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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (64)

Ainda sobre a tal Maria dos Olhos Tortos, acrescento: 


Cantava com todo mundo 
No mundo todo brilhou
De repente ganhou asas
E direto ao céu voou 
No céu cantou com Cristo 
Mas com Deus se quer tentou 

Não tentou porque não quis 
Talvez por temer falhar
Pois Deus estava pronto
Pra com ela duelar
Na base do Martelo 
Somente pra começar...

_ Espera, espera. Assis, o que é Martelo?

Martelo é modelo
E também modalidade 
Existe há muito tempo 
Cantado sem piedade
Por mestres que cantam tudo
Sem dó e com sagacidade 

_ Gostei. É isso que é Martelo?
_ Não, Maria. Estou falando de Martelo, mas cantando em Sextilha. Essa é uma das dezenas de modalidades ou formas de poesia desenvolvidas no calor dos improvisos por cantadores em desafio ao som de viola. No livro Eu Vou Contar Pra Vocês (1990), cheguei a enumerar 70 ou 80 modos ou tipos de baiões comuns ao mundo da Cantoria. O poeta repentista Oliveira de Panelas anotou mais de uma centena. Na origem, o Martelo é construído em estrofes de dez versos decassilábicos. E a rima é assim, com métrica e tudo: o 1° verso rima obrigatoriamente com o 4° e o 5°, o 2° com o 3°, o 6° com o 7° e o 10° e, finalmente, o 8° com o 9°.
_ Legal! Estou gostando desse papo. A propósito, o tal Martelo tem autoria nas origens?
_ Se são remotíssimas as origens do Martelo, não sei. Porém, dá pra dizer que o Martelo é criação do cordelista e violeiro patoense Silvino Pirauá (1848-1913). Aliás, foi ele também um dos primeiros improvisadores a cantar versos em sextilhas. Antes dele houve um maranhense chamado Antônio Gonçalves Dias (1823-1864), que cantou versos próprios em sextilha. É dele, por exemplo, o poema Sextilhas de Frei Antão. Esse frei era português e  um tanto chegado ao autor de Canção do Exílio (1846). É desse poeta Olhos Verdes, que dedicou a uma de suas musas e por quem acabaria morrendo de amor. Um trecho:

Dizei vós: “Triste do bardo!
Deixou-se de amor finar!
Viu uns olhos verdes, verdes,
Uns olhos da cor do mar:
Eram verdes sem esp’rança,
Davam amor sem amar!”
Dizei-o vós, meus amigos,
 Que ai de mi!
Não pertenço mais à vida
 Depois que os vi!


_ Interessante isso. Esses olhos verdes me lembram os olhos verdes de Diadorim, do Grande Sertão. 

Como curiosidade, posso acrescentar que Guimarães Rosa começou a carreira literária fazendo poesia. Chegou a ganhar um prêmio como poeta, com direito a publicar um livro bancado pelos promotores do concurso de que participou. Esse livro, porém, só foi publicado muito anos depois sob o título de Magma. 
Dez anos depois de consagrar-se como autor literário com Sagarana (1946), Rosa lançou aquele que seria a sua obra-prima: Grande Sertão: Veredas. O lançamento deu-se no dia 16 de julho no ano da graça de 1956.




quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (63)

_ Maria, você ainda pergunta se há mais coincidências ou algo assim na vida desses dois grandes craques da nossa literatura. Pois bem, vamos lá: o Bruxo do Cosme Velho nasceu por volta das 8:30h do dia 21 de junho de 1839. E o nosso Rosa morreu por volta dessa mesma hora só que no dia 19 de novembro de 1967. Ambos morreram no Rio.
_ Puxa! Os kardecistas sabem disso?
_ Saber não sei. Mas sei que os dois não eram assim tão religiosos seguidores das leis do nosso Deus do céu. Isso, aliás, fica muito claro nas falas e expressões dos personagens de Rosa e Machado. Os dois eram mais ou menos como o bom baiano Jorge Amado, que trocava a frequência das Igrejas por terreiros de Umbanda.
_ E aquela história de Rosa não gostar de Machado? É verdade?
_ Flor Maria, quem garante isso não sou eu, não. Quem diz isso é o próprio Rosa em manuscritos publicados, pelo menos em parte, numa das edições da revista Piauí (2006): 
"Não pretendo ler mais Machado de Assis, a não ser nos seus afamados contos. Talvez, também o começo de "Dom Casmurro", do qual já li crítica que me despertou curiosidade. 
Não pretendo mais lê-lo, por várias motivos: acho-o antipático de estilo, cheio de atitudes para "embasbacar o indígena"; lança mão de artifícios baratos, querendo forçar a nota de originalidade; anda sempre no mesmo trote pernóstico, o que torna tediosa a sua leitura. Há trechos bons, mas mesmo assim inferiores aos dos autores ingleses que lhe serviram de modelo. Quanto às ideias, nada mais do que uma desoladora dissecação do egoísmo e, o que é pior, da mais desprezível forma de egoísmo: o egoísmo dos introvertidos inteligentes. Bem, basta; chega de Machado de Assis."

_ Caraca!
_ Pois é, dona Flor, o Rosa não era brinquedo não. 

O mineiro de Codisburgo João Guimarães Rosa, filho de Floduardo e Francisca, já nasceu sabido e, como diria minha santa avó Alcina, com uma baita e brilhante estrela grudada na testa. A rigor, estudou muito e muito aprendeu para poder sobreviver acima da carne seca. Entrou na faculdade de Medicina com 16 anos de idade. Quatro anos depois estava formado, com canudo e tudo guardado num local qualquer de casa. Em 1929, começou a publicar textos literários na extinta revista O Cruzeiro, do paraibano Francisco de Assis Chateaubriand de Mello (1892-1968). No total foram quatro contos publicados na referida revista. 

_ Assis, foi então nessa revista que o Rosa estreou?
_ Sim, sim. Mas ele não optou seguir carreira jornalística. Em 1931, ele já representava o Brasil como cônsul em Hamburgo na Alemanha. Quando estourou a 2a. Guerra Mundial, o nosso escritor lá firme estava, observando e agindo como grande cidadão que foi. Dona Aracy, sua mulher de segunda núpcias, salvou muitas famílias judias da ira do maior assassino em massa que o mundo já viu: Hitler. Ficou conhecida como o Anjo de Hamburgo. 
_ Muito bem, interessante essa história. Mas eu fiquei com uma coisinha assim me incomodando atrás da orelha...
_ Vai, vai Maria. Desembucha!
_ Sabe, Assis, é aquele poeminha que você começa falando como se a personagem fosse mulher. É aquele que começa assim:
Não sou cega nem surda/E só ouço o que quero ver.... 
_ Ah! Sim. Lembro, claro. Passo pra frente o que me contaram. Ali lembro de uma mulher que enaltecia a personagem rosiana. 
_ E quem era essa mulher?
_ Como disse, passo pra frente. Vamos lá:

Cantava e tocava
Com graça e harmonia 
E com um pinho ao peito 
Peleja nunca perdia
Era como se fosse 
O anjo da cantoria

Tudo ela falava
De tudo ela sabia
Contente ela contava 
Coisas do dia a dia 
E o povo  encantado 
A chamava de Maria...

_ Então, o nome dela era Maria?
_ Sim, sim. Pelo menos é o que as dicas indicam.
_ E o sobrenome dela?
_ Bom, à boca miúda diziam ser ela Maria dos Olhos Tortos. Essa Maria era uma cantadora repentista. Como costumam fazer os grandes improvisadores do repente, Maria dos Olhos Tortos era, ao que dizem, uma leitora contumaz de tudo que lhe caía às mãos. Parece, segundo alguns, era mineira do interior. Não sei quando nasceu e quando morreu. Também não sei dizer com firmeza se existiu ou não existiu.
_ Poxa, pena. Mas mudando de pato pra ganso, é sabido que muitos dos nossos escritores começaram a carreira como jornalistas. Isso ocorreu com Guimarães Rosa?
_ A respeito a gente conversa melhor depois.




 

ACORDA LULA!

Hoje é quinta 17.
Foi num dia como hoje, só que sexta, que o Brasil tomou conhecimento do assassinato de Lamarca no sertão da Bahia. Porém, não é disso ou desse caso que quero cá falar. 
O dia 15 de setembro marca o Dia Internacional da Democracia. A história é mais ou menos longa, tanto que falaremos a respeito noutra ocasião. 
O que dói, dói mesmo, é ver a Justiça lambendo saco de donos, ou supostamente de donos do poder. 
E quando falo Justiça, falo com o coração quase tremendo e sangrando diante dos olhos do dono.
O STF nasceu com a sigla de STJ, no dia 18 de setembro do ano de 1828.
É tudo triste, triste demais, acompanharmos a peça de horror no teatro do STF em Brasília.
Bom, eu sou um cidadão brasileiro extremamente comum, ao contrário do que deixou parecer o pastor representante do bolsonarismo no nosso centenário STF. De fato, uma vergonha.
O Lula e o povo brasileiro, no sentido mais claro do termo, estamos quietos até demais, enquanto o outro lado dá porrada a torto e a direito sem nenhum compromisso com a verdade.
Lula, acorda!

terça-feira, 15 de setembro de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (62)

Bom, um cego puxa outro.
Não, não. Se um cego puxa outro, ambos correm o risco de caírem emboluando ladeira abaixo de um lugar ermo qualquer. O correto é dizer: um guia vidente puxa o cego para onde for. 
Há pouco falei de José Américo de Almeida que morreu cego. 
João Guimarães Rosa, que nasceu no dia 27 de junho de 1908, não morreu cego. Porém, morreu com graus enormes nos óculos para poder ver um pouco mais além do próprio nariz. Mas ao contrário de Zé Américo, Rosa pôs cegos e míopes para se movimentarem nas páginas de seus livros. O mais famoso de seus cegos é o Borromeu, que transita sabiamente nas páginas de Grande Sertão: Veredas. Dele o míope mais conhecido é o menino Miguilim, que aparece no conto Campo Geral. Pois é, como um cego puxa outro... Não, não!
Quem ainda não leu, sempre será tempo para ler O Burrinho Pedrês.
Esse burrinho de Rosa já foi burrinho novo, mas o tempo passou e ele naturalmente envelheceu. Tinha olhos vivos, brilhantes, enormes, mas isso tudo o tempo apagou. Vira herói, mas antes disso há uma guerrinha feia entre dois vaqueiros. O motivo foi que um roubou do outro a noiva, que era vesga. Essa história abre o livro de contos Sagarana (1946).

Não sou cega nem surda
E ouço só se quiser ver
O senhor... Mire veja
Houve um que viu sem querer 
O Riobaldo falar 
Que matava pra não morrer 

Matou e matou muito
Como um cangaceiro 
Ou jagunço que era
Lá no Sertão mineiro 
Há! Claro: Diadorim 
Foi seu melhor parceiro 

Branco de olhos verdes
Atirava pra matar
Assim na hora: pá, pum!
Pra outra bala não gastar 
Bom moço Diadorim 
Pois matava sem judiar

_ Assis, posso falar?
_ Claro, claro. 
_ Esse poeminha aí é seu seu?
_ Fiz agora, Flor Maria. Fiz pra lembrar o romance Grande Sertão, lançado em 1956 com sucesso estrondoso. Repentistas e cordelistas deitaram e rolaram com as estripulias de Riobaldo, Hermógenes, Joca Ramiro e companhia. 
_ Então é por isso que você começa falando como se fosse mulher?
_ Mais ou menos. Veja isso aqui:

...Mas era macho ou feme 
Esse tal Diadorim 
Que atirava pra matar?
Todo mundo diz que sim
E todo mundo diz que não 
Eu da minha parte, por fim...

_ Mas Assis, ele era homem ou era mulher?
_ Bom, todo mundo diz que sim e eu... sei não!
_Você lembra que João Guimarães Rosa nasceu em 1908. Não foi nesse mesmo ano que morreu Joaquim Maria Machado de Assis, nosso maior escritor?
_ Maria, não me ponha em fria. 
_ Por quê?
_ Olha, eu já li quase tudo que o Bruxo do Cosme Velho escreveu e publicou. Claro que ele era muito bom no que escrevia, mas não podemos esquecer de Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar e outros e outras do século 19, como Júlia Lopes de Almeida. Também não podemos esquecer de José Américo, José Lins do Rego, Graciliano Ramos...
_ E a Rachel de Queiroz, hein?
_ Claro, dona Rachel de Queiroz foi incrível. Depois de O Quinze, não precisava escrever mais nada. E o que dizer da Lygia Fagundes Telles? 
_ Que mais coincidência há entre Machado e Rosa, além de um ter morrido em 1908 e naquele mesmo ano ter nascido Rosa?
_ Atenção, atenção! Guimarães Rosa não achava bom nem graça no estilo literário de Machado. Mais: achava-o pernóstico. E tem mais, quer ver? Rosa dizia que o melhor dos escritores brasileiros era Dyonélio Machado (1895-1985), autor dos clássicos Os Ratos (1935) e O Louco do Cati (1942).
_ Iiiih, isso dá pano pra manga!


sábado, 5 de setembro de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (61)

As ceguinhas de Campina Grande, como ficaram conhecidas as irmãs Maria das Neves Barbosa, Regina Barbosa e Francisca Conceição Barbosa, foram durante muito tempo exploradas pelo próprio pai que as alugava ao eito  para o cabo da enxada. Sofreram muito até que conseguiram uma casa própria depois de participarem de um filme sobre a sua história. Tocante. Uma vez estive na casa delas junto com o amigo Chico Pereira (1944-2025) e minha filha mais velha, Ana Maria. Há registro desse encontro. A conferir num clique:

Muitos cantadores tentaram e ainda tentam cantar aqui e acolá aos moldes de Zé Limeira. Até um mote especial foi criado sobre o destabocado repentista paraibano: Eu querendo também faço/Igualzinho a Zé Limeira.
Não conheci Zé Limeira, claro. Eu tinha 2 anos de idade quando ele morreu, em 1954. Mas conheci, e muito bem, o seu biógrafo Orlando Tejo (1935-2018). Tomamos muita água de coco no Ponto de Cem Réis, no centro da capital Paraibana. Conheci também o mestre do repentismo Otacílio, o mais novo dos irmãos Batista. 
Muita gente andou dizendo que Tejo inventou muito, enaltecendo assim o nome de Limeira. 
Perguntei mais de uma vez a Otacílio Batista se conhecera Zé Limeira. Sim e até cantou com ele.
O livro de Tejo, Zé Limeira o Poeta do Absurdo, foi prefaciado pelo ilustre José Américo de Almeida (1887-1980), senador e governador da Paraíba e autor de muitos livros, entre os quais A Bagaceira (1928).
Zé Américo de Almeida morreu cego.
E como uma coisa puxa outra, cego ficou em vida o poeta Zé Laurentino (1943-2016). É dele o engraçado poema Matuto no Futebol.
Como Graciliano Ramos, que ficou praticamente cego na infância, Laurentino também ficou cego só que nos últimos anos da sua vida. 
Graciliano recuperou seus os olhos, como aconteceu exatamente com o Laurentino.
Em junho de 2000 encontrei Zé Laurentino em Campina Grande após palestra que dei no Teatro Severino Cabral. Há registro. 
Tirando onda, Zé Laurentino me premiou com a seguinte quadrinha:

Da cintura pra cima
Sou cego de dá pena
Da cintura pra baixo 
Sou a gota serena

Então tá, né?

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (60)

 

Pois bem, há pouco eu disse inté. Isso a gente diz quando se despede de alguém e coisas e loisas. Aliás, não custa lembrar da importância histórica representada pela presença feminina no mundo das artes, incluindo a poesia de bancada e a poesia de improviso desenvolvida ao som de violas.

_ Assis, posso interromper um pouquinho?
_ Claro, Flor Maria. 
_ Eu não sei se já perguntei, mas a minha curiosidade é tanta que me leva a querer saber mais da existência das mulheres batendo viola em desafio com os marmanjos dos tempos de ontem Brasil afora. 
_ Bom, não foram tantas. Mas dá pra dizer que não foram assim tão poucas. 
_ Teve uma mulher chamada Chica Barrosa. Até onde sei, ela era no dizer comum "o Cão comendo cocada".
_ Sim, há registros curiosíssimos sobre ela e de outras do seu tempo e de tempos que chegam até nós. Pra começo de história, a Chica a quem você se refere era uma negrona bonita, alta, charmosa e cheia de nove horas batizada com o santo nome de Francisca Maria da Conceição. Paraibana do sertão patoense. Era chegada a uma boa cana e conversas fora de cantoria. Morreu antes do tempo, assassinada por um calhorda que se achava dono do mundo. Foi em 1916. Andava na casa dos 40. Há fragmentos de pelejas com sabichões do mundo machista representado por um tal de Manoel Martins, o Neco Martins. E mais e mais.
_ Nessa história a cegueira onde fica?
_ Peço licença ao truliso,/Dos olbus das periférias,/Dos chuás das pontulínias,/Dos chomotós das matérias,/Das grotas dos veluais,/Das mimosas deletérias." Brincadeira, brincadeirinha aos moldes do conterrâneo Zé Limeira. Agora, sério: a cegueira se acha até nos olhos mais lindos e vivos possíveis. Dou-me ao luxo de falar no modo popular e figurativo. Mas bom que se diga da importância do cego Sinfrônio na história do cego rabequeiro Nordeste adentro. Muita coisa ele disse sobre pelejas entre ele e outros como Cego Aderaldo. Tinha também o Cego Oliveira. No entanto, os cegos cantadores do Brasil estão desaparecendo e no lugar deles ninguém de novo surge.
_ E as famosas ceguinhas de Campina Grande?
_ Maravilhosas, mas uma delas já foi cantar pra Deus: Maroca, a mais velha das três. Sobre elas fiz uma cantiga, Vida Cega. Clique 



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