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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

DOMINGOS CALDAS BARBOSA, TINHORÃO E CORDEL

Atenção amigos e inimigos daqui e d´além mar! Espalhem a boa nova: há livro novo de Tinhorão na praça. Intitula-se Domingos Caldas Barbosa, o Poeta da Viola, da Modinha e do Lundu (1740-1800).
E mais do que depressa, aviso: a pérola pode ser achada nas boas casas do ramo, tanto de Portugal quanto do Brasil, portanto a ela só não terá acesso quem não quiser ou for doido, besta ou analfabeto de pai e mãe, pois verdade seja dita: não há desculpa que possa justificar a sua não-leitura.
Dito isto, digo mais: um dos caminhos que levam ao prazer do conhecimento histórico do Brasil, a partir da música, traz o nome completo escrito em letras de fogo: José Ramos Tinhorão, autor de vintena e meia de livros que poderiam também ser achados nas escolas públicas e privadas do País, como leitura extracurricular.
Em Portugal, Domingos Caldas Barbosa, o Poeta da Viola, da Modinha e do Lundu (1740-1800) foi lançado em clima pomposo pela Editorial Caminho; e no Brasil, discretamente, pela Editora 34. Uma questão de estilo, certamente...
Nesse novo mergulho na traiçoeira e embolorada poeira do tempo em busca de novidades históricas, o resoluto Tinhorão traça um perfil completo do poeta e violeiro Domingos Caldas Barbosa, que se tornou padre em Portugal e protegido dos nobres da família Vasconcelos e Sousa. Caldas Barbosa era filho de um português e de uma africana alforriada nascida em Angola. Para escrever o livro Domingos Caldas Barbosa, o Poeta da Viola, da Modinha e do Lundu (1740-1800), o seu autor demorou anos fazendo pesquisa nos arquivos públicos do Brasil e de Portugal. Fez isso por iniciativa e esforço próprios, como é do seu feitio; sem favores, sem facilidades ou benesses quaisquer do Estado corroído pela praga da corrupção política.
Com a fé e a paciência de Jó aliadas à perspicácia sem limites de Sherlock, Poirot e Morse juntos, o incansável pesquisador, sempre conclusivo nos seus trabalhos, inteirou-se de tudo ou quase tudo quanto foi escrito —e publicado — sobre o personagem cuja vida escolheu para deslindar. Da sua leitura crítica e arqueológica não escaparam raridades como Domingos Caldas Barbosa, de Levy Santos (Typ. G. Leuzinger, 1880), Caldas Barbosa, de Luís da Câmara Cascudo (Livraria Agir, 1958), Domingos Caldas Barbosa: Compositor e Tangedor de Viola?, de Manuel Morais (sem indicação de editora e ano da publicação) e A Musa Encomendada: Caldas Barbosa e a Poética Neoclássica, tese bem feita de doutorado assinada por Adriana de Campos Rennó, professora de Teoria da Literatura da Universidade Estadual Paulista, Unesp.
Domingos Caldas Barbosa nasceu no Rio de Janeiro a quatro de agosto de 1738, como dizem uns; ou nesse dia e mês de 1740, como acredita o autor, e morreu em setembro ou novembro de 1800, em Lisboa, como ainda se especula.
Por falta de informações confiáveis, sequer se sabia, até agora, o nome dos seus pais: Antônio, que era funcionário da Fazenda em Angola; e Antônia de Jesus, de acordo com as pesquisas do autor.
O biografado de Tinhorão não tinha sequer 30 anos de idade quando deixou o Brasil para estudar leis e cânones na Universidade de Coimbra, Portugal, após formar-se mestre de Artes no Colégio dos Jesuítas, no Rio. Era um bon vivant, boêmio, músico e poeta de boa qualidade que se sentia bem presenteando seus tantos admiradores com versos improvisados ao som de uma viola de arame que ele mesmo tocava com prazer e maestria.
Tercetos e quadras eram as formas poéticas de que mais gostava. Exemplo:
Tem nhánhá certo nhônhô
Não temo que me desbanque Porque eu sou calda de açúcar
E ele apenas mel de tanque.
Com a viola colada no peito e se apresentando em todo e qualquer lugar aos quais era chamado, Domingos Caldas Barbosa, sem dúvida o primeiro artista popular brasileiro a fazer sucesso e a se sair bem no exterior, a partir da corte de Maria I, A Piedosa, acabou despertando a inveja de alguns contemporâneos, como o satírico e pornográfico poeta Manuel Maria du Bocage (1765-1805), um ás na arte de ridicularizar e destruir os adversários. Da sua ira e garras não escapou Barbosa:
Nojenta prole da rainha Ginga,
Sabujo ladrador, cara de mico,
Loquaz saguim, burlesco Teodorico,
Osga torrada, estúpido rezinga;
E não te acuso de poeta pinga; 
Tens lido o mestre Inácio e o bom Supico;
De ocas idéias tens o casco rico,
Mas teus versos tresandam a catinga...
No primeiro dos dois tercetos que encerram esse poema (Soneto ao Árcade de Lereno), Bocage parece também ter feito questão de não economizar nos adjetivos para desbancar o seu desafeto, como se vê aqui: "cafre", "néscio", "parvo" e "trampa". Palavrões.
Embora considerado uma estrela de primeira grandeza da viola e do repentismo lusitanos da era setecentista, Domingos Caldas Barbosa (ou Lereno Selenuntino, pseudônimo que adotou após aderir a Arcádia Romana), deve ser lembrado como idealizador das tertúlias e inspirado autor e intérprete de lundus e modinhas; principal divulgador da modinha como gênero musical e criador do próprio termo (modinha) popularizado em Portugal e em terras vizinhas, antes de virar moda no Brasil do século XIX e meados do século XX.
Caldas Barbosa, tradutor de Voltaire e de outros grandes nomes da literatura mundial da sua época, foi o primeiro erudito, a rigor sem formação acadêmica, que melhor traduziu e mostrou a alma brasileira em Portugal, cantando a graça das mulatas, os amores e a saudade que deixou para trás.
Cuidei que o gosto de amor
Fosse sempre o mesmo gosto
Mas um amor brasileiro
Eu não sei porque é mais doce.
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Coração, que tens com Lídia?
Desde que seus olhos vi,
Pulas e bates no peito
Tape, tape, tape ti;

Coração não goste dela
Que ela não gosta de ti
Em meio a suas pesquisas, Tinhorão encontrou textos inéditos de Caldas Barbosa; um dedicado "A El Rey N. Senhor" e outro "A Rainha e N. Senhora", por exemplo. Encontrou também curiosidades do mundo da literatura de cordel. Nesse ponto — eu acredito — é mais do que certo que o leitor não deixará de fazer paralelo com o Brasil dos dias de hoje, ligando o cordelista leiriense-lisboeta José Daniel Rodrigues da Costa (1757-1832) ao cordelista paraibano João Melquíades Ferreira da Silva (1869-1933), autor controverso de algumas histórias clássicas da literatura popular, como O Pavão Misterioso.
Confiram.
A importância do personagem biografado e analisado por José Ramos Tinhorão no campo da música popular pode ser avaliada pela obra que deixou reunida em dois pequenos volumes, intitulados Viola de Lereno, publicados em Portugal nos anos de 1798 e 1826, respectivamente.

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