio e jornal, tinham interesse de divulgar tudo o que ocorria no campo das artes.
Esse interesse acabou.
O rádio hoje divulga basicamente tudo o que não presta. O mesmo faz o jornal, sem falar em revista e TV.
Quando completou 90 anos de idade, o jornalista e historiador José Ramos Tinhorão declarou em entrevista a Wilson Baroncelli que a MPB já não existia e por isso considerava concluída a sua bibliografia de temática musical. 
A MPB, na visão de Tinhorão, foi-se acabando aos poucos.
Ligo o rádio e a TV e não escuto lhufas com cheiro de qualidade musical.
É uma droga o que se ouve ora no rádio. Só bobagens a ferir ouvidos e sensibilidades. A programação da USP e da Cultura ainda respeita o ouvinte, tanto da área popular quanto da área erudita.
O Choro como ritmo e gênero caiu na vala comum dos mortos. Pena. 
Aqui não custa lembrar da importância de Joaquim da Silva Callado, Patápio Silva e Pixinguinha. 
Patápio nasceu no dia 22 de outubro de 1880 e morreu 26 anos depois. Deixou uma obra pequena em quantidade e enorme em qualidade. Com sua flauta ele ia do popular ao erudito. Os discos que gravou saíram pela pioneira Casa Edison, do Rio.
O ano do nascimento de Patápio foi o mesmo da morte de Callado, que nasceu em 1848. 
Callado, que era funcionário público no Império, foi o cara que juntou amigos para cantar e tocar. Os instrumentos do grupo eram flauta, cavaquinho e violão. Foi daí que nasceu o embrião do Choro.
Na primeira década do século 20, Pattápio achou o ponto e começou a gravar Choro. 
Em 1898, nascia Alfredo Vianna Filho que entraria para a história com o pseudônimo de Pixinguinha. 
Pixinguinha foi o cara que deu o acabamento necessário ao choro.
Um clássico de Callado é Flor Amorosa. 
Um clássico de Patápio é Primeiro Amor. 
Um clássico de Pixinguinha é Carinhoso. 
Fica o registro.
 

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

CARLOS GONZAGA DÁ ADEUS NA ITÁLIA

Foi sepultado hoje 28 de manhã num cemitério da Itália o corpo do cantor mineiro Carlos Gonzaga, um dos poinoneiros do rock no Brasil.
Carlos Gonzaga, de batismo José Gonzaga Ferreira, tinha 99 anos de idade e ia completar 100 em janeiro de 2024. As causas de sua morte não foram reveladas pela família.
Carlos Gonzaga muito cedo trocou a cidade onde nasceu, Paraisópolis, pelo Rio de Janeiro e depois por São Paulo. Começou a carreira cantando sambas, calipsos, guaranias e outros gêneros musicais. Sua primeira gravação foi feita em 1955, num estúdio da extinta RCA Victor, no Rio. As músicas foram Anahí, de Osvaldo Sosa Cordero e José Fortuna; e Perdão de Nossa Senhora, de Teddy Vieira e Palmeira.
José Fortuna foi um dos bons compositores de São Paulo, invencionista muito respeitado.
Teddy Vieira e Palmeira compuseram muitas músicas em parcerias. Ambos foram executivos da extinta Continental.
Eu conheci Carlos Gonzaga no programa Jô Soares, em 1990. Na ocasião eu estava lançando o livro Eu Vou Contar Pra Vocês, sobre Luiz Gonzaga (prefácio de Dominguinhos). Na ocasião eu estava acompanhado da cantora Anastácia.
O sucesso pra valer bateu à porta de Carlos Gonzaga somente em 1958, quando gravou a versão de Diana (Paul Anka) feita por Fredy Jorge, que também conheci de perto ali pelo começo dos anos de 1980. Era poeta e diretor por longo tempo da extinta gravadora CBS, em São Paulo.

sábado, 26 de agosto de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (40)

ASSIS: Conte um pouco da história do Vira Lata. Ele surgiu exatamente quando e por que se encontra hoje fora do mercado?
MAGRÃO: Um dia lá pelo final da década de 1980, um amigo meu pianista me contou que na adolescência, uma moça transou com alguns rapazes do bairro e engravidou sem saber quem era o pai. Quando nasceu, o menino era a cara desse meu amigo. Eu pensei, e se o moleque fosse filho de todos? Se nascesse híbrido, como um vira-lata ou, em linguagem de veterinário, SRD - sem raça definida? Eu comecei a escrever o roteiro em 1988 e o Líbero aderiu mais ou menos um ano depois. A primeira revista foi lançada em 1991 pela editora VHD Diffusion na Bienal internacional de Quadrinhos no Rio de Janeiro e foi pras bancas.
O Doutor Drauzio Varella, a quem eu conhecia por ter trabalhado com sua esposa, Regina Braga, atriz talentosíssima, cruzou com o Vira Lata numa banca e me ligou contando sobre o projeto de redução de danos na Casa de Detenção de São Paulo, o implodido Carandiru. Lá ele notou que os caras liam muito gibi. Era dezembro de 1992, o clima estava pesado só dois meses depois do massacre que completou 30 anos em outubro do ano passado. Naquela época, a Aids era praticamente uma sentença de morte e mais de 17 por cento dos 7.700 detentos era HIV positivo, muito por conta do baque, a cocaína injetada. No calor da luta, tomando nos canos, os caras compartilhavam as seringas improvisadas com canetas bic e o vírus nadava de braçada. Nas edições da cadeia, o Vira já tinha puxado cana e estava sempre pronto a ajudar os amigos presos. O herói destruía seringas e corações femininos (sempre com camisinha). Quanto ao fato de estar recolhido, fora do mercado, temos planos e uma boa parte do roteiro escrito pra lançar uma aventura inédita. O Vira anda sumido, mas tá de butuca, sempre à espreita pronto pra dar o bote. O Brecht disse: Infeliz o povo que precisa de heróis.

ASSIS: O Vira Lata é um anti-herói, mas tem pinta de herói aqui e acolá. Você já
pensou em levá-lo à TV ou à telona? No mínimo pode dar mini série, não?
MAGRÃO: Eu já recebi algumas propostas pra longa metragem e série. Escrevi roteiros pros dois formatos. Tenho fé de que quando chegar a hora vai rolar.

ASSIS: Corajoso, destemido, o Vira Lata respeita as leis e ama tudo quanto é mulher. Será que algum dia vai se apaixonar, casar e ter filhos?
MAGRÃO: O herói não sabe, mas tem uma filha Yumi (flecha), fruto do seu primeiro amor com Tieko. O Vira se apaixona todos os dias mas casar, acho que não convém a um cão de rua.

ASSIS: Por que tanto sangue e sexo nas aventuras do Vira Lata?
MAGRÃO: Sexo porque é o bom da vida, violência porque tem muito filho da puta à solta que merece uma bela surra.

ASSIS: Aqui e ali você insere referências a nossa música popular: Tom Jobim, Luiz Gonzaga, Noel Rosa, Cartola, Zé Gonçalves, Marino Pinto... e até ponto de umbanda…
MAGRÃO: Ninguém melhor do que você, meu amigo Assis  ngelo, sabe que o Brasil tem um legado imenso, um patrimônio imaterial que são as suas canções. A canção é uma crônica alada. Nas asas da melodia uma história atravessa o tempo e tem o poder de acender o pavio de uma revolução. "Vem vamos embora/ Que esperar não é saber…" (Vandré). A faísca do Vira Lata já estava expressa na estrofe de uma canção que eu fiz em
parceria com meu mano velho Jean Garfunkel quase dez anos antes de pensar em escrever o primeiro roteiro.

O coração saindo pela boca
Meio triste, meio rindo
Da desgraça pouca

Sou parceiro do destino nesta vida torta
Passageiro clandestino pra qualquer lugar
Eu tenho o sangue grosso, misturado
Meio preto, meio índio
Meio degredado

Na cabeça um sonho lindo sempre engatilhado
Sou da terra das palmeiras onde um sabiá
Tem que saber se virar
Feito vira lata, camelô
Cantador, cangaceiro
Feito brasileiro


LEIA O VIRA LATA COMPLETO:


sábado, 12 de agosto de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (38)

 

O que separa a licenciosidade da pornografia e sexo explícito?
Em 2005, o diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa (1937-2023) esteve em Berlim,  Alemanha, apresentando a peça Guerra no Sertão. Baseada no livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, na história adaptada por Corrêa aparecem personagens vivenciando o dia a dia da região de Canudos. E aí tem putaria, sexo e tal.
Boa parte da imprensa alemã não gostou do que viu. O diário Bild, em matéria de página inteira, pergunta o que os problemas dos brasileiros têm a ver com orgias. O diretor da peça respondeu:

“O desejo da orgia vive em cada cultura e em cada pessoa. O teatro pode contribuir para libertar esse desejo”.
Disse mais:
“Trata-se do ímpeto de liberdade das sociedades isoladas. Mas eu vejo isso só do ponto de vista político, econômico ou militar. Trata-se da libertação das origens humanas que isolamos em nós”.

As tragédias marcam, comumente, os roteiros operísticos. Sempre foi assim, mas também foi assim no campo do erotismo, da safadeza. Wagner (1813-1883) usou e abusou de personagens eróticos na ópera Parsifal (1882).

Mozart (1756-1791), em Don Giovanni (1787), não mede palavras pra pôr na boca de seus personagens. É um depravado, sexualmente incansável, o personagem título da obra. Seu fiel criado, Leporello, a certa altura diz:
— Senhora, este é o catálogo das mulheres que o meu patrão amou... Na Itália, seiscentas e quarenta, na Alemanha, duzentas e trinta e uma, cem na França, noventa e uma na Turquia, mas na Espanha já são mil e três. Entre elas, camponesas, criadas, citadinas, condessas, baronesas, marquesas e princesas. Há mulheres de todas as classes, de todos os tipos e idades [...] Da loura costuma elogiar a gentileza, da morena a constância, da grisalha a doçura. No inverno prefere a gordinha, no verão a mais magrinha. A alta é majestosa, a pequena é encantadora. As velhas, conquista só pelo prazer de pôr na lista. A sua paixão predominante é pela jovem principiante. Não lhe interessa que seja rica, feia ou bela, pois desde que use saias, já se sabe o que ele faz…
Verdi (1813-1901), o grande Verdi, também ocupou espaço no mundo operístico com a temática em pauta. Em Rigoletto, tem uma hora em que o personagem Duque de Mântua diz: “esta ou aquela, para mim são todas iguais [...] as mulheres são volúveis como plumas ao vento, mudam de ideia e de pensamento”.
E a Carmen, hein?
Georges Bizet, o autor, optou por uma tragédia.
Muitas revistas em quadrinhos abordam narrativas operísticas e não operísticas no Brasil e mundo afora.

Fotos e reproduções por Flor Maria e Anna da Hora.

domingo, 6 de agosto de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (37)

E o palavrão, hein?
Esse tem em todo canto também, como todas as questões relacionadas a sexo.
No começo dos anos de 1970, o pernambucano Mário Souto Maior teve censurado pelo governo militar (1964-1985) o livro Dicionário do Palavrão e Termos Afins.
Além do Brasil, outros países têm livros similares ao que escreveu e publicou Souto Maior. O da Alemanha tem por título Sex im Volksmund. Der obszöne Wortschatz der Deutschen, de Ernest Borneman. Em tradução livre, para o português: Sexo no vernáculo, o vocabulário obsceno dos alemães.
Curiosidade: a maior palavra em português não é palavrão, mas tem 20 sílabas e 46 letras. PNEUMOULTRAMICROSCOPICOSSILICOVULCANOCONIÓTICO, PORRA!
O menor palavrão na língua portuguesa é cu, que curiosamente na tabela periódica corresponde ao elemento Cobre. Pois, pois.
Pelo menos por estas plagas ocidentais, latinas e tal, passou batida a informação de que a “operação” mortífera acionada por Putin contra a Ucrânia começou com um palavrão, seguido de uma bela estirada de dedo: “Vai se foder!”.
O palavrão saiu da boca de um soldado ucraniano depois que os russos ordenaram a rendição, no dia 24 de fevereiro de 2022.
O palavrão, “vai se fuder”, virou um desabafo do povo ucraniano estampado em camisetas, bandeirolas, souvenirs e outdoors.
Não custa lembrar que o verbo “foder” é conjugado em todo canto, em todas as línguas. Até o escritor colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014), num dos seus livros, Cem Anos de Solidão, põe um personagem, acho que Alfonso, pra dizer: “O mundo terá acabado de se foder no dia em que os homens viajarem de primeira classe e a literatura no vagão de carga”.
No famoso livro de Gabo há guerras, brigas, violências de todo tipo; muito sexo, muita puta, bordéis a dar com pau, muitas palavrinhas como “merda” e palavrões aqui e acolá. E até broxa.
É um livro e tanto Cem Anos de Solidão.

sábado, 5 de agosto de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (36)

Pietro Aretino
A obra reunida do poeta maldito Gregório de Matos e Guerra começou a ser publicada em livro no Brasil somente a partir de 1923.
Parecido com Gregório, na temática e explicitação nos textos, foi o italiano renascentista Pietro Aretino (1492-1556). Era protegido por papas, reis e príncipes do seu tempo. Aretino, segundo dizem, tinha de aluguel sua caneta. Era rápido, que nem um pistoleiro. Era a favor de quem pagasse mais e aí, soltava a língua. Exemplo:

Estes nossos sonetos do caralho,
Que falam só de cu, caralho, cona,
e feitos a caralho, a cu, a cona,
Semelham vossas caras de caralho..

Trouxestes cá, poetas do caralho,
As armas para pôr em cu e cona.
Sois feitos a caralho, a cu, a cona,
Produtos de grã cona e gra caralho.

E se furor, oh gente do caralho,
Vos falta, ficareis no pica-cona,
 Como acontece amiúde co'o caralho.

Aqui termino esta questão da cona
P'ra não entrar no bando do caralho,
E, caralho, vos deixo em cu e cona.

Quem perversões tenciona
Aqui nestas asneiras logo as lê.
Que mau ano e mau tempo Deus lhe dê.


Muitas das coisas que Aretino escrevia eram no formato de soneto, no caso criado por Giacomo da Lentini (1210-1260). O soneto criado por Lentini era formado por dois quartetos e três tercetos. Esse tipo de soneto foi revisto e transformado por Francesco Petrarca (1304-1374), que é o que conhecemos hoje: formado por dois quartetos e dois tercetos, num total de 14 versos decassílabos.
Aretino e Gregório de Matos morreram praticamente com a mesma idade, 58 anos. Detalhe: Gregório foi censurado em vida e Aretino, depois que morreu.Aretino morreu rico, riquíssimo, e Gregório morreu pobrezinho de marré marré numa casa praticamente abandonado, em Recife, PE, acreditando piamente na existência de Deus.
William Shakespeare (1564-1616) também deixou uma versão própria de soneto. No caso formado por 3 quartetos e um dístico de dois versos, decassílabos (abab bcbc cdcd efef gg).
Com finesse e sutileza, o bem comportado Shakespeare abordou a homosexualidade pelo menos uma vez em uma de suas peças: Os Dois Nobres Parentes. Os personagens dessa peça, Palamon e Arcite, encontram na cadeia onde foram atirados, tempo para passar bons momentos entre si. Carícia aqui, carícia ali e tal.
A propósito, não custa lembrar, toda a obra shakespeariana tem por base a cultura popular da terra em que o autor nasceu.

domingo, 30 de julho de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (35)

Gregório de Matos
Essa coisa de duplo sentido, que às vezes mistura-se com pornografia, como está claro até aqui, dista de tempos remotos.
Os trovadores são figurinhas da poética europeia que desenvolveram suas graças e maledicências em versos em forma de Cantiga de Amigo ou de Bendizer, Cantigas de Amor e Cantigas de Escárnio ou de Maldizer.
As Cantigas de Amigo e as Cantigas de Amor têm uma pequena diferença entre si: as Cantigas de Amigo, feitas por homens, apresentavam-se no Eu feminino, exatamente ao contrário das Cantigas de Amor.
As Cantigas de Escárnio eram ou são exatamente o que diz o nome.
O poeta baiano de Salvador Gregório de Matos e Guerra (1636-1696) tinha língua ferina e dela poucos escapavam. A mira era a elite social do seu tempo. Falava muito palavrão, sem rodeios. Não à toa foi apelidado de Boca do Inferno. Quer dizer, esse Gregório foi  no Brasil um representante natural da literatura poética de escárnio.
Gregório de Matos passou um tempo estudando em Coimbra, Portugal, e de lá voltou com um diploma de advogado debaixo do braço. Chegou a ser nomeado vigário-geral e tesoureiro-mor da Bahia, mas não achou isso lá muita coisa e pulou fora. Os poderosos do seu tempo terminaram por forçá-lo a passar uma temporada em Luanda, África.
O poeta escrevia coisas assim:

Sal, cal, e alho
caiam no teu maldito caralho. Amém.
O fogo de Sodoma e de Gomorra
em cinza te reduzam essa porra. Amém
Tudo em fogo arda,
Tu, e teus filhos, e o Capitão da Guarda.


E assim:

… Com dois acabo a porra do poema.
Caralho! Só mais um! Até já brinco!
Gozei! Matei a pau! Que puta tema!


A palavra caralho, palavrão entre nós, pode ter vinda da antiga Espanha, derivada de carajo. O ano não se sabe, mas que é antiga, é.

sábado, 29 de julho de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (34)

A licenciosidade no cordel vem desde fins da Idade Média, que começou no século V e terminou no século XV com a tomada de Constantinopla pelos turcos. A donzela Teodora é exemplo. E o tempo vai, vai, vai até os dias de hoje. Na poética bilaquiana, bandeiriana, drummondiana e tantas; Hilda Hilst…
A temática é sempre revisitada, aqui e alhures.
Mineiro e Manduzinho
É raro encontrar um poeta popular ou compositor popular, de coisas simples do povo, que não aborde o tema erótico no duplo sentido. Mais das vezes as abordagens beiram a banalidade, o chulo. Porém, diga-se, aqui e acolá se acham coisas engraçadas.
O mineiro Téo Azevedo, o mais prolífico dentre todos os compositores contemporâneos, popular no sentido estrito do termo, brinca com palavras que formam composições de baixo calão. Daí, muitas vezes, a graça. Exemplos: Abelha Tubi, Aperto na Ruela, Atola João Cabeçudo, Baile do Jacú, Boiola, Cacete Armado, Castrado, Cagão na Camisa, Carimbó do Filho do Tuta, Ele é Boiola, Eu Comi a Jaca Dela, Filho do Tuta, Forró do Zé Atola, O Fumo Só Ta Entrando, Jaca Dela, Sem Calcinha, Tira a Saia Maria, Vou Te Dar Minha Pitomba, A Mulher do Corno Rico, Acorda Corno, Corno Conformado.
É vasto o repertório que trata musicalmente do corno como personagem do infortúnio, digamos assim. E nunca é tarde para lembrar das gracinhas musicais que fazia o grupo Mamonas Assassinas, que tinha Dinho como vocalista. Na valsa Bois Don’t Cry, Dinho canta: “… Soy un hombre conformado/ Escuto a voz do coração/ Sou um corno apaixonado/ Sei que já fui chifrado/ Mas o que vale é tesão…”.
Até no mundo animal há bichos que pulam a cerca, ou ninhos, segundo levantamentos de cunho científico.
E a história do João de Barro, hein?
Uma lenda dá conta de que o João de Barro, quando descobre ter sido “corneado”, tranca na sua casa a infiel. E presa, morre.
Zé Mulato e Cassiano
A dupla caipira Mineiro e Manduzinho gravou em 1956 uma toada de autoria de Moíbo Cury e Teddy Vieira, que diz: “Mai neste mundo o mal feito é descoberto/ João de Barro viu de perto sua esperança perdida/ Cego de dôr trancou a porta da morada/ Deixando lá sua amada presa pro resto da vida…”.
Os violeiros Zé Mulato e Cassiano fazem comparação do homem com a espingarda, que quando jovem se acha com todo o vigor. A espingarda, no caso, é o órgão genital masculino. Diz:

— Em compade pensando bem. A vida da gente é mesmo que ver uma espingarda. É mema coisa compade. No princípio a gente dá tiro.
— É verdade. Atirar é muito bão. Vai tirando vida a fora, mais lá por fim o tem lenca. Eh, mais quando tá ficando bão lenca compade.

Dos vinte até os trinta
Nossa vida é muito boa
A espingarda anda armada
E o atirador caçoa

Sortimento tá sobrando
Muitas veiz atira à toa
É só triscar no gatilho
Que a língua de fogo avoa…

domingo, 23 de julho de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (33)

E Rita Cadillac, hein?
Rita Cadillac, no RG Rita de Cássia Coutinho, integrava o corpo de dançarinas do “velho guerreiro” Chacrinha. Depois da morte de Chacrinha, Rita passou a fazer apresentações nos palcos da vida cantando, inclusive. Depois, virou atriz pornô.
Em 2023, a apresentadora de TV Xuxa Meneghel abre a mente e o coração no podcast Quem Pode, Pod, para lembrar suas aventuras sexuais com alguns de seus ex-namorados. A respeito de Pelé, diz que ele se dividia em três personagens: Edson, Dico e Pelé, que ao final lhe deixou traumas. Depois disso ela tece loas a Ayrton Senna, que correspondeu a todas suas fantasias e ainda tirou-lhe os traumas deixados pelo Rei do Futebol.
Luz Del Fuego
Anos antes do advento da TV no Brasil, em 1950, a bailarina capixaba Dora Vivacqua marcou época. Apresentava-se em circos e em ambientes impróprios para menores de 18 anos dançando de modo sensual, deixando a plateia masculina ouriçada. Detalhe: ela ocupava o palco “brincando” completamente nua com duas jibóias chamadas de Cornélio e Castorina. Isso a partir de 1944, no Rio.
Em 1947, Dora adotou o pseudônimo de Luz Del Fuego. Foi presa diversas vezes.
Em 1949, Del Fuego lançou o livro A Verdade Nua enquanto formava o Partido Naturalista Brasileiro.
Dora/Del Fuego nasceu em 1917 e morreu em 1967, assassinada

sábado, 22 de julho de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (32)

Licenciosidade é o mesmo que putaria; e numa expressão mais leve, erotismo.
O erótico se acha em tudo quanto é canto da vida. Está na boca do povo através da literatura popular até na arte erudita que ocupa espaço no balé, no teatro, no cinema, na ópera, desde que ópera é ópera cujo marco se acha na Alemanha e na Itália.
E nunca é tarde para lembrar que o velho teatro de revista, há muito fora de pauta, abordava com alguma ingenuidade as questões referentes a sexo e fantasia. Nesse tipo de teatro destacou-se, entre outras atrizes, Aracy Cortes.
Em 1923, Aracy Cortes já era nome consagrado.
De certo modo, foi o teatro de revista que inspirou a indústria de filmes pornôs.
O duplo sentido no campo erótico é algo que vem de tempos imemoriais.
Em tempos mais recentes, quando ainda havia bancas de revistas em tudo quanto é esquina, era fácil comprar revistas do tipo Ele e Ela e Status. Na Ele e Ela havia um encarte mensal intitulado Fórum, onde os leitores contavam seus sonhos e aventuras na cama. A revista Status chegou a promover Concursos de Contos Eróticos. Fez sucesso.
E a Playboy, hein?
Foi na revista Playboy que o Brasil tomou conhecimento da existência do criador dos “catecismos” que faziam a alegria da molecada, entre os anos 50 e 60. Seu autor: Carlos Zéfiro, na realidade Alcides Aguiar Caminha.
E na TV, hein?
Muitas cantoras brasileiras, e Anitta não foi a primeira, se apresentaram em público de modo insinuante, provocativo, semi-nuas. Muitas vezes, ao cantarem, insinuaram uma relação sexual. Isso aconteceu nas apresentações de Sol, Gretchen, Sharon, Tiazinha, Rita Cadillac.
Sol, pela mídia sensacionalista, era chamada de "sex symbol". Deixou o Brasil e foi buscar fama no Japão, onde conquistou um público que a chamava com entusiasmo de Musa do Imperador. Lá, no Japão, ela cantava em inglês, francês, espanhol, italiano, alemão e japonês. Nome de batismo: Sandra do Valle Reis.
Outro nome marcante no campo da música sensual e de duplo sentido foi Gretchen, de batismo Maria Odete Brito de Miranda de Souza. Se apresentava cantando igual a Sol. É de se perguntar: “Quem nasceu primeiro o ovo ou a galinha?”. Gretchen, que era chamada de Rainha do Rebolado, e Sol se apresentavam de modo praticamente idêntico, mas chegaram a brigar no campo jurídico. Sol processou Gretchen por ser citada no livro Gretchen: Uma Biografia Quase Não Autorizada (Ed. Ilelis Letraria, 2015) como Barbie P…
Sharon e Tiazinha foram outros dois nomes bastante frequentes nas telinhas de TV. Sharon era dançarina do SBT e Tiazinha, da Bandeirantes, fazia um sucesso danado com uma máscara cobrindo parte da cara. Sensualíssima. Uma festa é tanto para os onanistas de plantão.

domingo, 16 de julho de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (31)

Nada impede que se interprete temas em duplo sentido poético ou musical em textos líricos, de amor, de paixão. Chega a ser, digamos, brincadeira ou desafio. Pode se contar uma história em versos com um quê de graça e lirismo pra se falar de uma relação sexual, por exemplo.
Os franceses criaram uma palavra para definir pessoas que sentem prazer ao observrem outras em carícias e atos sexuais. A palavra é “voyeur”. Ipsis Litteris, a definição da palavra é esta: “é a prática que consiste em um indivíduo obter prazer sexual através da observação de pessoas praticando sexo”.
No poema Sexo e Liberdade/No Jogo Louco da Paixão, eu utilizo de um personagem real (Lampião) e crio dois outros (Zilidoro e Riachão) para contar um pouco da história do Nordeste. São poetas esses dois últimos personagens. Cordelistas. Mudo um pouco o rumo da história para inserir mais dois outros personagens (Rita e Juca). Até aqui tudo em sextilha. Rita é uma moça muito bonita, fogosa, que não se faz de rogada para cair nos braços dos admiradores. Alguns até a levam pra cama, sob aquiescência do companheiro Juca. Essa primeira parte, termino ao moldes dos repentistas. Em seguida, a narrativa segue abordando mais diretamente o sentimento paixão, em quadras.
O poema é este:

Dizem que sou poeta
Bobagem! Isso não sou não
Poeta é Zilidoro
Poeta é Riachão
Que do nada fazem versos
E brincando até canção!

Zilidoro e Riachão
São da lira popular
Fazem versos de Cordel
Pra o povo apreciar
São versos bem bolados
Que dão pra rir, dão pra chorar

Eu li de Zilidoro
O Macho Alfa do Sertão
Cordel que conta tudo
A respeito de Lampião
Desde seu nascimento
Até a morte sem perdão

Não foi no Norte nem no Sul
E tampouco no Sudeste
Que um dia tombou morto
Lampião cabra da peste
Por muitos considerado
Uma praga do Nordeste

O velho Lampa derramou
Muito sangue pelo chão
Seu prazer era matar
Inclusive sem razão
Mais prazer teria tido
Se tivesse um bom canhão

Mas canhão ele não tinha
Tinha só muito poder
E uma moça bonita
Que jamais pensou perder
Por ela faria tudo
Se preciso até morrer

Riachão por sua vez
Detestava hipocrisia
Detestava o que não presta
Pelo bem da fantasia
Seu cordel A Quenga Pura
Tem bastante putaria

O cordel começa assim:
Leitor preste atenção
No que ora vou contar
É um causo de traição
Provocado por um corno
Chamado Juca Pavão

Rita mulher do Juca
Era linda como a lua
Andava se balançando
Sem vergonha quase nua
Era fácil gostar dela
Daquele jeito na rua

Seu andar bamboleante
Provocava sensação
Uns a levavam pra cama
Outros ficavam na mão
Rita rindo punha galhos
Na testa do seu Pavão

Mas ele não ligava
Pois gostava era de ver
Rita nos braços dos outros
Se desmanchando em prazer
Pra ele era tudo
Que um corno podia ter

Mas deixa isso pra lá...
Pois poeta não sou não
Poeta é Zilidoro
Poeta é Riachão
Cujos versos eles tiram
Com delicadeza do chão

Chão bom tem o Nordeste
Coisa boa é meu torrão
Semente bem plantada
Na terrinha dá pirão
É por isso que dou vivas
Aos poetas pés no chão

Poetas plantam versos
E também paz e paixão
Plantam sonhos e desejos
De inverno a verão
Dá tudo o que se planta
Quando cai chuva no chão

Dá romã, dá siriguela
Dá maçã em bananeira
Dá cana, caju e cajá
E manga em pitombeira
Só não dá se não plantar
Buraco na buraqueira

Mas chega de conversa!
Eu não sou poeta não
Poeta é Zilidoro
Poeta é Riachão
Pra vocês o meu abraço
E um beijo no coração



Mais ainda posso falar
De amor e sedução
De prisão e liberdade
De Justiça e traição
Pra mim falar é fácil
Até mesmo de paixão

Paixão é mal que pega
Ou um bem que faz tremer
Um ser apaixonado
De repente sem querer?

Quem na vida nunca teve
Um xodó, uma paixão
Um amor destemperado
Mal criado, sem razão?

A razão não tem espaço
Nos domínios da paixão
— E o ser apaixonado?
— É bicho besta sem noção!

Até eu posso dizer
Sem temer estar errado
Que já vi um bicho desse
Choramingando, coitado!

Não há quem não se fira
Nos espinhos da paixão
Espinhos que deixam marcas
Indeléveis no coração

Se alguém lhe perguntar
O que diacho é paixão
Diga logo: É um trem bala
Disparado na contra mão!

Pra que fique muito claro
Clara é a conclusão:
A paixão é uma fada
Com garras de gavião!

Dito isso, não se perca
Não se meta em confusão
Ninguém escapa ileso
Aos caprichos da paixão

Quem avisa amigo é:
Ninguém se perde no baião
Ninguém se perde no batuque
Mas se perde na paixão

Se não crê no aqui dito
Solte freios e direção
Caia na buraqueira
E nos domínios da paixão

 

Ilustração de Fausto Bergocce

sábado, 8 de julho de 2023

LICENCIOSIDADES NA CULTURA POPULAR (30)

Pedi a Oliveira de Panelas que desenvolvesse um texto poético abordando a questão palavrão no mundo da Cantoria. Sem se fazer de rogado, lá foi ele serelepe dizendo tudo o que sabe dizer. Com lirismo, graça e tudo mais. O resultado foram 120 versos distribuídos em 20 estrofes.
Começa assim:

Na Cultura Popular
De nossa imensa Nação,
O palavrão tem espaço
Em toda nossa emoção
Não há quem não tenha dito
Algum dia um palavrão.

Ninguém procure deter
A fúria desse sujeito,
Que na hora que o bicho “incha”
Nas cavidades do peito
Se a gente tentar freá-lo
O desmantelo está feito.

Até Índio na aldeia
Diz palavrão com o tacape...
Se for necessário diga
Antes que você “derrape”
Porque o buraco é fundo
Talvez você não escape.

Ele ama a liberdade
Deixá-lo preso é tolice,
É ótimo pras coronárias
Ante tanta esquisitice.
É mentiroso quem fala
Que um palavrão nunca disse.

Você topa numa pedra
E fere o dedão do pé,
Você diz, gota serena
Moléstia de cabaré,
Nessas horas a gente sente
O bom que o palavrão é.

Acho eu que até o Papa
Se levar um machucão,
Se for forte ele não lembra
Da Virgem da Conceição
Diz inconscientemente
O nome de um palavrão.

O palavrão está na China,
Japão, Itália, Paris...
Até o nosso vigário
Quando reza na matriz
Não diz na hora da missa
Mas fora da missa diz.

Vladimir Putin na Rússia
Solta seu palavrão brabo,
Diz pensando na Ucrânia:
Dessa vez sei que me acabo,
Pensei de vencê-la fácil
Mas vou levando no rabo.

Rita Lee era famosa
Nos palavrões que dizia,
Não tinha papas na língua,
Em todos shows que fazia,
O pau rolava e cantava
Sem nenhuma hipocrisia.

Só que o palavrão não pode
Ser dito de qualquer jeito,
Com calúnia e com fobia
Com ofensa e desrespeito.
Senão perde toda graça
Se denegrir o sujeito.

Assim foi Dercy Gonçalves
A rainha absoluta,
Babaca na unha dela
Levava pau na disputa,
Em meia hora escutava
Quarenta filha da puta.

O palavrão no Brasil
Vem de nossos ancestrais!
Está dentro da política,
Nas camadas sociais,
Quanto mais o tempo passa
Mais o bicho aumenta mais.

Romário, Zico, Pelé
E outros da Seleção,
Todos os craques da bola
Ou noutra competição,
Ninguém sabe o quanto eles
Falaram de palavrão.

Dilma Rousseff enfrentou
Selvageria e tortura,
Fez o mundo inteiro ver
Os males da Ditadura,
Seus palavrões têm espaço
Dentro de nossa Cultura.

Chico Anísio, Jô Soares...
Nem precisaram de teste,
O jornalista Assis  Angelo,
Esse é um Cabra da Peste,
Difunde no mundo inteiro
Os palavrões do Nordeste.

Palavrão é uma arte
Depende como se diz,
O palhaço diz com graça,
O louco fala feliz.
Sem o palavrão vejo “furo”
Na Cultura do País.

Roberto Carlos, Ratinho...
Têm seus palavrões também,
O Rei do Baião dizia:
Eu falo e me sinto bem.
Tinhorão, gênio escritor
Falava pra mais de cem.

Lampião, Rei Virgulino
Com sua bela Maria,
Só suportava a dureza
Do Cangaço em que vivia,
Pela coragem que tinha
E os palavrões que dizia.

Os palavrões mais usados
Que o Brasileiro já viu:
“São filho de rapariga,
Vai pra puta que pariu,
Vai tomar naquele canto”
E muita gente aderiu.

Do jeito que o mundo está
Passando tanto aperreio,
Os dias densos chumbados
E o ódio ferindo em cheio,
Sei que pra gente escapar
É necessário jogar
Uns palavrões pelo meio.

No dia 23 de julho de 1981, o jornalista e historiador José Ramos Tinhorão publicou belo e analítico texto sobre o LP O Perguntador, que na ocasião estava sendo lançado à praça. Anos depois, precisamente em 2010, Tinhorão inseriu o referido texto no livro Crítica Cheia de Graça. Para acessar a leitura, clique: OLIVEIRA DE PANELAS VEM CHEIO DE RESPOSTAS EM SEU O "PERGUNTADOR"
Ainda sobre Oliveira de Panelas, clique na entrevista que fiz com ele em 2012: https://www.youtube.com/watch?v=__NTrRZ4ezE

Foto e reproduções por Flor Maria e Anna da Hora

domingo, 2 de julho de 2023

TÉO AZEVEDO, ENFIM: 80 ANOS

 
Exatos 120 anos depois da declaração da Independência da Bahia, nasce na região de Alto Belo, Minas, o compositor e violeiro Téo Azevedo. Também cantador dos bons, voz forte e afinada. Como produtor musical, é o mais profícuo da história da nossa música popular. Tem mais de 2 mil títulos no currículo.
Téo, depois de servir o Exército, partiu em direção da música regional para fazer história. Tem vários LPs e CDs gravados cantando e acompanhando-se à viola ou violão.
Da cultura popular mineira e folclórica, Téo Azevedo sabe de tudo e um pouco mais. À propósito, já publicou uma dúzia de livros sobre o assunto. O último tem por título Léxico Catrumano. 
Nascido no dia da independência baiana, exatamente no dia 2 de julho, Téo está completando hoje 80 anos de idade. Tem filhos e muita história pra contar.
Neste domingo 2 os baianos comemoram o bicentenário de sua Independência. O presidente Lula estará lá participando da solenidade.
Meu amigo, minha amiga, você conhece a história da Independência da Bahia?
Muitas mulheres participaram das batalhas que findaram pela independência da Bahia. Entre essas mulheres, a religiosa Joana Angélica, Maria Filipa e Maria Quitéria.
Maria Quitéria foi a primeira soldada do Exército brasileiro, do qual é patrona desde 1953. Leia: EXEMPLOS DA CORAGEM FEMININA e NEGREIROS ETERNOS
Em Alto Belo, MG, a população local em peso vai participar hoje da programação alusiva às comemorações dos 80 anos de Téo Azevedo. Acima, ouça entrevista que fiz com Téo. E ainda sobre ele autor de centenas e centenas de músicas, escrevi um texto poético que foi musicado por Cacá Lopes e Luiz Wilson. Esse texto, esse poema, eu o escrevi na primeira pessoa. Título: O Cantador de Alto Belo. Ouça:

LEIA MAIS: VIVA TÉO AZEVEDO! • TÉO AZEVEDO É DESCOBERTO NA ALEMANHA • TEO AZEVEDO, 77 • HOJE É DIA DE TÉO AZEVEDO • TÉO AZEVEDO, CIDADÃO PAULISTANO • TÉO AZEVEDO TOMA POSSE EM ACADEMIA DE LETRAS • TÉO AZEVEDO, UM CRAQUE DA NOSSA MÚSICA • EU E MEUS BOTÕES E TÉO AZEVEDO (25) • TÉO, CHEGANDO AOS 80

sábado, 1 de julho de 2023

LICENCIOSIDADES NA CULTURA POPULAR (29)

O palavrão e versos de sentido duplo, ou mesmo triplo, começam a aparecer na discografia brasileira na primeira década do século 20.
Mário Souto Maior revelou a este Autor que Gilberto Freyre foi quem o provocou a escrever  o Dicionário do Palavrão e Termos Afins. E o ponto de partida foi um questionário que enviou a milhares de pessoas, via Correios. O questionário tinha por objetivo obter dos destinatários o maior número de palavrões que conhecessem.
Enquanto tinha vetado seu Dicionário, Souto Maior publicava em Recife o livrinho Folclorerotismo, no qual falava de sociologia do sexo e temas correlatos como pornoerotismo e adivinhas.
Na parte de adivinhas lê-se: "Qual é o lugar onde a mulher tem o cabelo mais pixaim? Resposta: Na África ".
Mário Souto Maior conclui no seu Folclorerotismo lembrando que:

Minelvino Francisco da Silva
“Nem todos os poetas populares participam do ciclo da safadeza ou da putaria. São, realmente, bem pouco numerosos os que se dedicam a explorar, mesmo sob um anonimato justificado, os assuntos sexuais em seus folhetos. A maioria prefere escrever seus folhetos usando palavras de duplo sentido prática que não é de hoje mas que vem de muito longe, desde alguns folhetos de João Martins de Athayde como é o caso de O Jeca na praça.”

Houve nessa história um cordelista chamado Minelvino Francisco da Silva, que não concordava absolutamente com nenhum de seus colegas que fizessem uso de palavrões pra contar histórias. Na última página de seus folhetos, Minelvino dizia:

“Através desta mensagem estou convidando em nome de Cristo todos os trovadores cristãos para batalhar contra livros imorais. Na cidade que residir um trovador este não deve vender nem aceitar que alguém venda tais livros. Eu por exemplo não consinto que alguém venda tais livros. Eu por exemplo não consinto que alguém venda tais livros. Eu por exemplo não consinto que alguém venda aqui em Itabuna livros pornográficos que seja literatura de cordel, pois outros tipos de livros eu nada tenho a ver com isso. Chegando aqui um vendedor desses livros escandalosos, eu chamarei ele atenção e o aconselharei com carinho e com amor, se continua sou obrigado a usar de todo rigor, denunciando-o as autoridades competentes. Meus amigos; livro imoral é um escândalo! e assim disse Jesus: Ai do homem pelo qual vem o escândalo. São Mateus 18,7. Minelvino Francisco Silva. Rua dos Trovadores, 591-B. Sto. Antônio Itabuna-Ba”.

Foto e reproduções por Flor Maria e Anna da Hora

domingo, 25 de junho de 2023

LICENCIOSIDADES NA CULTURA POPULAR (28)

No final, bem no final dos anos 70, o estudioso da cultura popular Mário Souto Maior escreveu um livro a que intitulou Dicionário do Palavrão e Termos Afins. Prefaciado pelo sociólogo Gilberto Freyre, foi bloqueado à praça pelos milicos. Abençoado pelos ares democráticos, a obra de Souto Maior foi finalmente liberada. Hoje clássica, é referência.

Freyre saúda com entusiasmo o Dicionário do Palavrão. Aqui e ali diz, porém, que faltou algo. Normal. Lamenta que:
"Mário Souto Maior não tenha se valido de maior número de clássicos. Clássicos literários e clássicos da crônica histórica. Matéria que poderia ter colhido não só em Bocage e Guerra Junqueiro, como em Gil Vicente, em Gregório de Matos e em documento valioso do século XVI: as catolicíssimas Denunciações do Santo Ofício. Nestas, o autor deste prefácio, ao elaborar, no começo da década de 30, seu Casa-Grande & Senzala, deparou-se com expressões grosseiras e surpreendentemente obscenas da parte de colonos com aparências de virtuosos. Expressões que registrou no mesmo livro, como 'jurar pelos pentelhos da Virgem' e 'ardor de rabo' ".
Freyre encerra o prefácio que fez para o Dicionário do Palavrão, dizendo:
“O autor do Dicionário evita a pornografria pela pornografia, embora não pretenda entrangular o que é erótico na língua portuguesa do Brasil: o comunicativamente erótico ou o apenas descritivamente erótico. Seria um moralista caturra se se apresentasse, no seu Dicionário, como um antierótico, a exibir repugnância pelo que é vivo e corrente na linguagem mais secreta que aberta, porém de modo algum inexpressiva da sua e nossa gente. Fixa predominâncias regionais. Acentua usos generalizados no país inteiro ou quase inteiro. Revela-se conhecedor tanto de escritores literários — embora algumas deficiências possam ser apontadas nesse setor — como do próprio linguajar plebeu do Brasil. É, assim, um trabalho, este, que faltava aos estudos sociais, folclóricos, semânticos, desde a década de 20 tão em desenvolvimento no Brasil; e tão característicos do afã do brasileiro do conhecer-se cada dia mais a si mesmo e de, cada vez mais, interpretar-se por seus próprios intérpretes.”
Foto e reproduções por Flor Maria e Anna da Hora

sábado, 24 de junho de 2023

LICENCIOSIDADES NA CULTURA POPULAR (27)

Muito antes de Caju e Castanha, foi proclamado pela crítica um rei da embolada: Manezinho Araújo.
Manezinho Araújo foi quem criou o duplo sentido na embolada. Ele, como personagem, aparece como um traído depois de apanhar de quem lhe levou a mulher. Título: Tadinho do Manezinho.
Também consideradas de duplo sentido são as emboladas do Manezinho intituladas A Mulher e o Automóvel e Cuma é o Nome Dele?
Lá no passado cantores como Chico Alves, Patrício Teixeira, Jorge Veiga e Colé também puseram as unhinhas de fora ao cantarem safadezas.
O pioneiro na temática foi o cantor Manuel Pedro dos Santos, o Bahiano, que em 1902 gravou o lundu Isto é Bom, do ator Xisto Bahia. Saiu no lado A do primeiro disco gravado do Brasil. Começa assim: “A renda de tua saia/ Vale bem cinco mil réis/ Arrasta mulata, a saia/ Que eu te dou cinco e são dez/ Isto é bom, isto é bom, isto é bom que dói…”.
Tão elegante como Chico Buarque e Ney Matogrosso é o repentista pernambucano Oliveira de Panelas. Uma reserva do mundo da Cantoria, com andanças por Portugal, França, Cuba e EUA...
Panelas, de batismo Oliveira Francisco de Melo, é um artista altamente criativo e dono de voz poderosa. Nascido no dia 24 de maio de 1946, Oliveira tem publicados 19 livros, gravados 11 LPs e uma trintena de CDs. Tem músicas gravadas por nomes como Zé Ramalho, Teca Calazans, Flávia Wenceslau e Socorro Lira.
Fora isso, Oliveira de Panelas tem presença em vários filmes, entre os quais Chatô o Rei do Brasil, que trata da história do paraibano de Umbuzeiro Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, chamado de o magnata da Imprensa brasileira.
O brincante Ariano Suassuna tinha por Oliveira verdadeira veneração, tanto que o convidou para se apresentarem nas cantorias que fazia Brasil afora.
Caneta é arma na mão de quem sabe escrever.
Entendo também que palavras são que nem fio de navalha. Quando não mata, machuca.
A nossa língua, a que falamos, é formada por cerca de 600 vocábulos ou expressões. Desse total, há cerca de quatro ou cinco mil palavrões. Talvez um pouco mais. Homens, segundo pesquisa da Preply realizada em março de 2023, falam pelo menos 8,48 palavrões por dia, enquanto mulheres falam 5,35 vezes. Ainda segundo a pesquisa, Brasília lidera como o Estado que mais fala palavrões, empatado com Rio de Janeiro e Fortaleza: cerca de 8 palavrões por dia.

sexta-feira, 23 de junho de 2023

ESTÃO DESCARACTERIZANDO O SÃO JOÃO

Hoje 23 de junho é o dia de São José Cafasso, padre italiano nascido no começo do século 19. Era chegado a dar conselhos. Todo mundo gostava dele, mas não é dele que quero falar agora. Quero falar de São João.
São João Batista, filho de Zacarias e Isabel, nasceu em Israel num 24 de junho. Virou profeta e como tal anunciou a chegada do Messias, quer dizer: Jesus, seu primo, por ele batizado nas águas do Rio Jordão. Esse santo é o centro dos festejos juninos.
Os festejos juninos herdamos de Portugal, mas custou a pegar e virar uma coisa religiosa bem popular. Só ali pela década de 30 do século 20 é que esses festejos se firmaram entre nós. Porém não custa lembrar que já no século anterior esses festejos já engatinhavam nos salões do Império com a dança da quadrilha. Coisa chique, nobre, da elite. A música era valsa ou polca. O povo vendo aquilo, passou a imitar sem pompas. E aí vieram as fogueiras, milho assado, canjica, pamonha, doces, pipoca, pé de moleque; bandeirinhas, pau de sebo...
O baiano Assis Valente foi quem inventou a marcha junina, gênero inicialmente gravado com algum sucesso por Chico Alves e Aurora Miranda, irmã da portuguesinha Carmen.
Essa história eu já contei neste Blog, em livros, rádio... Ouça: RAÍZES DO BRASIL
É importante que se diga, e se rediga, que coube ao pernambucano Luiz Gonzaga disseminar a marcha e outros ritmos do período junino. O forró, por exemplo.
Uma vez Gonzaga me disse: "Todo mundo me chama Rei do Baião, mas eu sou o rei do forró e da marcha junina; do xote, xaxado...".
Foi Luiz Gonzaga que deu as principais características juninas no campo musical, claro. Mas as festas juninas são mais do que música. É nesse período, quer dizer em todo o mês de junho, que esse tipo de festa é comemorado com muita alegria, especialmente no Nordeste. No entanto, um detalhe: está havendo uma rápida descaracterização nesses festejos. Ouça o que diz a paraibana Elba Ramalho: https://youtu.be/wZn7CD6DYLE
Realmente não parece ser de bom alvitre não ter em uma festa de São João artistas do naipe de Biliu de Campina e Alcymar Monteiro. Concordo com Elba. E concordo também quando ela diz que "No céu cabem todas as estrelas".
Pessoalmente, não sou chegado a rock e nem a música sertanoja. Também não gosto dessas coisas chamadas de pisadinha, funk, mas respeito quem faz e quem goste.
O escritor Onaldo Queiroga também é da linha do bom gosto. Defende a tradição junina. Ele: "A importância desses festejos está na manutenção da tradição, se fugir desse formato passará a ser um festival, pode até alcançar públicos enormes, mas não será São João".
O forrozeiro Flávio José, que conheço de perto e sei do seu talento, foi contratado para cantar uma hora e meia no São João de Campina Grande. Perfeito. Mas antes de abrir o fole, alguém se aproximou dele e disse: "Você só vai tocar uma hora e dez minutos". Ouça Flávio:



LEIA MAIS: A MELHOR FESTA DE SÃO JOÃO É AINDA NO BRASIL • VIVA SÃO JOÃO! • LUIZ GONZAGA E SÃO JOÃO

FORRÓ NA LUA

Pra quem está fora de Campina Grande, apresento esta composição que Jorge Ribbas e eu criamos. Confira: https://youtu.be/kHNTKvQuphU

domingo, 18 de junho de 2023

LICENCIOSIDADES NA CULTURA POPULAR (26)

Assis Ângelo e Paulo Vanzolini
A pernambucana Marinês, nomeada Rainha do Xaxado por Luiz Gonzaga, transformou em clássico o forró Peba na Pimenta, de Adelino Rivera, João do Vale e José Batista. Também transformou em sucesso Só Gosto de Tudo Grande, de Adélio da Silva e Adolpho de Carvalho. Diz: "Eu sou pequenininha/ Mas gosto de tudo grande/ Só gosto de tudo grande…/ Na minha terra botei gente pra correr/ Meio quilo de moleque/ Só gosto de tudo grande…".
A mineira Maria Alcina fez estrondoso sucesso com Bacurinha, depois de regravar Prenda o Tadeu.
Até a rainha do baião, Carmélia Alves, cantou a seu modo verso de duplo sentido. A música foi Trepa no Coqueiro, de Ari Kerner. Um trecho: “Oi! Trepa no coqueiro!/ Tira coco!/ Jipe, jipe! Nheco, nheco!/ No coqueiro olirá/ Papai, cadê Maria?/ Maria foi passiá/ Os passeios de Maria/ Faz papai e mamãe chorar”.
A rainha do forró, Anastácia, pegou o bonde dessa história e mandou ver no forró O Sucesso da Zefinha, em que diz: “A Zefa é moça bonita/ Bem apetitosa e ajeitadinha/ Usando a calça bem justa/ Cintura apertada fica bonitinha/ Os homens ficam quase doidos/ Querendo dançar só com a Zefinha/ E ela por si não dá conta/ Trocando de par a noite inteirinha”.
Quem também fez grande sucesso cantando bobagens foi a atriz Dercy Gonçalves. Uma das músicas que lhe renderam sucesso foi A Perereca da Vizinha, dela mesma e de Jonatan. Começa assim: "A perereca da vizinha tá presa na gaiola!/ Xô, perereca! Xô, perereca!/ A vizinha é boa praça/ A vizinha é camarada/ Vai soltar a perereca/ Pra alegrar a garotada!!!".
No mundo da cantoria ao som de viola e pandeiro há interessantes e curiosos registros em modalidades diversas, como embolada.
As irmãs Terezinha e Lindalva fizeram muitos marmanjos rirem com Baiana Sulá, gravada no lado A do LP Olha o Palavrão, de 1992. Elas usam palavras de baixíssimo calão para se "agredirem". Embora engraçados, os versos são pesados.
Terezinha e Lindalva gravaram vários discos e até participaram de um filme intitulado Saudade do Futuro, baseado no livro Eu vou contar pra vocês, que publiquei em 1990. Desse filme, inédito no Brasil, também participaram os emboladores Peneira e Sonhador.
Mais leves do que Terezinha e a irmã são Caju e Castanha. Falam de corno. Adoram esse tema. O Corno Conformado é uma graça. Ouça:



Foto e reproduções por Flor Maria e Anna da Hora

sábado, 17 de junho de 2023

LICENCIOSIDADES NA CULTURA POPULAR (25)

Menos violento do que se ouve em Maria Chiquinha é o Vampiro Doidão de Tukley Ganzert, que muita gente pensa ser Raul Seixas. Começa assim: "Puta que pariu!/ O meu gato pôs um ovo/ Mas gato não põe ovo/ Puta que pariu de novo!...".
De Raul é o engraçado Rock das Aranhas, em que narra a relação sexual entre duas mulheres. Fez grande sucesso, virando clássico do gênero: https://www.youtube.com/watch?v=rRj-9xhlXuQ
O trem dessa história segue por aí, aos solavancos.
Em 1929, a cantora e atriz do teatro de revista Aracy Cortes encheu de tesão os marmanjos que a viam no palco. Deu muito o que falar com as pernas nuas e os trejeitos sensuais. Um ano antes ela gravou o samba Jura, de Sinhô, que lá pras tantas diz: “... Daí então dar-te eu irei/ O beijo puro na catedral do amor/ Dos sonhos meus/ Bem junto aos teus/ Para fugirmos das aflições da dor”.
Aracy Cortes
Aracy foi quem lançou o gênero samba-canção, criado por Luiz Peixoto, Marques Porto e Henrique Vogeler. Título: Ai Ioiô (Linda Flor), gravada em disco Parlophon, em 1929.
Em 1935, a cantora Carmen Miranda botou pra quebrar com o samba Eu Dei..., de Ary Barroso. Gracioso, fez sucesso.
Em 1936 Noel Rosa compôs o samba Dama do Cabaré que Marília Batista gravaria em 1954. O personagem descarta uma namorada pela tal dama, com quem sai. Apaixona-se e passa a vida a procurá-la nos bailes da vida. É o contrário do que se sucede com a personagem do samba-canção Ronda, que o paulistano Paulo Vanzolini comporia. Essa música foi lançada em 1953, por Inezita Barroso.
Mais recentemente muitas cantoras se divertiram cantando coisas maliciosas.

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