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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O BAIÃO FOI INVENTADO POR LUIZ GONZAGA

Pisei na bola.
Do poeta Peter Alouche, recebo o puxão de orelhas:
Assis,
para o bem da verdade, o poema DESEJO não é de Victor Hugo. É um poema do autor brasileiro chamado Sergio Jockyman, escrito em 1978 e publicado em 1980. O texto original em português foi traduzido inclusive para o francês (Je te Souhaite ....), para o espanhol (Te deseo). Certamente é um poema magnífico, com estilo muito inspirado em Victor Hugo, mas não é de Victort Hugo.
Fica o registro.
Bom, semana passada, precisamente sexta, assisti o documentário de longa metragem O Homem que Engarrafava Nuvens, cuja pré-estréia ocorrerá amanhã às 21h30 no Espaço Unibanco da Rua Augusta, 1475, Cerqueira Cesar, cá em Sampa.
Vão lá, valerá a pena.
O filme, do pernambucano Lírio Ferreira, conta a trajetória, rica, do compositor cearense de Iguatu Humberto Teixeira, parceiro imortal de Luiz Gonzaga em duas dezenas de clássicos genuinamente brasileiros, dentre os quais Baião, Estrada do Canindé, Juazeiro, Assum Preto e Asa Branca, toada essa que ostenta o primeiro lugar no campo das gravações do repertório nacional, seguida do chorinho Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro.
A gracinha bossa-novista Garota de Ipanema, de Vinicius e Tom, não conta nessa história, pois, além de bobinha, foi composta com óbvios e propositais fragmentos do jazz norte-americano para o mercado internacional, embora sua primeira gravação mundial “furtada” por Pery Ribeiro dos autores à entrada dos 60, no Rio, como me disse, tenha sido na língua que herdamos dos portugueses.
O Homem que Engarrafava Nuvens é bonito do começo ao fim dos seus 102 minutos, que diante dos nossos olhos parece passar em menos tempo.
E isso é positivo, claro.
Um elogio.
Nota mil para a fotografia.
Começa com Denise Dumont atriz aplaudida de outras fitas fazendo uma visita ao Cemitério São João Batista, onde estão sepultos os restos do pai que ela diz pouco ou nada saber.
Belo e triste.
Positivo também é esse recurso, para mostrar um personagem de tão grande importância na nossa música popular, como o foi Teixeira, desconhecido da família; da única filha, principalmente.
O roteiro, também assinado por Ferreira, flui com naturalidade. Peca, porém, aqui e ali, pelo excesso de depoimentos...
O cantor e compositor Gilberto Gil, por exemplo, do alto da sua sabedoria, diz que o baião vem das bandas da Península Ibérica. Ora, ora...
A não ser que ele, Gil, tenha querido se referir aos poetas repentistas de quem Gonzaga tirou a batida do baião e até o nome.
Revelo isso no livro Eu Vou Contar pra Vocês, de 1990.
Gonzaga, à página 53:
“...O baião em sua forma primitiva não era um gênero musical. Ele existia como uma característica, como uma introdução dos cantadores de viola. Era um ritmo, uma dança. Antes de afinar a viola, o cantador faz uma introdução. Faz assim (imitando um cantador): tom, tom, tom, tim, tim, tim, tam, tam, tam, pam, pam, pam... Minha viola/Já afinei o meu bordão.... d-tém, d-tém, d-tem...”.
No filme emocionante são algumas passagens, como aquela em que Denise se encontra com a mãe, Margarida.
Tocante. Dói pra xuxu.
Na verdade, e a bem da verdade, acho que esse filme lava a alma de Denise.
Com O Homem que Engarrafava Nuvens Denise Dumont conseguiu reconhecer o pai e um pouco do Nordeste que ela também desconhecia. Mais: salvou um fantasma da sua vida.
E isso também é positivo.
No tocante a Lírio Ferreira, particularmente, uma coisa: ele se recupera do desmantelo que foi fazer Cartola.
Que novos filmes no campo documental venham, como esse O Homem que Engarrafava Nuvens.
Ah! Sim, sem a fala de Teixeira no link da história, em off, dificilmente o filme se concretizaria. Melhor: sobreviveria.
Parabéns a todos que nele se envolveram.
Mas não precisava deixar o Rei do Baião em plano tão secundário, pois, enfim, foi ele, Gonzaga, quem procurou Humberto Teixeira num dia de 45 para pôr letras nas suas melodias e histórias baiônicas.
Um detalhe: Asa Branca é um tema popular de Pernambuco e Paraíba.

Um comentário:

Marco Haurélio disse...

Gonzaga era a música, Humberto a poesia, e ambos se completavam maravilhosamente.
Valeu, Assis, pela dica!

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