Há bem pouco tempo os Correios eram o caminho mais fácil para entrarmos em contato com pessoas queridas, amigos, amigas e tal. Usávamos também telegramas e tal. Hoje mudou tudo. A mudança deve-se à chegada irreversível da Internet.
Muita coisa bonita foi, musicalmente, escrita.
Para lembrar, ouça:
TAIGUARA
Hoje 9, além de ser o Dia dos Correios, é o dia em que nasceu o cantor Taiguara. Foi em 1945.
Foi não foi, ouço dizer que o Brasil é um país sem memória, desmemoriado.
Sim, acho mesmo que somos um povo sem memória. Quer dizer, o povo faz e o que faz o vento leva.
Vários personagens da nossa música popular completaram em brancas nuvens o centenário de nascimento. Entre esses o compositor e violonista Billy Blanco, o instrumentista Manezinho da Flauta e a violeira Helena Meirelles.
Pois é, esses artistas não poderiam sumir de vez da nossa memória. Se assim for, afunhenhadas estarão as próximas gerações de brasileiros e brasileiras.
Eu conheci de perto Billy Blanco, um cara bom de papo e violão. Mais: excepcional compositor, autor de uma obra extensa e rica. Foi parceiro de artistas como Tom Jobim. Com Tom, Billy compôs Sinfonia do Rio de Janeiro. Beleza! Foi em 1960.
No início da década de 70, Billy compôs sozinho títulos que couberam certinho no LP Paulistana, homenagem sensibilíssima à Capital paulista. O disco foi à praça pela Odeon, em 1974. Dele participaram os cantores Pery Ribeiro, Claudya, Elza Soares, Miltinho...
Muitas músicas de Billy Blanco foram gravadas por muita gente boa como a paulistana Inezita Barroso.
E Manezinho da Flauta, hein?
A rigor, Manezinho, sobrinho de Pixinguinha, não era compositor. Era músico. Adotou, muito cedo, a flauta como instrumento para nos encantar. Gravou dois LPs. O primeiro O Melhor dos Chorinhos, lançado em 1967; e Gente da Antiga (1968).
Helena Meirelles foi uma figura e tanto. Uma pessoa incrível. Uma pessoa desabrida, que durante a juventude comeu e pagou o pão que o Diabo amassou. Sua casa foi um cabaré onde tudo fez para sobreviver. A sua história ela me contou com graça, sem raiva, sem amargura. Mulher fortíssima, de personalidade contagiante. Seus discos, poucos, saíram pela extinta gravadora Eldorado.
Além de saudade, esses artistas nos legaram uma obra marcante.
Foi neste ano de 2024 que Paulo Vanzolini, misto de compositor e cientista, completou 100 anos de nascimento. Era paulistano, como Inezita Barroso.
Bom, no próximo dia 21 de dezembro completam-se 100 anos de nascimento do flautista Altamiro Carrilho. Vamos homenageá-lo?
Foi em São Paulo que nos encontramos pela última vez. Em 2012, acho. Confira aí, clicando:
O mês de agosto, muitos dizem, é o mês do cachorro louco. Mas nesse agosto, não custa lembrar, é comemorado internacionalmente como o mês do Folclore. E isso, sim, é coisa boa.
São muitos os personagens que habitam o enorme e imaginário campo do folclore. Tem Curupira, Saci-Pererê, Caipora, Boitatá, Mãe d'Água, Boto, Negrinho do Pastoreio, Lobisomem, Mula Sem Cabeça, Homem do Saco, Corpo-Seco, Cuca...
As origens da Cuca remonta há muito tempo. Vem das bandas europeias. Ali dos lados da Espanha, Portugal. Quando chegou ao Brasil? Não sei.
Ainda menino eu ouvia muito sobre a Cuca.
A Cuca é bruxa, uma velha bruxa. Horrorosa. Com cabeça de jacaré, pés de pato e unhas de vampiro. Não houve, no meu tempo, criança que não se assustasse ao falar da Cuca.
O folclore é riquíssimo de causos, cousas, lendas e tal.
Isso tudo me faz lembrar das artes. Plásticas, inclusive.
Em 1924 a pintora paulista Tarsila do Amaral criou um quadro bem bonito a que intitulou A Cuca. Vejam só!
Faz 100 anos que Tarsila legou ao Brasil o quadro que retrata a imaginária Cuca.
Faz 100 anos também que a mesma artista legou ao Brasil a obra Morro da Favela.
Tarsila do Amaral é a autora da obra-prima Abaporu, criada em 1928.
Dessa mesma Tarsila é o quadro mais caro de um artista plástico brasileiro: A Caipirinha, pintado em 1923 e vendido num leilão, em 2020, pela bagatela de 57,5 milhões de reais.
Tarsila do Amaral morou alguns anos na França. Voltou ao Brasil em 1922, mesmo ano da Semana de Arte Moderna. Dessa Semana ela participou. Em 26 casou-se com Oswald de Andrade (1890-1954) e, três anos depois, separou-se.
Tarsila do Amaral nasceu no dia 1º de setembro de 1886 e morreu no dia 17 de janeiro de 1976.
Pois é, em 1924 Tarsila do Amaral pintou dois belos quadros. A Cuca e Morro da Favela.
A propósito de Morro e de Favela lembro de um cara conhecido como MC Daleste. Seu nome verdadeiro era Daniel Pedreira Sena Pellegrini, que foi morto a tiros no interior de São Paulo quando apresentava um show. Isso foi em 2013. A polícia não achou o autor dos disparos que acabou com a vida do artista. No ano seguinte, em 2014, o processo praticamente parou. E é assim que a coisa está. Ouça Daleste cantando o tema pintado por Tarsila:
O livro que acabo de pôr nas ruas, nas prateleiras, A Fabulosa Viagem de Vasco da Gama, continua chamando a atenção por aí afora.
Ontem 26 abri a boca pra dizer um monte de coisas maravilhosas a respeito da língua portuguesa e de um de seus artífices: Luís Vaz de Camões.
Pra escrever A Fabulosa Viagem de Vasco eu me inspirei no clássico Os Lusíadas, originalmente publicado no ano de 1572.
Usei os principais personagens criados e usados por Camões na sua fabulosa obra.
Eu disse isso e disse mais à jornalista Tania Morales, titular do programa Noite Total, transmito ao vivo pela Rádio CBN.
Esse meu novo livro tem versão em braile e fonte ampliada para quem tem baixa visão. Foi apresentado pelo maestro Júlio Medaglia e pelo poeta repentista Oliveira de Panelas.
A respeito desse livro, escreveu Medaglia:
CAMÕES NA PONTA DOS DEDOS
Júlio Medaglia
No período imediatamente posterior à Idade Média, às vezes chamado de “Noite de dez séculos”, ocorreu uma grande revolução na cultura ocidental com o nascimento dos três maiores gênios da literatura latina de todos os tempos: Dante, Cervantes e Camões.
Curiosamente, nesse mesmo período, chamado de “Renascentista” e já entrando no estilo “Barroco”, ocorreu também a maior revolução histórica na área música. Se até então fazia-se primordialmente música vocal, a partir desse momento o ser humano resolveu fazer música fora do corpo. Começou a inventar instrumentos de cordas, sopros e teclados que inauguraram gigantescos recursos sonoros, presentes na música universal até os dias de hoje. Mas como era possível fazer essas novas “máquinas” artificiais produzirem a beleza artística? Tangendo-se as cordas do violino com a ponta dos dedos, as teclas dos cravos e logo em seguida do piano, com a ponta dos dedos e abrindo e fechando os furinhos dos tubos dos instrumentos de sopro, com a ponta dos dedos.
Levaria, porém, 500 anos para que os seres humanos desprovidos da faculdade da visão, pudessem ler a mais importante obra de Camões, Os Lusíadas. E foi neste século XXI que um dos maiores jornalistas, pesquisadores, escritores e compositores deste país, o paraibano Assis Ângelo, encontrou a solução para esse drama. Depois de desenvolver uma das mais brilhantes e multifacetadas carreiras de intelectual, por um grave problema de saúde, ele ficou cego. Como profundo conhecedor da obra de Camões, e mais inquieto que nunca, Assis Ângelo resolveu permitir que outros seres humanos que sofreram do mesmo infortúnio, o da perda da visão, pudessem ler a obra do grande escritor português. E como? Com a ponta dos dedos.
Foi assim que, para celebrar neste ano de 2024 os 500 anos do nascimento do grande escritor português, Assis Ângelo “traduziu” para o idioma Braile sua obra imortal numa criativa adaptação livre para canto e cordel. Se os olhos dos cegos se situam na ponta dos dedos, Os Lusíadas, em sua nova transcodificação realizada pelo brilhante paraibano, ganha novo impulso de vida – a obra em si e o prazer do cultivo da literatura daqueles que perderam a visão.
JÚLIO MEDAGLIA
O maestro Júlio Medaglia não é brinquedo não, é nome importante para a vida cultural do nosso país.
Não é de hoje que Júlio faz história e nos encanta com sua batuta e com seu falar bem claro.
O mais novo livro do ex-todo poderoso da TV Globo, José Bonifácio Oliveira Sobrinho, O Lado B de Boni, lê-se:
Meu amigo, minha amiga: você sabe quem foi Henricão, cantor, compositor...?
Minha amiga, meu amigo: você sabe quem foi Rubens Campos, cantor compositor...?
Bom, Henricão e Rubens Campos foram uma só pessoa, um só artista.
Eu conheci de perto Henricão. Eu conheci de perto Rubens Campos.
Essas duas pessoas numa só foram de grande importância para a música brasileira. Nasceram no dia 16 de agosto de 1912, no Rio. Mas Henricão, que ganhou mais notoriedade do que Rubens Campos, chegou a ser Rei Momo de São Paulo.
Henricão, pseudônimo profissional de Rubens Campos, compôs e gravou belas músicas. E fez também versão de Cielito Lindo, uma música de origem mexicana, que marcou a história do Carnaval brasileiro a partir do começo da década de 40, 1940. Título: Está Chegando a Hora.
Henricão foi casado com a cantora Carmen Costa (1920-2007). Pessoa que também conheci de perto e a quem entrevistei, ao vivo, no programa São Paulo Capital Nordeste, programa que eu apresentava na Rádio Capital 1.040 AM.
Uma vez, lembro, Henricão levou-me à casa onde morava. No Bom Retiro, cá em Sampa. Era uma quartinho estreito, modesto demais. Teve uma hora que ele mexeu num amontoado de coisas dizendo que ali havia originais de Noel Rosa. "Coisas que nunca ninguém gravou", disse. Perguntei: Por quê, "Faltou oportunidade...".
Pois é, quanta história!
Porque a nossa memória é tão curta, hein?
Nascemos, vivemos, morremos.
Certamente é bom morrer de bem com a vida.
Ah! Sim: Henricão/Rubens Campos morreu no dia 3 de novembro de 1985. Na extinta revista paulistana Visão, há uma entrevista que fiz com ele num ano qualquer. Ali pelos finais dos 70...
Atenção! Atenção! Amanhã 2 completam-se 35 anos da partida do Rei do Baião para a Eternidade. Foi no dia 2 de agosto de 1989 que o pernambucano Luiz Gonzaga entrou no hospital Santa Joana, de Recife, e de lá não mais saiu com vida. Seu falecimento deveu-se a um maldito câncer de próstata e outros problemas como osteoporose. Está sepultado na sua cidade berço, Exu. Pouco antes de ser internado no Santa Joana, Gonzaga não se fez de rogado e atendeu a um telefonema meu. Ele estava saindo de casa para fazer promessa no Canindé, CE. À época, eu trabalhava na Rádio Jovem Pan. A entrevista foi ao ar no mesmo dia. Não lembro o dia. Há alguns anos, o professor Wilson Seraine criou o que ele chama de "Procissão das Sanfonas". Uma beleza! Reúne dezenas e dezenas de sanfoneiros e sanfoneiras rua a fora. O evento, que já se acha na 16ª edição, tem lugar amanhã 2 na Capital piauiense, mais precisamente da Igreja Catedral de Nossa Senhora das Dores até o Museu do Piauí. Na foto acima, registros de bate-papos de Seraine com amigos, incluindo o neto de Gonzagão Daniel Gonzaga e sua produtora musical, também produtora da rainha do forró Anastácia, Carol.
Confira abaixo bate-papos de Wilson Seraine sobre o Rei do Baião e o acervo que criou.
Até hoje é grande o número de pessoas que abreviam por meios próprios a própria vida.
Cleópatra matou-se, deixando-se espontaneamente ser picada por cobras.
Duas filhas do filósofo Karl Marx tiveram destino idêntico ao destino de Cleópatra.
No mundo todo muita gente continua se matando.
No Brasil, 30 ou 40 pessoas matam-se diariamente. No dia 15 de julho de 1921 o poeta mineiro de Ouro Preto Alphonsus de Guimaraens pendurou-se numa corda e partiu, pouco antes de completar 51 anos de idade.
Guimaraens teve uma grande paixão na adolescência: a prima Constança, que morreu aos 17 anos de idade.
Depois da partida de Constança, Alphonsus de Guimaraens casou-se e teve 14 filhos, incluindo a caçula Constança, que ganhou esse nome em memória da amada do grande poeta. No dia 21 de novembro de 1910, Guimaraens publicou pela primeira vez no jornal A Gazeta o poema que todo mundo conhece: Ismália. O detalhe é que esse poema foi publicado originalmente com o título de Ofélia.
Ofélia é uma personagem shakespareana que aparece no 4º Ato do final da cena 7 do clássico Hamlet. Confira:
O REI: ...Então, meiga rainha? A RAINHA: Tanto as desgraças correm, que se enleiam no encalço umas das outras. Vossa irmã afogou-se, Laertes. LAERTES: Afogou-se? Onde? Como? A RAINHA: Um salgueiro reflete na ribeira cristalina sua copa acinzentada. Para aí foi Ofélia sobraçando grinaldas esquisitas de rainúnculas, margaridas, urtigas e de flores de púrpura, alongadas, a que os nossos campônios chamam nome bem grosseiro, e as nossas jovens "dedos de defunto". Ao tentar pendurar suas coroas nos galhos inclinados, um dos ramos invejosos quebrou, lançando na água chorosa seus troféus de erva e a ela própria. Seus vestidos se abriram, sustentando-a por algum tempo, qual a uma sereia, enquanto ela cantava antigos trechos, sem revelar consciência da desgraça, como criatura ali nascida e feita para aquele elemento. Muito tempo, porém, não demorou, sem que os vestidos se tornassem pesados de tanta água e que de seus cantares arrancassem a infeliz para a morte lamacenta. LAERTES: Afogou-se, dissestes? A RAINHA: Afogou-se. LAERTES: Querida irmã, já tens água de sobra; não te darei mais lágrimas. Contudo, somos assim, que a natureza o obriga, sem que importe a vergonha; uma vez fora, deixou de ser mulher. Adeus, senhor. Com as palavras, só chamas me sairiam, se não fosse apagá-las a tolice. (Sai.) O REI: Sigamo-lo, Gertrudes. Que trabalho me custou para a cólera acalmar-lhe! Receio que de novo a explodir venha. Sigamo-lo, portanto. (Saem.)
A TV Jovem Pan já não existe, o que existe é a rádio "com imagens".
A TV Pan estava instalada no bairro da Barra Funda, região de origem do samba de São Paulo. No lugar da Pan, funcionam hoje a TV e rádio Record.
Não lembro bem, mas sei que faz tempo, quando o apresentador da TV Jovem Pan era o querido amigo Fábio Pannunzio, hoje com 63 anos de idade e com muita história pra contar.
Pois bem, no tempo que Pannunzio era apresentador da TV Pan eu certa noite lá estive junto com o craque baiano Tom Zé e a pernambucana de São José do Egito Edelzuíta Rabelo.
Edelzuíta foi a mulher que completou o rei do baião, Luiz Gonzaga, nos últimos anos de sua vida após a separação de Helena.
Enquanto rodava o Brasil de cabo a rabo, Gonzaga deixava a sua espera Helena naquele tempo morando em Recife num pequeno apartamento que ele comprou pra ela.
Luiz Gonzaga morreu em 1989 e Edelzuíta, em 2005.
Ah! Sim: Gonzaga conheceu Edelzuíta no São João de Caruaru, em 1968. Um pouco dessa história eu conto no livro Dicionário Gonzagueano de A a Z (2006).
Poeta de bancada, repentista e jornalista pernambucano Rogaciano Leite estaria hoje bem velhinho caso vivo fosse.
Rogaciano nasceu no dia 1º de julho de 1920, em Itapetim, e morreu no dia 7 de outubro de 1969, em Fortaleza. Deixou livros e muitas histórias.
É famoso um dos encontros que Rogaciano teve com o Cego Aderaldo, no Rio de Janeiro.
Conta-se que, bonito que era, Rogaciano quando abria a boca numa cantoria as mulheres o aplaudiam antes mesmo de terminar a estrofe que estava sendo cantada. Certa vez, irritado com isso, Cego Aderaldo tascou:
Andei procurando um besta
Um besta que fosse capaz
De tanto procurar um besta
Eu achei esse rapaz
Que nem pra besta serve
Porque é besta demais!
Certa vez o cantor Silvio Caldas me contou ter conhecido Rogaciano e com ele chegou até a compor uma música. Título: Cabelos Cor de Prata, lançado em maio de 1951. Ouça:
Na foto, sentados: Serrador, Cego Sinfrônio, Cego Aderaldo e Jacob Passarinho. Em pé, Leonardo Mota
A rabeca é um belo instrumento, não é mesmo?
Esse instrumento tem origem muito antiga. Surgiu ali nas lonjuras do Oriente Médio, África do Norte e Europa toda. Chegou ao Brasil através dos portugueses e espanhóis.
No começo de tudo, a rabeca tinha uma ou duas cordas.
No Nordeste brasileiro ganhou fama através de hábeis rabequeiros como Cego Sinfrônio, Jacob Passarinho, Serrador e Aderaldo; Cego Aderaldo.
A rabeca fazia parte praticamente do corpo de Aderaldo.
Batizado de Aderaldo Ferreira de Araújo, o grande rabequeiro cearense perdeu a visão ao chegar à idade de 18 anos.
Órfão de pai e mãe, Aderaldo aprendeu a tocar rabeca para se sustentar. Encontrou na escritora Raquel de Queiroz (1910-2003) e no historiador Leonardo Mota (1891-1948) o apoio que precisava.
O Cego Aderaldo nasceu num dia de São João e morreu num dia de São Pedro, com 89 anos de idade.
Há um livro muito interessante que fala a respeito da vida e trajetória profissional de Aderaldo. Título: Eu Sou Cego Aderaldo.
Morreu ontem em São Paulo o cantor goiano Chrystian, de batismo José Pereira da Silva Neto. Tinha 67 anos de idade.
Chrystian, irmão de Ralf, começou a carreira artística na Capital paulista. Primeiro disco foi um compacto simples com as músicas Raio de Sol e Hoje a Praia está tão Linda, a primeira uma versão do compositor e ator Mário Lago (1911-2002) e a segunda de autoria de Teófilo Azevedo e Davi Nelson.
O Téofilo aí citado foi nada mais, nada menos o cantor, violeiro e produtor musical Téo Azevedo (1943-2024).
O primeiro disco de Chrystian foi gravado em 1970. Ele tinha 14 anos. RCA Victor. Desse disco participou o irmão Ralf, de batismo Ralf Richardson da Silva. Tinha 9 anos. Os dois foram batizados de Os Pássaros. Afinadíssimos!
Chrystian e Ralf gravaram ótimas modas de viola.
Dois anos depois do primeiro disco, a dupla passou a gravar em inglês com os nomes de Charles e Ralf.
Num ano qualquer dos 80, talvez 82 ou 83, fiz uma entrevista com os dois. Essa entrevista, de uma ou duas páginas, foi publicada na extinta revista Visão cujo o editor era o craque Oswaldo Mendes.
Último encontro de Belchior com Jorge Mello, em 2006
Belchior na casa do Assis
Igrejinhas, altares e pequenos oratórios estão se erguendo e se multiplicando em ambientes familiares Brasil afora em memória de Belchior. Até aí tudo bem, caso o Belchior citado não fosse o nosso Belchior cantor, compositor e ex-seminarista nascido no Ceará no ano de 46. Isso mesmo, o brasileiro Belchior pode até virar santo! A vida pessoal de Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes foi uma vida pra lá de atribulada. Foi um intelectual. Falava bem o francês, o inglês e arranhava outros idiomas como o espanhol e o italiano. O latim ele o tirava de letra, com a naturalidade de quem bebe água, cheira uma flor e respira. Eu o conheci bem. Belchior era um cara pacato, reservado, incapaz de ferir uma mosca. A sua música, versos e canto eram incomparáveis, com personalidade própria. Cidadão afável, Belchior atendia a todos que o procuravam. Gostava de bom vinho, bacalhau e charutos cubanos. Aparentemente normal, não era machão do tipo clássico, mas adorava pular cerca. "Meu último encontro pessoal com Bel foi em dezembro de 2006", lembra o parceiro e sócio Jorge Mello. "Esse encontro ocorreu no hall do Cesar Park Hotel, em Fortaleza, onde realizávamos uma exposição de artes plásticas", acrescenta Jorge. Dessa exposição participaram também Jô Soares, Chico Anísio e outros pintores bissextos. Belchior foi um ótimo pintor. Jorge Mello compôs 29 músicas com Belchior, duas ou três ainda inéditas. No início da carreira, moraram juntos no Rio de Janeiro. O surgimento de altares feitos em memória de Belchior foi natural e natural continuam se multiplicando. Essa multiplicação já se acha na casa dos 50. São iniciativas de pessoas que admiravam muito o artista e nele acreditavam ser alguém fora do comum. Coisa de fã exagerado. O sumiço de Belchior, injustificado até agora, começou em 2007. Era visto aqui e ali. Até no Uruguai, onde foi localizado por uma equipe da TV Globo. A entrevista foi um tanto atabalhoada. Fisicamente, o artista morreu no Rio Grande do Sul em 2017. Guardo ótimas lembranças dele comendo, bebendo e cantarolando lá em casa. Numa ocasião presenteei-lhe com um pequeno aparelho de tocar discos em 78RPM, que ele adorou. Além de vários filhos, Belchior deixou carros (importados) que se acham até hoje em estacionamentos de São Paulo e dívidas que se acumulam. Curiosidade: no ECAD se acham mais de 200 milhões de reais procedentes de direitos autorais em nome de Belchior. Essse dinheiro, porém, não pode ser sacado por estar "sub judice". Até onde essa coisa vai só Deus sabe. Bom, só falta o querido Belchior virar santo ou seita.
Junho, como o mundo todo sabe, é o mês de São João (24), Santo Antônio (13), São Pedro (29) e São Paulo (29).
Nesse mês de alegria, milho verde e muitas quadrilhas, o Brasil parece ficar mais bonito.
Claro que é no Nordeste a região mais alegre e dançante. As fogueiras desapareceram das ruas. Os balões, também.
Bom, a música dita junina começa a ser inventada e gravada ali pelos começos de 1930.
O primeiro compositor a nos brindar com marchinhas foi o baiano Assis Valente.
É nesse período que os artistas da nossa boa música mais se divertem e nos divertem como Anastácia, Fatel, Dantas do Forró, Luiz Wilson, Alceu Valença e tal e tal, sem falar no Gonzagão, Jackson, Ari Lobo, Manezinho Araújo, Marinês, Carmélia Alves e tantos mais.
A agenda do cantor e compositor Cacá Lopes está cheiinha, até a tampa. Começou a mostrar-se nos palcos antes mesmo de junho.
Cacá já se apresentou no chamado Maior São João do Mundo, há anos realizado em Caruaru, PE.
Vejam só o que o nosso querido Cacá anda fazendo por aí e mais ainda vai fazer. Da sua assessoria recebi:
A agenda de shows juninos do artista pernambucano Cacá Lopes começou ainda em maio, quando levou o seu forró na Virada Cultural pra Biblioteca Municipal Lenyra Fraccaroli no Bairro Vila Carrão –SP.
Dia 02 de junho fez sua estreia no São João de Caruaru com uma apresentação no Polo do Repente, acompanhado por três músicos da cidade e dois de São Paulo, a convite da Fundação Cultural de Caruaru.
Dia 08 o artista se apresentou em Mogi das Cruzes-SP na Mostra Eles e Elas que decantam o Nordeste, produção de Elielma Carvalho via Secretaria de Cultura. Também esteve neste evento os poetas: Moreira de Acopiara, Varneci Nascimento, Cidrão (filho de Patativa do Assaré) Peneira e Sonhador, Lena Santos, o paraibano Jocélio Amaro, a escritora Nireuda Longobardi entre outros.
Dia 11 (amanhã) Cacá Lopes estará às 18h com o Bloco do Baião na Praça das Artes (Complexo do Theatro Municipal de São Paulo), no Lançamento da Circulação SP Forró que vai percorrer até o final do ano várias Casas de Cultura e Centros Culturais da Capital.
Dia 20 fará abertura do show de Alceu Valença em Araripina-PE, após um intervalo de 22 anos sem cantar no São João de sua cidade natal.
29 dia de São Pedro Cacá Lopes encerra o mês junino com show no Projeto Kombi Cultural em Itaquera –SP.
Esse ano (2024) o artista está completando 40 anos da gravação do seu primeiro disco, um compacto de produção independente com as músicas: BRILHAR e VOCÊ QUE SONHA, ambos de sua autoria.
Aí em baixo eu conto a história dos festejos juninos. Com muita música, claro:
A tal rede social levada avante por essa coisa chamada Internet acaba de ser enriquecida com a Radiocênica, criada e dirigida por Poliana Helena e Julian Cuccarese. Coisa de altíssimo nível. Digo isso não é porque estou nessa rádio encerrando o primeiro semestre do ano de 2024.
Pra falar a verdade, essa rádio que está sendo levada ao ar pelo Spotify é de fato ótima. Não, não, digo de novo: não é porque fui o escolhido a dizer certas coisas a respeito da nossa cultura popular e tal. O papo que rolou entre mim, Poliana e Julian girou basicamente em torno do bom mineiro, hoje saudade, Téo Azevedo (1943-2024).
No campo militar, cadete é o estudante levado a aprender os segredos da farda e os compromissos do profissional cidadão.
O pernambucano Manoel Evêncio da Costa Moreira entrou para a música, para a história da música, pelo pseudônimo de Cadete. Foi por acaso.
Fred Figner, criador e dono da Casa Edison, estava procurando um cantor e achou Manoel e o contratou.
Manoel virou cadete por querer seguir carreira militar. Pois, pois.
Manoel com o nome de Cadete foi o primeiro cantor a cantar em cilindro.
Cilindro era uma maneira primativíssima de gravar a voz humana.
Corria o ano de 1902 quando Cadete migrou para os discos de 78rpm, juntando-se nessa nova mídia a Manuel Pedro dos Santos (1870-1944).
Manuel Pedro dos Santos entrou para história como Bahiano.
Essa conversa toda pra dizer o seguinte: hoje 3 de maio de 2024 é uma data "redonda". Redonda porque é o dia que fecha 150 anos do nascimento de Manoel Evêncio da Costa Moreira.
A história desse Manoel, desse cadete, é incrível.
Você, meu amigo, minha amiga, já ouviu alguma música do Cadete ou do Cadete cantando a música de alguém? Se sim ou se não, vamos de Cadete em cilindro:
Anna Clara, Anninha, pergunta o que acho de Madonna? Bom, antes de mais nada Madonna não é má, é boa. É uma boa dona. Aos meus ouvidos, maravilhosa. Pena não ser brasileira.
Logo mais, às 19h, a dupla Cade Ribeiro e Arthur Favela vai estar se apresentando na sala Adoniram Barbosa. Essa sala se acha nas dependências do Centro Cultural São Paulo, ali na Rua Vergueiro, 1000.
Cadu é um dos músicos mais completos do nosso sambe-a-bá. Ele canta, toca e fala coisas bonitas. É paulistano.
O parceiro de Cadu, Arthur, é músico e letrista dos bons.
O trabalho dos dois, musicalmente falando, é primoroso. Isso pode ser constatado por quem gosta do que é bom. E não custa lembrar que Cadu é um dos criadores do Trio Gato com Fome.
Foi no dia 06 de setembro de 2005 que o presidente Luis Inácio Lula da Silva, no seu primeiro mandato, sancionou a lei 21.716 que instituiu o Dia Nacional do Forró. Esse dia é comemorado desde então no dia 13 de dezembro. O dia 13 de dezembro é o dia do nascimento de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Luiz Gonzaga nasceu numa fazenda do município pernambucano de Exu. Foi um dos nove filhos do casal Januário e Santana. Januário era afinador de sanfonas e a mãe uma dona de casa. Foi praticamente às escondidas que o menino Luiz, chamado de Lula, aprendeu os segredos da sanfona. Tinha uns oito anos de idade quando pela primeira vez sentou-se num tamborete para tocar uma sanfona maior que ele próprio. E ao som da sanfona que tocava pessoas da região onde morava dançaram surpresas pelo som agradável que saía do instrumento daquele menino. O filho de Januário Santana tinha lá uns dezessete quando levou uma pisa dos pais e fugiu de casa, alistando-se no exército em Crato, CE. Na ocasião conseguiu enrolar os militares mentindo a idade. A história de Gonzaga até virar Rei do Baião foi longa. Até hoje já foram compostas e gravadas, mais de 500 composições musicais enaltecendo o nome e o talento do filho de Januário.
Fausto Bergocce e eu publicamos este ano o livro Histórias de Esquina, que está dando o que falar. Nesse livro há um pedaço da história do Rei do Baião. Edição já praticamente esgotada. E em 2012, junto com Osvaldinho do Acordeon, compus uma música pra Gonzaga, esta:
Os negros no Brasil tem uma história própria, além do período terrível de escravidão que viveram no Brasil até recentemente. Claro, antes de 1888 a situação era muito pior. Mas ainda sim problemas graves ainda atingem a vida dos brasileiros e brasileiras negros.
A maior parte da população brasileira é constituída de negros e pardos.
O cantor pioneiro da nossa música popular, Manuel Pedro dos Santos, era negro. Sua primeira gravação em disco ocorreu em 1902. A música era um lundu intitulada Isto é Bom. O autor dessa música, também ator e autor de teatro, era negro e tinha por nome Xisto Bahia. Esses dois artistas nasceram em Santo Amaro da Purificação, mesmo berço de Caetano e tal.
Na mesma leva de intérpretes pioneiros da nossa música também se acha Cândido das Neves. Antes de cantor, Neves era palhaço de circo. Negrão, alto e dono de dentes alvíssimos. A história conta que esse Neves era cheio de onda, engraçado, admirado e desejado pela mulherada.
Cândido das Neves, carioca, é um dos personagens do jornalista João do Rio. Passeia no livro A Alma Encantadora das Ruas.
João do Rio, pioneiro no jornalismo, era baixo, fofinho e negro. Foi o mais novo integrante da Academia Brasileira de Letras, ABL.
Tudo que João do Rio escreveu e deixou em livro, principalmente, vale a pena ler.
Sou, confessadamente, um apaixonado por João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto. Em sua homenagem, perdi a vergonha e compus Embolada pra João do Rio. A gravação é da dupla Cajú e Castanha. Ouça:
ESTÃO NO CÉU
Eu não disse, mas digo agora: o craque da graça e da música Cândido das Neves nasceu no dia 24 de julho 1899, mesmo ano em que a maestrina Francisca Edwiges Neves, mais conhecida como Chiquinha Gonzaga, compunha a primeira marchinha de Carnaval, a famosa Ó Abre Alas. E morreu num dia como hoje em 1934.
E Zé Kéti, você sabe quem foi Zé Kéti?
Zé Kéti (acima, com Assis) foi um dos mais importantes compositores de música de Carnaval do nosso País. Nasceu em 1923, no Rio e morreu em 1999. Agora façam as contas: se Cândido das Neves nasceu em 1899, quantos anos passariam para que o bamba Zé, também morresse?
O que passa rápido, nós ou o tempo? Não sou filósofo, não sou nada, mas acho que o tempo não passa; nós é que passamos. Passei quase todo o meu tempo ouvindo dizer que o tempo não espera, que o tempo passa rápido e tal. E a máxima: o tempo é o Senhor de tudo. Pois bem, num pano rápido, posso dizer que parece que foi ontem que morreu Carmélia Alves. Hoje 3 completam-se 11 anos do encantamento definitivo da cantora que entrou para a história da nossa música popular como a Rainha do Baião. Eu gostava muito de Carmélia. Era carioca filha de nordestinos. Sua voz era muito bonita, muito afinada. Interpretava tudo que quisesse: samba, marchinha de carnaval, frevo, toada, forró e baião. E até bossa-nova. Nesse rítmo e gênero chegou a gravar, em 1964, um LP inteirinho. No repertório do disco incluiu até uma música de Geraldo Vandré: Quem quiser encontrar o amor. A Rainha do Baião morreu esquecida, viúva e sem ninguém, no Retiro dos Artistas, RJ. No último 14 de fevereiro ela teria completado 100 anos de idade.
É importante, mas não basta "tombar" um ritmo ou gênero musical com o intuito de enaltecê-lo ou preservá-lo, transformando-o em patrimônio imaterial. É preciso mais. O samba já foi tombado e já virou patrimônio, como patrimônio também já viraram o samba de roda, o jongo, o forró, o frevo... Além de fazer isso é preciso fazer com que o alvo pretendido seja levado de todas as maneiras principalmente ao conhecimento dos jovens, que aparentemente por falta de opção consomem e dançam tranqueiras estrangeiras. Bom, o começo de uma boa mudança no campo cultural pode ser a realização de festivais que visem descobrir e incentivar talentos. No caso da música, mais precisamente a música folclórica, necessário se faz que chegue às escolas públicas e privadas de primeiro e segundo graus. Da mesma maneira também se faz necessário abrir concursos para descobrir e incentivar talentos no campo literário. A propósito, hoje é o Dia Nacional do Livro. O que está sendo feito para de fato preservar os nossos valores literários? O frevo como eu já disse foi tombado. E daí? Será que o Brasil sabe quem foi Capiba? Será que o Brasil sabe quem foram os criadores do samba? E o jongo, hein? O forró sabe-se o que é. Sabe-se, aspas. Andei falando de Capiba um monte de vezes. Esse cara foi incrível. Fez músicas maravilhosas, do samba ao maracatu. Aliás, ontem 28 foi o dia do seu nascimento. E nem uma linhazinha sequer saiu por aí para lembrá-lo. Pois é!