Seguir o blog

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (58)

Cego Sinfrônio (Crédito: Creative Commons)
 _ Nos livros dos nossos grandes escritores do século 19 já havia figuras parecidas com o seu Joãozinho Bem-Bem do mineiro Guimarães Rosa?

_ Claro, Flor Maria. Existiam, sim. O Zé de Alencar, por exemplo, nos apresenta figuras ingênuas e violentas como no romance Til (1871).
_ E cantadores, violeiros, também já apareciam nos livros como personagens reais ou fictícios?
_ A Serra do Teixeira é uma localidade paraibana que faz divisa com Pernambuco. Foi nessa região que surgiram os primeiros poetas improvisadores autoacompanhando-se de viola ou pandeiro. Aliás, entrou para a história do repentismo a peleja de Romano de Mãe D'água e de Inácio da Catingueira, que era um negro escravizado sem pai nem mãe. No improviso poético e no toque do pandeiro era tido como gênio. Essa peleja é citada em livros de Rodrigues de Carvalho, Câmara Cascudo, Leonardo Mota e tal. Mota chega a registrar no livro Cantadores (1921) um embate histórico de Zefinha do Chabocão e Jerônimo do Junqueiro . Esse encontro foi narrado a Mota pelo cego cearense Sinfrônio. Começa assim:

Quando estralou a notiça
Que o fama tá na ribêra, 
Era tanto do canto 
Que enchia o quadro da fera: 
Accudiu Antonio dc Salle 
Mais o Gerome Morêra;
Accudiu Antonio Pendença, 
Santiago de Otivera; 
 Accudiu o Virgolino 
E o Romano do Teixêra;
Herculano de Messia 
Cego Vicente Barréra, 
E o Fausto Correia Lima 
Das Lavra da Mangabêra. 

Nenhum destes me passou 
O pé adiente da mão; 
Só achei duas mulhére; 
Tinha a pintura do cão; 
Naninha Gorda dos Brejo, 
Zefinha do Chabocão. 

Eu tava numa funcção 
Na fazenda «Cacimbinha», 
Quando vejo um positivo Pedindo notiça minha, 
Dando um recado atrevido, 
Que me mandava a Zefinha. 

Nesse tempo eu era limpo, 
Mettido um tanto a pimpão, 
Vesti-me todo de preto, 
Calcei um par de calção.  
Botei chapéo na cabeça 
E um chapéo de sol na mão; 
Calcei os meus bruziguim, 
Ageitei meu correntão, 
Nos dedo da mão direita 
Levava seis annelão, 
Tres meu e tres emprestado: 
Ia nestas condição... 

Quando eu cheguei no terreiro 
Um moço vêi me falá: 
«Cidadão, se desapeie, 
Venha logo se abancá, 
Faz favo de entrá pra dentro, 
Tome um copo de alua». 

Me assentei perante o povo, 
(Parecia uma sessão) 
Quando me saiu Zefinha 
Com grande preparação: 
Era baixa, grossa e alva, 
Bonita até de feição; 
Cheia de laço de fita, 
Trancellim, collá, cordão; 
Nos dedo da mão direita 
Não sei quantos annelão... 
Vinha tão perfeitazinha, 
Bonitinha como o cão! 
Para confeito da obra: 
Uma viola na mão...

No repentismo e na literatura de cordel existem muitos personagens criados pela imaginação vigorosa de poetas populares como Leandro Gomes de Barros (1865-1918). É dele, por exemplo, o vagabundo profissional Cancão de Fogo, criatura inspirada numa ave muito comum no Nordeste. 
O moleque Cancão, que na história era órfão de pai, especializou-se em fazer nada. Vivia de golpes que aplicava em pessoas abonadas. Justificava isso dizendo que nada mais estava fazendo do que apossar-se dos próprios bens. Quer dizer: não respeitava as regras do capitalismo. 
Uma hora de papo pro ar, soltou essa quadrinha:

Eu creio no que vejo
E acredito no que pego
Reza pra quem já morreu
É como luz para cego

Bom, ele disse isso e eu digo isto:

Mas só a luz nos olhos 
Não basta para quem quer ver
É preciso abrir as portas
Da escola do saber

POSTAGENS MAIS VISTAS