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terça-feira, 30 de janeiro de 2018

ALÔ BRASIL, TINHORÃO ESTÁ VIVO!





Garimpeiro de bom quilate, José Ramos Tinhorão é o que sempre mostrou ser: um brasileiro de valor.
Detonado pela esquerda e pela direita, Tinhorão chega aos 90 anos de idade incólume e lépido.
Advogado e jornalista, Tinhorão sempre soube separar o joio do trigo. Nunca defendeu causa alguma em nenhum tribunal, mas como jornalista marcou profundamente a vida brasileira, especialmente a cultural. Detalhe: Nunca deixou de dizer o que quis, seja no rádio, na tevê ou nos seus escritos em jornais e revistas.
Tinhorão iniciou a vida profissional de jornalista no extinto Diário Carioca, do Rio de Janeiro, no começo dos anos de 1950. No fim dessa década, ele criou o que ficou conhecido como "texto-legenda". Texto-legenda é o texto feito a partir de uma fotografia, que se baseia entre o texto jornalístico propriamente dito e o texto poético, fora de pauta.
Textos-legenda de Tinhorão chegaram a ter autoria atribuída ao poeta maranhense Ferreira Gullar.
Até hoje, Tinhorão é considerado um dos melhores textos do jornalismo brasileiro.
No Caderno B do Jornal do Brasil, Tinhorão assinou a mais importante coluna semanal sobre música popular brasileira, intitulada Primeiras Aulas de Samba, que assinava com seu colega Sérgio Cabral.
No campo da música popular, Tinhorão tornou-se a maior referência. A sua obra chega a casa dos 30 títulos, metade deles lançada ou relançada pela Editora 34.
José Ramos Tinhorão, santista nascido no dia 7 de fevereiro de 1928, meteu-se fundo pelas veredas da história, da cultura popular brasileira. Entrevistou quase todos os grandes criadores de música dos últimos 60 anos, entre os quais Donga, Pixinguinha, João da Bahiana, Ismael Silva, Almirante, Luiz Gonzaga e Nelson Cavaquinho, que, aliás, abriu a coluna Música Popular assinada por Tinhorão a partir de Janeiro de 1974, no Caderno B do Jornal do Brasil. 
Os bossanovistas só faltaram perder o juízo por causa dos textos concretos publicados por Tinhorão.
O nome de batismo de Tinhorão é José Ramos, só José Ramos. Tinhorão foi um "sobrenome" dado por um dos seus chefes de redação, no Rio. No caso, nada a ver com a venenosa planta que carrega esse nome.
Tom Jobim detestava Tinhorão. Diz a lenda que Jobim teria comprado um vaso com essa planta e sobre ela fazia xixi toda a vez que chegava em casa meio chumbado.
Tem uma música que Elis Regina gravou, Querelas do Brasil, composta depois que Tinhorão disse que o melhor de João Bosco era Aldir Blanc, seu parceiro.


Tinhorão por Nair de Teffé

Há muito disse me disse sobre José Ramos Tinhorão. Sobre ele a jornalista, poeta e professora universitária paulistana, Elizabeth Lorenzotti escreveu Tinhorão o Legendário, publicado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo em 2010. Nesse livro há histórias do Arco da Velha e até a reprodução de uma caricatura de Tinhorão feita por Nair de Teffé, Rian, a primeira caricaturista do Brasil (acima). Não custa lembrar que Nair, filha do Barão de Teffé foi a mulher do marechal presidente Hermes da Fonseca (1910-1914). Detalhe: Em março de 1977, Tinhorão descobriu Nair de Tefé morando sozinha nos arrabaldes do Rio de Janeiro. Como repórter deu um furo de reportagem nacional.

Muito já se escreveu sobre Tinhorão e muito ainda se escreverá sobre ele. Em resumo: Tinhorão é duro na queda, é árvore que não cai, que sobrevive a todas as intempéries. A propósito, o cartunista Fausto o interpreta de modo perfeito, acima.
Não custa dizer, e é sempre importante dizer, que a obra de Tinhorão é a mais completa no campo da pesquisa musical feita até hoje no País. Aliás, é impossível alguém escrever sobre música popular brasileira sem citá-lo. Ah! uma curiosidade: no filme Bonitinha mas ordinária, de Nelson Rodrigues, Tinhorão é personagem... Agora pura provocação: ouçam o grupo musical Filarmônica de Passárgada, interpretando a saborosa canção Enfartando Tinhorão.



"Acho que estou ficando velho", disse-me outro dia ao queixar-se de uma dorzinha nas costas. Em outra ocasião disse-me "ficar velho é uma merda".

Digam o que disserem de Tinhorão, mas a sua obra é inconteste, de valor imensurável. Tinhorão é o mais importante e longevo estudioso da cultura popular brasileira. Nenhum estudioso dessa cultura viveu tanto para mostrar a grandeza do país através da sua história.
Cadê os repórteres de revistas, jornais e tevês que não o entrevistam? Ele tem ainda muito o que contar.


COMEMORAÇÃO


No próximo dia 10, a partir das 15 hs, amigos e "inimigos" de Tinhorão vão se reunir no Bar do Raí, ali na Vila Buarque, centro paulistano. A ideia é brindar os 90 anos de idade do incansável e polêmico José Ramos Tinhorão, vamos? O dia 10 é um sábado de carnaval.


Um comentário:

Antonio Americano disse...

Todo o carinho do mundo para o mestre Tinhorâo. Jornalista de jaça, como se dizia no século passado. Um homem de opinião, um homem de Cultura. Longa vida a José Ramos!

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