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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

SÃO PAULO EM PROSA, VERSO E MÚSICA (10)

São Paulo, poema de Paulo Vanzolini

Nesta minha cidade de São Paulo, 
Neste meu berço, nesta minha arena, 
Eu sou, na noite, uma espécie de poeta das menores e mais fáceis 
Que sai sem rumo e volta sem destino 
Traçando o chão por força do costume e não faltando no braço ao dia a dia. 
Na noite entrante, nas peludas asas da morcega madrugada 
Sobrevoo meu chão, num giro míope, cada vez mais certo 
Na segurança de encontrar sem pressa minha minúcia, meu detalhe, meu flagrante 
O ponto fino de contato e entendimento que é reforço de umbigo e de semente 
Que me marca sem dúvida e que me dá certeza da noite e da manhã de mim. 
Neste meu berço, nesta minha arena, neste meu chão, 
 Nesta minha cidade de São Paulo
 
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Praça da Sé, forró de Durval Souto

A Praça da Sé 
É a praça do povo 
Todo domingo 
É um domingo novo
 
É comedor de gilete
Engulindo fogo 
Cobra venenosa 
Serve de remédio 
Mas a vida dessa gente 
Não se resume num prédio 
Sanfoneiro perdido tocando forró 
Bilheteiro vendendo a idade da avó 

São tantas as esperanças 
Que a vida se trai São tantas as esperanças 
Que a vida é maior 
Pra quem veio com a ilusão de ser engenheiro 
De repente olha a caixa eu sou biscateiro 
Mas meu orgulho de raça 
Olha a sorte que eu tive
 Estou é fazendo um curso de detetive 
Vou escrever para minha mãe 

Que sou importante 
Mas aqui peguei peso como um elefante 
Não vejo a hora de regressar 
Pois tomei consciência vou pro meu lugar 

A Praça da Sé 
 É a praça do povo 
Todo domingo 
É um domingo novo
 
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A Briosa Colônia Nordestina em São Paulo, mote decassílabo Sebastião Marinho e Andorinha

Zona Sul, zona Norte, Leste, Oeste 
Do Tucuruvi a Jabaquara 
Guaianazes a Lapa, Vila Iara 
Em qualquer direção São Paulo investe
A chegada do povo do Nordeste 
Transformou a metrópole da bandeira 
A maior do Brasil e a primeira 
De toda a América Latina 
A briosa colônia nordestina 
Fez São Paulo crescer dessa maneira

Osasco, Guarulhos, Arujá, 
Carapicuíba, Itapevi 
São Bernardo, Poá, Barueri,
Santo André, Diadema e Mauá
Cubatão, Bertioga a Guarujá 
Toda Santos, a região praieira 
Da serra do mar na Cantateira 
A grande São Paulo nos fascina 
A briosa colônia nordestina 
Fez São Paulo crescer dessa maneira

Paulistano da gema come angu 
Vatapá e jabá com gerimum 
Casquinha e pirão de guaiamum 
Xerém tapioca e bijou 
Buchada pirão de aratu 
E sarapatel com macaxeira
Bobó de galinha capoeira 
Carne seca e moqueca de corvina 
A briosa colônia nordestina 
Fez São Paulo crescer dessa maneira

São milhões e milhões de paulistanos 
Divididos em filhos cearenses 
Piauenses, maranhenses 
Pernambucanos, alagoanos 
Potiguares, baianos 
Sergipanos e paraibanos de primeira 
E a megalópole brasileira 
Galopante para o mundo descortina
A briosa colônia nordestina 
Fez São Paulo crescer dessa maneira

São Paulo já tem aboiador 
Forrozeiro nos clubes e shows nas praças
Restaurantes e bares têm cachaças 
Pratos típicos do nosso interior 
Cordelista, coquista, embolador 
Mês inteiro.no parque, praça, feira 
Cantador repentista e rezadeira 
Mamulengo e forró em toda esquina 
A briosa colônia nordestina 
Fez São Paulo crescer dessa maneira

Do Nordeste em São Paulo tem pedreiro
Faxineiros, políticos, cientistas 
Empresários, juristas, jornalistas 
Militares, artistas, engenheiros 
Zeladores, vigias, cozinheiros
Obstetras, doméstica e enfermeira 
Professores de química e capoeira 
Português, matemática e medicina.
A briosa colônia nordestina 
Fez São Paulo crescer dessa maneira
 
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Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, poema de Téo Azevedo

Faculdade de Direito 
Do largo de São Francisco 
Lhe decanto com a viola 
Canção que eu gravei num disco 
Eu relembro seu passado 
No dia onze de agosto 
Quando você foi criada 
Deu São Paulo um fino gosto 
Convento de São Francisco 
Sua oficial morada 
E no estilo barroco 
Você foi edificada 
Lembro de José Arouche 
Seu primeiro diretor 
E na arte do Direito 
Você é mestre e doutor 
Falo de Ademar Brotero 
Que foi o primeiro lente 
E lá no curral dos bichos 
Se encontrava muita gente
O nemine discrepante 
Era o grau de bacharel 
Os Gerais ficou marcado 
Nesse ponto tão fiel 
Manuel Dias Toledo 
O tempo não esqueceu 
E capelo, recebeu 
E o Teixeira de Freitas 
Também foi o seu filho
Leis civis com muito brilho 
No edifício de taipa 
Que foi o velho convento 
Franciscanos, jesuítas 
Do direito um lenimento 
Repúblicas de estudantes 
De todo lugar do mundo 
O Ensaio Filosófico 
E o Ateneu profundo 
Da nossa independência 
E também abolição 
Seu papel foi importante 
Para o bem dessa nação 
O Julio Frank e a Bucha 
Acadêmicos das Arcadas 
Encontros Misteriosos 
Iam até nas madrugadas
Eu lembro filhos ilustres 
O querido Rui Barbosa 
E também Joaquim Nabuco 
Castro Alves verso e prosa 
O Álvares de Azevedo 
E o Fagundes Varela 
Maria Augusta Saraiva
Uma mulher muito bela 
Viva Monteiro Lobato 
Viva Oswald de Andrade 
E o Menotti Del Picchia 
O Paulo Eiró, que saudade 
Salve Olavo Bilac 
E o José de Alencar 
Pois são tantos vultos juntos 
Que não dá para contar 
Viva o Centro Acadêmico
De idade tem cem anos 
Dia onze de agosto 
A pindura tá nos planos
Salve o território livre 
Piqui, piqui e meia hora
No direito de ir e vir 
É que o rá-tchim-bum chora
 
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São Paulo Antigo, moda campeira
Caetano Erba/Cacique

Lendo um livro de um velho amigo 
Meu São Paulo antigo pude rever 
Histórias concretas, gravuras pintadas 
Muito bem narradas no meu entender
 No Beco dos Barbas, caminho dos homens
Que hoje seu nome é “porto geral” 
Tamanduateí, caminho dos barcos
 Foi o grande marco na era imperial. 

Quem viveu nos Campos Guaré 
Que hoje, então, é o bairro da Luz 
Não são fantasias que faz o poeta
 São coisas concretas que a história traduz 
A igreja da Sé com suas torres quadradas
 Uma obra arrojada no estilo imperial 
Mil e novecentos, pois foi demolida 
Para ser erguida a nova catedral. 

Tanque no zuniga hoje é o Paissandu
 Ladeira do Açú, hoje é a São João 
E no Martinelli mudou-se bastante 
Esquina importante no Café Brandão. 
Lá no Ouvidor, seu nome era assim 
Largo do Capim no tempo que foi 
Lugar que passavam gente da roça 
Charretes, carroças e carros de boi. 

Seresta se ouvia pela noite adentro 
Nas ruas do centro à luz do lampião 
Nasceu outro centro do lado de lá 
Viaduto do Chá fez a ligação 
Saudade ficou do velho bondinho
 E novo caminho aqui se implantou 
Os trilhos montados subterrâneo 
E o paulistano já tem o metrô.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

O BRASIL TEM FUTURO


Bom dia, boa tarde, boa noite meus amigos e amigas.
Eu já suspeitava, mas agora tenho certeza: através de vocês pessoas que pensam, que falam, que gritam, o Brasil não se perderá. 
Temos futuro.
O Brasil popular e erudito tem futuro.
Digo tudo isso porque acabo de receber a informação de que este Blog acaba de alcançar a casa de 1 milhão de acessos.
Fico feliz por isso, é claro,
Fico feliz porque quem acessa os textos deste Blog são pessoas que não deixam parados, inertes, os neurônios. Uma curiosidade, porém: o maior número de acessos a meus textos são na sua grande
maioria de brasileiros radicados nos EUA: 58%.
Nos EUA vivem cerca de 1,8 milhão de brasileiros.
Os brasileiros residentes no Brasil que acessam este Blog estão na casa dos 26%.
O Brasil tem mais ou menos 213 milhões de brasileiros. No entanto, não podemos esquecer que dessa imensa população, pelo menos 11% não sabem sequer assinar o próprio nome. Triste, mas é a realidade. Nua e crua.
O Brasil tem futuro, mas faz-se necessário que saiamos imediatamente do buraco em que fomos jogados pelo atual comedor de farofa e frango de Brasília.
Inaugurei este Blog no dia 1º de abril de 2009. Dia da Mentira, mas é pura verdade o que digo. Comecei falando da cantora e atriz Vanja Orico.
Obrigado, obrigado, obrigado.
Vamo simbora gente, porque quem fica parado é poste!


OS 10 TEXTOS MAIS LIDOS

  1. MORREU A AUTORA DE LAMPIÃO DE GÁS
  2. JOÃO SILVA, ADEUS! 
  3. ÊTA, BRASIL!
  4. CEGO TAMBÉM VÊ
  5. CRIOLO PENSA BRASIL
  6. CANTORIA NO SUMARÉ
  7. SEDENTO POR SAMBA
  8. CADÊ OS CORDELISTAS 
  9. POESIA POPULAR, CORDEL E REPENTE
  10. BOLSONARO APELA A DEUS 

SÃO PAULO EM PROSA, VERSO E MÚSICA (9)

São Paulo em verso e música

São Paulo de Todos Nós
, canção Téo Azevedo/Peter Alouche

Vim de terras bem longínquas 
Abrigar-me no teu calor 
Fugi da fome de solos áridos 
Fugi de guerras de almas secas 
Vim da Sicília, vim do Japão 
Sou português, sou catalão 
Sou libanês, perdi meu chão 
Não tenho pátria, sou judeu errante 

Vim procurar paz, lar e pão
Sou branco, sou negro, sou oriental 
Sou nordestino do sertão 
Deixei a casa onde eu nasci 
Ah! Que saudades do Cariri! 
Vim descobrir minha esperança 
Ao te pedir chão e trabalho 
Com muita lágrima e suor 
Fui perseguir teu futuro 
Edifiquei tua riqueza 
Tornei-te forte e poderosa 
A mais altiva da nação. 
São Paulo, São Paulo de todos nós
Ao te ver de braços abertos 
Te adotei no coração.
 

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Viagem por São Paulo, rap Costa Senna

Já passei em Parelheiros 
Perto de Embu-Guaçu, 
Fui a Itapecerica 
De lá pulei pro Embu. 
Não me lembro qual o dia 
Me aproximei de Cotia 
Vi a Regis Bittencourt. 

Cruzei Carapicuíba 
E toda Barueri, 
Santana do Parnaíba 
Lá que parei pra dormir; 
Cajamar, Parque 
Anhanguera 
Não lembro que data era 
Mas sei que passei ali. 

Caieiras, Mairiporã, 
Guarulhos e Arujá; 
Lá em Itaquaquecetuba 
Tive o prazer de pisar. 
Em uma noite sem luz 
Passei em “Mogi das Cruz” 
Onde pretendo voltar. 

Suzano penetrei nela 
Pela estrada do morro, 
Quando entrei em Cubatão
Fui mordido por cachorro. 
Não parei naquela terra, 
No Rio Grande da Serra 
Que me prestaram socorro. 

São Caetano do Sul, 
São Mateus e Santo André; 
Em São Bernardo do Campo 
Me aplaudiram de pé. 
Não sei se cometo engano 
Tem outro São Caetano 
Mas eu não sei onde é. 

No São Miguel Paulista 
Já fui me apresentar 
E no Itaim Paulista,
Bem pertinho de Poá, 
Ferraz de Vasconcelos 
Onde um dos Vasconcelos 
Me convidou pra almoçar.

Por toda a São Paulo o poeta já passou.
Por toda a São Paulo o poeta já passou.
A Cidade Tiradentes, 
A Terceira Divisão, 
As zonas da Zona Leste 
Despertam meu coração, 
Ali o grito do povo 
Morre mas nasce de novo 
Em busca de solução. 

Vila Matilde, Itaquera, 
Guaianazes, Mauá, 
Vila Prudente ou Formosa, 
Ipiranga vou citar. 

Não sei se foi verdadeiro
Mas sei que Pedro Primeiro 
Soltou seu grito no ar. 
Conheço Ribeirão Pires, 
Mooca e Tatuapé, 
Vila Guilherme ou Maria,
Nome da santa mulher, 
Cangaíba, Belenzinho, 
Deus me olha com carinho 
Pois sou um homem de fé.

Fiz discurso em Sapopemba,
Militei em Diadema. 
O poeta popular 
Protesta contra o sistema 
E mesmo estando cansado,
Lá no Parque do Estado, 
Pichei um grande poema

Por toda a São Paulo o poeta já passou

De Jabaquara à Saúde 
Três estações de metrô. 
Onde fica Indianópolis? 
Me responda por favor 
A festa da primavera 
Transforma o Ibirapuera 
No mais perfeito esplendor. 

Após a Vila Mariana 
Já é Aclimação,
Cambuci e Liberdade
Que no Brasil é Japão; 
Digo perante a vocês 
Que o povo japonês 
Merece a nossa atenção.

A paranoia da Sé 
Com a louca agitação, 
Depois a Santa Efigênia
E a Avenida São João; 
Preciso dar um suspiro 
Que rima com Bom Retiro 
E segue a composição... 

Jaçanã, Tucuruvi, 
Brasil Grande, 
Cachoeirinha, 
Espero que a Casa Verde 
Já esteja madurinha; 
A Freguesia do Ó 
Santana friso melhor 
Porque conheço todinha.

Osasco, Jabaquara,
Pirituba, Jaraguá,
Do Limão à Barra Funda 
Cruzei lugar por lugar, 
Me sentiria feliz 
Se encontrasse em Perdiz 
Um lugar pra eu morar

Adoro a Santa Cecília, 
Curto a Consolação, 
Bixiga, Bela Vista 
É minha grande paixão.
Linda Vila Madalena, 
Mesmo não sendo pequena, 
Te levo em meu coração. 

Cidade Universitária 
Faz divisa com Pinheiros, 
Ali amei uma mina 
Corpo lindo por inteiro,
Me amou depois partiu
Talvez porque descobriu 
Que eu não tinha dinheiro. 

Ermelino Matarazzo, 
Jardim América, Brás,
Pari, Cerqueira Cesar,
Cruzei via marginais; 
É preciso andar com mapa 
O Paraíso e a Lapa 
Não posso deixar pra trás.

 Santo Amaro, Campo Limpo,
Andei de carro e a pé, 
Grajaú, Parque Cocaia, Eliana, São José,
Conheço todo lugar, 
Já fui até me banhar 
Na Ilha do Bororé. 

Pelo Taboão da Serra 
Não lembro quando passei, 
Na Capela do Socorro 
Na sexta-treze rezei.
No domingo de manhã 
Na feira do Butantã 
Ali me apresentei. 

Pantanal, Capão Redondo, 
Granja Viana, Carrão, 
Heliópolis, Imirim,
Brooklin e Jardim Japão. 
São Paulo é com prazer 
Que ofereço a você 
Toda a minha inspiração. 

De Cubatão a Perus, 
Embu-Guaçu, Jaraguá;
Dessa tão Grande São Paulo 
Já terminei de falar.
Se alguma coisa faltou, 
Não sou um computador, 
Sou poeta popular. 

Se alguma coisa faltou,
Não sou um computado 
Sou poeta popular.
 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

SÃO PAULO EM PROSA, VERSO E MÚSICA (8)

 Olhares sobre São Paulo
Assis Ângelo pediu a alguns de seus “considerados” que enviassem depoimentos sobre São Paulo. 

Eles estão reproduzidos a seguir:

São Paulo em notas e versos

A presença e a contribuição de Assis Ângelo na cultura nacional estão consagradas na sua vasta obra de pesquisador e de artista. O seu esforço em reunir cerca de três mil músicas e composições de alguma forma relacionadas com a cidade de São Paulo constitui um reconhecimento à altura da metrópole fundada pelos jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta e que se tornou símbolo e síntese da grandeza do Brasil. A alma nordestina e a brasilidade de Assis Ângelo ganharam asas e inspiração em São Paulo, e o apreço pela cidade mobilizou o pesquisador na busca das demonstrações de carinho e amor de tantos quantos músicos e compositores tomados pela mesma paixão. Assis Ângelo deve a São Paulo o acolhimento generoso que recebeu, e São Paulo deverá para sempre ao ilustre paraibano de João Pessoa o acervo musical de merecidas homenagens.

Aldo Rebelo − Jornalista e escritor

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Encantos de São Paulo

Uma cidade tão grande e diversa e produtiva quanto São Paulo haveria de ser inspiração para farta produção de música diversa e, muitas vezes, grande. A Pauliceia e muitos de seus bairros e logradouros − a Praça da Sé, a Avenida Paulista, o aeroporto de Congonhas, o estádio do Pacaembu, a Mooca, a Pompeia − têm inspirado tantas obras musicais quanto as atrações cariocas, excelentes cartões de visita para passeio e lazer, ao passo − passo bem paulistanamente ligeiro − que os encantos de Sampa refletem esforço, trabalho, luta pela vida, até o prazer é conquistado. Este que vos escreve precisou aprender a entender a cidade onde nasceu para vir a gostar dela. Vivi dos 12 aos 22 anos no interior paulista, sempre reclamando da poluição, agitação e neurose da “capitár”. Mas, uma vez de volta, em dois anos me assumi de vez como paulistano. E, como compositor, já escrevi algumas dezenas de canções, quase sempre bem-humoradas, sobre a terra onde a garoa é mais garoa.

Aqui vai uma de bom humor lírico: 

Ayrton Mugnaini Jr. – compositor

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I Love that Dirty Water

Em 1991, como correspondente de The Financial Times, fui convidado para fazer parte de um grupo minúsculo de jornalistas, quase todos brasileiros, que se encontraria com o governador Luiz Antonio Fleury Filho. O governador anunciou um empréstimo então recorde do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para a despoluição do Rio Tietê. Fiz uma matéria relativamente extensa para aquele grande jornal inglês. Tanto dinheiro para um projeto ambiental era inédito. Depois, Fleury prometeu beber água do rio no ano 2005. Nada disso. Em 2007, em parceria com a TV PUC São Paulo, recorri quase todo o rio, desde a fonte (onde, sim, eu bebi um copo de água) até lá longe, no interior, onde o rio finalmente voltava a desfrutar a vida. Acompanhei uma peça de teatro flutuante dento da cidade de São Paulo, uma iniciativa que simbolizava a importância cultural do rio para a metrópole. Ao pousar em Guarulhos no final do ano, vindo de Paris, para minha primeira visita desde o começo da pandemia, vi a triste realidade: milhões de dólares e duas décadas depois, o rio continuava morto. 

O título acima vem da música de mesmo nome pelo conjunto The Standells, gravada em 1966:

 

Os roqueiros cantavam o Rio Charles, de Boston. Naquela época, quem caía no rio da cidade de Boston era encaminhado para o hospital. Hoje você pode nadar no Rio Charles. Até quando esperar para a volta do Tietê? 

Bill Hinchberger – jornalista norte-americano

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Um pulo em São Paulo

O sonho de quase todo garoto do interior do Brasil é ir para cidade grande. Para um garoto do sertão baiano, o destino, no sonho desse garoto, é São Paulo. Comigo não foi diferente. No Paiaiá, povoado do município de Nova Soure (BA), vivi até os meus 21 anos de idade. Mas desde a infância São Paulo já passeava na minha imaginação. Um dia dou um pulo em São Paulo, pensava, ao ver muita gente chegar de férias e com um novo visual. No dia 10 de janeiro de 1999 desembarquei no Terminal Rodoviário do Tietê. Do espanto inicial, por contemplar o vaivém dos carros, o pra lá e pra cá de um monte de gente apressada que parece não encontrar seu destino, há uma relação de amor e muito afeto. São Paulo é minha segunda casa. Depois do meu Paiaiá, é a cidade que mais amo. A cidade onde aprendi o pouco que sei; cidade que continua a me ensinar. Obrigado, São Paulo!

Carlos Sílvio Ramos – radialista (Paiaiá na Conectados)

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Vim-me embora pra São Paulo

 Vim-me embora pra São Paulo. Aqui não sou amigo do rei. Aqui não tenho a mulher que eu quero nem a cama que escolherei. Vim-me embora pra São Paulo. Lá, no sertão baiano de Nova Soure, eu não era infeliz. Aqui a inexistência é uma desventura de tal modo pertinente que Getulio Vargas, do Sul, rei e falso dirigente, vem a ser contraindicado até para a sogra que já tive. E como não farei academia, não andarei de motobói, não montarei em viatura braba da Rota, não subirei em arranha-céus, não tomarei banhos de enchente? E, quando não estiver cansado, levanto na beira do rio Tietê, mando chamar os bueiros de esgoto pra me desmentirem as histórias que, no tempo de eu adulto, a Turma da Mônica jamais iria me contar. Vim-me embora pra São Paulo. Em São Paulo, não tem tudo. É outra esculhambação. Não tem um processo seguro de impedir o assalto e qualquer violação. Não tem mais bondinho elétrico, não tem mais madrugadas à vontade. Não tem mais acompanhantes vestidas para a gente azarar. E quando eu estiver alegre, mas alegre de ter um infarto na poluição, quando na garoa da manhã me der vontade de viver, aqui não sou amigo do rei, não terei a mulher que eu quero nem a cama que escolherei. Assim mesmo e apesar de tudo, vimme embora pra São Paulo.

Darlan Zurc − historiador

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Por que estou em São Paulo

 Só podia ser uma cidade com nome de um santo – São Paulo – a que me acolheu, depois de longos anos de batalha nesta minha vida. São Paulo, você vem me dando tanta alegria e profissionalismo que não me vejo saindo daqui pra morar em outro lugar! Aqui, eu consolidei minha carreira de músico, cantor e compositor; conheci pessoas; conquistei espaços para criar e implantar muitos projetos educacionais e culturais! Aqui, eu criei meus filhos, minha família e fiz grandes amigos... e me criei como cidadão! Eu até fiz músicas pra São Paulo!... Uma, São Paulo, Esquina do Mundo, com o jornalista e escritor Assis Ângelo, e a outra, Cruzando a Pauliceia, com o músico Fubá! Além, claro, de tocar e cantar, em shows com Tom Zé, duas grandes músicas feitas para a cidade, que são: Augusta, Angélica e Consolação e São São Paulo. Agora, SÃO PAULO, continue me acolhendo e me ensinando a ser uma pessoa cada vez melhor! Obrigado, São Paulo!!!

Jarbas Mariz – músico, cantor e compositor

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Valsa Paulistana

 No ano de 2005 foi criado na cidade de Salzburg, na Áustria, o Instituto Karajan, na casa onde nasceu o maestro. Nesse Instituto estão armazenados todos os dados e documentos da vida e carreira do maior maestro da segunda metade do século XX em todo o mundo. O Instituto é um centro cultural que promove hoje os mais diversos eventos e atividades culturais. Quando ele foi inaugurado, em 2005, um grupo de instrumentistas da Filarmônica de Berlim − orquestra que ele regeu por mais de três décadas − foi convidado para participar da festa de inauguração, já que a orquestra inteira não caberia na casa. Esse grupo de instrumentos de sopro pediu-me que escrevesse uma peça bem brasileira para animar a festa de inauguração. Pois bem. Enviei a eles a mais brasileira das músicas, uma valsa. Uma Valsa Paulistana. Os alemães morreram de rir. Como uma valsa “bem brasileira” para a “terra da valsa”?
Mas, a nossa valsa não tem nada a ver com as valsas vienenses, dançantes, festivas. Nossa valsa, de estilo paulistano, é sentimental, lenta, chorosa... Bem. A Valsa Paulistana foi executada, com enorme sucesso, e gravada pelo Quinteto de Sopros da Filarmônica de Berlim, selo BIS 952. O CD chama-se Summer Music. Essa valsa para quinteto de sopros foi acrescentada a uma suíte de nome Belle Époque in Süd-Amerika, juntamente com um tango e um choro. A partitura completa dessa suíte encontra-se gratuitamente no site Musica Brasilis. 

Júlio Medaglia − maestro

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Memórias de São Paulo

Cheguei em São Paulo num frio domingo de março de 1978. Eu conhecia a capital paulista dos postais que mostravam uma cidade com muitos prédios, uma linda praça, a República, e a Avenida Paulista, com seus arranha-céus futuristas. Ao descer do ônibus, em Cumbica, bairro de Guarulhos, então com ruas de terra e grandes muros, típicos de uma região industrial, me decepcionei profundamente: “Como São Paulo é feia”, pensei. Somente meses depois passaria a conhecer, de fato, a cidade, como office-boy de uma agência de turismo sediada na Praça da República. Me apaixonei perdidamente, como era de se esperar. São Paulo, a mais cosmopolita das cidades brasileiras, me ofereceu uma profissão, de jornalista e professor, uma boa condição de vida, uma filha, a querida Júlia, e o gosto pela história, adquirida no tempo em que trabalhei cuidando da estante da área em uma livraria, e na condição de repórter de dois jornais, Estadão e Diário Popular, em que escarafunchei essa cidade de alto a baixo. Enfrentei, claro, muitas dificuldades, típicas de um forasteiro tentando se estabilizar − no caso, de um pernambucano do sertão, em plena metrópole −, mas sempre deu certo. Enfim, fico contente em saber que, depois de 42 anos, conquistei a tão sonhada “cidadania” paulistana e estou, a cada dia, mais apaixonado por esta grande cidade. Abraços a todos e todas conterrâneos. 

Moacir Assunção – jornalista 

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São Paulo de todos nós

 Realmente, São Paulo é do mundo todo. Nas pesquisas, São Paulo é a quarta maior cidade do mundo em população, mas em se tratando de espaço, cidadania, trabalho, liberdade, paz e amor, para mim ela é a maior do mundo. Porque, além do trabalho, ela tem de tudo que um ser humano precisa para viver ou sobreviver. Para isso basta que lhe seja um cidadão que respeita o direito de ir e vir, que vive e deixa os outros viverem. Sou mineiro de Alto Belo, distrito de Bocaiúva, no norte do estado. Fui para São Paulo em 1969, e por lá estou até hoje. Rodei o Brasil todo. Estive em Portugal, mas São Paulo nunca saiu do meu coração. Tudo que tem pelo mundo afora você acha em São Paulo. Pra viver em São Paulo basta saber navegar, não importa se é rico ou se é pobre. Fiz mais de 30 músicas em homenagem a essa gigante de cimento e continuarei até o fim dos meus tempos exaltando os paulistas e os paulistanos. A minha carreira artística eu devo muito a essa cidade fantástica e sua gente. A minha eterna homenagem a São Paulo. 

Téo Azevedo – músico, cantor e compositor

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Bilhete paulistano para Assis Ângelo 

No início da carreira, algumas dificuldades me levaram a fazer o que eu chamava de “reportagem cantada”. Primeiro foi em Irará, com as pessoas e casos de lá. Depois, em Salvador, com seus personagens históricos, monumentos que são muito vivos etc. Quando cheguei em São Paulo, eu, que componho sobre meu entorno, fiquei sem saber a que me referir nos primeiros dias. O que me salvou foi que na rua 7 de Abril entrei para ver um filme chamado São Paulo S/A, de Luís Sérgio Person. Mudou completamente o meu jeito de ver a cidade e seus problemas. Comecei a escrever as canções que fizeram meu primeiro disco, chamado Tom Zé – Grande Liquidação. Ou seja, continuei, como era e é meu costume, a fazer canção sobre o que está à minha volta. Essa “liquidação” tematiza a explosão da venda a crédito, que anteriormente era uma maldição para o comércio. Circulava até um dito: “Fiado, cinco letras que choram”. Mas o fiado passou a ser uma insistência. No dia 21 de abril de 1968, quando acordei e cheguei à porta de casa, estava fazendo muito frio. Frio mesmo, que hoje não faz mais.
Eu estava na Rua Conselheiro Brotero e me dirigi para a Alameda Barros. No meio do quarteirão havia uma banca de revistas e nela, uma grande manchete: Prostitutas invadem o centro da cidade. Em vez de tremer frio, comecei a tremer de emoção. E naquele instante me ocorreu toda a forma da canção São São Paulo, Meu Amor. Quando você encontrava uma pessoa ela quase imediatamente começava a falar mal e a enumerar os defeitos de São Paulo. Achando que assim se identificava, mostrando que estava “por dentro”. Reuni esses “defeitos” e discuti-os no refrão. Tá bom, Assis Ângelo, pode chamar tudo isso que falei de “paixão por São Paulo”. 

Tom Zé – músico, cantor e compositor

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Bairros de São Paulo em cordel

A Editora Nova Alexandria de São Paulo desafiou há uns dez anos o poeta, cordelista e cantador Cacá Lopes a escrever a história dos bairros da cidade em cordel, para publicar no site da empresa com o título Bairros de São Paulo em Cordel. 
Cacá aceitou o desafio e escreveu de oito a dez estrofes em sextilhas sobre uns 30 bairros, tendo publicado três em gráfica: as histórias de Guaianases, Itaquera e São Miguel Paulista. Os folhetos sobre a Freguesia do Ó e Francisco Morato estão no prelo. Também já publicou cordéis sobre as cidades de Cajamar e Louveira, no interior paulista, distribuídos nas escolas e bibliotecas da região.
Em outra obra poética, o cordel Palavras de Origem Tupi Guarani, que publicou em parceria com Josué Gonçalves, pela Editora Cordel, do mestre Kydelmir Dantas, Cacá Lopes cita em versos os seguintes locais e bairros de Sampa: Anhangabaú, Aricanduva, Cambuci, Arujá, Anhanguera, Ibirapuera, Iguatemi, Butantã, Jaçanã, Guarapiranga, Sumaré, Canindé, Morumbi, Mooca, Itapecerica, Tremembé, Ipiranga e Jabaquara, entre outros.

Cacá Lopes, músico e cordelista

Viajando na história 
Fui de aluno a professor, 
Sobre alguns bairros paulistas 
Que pesquisei com ardor, 
E agora neste Cordel 
Repasso para o leitor.



Brás

O migrante é povo forte
Busca o sonho, é capaz,
Foi assim que muita gente
Deixou tudo para trás,
E veio para São Paulo
Para trabalhar no Brás

Esse distrito que está
Bem na Região central,
À leste do centro histórico
De São Paulo capital,
Nas terras de José Brás
Que se tornou imortal.



Santo Amaro

No universo dos versos
Cada verso eu encaro,
Laço, teço, ouso, busco
Meço, rimo, nunca paro,
Chego, canto a Zona Sul
Começo por Santo Amaro

Aldeia de Jeribatiba
Tantas vezes visitada,
Por José de Anchieta
Firme na sua jornada,
Sobre a criação da vila
Após ser catequizada



São Miguel Paulista

Mais um bairro de São Paulo
Acrescento em minha lista,
Ao descrevê-lo em cordel
À memória se avista.
Minha homenagem em versos
Para São Miguel Paulista

Feche os olhos, imagine
Como tudo começou,
De’um aldeamento indígena
A vilinha se formou,
Narro poeticamente
Quem o lugar desbravou.


Cidade Tiradentes

A Cidade Tiradentes
No fundão da capital,
Um conjunto periférico
E monofuncional,
Tipo bairro dormitório
De proporção sem igual.

Na América Latina
É tido como o maior
Complexo habitacional
Com conjuntos ao redor,
Do bairro que a cada dia
Em “infra” fica melhor.


Capão Redondo

Capão é uma porção
De mato quase isolado,
No meio de um grande campo,
Já o bairro retratado,
Do tupi – mato redondo
Vem o seu significado.

O nome Capão Redondo
Foi dado por moradores,
Os primeiros habitantes
Fortes colonizadores,
Também praticavam caças
E eram bons pescadores.



Itaquera

Itaquera – Zona Leste
Seu povo quero saudar!
Trago um canto diferente
E quero lhe ofertar,
Um Cordel com sua história
À memória do Lugar

Itaquera é pedra dura
Vem do Tupi Guarani,
Dizem que Tomé de Souza
Um dia passou aqui,
Pela estrada de Santos
Próxima do Iguatemi.



Paraisópolis

Povo de Paraisópolis
Estou chegando pra rimar,
A história desse bairro
Na cultura popular,
Convido você leitor!
Para no tempo voltar.

O processo começou
Lá na década de cinquenta.
A colônia japonesa
Toma posse e logo tenta,
Transformar as suas chácaras
De grileiro não se isenta

domingo, 30 de janeiro de 2022

SÃO PAULO EM PROSA, VERSO E MÚSICA (7)

A vida escrita em cordel
Entrevista de Assis Ângelo com Peter Alouche

Assis Ângelo − Que eu saiba, você, além de engenheiro, se formou em Letras Francesas pela Université de Nancy (França). Foi naquela época que escreveu um poema dedicado ao general de Gaulle [NdaR: presidente da França de 1944 a 1946 e de 1958 a 1969] e que ele apreciou muito? Fale a respeito. 

Peter Alouche − O poema que escrevi dedicado ao general de Gaulle foi muito anterior ao meu curso em Nancy. Foi em 1960, eu era adolescente, recém-chegado ao Brasil, e admirava muito a coragem, a bravura e o patriotismo desse grande líder francês que eu conhecia e ouvia pelo rádio. Depois de um discurso inflamado que ele dirigiu à nação, durante a guerra da Argélia, decidi escrever esse poema e, com coragem, enviá-lo por carta a ele. O poema chama A vitória e a ambição nacional. A última estrofe, que vou traduzir, diz o seguinte: 

Mais qui es-tu, Soldat, qui m´a rendu la gloire, L´Honneur, la Force, la Victoire Et l´Unité, quén vain, recherchait ma Nation? “FRANCE, je suis ton Ambition” (“Mas quem és tu, Soldado, que me devolveu a Glória, A Honra, a Força, a Vitória E a Unidade que procurava minha Nação? “FRANÇA, eu sou tua Ambição”)

Fiquei surpreso e orgulhoso de receber em resposta uma carta da Presidência da República da França, em 24 de fevereiro de 1960 (coisa absolutamente inédita, como fiquei sabendo), com os seguintes dizeres:

“Senhor, Sua carta e seu poema, inspirados pelo amor que tens pela França, tocaram o Général de Gaulle. Ele me encarregou de lhe dizer e de agradecer pelo testemunho que você lhe trouxe. Queira receber, Senhor, a expressão de meus distintos sentimentos.” 

Assis − Você nasceu no Egito, mas sua principal língua é o francês. Por quê? 

Peter − É simples de explicar. Naquela época, no Egito, as classes média e alta, em especial os cristãos do Egito (sou católico do rito bizantino), como todos os descendentes de europeus, estudavam em escolas francesas (muitas religiosas). Eu estudava nos jesuítas. Todas as matérias eram dadas seguindo o curso francês e, em paralelo, o curso árabe. Mas na escola só se podia conversar na língua de Molière. O interessante é estudar os fatos históricos (como a campanha de Napoleão no Egito) sob dois prismas antagônicos. 

Assis − Você trocou a sua terra pelo Brasil. Quando e por quê? 

Peter − Esta é uma longa história. Vou tentar resumir. Na época, houve no Egito a Revolução de Nasser, que derrubou o rei Farouk e estabeleceu uma república islâmica. Embora 10%¨da população egípcia fossem cristãos (coptas), a situação para os não muçulmanos (cristãos e muito mais os judeus) tornou-se muito difícil. Meu tio, irmão de meu pai (que tinha falecido), era arcebispo da Igreja Católica Bizantina em São Paulo. Foi ele quem construiu a Igreja Nossa Senhora do Paraíso. Preocupado com o noticiário que chegava do Egito, nos mandou vir para o Brasil, deixando tudo para trás, bens e dinheiro. Não se podia sair do País naquela época com dinheiro. Viemos ao Brasil, minha mãe com sete filhos, em parte menores. Fomos recebidos como deuses por meu tio. Infelizmente, dois anos depois ele morreu e aí fomos abandonados à própria sorte. Foi muito, muito difícil no início, mas, graças ao bom Deus, vencemos.

Assis − A poesia e a cultura popular andam junto com você, sempre. Por quê?

Peter − Embora tivesse me formado engenheiro e até lecionado Engenharia por 25 anos, nas Faculdades Mackenzie e Faap, a cultura literária e a poesia sempre foram minhas companheiras. Gostava de ler, principalmente em francês (li Jorge Amado em francês), porque acho que o francês é uma língua mais dada à cultura. Molière, Victor Hugo, Rimbaud e Baudelaire que o digam. Dou mais valor ao meu diploma de Letras de Nancy do que à minha pós-graduação em Engenharia na Politécnica. Esta me dava os recursos para trabalhar. A outra me dava os recursos da alma.

Assis − Você fala muitas línguas e tem textos publicados no Brasil e no exterior, mas não publicou um livro até hoje. Por quê? 

Peter − Escrever um livro sempre esteve nos meus projetos de vida. Sou até cobrado pela família e amigos para escrever a história da família, que é uma verdadeira epopeia. Mas dois obstáculos sempre se apresentaram: a dúvida se deveria meu livro ser um romance ou uma autobiografia; e a preguiça. Por incrível que pareça, tenho tendência à preguiça, exceto quando estou pressionado. Aí ninguém me segura. Aliás, eu queria lembrar que parte da história da minha vida foi escrita em cordel, por Klévisson Vianna, um dos maiores cordelistas do Brasil: A vida de Peter Alouche ou a miragem do destino. Uma obra-prima que eu não poderia igualar.

Assis − Você é dono de um amplo conhecimento cultural. Quais os livros e autores que mais o marcaram na vida? 

Peter − Foram muitos, muitos. Mas vou citar tão somente dois: Madame Bovary, de Gustave Flaubert, e A confusão dos sentimentos, de Stefan Zweig. 

Assis − E na música clássica, quais autores mais admira? 

Peter − Na música clássica, Chopin (Fantasie − Impromptu), Beethoven (A sétima − segundo movimento) e Haydn (Sarabande). Na música popular, as músicas francesas, claro. Nas canções brasileiras, Chico Buarque, sem dúvida. 

Assis − Pouca gente sabe, mas você publicou um folheto de cordel e tem também a música São Paulo de todos nós, cantada por Téo Azevedo. 

Peter − No cordel, foi uma ousadia que tive em participar do Primeiro Concurso de Cordel; aliás, organizado por você, Assis Ângelo, em 2002. Me inscrevi com o pseudônimo de Pedro Nordestino. O cordel chama Encontro no Metrô. Foi um dos dez classificados. Tenho também algumas outras poesias publicadas, como a Borboleta Amazônia, também musicada por Téo Azevedo, e Avenida Paulista (poema publicado no livro Natureza Cidade). 

Assis − Você é um símbolo para os metroviários do Brasil, especialmente de São Paulo. Você foi um

dos fundadores do nosso Metrô. O tem a dizer sobre isso? 

Peter − O Metrô é minha paixão profissional. Desde que entrei no Metrô, em 1972 (e foi por acaso do destino), minha vida se transformou. Adotei o Metrô e o Metrô me adotou. Uma verdadeira paixão mútua. Não é que minha vida no Metrô fosse um paraíso (tive algumas poucas mágoas, que ainda não consigo enterrar. Um dia conto), mas o Metrô foi para mim uma escola superior de Engenharia, onde pude aprender muito e desenvolver um belo trabalho (concepção, coordenação dos testes de aceitação etc.) e onde pude criar muitas amizades. Saí do Metrô ao me aposentar, mas continuo muito ligado (sem remuneração nenhuma) à Companhia que tanto me deu de alegrias e conquistas.

SÃO PAULO EM PROSA, VERSO E MÚSICA (6)

 “São Paulo é uma capital cultural”

Entrevista de Assis Ângelo com Jorge Mello

Assis Ângelo – Jorge Mello, você trocou o Piauí pelo Rio de Janeiro e depois por São Paulo. Por quê? Jorge Mello − Quando ainda pequeno, com nove anos, em Piripiri, no Piauí, minha cidade natal, eu já me decidi por ser músico, artista. Eu ajudava meu pai na bodega que ele tinha na Praça do Mercado. Ele saía pra pegar mantimentos em nosso sítio, para vender, e me deixava muitas vezes sozinho, cuidando do atendimento no balcão. Ele vendia de tudo, até sanfonas. E nessas saídas dele, eu pegava na sanfona e dedilhava as canções que tinha na cabeça. Um dia ele me pegou tocando. E daquele dia em diante ele me botou para trabalhar do lado de fora do estabelecimento, tocando sanfona para atrair a freguesia. Logo saí de casa e fui buscar meu sonho, em Teresina, depois Fortaleza. Até que percebi que ele estava aqui no chamado “Sul Maravilha”. Vim para o sul, obedecendo à lei da gravidade. E realizei meu sonho de ser um artista, um músico, um compositor. 

Assis − Você fez parte do grupo Pessoal do Ceará. Que grupo foi esse, e qual a sua importância? 

Jorge − Nos tempos da universidade em Fortaleza, eu, buscando os espaços para mostrar a minha música, encontrei outros interessados nisso reunidos na Faculdade de Arquitetura, Física e Direito (o curso que eu frequentava). Eram estudantes interessados em música, poesia e nos festivais locais. Logo estávamos nos bares, e foi no Bar do Anísio, o local principal onde essa tropa se reunia. Fui contratado pela TV Ceará para a direção musical de um programa local onde utilizava essa mão de obra e essa tropa cheia de talento, semanalmente, nos programas que dirigi: Porque hoje é sábado e Gente que a gente gosta. Com o tempo fomos reconhecidos como Pessoal do Ceará. Fui um dos primeiros a me mudar para o Rio de Janeiro, e em minha casa moraram Belchior, Fagner e Cirino. Depois chegaram Ednardo, Rodger e Tety. E aconteceu o reconhecimento dessa massa de compositores, com o sucesso do LP Pessoal do Ceará, gravado em São Paulo. Ednardo foi o primeiro a ter esse reconhecimento popular. Depois os outros foram tendo oportunidades, como aconteceu comigo.

Assis – Você, parceiro de Belchior em quase 30 músicas, e ele, um cearense que amava São Paulo, como você. Sei que você chegou a musicar o famoso poema de Mário de Andrade Garoa do meu São Paulo; conta essa história... Quais são as outras músicas que escreveu sobre a capital paulista? Fale de alguma que tenha sido feita pelo seu parceiro Belchior.

Jorge – Bem, são quatro perguntas numa só: A história da parceria com Belchior vem dos tempos da universidade, em Fortaleza. E, também pelo fato de termos morado juntos por anos. E ainda porque fomos sócios em duas empresas: Paraíso Discos, uma gravadora, e Constelações, uma editora musical. Essa aproximação me levou a ser o maior parceiro de Belchior em volume de obras escritas em parceria. Sobre o poema do Mário de Andrade, posso dizer que gosto de musicar poemas clássicos. Sou parceiro de outros como de Olavo Bilac, Hermes Fontes, José Albano, Raimundo Correia... A canção com Mário de Andrade Garoa do meu São Paulo está gravada no meu álbum de 1980, intitulado Dengo Dengue. Adoro!!! Sobre quais outras músicas escrevi sobre a capital paulista, posso dizer que adoro São Paulo Zero Grau, que está no meu álbum Besta Fera, de 1976. E outra linda canção, intitulada Avenida Paulista, gravada nos meus álbuns Mais que de Repente, de 1977, e Claramente, de 2001. Falar de alguma música escrita por meu parceiro Belchior para São Paulo é fácil adoro a canção Passeio, gravada por ele em 1974. 

Assis – O que mais encanta você em São Paulo? 

Jorge − Adoro as pessoas, também por ser um lugar onde se encontra de tudo que se deseja comer. Tem comidas nordestinas, mineiras, nortistas. Tudo de frutos do mar. Sou pego pelo estômago. E tem as oportunidades que se espera para a carreira que escolhi. Também aqui fiz grandes e inesquecíveis amigos, que hoje tenho como irmãos...! É uma capital cultural!!!

Assis – Conte um pouco sobre você, sua obra e sua história. 

Jorge − Pelas minhas atividades na arte e na música, posso dizer que sou um artista nordestino, compositor, produtor, cantor, poeta, repentista, escritor, arranjador, e fora isso também atuei na advocacia, porque sou advogado, especialista em Direitos Autorais. Fiz durante a vida toda milhares de shows e produzi pelo menos 250 álbuns de outros colegas cantores/compositores. Também escrevi trilhas de teatro, cinema e de publicidade. Agora cuido do Acervo Jorge Mello, lugar onde guardo em torno de 80.000 documentos que contam a história da música de minha geração. Tenho hoje mais de 200 obras gravadas, obras que escrevi com mais de 20 parceiros. Gravei três dezenas de álbuns (discos em vinil, CDs e fitas e vídeos). E sei que farei isso até o último dia de minha vida, porque não sei parar.

sábado, 29 de janeiro de 2022

SÃO PAULO EM PROSA, VERSO E MÚSICA (5)

Aquela redação…
(Extraído do livro São Paulo de meus amores, de Afonso Schmidt [1954]).

O aniversário da “Folha da Noite” faz-me lembrar muita coisa, pois tive o prazer de trabalhar com Olival Costa, Mariano Costa, Pedro Cunha e Antônio dos Santos Figueiredo. 

Isso foi no fim de 1922, se a memória não falha. 

A redação ainda estava instalada nos altos do Teatro Boa-Vista, à rua do mesmo nome, esquina da Ladeira Porto Geral. No rés-do-chão, havia uma casa de máquinas suíças. Dínamos e motores de diversos tipos estavam sempre expostos no salão aberto; quem passava na rua podia tocar-lhes com a mão. 

Entrávamos no jornal pela porta do teatro. Transpúnhamos um corredor enfeitado de quadros, cartazes e anúncios das peças em cena, ou prometidas para breve. Ao lado da bilheteria, gaiola de arame com guichê, embocávamos por uma escada escura, íamos desembocar no corredor de cima, ladeado de escritórios. Depois, caminhávamos para o lado da Rua Boa-Vista e virávamos à direita. Ali, o jornal mantinha duas salas: a da gerência, com a sua meia-porta envernizada, e a da redação, sempre escancarada e acolhedora. 

No fundo, à direita, diante de uma mesa grande, atulhada de papéis, sentava Olival Costa. Ele andava sempre de preto e já tinha cabelos grisalhos. Era de alegria comunicativa. Gabava- -se de cultivar os maus trocadilhos, porque os bons, geralmente, não tinham graça nenhuma. As outras mesas da redação eram menores, de desenho estranho, com suas pernas abertas, escarranchadas… 

Olival Costa admitia na redação todo bicho-careta que quisesse trabalhar. Poucos ficavam, muitos desistiam. Havia excesso de redatores. Por isso, sentavam dois ou mais em cada mesa. Ainda lembro de alguns deles: Taciano de Oliveira e Miranda Rosa, na parte esportiva. Correia Júnior, na Sociedade. Aristides Ávila redigia serenos comentários. Paulo Gonçalves que, escrevendo a parte artística, vivia cercado de poetas, pintores e comediantes. Lá iam com frequência Moacir Pisa, Silvio Floreal, Cleomenes Campos, Alberto Seabra, Belmonte, Cucê, Bernardino Pereira, Gino Bruno, Manzo, tantos outros. Foi lá que conheci Olegário Mariano, numa de suas viagens a São Paulo. E Benjamim Costallat. Gastão Barroso fazia a secção teatral. Eurico Branco Ribeiro, então estudante, especializara-se em reportagens sensacionais. E Filemon Assunção, Sabóia, João Silva, Carlos Monteiro Brisola, Luís Pisa Sobrinho. Mas ainda havia outros, muitos outros, de quem neste momento não consigo lembrar nomes.

Antônio dos Santos Figueiredo escrevia a abertura de futebol − uma nota que fez época − e os sueltos políticos, muito em moda na nossa imprensa. Pedro Cunha era o homem dos sete instrumentos: desunhava artigos, desempenhava funções de gerente e, na rua, dava pulos para alcançar uma publicidade que − naquele tempo − podia ser chamada de arisca. 

Eu estava num canto, perto da janela, por causa da claridade. Fazia alguma coisa: reportagens, artiguetes assinados etc. Mas o forte era a secção de queixas. Como o jornal ainda estivesse nos cueiros, com escassa circulação (escassa, porém, deveria duplicar de ano para ano), eu mesmo, para manter aquela coluna das lamentações, arredava cartas de leitores, protestando contra isto ou aquilo. Então, eu arregaçava a manga e entrava pela política, pela questão social, pela literatura… 

Lembro-me de que certo troglodita manifestou desagrado por essa secção do jornal:

— Vocês já repararam que só gente suspeita escreve para a coluna de queixas? Essa secção está-se tornando perniciosa! 

Mas, apesar de tudo, foi naquela “Folha da Noite”, de 1922 a 1924, cujo cabeçalho ainda se apresentava em caracteres manuscritos, que eu me fiz notado em outras redações da Capital. Certo dia, chegou-me aos ouvidos aquela proposta: trabalhar num matutino, ganhando 450$000 mensais. E, na manhã de 5 de julho de 1924, ao acordar-me, comuniquei aos meus botões: 

— Hoje, sim, vou mudar de vida! 

E mudei sim, mas antes não mudasse. Quando cheguei à Praça Antônio Prado, notei um diz-que-diz-que, um corre-corre. Logo depois, a cidade estava revolucionada. Pipocar de tiros no bairro da Luz, troar de canhões no bairro de Pinheiros. Boatos e mais boatos. Sustos e correrias. Um pandemônio. Hoje lembro, com saudade, aqueles primeiros anos da “Folha da Noite”. Foi uma aventura, uma façanha esportiva em que, de alto a baixo, todos deram, alegremente, o melhor do seu esforço. Bons tempos aqueles! Ganhava-se pouco mas, em compensação, trabalhava-se prá-xuxu.

As enchentes (1902 ?)
(Extraído do livro São Paulo naquele tempo − 1895-1915, de Jorge Americano [1957])

Chovia desesperadamente desde outubro. Quando as crianças chegavam da escola tiveram os sapatos e as meias encharcadas, faziam-lhes fricções nos pés com toalhas felpudas e calçavam outras meias e sapatos. 

Enchiam-nos os sapatos molhados com pedaços de jornal. Levados à estufa do fogão de lenha, depois do jantar, na manhã seguinte estavam secos. 

Tudo se repetiu nos dias seguintes. 

Quem passasse pelo Viaduto durante alguma “estiada”, veria o córrego Anhangabaú alagando o vale. As verduras da Chácara da Baronesa de Itapetininga tinham desaparecido n’água. 

Os jornais noticiaram as enchentes. A Várzea do Carmo (Parque Pedro II), os bairros marginais do Tamanduateí (Mooca, Cambuci, Ponte Pequena) foram invadidos pela água. As zonas da atual Vila Maria, do Carandiru e do atual Campo de Marte estavam inundadas. Na Ponte Grande (a primitiva Ponte Grande), a cujo lado estavam a chácara e observatório do General Couto de Magalhães, as águas alcançavam três palmos abaixo do piso. 

O corpo de bombeiros socorria, em canoas, os moradores desses bairros, para o edifício da Imigração, na Rua Visconde de Parnaíba, e para a Santa Casa de Misericórdia, na rua Cesário Motta. 

Uma tarde, em fins de dezembro, apareceu um sol coado. Na manhã seguinte, um pouco mais fria, o sol brilhou. 

À tarde tomamos na esquina da Rua dos Andradas o bonde a tração animal da Rua Vitória, que passou pela estação da Luz, recém-construída, cuja imensa torre podia ser vista de qualquer ponto da cidade, e entramos pela Rua Florêncio de Abreu. No lugar onde há hoje uma ponte sobre a Rua Anhangabaú, atrelaram mais um burro ao bonde, para facilitar a subida da ladeira. Ao chegar ao Largo de São Bento soltaram o burro, que desceu a ladeira sozinho. Daí tomamos o da Ponte Grande, no qual já havia diversas famílias, e pelas seis horas víamos passar as águas do Tietê. Com a ponta da bengala podiam-se deter destroços das plantas que flutuavam. 

Nos três dias seguintes fez calor forte. As águas baixaram. 

Recomeçaram as chuvas. A enchente subiu e continuou até março. 

Durante uma semana cessaram as comunicações ferroviárias para Santos, porque estava inundado o leito da estrada, na Várzea da Mooca.

Uma luz, uma jornada
(Segundo capítulo do livro A luz de Luiz, de Oswaldo Faustino, sobre o poeta e jornalista abolicionista e republicano Luiz Gama [2015])

Afinal, que Luz é essa que, noite após noite, atravessa os portões de ferro do Cemitério da Consolação
e desliza pelas ruas, travessas, becos e vielas? 
Luz a percorrer, um a um, os locais onde plantou sua história, hoje amargando a sensação de que, por ali, nada floresceu. 
Luz que busca reconhecer São Paulo, mas sua São Paulo já não há. Não aquela que tão profundamente conheceu e que também não a reconhece. Duas estranhas, frente a frente. 
Também, pudera, a cidade vestiu de asfalto todas as pedras dos calçamentos, nos quais se imprimiram as marcas profundas de suas pegadas de felino, a urrar contra a escravidão e o contra o império... 
São Paulo de quatrocentões escravocratas, cidade oligarca despudorada de ostentar seu baronato cafeeiro. São Paulo de orgulho bandeirante, voraz expansionista, caçadora de esmeraldas e de indígenas, destruidora de limites territoriais e de quilombos. 
São Paulo de ontem? Não, de hoje, de sempre...” (*) 

Seguindo a luz, que desliza célere, os jovens, em seus equipamentos de transporte, esporte e diversão, bicicletas, skates e patinetes, não conseguem alcançá-la. Há muito deixaram o medo para trás. Agora, a curiosidade é a fonte maior de energia que os mantém determinados a segui-la, através das vias tomadas por ela. 

A vantagem é que, mantendo-se num determinado raio de distância do epicentro do círculo formado por sua luminosidade, não são sugados pela escuridão do blecaute que tomou conta da cidade de São Paulo.

O mais estranho é que sons de tambores, muitos tambores, e de outros instrumentos de percussão, com sonoridades as mais variadas, das mais agudas às profundamente graves, fazem trilha sonora para essa jornada, no mínimo, insólita. Sons que ressoam em forma de palavras, na mente de cada um deles, formando um discurso que se inicia com: “Afinal, que Luz é essa que, noite após noite, atravessa os portões de ferro do Cemitério da Consolação...” e que se encerra com: “São Paulo de ontem? Não, de hoje, de sempre...”. E que, continuamente, retorna ao começo. 

De repente, no Largo São Francisco, bem em frente às arcadas da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, a luz estanca. O grupo para bem próximo dela, junto ao halo luminoso avermelhado, que toma boa parte daquele logradouro público. 

Agora, no centro da luz, já se consegue vislumbrar um vulto de homem. Um homem imponente, solene, de cabeça erguida e de queixo barbudo elevado. 

— Onde foi que já vi este homem? —, indaga-se Naomi. Quanto mais o observa, mais tem certeza de já tê-lo visto. A imagem vai adquirindo nitidez e, na mente da garota negra, vai se associando ao aroma de flores. 

— Lembrei! Foi no dia em que fui comprar rosas. Era aniversário de minha mãe. 

Todos olham assustados para ela. 

— Eu o reconheço é aquele busto do Largo do Arouche, pertinho do Mercado de Flores. Olhem! Não é o mesmo homem? A mesma altivez? —, questiona a menina. 

— Reparando bem se parece com ele sim —, concorda Shizuka, a amiga nissei inseparável, que estava em sua companhia na compra das rosas. 

— Você está falando do busto de Luiz Gama, Naomi? —, pergunta Pedro, o professor. Ao ouvir o nome, Luiz Gama, o homem se volta para o grupo e, pela primeira vez, parece perceber que não está só...

(*) Texto extraído do catálogo da exposição Memorial Luiz Gama – Caixa Cultural/São Paulo, 2014 –, do mesmo autor. Ouça!

Na casa do Assis

No dia 30 de dezembro de 2021, Assis reuniu em sua casa para um bate-papo sobre São Paulo quatro dos depoentes desta edição: Bill Hinchberger, Carlos Silvio Ramos, Darlan Zurc e Moacir Assunção. Carlos gravou o encontro e o postou no canal do seu programa Paiaiá na Conectados no YouTube.

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