"Outro dia eu fui atropelada por uma viatura policial. Umas pessoas que passavam na ocasião pelo local me levaram à Santa Casa de Misericórdia. Agora, em consequência do acidente, estou usando um pedaço de platina nos joelhos" - Maria Reis Bento da Silva.
É ela que aliando à luz Do olhar protervo o indumento Vilissimo do servo ao brilho Da augustal "toga pretexta" Sente alta noite em Contorções sombrias Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! ("A Meretriz", Augusto dos Anjos)
A Secretaria da Segurança Pública e a Delegacia Geral de Polícia de São Paulo não sabem informar o
Hiroito
número de prostitutas em atividade na cidade, mas calcula-se que, pelo menos, 250 mil mulheres vivam da comercialização do próprio corpo, muitas delas, inclusive, de menor idade. O Juizado também não tem números precisos. Há muitos anos, elas viviam numa espécie de confinamento, no bairro do Bom Retiro. Mas, lembra um dos antigos “reis” da Boca do Lixo, Hiroito Joanides (autor de "Boca do Lixo”), hoje, na medida do possível, um cidadão de respeito, "empurradas pela repressão policial, as prostitutas foram subindo as avenidas principais, no sentido cidade- bairro. Desde a praça Júlio Mesquita estendeu-se a prostituição pela av. São João acima, até alcançar e subir pela Av. Angélica. No fim desta, ramificou-se parte dela dobrando à direita, seguindo o curso da Av. Dr. Arnaldo, enquanto a outra parte, que dobrara à esquerda, seguira pela av. Paulista. Uma terceira ramificação ainda metia-se pela Av. Rebouças, passando desta para a av. Brasil, República do Líbano e parque do Ibirapuera. Uma outra corrente que desde a praça Júlio Mesquita descera a av. São João rumo ao centro da cidade, se estenderia à praça do Correio, não sem antes bifurcar- se na av. Ipiranga, por onde seguiria até a rua da Consolação e, por esta, até a av. Paulista. Era esse o cenário da prostituição em São Paulo, já no ano de 1970".
Indignação, Coragem, Esperança. Esse é o triplé mágico e necessário de identificação do cidadão nacional. Faz parte do troféu Audálio Dantas, de reconhecimento dos profissionais do jornalismo. Pela 4ª vez o troféu Audálio Dantas é entregue a jornalistas que têm marcado a vida brasileira. Os agraciados deste ano são Rene Silva, Juliana Dal Piva, Bruno Paes Manso, Leonardo Sakamoto, Gregório Duvivier e Valmir Salaro. Desses nomes aqui citados, lembro que trabalhei na folha com Valmir Salaro. Grande Valmir! Eu e Valmir Salaro fazíamos parte de uma equipe de profissionais que cobriam, principalmente, o setor policial da já referida Folha. Muitas histórias. O alagoano Audálio Dantas foi um querido amigo. Foi não, é. Os grandes não morrem, desaparecem derrepentemente. Jornalismo é fundamental para a manutenção da democracia de qualquer país. O troféu Audálio Dantas nasceu por iniciativa do querido Serjão, da OBORÉ, que baseou-se em ideia como sempre original da também querida Laerte. Com Laerte tive também o privilégio de trabalhar, na Folha. Viva a Liberdade! Todos nós estamos convidados a comparecer logo mais, às 19h, na Câmara Municipal de São Paulo onde o troféu será entregue aos colegas acima citados. Aí está o convite:
O fundador do jornal O Homem de Cor, alfabetizado pela irmã Ana Angélica, foi
pioneiro em várias frentes. Literárias, inclusive. É dele o primeiro conto
publicado em letras de forma, no Brasil e a publicação de mais de 200 livros de
autores como Machado, Casimiro de Abreu (1839-1860), Manuel de Araújo
Porto-Alegre (1806-1879), Martins Pena (1815-1848), autor da peça O Juiz de Paz
na Roça; Gonçalves Dias (1823-1864) e Gonçalves de Magalhães (1811-1882).
Magalhães foi o introdutor do romantismo no Brasil, poeticamente falando.
É dele o livro Suspiros Poéticos e Saudades, lançado por Brito em 1836. Um
ano antes, o autor se achava em Paris. Foi lá que ele fez a introdução do livro
citado. Até aí nada demais, a não ser o pioneirismo do seu editor.
Problema viria quando ele, Magalhães, resolveu lançar o poema indianista
intitulado Confederação dos Tamoios. O autor era protegido por Pedro
II. Por causa desse poema, José de Alencar jogou todas as lanças contra o
autor, ensinando-o publicamente a fazer um épico. E o sol escureceu em
pleno dia com os debates nos jornais, incluindo o imperador. Do poeta
Gonçalves Dias, que era do Maranhão e autor da famosa Canção do Exílio, Paula
Brito publicou a primeira edição do livro Últimos Cantos. Fora isso, Paula
Brito também compôs músicas. Uma delas em parceria com o maestro Francisco
Manuel da Silva:
Lundu da Marrequinha. Manuel da Silva é o autor da melodia do Hino Nacional Brasileiro. É
também de Paula Brito, em parceria com o mineiro José Joaquim Goiano, a canção
Ponto Final. Como editor Paula Brito também publicou folhetos e partituras
musicais, dentre as quais A Noite de São João.
A Noite de São João, uma
opereta em 2 atos, tinha como autor José de Alencar (1829-1877). A melodia dessa
obra foi assinada pelo paulista de Itú Elias Lobo (1834-1901) e regida pelo
compositor e maestro campineiro Antônio Carlos Gomes (1836-1896). Isso ocorreu
na noite de 14 de dezembro de 1860. Local: Teatro São Pedro. Na plateia, a
família Real. Em 1870, na Itália, Gomes apresentar-se-ia para o mundo
regendo a Ópera O Guarany, baseada em romance homônimo de Alencar. A área
dessa Ópera chegou a ser gravada pelo tenor Caruso (1873-1921). “Carlos
Gomes foi o mais importante compositor operístico das Américas”, diz o maestro
paulistano Júlio Medaglia. Que acrescenta: “Carlos Gomes era negro. A cultura
brasileira é negra e devemos aos negros a cultura brasileira”. Medaglia
lembra que além de Gomes, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, foi de
grandeza espontânea e gigantesca na formação cultural do nosso País:
“Aleijadinho era negro, filho de português com escrava”. Nessa mesma linha,
o fotógrafo profissional Jorge Araújo, que desconhecia o termo “Imprensa Negra”,
diz: “A informação no estado direito não tem raça. O Brasil no século passado,
pós-abolição, era um canal subversivo de informação para a raça negra que
chegaram nos porões dos navios e continuam nos porões de uma sociedade racista
camuflada, ainda no século 21. A mesma informação, garimpada por jornalistas
brancos ou negros, tem que conter a ética da informação”. Concluindo, Araújo diz
não entender a divisão entre brancos e pretos na nossa sociedade. Mais de
130 anos depois de a princesa Isabel assinar a Lei Áurea, que oficialmente
livrou as pessoas do cativeiro, a discriminação e o preconceito continuam em
vigor no Brasil de 2021. Notícia do Sindicato Nacional dos Docentes das
instituições de Ensino Superior, o ANDES, dá conta que:
De janeiro a setembro deste ano, 1.015 pessoas foram resgatadas em situação
de trabalho análogo ao de escravo. Os dados estão disponíveis no site Radar
SIT, da Subsecretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), do Ministério do
Trabalho e Previdência (...) Os números desse ano superam o total de 2020,
com 936 pessoas resgatadas, e se aproxima do registrado em 2019, 1.131
casos.
Foto cedida pelo repórter fotógrafo Jorge Araújo
O Supremo Tribunal Federal, STF, decidiu em sessão do dia 28 de outubro
transformar em lei o crime
Foto cedida pelo repórter fotógrafo Jorge Araújo
de injúria racial: O Supremo Tribunal Federal
(STF) decidiu nesta quinta-feira (28), por 8 votos a 1, que o crime de injúria
racial pode ser equiparado ao de racismo e ser considerado imprescritível, ou
seja, passível de punição a qualquer tempo. De acordo com o Código Penal,
injúria racial é a ofensa à dignidade ou ao decoro em que se utiliza palavra
depreciativa referente a raça e cor com a intenção de ofender a honra da
vítima. O caso é sério, sempre foi. O Juiz Onaldo Queiroga, titular
da 1ª Vara da Comarca de João Pessoa, PB, lembra da dívida histórica que temos
com índios e negros: “A dívida que o Brasil tem com os índios e negros tem que
ser paga. Demore o tempo que durar, mas tem que ser paga. Devemos muito a eles
e a sociedade, junto com a Justiça, tem de tomar as rédeas desse processo
histórico”. O radialista baiano Carlos Silvio, diz: “O racismo é algo a
ser combatido. Ao racista, punição e o desprezo. Não são poucos os negros com
papel de destaque na história do Brasil. Muitos foram esquecidos ou,
propositalmente, não são mais citados pelos movimentos e grande mídia”. O
historiador Darlan Zurc, contido nas suas apreciações, crer ser simplesmente
legítima a iniciativa de os negros tomarem o seu rumo. “A escravidão humana é
uma chaga na História, desde a Antiguidade. E o problema piorou quando ela, na
Idade Moderna, se voltou contra os negros. Ou seja, a cor se transformou em
moeda de troca”, conclui Zurc. No campo da música, folheto de cordel e
repentismo destacaram-se no Império e pós-Império grandes artistas negros:
Domingos Caldas Barbosa (RJ) e José Maurício Nunes Garcia (RJ), o primeiro popular e o segundo
erudito.
Nas fotos com Assis Angelo, Carlos Silvio (esq.) e Darlan Zurc (dir.)
Também se destacaram no campo da cultura popular, especialmente
no campo do repentismo, Inácio da Catingueira (PB) e Fabião das Queimadas
(RN). Caldas Barbosa foi o criador do gênero musical modinha. José
Maurício Nunes Garcia destacou-se na Corte por tocar viola e escrever peças
religiosas. Inácio da Catingueira era um escravizado, como o Fabião das
Queimadas. Ambos conseguiram comprar a própria alforria. Inácio tocava
pandeiro e Fabião, rabeca. Fabião morreu aos 68 anos de idade, em 1928. O
Repentismo teve uma rainha: Chica Barrosa, de batismo Francisca Maria da
Conceição (1867-1916), filha de escravos. Foi esfaqueada por um pretendente de
nome José Pedro da Silva. O preconceito racial é uma
praga antiga. E continua. O preconceito também aparece nos folhetos de cordel,
entre os quais
Peleja do Cego Aderaldo e Zé Pretinho do Tucum
e na
Peleja Manuel do Riachão com o Diabo. E, claro, não custa lembrar a importância da maestrina
Francisca Edviges Neves Gonzaga
(1847-1935), autora e criadora do gênero marchinha (Ó Abre Alas),
Joaquim Antônio da Silva Callado Júnior
(1848-1880) e
Patápio Silva
(1880-1907). Callado e Patápio Silva foram de fundamental importância na
construção do chorinho como gênero musical. E Pixinguinha, hein? E o
samba, hein? O samba começou a ganhar forma na música brasileira na
casa da Tia Ciata. Curiosidade 1: O nome Zumbi dos Palmares, líder guerreiro, só foi
descoberto em 1970 e em 1983 a data da sua morte (20 de novembro) escolhida
como o Dia da Consciência Negra. Curiosidade 2: Castro Alves escreveu o
seu mais famoso poema (O Navio Negreiro) em São Paulo, no ano de 1868, no
tempo em que estudava Direito no Largo de São de Francisco. Uma parte desse
poema foi especialmente musicado pelo compositor e maestro Jorge Ribbas,
professor de música da Universidade Estadual da Paraíba. Uma pérola. Ouçam:
É de Artur de Azevedo o texto para teatro O Escravocrata, antes intitulado A
Família Salazar. O protagonista é um comerciante de escravos. Muitos
autores do século 19 tomaram a escravatura como tema. E até hoje, como
Oswaldo de Camargo. Camargo tem um livro de importância fundamental para entender a questão
negritude: Negro Disfarce (2020). Nesse livro, o autor põe em questão os
conflitos entre pretos. Benedito e Deodato são os personagens centrais. Outros
livros importantes de Oswaldo são A Razão da Chama (1986) e O Negro Escrito
(1987). Entre 1975 e 1979, Oswaldo de Camargo foi um dos responsáveis do
caderno Afro-Latino-América, ao lado de Hamilton Cardoso e Neusa Pereira.
Esse caderno, de importantíssima existência, integrou o periódico Versus,
editado pelo gaúcho Marcos Faerman (1943-1999). Ainda há muitas publicações
direcionadas ao público afro, no Brasil. Entre essas se acha Raça Brasil,
lançado em setembro de 1996. O jornalista Oswaldo Faustino foi um dos
editores dessa revista, que chegou a vender nas bancas cerca de 300 mil
exemplares/mês. Faustino, junto com a também jornalista Celma Nunes e o
ator, cantor e maestro Estevão Maya Maya (1943-2021), editou na virada dos anos
70 o micro jornal Chama Negra. “Foi uma ótima experiência essa que tivemos ali
entre 1979 e 1980. Nossa luta contra o racismo e em prol da inclusão social
continua”, diz. Faustino, além de jornalista, é autor de uma dúzia de
livros sobre a negritude. Entre esses A Luz de Luiz e Ah! Se Eu Pudesse Voar.
A Luz de Luiz conta a história romanceada do baiano Luiz Gonzaga Pinto da
Gama, que assinava textos para jornais sob o pseudônimo de Afro, Getulino e
Barrabás. O livro Ah! Se Eu Pudesse Voar, resume o autor: “É sobre um jovem
carnavalesco campeão, com uma história de vida periférica e repleta de
tragédias, decide criar um enredo para uma escola de samba sobre o sonho humano
de voar. Para realizar suas pesquisas, viaja à África, Berço da Humanidade, em
busca das origens do ser humano, suas histórias, seus sonhos e de si
próprio.” E outros sonhos há na história deste livro e noutros livros de
Oswaldo Faustino.
Em 2010, o jornalista e fotógrafo Nabor Jr. tomou para si
o desafio de relançar O Menelick. Em 2015, O Menelick 2º Ato teve lembrado
o seu lançamento em edição especial. Nessa edição, Nabor escreveu:
Apesar das facilidades do mundo virtual registradas nas primeiras décadas do
século 21 com o início da popularização da internet, a imprensa negra
impressa, ou escrita, por sua vez, segue sobrevivendo com dificuldades
financeiras e estruturais. Nada muito diferente das fases iniciais que
marcaram a sua trajetória ainda no final do século 19. Em São Paulo,
tirando algumas revistas e jornais que dedicam com certa regularidade edições
ou seções especiais sobre o universo negro em suas páginas, como as revistas
Fórum, Caros Amigos e Rebosteio, por exemplo, as revistas O Menelick 2° Ato,
Raça Brasil, Crioula, Tribuna Afro Brasileira e a recém lançada revista
Legítima Defesa, idealizada pelos atores Sidney Santiago e Lucelia Sergio da
cia. Os Crespos, são as poucas iniciativas da Imprensa Negra Paulista que
buscam manter a chama desta imprensa acesa no Estado.
Francisco de Paula Brito, pelos traços de Fausto Bergocce
Em 1984, o jornalista alagoano Audálio Dantas (1929-2018) levou avante o
projeto tornado livro A Imprensa Negra Paulista, em parceria com a Secretaria
do Estado da Cultura. Audálio, descobridor de Maria Carolina de Jesus
(1914-1977) para a literatura nacional, era o superintendente da Imprensa
Oficial do Estado de São Paulo, IMESP. Na apresentação do livro, cujo projeto
original visava a republicação de todos os periódicos relacionados ao público
afro, escreveu à guisa de apresentação que a chamada Imprensa negra foi
“persistente, heróica”. Francisco de Paula Brito dedicou-se completamente
a essa questão, a questão negra. Morreu como nasceu, pobre e cheio de dívidas
que a mulher, Rufina Rodrigues Costas, pagou o quanto pode a quem devia.
Sobre Paula Brito, escreveu Machado de Assis no jornal Diário do Rio de
Janeiro, edição de 24 de dezembro de 1861, após a sua morte:
Paula Brito foi um exemplo raro e bom. Tinha fé nas suas crenças políticas,
acreditava sinceramente nos resultados da aplicação delas; tolerante, não
fazia injustiça aos seus adversários; sincero, nunca transigiu com eles. Era
também amigo, era, sobretudo, amigo. Amava a mocidade, porque sabia que
ela é a esperança da pátria, e, porque a amava estendia-lhe quanto podia a sua
proteção. Em vez de morrer, deixando uma fortuna, que o podia, morreu
pobre como vivera graças ao largo emprego que dava às suas rendas e ao
sentimento generoso que o levava na divisão do que auferia do seu trabalho.
Nestes tempos de egoísmo e cálculo, deve-se chorar a perda de homens
que, como Paula Brito, sobressaem na massa comum dos homens.
Nesse ano, 1861, nascia no atual estado de Santa Catarina, o poeta simbolista
Cruz e Sousa. Sousa lutou a vida toda pela sua liberdade e pela liberdade
dos negros brasileiros. E escreveu:
De dentro da senzala escura e lamacenta aonde o infeliz de lágrimas
em fel, de ódio se alimenta tornando meretriz
A alma que ele
tinha, ovante, imaculada alegre e sem rancor; porém que foi aos
poucos sendo transformada aos vivos do estertor...
De dentro
da senzala aonde o crime é rei, e a dor — crânios abala em ímpeto
ferino;
Não pode sair, não, um homem de trabalho, um senso,
uma razão... e sim, um assassino! (Senzala de Cruz e Sousa)
Em 1885, em Santa Catarina, Cruz e
Sousa lançou o jornal O Moleque.
Esse jornal tratava de questões
absolutamente necessárias à liberdade.
Em 1843, Paula Brito convenceu Teixeira e Sousa a escrever um romance que ele, Brito, publicaria sob o título O Filho do Pescador, cujo enredo é recheado de traições e crimes. Foi o primeiro romance a ser publicado por um autor brasileiro em terras brasileiras. Curiosidade: em 1859 a maranhense Maria Firmina dos Reis ficaria conhecida por ser a primeira mulher a publicar um romance, Úrsula. Maria dos Reis era negra, morreu cega e pobre na casa de uma amiga. A primeira dramaturga brasileira foi Maria Angélica de Sousa Rego, que assinava simplesmente como Maria Ribeiro. Escreveu 2 dezenas de peças. A primeira publicada em livro em 1866, Cancro Sociais. Morreu em 1880, aos 50 anos de idade. O primeiro livro, em versos, publicado na terra brasileira foi Marília de Dirceu (1812), do português de Porto Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810). Esse Gonzaga fez parte da conjuração mineira, que terminou na morte por enforcamento/esquartejamento de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746-1792). Como no Rio de Janeiro, em São Paulo o clima político e libertário também era de novidades. No campo jornalístico, principalmente. Em 1827, surgiu naquela província o primeiro jornal impresso: O Farol Paulistano, editado por José da Costa Carvalho (marquês de Monte Alegre; 1849-1852). Durou até 1831, ano da abdicação de Pedro I ao trono. Em 1829, o italiano naturalizado Libero Badaró fez circular o jornal a que deu o título de O Observador Constitucional. O jornal, como o editor, era de linha liberal e contra a monarquia. Polêmico. Na noite de 20 de novembro de 1830, quando caminhava de volta pra casa, Badaró teve os passos interrompidos por 4 desconhecidos que o alvejaram com tiros de bacamarte. Antes de morrer teria dito: “Morre um liberal, mas não morre a liberdade”. Badaró era um grande crítico do imperador Pedro II.
Os jornais se multiplicavam País afora. Em São Paulo no ano de 1864, o caricaturista de origem italiana Angelo Agostini (1843-1910) e o baiano Luiz Gama fundaram o primeiro periódico de linha editorial humorística: Diabo Coxo, que durou um ano e pouco e deu vez ao Cabrião, também humorístico e também com textos e caricaturas de Gama e Agostini. Esse durou até o fim de 1866. No decorrer dos anos de 1860, o jovem escritor Aluísio de Azevedo publicava seus primeiros textos nos jornais A Flecha, O Pensador e A Pacotilha, no Maranhão sua terra. Eram textos contra a Igreja e contra a escravatura. A história registra que o padre Vieira atuou durante anos no Maranhão e do Maranhão, os poderosos de plantão o expulsaram para Portugal, onde permaneceu durante alguns anos e retornou para concluir sua missão de evangelizar indígenas e mexer com a cabeça dos negros…
O ano de 1870 chega com Aluísio tentando sucesso no Rio de Janeiro. No Rio, publica seu primeiro livro, O Mulato, que deixa de cabelos de pé a sociedade conservadora. Não à toa. Nessa obra, o autor cria um personagem diabólico, o padreco a quem dá o nome de Diogo. Sacana, sem escrúpulos. A violência come solta nas páginas desse texto. Diabólico também era o personagem Pedro na polêmica peça de teatro O Demônio Familiar, de José de Alencar. Essa peça estreou no dia 5 de novembro de 1857, no ginásio Dramático, RJ. Três anos depois, Alencar continuaria a provocar polêmica com a peça Mãe. Belíssima. A personagem central é Joana, uma negra. É quando Joaquim Nabuco acusa o autor de escravocrata. O pau come, até porque José de Alencar nas suas falas como deputado e representante da Elite, achava ser necessário o trabalho escravo para o crescimento do Brasil. Defendia que a libertação dos escravos fosse feita paulatinamente, lenta e gradual. A essa altura, o imperador já o havia chamado de “teimoso” e “filho de padre”, “de valor, porém muito mal-educado”. A mãe negra é uma personagem fortíssima na nossa literatura e música. O baiano Dorival Caymmi compôs e gravou em 1957 uma canção sobre essa temática. Assim:
Na hora em que o sol se esconde
E o sono chega O sinhozinho vai procurar Hum, hum, hum A velha de colo quente Que canta quadras e conta histórias Para ninar Hum, hum, hum
Sinhá Zefa que conta história Sinhá Zefa sabe agradar Sinhá Zefa que quando nina Acaba por cochilar Sinhá Zefa vai murmurando Histórias para ninar
Peixe é esse meu filho, peixe é esse meu filho Não meu pai Peixe é esse mutum, manganem É toca do mato guenem, guenem Suê filho ê Toca aê marimbaê(História pro Sinhozinho)
E os humanos de África continuam a chegar ao Brasil, de maneira violenta. Milhões de africanos foram atirados vivos ao mar por doentes estarem. Intelectuais pretos e pardos, e brancos também como José Maria da Silva Paranhos (1819-1880), o Visconde do Rio Branco, depois Barão, continuavam de mangas arregaçadas e sempre prontos pra luta. A violência também continuava a correr solta, de braços dados com a discriminação e o preconceito. Jornais continuavam a ser empastelados por publicar o que o Imperador não aprovava. Muitos, muitos. Luís Augusto May (1782-1850), fundador do jornal A Malagueta, teve as mãos quebradas pelos oponentes de suas ideias liberais. Seu jornal, que acabaria destruído, teve o primeiro número lançado em 1821. Durou 11 anos. May, de origem militar portuguesa, tinha o hábito de negociar textos com o imperador. Interesses pessoais. Aqui e ali, dava-se bem. Diferenças à parte, May foi uma espécie de Hipólito José da Costa. Outros jornalistas foram violentamente agredidos e seus jornais destruídos até às vésperas da proclamação da República. E depois, também. Era assim que a coisa funcionava. E morriam aqueles que insistiam em lutar pela liberdade. Eram muitos os partidos políticos que havia naquela época. Havia Moderados e Exaltados, por exemplo. Os Moderados queriam a volta de Pedro I. Os Exaltados queriam a liberdade, pura e simplesmente. Os Exaltados eram os mais afoitos, desse grupo participavam Francisco de Paula Brito e Machado de Assis. Tinha também o partido Conservador. Desse partido participava José de Alencar. Alencar, formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, SP, em 1850, ganhou carreira no Rio de Janeiro. Em 1853, por aí, José de Alencar entrou para a história no mundo Jurídico ao criar o Habeas Corpus, HC Preventivo. Logo depois iniciou carreira de jornalista no Correio Mercantil de onde logo saiu por ter parte de um texto seu censurado. Em 1855, Alencar virava chefe de redação e um dos sócios do Diário do Rio de Janeiro. Antes de fundar O Homem de Cor, Paula Brito fundou A Mulher do Simplício ou A Fluminense Exaltada. Dirigida ao público feminino, essa publicação durou 14 anos (de 1832 a 1846). Falava de moda e de comportamento, com muita poesia e arte. Pioneiro no campo da impressão, Paula Brito também foi o primeiro editor a dar emprego ao escritor fluminense Machado de Assis. Emprego e oportunidade para publicar o seu primeiro texto de jornal. Um poema, intitulado Ela. Este:
Seus olhos que brilham tanto, Que prendem tão doce encanto,
Que prendem um casto amor Onde com rara beleza, Se esmerou a natureza Com meiguice e com primor.
Suas faces purpurinas De rubras cores divinas De mago brilho e condão; Meigas faces que harmonia Inspira em dose poesia Ao meu terno coração!
Sua boca meiga e breve, Onde um sorriso de leve Com doçura se desliza, Ornando purpúrea cor, Celestes lábios de amor Que com neve se harmoniza.
Com sua boca mimosa Solta voz harmoniosa Que inspira ardente paixão, Dos lábios de Querubim Eu quisera ouvir um - sim - Para alívio do coração!
Vem, ó anjo de candura, Fazer a dita, a ventura De minh'alma, sem vigor; Donzela, vem dar-lhe alento, Faz-lhe gozar teu portento, "Dá-lhe um suspiro de amor!" (12 de janeiro de 1855, no jornal Marmota Fluminense, edição 539)
À época o autor tinha 15 anos, 1 mês, 3 semanas e 5 dias de idade.
Vários jornais foram empastelados no Rio, entre essas além da República, Liberdade e Gazeta da Tarde. Esses dois pertenciam ao conde Afonso Celso (1860-1938), que escreveria pouco depois o livro Por que me Ufano de Meu País? (1900). O texto desse livro é uma ode às belezas do Brasil. Mais: retrata a pureza nacionalista do autor. Chega aos píncaros do nacionalismo com a cor da ingenuidade. Depois do fim da censura prévia, o governo de Deodoro criou formas para combater o que se chamou de excesso jornalístico. Não havia a censura prévia explícita, mas havia renhida perseguição a jornais e jornalistas que não seguiam as normas. Essas normas, em resumo, tinham a ver com os “contra” e os “a favor”. Não era brincadeira o que acontecia no fim do Império. Rigorosamente falando haviam os Republicanos e os Monarquistas. A República estava começando e quem estava com a República, estava ganhando. Uma curiosidade: Quintino Bocaiúva foi o primeiro e o único jornalista a virar General de Brigada (honorário). Outra: Em 1893, o sergipano Quintino de Lacerda, botou pra quebrar e virou o primeiro e único Major (honorário) do Exército Brasileiro. Esse Quintino nasceu em 1839, mesmo ano do nascimento do escritor Machado de Assis e morreu em 1898. Mais: depois de comprar a própria alforria, foi eleito o primeiro vereador negro do Brasil pela cidade de Santos, SP. Não assumiu. Dentre todos os jornalistas da época, talvez o mais combativo tenha sido o baiano Cipriano Barata. Barata formou-se em medicina em Portugal. O jornalismo, porém, foi a profissão que assumiu para justificar a sua passagem por cá. Barata foi preso muitas vezes e jamais rendeu-se às ameaças dos poderosos do seu tempo. Foi fundador do jornal Sentinella da Liberdade, que ganhou leitores, admiradores e seguidores em várias partes do País. Escrevia até na cadeia e da cadeia em Pernambuco, Bahia e outras províncias, conseguia publicar o seu Sentinella. Em 1823, escreveu:
Toda e qualquer sociedade, onde houver imprensa livre, está em liberdade; que esse povo vive feliz e deve ter alimento, alegria, segurança e fortuna; se, pelo contrário, aquela sociedade ou o povo, que tiver imprensa cortada pela censura prévia, presa e sem liberdade, seja abaixo de que pretexto for, é escravo, que pouco a pouco há de ser desgraçado até se reduzir ao mais brutal cativeiro.
A partir do lançamento do jornal O Homem de Cor, 5 meses depois do jornal
político O Grito dos Opprimidos, muitos jornais em defesa do negro começaram a
pipocar País afora. Na primeira edição do jornal O Homem, lançado em
Recife no dia 13 de janeiro de 1876, podia-se ler:
Há tempo de calar e há tempo de falar. O tempo de calar passou, começou o
tempo de falar. A classe dos homens de cor, sem dúvida nenhuma, a mais
numerosa e a mais industriosa do Brasil, parece atualmente voltada ao
ostracismo pelos homens que nos governam, contra toda a justiça, contra a
própria lei fundamental do país. Embora os particulares tratem-nos com
as atenções merecidas, embora muitos dentre eles se achem ligados conosco
pelos laços da mais sincera amizade, todavia os fatos denunciam que o
partido que há tempos predomina na província parece manter o propósito
desleal de ir apartando dos empregos públicos aqueles nossos que para eles
haviam sido nomeados por consideração de seus talentos e virtudes, conforme
preceitua a Constituição do Império.
Mesmo depois da Lei Eusébio de Queiróz e com a violência de sempre, os africanos
continuavam sendo laçados e trazidos em navios negreiros sob as rédeas dos
portugueses, principalmente. Essa vergonha, esse drible contra a Lei, durou
mais 2 ou 3 anos. Não sabiam os traficantes que estavam trazendo também
cultura ao Brasil. Em 1889, um ano depois da Lei Áurea, foi lançado em São
Paulo o jornal A Pátria, cujo epíteto era: “Órgão dos Homens de Cor”. Logo
depois, em 1897, foi lançado o jornal O Progresso, também em São Paulo.
Detalhe: No dia 13 de maio de 1888, um menino de 7 anos era levado pelos
pais a assistir a solenidade de anúncio da Lei Áurea pela princesa Isabel
(1846-1921), no Paço Imperial, RJ. Esse menino era Lima Barreto, um preto
pobre que virou um grande escritor. Referência da nossa literatura. Um
dia, Barreto escreveria para o jornal Gazeta da Tarde, edição de 4 de maio de
1911:
Estamos em maio, o mês das flores, o mês sagrado pela poesia. Não é sem
emoção que o vejo entrar. Há em minha alma um renovamento; as ambições
desabrocham de novo e, de novo, me chegam revoadas de sonhos. Nasci sob o
seu signo, a treze, e creio que em sexta-feira; e, por isso, também à emoção
que o mês sagrado me traz, se misturam recordações da minha meninice. Agora
mesmo estou a lembrar-me que, em 1888, dias antes da data áurea, meu pai
chegou em casa e disse-me: a lei da abolição vai passar no dia de teus anos.
E de fato passou; e nós fomos esperar a assinatura no Largo do Paço. Na
minha lembrança desses acontecimentos, o edifício do antigo paço, hoje
repartição dos Telégrafos, fica muito alto, um sky-scraper; e lá de uma das
janelas eu vejo um homem que acena para o povo. Não me recordo bem se
ele falou e não sou capaz de afirmar se era mesmo o grande Patrocínio. Havia
uma imensa multidão ansiosa, com o olhar preso às janelas do velho casarão.
Afinal a lei foi assinada e, num segundo, todos aqueles milhares de pessoas
o souberam. A princesa veio à janela. Foi uma ovação: palmas, acenos com
lenço, vivas... Fazia sol e o dia estava claro. Jamais, na minha vida,
vi tanta alegria. Era geral, era total; e os dias que se seguiram, dias de
folganças e satisfação, deram-me uma visão da vida inteiramente festa e
harmonia. Houve missa campal no Campo de São Cristóvão. Eu fui também
com meu pai; mas pouco me recordo dela, a não ser lembrar-me que, ao
assisti-la, me vinha aos olhos a "Primeira Missa", de Vítor Meireles. Era
como se o Brasil tivesse sido descoberto outra vez... Houve o barulho de
bandas de música, de bombas e girândolas, indispensável aos nossos
regozijos; e houve também préstitos cívicos. Anjos despedaçando grilhões,
alegorias toscas passaram lentamente pelas ruas. Construíram-se estrados
para bailes populares; houve desfile de batalhões escolares e eu me lembro
que vi a princesa imperial, na porta da atual Prefeitura, cercada de filhos,
assistindo àquela fieira de numerosos soldados desfiar devagar. Devia ser de
tarde, ao anoitecer. Ela me parecia loura, muito loura, maternal, com
um olhar doce e apiedado. Nunca mais a vi e o imperador nunca vi, mas me
lembro dos seus carros, aqueles enormes carros dourados, puxados por quatro
cavalos, com cocheiros montados e um criado à traseira. Eu tinha então
sete anos e o cativeiro não me impressionava. Não lhe imaginava o horror;
não conhecia a sua injustiça. Eu me recordo, nunca conheci uma pessoa
escrava. Criado no Rio de Janeiro, na cidade, onde já os escravos rareavam,
faltava-me o conhecimento direto da vexatória instituição, para lhe sentir
bem os aspectos hediondos. Era bom saber se a alegria que trouxe à
cidade a lei da abolição foi geral pelo país. Havia de ser, porque já tinha
entrado na consciência de todos a injustiça originária da escravidão. Quando
fui para o colégio, um colégio público, à rua do Resende, a alegria entre a
criançada era grande. Nós não sabíamos o alcance da lei, mas a alegria
ambiente nos tinha tomado. A professora, Dona Teresa Pimentel do
Amaral, uma senhora muito inteligente, a quem muito deve o meu espírito,
creio que nos explicou a significação da coisa; mas com aquele feitio mental
de criança, só uma coisa me ficou: livre! livre! Julgava que podíamos
fazer tudo que quiséssemos; que dali em diante não havia mais limitação aos
propósitos da nossa fantasia. Parece que essa convicção era geral na
meninada, porquanto um colega meu, depois de um castigo, me disse: "Vou
dizer a papai que não quero voltar mais ao colégio. Não somos todos
livres?" Mas como ainda estamos longe de ser livres! Como ainda nos
enleamos nas teias dos preceitos, das regras e das leis! Dos jornais e
folhetos distribuídos por aquela ocasião, eu me lembro de um pequeno jornal,
publicado pelos tipógrafos da Casa Lombaerts. Estava bem impresso, tinha
umas vinhetas elzevirianas, pequenos artigos e sonetos. Desses, dois eram
dedicados a José do Patrocínio e o outro à princesa. Eu me lembro, foi a
minha primeira emoção poética a leitura dele. Intitulava-se "Princesa e Mãe"
e ainda tenho de memória um dos versos: "Houve um tempo, senhora, há
muito já passado..." São boas essas recordações; elas têm um perfume de
saudade e fazem com que sintamos a eternidade do tempo...
A princesa Isabel, ao centro, na missa de 17/5/1888
Em 1897, em Porto Alegre, era lançado O Exemplo. Esse jornal, que durou 52
números e teve 3 fases, chegou a acolher textos de brancos. Mas findou, em
1930, por falta de grana.
Os jornais abolicionistas ou não abolicionistas eram de pouca tiragem e de
curta duração, mas bastante atrevidos.
Uma vez, o poeta e contista Olavo Bilac (1865-1918), meio fulo da vida, disse
que eram muitos os jornais da sua época. Mas, acrescentou: “juntando todos,
não chegavam a 150.000/mês de exemplares”.
Em 1833 havia, em circulação, 35 jornais no País.
No dia 17 de outubro de 1915 era lançado na Capital paulista o jornal O
Menelick, editado por
Deocleciano Nascimento, com proposta de circulação mensal. A redação era na
casa dele, na rua da Graça, Bom Retiro. Durou, porém, 2 números, mas fez
história.
O título era uma homenagem ao rei da Etiópia, falecido em 1913. Para os
etiópios, esse rei era “O rei de todos os negros”.
Depois de A Pátria e O Progresso e antes de O Menelick foram editados em São
Paulo os jornais O Baluarte, O Propugnador, A Pérola, O Combate e O Patrocino.
Em 1924, ainda em São Paulo, José Correia Leite lançava à praça o jornal O
Clarim da Alvorada. Nesse jornal foi publicada a primeira coluna sobre música.
Seu colunista era Horácio da Cunha.
Era um jornal altivíssimo, como altivíssimo foi o jornal A Voz da Raça.
Era tudo por tudo contra o preconceito e tudo mais.
A Voz da Raça surgiu exatamente 100 anos depois do jornal O Homem de Cor.
Fortíssimo, claríssimo nas ideias, era esse jornal.
Muitos jornais, tabloides, surgiram depois.
Em setembro de 1931 surgiu, em São Paulo, a Frente Negra Brasileira (FNB).
Houve um racha nesse movimento e desse racha surgiu a Legião Negra.
A Legião Negra, que contou com mais ou menos 2 mil cidadãos, pegou em armas
contra Getúlio Vargas em 1932.
Importante também lembrar que a “Imprensa Negra”, definição do sociólogo
francês Roger Bastide (1898-1974), contou com jornalistas tão importantes
quanto Francisco de Paula Brito. Entre esses Luís Gama, André Rebouças e José
do Patrocínio, criadores da Confederação Abolicionista (1883).
José do Patrocínio amargou o degredo no Amazonas, no segundo governo da
República (Floriano).
Isso ocorreu pelas críticas que ele fazia ao governo que sucedeu Deodoro.
Comeu o pão que o Diabo amassou. Sofreu nos infernos.
Naquele tempo, monarquistas e republicanos se dividiam, no pensar e no agir. E
o pau continuava a comer, sem dó.
Não custa lembrar que Patrocínio começou a carreira no jornal Gazeta de
Notícia, seguiu na Gazeta da Tarde e findou criando Cidade do Rio, no qual
empregou o futuro criador da reportagem, no Brasil:
João do Rio.
Os jornais de linha moderada ou de centro-esquerda, como se diz hoje, não
mediam palavras para atacar os jornais de direita ou de direita-conservadora
como o Diário de Pernambuco, criado em 1825. Vivo até hoje.
Um dos mais intransigentes republicanos foi Quintino Bocaiúva.
Primeiras edições dos jornais O Clarim e A Voz da Raça
Em 1870, Bocaiúva reuniu contrários à Monarquia e lançou o Manifesto
Republicano no jornal A República, editado pelo paraibano Aristides Lobo
(1838-1896).
A República foi o primeiro dos grandes jornais surgidos no Rio de Janeiro. Sua
posição anti-monarquista irritou poderosos da época, que o destruíram através
de empastelamento.
No Rio de Janeiro, no começo da segunda parte do século 19, intelectuais pretos
e pardos arregaçaram
as mangas e foram à luta, em defesa dos seus direitos. O Rio era a sede do
Império. À época, o Rio contava com cerca de 160 mil habitantes. Mais ou
menos. O preconceito e a discriminação eram a marca principal daquele
tempo. Quando o carioca Francisco de Paula Brito nasceu, a Imprensa ou
Impressão Régia já existia há 1 ano, 2 semanas e 4 dias. A Imprensa Régia
nasceu no dia 13 de maio de 1808. Nessa data nasceu também a censura prévia, que
se estendeu até 1821, ano de fundação do jornal Diário do Rio de Janeiro.
Editado por Zeferino de Meireles e Antonio Maria, esse jornal foi o primeiro a
publicar anúncios publicitários. Sua linha política pendia para a independência,
entre brancos pobres e negros. Aqueles eram tempos lamentáveis, em que a
Elite dizia que “mulheres brancas eram pra casar, pretas para trabalhar e
mulatas para fornicar”. O primeiro jornal brasileiro chamou-se Correio
Braziliense, editado por Hipólito José da Costa. O 1º número desse jornal saiu
no dia 1º de junho em 1808, em Londres. Em terras brasileiras, o 1º jornal
a ser publicado chamou-se Gazeta do Rio de Janeiro, editado por frei Tibúrcio
José da Rocha. Seu 1º número saiu no dia 10 de setembro de 1808. O redator desse
jornal, Manuel Ferreira de Araújo Guimarães, lançaria pouco depois o jornal O
Patriota. Dentre os colaboradores desse jornal, se achavam Manuel Inácio da
Silva Alvarenga e José Bonifácio de Andrada e Silva, o “Moço”. Naqueles
começos de século, o Rio e o Brasil todo ferviam. Turbulência de norte a sul da
Colônia. Éramos Colônia. Dom João, acuado por Napoleão Bonaparte, cortou o
Atlântico até chegar a nossas terras com a trupe formada por milhares de
portugueses, numa esquadra protegida pela força marítima inglesa. Aqui,
seu refúgio. A escravidão comia solta por cá, desde o começo da 2º parte do
século 16. Indígenas e negros, sob
chicote de bandeirantes e fazendeiros, penavam. Nos finais da 1ª metade
do século 17, militares portugueses se juntaram ao líder indígena Filipe
Camarão e ao negro mestre de campo Henrique Dias. Essa união tinha por
finalidade expulsar os holandeses que invadiram o Brasil. Finalidade
alcançada. As normas do Exército brasileiro começavam aí, com heroísmo.
Triste heroísmo. Com sangue, muito sangue. Foram muitas as
revoltas, revoluções, guerras
envolvendo negros, pardos brasileiros. Dom João volta a Portugal no dia
26 de abril de 1821, atendendo a rogos do povo português. No Porto
estourara uma revolução braba. A essa altura, porém, Napoleão já havia
morrido na ilha inglesa de Santa Helena. Segundo Napoleão, no seus escritos de
memórias, Dom João foi o único monarca a lhe “passar a perna”, de acordo com o
que se lê no livro 1808 (Laurentino Gomes, Globo Livros, 2007). Após
proclamar a Independência do Brasil de Portugal, em 1822, Pedro I prepara
terreno para seguir os passos do pai. Nesse meio tempo, a vida
continuava tensa na nossa terra agora Império. Periódicos de várias
tendências criticam e elogiam o comportamento do imperador. Aqui e ali ele se
irrita publicando textos apócrifos em vários jornais, entre os quais O Espelho
e O Analista sob os pseudônimos Duende, Derrete-Chumbo-A-Cacete, Piolho
Viajante e O Espreita. Os humanos de África continuavam chegando aos
milhares e à força, não só à Corte. No dia 14 de setembro de 1833, Paula
Brito leva à praça o primeiro jornal que trata das condições em que viviam os
negros à época. Péssimas. Título: O Homem de Cor, de circulação quinzenal.
Durou 5 números, o último lançado dia 4 de novembro daquele ano, que trazia
como subtítulo O Mulato. Já na 1º edição desse jornal era estampada
referência à Constituição de 1824, outorgada por Pedro I. Dizia, no seu artigo
14: “Todo o cidadão pode ser admittido aos Cargos Publicos Civis, Politicos,
ou militares, sem outra differença, que não seja a dos seus talentos, e
virtudes.” Francisco de Paula Brito era filho de mãe liberta (Maria). O
pai (Jacintho) era carpinteiro. Fez tudo que um pai faria pelo bem do filho.
Ele fez. Muito cedo, Paula Brito identificou-se com a profissão de
tipógrafo. Nas tipografias que conseguiu fazer, entre as quais A Fluminense,
imprimiu vários jornais, quase uma centena. Um desses, O Restaurador, por
pouco não o levou à bancarrota. Política e ideologicamente, Paula Brito
mostrava-se a favor da liberdade. Lutava por ela. Nos fins do dia, numa
sala contígua a sua tipografia, Brito reunía-se com clientes e amigos para
discutir os rumos da vida que viviam. Entre esses amigos,
Machado de Assis, José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo (A Moreninha), em início de
carreira literária. E até Eusébio de Queiróz, que transformaria a vida do
Brasil ao conseguir ter aprovada no Congresso uma lei que impediria o tráfico
de escravos. Importantíssima. O barão do Rio Branco era presença
constante nessas reuniões. O Reino Unido teve participação fundamental na
aprovação da Lei Eusébio de Queiróz, como ficou conhecida a Lei nº 581 de 4 de
setembro de 1850. História. Antes disso, no dia 7 de novembro de
1831, o Parlamento brasileiro aprovou uma Lei que extinguia o tráfico de
africanos para o Brasil. Essa Lei ficou conhecida como “Para inglês ver”. Quer dizer, essa Lei (Feijó) nunca funcionou. Funcionou a Lei Eusébio
de Queiróz.
Lá na úmida senzala, Sentado na estreita sala, Junto o braseiro,
no chão, Entoa o escravo o seu canto, E ao cantar correm-lhe em
pranto Saudades do seu torrão...
De um lado, uma negra
escrava Os olhos no filho crava, Que tem no colo a embalar... E
à meia voz lá responde Ao canto, e o filhinho esconde, Talvez,
pr'a não o escutar!
Minha terra é lá bem longe, Das bandas de onde o sol vem; Esta
terra é mais bonita, Mas à outra eu quero bem!
O sol faz lá
tudo em fogo, Faz em brasa toda a areia; Ninguém sabe como é belo Ver
de tarde a papa-ceia!
Aquelas terras tão grandes, Tão
compridas como o mar, Com suas poucas palmeiras Dão vontade de
pensar...
Lá todos vivem felizes, Todos dançam no terreiro; A
gente lá não se vende Como aqui, só por dinheiro.
O escravo calou a fala, Porque na úmida sala O fogo
estava a apagar; E a escrava acabou seu canto, P'ra não acordar
com o pranto O seu filhinho a sonhar! ............................. O
escravo então foi deitar-se, Pois tinha de levantar-se Bem antes
do sol nascer, E se tardasse, coitado, Teria de ser surrado, Pois
bastava escravo ser.
E a cativa desgraçada Deita seu filho,
calada, E põe-se triste a beijá-lo, Talvez temendo que o dono Não
viesse, em meio do sono, De seus braços arrancá-lo! (A Canção do Africano, de Castro Alves; 1863, Recife, PE)
A partir de hoje 20 até o próximo sábado 27, publicaremos neste blog uma série
de 7 capítulos contando a história do que podemos chamar de Imprensa Negra no
Brasil. É uma história interessantíssima, resistente e heroica como disse uma
vez o colega jornalista Audálio Dantas. Muitas curiosidades o amigo leitor
encontrará no decorrer da leitura dessa série. É isso.
Aliás, detalhe: A Lei Áurea foi assinada na tarde de domingo 13 de maio, do
ano de 1888. Assinou o documento, além da princesa Isabel, uma figura pouco
lembrada na história: Rodrigo Augusto da Silva (1833-1889).
E vamos à leitura. Tomara que goste.
***
Imprensa negra, resistente e heroica À parte: Samba, cordel e repente −
uma história para estudo e reflexão
Por Assis Ângelo (Para Anna Clara da Hora Sena Durães, pela infinita
paciência de ouvir e digitar os textos que lhe dito)
Aqui eu dou de mão do leitor e o levo a um passeio na história. O ponto de
partida é o achamento de Pindorama pelos portugueses, como o Brasil era
chamado nos primórdios por seus habitantes. Após isso e logo depois da
fundação da primeira cidade brasileira, São Vicente, os africanos começam a
desembarcar na Bahia, Rio e São Paulo pra dar duro na Ilha de Vera Cruz, como
denominou nossas terras Pedro Álvares Cabral (1467-1520). O objetivo é pôr luz
na história. O primeiro jornal a tratar da questão negra foi O Homem de
Cor, de 1833. No correr do texto, o leitor vai topar com um personagem
de importância fundamental na incipiente Imprensa brasileira: Francisco de
Paula Brito (1809-1861). Brito foi o pioneiro da chamada “Imprensa Negra”. Paula
Brito foi o cara que abriu as portas para Machado de Assis. Foi Machado o
nosso primeiro grande romancista. Muita água correu por debaixo da ponte
desde o lançamento do jornal O Homem de Cor. Depois desse jornal, que
durou 5 números, muitos outros vieram abrindo caminho que levaria o negro à
liberdade. Não era brincadeira o que o negro vivia no século 19. Desde
então, pouca coisa mudou no campo da exploração humana. O jornalista
alagoano
Audálio Dantas
(1929-2018), uma vez resumiu a importância dessa Imprensa: “Persistente,
heróica”. A Importância da cultura africana no Brasil é sem tamanho.
Melhor: é de um tamanho que a vista humana nem alcança. O maestro paulistano
Júlio Medaglia resume essa história numa frase: “A cultura brasileira é negra
e devemos aos negros a cultura brasileira”. Na tarde de 13 de maio de
1888, a princesa Isabel assinou no Paço Imperial, RJ, a Lei que tirou o poder
dos escravocratas sobre os negros escravizados. Isabel Cristina
Leopoldina Augusta Micaela Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança e Bourbon nasceu
em 1846 e morreu em 1921, na França. Há 100 anos, portanto.
...Era um sonho dantesco... o tombadilho Que das luzernas avermelha o
brilho. Em sangue a se banhar. Tinir de ferros... estalar de
açoite... Legiões de homens negros como a noite, Horrendos a
dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas Magras
crianças, cujas bocas pretas Rega o sangue das mães: Outras moças,
mas nuas e espantadas, No turbilhão de espectros arrastadas, Em
ânsia e mágoa vãs!
E ri-se a orquestra irônica, estridente... E
da ronda fantástica a serpente Faz doudas espirais ... Se o velho
arqueja, se no chão resvala, Ouvem-se gritos... o chicote estala. E
voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia, A
multidão faminta cambaleia, E chora e dança ali! Um de raiva
delira, outro enlouquece, Outro, que martírios embrutece, Cantando,
geme e ri!
No entanto o capitão manda a manobra, E após
fitando o céu que se desdobra, Tão puro sobre o mar, Diz do fumo
entre os densos nevoeiros: "Vibrai rijo o chicote, marinheiros! Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente... E da ronda
fantástica a serpente Faz doudas espirais... Qual um sonho
dantesco as sombras voam!... Gritos, ais, maldições, preces ressoam! E
ri-se Satanás!... (Trecho do poema O Navio Negreiro,
de Castro Alves)
Navio Negreiro, pintura de Johann Moritz Rugendas
O Brasil tem cor: preta. E outras cores também tem: verde, amarela, azul e
branca, como ostenta a bandeira nacional que traz como tema “Ordem e Progresso”,
extraído de frase do positivista francês Auguste Comte (1798-1857). E ainda
deveria ter a cor do sangue dos índios e dos negros escravizados. O Brasil
é rico demais, sempre foi. O Brasil tem água em abundância e rios de ouro e
prata. E mais ainda o Brasil tem: terra fértil onde o que se planta dá
incluindo coco, cajú, cajá, siriguela e cana caiana, que virou cana de beber na
invenção de pretos em ferros nos engenhos coloniais. Como se não bastasse,
o som do samba faz o vento dançar e balançar o arvoredo. São mais de 8,5
milhões de quilômetros quadrados… No ranking, o Brasil ocupa o 5º lugar
entre os maiores e mais populosos países do mundo. O Brasil é um país de
dimensões continentais, sem vulcões, furacões, terremotos, tsunamis, mas com
muito cabra safado. Ao tempo de 1500, só indígenas habitavam a terra
brasilis, originalmente chamada de Pindorama. Em Tupi-Guarani, Pindorama
significa “Terra das Palmeiras”. Quando Cabral aportou na costa baiana, o
Brasil foi chamado de Ilha de Vera Cruz. Logo depois, em 1501, o rei Dom Manuel
reintitulou o Brasil de Terra de Santa Cruz. Antes disso, em 1498, aportou
por estas terras o primeiro navegador de além mar:
Duarte Pacheco Pereira. No dia 20 de novembro de 1530, o Brasil ganhou uma vila: São Vicente,
sei lá por que em homenagem ao santo espanhol Saragoça. Em 1532, São
Vicente passaria a ser conhecida como a primeira cidade do nosso País. Nessa
cidade o seu fundador, Martim Afonso de Sousa (1500-1564), construiu Câmara,
pelourinho, cadeia e uma capela, símbolos do reino de Portugal. A
história, a nossa história, é recheada de violência, tragédias e tristeza. Até
hoje. Nosso sangue é preto. Nossos indígenas foram os primeiros a
serem escravizados pelos invasores.
O pajé Awa Kuaray Wera e Assis Ângelo
“A verdade é clara, muito clara: sofremos até hoje, somos violentados até hoje e
o tempo todo, todos querem as nossas terras e dela extrair o ouro e outras
coisas”, conta e reconta o Pajé Guarani Awa Kuaray Wera. Kuaray Wera lembra
que em 2020 quase 200 índios foram assassinados pelos brancos no Brasil. “A
gente era muita gente, milhões. A gente hoje não chega nem a 1 milhão e o número
de línguas, menos de 300. Podemos acabar”, acrescenta o Pajé. Em 1550,
portugueses começaram a traficar humanos de África para torná-los escravos cá,
no Brasil. A partir de então, os horrores passaram a se multiplicar, na cor
preta. Por essa época, uma jovem princesa angolana foi laçada por captores
e trazida até nós, à força. Seu nome: Zacimba Gaba. Essa princesa, da nação
de Cabinda, foi desembarcada no porto de São Matheus (província de Espírito
Santo). E lá sofreu até fugir das mãos dos seus algozes. Foi uma
guerreira. Um ano antes de 1550, começaram a chegar em Pindorama os
jesuítas. Entre eles, José de Anchieta (1534-1597). Anchieta chegou em 1553
e um ano depois, fundou com Manuel da Nóbrega (1517-1570), a cidade de São
Paulo. Depois dos jesuítas, chegaram os carmelitas e os beneditinos. Os
jesuítas autoproclamavam-se “soldados de Deus”. Até hoje. Essa organização
religiosa foi criada na França, em 1534 e reconhecida pelo Papa em 1540. Seu
fundador foi o santo Ingnacio de Loyola. Negros e indígenas que
vislumbravam a liberdade, fugiam do trabalho escravo.
Zimbu, pintura de Antônio Parreiras
Quilombos começaram a surgir aqui e ali. Depois, multiplicaram-se. O mais famoso
deles, Palmares, chegou a acolher milhares e milhares de fugitivos, que eram
recebidos por Ganga Zumba (1630 -1678). Zumba, que morreu em luta, foi
substituído pelo sobrinho Zumbi, diz a história. Zumbi, de batismo
Francisco, criado por um padre, lutou ao lado da companheira Dandara até o fim.
Foi degolado e sua cabeça exposta em uma rua de Pernambuco, em 1695, por aí. Ano
em que foi descoberto ouro em Minas, Mato Grosso e Goiás, para onde foram
levados milhares de escravos para explorar a nova riqueza descoberta. Crianças,
inclusive. Zumbi tinha mais ou menos 40 anos quando o mataram.
Dandara preferiu suicidar-se a correr o risco de ser presa e torturada
pelos inimigos. A história não oferece dados suficientes para se traçar o
perfil dessa guerreira. Quem destruiu o Quilombo dos Palmares foram
bandeirantes liderados por Domingos Jorge Velho (1641-1705), um assassino. Não
custa lembrar o que a história conta: os jesuítas André João Antonil (1649-1716)
e Antônio Vieira (1608-1697). Antonil era completamente a favor de que se
escravizasse indígenas e africanos. “Os escravos são as mãos e os pés do senhor
do engenho”, escreveu no livro Cultura e Opulência do Brasil sob o pseudônimo “O
Anonymo Toscano”. Nesse mesmo livro, publicado e depois destruído a mando de Dom
João V, o mesmo Antonil escreveu: “O Brasil é o inferno dos negros, purgatório
dos brancos e o paraíso dos mulatos e mulatas”. E de lambuja, ainda disse: “Pão,
castigo e trabalho”. Vieira, por seu turno, mostrava-se levemente inclinado
à não escravidão. Mas também escreveu num de seus sermões, comparando a dor do
escravizado com a dor sentida por Cristo pregado à cruz:
Não se pudera nem melhor nem mais altamente descrever que coisa é ser
escravo em um engenho do Brasil. Não há trabalho nem gênero de vida no mundo
mais parecido à Cruz e Paixão de Cristo que o vosso em um destes engenhos.
[...] Bem-aventurados vós, se soubéreis conhecer a fortuna do vosso estado,
e, com a conformidade e imitação de tão alta e divina semelhança, aproveitar
e santificar o trabalho! Em um engenho sois imitadores de Cristo
crucificado: Imitatoribus Christi crucifixi – porque padeceis em um modo
muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz e em toda a sua
paixão. A sua cruz foi composta de dois madeiros, e a vossa em um engenho é
de três. Também ali não faltaram as canas, porque duas vezes entraram na
Paixão: uma vez servindo para o cetro de escárnio, e outra vez para a
esponja em que lhe deram o fel. A paixão de Cristo parte foi de noite sem
dormir, parte foi de dia sem descansar, e tais são as vossas noites e os
vossos dias.
O lenga-lenga desse padre que costumava levitar sobre muros, pode ter dado
origem à máxima popular segundo a qual: “A Fé salva”. Três ordens
religiosas marcaram a história do Brasil dos portugueses: jesuítas, carmelitas
e beneditinos. Os beneditinos tinham sob seu domínio pelo menos 4 mil
pessoas escravizadas. Desde o achamento de Pindorama, muita água correu
debaixo da ponte.
O atual presidente da República botou o Brasil de pernas pro ar, isto é: de
bunda pro mundo, que ri tirando sarro da gente. Pena. Enquanto isso,
pesquisas de opinião indicam que os poderes Legislativo e Judiciário estão em
baixa. O ocupante da cadeira mais disputada do País, aquele, continua com
o propósito irresponsável de destruir tudo. As instituições, inclusive. O
presidente mente, mente e mente. O exército de milicianos a serviço do
presidente tem se incumbido de assassinar a verdade, via internet. Todo dia,
sistematicamente. As chamadas fake news são uma praga óbvia. As
fake news corroem os pilares da Democracia. Fato. Mesmo com todas as
dificuldades possíveis, jornais e jornalistas continuam firmes no propósito de
bem informar o público leitor. São muitos os furos de reportagem que a
Imprensa tem feio nos últimos dois anos e meio. A Imprensa não
desiste. Os jornais Folha, Estadão, Globo e Valor Econômico têm trazido à
tona verdades escondidas as sete chaves nos gabinetes palacianos. Talvez
nem todos os jornalistas em início de carreira saibam direito o que é um furo
jornalístico. Compreensível. No jornalismo há notícia, notícia de
primeira mão, reportagem e reportagem especial. Notícia é um fato
noticiado em poucas linhas. Notícia de primeira mão é a notícia
exclusiva, digamos assim. Reportagem é o detalhamento de uma notícia. Reportagem
especial é uma reportagem escrita de modo detalhado. Extraído de um fato
histórico, por exemplo. Furo? Bom, um furo jornalístico é aquele que
o repórter dá com exclusividade, detalhadamente. Não à toa, bons
repórteres são geralmente bons furões. Fotógrafos, inclusive, como Gil
Passarelli (1917-1999), Milton Soares e Jorge Araújo. De textos, os
repórteres: José Hamilton Ribeiro, Caco Barcellos, Ricardo Kotscho, Marcos Sá
Correa, Valmir Salaro, Fabiana Moraes, Daniela Arbex, Patrícia Campos
Mello… Patrícia, da Folha, foi recentemente vítima daquele a quem chamo
de
Cramunhão. E aqui nem vou lembrar da história, pois demais lamentável. Baixaria. A
rádio CBN, a Globo News e a TV Globo também têm apresentado grandes furos,
muitos deles oriundos do Ministério da Saúde. Um cancro. Furo de
reportagem é furo de reportagem, existe desde quando a Imprensa ganhou forma e
passou a conquistar leitores e ouvintes/telespectadores. João do Rio, criador da reportagem como tal conhecemos, foi o primeiro a dar furos em
jornais do Rio, RJ. O Repórter Esso, que teve em Heron Domingues
(1924-1974) a sua marca, deu belos furos no que podemos chamar de jornalismo
radiofônico. A renúncia de Getúlio, por exemplo, no dia 29 de agosto de 1945:
O Repórter Esso, que tinha como slogan “Testemunha Ocular da História”,
estreou no Brasil há 80 anos: 28 de agosto de 1941, na Rádio Nacional. Esse
programa já existia nos EUA desde 1935. Para melhor ilustrar essa
história, peço licença à quem me acompanha neste espaço para dizer que também
assinei belos furos.
No final dos anos de 1970, escrevi longa e detalhada
reportagem sobre o Esquadrão da Morte. Entrevistei os assassinos Fleury,
Fininho, Ze Guarda e Correinha. Essa reportagem era pra ser publicada na
Folha, mas o editor Bóris Casoy não fez o que deveria fazer: publicá-la. Em
decorrência disso, essa reportagem terminou ganhando capa do semanário Pasquim
e mais 6 páginas internas, ilustrada por Nássara e outros bambas do cartum
brasileiro. Choveram ameaças de morte, mas cá estou a contar o que
fiz. No dia 13 de setembro de 1987, o Estadão deu em manchete de primeira
página entrevista que fiz com o porta-voz da presidência da República. À época
Frota Neto. Entre outras coisas, Neto contou-me que o deputado presidente da
Câmara Ulysses Guimarães (1916-1992) não deixava o presidente Sarney governar.
A consequência disso foi a queda do porta-voz.
Em 1983, dei “segundo
clichê” seguido de reportagem completa sobre um duplo linchamento ocorrido
numa região de Ribeirão Pires, SP. Repercutiu no Brasil e no Exterior. No
campo de variedades, não custa lembrar, a primeira entrevista que o cantor e
compositor Geraldo Vandré me deu depois de mais de 5 anos fora do Brasil. Essa
entrevista foi publicada no extinto Folhetim, da Folha de S.Paulo. E dei
muitos outros furos, não só na Folha e no Estadão, jornais em que ocupei cargo
de chefe de reportagem da editoria de política. Muitos furos de
reportagem chegaram às telas de cinema, como Todos os Homens do Presidente. Esse
filme, de 1976, foi baseado nas reportagens de Bob Woodward e Carl Bernstein,
do The Washington Post. O furo de Woodward e Bernstein levou à renúncia
do presidente dos EUA, Richard Nixon. O resto é história. Fica o
registro.
José Ramos Tinhorão partiu, mas deixou uma obra necessária para quem quiser conhecer a história da música e do Brasil.
Nascido em Santos, SP, José Ramos era formado em Direito e Jornalismo.
Começou a carreira de repórter como freelancer do Diário Carioca, em 1951.
Foi amado e odiado.
Quem amava Tinhorão, amava de verdade.
Quem odiava Tinhorão, odiava de verdade.
Certa vez lhe perguntaram o que achava da bossa nova. Uma bobagem, disse. E acrescentou: "O ritmo dessa bobagem é um pingo de chuva".
O "iê, iê, iê" era para Tinhorão, uma tradução mal feita do rock. "Uma coisa de otário, para otário", definiu.
Tinhorão foi o segundo jornalista que conheci quando troquei João Pessoa, PB, por Sampa. O primeiro foi o alagoano Audálio Dantas (1929-2018). À época, presidente do Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo.
A última vez que eu e Tinhorão nos encontramos foi na tarde do dia 25 de janeiro de 2019. Morávamos perto. Eu na alameda Eduardo Prado e ele na alameda Barão de Limeira, Campos Elíseos, SP. Ele costumava vir na minha casa (fotos acima) todas as quartas e sextas. Vinha bater papo. Vinha me distrair, especialmente depois que perdi a visão dos olhos.
Antes, dois dias depois de vir à minha casa, sofreu um AVC que o prostrou na cama até hoje 3, logo depois das 15h.