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segunda-feira, 20 de junho de 2011

MORREU RAVEL, DA DUPLA COM O IRMÃO DOM

A dupla de irmãos artistas Dom & Ravel não mais existe.
Primeiro, a dupla se separou.
Dom, de batismo Eustáquio Gomes de Farias, foi para um lado, Ravel para outro.
Dom morreu em dezembro de 2000, vítima de câncer.
Ravel, de batismo Eduardo, era irmão de Dom.
Os dois nasceram na cidade cearense de Itaiçaba.
Ravel foi vítima de um ataque cardíaco quinta 16, enquanto tomava banho em casa.
O corpo dele foi sepultado no dia seguinte no Cemitério do Araçá, zona oeste da capital paulista diante de familiares e poucos amigos.
Há dois anos, lancei o livro Pascalingundum – Os Eternos Demônios da Garoa. À página 120, escrevi:

1971 – Agentes da Polícia Federal recolhem cópias do compacto nº. 365.315 das lojas e do depósito da Philips, no Rio, contendo o samba Apesar de Você, de Chico Buarque, na voz de Chico, enquanto o Demônios lança a mesma música ao mercado, sem problema. A música era uma resposta à ditadura implantada no País em 1964 e institucionalizada pelo AI-5, redigido e assinado pelo então ministro da Justiça Luís Antônio da Gama e Silva (1913-79). Em 1978, o ministro declarou ao jornal Folha de S.Paulo que “Essa música é uma beleza. A melodia é linda e a letra exprime um estado de alma e juventude, o que é perfeitamente compreensível. Aliás, apreciando, como eu aprecio a arte de Chico Buarque de Hollanda, só posso ter palavras de elogio ao grande compositor dos nossos tempos”. Cinco anos antes o Demônios havia gravado A Banda, também de Chico. Antônio Gomes Neto, o Toninho (do Demônios da Garoa), se vangloriava do fato de a polícia secreta do Exército “vasculhar a vida do grupo e não encontrar nada”. O Demônios gravou canções de protesto e patrióticas, como o fizeram no passado Elisa Coelho (Viva o Meu Brasil), Linda Batista (Desperta Brasil), Francisco Alves (O V da Vitória), Augusto Calheiros (Céu do Meu Brasil), Vicente Celestino (Terra Virgem e Hino Nacional Brasileiro) e outros grandes intérpretes. Nesse ano de 71 o Demônios gravou a macha Praia de Iracema, de Dom e Ravel, dupla que surgiu na área musical em 1968 e acabou execrada por gregos e troianos, isto é: pela militância política de esquerda e pelos colegas de profissão. Ravel, de batismo Eduardo Gomes de Farias, cearense, desabafou para uma platéia na Biblioteca Temática de Música Cassiano Ricardo do Tatuapé, na tarde do dia 8 de novembro de 2008: “É tudo mentira o que têm dito de nós. Somos vítimas. Somos injustiçados e como tal condenados e queimados vivos na fogueira da irracionalidade humana. Nunca apoiamos a violência, nunca apoiamos a direita. Sempre fomos apolíticos. Nunca fizemos música por encomenda, tampouco para os militares. Nossas músicas tentavam despertar a beleza do Brasil nos brasileiros, pois tínhamos o melhor futebol, o melhor carnaval e a beleza e o charme da mulher. Sempre amamos o Brasil. Mas havia inveja, porque ganhávamos muito dinheiro, mais até do que Roberto Carlos. Basta verificar os apontamentos dos arquivos no Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, Ecad, que, aliás, estou processando...”. Dom e Ravel foram perseguidos e censurados e tiveram a carreira bruscamente interrompida por agentes da ditadura. Na verdade, ambos surgiram numa época errada. Cantavam sambas e marchas de exaltação, como Eu te Amo Meu Brasil, Só o Amor Constrói, Você Também é Responsável, Obrigado ao Homem do Campo e Canção da Fraternidade, que levou o Papa João Paulo II a lhes parabenizar em mensagem de próprio punho pela beleza dos versos. Ravel lembra que Você Também é Responsável provocou a criação do Mobral, e Obrigado ao Homem do Campo motivou o general-presidente João Batista de Oliveira Figueiredo (1918-99) a distribuir nos meios de comunicação o slogan Plante que o João Garante, o que reforçou a idéia de que os dois stariam em estreita sintonia. Após recusar a pecha de brega, Ravel conta que junto com o irmão chegou a receber tiros durante uma apresentação em Vilhena, RO, e ameaças de morte em várias ocasiões. “Hoje não quero saber da imprensa”.

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