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segunda-feira, 27 de abril de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (26)



Voltando, voltando, devo dizer que essa história de reis é pra lá de curiosa. Tem lá a sua importância, mas nem tanto. 

Rei disso, rei daquilo...
Édipo tinha dois olhos e os furou desesperadamente ao descobrir que cometera um erro, um crime imperdoável: matou o pai e desposou a mãe. Antes, tinha dois olhos vivos...
E o que tem a ver D. Manuel I com Édipo?
D. Manuel I tinha dois olhos sadios como os tinha Édipo. 
E o que tinha a ver tudo isso com Lampião, o rei brasileiro do Cangaço?
Lampião e Pontaria diziam que não precisavam de dois olhos para acertar o alvo.
D. Manuel I não usava pistola e não sei que lá de outras armas de fogo. No entanto, em tudo que mirava acertava.
Em 1498, um ano e meio antes de Pedro Álvares Cabral desembarcar na Bahia, o navegador e cosmógrafo Duarte Pacheco Pereira pôs os pés no norte do Brasil.
Enquanto Duarte Pacheco punha os pés no Brasil, ali na divisa do Maranhão e Pará, Vasco da Gama naquele mesmo ano de 1498 desembarcava com força nas terras da Índia. 
D. Manuel I era certeiro nos alvos que escolhia.
Foi esse mesmo D. Manuel que apostou e patrocinou a esquadra que chegou ao Brasil em 1500.
Muita coisa aconteceu desde então. 
E aqui não vou falar daquele cara chamado Pinzón, espanhol, que passou dando adeus sem saber a Pernambuco três meses antes de Cabral desembarcar na Costa baiana.
Vocês devem, a essa altura, pensar o que estou querendo dizer com isso.
Sim, não estou fugindo da temática cego, cegueira. 
Rei é uma coisa, imperador é outra.
Já falamos de reis disso e daquilo. 
Os nossos primeiros e grandes intelectuais desabrocharam com obras marcantes e inesquecíveis como Teixeira e Sousa.
O tempo foi passando e outros autores da literatura brasileira foram surgindo. 
Em 1886, Júlia Lopes de Almeida publicou o primeiro livro de literatura infantil, junto com a irmã Adelina Lopes Vieira. 
Até então, vivíamos o segundo Império, com D. Pedro II.
Julia Lopes de Almeida começou a marcar de modo mais visível a sua vida literária depois da proclamação da República, em 1889.
Estamos aqui falando do tempo da Belle Époque.
Foi nesse período que Júlia Lopes escreveu belos textos que com o tempo enriqueceram a literatura brasileira. Foi ela, por exemplo, a primeira escritora a gerar textos abordando a condição em que viviam as mulheres de seu tempo.
Bom, Júlia Lopes de Almeida foi a primeira intectual brasileira a escrever contos sobre mulheres que sofreram terrivelmente pelo fato de serem cegas. E sem sombra de dúvida foi ela também a primeira mulher a criar personagens cegas. Exemplos: A Caolha, A Pobre Cega, A Morte da Velha e O Último Raio de Luz. 
Muitos e muitos anos depois, foi publicado mundo afora o romance intitulado Toda Luz que Não  Podemos Ver, obra-prima do norte-americano Anthony Doerr. Virou filme. Trata de uma garota de seis anos, órfã de mãe e criada com todas as atenções pelo pai. Claro, ela é cega e a história se passa no correr da 2a. Guerra Mundial. 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (25)


Pois é, como todo mundo sabe ou deveria saber: na história traçada por Sófocles o personagem central (Édipo) mata o pai Laio e casa-se com a mãe, Jocasta. 
A tragédia edipiana é como todas as obras do grego Sófocles, trágica. Acaba com ele arrependido furando os próprios olhos e correndo e gritando feito um doido varrido. Enquanto isso ela, a mãe, suicida-se. 
Pouco antes dessa incrível tragédia, o cego Tirésias fora chamado por Édipo para fazer previsões do curso da sua vida. Mas não deu bola e deu no que deu. 
Todo mundo sabe ou deveria saber que Édipo tinha por pai um rei de Tebas. 
O Brasil foi achado por iniciativa do rei D. Manuel I.
A partir de 1808, o Brasil teve como dono reinante D. João.
A partir de 1822 assumiu o trono destas nossas terras brasileiras Pedro I. 
Depois desse Pedro, reinou entre nós o imperador Pedro II. É quando em 1889 o Brasil vira República. 
Enquanto República, o Brasil tornou-se esquisitamente uma casa de muitos reis. Explico: tivemos rei da Voz, rei do Samba, rei do Bolero, rei da Embolada, rei do Baião, rei da Sanfona, rei do Pandeiro, rei do Futebol, entre outros.
E ainda não falamos das rainhas que tivemos, mas não custa lembrar: rainha do Baião, rainha do Xaxado, rainha do Forró... e mais rainhas disso e daquilo.
E o rei da Cocada Preta, hein?
Bom, Lampião foi rei do Cangaço e matou muita gente, incluindo mulheres e crianças. 
Lampião entrou no cangaço em 1922, quando se realizava no Theatro Municipal de São Paulo a Semana de Arte Moderna.
No começo do 2° semestre de 1925, engrossou a fileira do bando de Lampião um cara que pela alcunha já diz bastante: Pontaria. Enxergava com um só olho.
Lampião, Pontaria e outros e outros sanguinários pagaram com a vida o mal que fizeram no Sertão nordestino. Muitos até chegaram a perder a cabeça...
Ainda há reis espalhados mandando e desmandando mundo afora. Porém não custa contar ou recontar que Lampião perdeu o olho direito em luta contra volantes de Pernambuco, em 1925. Na verdade, tiros dos policiais de então atingiram e fragmentaram espinhos de um cacto qualquer. Um desses espinhos atingiu um olho do famoso cangaceiro. 
Tanto Lampião como Pontaria diziam que não precisavam de  dois olhos para acertar o alvo mirado.


quarta-feira, 22 de abril de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (24)




Autoridades de verdade são, naturalmente, respeitadas aqui e alhures. 
Autoridades canalhas, vagabundas, têm de ser extirpadas da boa convivência social, pois não merecem respeito algum. 
Como sabemos, e todos deveriam saber, nós brasileiros de tempos atrás vivemos perrengues de todos os tipos. Amordaçados, inclusive. 
Passamos dolorosamente por golpes e tentativas de golpes desencadeados por milicos de altos coturnos. Marechais, generais e outras figuras de péssima lembrança. 
O período de mordaça mais longo que vivemos durou 21 anos, ininterruptamente. Começou em 1964 e terminou em 1985. Tivemos nesse período cinco poderosos verdes-oliva predizendo o nosso destino: Castello Branco, Costa e Silva, Médici, Ernesto Geisel e Figueiredo... Todos esses se acham a ferver nos caldeirões em brasa do Inferno. E que lá continuem. 
Por pouco, muito pouco, escapamos de cair numa nova ditadura. Isso em 2023.
No dia 21 de setembro de 2025, mais no final da tarde,  alguns dos mais expressivos artistas da nossa música popular foram às ruas do Rio engrossar o desejo dos brasileiros de boa índole que lutam pela paz do Brasil. Entre esses artistas estavam Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Djavan. Cantaram, inclusive. Foi uma festa e tanto, ali em Copacabana. 
Além do Rio, o movimento pela paz e contra o retrocesso se estendeu por outras capitais brasileiras. 
Todos pediam o cancelamento de pautas da Câmara e do Senado, especialmente as que blindam os parlamentares de qualquer investigação e os cabeças e participantes da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, anistiando-os.
É bom que se saiba e que nunca se esqueça que todo e verdadeiro poder emana do povo. 
Dito o que disse, lembro da história contada por Shakespeare no ano de 1601. Título: Rei Lear. 
A história trata da divisão de um reino por seu rei. A divisão coube a duas das três filhas do rei. Quem fica fora é a caçula, Cordélia. 
Depois de muita traição, violência de todo tipo e mais o inimaginável, o pobre rei perde tudo e fica doido. As filhas todas morrem. 
Ainda no decorrer da trama, um poderoso nobre de nome Gloucester tem um filho legítimo, Edgar e outro bastardo, Edmund.
Edmund tece uma tramoia contra seu irmão por parte de pai. A ideia era deserdá-lo. Resultado: o velho nobre Gloucester se revolta e, além de traído,  tem os olhos arrancados.
O fim de Rei Lear é tragicamente patético. 
Outro livro muito bom de ser lido é A Culpa é das Estrelas, de John Green. A trama envolve adolescentes  portadores de câncer. A protagonista tem 16 anos e o seu amado, 17.
O livro, publicado em 2012, começa com a protagonista Hazel sendo chamada à atenção pela mãe, que a vê em depressão profunda. A menina lê muito e muitas vezes, um livro só: Uma Aflição Imperial, de Peter Van Houten. 
Na trama de Uma Aflição Imperial se acha uma mulher que vê apenas com um olho. É viúva. 
Hazel e o seu namorado Augustus, têm um amigo em comum. É o adolescente Isaac que fica cego de um olho e, pouco depois, do outro olho.
Todos os personagens de John Green são muito bem humorados mesmo carregando consigo a marca breve de um fim de tempo. 
Curiosidade: Uma Ambição Imperial é um livro irreal, nunca foi publicado. E o seu autor na vida real jamais existiu, mas são muito importantes na trama criada por Green. E mais não digo. 
E rei por rei, tivemos o do Sertão: Lampião (1898-1938).
Houve vários cangaceiros cegos. Um deles, Serapião das Almas, que fez o que fez Édipo Rei, de Sófocles. 

sexta-feira, 17 de abril de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (23)

 


Mais uma vez o Brasil 

Escapou de mergulhar 
No terreno movediço 
Da ditadura militar 
Feia e sanguinária
Que não se cansa de matar...

O começo da tarde daquele 8 de janeiro de 2023 pegou de surpresa os brasilienses e  brasileiros em geral.
Era um domingo ensolarado quando pelo menos 4 mil malucos e malucas quebraram tudo que encontravam na Praça dos Três Poderes. Muitos foram presos e pelo menos 1,6 mil teve de prestar contas à Justiça. 
No começo da noite de 11 de setembro de 2025, os principais líderes golpistas pegaram penas pra eles inesperadas.
Ditadura, sabemos, é coisa que não presta. 
O Livro dos Cegos é obra do jornalista Marcio Salgado. Conta a história de uma mulher desaparecida durante os chamados anos de chumbo (1964-1974). Quem anda louco à procura da personagem é o filho, Antônio. O narrador, em determinado momento, se depara com anotações em Braille feitas por alguém de nome Jeremias e com isso passa a juntar pedrinhas do jogo. Interessantíssimo. 
Enquanto a ficção e a realidade se juntam no livro de Salgado, a realidade nua e crua ponteia a vida de uma mãe em busca do filho que fora sequestrado e levado à base aérea do Galeão, RJ, onde teria sido assassinado. Corria o ano de 1971. A mãe chamava-se Zuzu e o filho Stuart. Ela morreu cinco anos depois do filho, vítima de um atentado provocado por trogloditas da ditadura militar. 
Foi em 1976 que o baiano Milton Coelho de Carvalho foi preso e duramente castigado por ser militante do PCB. Perdeu a visão durante sessões de tortura. Morreu em abril de 2024, em Sergipe, aos 82 anos de idade. 
Pululam nas crônicas, contos, poemas e romances a figura do cego, do míope...
No ótimo Fogo Morto (1943), do paraibano José Lins do Rego, se acham o cego Torquato e o vagabundo José Passarinho. A essa personagem é perguntado com quem aprendeu a cantar. Adorava beber e cantar. Era das proximidades do seleiro mestre Amaro. E ele responde mais ou menos assim: "Aprendi a cantar cantiga com um cego de Itambé".
Em Fogo Morto aparecem soldados rasos,  capitães, tenentes, coronéis, além de delegado, cangaceiro e juiz. 
Tem até suicídio em Fogo Morto. 
Num conto do autor paulistano Antônio de Alcântara Machado (1901-1935) intitulado Apólogo Brasileiro Sem Véu de Alegoria, o protagonista é um cego conhecido pela alcunha de Baiano. É rabequeiro. Ele está num trem lotado. De repente, o seu guia diz que o trem está completamente às escuras. E o cego na dele. O trem chega a seu destino aos trancos e barrancos, com seu interior todo depredado. A razão foi simples: o cego baiano improvisou um discurso dizendo que estava tudo errado, pois o preço das passagens cobria o que fosse preciso. Não cuidar do trem era algo impensável. Ao desembarcarem, pessoas eram abordadas pela polícia local. Um policial perguntou a um sujeitinho que carregava uma Bíblia nas mãos como tudo começou. E a resposta veio depressa: "Foi aquele cego".
O policial, com cara amarrada, não pensou duas vezes e ao portador da Bíblia deu voz de prisão, dizendo  : "Com autoridade não se brinca!".




terça-feira, 14 de abril de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (22)


De poucos personagens também, na verdade apenas dois, é a peça Amor por Anexins, do maranhense Artur de Azevedo (1855-1908).
Na referida peça o autor põe em cena uma jovem e pobre viúva e um conquistador barato, velhote e feio. A seu favor, algumas patacas. 
Amor por Anexins é uma curiosa e engraçada farsa. O casal em cena não tem problemas de visão, mas o curioso é que Azevedo usa e abusa de ditos populares. Exemplo: "Quem o feio ama bonito lhe parece"; "Quando a esmola é muita, o pobre desconfia"; "O futuro a Deus pertence"; "O pior cego é aquele que não quer ver".
A propósito e curiosamente, Luis Fernando Veríssimo publicou a crônica Incidente na Casa do Ferreiro. Nessa crônica, o autor desenvolve um emaranhado diálogo com o personagem título e um cego. É hilariante. 

"Ferreiro - Nem só de pão vive o homem.

Filho do enforcado - Comigo é pão, pão, queijo, queijo. 

Ferreiro- Um sanduíche! Você está com a faca e o queijo na mão. Cuidado. 

Filho do enforcado - Por quê?

Ferreiro - É uma faca de dois gumes.

(Entra o cego)

Cego - Eu não quero ver! Eu não quero ver!

Ferreiro - Tirem esse cego daqui!

(Entra o guarda com o mentiroso)

Guarda (ofegante) - Peguei o mentiroso, mas o coxo fugiu.

Cego - Eu não quer ver!

(Entra o vendedor de pombas com uma pomba na mão e duas voando)

Filho do enforcado (interessado) - Quanto cada pomba?

Vendedor de pombas - Esta na mão é 50. As duas voando eu faço por 60 o par.

Cego (caminhando na direção do vendedor de pombas) - Não me mostra que eu não quero ver..."


Na literatura nacional e estrangeira nos deparamos com todo tipo de personagens cegas de um ou dos dois olhos, míopes, de baixa ou curta visão. 
No conto Brincando com Fogo (1875), o autor Machado de Assis põe em movimento duas assanhadíssimas donzelas chamadas uma de Mariquinhas e a outra Lúcia. 
Mariquinhas e Lúcia moram perto. Uma na rua do Príncipe e a outra na rua da Princesa. Estão sempre juntas, debruçadas na janela, passeando os olhos nos rapazes que vão e vêm. Num desses vai e vem, uma das jovens abre largo sorriso dizendo e apontando o dedo: "Esse aí é meu!".
Enquanto uma diz que o jovem que vai passando ali com seus 25 ou 26 anos de idade será seu, a outra jovenzinha toda alegre diz em tom de provocação: "Não, esse aí é meu!".
A essa altura, o mancebo já identificara as duas moçoilas. Sem se conter, ele saca uma pequena luneta e foca as duas, rindo. Como se não bastasse, todo engraçadinho, faz piruetas com a bengalinha da moda que carregava consigo. Tudo pra chamar atenção. Elas riem e uma diz à outra: "Ele tem vista curta".
Bom, a história não termina como as duas moçoilas queriam.
Nome do moço: João dos Passos.
Essa historinha criada por Machado faz-me lembrar de outra historinha pra lá de legal, bonita. Refiro-me ao conto A Luneta Mágica, do excepcional escritor e médico, Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882).
Macedo põe na história que criou os personagens Simplício e seu irmão Américo; a tia Domingas; a jovem bem aparentada, Anica; Reis, dono do armazém e Armênio. 
Simplício é quase cego e é ele que aparece como narrador do conto, em primeira pessoa:

"Chamo-me Simplício e tenho condições naturais ainda mais tristes do que o meu nome.
Nasci sob a influência de uma estrela maligna, nasci marcado com o selo do infortúnio. 
Sou míope; pior do que isso, duplamente míope, míope física e moralmente. 
Miopia física: - a duas polegadas de distância dos olhos não distingo um girassol de uma violeta.
E por isso ando na cidade e não vejo as casas.
Miopia moral: - sou sempre escravo das ideias dos outros; porque nunca pude ajustar duas ideias minhas..."

Bom, voltemos ao Machado. 
Noutro conto, dentre tantos que escreveu, o velho Machado põe em pauta um personagem que vivia um tanto fora do mundo. Era muito reservado e pouquíssimo saía de casa, fosse pra que fosse. Morava num assobradado, cheio de livros e tranqueiras diversas. Num dia morreu deixando para um sobrinho, Mendonça, uma carta que dava conta dos bens que tinha. Mas esses bens só poderiam ser disponibilizados depois de determinado período. Chegado o dia previsto, Mendonça chama um amigo para acompanhá-lo numa visita de reconhecimento ao imóvel onde morara o tio.
A história é curiosíssima, cheia de mistérios. Tudo é revistado. Os dois, não custa dizer, já varavam a madrugada. A luz vinha das velas que portavam. De repente, o primeiro susto: um par de olhos enormes fitavam os dois. Mendonça deu um pulo pra trás, mas aquietou-se ao ouvir do amigo que aqueles olhos enormes, como bolas de fogo, eram de um gato que, assustado, deu no pé sem fazer barulho. 
O nome dessa história: Os Óculos de Pedro Antão.
E pra que não fiquem mais curiosos do que estão, meus amigos e amigas, acrescento: os óculos do título pertenciam ao finado, que era míope e coisa e tal. 



sexta-feira, 10 de abril de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (21)

Crédito: Urban Pets

 Na verdade, eu acho os gatos um barato.

Na verdade, eu acho também que os gatos são boa gente. Que o diga o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986). Em 1972,  Borges escreveu um poema sobre bichanos a que intitulou A um gato. Este:

"Os espelhos não são mais silenciosos
Nem mais furtiva a aurora aventureira;
Tu és, sob o luar, essa pantera,
Que só vemos de longe, receosos.
Por obra indecifrável de um decreto 
Divino, buscamo-te inutilmente;
Mais remoto que o Ganges e o poente, 
É teu o isolamento mais secreto
Teu dorso condescende com a morosa
Carícia de minha mão. Sem um ruído,
Da eternidade que ora é olvido,
Aceitaste o amor dessa mão receosa.
Em outro tempo estás. Tu és o dono 
De um espaço cerrado como um sonho."

Julio Cortázar (1914-1984) também era um cara que não só defendia, mas amava os gatos como a si próprio. Sobre bichanos, ele escreveu: 

"Amar as pessoas como se ama um gato, com seu caráter e independência, sem tentar domesticá-lo, sem tentar mudá-lo, deixando-o vir quando quiser, sendo feliz com sua felicidade."

E não fica por aí, nem fica por aqui. 
O tema é bom e vale reflexão. 
Os gatos têm uns olhos hipnotizadores deste tamanho!
Nós humanos ficamos também com os olhos deste tamanhão, quando nos surpreendemos diante de ocorrências incomuns. 
Ver um gato cego é difícil, mas difícil não é nos vermos cegos. Seja pelos olhos, seja pelo raciocínio. 
No dia a dia, desde sempre, experiências várias resumiram-se aqui e alhures em  frases metafóricas para referirem-se a determinadas situações. Do tipo: O amor é cego; Só não vê quem não quer ver; Em terra de cego.... 
Dentre todos os bichos domésticos ou silvestres, como se queira, os gatos são os mais frequentes nas páginas literárias sejam de que lugar for.
O cachorro, também. Mas o cachorro é mais presente na música popular. 
Há um conto popular africano lembrado pelo jornalista e escritor Mia Couto. 
Couto lembra de um causo intitulado O Cego e o Caçador. 
No causo contado, uma jovem compartilha uma casinha com o pai que é cego. Ele sem mulher, e ela, solteira. 
Um dia, um caçador das redondezas se engraça da jovem e com ela passa a conviver ao lado do pai.
O caçador é experiente, mas há um período em que ele não consegue nada de caça. A fome se aproxima e o pai da jovem pede ao caçador que o leve junto para caçar. O caçador, arrogante, diz que não, porque ele é cego e não serve pra nada. 
As dificuldades continuam sem que o caçador traga caça pra casa. 
A situação vai piorando e o caçador finda por atender o pedido do velho cego, levando-o consigo a uma caçada.
No decorrer da história, o velho senhor demonstra qualidades inesperadas, insuspeitas para quem não vê com os olhos. 
Perguntado por que agia com tanta desenvoltura, o cego respondeu: "Eu vejo com os ouvidos".
Como se sabe, gato é doido por rato.
Em 1950, Aghata Christie (1890-1976)  escreveu um texto que marcou longamente a literatura de mistérios. Esse texto, intitulado Os Três Ratos Cegos, ganhou versões no cinema, na televisão e até no teatro. É de poucos personagens, porém marcantes. E por enquanto, mais não digo. 
Digo porém da tristeza que tomou conta do Brasil bonito, sensível, solidário. Seguinte: na madrugada do dia 30 de agosto de 2025, morreu em Porto Alegre, RS, o jornalista, contista e romancista Luis Fernando Veríssimo, 88.
Luis era filho de Érico, também grande escritor que nos legou verdadeiras pérolas literárias. 
Luis Fernando começou a escrever com 30 anos de idade. Deixou uns 70 livros e muitos textos. O último, inacabado, era para ser publicado no jornal carioca O Globo. Escreveu sobre tudo ou quase tudo, incluindo as crônicas O Cego e o Publicitário e Incidente na Casa do Ferreiro. Claro, como toda crônica, nessas duas passeiam poucos personagens. 
Voltarei ao assunto. 



quarta-feira, 1 de abril de 2026

QUE NUNCA SE REPITA 1964!


Pois é, meus amigos. Costumo falar sempre o que sei, verdades.
Hoje é o Dia da Mentira. Convivo com essa data há muitos anos.
Já contei muitas histórias e mais ainda ei de contar. 
Este Blog eu o iniciei no dia 1° de abril de 2009. Pois, acesse-o na data aí citada.
Ah! Ia-me esquecendo: o golpe civil-militar de 1964, apoiado pelos EUA, ocorreu no dia 1° de abril e não no dia 31 de março. 

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