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sexta-feira, 29 de julho de 2011

JOSÉ RAMOS TINHORÃO E A SUA GRANDE OBRA

Acabo de ler do mais completo investigador da história da música brasileira, José Ramos Tinhorão, mais um belo livro a favor da clareza histórica, O Rasga: uma Dança Negro-Portuguesa, com a chancela da Editora 34.
Esse é o 26º volume de uma obra riquíssima e que cresce de importância desde 1966, ano que o autor lançou pela Civilização Brasileira A Província e o Naturalismo (esgotado) e pela Saga (ambas editoras cariocas), Música Popular: um Tema em Debate (disponível pela já citada 34).
Tinhorão é aquele cara que os acadêmicos lêem com reservas e apontam com discriminação, depois de o engolirem como caviar e o arrotarem como salsicha.
As investigações em torno do negro (foi em torno da figura do negro que surgiu o rasga) se iniciaram há duas décadas, na terra de Camões.
O primeiro resultado dessas investigações apareceu no livro Os Negros em Portugal: uma Presença Silenciosa (Editorial Caminho, Lisboa, 1988).
Antes disso ele trilhou os caminhos do fado desde o Brasil, provocando inadvertidamente um ataque de nervos na diva da canção portuguesa Amália Rodrigues, que morreu magoada com o investigador.
O rasga como dança (e música) deixou rastros a partir da segunda metade do século 19, entre os negros e mulatos de Lisboa e teve no paraense Cezar Nunes um de seus destacados intérpretes.
A prova disso está em Batuque de Pretos (Odeon Record, nº 108102) e na Imitação d´um Batuque Africano (Victor Record, nº 98702), faixas constantes dos referidos discos.
Mas para O Rasga: uma Dança Negro-Portuguesa se tornar realidade, era preciso achar a pedra que faltava como solução do quebra-cabeça que o próprio Tinhorão arrumou para si, que foi essa pesquisa.
A solução apareceu ocasionalmente quando lhe pus nas mãos um velho disco de 76 voltas (Odeon nº 43191) importado, com o ator-cantor português Franco d´Almeida Lisboa, cantando.
Nessa gravação, Lisboa é acompanhado por um piano e não por um ganzá, canza ou reco-reco, o que seria natural por causa da origem do ritmo, que já não existe.
E pensar que tudo isso começou com visitas a alfarrabistas...
O encontro de um exemplar do Almanak Processo do Rasga (Paródia ao Processo do Cancan) para 1880, que tinha como personagem um negro de nome Caetano Rasga Roupa, e a leitura discreta de folhetos de cordel fechou a investigação.
Para completar, O Rasga: uma Dança Negro-Portuguesa traz encartado um CD, como prova documental de suas incursões na poeira do tempo (www.editora34.com.br).

Um comentário:

Nireuda Longobardi disse...

Querido Assis,

Você sempre nos surpreendendo com matérias que apresentam questões que nos faz refletir sobre a história do nosso povo e cultura.

Parabéns!

Beijo,
Nireuda

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