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segunda-feira, 29 de junho de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (45)

Não foram muitos os astrônomos e intelectuais que tais que escaparam vivos da fogueira dos juízes malucos do Tribunal do Santo Ofício. Galileu foi uma dessas figuras que ganharam a oportunidade de viver por mais algum tempo ao concordar, sob pressão, com a tese católica de que a Terra seria o centro do Universo. 

Pessoas do cotidiano comum, principalmente cristãos-novos, foram denunciadas como hereges e tal e mofaram nos calabouços e arderam nas chamas da Inquisição.
Portugal e Espanha foram dois dos países em que a Inquisição fez a festa.
As vítimas da Inquisição foram milhares e milhares.
Oficialmente, não há notícia de que o Brasil acolheu inquisidores autorizados a julgar e a condenar à fogueira brasileiros e brasileiras dos tempos daquele tribunal. Porém, aqui e ali acham-se registros de pessoas que arderam nas labaredas da Inquisição, em São Paulo.
A prática comum da Inquisição no Brasil era enviar a Portugal pessoas acusadas de feitiçaria, sodomia, bigamia... 
Judaísmo era considerado crime.
Segundo a historiadora Anita Novinsky  (1922-2021), autora do livro Inquisição: Prisioneiros do Brasil, apurou que pelo menos 1076 pessoas foram levadas do Brasil para Portugal e de lá nunca mais voltaram. Dessa leva, 29 acusados e acusadas morreram na fogueira. Uma dessas pessoas foi a pernambucana Guiomar Nunes (1692-1731).
Guiomar era casada e vivia no interior da Paraíba. Deixou viúvo o marido Francisco e órfãos oito filhos.
O soteropolitano Gregório de Matos e Guerra (1636-1696) estudou em Coimbra e voltou doutor e padre da Igreja Católica Apostólica Romana. Exerceu por pouco tempo o ministério. Isso ocorreu porque ele se recusava a usar batina.
Paralelamente à religião católica, Gregório escrevia poemas que nem um condenado. Os temas abordados eram todos e da sua ferina pena não escapavam autoridades políticas e o povaréu em geral incluindo brancos e pretos, pobres, ricos, comerciantes, cornos e putas.
Gregório morreu em Recife jurando amor a Cristo. 
Para esse grande poeta baiano, o sagrado e o profano andavam conjuntamente de mãos dadas na rua e fosse lá onde fosse.
Gregório, que se tornou um dos mais polêmicos poetas do Brasil, foi denunciado à Inquisição no ano de 1685. Escapou das masmorras e de eventual queima na fogueira. 
O cego está presente física ou metaforicamente na obra desse excelso brasileiro da Bahia. É dele essa pérola:


À procissão de cinza em Pernambuco

Um negro magro de sufulié justo,
Dois azorragues de um joá pendentes,
Barbado o Peres, mais dois penitentes,
Seis crianças com asas sem mais custo.

De vermelho o mulato mais robusto,
Três fradinhos meninos inocentes,
Dez ou doze brichotes mui agentes,
Vinte ou trinta canelas de ombro onusto.

Sem débita reverência seis andores,
Um pendão de algodão tinto em tijuco,
Em fileira dez pares de menores.

Atrás um cego, um negro, um mameluco,
Três lotes de rapazes gritadores:
É a procissão de cinza em Pernambuco.



Gregório, como muita gente sabe, ganhou o apelido de Boca do Inferno pela verborragia obscena que tanto o caracterizou. Escreveu e falou de tudo o que quis, como o nosso gigante Machado de Assis. 
Machado, o Bruxo do Cosme Velho, não fazia uso de verbos obscenos. Era seu jeito particular de se manifestar sobre o cotidiano. 
Nem temas ligados ao Oriente Médio escaparam do olhar crítico do autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Estão lá nas suas crônicas e contos costumes do mundo árabe. Fala de Deus e de seu filho Jesus, Jerusalém, Israel, uma  cristã-nova...
É isso


segunda-feira, 22 de junho de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (44)

É certo que não é comum um físico ou cientista dar crédito às ditas Sagradas Escrituras. Mas não se espante, meu amigo e amiga. 
No correr da nossa vida é comum ouvirmos histórias do "arco-da-velha". Ou de Trancoso, não é mesmo?
A história conta que o grande e aplaudido físico inglês Isaac Newton (1643-1727) punha toda a sua fé no Livro de Daniel. Desse livro era leitor extremado. 
Numa carta a um amigo datada de 1704, Newton traçava suas impressões pessoais sobre a grandeza do Universo. Ele, como Nicolau Copérnico (1473-1543), não endossava a crença da Igreja sobre a Terra como centro de tudo. Dizia, com extrema clareza, que a Terra e todos os demais planetas giram em torno do Sol. 
Isaac Newton escapou das garras do Santo Ofício. O mesmo não sucedeu com o matemático e estudioso do Universo Giordano Bruno.
Bruno, italiano de Nola, foi sem dúvida um grande sabichão. 
Também por discordar da Igreja, Bruno foi preso pelos inquisidores e condenado à morte na fogueira. Morreu em Roma queimado vivo, no dia 17 de fevereiro de 1660. E pouco antes de ser queimado foi torturado de maneira... não,  não vou dizer. Apenas que foi algo completamente desumano. Terrível!
Fim diferente de Bruno teve Galileu Galilei (1564-1642).
Galileu estudou o Universo de tudo quanto foi jeito e chegou a mesma conclusão dos seus pares passados. Com uma diferença: na hora do vamos ver negou o que achava sobre o Universo. 
Mesmo negando que a Terra gira em torno do Sol, Galileu foi condenado a nunca mais sair de casa.
Observadores comprometidos com a história afirmam até hoje que o velho Galileu, no leito de morte, balbuciou: "Mas que gira, gira".
Referia-se, claro, à Terra no seu movimento giratório em torno do Astro Rei.

 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (43)


Crédito: Gerrit van der Horst

A terra prometida constante da Bíblia hebraica ficava ali onde hoje se acham Israel e Palestina. 

Considerada a principal religião daquelas bandas, o judaísmo foi criado por Abraão e disseminado por Moisés, Davi e Salomão.
O calhamaço bíblico da Antiguidade registra texto atribuído a Daniel. Segundo o texto, identificado como o Livro de Daniel, o fim do mundo deverá ocorrer sabe-se lá quando. Um trecho:

"E naquele tempo se levantará Miguel, o grande príncipe, que se levanta a favor dos  filhos do teu povo, e haverá um tempo de angústia, qual nunca houve... mas naquele tempo livrar-se-á o teu povo... E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna e outros para vergonha e horror eterno."

Algo sobre o fim do mundo pode ser conferido em Matheus 24: 

"Porque se levantará nação contra nação e reino contra reino e haverá fomes e terremotos em vários lugares; porém, tudo isso é o princípio das dores".

Há muitas histórias no Livro de Daniel, além das profecias referentes aos nossos dias finais.
Noutros livros como o de Tobias, as histórias mais do que se multiplicam. Sem falar nos poemas e cantos, alguns majestosos. 
Em Tobias é dito que Tobit era judeu de profundas raízes enfincadas no mais profundo chão. Simples, quase simplório, fazia o bem a todos das tribos que o procuravam. 
Leem-se nos escritos que Tobit ficou cego da maneira mais boba possível. 
Um dia, dizem, que Tobit estava assim, assim, à toa. Admirava a natureza quando sua atenção foi despertada por um bando de pássaros. Ao olhar para cima deslumbrado, num instante seus olhos foram atingidos por excrementos da passarinhada. 
Tobit era casado com Ana, que lhe deu um filho: Tobias.
O tempo passou, Tobias cresceu e o pai preocupado com o seu futuro recomendou-lhe procurar um velho parente. Esse parente, Gabael, devia grana a Tobit. Encurtando a história: Tobias pegou estrada junto com um amigo recente, que viríamos a saber ser o anjo Rafael. 
No decorrer do percurso até a casa de Gabael, ao cruzar um rio, Tobias por pouco não foi engolido por um peixe. O anjo o salvou e do peixe extraiu o coração, o fel e o fígado .
Na volta à casa paterna, Tobias chegou todo feliz trazendo a tiracolo a mulher da sua vida, sua prima distante, Sara.
Pra findar tudo prá lá de melhor e por recomendação de Rafael, Tobias passou o fel do peixe nos olhos cegos do pai e... milagre, milagre!
E foi assim que a história de Tobias com o seu pai terminou. 
A história, as histórias, tudo isso faz parte do tempo. De qualquer tempo.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (42)

 

Em 1968 quando França, Vietnã e EUA pegavam fogo e mudavam até o modo de pensar e agir de muita gente ao redor do mundo, países emblemáticos e poderosos como os aqui já citados, tinham representantes sentados à mesa de discussões para assinar o que passou a ser chamado Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP).

Depois de muita polêmica, o TNP foi assinado. Porém, só passou a vigorar no dia 5 de março de 1970.
Desde os turbulentos anos da década de 70, muita água barrenta e podre passou por debaixo da ponte. Das pontes de canto a canto do mundo. Mortos, cegos, aleijados e desgraças tantas foi o saldo.
Os EUA perderam o embate com o Vietnã. E tal e tal.
Hoje a China já tem condições de bater de frente com os EUA, que não param de nos ameaçar de tudo quanto é jeito.
Pois é, já passou da hora de rezarmos por nossas próprias almas.
O embate entre Israel e a Faixa de Gaza, leia-se Palestina, resultou em milhares de civis cegados por armas das forças israelenses.
Também mirados nos olhos, muitos civis iranianos tombaram mortos ou ficaram cegos de um ou dos dois olhos para sempre, por protestarem contra o regime violento de que são vítimas. 
Parece absurdo, mas o que é a guerra senão um absurdo completo?
Durante muito tempo, Israel tem ensinado a atirar nos olhos dos inimigos. Esse lamentável ensinamento tem sido passado adiante por grana definida em contrato. 
O Chile chegou a contratar tais préstimos dos trogloditas fardados de Israel. O Brasil também, mas essa é outra história.
No dia 5 de fevereiro de 2026, o Novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas (NewStart) foi encerrado.
O arsenal nuclear dos EUA conta com aproximadamente 5.177 ogivas e a Rússia, de 5.459 a 5.580, segundo estimativas publicadas pela imprensa internacional. 
Informação merecedora de algum crédito dá conta de que há nove países sabe-se lá com quantas ogivas nucleares guardadas: além da Rússia e dos EUA, China, França, Reino Unido, Paquistão, Índia, Israel e Coreia do Norte. 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (41)

Pois é, o filho do Homem dá um beijo no Inquisidor e vai-se embora depois que a porta da prisão lhe é aberta. E vai-se com a expressa recomendação de que nunca mais retorne à Terra. Nossa Terra, nosso planetinha, que parece a tudo sobreviver engolindo seus entes. Algo como a mitológica Fênix, aquela que renasce com mais vigor das próprias cinzas.

É mais ou menos assim que finda o texto O Grande Inquisidor, contido nas páginas do extraordinário romance Os Irmãos Karamázov. 
O texto aqui referido foi obra do punho mágico do escritor russo Dostoiévski, exposto pelo personagem Ivã a seu irmão religioso Aliócha. 
Aliócha Karamázov é a representação cândida do Bem.
Ivã e Aliócha eram filhos imaginários da segunda mulher de Pávlovitch Karamázov.
O terceiro irmão de Ivã e Aliócha, na verdade meio irmão, era Dmitri. 
O quarto irmão, um bastardo, era Pável Smierdiakóv
Pável foi resultado de um estupro praticado pelo pai de Dmitri, Ivã e Aliócha contra uma jovem portadora de deficiência intelectual. 
Curioso na obra de Fiódor Dostoiévski é que nela aparece o cotidiano russo, inclusive nomes de pessoas da sociedade do seu tempo. 
No realismo explícito de Dostoiévski se acham a Injustiça, a Liberdade, o Amor, o Bem e o Mal. Já no seu primeiro livro, Gente Pobre (1846), o autor expõe as mazelas que seus olhos viam e a mente classificava.
O autor dos Irmãos Karamázov comeu o pão que o diabo amassou. Perdeu a mãe Maria, vítima de tuberculose, quando tinha 16 anos de idade. Dois anos depois o pai médico, Mikhail, foi assassinado por colonos que moravam na pequena fazenda da família, no interior da Rússia. 
Quando o furioso inquisidor solta Jesus da prisão onde se achava, nosso mundinho já estava em pandarecos. 
Não custa dizer ou lembrar a quem ainda não leu a velha Bíblia hebraica que nela se acha o anúncio do fim dos tempos, especialmente no livro Apocalipse. 
Em Apocalipse é narrada a vinda de guerreiros do bem e do mal. Nesse encontro terrível, o mundo acaba com o Bem vencendo as forças representadas pelo Mal.
Jesus nasceu ali pelas bandas de Belém, no tempo de Herodes e outros salafrários. 
Foi ainda naquelas bandas que Jesus livrou da morte e da cegueira muita gente que nele acreditava. 
A guerra do fim do mundo deverá ocorrer, segundo os crentes e estudiosos da Bíblia, ali onde ainda hoje se acha o Egito.
Armagedom é como se denomina a guerra do fim do mundo.
O Egito já foi chamado de Terra dos Cegos. 
Analisando bem o que há tempos ocorre no mundo, facilmente se chegará à conclusão de que o nosso mundinho está por um fio. Na dúvida é só olhar para a Europa, África e Oriente Médio. 
O físico e matemático alemão Albert Einstein (1879-1955) foi-se embora e deixou uma frase para se pensar: "Não sei com que armas a Terceira Guerra Mundial será travada, mas a Quarta Guerra Mundial será travada com paus e pedras".

quarta-feira, 3 de junho de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (40)


Não é de todo surpreendente a afirmação de que a montanha de páginas que forma Os Irmãos Karamázov é pérola de brilho tão intenso capaz de até cegar olhos desavisados.

Esse romance foi primeiramente publicado na forma de folhetim e depois em livro, em 1880. Seu autor, Fiódor Dostoiévski, morreu logo após completar 60 anos,  no dia 9 de fevereiro de 1881.
Bom, o livro é excepcional. Tem muitos personagens. Além de Fiódor Pávlovitch Karamázov, pai de Dmitri, Ivan e Aliócha, o leitor depara-se com uma história longa e envolvente, além de original. 
Como Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas (1802-1870), que eram quatro, Os Irmãos Karamázov caiu na boca do povo como sendo uma história envolvendo três irmãos. Na verdade, também eram quatro os  irmãos Karamásov no livro assinado pelo ilustríssimo escritor russo.
Ali pelo 5° capítulo do livro cinco que integra o volumoso romance de Dostoiévski, encontra-se um texto impecável sobre a Igreja católica. O texto é creditado ao personagem Ivã, o segundo dos quatro filhos de Fiódor. 
O 4° filho de Fiódor é Pável Smierdiakóv, considerado bastardo. 
Entre todos os filhos de Fiódor, Ivã é o mais brilhante. Escrevia para a imprensa da época artigos impactantes e, por isso mesmo, polêmicos. Um desses seus escritos foi intitulado de O Grande Inquisidor. O autor traça contundente panorama sobre a cristandade e coisa e tal.
Ivã Karamázov define seu texto como um poema. Na verdade, o escrito foi desenvolvido poeticamente na forma de prosa. Impecável. Ele começa dizendo que era merecedor de um prefácio ou algo parecido. Começa assim: 

"...A ação passa-se no século XVI; bem sabes que era costume, nesta época, fazer intervir nos poemas os poderes celestes. Não falo de Dante. Em França, os 'clercs de la basoche' e os monges davam representações em que punham em cena Nossa Senhora, os anjos, os santos, Cristo e Deus. Eram espetáculos ingênuos. Na Nossa Senhora de Paris, de Victor Hugo, o povo é convidado, no tempo de Luís XI, em Paris, e em honra do nascimento do Delfim, para uma representação edificante e gratuita: O Bom Juízo da Sagrada e Graciosa Virgem Maria."

Ainda no preâmbulo, Ivã lembra uma passagem na Divina Comédia, do italiano Dante Alighieri. Nessa passagem, Inferno, Nossa Senhora roga a Deus pelos pecadores:

"Existe, por exemplo, um pequeno poema, traduzido sem dúvida do grego: A Virgem no Inferno com quadros duma audácia dantesca: a Virgem visita o Inferno, guiada pelo arcanjo S. Miguel, e vê os condenados e os seus tormentos; entre outros, há uma categoria muito interessante de pecadores: os do lago de fogo; mergulham no lago e nunca mais aparecem: são aqueles 'de que até Deus se esquece'."

E segue e segue Ivã mergulhando nas dolorosas e sangrentas chagas da Igreja. À sua frente o mano Aliócha o ouve atentamente. As interrupções são poucas, porém incisivas e merecedoras de acréscimos. 
No correr de tudo que diz, Ivã destaca as perseguições contra os cristãos-novos, homossexuais, bígamos, hereges, feiticeiros, levadas avante pelo Santo Ofício. 
No ponto em que o Santo Ofício é referido no texto de Ivã, depressa lembrei-me de um conto de Anton Tchekhov (1860-1904). No tal conto, A Feiticeira, é contada a relação entre um casal, um clérigo de baixo escalão e uma jovem de beleza encantadora. O homem acusa a mulher, Raíssa, de feitiçaria e  a ameaça de contar o que sabe ao pároco da região. O sujeito é sem futuro, feio e linguarudo. A mulher o trai. Uma noite ao voltar para casa, o sujeito tenta possuir a mulher à força. Mas ela se defende com uma porrada, deixando-o cego. 
Ali pelo meio do texto de Ivã é dito que uma pequena multidão segue um jovem. Esse jovem é reconhecido como Jesus, que a pedido não se faz de rogado e ressuscita uma menina e põe luz nos olhos de um cego. 
Aos seguidores Jesus agora, na sua volta à Terra, repete o que dissera séculos antes. Fala da importância da paz, justiça, esperança, amor, liberdade, igualdade etc.
Essa história toda se passa em Sevilha, Espanha, num momento qualquer do século 16.
À época a Inquisição corria solta em toda a Europa e até fora da Europa, como Índia e Brasil. 
A movimentação do chamado filho de Deus é toda acompanhada por um cardeal. Aliás, daí o título O Grande Inquisidor. 
O cardeal pondo pra valer a sua autoridade de representante graúdo da Igreja, manda soldados prender aquele que morreu na cruz por nós. Isso feito, o preso é posto num calabouço e depois visitado pelo inquisidor. 
Jesus ouve tudo o que diz o velho religioso, sem mover um músculo ou sequer pestanejar. É pra lascar!
Na última interferência que Aliócha faz ao irmão deixa claro querer saber qual final dará ao texto. Ivã responde:

"O Inquisidor cala-se, espera um momento a resposta do Preso. O Seu silêncio oprime-o. O Cativo escutou-o sempre fixando nele o olhar penetrante e calmo, visivelmente decidido a não  lhe responder. O velho gostaria de que Ele lhe dissesse alguma coisa, mesmo que fossem palavras amargas e terríveis. De repente, o Preso aproxima-se em silêncio do nonagenário e beija-lhe os lábios exangues. Mais nenhuma resposta. O velho tem um sobressalto, mexe os lábios; vai até à porta, abre-a e diz: 'Vai e nunca mais voltes... nunca mais.' E deixa-o ir, nas trevas da cidade. O Preso vai."

O Santo Ofício foi criado pelo Papa Gregório IX, em 1231. Quer dizer, em plena Idade Média. 


segunda-feira, 1 de junho de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (39)

Crédito: Biblioteca Mundial

Os Irmãos Karamázov, calhamaço também clássico do mestre russo Fiódor Dostoiévski, trata da história de um cara completamente anômalo que aprendeu a viver tirando proveito de tudo e de todos. Mais do que boçal e oportunista, o personagem Fiódor Pavlovich Karamázov chegou a casar-se duas vezes. Na primeira, juntou seus interesses a uma jovem ingênua e bem dotada em todos os sentidos. Ela não aguenta viver com o malandro e foge com um seminarista que não tinha onde "cair morto", na expressão do próprio romancista. A mulher, Adelaida, acaba morrendo de febre tifoide ou de fome. Ou as duas coisas. Fiódor quando soube da notícia saiu correndo feliz, alegre. Estava rico e livre.

O segundo casamento de Fiódor é feito com uma jovem de 16 anos de idade, órfã, pobre e morando de favor de uma viúva que a agredia o tempo todo.  Sophia, nome da personagem, chegou a tentar o suicídio pendurando-se numa corda. Era linda e acabou caindo nas garras daquele que fora marido de Adelaida. 
Com Adelaida Fiódor teve um filho: Dmitri. 
Com Sophia, Fiódor teve dois filhos: Ivan e Aliócha.
Os três irmãos aqui citados foram abandonados e esquecidos pelo pai e quando pequenos cuidados pelo fiel criado Grigóri.
Essa é uma história de conteúdo terrível, mas que ganha bons contornos com a movimentação dos irmãos. 
Dmitri não termina os estudos e acaba nas fileiras militares do país do seu tempo.  É bonito e desperta a atenção de todos e de todas por anda. Uma das suas pretendidas é ousadamente cobiçada pelo pai. De Dmitri, diga-se.
Ivan torna-se um intelectual, publicando textos polêmicos nos jornais. Um desses textos, O Grande Inquisidor, aborda questões referente aos tribunais eclesiásticos. Ele fala de muitas coisas, coisas de arrepiar. Lembra a presença de Jesus na Terra ressuscitando uma criança e dando luz aos olhos de um cego. Tais milagres são acompanhados por um inquisidor, que determina a soldados que o prendam. Preso e levado às masmorras, Jesus ouve do inquisidor o que não deveria. E não diz nada.
Aliócha, dos três o mais novo, segue a carreira religiosa. E não custa dizer que é o herói do narrador da obra em pauta.
Voltaremos ao assunto. 

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