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sábado, 22 de março de 2025

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (173)

PEGANDO O LEITOR À UNHA

Foi preciso, primeiro, que o livro fosse traduzido e fizesse sucesso na Itália, para que os editores brasileiros criassem coragem de lançá-lo. Mas a coragem não foi suficiente. A censura cassou o livro e, somente depois de muita espera, Ignácio de Loyola Brandão conseguiu que o seu romance Zero chegasse ao leitor do seu País. Autor de oito títulos (entre eles, “Pego Ele, Silêncio”, “Dentes ao Sol”, “Cuba de Fidel” e “Cadeiras Proibidas”), traduzido na Itália, Espanha, Alemanha e França, Loyola abdicou o jornalismo há menos de um ano para se dedicar apenas à sua tarefa literária. Entretanto, longe de se encastelar em seu gabinete, ele faz de cada livro ser um motivo de comício. E vai por esse Brasil afora buscar seu leitor e conhecê-lo. Um escritor que se projetou nos anos 70, Ignácio de Loyola Brandão fala da sua experiência ao repórter Assis Ângelo.



FOLHETIM — Loyola, seria possível fazer um retrospecto dos anos 70, na área da Literatura, sem se falar no regime autoritário, na censura oficial?

LOYOLA — Claro que não. Essa década foi o período mais brutal acontecido no Brasil. Os anos 70 foram os anos da repressão a todo tipo de criação.

FOLHETIM — Não houve período pior?

LOYOLA — Bom, há bem pouco tempo, numa mesa redonda feita na Unicamp, em Campinas, São Paulo. Roberto Schwartz levantou uma questão curiosa. Na ocasião, ele disse que a censura dos anos 70, apesar de muito violenta, não foi tão grande quanto a do Estado Novo. Mas eu não conheci aquela, eu conheci essa. Inclusive eu fui atingido pessoalmente pela censura da década passada, e é dela que eu posso falar. A censura imposta pelo regime me mostrou uma coisa muito importante, que não adianta brigar sozinho. Então, de repente, percebi que era necessário todo mundo brigar junto contra o inimigo, no caso o Sistema. Esta é uma das lições que aprendi.

FOLHETIM — Mas há quem diga que os escritores são alienados.

LOYOLA — Antes de tudo, eu acho que o grande acontecimento dessa década, em relação à literatura e ao escritor, foi exatamente isto. Gradualmente, à medida em que os anos foram avançando, os escritores, que são uma raça vamos dizer assim isolada, que lutam por uma solidão e que acham que a criação é uma coisa que não tem a ver com a vida política, com briga, com mudança de condições e com a transformação do País — os escritores não alienados — eles entenderam, de repente, a necessidade de lutar contra o inimigo comum: a censura, o Sistema. E a partir desse momento, houve a união. Portanto, acho que a primeira grande marca dos anos 70 foi a união dos escritores.

FOLHETIM — Concretamente, o que resultou disso?

LOYOLA — Resultou no fortalecimento do Sindicato dos Escritores no Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que começava a luta pelo Sindicato dos Escritores em São Paulo. Quer dizer, já temos uma casa sindical com uma diretoria embora, pessoalmente, eu não esteja completamente de acordo com ela. No entanto, temos mais é que brigar, criar uma chapa e renovar. Em Belo Horizonte já há uma Associação, que é o primeiro passo para a formação de um Sindicato. No Rio Grande do Sul já tem isto: e em Goiânia os escritores estão brigando unidos e em breve, também terão seu Sindicato. Do jeito que a coisa está indo, em pouco tempo teremos uma Federação.

FOLHETIM — Quando os escritores começaram a despertar para a gravidade da situação e partiram para a briga?

LOYOLA — Logo depois que foram proibidos livros como Zero, Feliz Ano Novo, Aracelli. Na ocasião, houve um movimento de âmbito nacional e 1946 intelectuais assinaram um manifesto que foi entregue ao então ministro Armando Falcão. Esse foi, praticamente, o primeiro movimento de escritores protestando concretamente a não aceitação da censura.

FOLHETIM — Você diria então que os anos 70 foram os anos da conscientização?

LOYOLA — Sim, pois de repente se abriram as cabeças. Escrever é um ato solitário, tudo bem. Mas somente enquanto estou na minha escrivaninha, escrevendo um livro. Depois disso, tem-se mesmo é de lutar, pois há uma grande luta lá fora. O país que está ali fora e é o País ao qual estou me dirigindo. Portanto, se esse País não ler, se esse País está reprimido, se esse País está violentado, então eu tenho de brigar pela transformação desse estado de coisa. Entendo que o ofício de escrever tem duas etapas. Algumas pessoas discordam disto, mas tudo bem. Eu até concordo que elas discordem. Para mim, o escritor tem de ter uma atuação política. Digo isso no sentido de transformação. E me parece que os autores brasileiros já estão tendo essa consciência, pois a gente tem de estar em constante estado de alerta. O inimigo pode atacar a qualquer instante, e por isso é preciso que estejamos preparados.

FOLHETIM — Lutou-se contra a censura, mas ainda há muito mais por que lutar.

LOYOLA — Claro, ainda há muito por que lutar. Por exemplo: direito autoral, mercado, etc. Há, mesmo, uma série de coisas, como a aposentadoria e até a profissionalização do escritor. No brasil não existe profissão de escritor. Se você disser que é escritor, as pessoas vão rir porque não existe esta profissão. Na verdade, o escritor existe apenas simbolicamente.

FOLHETIM — Nos primeiros anos da década, alguns escritores começaram a participar de debates e a aceitar convites para falar nas escolas, universidades…

LOYOLA — Essa experiência foi muito proveitosa, inclusive porque a censura não foi o único problema que enfrentamos. Descobrimos que tínhamos de sair às ruas, conversar com as pessoas, fazer comício enfim, ir ao encontro do leitor. Na ocasião, tínhamos várias interrogações, como: Quem é o leitor? Ele existe? Não existe? Se não existe, qual o motivo? Quem é o culpado dessa situação toda? O Sistema? A escola? O analfabetismo? O governo? A televisão? O pai? Ou os culpados somos nós mesmos? O preço do livro? O livreiro? O distribuidor? O editor? Ou tudo isto reunido? Sim, descobrimos que o problema era muito grande, eram todas estas interrogações e algo mais, como escritor silencioso.

FOLHETIM — E daí, o que foi feito?

LOYOLA — Bom, baseados intuitivamente numa experiência que a música popular brasileira enfrentou por volta de 1965, quando ela estava num impasse, num beco sem saída e descobriu o circuito universitário, nós, escritores, partimos em busca do nosso público. E então saímos às ruas, eu, Torres, Scliar, Miguel Jorge, João Antônio, Wander Pirolli, Márcio de Souza. Aí fizemos o circuito universitário. Não houve escola primária, secundária, organização, clube que a gente não tivesse feito contato. O resultado foi muito bom, e hoje, se estou vivendo de livros, exclusivamente, é graças a essa experiência. O trabalho ainda está rendendo, pois em cada cidade que passei eu deixei cinco, dez, vinte, 400 leitores.

FOLHETIM — Dá para saber quantas palestras você fez até hoje?

LOYOLA — Com precisão, é difícil saber. Só sei que estive em mais de 250 escolas nos últimos cincos anos.

FOLHETIM — No seu entender, o povo lê?

LOYOLA — Olha, falar em literatura para o povo é uma grande bobagem. Bobagem porque o povo não pode ler. Ele não está participando da realidade do País. E as razões nós todos sabemos. O povo não tem escola, ganha pouco  e por isso não pode comprar livro. O povo está mais preocupado com outras coisas, como o leite, o pão, a carne e com a própria família. O brasileiro trabalha tanto que, quando chega em casa, só pensa mesmo em descansar. Quem lê no Brasil é a elite, a classe média, os estudantes universitários. Então a gente termina se dirigindo a elite. Leitor no Brasil a gente conquista indo pessoalmente a ele — os meus leitores, pelo menos, eu os conquistei assim. Não houve outra forma.

FOLHETIM — E não há perspectivas de mudança?

LOYOLA — Não, pelo menos por enquanto. Antes, é preciso que o Sistema mude, que haja uma verdadeira revolução, com escola para todos, trabalho, comida, enfim, uma vida mais condigna. Somente a partir daí é que se poderá pensar em cultura. Mas como as coisas estão, não dá sequer para pensar em cultura. Somente com uma verdadeira revolução poderemos levar as pessoas a encontrarem nos livros uma forma de lazer. Hoje, no Brasil, cultura é uma brincadeira de gente rica, um hobby.

FOLHETIM — Antes dos anos 70, o escritor era considerado uma espécie de deus. Ele era colocado sobre algo como um pedestal. Agora, porém, percebe-se perfeitamente que este tipo de raciocínio mudou. Como se deu isso?

LOYOLA — Exato. O escritor era aquele indivíduo cultuado pelo professor de Literatura, de Letras. Mas o raciocínio começou a mudar no momento em que passamos a ter um contato maior com o leitor. O leitor percebeu que o escritor era um sujeito igualzinho a ele, que comete erros, fala errado, que ouve as mais diversas perguntas e para todas elas procura uma resposta, e quando não a encontra se mostra humilde e sincero, admitindo ou confessando sua ignorância. Portanto, a partir do instante em que a gente se expõe, o mito cai e fica o homem igual a todos os outros.

FOLHETIM — Fala um pouco sobre as andanças.

LOYOLA — Ah, eu tenho aprendido muito. Especialmente sobre a realidade brasileira, com detalhes mínimos. O Brasil não é só São Paulo e Rio de Janeiro. E isto parece que nem todo brasileiro está sabendo. O Rio Grande do Sul, por exemplo, é muito diferente de Goiás… Há poucos dias estive nas cidades de Bento Gonçalves, Farroupilha e Garibaldi. Lá, alguém me procurou dizendo que a feira de livros era um acontecimento importante para a juventude, principalmente , porque as moças aproveitavam como motivo para sair de casa a noite. Claro, fiquei abismado e disse: pôxa, em Araraquara, interior de São Paulo, há dez anos, as minhas primas de 16 e 17 anos saíam e voltavam no dia seguinte, às 7 horas da manhã. E não inventaram nenhum pretexto, chegavam e diziam aos pais: estivemos num baile. Quer dizer, não tinha problema nenhum e não necessitavam de uma feira de livro ou seja lá o que for para sair de casa à noite.

FOLHETIM — Realmente, chega a ser absurdo. No Rio de Janeiro, em São Paulo ou outro grande centro, dificilmente algo idêntico poderia acontecer. No interior do Brasil, porém…

LOYOLA — Pois é. Antes, eu imaginava o Brasil de outra forma, mas até então eu não conhecia as cidade menores. Por isto, acho que ainda há muita gente enganada a respeito da verdadeira realidade deste País. Quer dizer, nas minhas andanças eu tenho aprendido muito, muito mesmo. Tenho assimilado muitas informações… Chega a ser inacreditável que, num lugar qualquer do Brasil, uma menina de 17 anos precise de um pretexto para sair de casa à noite. Mas este é o Brasil que pouca gente conhece!!

FOLHETIM — Nos anos 70 falou-se insistentemente sobre um tal “boom” da literatura brasileira. Que história foi essa?

LOYOLA — Foi simplesmente um modismo resultante do boom latino-americano, que também não era um boom tão grande como se propagou. Na verdade, o boom latino-americano favoreceu a uma meia dúzia de monstros sagrados, como Vargas Liosa, Garcia Marques, Ernesto Sabato, Cortazar e alguns outros que se utilizaram da máquina. Eles aproveitaram aquele movimento das universidades norte-americanas e, pronto, faturaram em cima. Na verdade, o boom foi uma coisa ilusória, um negócio forjado. Em Cuba, quando alguém falava no tal boom todo mundo morria de rir.

FOLHETIM — Qual o grande momento da literatura brasileira nos anos 70? Esse momento chegou a existir?

LOYOLA — Não, creio que não. Publicou-se muito, especialmente depois de 1974/75. Alguns livros estouraram, como Zero e alguns outros. A crítica literária inclusive sumiu para dar espaço ao noticiário comum, que por sinal aumentou bastante. Mas houve um instante de euforia. Um cara chegava com alguns originais debaixo do braço, e dizia: sou novo. Imediatamente o seu livro era editado. No entanto, ser novo não significa nada. Aliás, ser velho também nada significa. O que importa é ser bom, ter o que dizer num livro. Os anos 70 foram de grande efervescência. É isto, no meu entender, foi positivo. Acho que é só.



[Nota: entrevista publicada originalmente no extinto FOLHETIM (FSP), no dia 13 de janeiro de 1980].


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