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terça-feira, 30 de janeiro de 2018

ALÔ BRASIL, TINHORÃO ESTÁ VIVO!





Garimpeiro de bom quilate, José Ramos Tinhorão é o que sempre mostrou ser: um brasileiro de valor.
Detonado pela esquerda e pela direita, Tinhorão chega aos 90 anos de idade incólume e lépido.
Advogado e jornalista, Tinhorão sempre soube separar o joio do trigo. Nunca defendeu causa alguma em nenhum tribunal, mas como jornalista marcou profundamente a vida brasileira, especialmente a cultural. Detalhe: Nunca deixou de dizer o que quis, seja no rádio, na tevê ou nos seus escritos em jornais e revistas.
Tinhorão iniciou a vida profissional de jornalista no extinto Diário Carioca, do Rio de Janeiro, no começo dos anos de 1950. No fim dessa década, ele criou o que ficou conhecido como "texto-legenda". Texto-legenda é o texto feito a partir de uma fotografia, que se baseia entre o texto jornalístico propriamente dito e o texto poético, fora de pauta.
Textos-legenda de Tinhorão chegaram a ter autoria atribuída ao poeta maranhense Ferreira Gullar.
Até hoje, Tinhorão é considerado um dos melhores textos do jornalismo brasileiro.
No Caderno B do Jornal do Brasil, Tinhorão assinou a mais importante coluna semanal sobre música popular brasileira, intitulada Primeiras Aulas de Samba, que assinava com seu colega Sérgio Cabral.
No campo da música popular, Tinhorão tornou-se a maior referência. A sua obra chega a casa dos 30 títulos, metade deles lançada ou relançada pela Editora 34.
José Ramos Tinhorão, santista nascido no dia 7 de fevereiro de 1928, meteu-se fundo pelas veredas da história, da cultura popular brasileira. Entrevistou quase todos os grandes criadores de música dos últimos 60 anos, entre os quais Donga, Pixinguinha, João da Bahiana, Ismael Silva, Almirante, Luiz Gonzaga e Nelson Cavaquinho, que, aliás, abriu a coluna Música Popular assinada por Tinhorão a partir de Janeiro de 1974, no Caderno B do Jornal do Brasil. 
Os bossanovistas só faltaram perder o juízo por causa dos textos concretos publicados por Tinhorão.
O nome de batismo de Tinhorão é José Ramos, só José Ramos. Tinhorão foi um "sobrenome" dado por um dos seus chefes de redação, no Rio. No caso, nada a ver com a venenosa planta que carrega esse nome.
Tom Jobim detestava Tinhorão. Diz a lenda que Jobim teria comprado um vaso com essa planta e sobre ela fazia xixi toda a vez que chegava em casa meio chumbado.
Tem uma música que Elis Regina gravou, Querelas do Brasil, composta depois que Tinhorão disse que o melhor de João Bosco era Aldir Blanc, seu parceiro.


Tinhorão por Nair de Teffé

Há muito disse me disse sobre José Ramos Tinhorão. Sobre ele a jornalista, poeta e professora universitária paulistana, Elizabeth Lorenzotti escreveu Tinhorão o Legendário, publicado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo em 2010. Nesse livro há histórias do Arco da Velha e até a reprodução de uma caricatura de Tinhorão feita por Nair de Teffé, Rian, a primeira caricaturista do Brasil (acima). Não custa lembrar que Nair, filha do Barão de Teffé foi a mulher do marechal presidente Hermes da Fonseca (1910-1914). Detalhe: Em março de 1977, Tinhorão descobriu Nair de Tefé morando sozinha nos arrabaldes do Rio de Janeiro. Como repórter deu um furo de reportagem nacional.

Muito já se escreveu sobre Tinhorão e muito ainda se escreverá sobre ele. Em resumo: Tinhorão é duro na queda, é árvore que não cai, que sobrevive a todas as intempéries. A propósito, o cartunista Fausto o interpreta de modo perfeito, acima.
Não custa dizer, e é sempre importante dizer, que a obra de Tinhorão é a mais completa no campo da pesquisa musical feita até hoje no País. Aliás, é impossível alguém escrever sobre música popular brasileira sem citá-lo. Ah! uma curiosidade: no filme Bonitinha mas ordinária, de Nelson Rodrigues, Tinhorão é personagem... Agora pura provocação: ouçam o grupo musical Filarmônica de Passárgada, interpretando a saborosa canção Enfartando Tinhorão.



"Acho que estou ficando velho", disse-me outro dia ao queixar-se de uma dorzinha nas costas. Em outra ocasião disse-me "ficar velho é uma merda".

Digam o que disserem de Tinhorão, mas a sua obra é inconteste, de valor imensurável. Tinhorão é o mais importante e longevo estudioso da cultura popular brasileira. Nenhum estudioso dessa cultura viveu tanto para mostrar a grandeza do país através da sua história.
Cadê os repórteres de revistas, jornais e tevês que não o entrevistam? Ele tem ainda muito o que contar.


COMEMORAÇÃO


No próximo dia 10, a partir das 15 hs, amigos e "inimigos" de Tinhorão vão se reunir no Bar do Raí, ali na Vila Buarque, centro paulistano. A ideia é brindar os 90 anos de idade do incansável e polêmico José Ramos Tinhorão, vamos? O dia 10 é um sábado de carnaval.


quarta-feira, 3 de agosto de 2022

UM ANO SEM JOSÉ RAMOS TINHORÃO

Em 1966, o cantor, compositor e instrumentista uruguaio, naturalizado, Taiguara Chalar da Silva tinha 21 anos de idade e um LP na praça.
Em 1966 o jornalista e crítico musical de Santos, SP, José Ramos Tinhorão tinha 38 anos de idade e um livro na praça.
Naquele já distante 66, Taiguara e a cantora Claudette Soares estavam lotando um teatro de gente em São Paulo com o show 1° Tempo: 5×0.
O show de Taiguara e Claudete, que viraria LP pela Philips, começava com Taiguara soltando os cachorros pra riba do Tinhorão. Claudete pedia pra que ele se acalmasse.
O papo era o livro que Tinhorão acabara de lançar: Música Popular, Um Tema em Debate (Editora Saga).
Dramaticamente, no show, Taiguara atira o livro do Tinhorão numa lata de lixo. Simbolicamente.
Nesse livro, Tinhorão já punha suas unhinhas pra fora detonando compositores brasileiros por suas obras musicalmente impuras, quer dizer: obras mescladas com tons estrangeiros. Entre esses, Vinícius e Tom Jobim. Papas da Bossa Nova, assim reconhecidos.
E foi aí que Claudete "pediu" ao parceiro que maneirasse na fala, pois "o livro de Tinhorão dura cinco minutos e a Bossa Nova já está fazendo dez anos". E até citava a página 18 do livro que, a certa altura, podia-se e pode-se ler:

JOHNNY ALF, pianista (mulato brasileiro de nome americano);
ANTÔNIO JOBIM, maestro (compositor repetidamente acusado de apropriar-se de músicas norte-americanas, esconde o nome Antônio sob o apelido americanizado de Tom);
VINÍCIUS DE MORAIS, poeta (velho compositor desconhecido até o advento da bossa nova, já em 1933 conseguia gravar o fox-canção Dor de Uma Saudade, imitando o ritmo norte-americano)
JOÃO GILBERTO, violonista (cidadão baiano, conhecido na intimidade por Gibi, de quem chegou a anunciar-se que ia requerer a cidadania norte-americana);
BADEN POWELL, violonista (contratado para tocar nos Estados Unidos, veio ao Brasil apenas para casar, regressando em seguida. Seu nome vem da admiração alienada do pai pelo general imperialista inglês criador do escotismo);
LAURINDO ALMEIDA, violonista (foi para os Estados Unidos há 18 anos na esteira do sucesso de Carmem Miranda e hoje é considerado mais norte-americano que brasileiro);
RONALDO BÔSCOLI, jornalista (responsável pela publicidade inicial da bossa nova, foi preterido pelo colega Sílvio Túlio Cardoso na viagem aos Estados Unidos paga pelo Itamarati, e que redundou no fracasso do espetáculo do Carnegie Hall);
CARLOS LIRA, violonista (autor da música do samba Mr. Golden, de parceria com Daniel Caetano, pretende a liderança da ala nacionalista da bossa nova com samba Influência do Jazz).

Pois é, Tinhorão era do tipo de chutar o pau da barraca e soltar um sorrisinho sacana de lado. Mais: do tipo mata a cobra e mostra o pau, assim dito no meu Nordeste. E com isso ganhou a ira de muita gente famosa, como ele próprio exemplifica no texto aí recuado.
José Ramos Tinhorão foi um brasileiro que respeitou e amou profundamente o Brasil. Antes dele, não havia uma história da nossa música popular. Não havia porque não houve quem a fizesse com o detalhamento necessário que o tema exigia.
Eu já disse e torno a dizer que a obra de Tinhorão há muito deveria estar sendo estudada na rede escolar, pública e particular.
Tinhorão, esse grande personagem da vida brasileira, nasceu na cidade paulista de Santos e aos nove anos de idade foi com os pais, Luiz e Amélia, crescer no Rio de Janeiro. Fez Jornalismo e Direito. Como jornalista, marcou.
Antes de virar o nome que virou,Tinhorão vivia de "free" fazendo reportagens e artigos pra revistas e jornais do Rio.
Em 1952, o nosso personagem foi levado por Armando Nogueira (1927-2010) para trabalhar como revisor do Diário Carioca. E foi crescendo, crescendo até chegar às páginas do Jornal do Brasil, já com o pseudônimo Tinhorão, acrescentado ao nome de batismo José Ramos. E foi no JB que Reynaldo Jardim o incumbiu de fazer reportagens e entrevistas com os bam-bam-bans do samba da época: João da Baiana, Donga, Heitor dos Prazeres, Bide e outros mais. Até Pixinguinha ele entrevistou. E contou-me um dia "cheguei no apartamento dele, do tipo kitchenette feito pelo Governo e ele se espantou quando viu os discos que gravou nas minhas mãos. De 78 RPM. Emocionou-se".
A história de José Ramos Tinhorão é incrível. Ele chegou, como chegamos, passeou e partiu. No
decorrer desse passeio, ele erigiu uma obra fantástica constituída de uma trintena de livros fundamentais para a compreensão musical do nosso País.
Tudo começa, a rigor, com o primeiro dos 34 textos da série intitulada Primeiras Lições de Samba, publicado no dia 22 de dezembro de 1961 no Caderno B do JB sob o título Da Serra da Favela ao Morro da Favela: em matéria de samba a primeira umbigada é o baiano quem dá.
Essa série, que findou no dia 8 de novembro de 1962, incluiu 23 textos sobre Samba, sete sobre Bossa Nova e quatro sobre Choro. Deu o que falar. A propósito, Tinhorão foi um dos introdutores do choro no Japão.
Explico reproduzindo o seguinte:

Estimado Senhor J.R. Tinhorão,
Esta gravação é boa colheita da semente que eu plantei no Japão desde década de 1950 por sua orientação.
Muito obrigado
15 de dezembro de 2014
Hidenori Sakao
Capitão-de-Fragata
Ex-assessor Cultural do Consulado do Japão em São Paulo

A semente plantada por José Ramos Tinhorão floresceu e ainda há de florescer, aqui e alhures.
Quem não conheceu Tinhorão de perto é até natural que o ache ou o achasse um chato de galocha. Bobagem. Não era.
Tinhorão foi um ser agradabilíssimo, afável, solidário.
Muitas vezes Tinhorão chegava a minha casa e divertia-se com os gatinhos da minha filha Clarissa, que pulavam no seu colo.
No primeiro texto que escreveu na série Primeiras Lições de Samba, Tinhorão inseriu como parceiro seu amigo Sérgio Cabral. Mas essa é outra história, até porque Cabral não participou da elaboração do referido texto.
Os discos de Taiguara estão fora do mercado, infelizmente.
Os livros de Tinhorão, todos, estão à disposição no mercado.
José Ramos Tinhorão, figura ímpar da historiografia musical do Brasil, partiu para a Eternidade no dia 3 de agosto de 2021.
E sobre ele, por não ter o que fazer, escrevi:

Nessa nossa terra tem
Xote, xamego e canção
Frevo e maracatu
Samba, batuque e baião
E poeta popular
Tirando verso do chão.

É uma terra bonita
Que dá vida, dá lição
Ensinando a sua gente
A ter mais educação
A ler para entender
O Brasil de Tinhorão

Esse mestre logo pôs
A cultura em discussão
Pra depressa entender
Sua origem e formação
Ora juntos aplaudamos
J.R.Tinhorão


A notícia do encantamento de José Ramos Tinhorão ocupou 59 segundos do Jornal Nacional, edição de 3 de agosto de 2021: 
 

E TAMBÉM LEIA: VIVA JOSÉ RAMOS TINHORÃO?TINHORÃO, UMA LEITURA NECESSÁRIAADEUS, TINHORÃO
E OUÇA TINHORÃO PALESTRANDO: O SAMBA - DAS ORIGENS AO PELO TELEFONE
QUER SABER MAIS? Então leia o livro Tinhorão - O Legendário, de Elizabeth Lorenzotti (Imprensa Oficial de São Paulo, págs 280).

Foto e reproduções de Flor Maria e Anna da Hora
Charge: Fausto

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

TODA PERDA É LUTO. ESTOU DE LUTO

 
Tinhorão, Assis Angelo e Téo Azevedo no Instituto Memória Brasil

Eu tive dois grandes professores: Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) e José Ramos Tinhorão (1928-2021). 
Aprendi, aprendi muito com eles.
Cascudo me apresentou o Nordeste como ele é e Tinhorão, a história do Brasil a partir da nossa música popular. Como ela é.
O Brasil é o 5º maior país do planeta, territorialmente e populacionalmente falando.
Somos um povo que vive num lugar sem terremotos e tsunamis.
Somos um povo simples e trabalhador.
Somos um povo de gênios, em todos os cantos da vida cotidiana. E multifacetado.
Fiquei triste, muito triste quando Cascudo partiu para a Eternidade.
Também fiquei triste quando Tinhorão partiu para a Eternidade.
Perdi meu pai e minha mãe há muito tempo.
Eu era menino de calça curta quando os meus pais partiram. Ele Severino, ela uma Maria.
O luto faz parte da minha vida. Até parece que o luto me persegue: além dos meus pais, perdi irmãos e muita gente querida. E agora lá se vai Tinhorão.
Toda perda é luto.
Fiquei de luto quando perdi o par de olhos que iluminava a minha cara redonda de nordestino desembestado na vida.
Maria Rosa, aposentada historiadora da USP e companheira de Tinhorão por muitos anos, telefonou-me para falar do sucedido.
Tinhorão sofreu um AVC no domingo de 27 de janeiro de 2019. Dois dias antes, ele esteve comigo bebericando vinho. 
"Ele sofreu muito, antes de morrer", disse-me Maria.
Tinhorão morreu num hospital do Alto da Lapa, SP.
Pra muita gente, ele era um intelectual raivoso. Não era. Quem privou da sua amizade sabe disso. Na verdade, na verdade, ele era um tremendo brincalhão.
Um dia, Tinhorão chegou cá em casa dizendo que estava cansado da vida. "Acho que estou ocupando espaço alheio", disse. E disse sério. Acrescentando: "Ser velho é uma merda!".
Tinhorão era ateu.
A obra desse brasileiro é importantíssima, toda desenvolvida pelo viés marxista-leninista.
Tinhorão dedicou todo o seu tempo a entender e explicar o Brasil, para brasileiros. Houve momentos que sofreu com isso, sofreu por sentir-se incompreendido. Muito.
Chamavam-no de crítico musical. Ele não gostava disso. "Eu sou um historiador", disse-me mais de uma vez.
Tinhorão acreditava no povo e na força do povo. Casou-se com a filha de um general... Não deu certo. Um dia disse à mulher: "Eu vou ali à padaria e volto já". E não voltou. 
Eu conheci José Ramos Tinhorão num dia qualquer de 1976 ou 1977. No tempo em que morava numa kitnet da rua Maria Antônia, centro paulistano.
Viramos amigos, desde então.
O tempo passou e surpresas o tempo me deu. Fiquei cego, dos olhos. Só dos olhos. Ao saber disso, Tinhorão ficou mais perto de mim. E eram boas as horas que passávamos conversando, trocando ideias. "Você é um menino", provocava. E rindo, "O que vamos ler hoje?". E aí pegava um livro, dentre milhares que há aqui em casa, e lia. 
Tinhorão e Fausto, no Instituto Memória Brasil
Às vezes ele trazia livros de casa para ler para mim. Revistas, às vezes.
Cá em casa foram muitas as vezes que a Tinhorão apresentei pessoas, como Geraldo Vandré e Audálio Dantas. E tanta gente.
Certa vez, numa discussão agradabilíssima, Vandré tentou negar ter sido bossa-novista. Tinhorão riu. E explicou cantando várias músicas do repertório do primeiro LP do autor de Pra Não Dizer que Não Falei de Flores. Ao fim, rimos todos.
Lembro de Tinhorão ouvindo atentamente o mineiro Téo Azevedo tocando viola e cantando, cá em casa.
Lembro também de Tinhorão ouvindo atentamente o cartunista Fausto. E Fausto encantado, dizendo: "Que alegria lhe conhecer, Tinhorão".
Muitas e muitas são as histórias que tenho com Tinhorão. 
Em agosto de 2015, recebi um colega do Estadão para falar coisas. Lá pras tantas, chegou Tinhorão. Era uma sexta-feira. Por favor, leiam: Depois de ficar cego, Assis Ângelo luta para digitalizar acervo
É isso. 
Ah, sim! Ia me esquecendo: meu amigo, minha amiga, você já ouviu Querelas do Brasil? Clique:

LEIA MAIS:

TINHORÃO É MADEIRA QUE CUPIM NÃO RÓI

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

PROCURA-SE TINHORÃO


O jornalista e historiador José Ramos Tinhorão faria, ou fará, 93 anos de idade no dia 7 de fevereiro de 2021. 
Digo “faria” porque não sei por onde ele anda. 
Um dia antes do aniversário de fundação do município de São Paulo, em janeiro de 2019, Tinhorão sofreu um AVC no banheiro do apartamento onde morava, ou mora. 
O dia ainda raiava. 
Depois de ser socorrido às pressas por Maria Rosa, a esposa, Tinhorão perdeu a fala e, provavelmente, noções do mundo que o trouxe até nós. 
Muita gente guarda a imagem de um Tinhorão raivoso, ranzinza, rabugento etc. Nada disso. 
Tinhorão sempre foi um gozador. Mais de uma vez me disse que já cumprira a missão de fazer o que fez. Portanto, já passava da hora de ir-se embora. “Estou aqui só ocupando o lugar de outros”. 
Por onde andará Tinhorão? 
Tinhorão nasceu em Santos, SP. Aos nove anos foi morar no Rio de Janeiro, junto com pai, mãe e irmãos. 
Começou a carreira fazendo freelas para jornais e revistas, nos fins dos anos 1940. 
Deslanchou no jornalismo como redator do Diário Carioca e seguiu em frente no Jornal do Brasil, entre outros. 
Tinhorão é marca muito forte do jornalismo e da História do Brasil. 
Foi um dos primeiros jornalistas de quem me aproximei ao trocar João Pessoa por São Paulo, em fins de 1976 ou 1977. Viramos amigos. Nos víamos sempre. 
Depois que perdi a visão dos olhos, Tinhorão passou a frequentar a minha casa duas vezes por semana. Quartas e sextas. Conversávamos muito. Foi a maneira que ele encontrou, acho, pra me distrair dos momentos tão difíceis que enfrentava. 
Tinhorão “ganhou” muitos inimigos, principalmente no meio musical. 
Sempre foi pública e notória a birra dele com a Bossa Nova, que assim definia: “A Bossa Nova é uma variante americana do samba, tão brasileira como um carro montado no Brasil”. Uma vez disse que o melhor de João Bosco era Aldir Blanc. Ganhou uma música e muitas críticas. A música, Querelas do Brasil (Bosco/ Blanc), foi sucesso na voz de Elis Regina. Ouça! 
Já pedi a muitos colegas e amigos que tentassem localizar o paradeiro de Tinhorão. Mas, até agora, nada. Pra ele compus estes versos: 

Nessa nossa terra tem 
Xote, xamego e canção 
Frevo e maracatu 
Samba, batuque e baião 
E poeta popular 
Tirando verso do chão. 

É uma terra bonita 
Que dá vida, dá lição 
Ensinando a sua gente 
A ter mais educação 
A ler para entender 
O Brasil de Tinhorão 

Esse mestre logo pôs 
A cultura em discussão 
Pra depressa entender 
Sua origem e formação 
Ora juntos aplaudamos 
J.R.Tinhorão.

Escrevi muito a respeito de Tinhorão e o entrevistei para jornais como o Diário Popular, já extinto. Matérias enormes, de uma ou duas páginas. Mas ele preferia matérias opinativas sobre suas obras do que entrevistas pessoais. 
Ele também escreveu bastante a meu respeito. Até prefácio de livro meu ele assinou. E em jornais chegou a dizer que foi no meu acervo que encontrou a prova em disco que tanto procurava pra registrar a existência de um tipo de música e dança de Portugal, o Rasga. Quando lhe pus nas mãos o disco de 78 rpm com uma gravação do Rasga, feita pelo cantor Franco d’Almeida Lisboa, os olhos dele brilharam. Se fosse grego, teria dito: Eureka! 
No livro O Rasga, foi inserido um CD com a música contida no disco que lhe presenteei. 

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

TINHORÃO ERA DOS BONS

Assis, Tinhorão, Cilene,
Colibri e Davi

O cantor, compositor e instrumentista paraibano Vital Farias teve o seu nome nacionalmente reconhecido primeiramente pelo jornalista, historiador e crítico musical José Ramos Tinhorão. Isso em 1978. Detalhe: Tinhorão não gostava de ser chamado de crítico.
Vital telefonou há pouco para dizer da gratidão que tinha por Tinhorão. Na visão de Vital, Tinhorão foi um diferencial entre os jornalistas que escrevem sobre discos e músicas. 
A mesma coisa diz o compositor e instrumentista Osvaldinho da Cuíca, que um dia decidiu mergulhar no mar das pesquisas. De certo modo, para Cuíca, Tinhorão mudou sua vida. "Foi ele quem me chamou à atenção para a pesquisa musical", conta o instrumentista.
Muitos e muitos artistas brasileiros não esquecem a seriedade com que Tinhorão estudava a história brasileira, especialmente a história da música.
Lembro de certa ocasião em que Geraldo Vandré e Tinhorão discutiam civilizadamente sobre música popular. Foi aqui, em casa. Tinhorão perguntou a Vandré por que ele começou a carreira cantando e tocando bossa nova. Vandré disse que não, que não cantava ou tocava bossa nova. E rindo, Tinhorão cantarolou algumas faixas do primeiro LP de Vandré, lançado em 1964.
Era grande o respeito que Vandré tinha por Tinhorão.
Mas houve também artistas que tapavam o ouvido toda vez que o nome de Tinhorão era lembrado. Caso de Aldir Blanc (1942-2020), que chegou a compor uma música em parceira de Maurício Tapajós (1943-1995) depreciando o velho jornalista: Querelas do Brasil, gravada por Elis Regina (1945-1982).
Audálio, Tinhorão e as gêmeas
"Tinhorão era um doce de pessoa", lembra o cartunista Fausto.
O jornalista alagoano Audálio Dantas também dizia do respeito que nutria por Tinhorão. Idem as cantoras mineiras Célia e Celma: "Ele levava muito à sério a história do Brasil".
Num dia qualquer de 2016, os jornalistas Colibri e Cilene, mais o ator e câmera man Davi de Almeida, chegaram de repente a minha casa e surpresos deram de cara com José Ramos Tinhorão. Colibri logo o convidou para uma entrevista na Rádio que dirige, Brasil Atual. O papo foi longo.
Tinhorão era uma pessoa muito afável, muito alegre. Não tinha raiva, nem guardava mágoa de ninguém. Era brincalhão, espirituoso, cheio de onda. VOZ DISSONANTES 
E deixou frases clássicas como essas: "Tenho pena de não poder ter sido amigo do Tom (Jobim), porque ele era um bom sujeito, coitado. Só que pensava que fazia música brasileira e fazia música americana".
Em 2002 convidei Tinhorão para participar do programa São Paulo Capital Nordeste,  que durante anos apresentei na Rádio Capital 1040 AM. Ele foi. Na ocasião, vários artistas ficaram espantados com a sua presença. Fagner foi um desses. E pra minha surpresa, li texto que ele escreveu a respeito do meu programa: Ainda não está tudo dominado. Também prefaciou um livro meu, sobre Luiz Gonzaga: Eu vou Contar pra Vocês.
É isso. Dizer mais o quê? 
 

domingo, 4 de fevereiro de 2018

TINHORÃO, UMA LEITURA NECESSÁRIA

José Ramos Tinhorão, Monarco e Elizabeth Lorenzotti, no lançamento de Tinhorão, o Legendário
Eu já disse e digo de novo: O Brasil é o quinto maior país do mundo em espaço e população. São quase 9 milhões de quilômetros quadrados e mais de 200 milhões de habitantes. Aqui em se plantando tudo dá, disse o primeiro missivista que pôs os pés no Brasil, o português Pero Vaz de Caminha, em 1500.
No nosso País sempre houve briga, massacres, guerras.
Não faz muito, o Papa Francisco canonizou de uma só vez 30 ou mais vítimas da violência holandesa no Rio Grande do Norte, RN.
Há escravos no Brasil desde a chegada dos primeiros invasores...
Em 1539, já havia escravos negros por aqui.
No final do século 19, a princesa Isabel assinou famoso documento de libertação dos negros escravos.
Foi, não, foi ainda se ouve notícia da existência de escravos negros e brancos no território nacional. Uma vergonha!
O brasileiro de Santos, SP, José Ramos Tinhorão desde sempre tem direcionado holofotes à escuridão histórica em que nos vemos mergulhados.
Na trintena de livros que já publicou, Tinhorão falou de tudo e mais um pouco, a partir da música e da dança. É assim, por esse meio, que ele tem trazido à tona a nossa história. A propósito, repito: há muito defendo a necessidade de os livros dele serem adotados nas escolas públicas em todos os níveis.
Tinhorão nunca fugiu da raia, da briga, da discussão em torno da formação cultural do Brasil. A prova são seus livros e entrevistas publicadas há muito tempo e o tempo todo em todos os meios. Não à toa transformou-se no historiador mais polêmico até os dias de hoje. É lido, consumido no meio acadêmico. Mas, aparentemente, esse meio não o digere como deveria, citando-o, por exemplo.
Aqui e acolá é possível achar teses universitárias sobre Tinhorão. E até um livro já foi publicado sobre ele. Esse livro, Tinhorão, o Legendário (Imprensa Oficial, 2010) de Elizabeth Lorenzotti, é um mergulho na vida e obra desse grande brasileiro. A biografia foi muito bem recebida pela imprensa, confiram ao lado.
A leitura é recomendadíssima.

Não resisti e acabo de fazer umas perguntas à autora do livro, Elizabeth. Deleitem-se:


1.      Quando e por que você decidiu escrever a biografia de José Ramos Tinhorão? 

     Eu havia feito uma entrevista com ele para a revista Sem Terra, do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), que dedicava um bom espaço para a cultura. Já era sua leitora desde O Pasquim,e morria de rir com sua língua ferina, mesmo não concordando com muita coisa.Um dia, batia um papo com o Paulo Moreira Leite-que estava de passagem pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, tratando da  edição do meu livro “Suplemento Literário- Que falta ele faz!”. Então o Paulinho me disse: você gosta muito de música popular não é? Por que não escreve a biografia do Tinhorão?”
     Ele estava reativando a coleção Imprensa em Pauta. Eu adorei a ideia e aceitei. 

2.       Ele colocou algum empecilho para que isso não se concretizasse?

     De jeito nenhum. No começo talvez, mas foi convencido.

3.       Quais as maiores dificuldades que você encontrou para mergulhar na vida de Tinhorão?

     Nenhuma. Tinhorão tem guardadas todas as matérias que escreveu na vida, desde o primeiro texto legenda para o Diário Carioca. Ele levava material toda a semana, na ex-querida livraria Metido a Sebo, na Vila Buarque, onde sentávamos em banquinhos no pequeno quintal e conversávamos. Os entrevistados também não dificultaram.

4.       O que foi mais difícil: o acesso a ele ou a toda sua obra?

     Não houve dificuldades, porque ele facilitava qualquer acesso a qualquer das obras, com sua memória fantástica, e me indicava. E ele tem todos os livros.

5.       Quais livros você desataca como fundamentais da obra de Tinhorão?

     O que eu gosto mais é Historia Social da Musica Popular Brasileira. Indispensável. Foi publicada primeiro em Portugal, em 1990, vejam só. Pesquisas minuciosas, desde a Torre do Tombo em Portugal, e tudo comprovado. E a visão discordante sobre a MPB de tudo o que se havia publicado até então.

6.       A seu ver, Tinhorão é rejeitado pela academia?

     Acho que hoje nem tanto. Há citações da sua obra em sites internacionais. Mas aqui ele sempre foi tratado, na academia, como “o jornalista” e não como grande sociólogo, historiador da nossa cultura urbana. Diz: “A academia come Tinhorão e arrota Mário de Andrade”. Porque ele sempre foi fonte, e também porque, afirma, os acadêmicos em geral não são acostumados a se embrenhar em sebos poeirentos, como ele fez a vida inteira. E Tinhorão iniciou sua pesquisa quando a academia não se preocupava com estas questões: não havia um livro para consultar na época em que começou a escrever (porque havia se encerrado uma série sobre história do jazz), convidado por Reynaldo Jardim, no Jornal do Brasil. ”Mas Reynaldo, onde é que eu vou pesquisar? Não tem nada.” E o Reynaldol:” Sai por aí e entrevista a crioulada”. Foi o inicio.

7.       Você acha que escreveu a biografia completa de Tinhorão?

     Eu acho que seria preciso mais alguns livros para contar a história dessa grande figura.A cada encontro com ele conta alguma coisa interessante do passado e eu: “Mas Tinhorão, por que você não me contou isso para a biografia?”
     Acontece que o repertorio é tão vasto que nem mesmo sua ótima memória lembraria tudo, só aos poucos.
     E tem também o que sei mas não publiquei, afinal, é uma biografia autorizada, e o Tinhorão não é mole não! Porém,não  se trata de nada que embace o brilho de sua contribuição à nossa historiografia e sociologia da MPB. Folclore não entrou,e  como disse o João Máximo na matéria de 2010 no Globo:”o livro retrata o jornalista, e não a lenda”.




sábado, 11 de fevereiro de 2017

A MARCA TINHORÃO


Aristófanes e Aristóteles
Convidaram Sócrates e Platão 
Para irem a um forró

Dançar xote, xaxado e baião

Quando lá eles chegaram
Encontraram Simone de Beauvoir
Toda arrumadinha
E já pronta p dançar

O cantor era Bethoven
O sanfoneiro, Debussy
Na zabumba o bamba Bach
e Jackson, no pandeiro

Zé Limeira e Shopenhauer
Num canto filosofavam
Enquanto Marx e Tinhorão
Uma cabrocha disputavam

A festa foi animada
Com eruditos no salão
Cantando, se divertindo
Ao som de Luar do Sertão

(FORRÓ ERUDITO, Assis Ângelo)


A obra do historiador José Ramos Tinhorão é toda desenvolvida pela ótica marxista-leninista. Talvez por isso ele tenha, ao correr do tempo, levado tanta bordoada. Essas bordoadas têm sido desferidas tanto pela esquerda quanto pela direita. Muitos o chamam de radical. Por que hein?
Tinhorão ingressou no jornalismo em 1951, e por muito tempo assinou uma coluna no extinto Diário Carioca, do Rio de Janeiro. Nessa coluna ele assentou alicerce para sua bibliografia que se iniciaria, de modo independente, em 1966.

Suas pesquisas em torno da história musical do Brasil alumiaram a escuridão até então reinante na nossa música. 
Não será exagero dizer que Tinhorão é uma espécie de farol da cultura brasileira.
Tinhorão não é do tipo "bateu, levou". 
Nomes famosos como Tom Jobim, Caetano, Chico, nunca mediram palavras para condená-lo, pelo fato de ele dizer o que lhe vinha à mente. O nome de Tinhorão pode ser ouvido numa música famosa: Querelas do Brasil, com Elis...
Da Bossa Nova, por exemplo, ele disse ser o ritmo da goteira, e que as músicas de festival tiveram por base a Bossa Nova. Sobre o Tropicalismo, Tinhorão disse uma vez que foi uma invenção de malandros.
Rock nacional? Sua resposta: "há samba japonês?"
Outros nomes famosos vêm em Tinhorão e nos seus livros a defesa e o reconhecimento de um Brasil de grande valor cultural.
Rolando Boldrim, Vital Farias, Oswaldinho da |Cuíca, Oliveira de Panelas e tantos e tantos sempre aplaudiram o historiador, pela originalidade e clareza nos escritos. Sobre ele, escreve o cantador de Panelas:



O GENIAL TINHORÃO



Tinhorão é formado, fez Direito,

Jornalismo, tal qual Filosofia;

Neste aval a real Sabedoria

Vem trajada nos halos do respeito.

Pelo bem que este homem já tem feito

Que o Brasil lhe agradeça e dê-lhe a mão.

Faço unânime e sincera afirmação:

Este reino da Música Brasileira

Não teria a história verdadeira

Sem o grande Zé Ramos Tinhorão!



Tinhorão é jazida de cultura,

Tem seus discos, - acervo, - uns sete mil!

Nas imprensas -vitrines do Brasil-

É um nome lendário que fulgura.

Vê na letra, a razão da partitura:

Sustenidos, bequadros, vê bemóis...

Onde quer que exponha sua voz

Deixa raios de sua inteligência,

Tinhorão será sempre a referência

Do respeito maior de todos nós.                                                        
                                                    OLIVEIRA DE PANELAS




José Ramos Tinhorão nasceu no dia 07 de fevereiro de 1928, em Santos, SP. E para saber mais sobre ele, leia o livro de Elizabeth Lorenzotti.


PARABÉNS

Todo dia é dia de aniversário. Todo dia algum amigo aniversaria. Hoje, por exemplo, o aniversário é do advogado Felipe Garofalo. Felipe parece um ser comum, à primeira vista. Mas não é. Ele é de uma sensibilidade e inteligência incríveis. Parabéns Felipe. Tim Tim!

É CARNAVAL!
  


O carnaval paulistano começa a pegar fogo. Começou a rolar agora, o som de dois blocos já tradicionais do Rio de Janeiro: Banda La Fumega e Sargento Pimenta. O som tá rolando logo ali na Praça do Memorial da América Latina.



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