Bom, minha gente, hoje ninguém há de dizer que cheguei atrasado. Já dona Flor...
"Dona Flor está chegando, está bem atrás do senhor, seu Assis", diz o desenvolto Barrica. E todos ali se levantam batendo palmas. Flor: "Obrigada, pessoal, assim vocês me deixam sem jeito".
Hummm... Realmente você nos surpreende, Flor Maria.
"Deixa disso, Assis. Estou, como sempre, de bem com a vida".
Flor foi chegando e espalhando bom astral e um perfume de cheiro inebriante. Num fechar d'olhos, Lampa levanta-se como um raio em direção ao banheiro. Sua ação não passou desapercebida. Olhei nossa historiadora que riu de forma assim-assim à toa. Os olhares de todos os botões voltaram-se ao cabra Lampa que num minuto voltou passando a mão no rosto, na camisa... Foi quando o Lampa percebeu os olhares irônicos e sem se conter grunhiu entredentes, já com a mão no seu indefectível punhalzinho: "O que que há, o que que há? Nunca viram macho, não??"
O comportamento do cabra Lampa provocou uma risada incontrolável. Flor Maria: "Vamos parar com isso, pois somos todos aqui amigos".
Zilidoro: "Dona Flor, a última vez que a senhora aqui esteve nos falou sobre o massacre de Canudos. O Euclides, autor do livro Os Sertões, cobriu o massacre do começo ao fim?".
Depois de agradecer a pergunta, a historiadora disse que o escritor e jornalista nunca esteve no campo de batalha. Não conheceu o Conselheiro e o máximo que fez foi andar um pouco pelas vielas que ele chamaria de Troia de Taipas. Ficou na região menos de um mês. Na verdade, Euclides chegou a Canudos no dia 16 de setembro de 1897".
A maioria dos botões presentes fez um "Oh! Oh! Oh!...Puxa!!!".
Zoião, com aquele jeitão de quem tudo vê, perguntou se é verdadeira a frase "O sertanejo é antes de tudo um forte".
"Acho que é verdade, sim. Mas acho que o Assis poderia falar um pouco a respeito".
Bom, o livro é muito controverso. Tem muita coisa boa e outras coisas nem tanto. A frase a que se refere o querido Zoião é verdadeira e o seu autor é Euclides. E antes que me perguntem, acrescento que Euclides era preconceituoso, muito preconceituoso. E até racista. Achava que o branco era a "raça" dominante. Pra ele havia raça e "sub-raça". Achava que mulato, mestiço, curiboca era gente fraca. De certo modo, dava algum valor ao vaqueiro.
"É isso mesmo, o Assis tem razão. O livro tem três partes: A Terra, O Homem e A Luta. Essa última parte considero a mais legível, pois mesmo com algumas cenas ficcionais, prevalecem dados históricos".
"Estou curioso, quero ler esse livro. Tem muitas páginas?", pergunta Mané.
"Os Sertões foi publicado em dezembro de 1902. A primeira edição foi bancada pelo autor. No original tinha cerca de 500 páginas, talvez mais. A sétima edição, considerada definitiva com acréscimos do autor feitos de próprio punho, foi publicada em 1923", explicou a historiadora.
No canto da sala onde costumeiramente nos encontramos Olavim, Pitoco e Fuinha quietos estavam e quietos ficaram enquanto tudo ouviam.
Bom, está na hora do lanche. Vamos nessa pessoal?
Zé pediu licença pra perguntar: "Seu Assis, ouvi em algum lugar alguém dizer que já faz 40 anos que vivemos na Democracia, é verdade?".
Sim, foi no dia 15 de março de 1985 que o maranhense José Sarney foi empossado como presidente do Brasil no lugar do mineiro Tancredo Neves. A ditadura militar foi aqui instaurada no dia 1° de abril de 1964, depois de Jango ser posto pra correr. Antes, e isso é história, militares da Aeronáutica armaram uma operação denominada Mosquito. A ideia era derrubar o avião onde se achava Jango, pouco depois de Jânio renunciar. Jango morreu em 1976. Um século antes, o imperador Pedro II se achava na Síria. Nesse mesmo ano, Antônio Conselheiro era preso pela polícia acusado de matar a esposa e a própria mãe. Agora chega, né?
Olavim, Pitoco e Fuinha foram os primeiros a se levantar e a bater palmas.