Nesta minha cidade de São Paulo,
A Praça da Sé
São Paulo em verso e música
São Paulo de Todos Nós, canção Téo Azevedo/Peter Alouche
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Viagem por São Paulo, rap Costa Senna
Eles estão reproduzidos a seguir:
A presença e a contribuição de Assis Ângelo na cultura nacional estão
consagradas na sua vasta obra de pesquisador e de artista. O seu esforço em
reunir cerca de três mil músicas e composições de alguma forma relacionadas
com a cidade de São Paulo constitui um reconhecimento à altura da metrópole
fundada pelos jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta e que se tornou
símbolo e síntese da grandeza do Brasil. A alma nordestina e a brasilidade de
Assis Ângelo ganharam asas e inspiração em São Paulo, e o apreço pela cidade
mobilizou o pesquisador na busca das demonstrações de carinho e amor de tantos
quantos músicos e compositores tomados pela mesma paixão. Assis Ângelo deve a
São Paulo o acolhimento generoso que recebeu, e São Paulo deverá para sempre
ao ilustre paraibano de João Pessoa o acervo musical de merecidas homenagens.
Aldo Rebelo − Jornalista e escritor
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Uma cidade tão grande e diversa e produtiva quanto São Paulo haveria de ser
inspiração para farta produção de música diversa e, muitas vezes, grande. A
Pauliceia e muitos de seus bairros e logradouros − a Praça da Sé, a Avenida
Paulista, o aeroporto de Congonhas, o estádio do Pacaembu, a Mooca, a Pompeia
− têm inspirado tantas obras musicais quanto as atrações cariocas, excelentes
cartões de visita para passeio e lazer, ao passo − passo bem paulistanamente
ligeiro − que os encantos de Sampa refletem esforço, trabalho, luta pela vida,
até o prazer é conquistado. Este que vos escreve precisou aprender a entender
a cidade onde nasceu para vir a gostar dela. Vivi dos 12 aos 22 anos no
interior paulista, sempre reclamando da poluição, agitação e neurose da
“capitár”. Mas, uma vez de volta, em dois anos me assumi de vez como
paulistano. E, como compositor, já escrevi algumas dezenas de canções, quase
sempre bem-humoradas, sobre a terra onde a garoa é mais garoa.
Aqui vai uma de bom humor lírico:
Ayrton Mugnaini Jr. – compositor
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Em 1991, como correspondente de The Financial Times, fui convidado para fazer parte de um grupo minúsculo de jornalistas, quase todos brasileiros, que se encontraria com o governador Luiz Antonio Fleury Filho. O governador anunciou um empréstimo então recorde do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para a despoluição do Rio Tietê. Fiz uma matéria relativamente extensa para aquele grande jornal inglês. Tanto dinheiro para um projeto ambiental era inédito. Depois, Fleury prometeu beber água do rio no ano 2005. Nada disso. Em 2007, em parceria com a TV PUC São Paulo, recorri quase todo o rio, desde a fonte (onde, sim, eu bebi um copo de água) até lá longe, no interior, onde o rio finalmente voltava a desfrutar a vida. Acompanhei uma peça de teatro flutuante dento da cidade de São Paulo, uma iniciativa que simbolizava a importância cultural do rio para a metrópole. Ao pousar em Guarulhos no final do ano, vindo de Paris, para minha primeira visita desde o começo da pandemia, vi a triste realidade: milhões de dólares e duas décadas depois, o rio continuava morto.
O título acima vem da música de mesmo nome pelo conjunto The Standells, gravada em 1966:
Os roqueiros cantavam o Rio Charles, de Boston. Naquela época, quem caía no rio da cidade de Boston era encaminhado para o hospital. Hoje você pode nadar no Rio Charles. Até quando esperar para a volta do Tietê?
Bill Hinchberger – jornalista norte-americano
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O sonho de quase todo garoto do interior do Brasil é ir para cidade grande.
Para um garoto do sertão baiano, o destino, no sonho desse garoto, é São
Paulo. Comigo não foi diferente. No Paiaiá, povoado do município de Nova Soure
(BA), vivi até os meus 21 anos de idade. Mas desde a infância São Paulo já
passeava na minha imaginação. Um dia dou um pulo em São Paulo, pensava, ao ver
muita gente chegar de férias e com um novo visual. No dia 10 de janeiro de
1999 desembarquei no Terminal Rodoviário do Tietê. Do espanto inicial, por
contemplar o vaivém dos carros, o pra lá e pra cá de um monte de gente
apressada que parece não encontrar seu destino, há uma relação de amor e muito
afeto. São Paulo é minha segunda casa. Depois do meu Paiaiá, é a cidade que
mais amo. A cidade onde aprendi o pouco que sei; cidade que continua a me
ensinar. Obrigado, São Paulo!
Carlos Sílvio Ramos – radialista (Paiaiá na Conectados)
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Vim-me embora pra São Paulo. Aqui não sou amigo do rei. Aqui não tenho a
mulher que eu quero nem a cama que escolherei. Vim-me embora pra São Paulo.
Lá, no sertão baiano de Nova Soure, eu não era infeliz. Aqui a inexistência é
uma desventura de tal modo pertinente que Getulio Vargas, do Sul, rei e falso
dirigente, vem a ser contraindicado até para a sogra que já tive. E como não
farei academia, não andarei de motobói, não montarei em viatura braba da Rota,
não subirei em arranha-céus, não tomarei banhos de enchente? E, quando não
estiver cansado, levanto na beira do rio Tietê, mando chamar os bueiros de
esgoto pra me desmentirem as histórias que, no tempo de eu adulto, a Turma da
Mônica jamais iria me contar. Vim-me embora pra São Paulo. Em São Paulo, não
tem tudo. É outra esculhambação. Não tem um processo seguro de impedir o
assalto e qualquer violação. Não tem mais bondinho elétrico, não tem mais
madrugadas à vontade. Não tem mais acompanhantes vestidas para a gente azarar.
E quando eu estiver alegre, mas alegre de ter um infarto na poluição, quando
na garoa da manhã me der vontade de viver, aqui não sou amigo do rei, não
terei a mulher que eu quero nem a cama que escolherei. Assim mesmo e apesar de
tudo, vimme embora pra São Paulo.
Darlan Zurc − historiador
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Só podia ser uma cidade com nome de um santo – São Paulo – a que me acolheu, depois de longos anos de batalha nesta minha vida. São Paulo, você vem me dando tanta alegria e profissionalismo que não me vejo saindo daqui pra morar em outro lugar! Aqui, eu consolidei minha carreira de músico, cantor e compositor; conheci pessoas; conquistei espaços para criar e implantar muitos projetos educacionais e culturais! Aqui, eu criei meus filhos, minha família e fiz grandes amigos... e me criei como cidadão! Eu até fiz músicas pra São Paulo!... Uma, São Paulo, Esquina do Mundo, com o jornalista e escritor Assis Ângelo, e a outra, Cruzando a Pauliceia, com o músico Fubá! Além, claro, de tocar e cantar, em shows com Tom Zé, duas grandes músicas feitas para a cidade, que são: Augusta, Angélica e Consolação e São São Paulo. Agora, SÃO PAULO, continue me acolhendo e me ensinando a ser uma pessoa cada vez melhor! Obrigado, São Paulo!!!
Jarbas Mariz – músico, cantor e compositor
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No ano de 2005 foi criado na cidade de Salzburg, na Áustria, o Instituto
Karajan, na casa onde nasceu o maestro. Nesse Instituto estão armazenados
todos os dados e documentos da vida e carreira do maior maestro da segunda
metade do século XX em todo o mundo. O Instituto é um centro cultural que
promove hoje os mais diversos eventos e atividades culturais. Quando ele foi
inaugurado, em 2005, um grupo de instrumentistas da Filarmônica de Berlim −
orquestra que ele regeu por mais de três décadas − foi convidado para
participar da festa de inauguração, já que a orquestra inteira não caberia na
casa. Esse grupo de instrumentos de sopro pediu-me que escrevesse uma peça bem
brasileira para animar a festa de inauguração. Pois bem. Enviei a eles a mais
brasileira das músicas, uma valsa. Uma Valsa Paulistana. Os alemães morreram
de rir. Como uma valsa “bem brasileira” para a “terra da valsa”?
Mas, a
nossa valsa não tem nada a ver com as valsas vienenses, dançantes, festivas.
Nossa valsa, de estilo paulistano, é sentimental, lenta, chorosa... Bem. A
Valsa Paulistana foi executada, com enorme sucesso, e gravada pelo Quinteto de
Sopros da Filarmônica de Berlim, selo BIS 952. O CD chama-se Summer Music.
Essa valsa para quinteto de sopros foi acrescentada a uma suíte de nome Belle
Époque in Süd-Amerika, juntamente com um tango e um choro. A partitura
completa dessa suíte encontra-se gratuitamente no site Musica Brasilis.
Júlio Medaglia − maestro
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Cheguei em São Paulo num frio domingo de março de 1978. Eu conhecia a capital paulista dos postais que mostravam uma cidade com muitos prédios, uma linda praça, a República, e a Avenida Paulista, com seus arranha-céus futuristas. Ao descer do ônibus, em Cumbica, bairro de Guarulhos, então com ruas de terra e grandes muros, típicos de uma região industrial, me decepcionei profundamente: “Como São Paulo é feia”, pensei. Somente meses depois passaria a conhecer, de fato, a cidade, como office-boy de uma agência de turismo sediada na Praça da República. Me apaixonei perdidamente, como era de se esperar. São Paulo, a mais cosmopolita das cidades brasileiras, me ofereceu uma profissão, de jornalista e professor, uma boa condição de vida, uma filha, a querida Júlia, e o gosto pela história, adquirida no tempo em que trabalhei cuidando da estante da área em uma livraria, e na condição de repórter de dois jornais, Estadão e Diário Popular, em que escarafunchei essa cidade de alto a baixo. Enfrentei, claro, muitas dificuldades, típicas de um forasteiro tentando se estabilizar − no caso, de um pernambucano do sertão, em plena metrópole −, mas sempre deu certo. Enfim, fico contente em saber que, depois de 42 anos, conquistei a tão sonhada “cidadania” paulistana e estou, a cada dia, mais apaixonado por esta grande cidade. Abraços a todos e todas conterrâneos.
Moacir Assunção – jornalista
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Realmente, São Paulo é do mundo todo. Nas pesquisas, São Paulo é a quarta maior cidade do mundo em população, mas em se tratando de espaço, cidadania, trabalho, liberdade, paz e amor, para mim ela é a maior do mundo. Porque, além do trabalho, ela tem de tudo que um ser humano precisa para viver ou sobreviver. Para isso basta que lhe seja um cidadão que respeita o direito de ir e vir, que vive e deixa os outros viverem. Sou mineiro de Alto Belo, distrito de Bocaiúva, no norte do estado. Fui para São Paulo em 1969, e por lá estou até hoje. Rodei o Brasil todo. Estive em Portugal, mas São Paulo nunca saiu do meu coração. Tudo que tem pelo mundo afora você acha em São Paulo. Pra viver em São Paulo basta saber navegar, não importa se é rico ou se é pobre. Fiz mais de 30 músicas em homenagem a essa gigante de cimento e continuarei até o fim dos meus tempos exaltando os paulistas e os paulistanos. A minha carreira artística eu devo muito a essa cidade fantástica e sua gente. A minha eterna homenagem a São Paulo.
Téo Azevedo – músico, cantor e compositor
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No início da carreira, algumas dificuldades me levaram a fazer o que eu
chamava de “reportagem cantada”. Primeiro foi em Irará, com as pessoas e casos
de lá. Depois, em Salvador, com seus personagens históricos, monumentos que
são muito vivos etc. Quando cheguei em São Paulo, eu, que componho sobre meu
entorno, fiquei sem saber a que me referir nos primeiros dias. O que me salvou
foi que na rua 7 de Abril entrei para ver um filme chamado São Paulo S/A, de
Luís Sérgio Person. Mudou completamente o meu jeito de ver a cidade e seus
problemas. Comecei a escrever as canções que fizeram meu primeiro disco,
chamado Tom Zé – Grande Liquidação. Ou seja, continuei, como era e é meu
costume, a fazer canção sobre o que está à minha volta. Essa “liquidação”
tematiza a explosão da venda a crédito, que anteriormente era uma maldição
para o comércio. Circulava até um dito: “Fiado, cinco letras que choram”. Mas
o fiado passou a ser uma insistência. No dia 21 de abril de 1968, quando
acordei e cheguei à porta de casa, estava fazendo muito frio. Frio mesmo, que
hoje não faz mais.
Eu estava na Rua Conselheiro Brotero e me dirigi para
a Alameda Barros. No meio do quarteirão havia uma banca de revistas e nela,
uma grande manchete: Prostitutas invadem o centro da cidade. Em vez de tremer
frio, comecei a tremer de emoção. E naquele instante me ocorreu toda a forma
da canção São São Paulo, Meu Amor. Quando você encontrava uma pessoa ela quase
imediatamente começava a falar mal e a enumerar os defeitos de São Paulo.
Achando que assim se identificava, mostrando que estava “por dentro”. Reuni
esses “defeitos” e discuti-os no refrão. Tá bom, Assis Ângelo, pode chamar
tudo isso que falei de “paixão por São Paulo”.
Tom Zé – músico, cantor e compositor
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Cacá Lopes, músico e cordelista
Brás
O migrante é povo forte
Busca o sonho, é capaz,
Foi
assim que muita gente
Deixou tudo para trás,
E veio para São
Paulo
Para trabalhar no Brás
Esse distrito que está
Bem na Região central,
À leste do
centro histórico
De São Paulo capital,
Nas terras de José Brás
Que se tornou imortal.
Santo Amaro
No universo dos versos
Cada verso eu encaro,
Laço,
teço, ouso, busco
Meço, rimo, nunca paro,
Chego, canto a Zona Sul
Começo por Santo Amaro
Aldeia de Jeribatiba
Tantas
vezes visitada,
Por José de Anchieta
Firme na sua jornada,
Sobre a criação da vila
Após ser catequizada
São Miguel Paulista
Mais um bairro de São Paulo
Acrescento em minha lista,
Ao descrevê-lo em cordel
À memória se avista.
Minha homenagem em versos
Para São Miguel Paulista
Feche os
olhos, imagine
Como tudo começou,
De’um aldeamento indígena
A vilinha se formou,
Narro poeticamente
Quem o lugar
desbravou.
Cidade Tiradentes
A Cidade Tiradentes
No fundão da capital,
Um conjunto
periférico
E monofuncional,
Tipo bairro dormitório
De proporção sem igual.
Na
América Latina
É tido como o maior
Complexo habitacional
Com
conjuntos ao redor,
Do bairro que a cada dia
Em “infra” fica
melhor.
Capão Redondo
Capão é uma porção
De mato quase isolado,
No meio de
um grande campo,
Já o bairro retratado,
Do tupi – mato redondo
Vem o seu significado.
O nome Capão Redondo
Foi dado por
moradores,
Os primeiros habitantes
Fortes colonizadores,
Também praticavam caças
E eram bons pescadores.
Itaquera
Itaquera – Zona Leste
Seu povo quero saudar!
Trago um canto
diferente
E quero lhe ofertar,
Um Cordel com sua história
À
memória do Lugar
Itaquera é pedra dura
Vem do Tupi Guarani,
Dizem que Tomé de Souza
Um dia passou aqui,
Pela estrada de
Santos
Próxima do Iguatemi.
Paraisópolis
Povo de Paraisópolis
Estou chegando pra rimar,
A história
desse bairro
Na cultura popular,
Convido você leitor!
Para
no tempo voltar.
O processo começou
Lá na década de cinquenta.
A colônia japonesa
Toma posse e logo
tenta,
Transformar as suas chácaras
De grileiro não se isenta
Assis Ângelo − Que eu saiba, você, além de engenheiro, se formou em Letras Francesas pela Université de Nancy (França). Foi naquela época que escreveu um poema dedicado ao general de Gaulle [NdaR: presidente da França de 1944 a 1946 e de 1958 a 1969] e que ele apreciou muito? Fale a respeito.
Peter Alouche − O poema que escrevi dedicado ao general de Gaulle foi muito anterior ao meu curso em Nancy. Foi em 1960, eu era adolescente, recém-chegado ao Brasil, e admirava muito a coragem, a bravura e o patriotismo desse grande líder francês que eu conhecia e ouvia pelo rádio. Depois de um discurso inflamado que ele dirigiu à nação, durante a guerra da Argélia, decidi escrever esse poema e, com coragem, enviá-lo por carta a ele. O poema chama A vitória e a ambição nacional. A última estrofe, que vou traduzir, diz o seguinte:
Mais qui es-tu, Soldat, qui m´a rendu la gloire, L´Honneur, la Force, la Victoire Et l´Unité, quén vain, recherchait ma Nation? “FRANCE, je suis ton Ambition” (“Mas quem és tu, Soldado, que me devolveu a Glória, A Honra, a Força, a Vitória E a Unidade que procurava minha Nação? “FRANÇA, eu sou tua Ambição”)
Fiquei surpreso e orgulhoso de receber em resposta uma carta da Presidência da República da França, em 24 de fevereiro de 1960 (coisa absolutamente inédita, como fiquei sabendo), com os seguintes dizeres:
“Senhor, Sua carta e seu poema, inspirados pelo amor que tens pela França, tocaram o Général de Gaulle. Ele me encarregou de lhe dizer e de agradecer pelo testemunho que você lhe trouxe. Queira receber, Senhor, a expressão de meus distintos sentimentos.”
Assis − Você nasceu no Egito, mas sua principal língua é o francês. Por quê?
Peter − É simples de explicar. Naquela época, no Egito, as classes média e alta, em especial os cristãos do Egito (sou católico do rito bizantino), como todos os descendentes de europeus, estudavam em escolas francesas (muitas religiosas). Eu estudava nos jesuítas. Todas as matérias eram dadas seguindo o curso francês e, em paralelo, o curso árabe. Mas na escola só se podia conversar na língua de Molière. O interessante é estudar os fatos históricos (como a campanha de Napoleão no Egito) sob dois prismas antagônicos.
Assis − Você trocou a sua terra pelo Brasil. Quando e por quê?
Peter − Esta é uma longa história. Vou tentar resumir. Na época, houve no Egito a Revolução de Nasser, que derrubou o rei Farouk e estabeleceu uma república islâmica. Embora 10%¨da população egípcia fossem cristãos (coptas), a situação para os não muçulmanos (cristãos e muito mais os judeus) tornou-se muito difícil. Meu tio, irmão de meu pai (que tinha falecido), era arcebispo da Igreja Católica Bizantina em São Paulo. Foi ele quem construiu a Igreja Nossa Senhora do Paraíso. Preocupado com o noticiário que chegava do Egito, nos mandou vir para o Brasil, deixando tudo para trás, bens e dinheiro. Não se podia sair do País naquela época com dinheiro. Viemos ao Brasil, minha mãe com sete filhos, em parte menores. Fomos recebidos como deuses por meu tio. Infelizmente, dois anos depois ele morreu e aí fomos abandonados à própria sorte. Foi muito, muito difícil no início, mas, graças ao bom Deus, vencemos.
Assis − A poesia e a cultura popular andam junto com você, sempre. Por quê?
Peter − Embora tivesse me formado engenheiro e até lecionado Engenharia por 25 anos, nas Faculdades Mackenzie e Faap, a cultura literária e a poesia sempre foram minhas companheiras. Gostava de ler, principalmente em francês (li Jorge Amado em francês), porque acho que o francês é uma língua mais dada à cultura. Molière, Victor Hugo, Rimbaud e Baudelaire que o digam. Dou mais valor ao meu diploma de Letras de Nancy do que à minha pós-graduação em Engenharia na Politécnica. Esta me dava os recursos para trabalhar. A outra me dava os recursos da alma.
Assis − Você fala muitas línguas e tem textos publicados no Brasil e no exterior, mas não publicou um livro até hoje. Por quê?
Peter − Escrever um livro sempre esteve nos meus projetos de vida. Sou até cobrado pela família e amigos para escrever a história da família, que é uma verdadeira epopeia. Mas dois obstáculos sempre se apresentaram: a dúvida se deveria meu livro ser um romance ou uma autobiografia; e a preguiça. Por incrível que pareça, tenho tendência à preguiça, exceto quando estou pressionado. Aí ninguém me segura. Aliás, eu queria lembrar que parte da história da minha vida foi escrita em cordel, por Klévisson Vianna, um dos maiores cordelistas do Brasil: A vida de Peter Alouche ou a miragem do destino. Uma obra-prima que eu não poderia igualar.
Assis − Você é dono de um amplo conhecimento cultural. Quais os livros e autores que mais o marcaram na vida?
Peter − Foram muitos, muitos. Mas vou citar tão somente dois: Madame Bovary, de Gustave Flaubert, e A confusão dos sentimentos, de Stefan Zweig.
Assis − E na música clássica, quais autores mais admira?
Peter − Na música clássica, Chopin (Fantasie − Impromptu), Beethoven (A sétima − segundo movimento) e Haydn (Sarabande). Na música popular, as músicas francesas, claro. Nas canções brasileiras, Chico Buarque, sem dúvida.
Assis − Pouca gente sabe, mas você publicou um folheto de cordel e tem também a música São Paulo de todos nós, cantada por Téo Azevedo.
Peter − No cordel, foi uma ousadia que tive em participar do Primeiro Concurso de Cordel; aliás, organizado por você, Assis Ângelo, em 2002. Me inscrevi com o pseudônimo de Pedro Nordestino. O cordel chama Encontro no Metrô. Foi um dos dez classificados. Tenho também algumas outras poesias publicadas, como a Borboleta Amazônia, também musicada por Téo Azevedo, e Avenida Paulista (poema publicado no livro Natureza Cidade).
Assis − Você é um símbolo para os metroviários do Brasil, especialmente de São Paulo. Você foi um
dos fundadores do nosso Metrô. O tem a dizer sobre isso?Peter − O Metrô é minha paixão profissional. Desde que entrei no Metrô, em 1972 (e foi por acaso do destino), minha vida se transformou. Adotei o Metrô e o Metrô me adotou. Uma verdadeira paixão mútua. Não é que minha vida no Metrô fosse um paraíso (tive algumas poucas mágoas, que ainda não consigo enterrar. Um dia conto), mas o Metrô foi para mim uma escola superior de Engenharia, onde pude aprender muito e desenvolver um belo trabalho (concepção, coordenação dos testes de aceitação etc.) e onde pude criar muitas amizades. Saí do Metrô ao me aposentar, mas continuo muito ligado (sem remuneração nenhuma) à Companhia que tanto me deu de alegrias e conquistas.
Entrevista de Assis Ângelo com Jorge Mello
Assis Ângelo – Jorge Mello, você trocou o Piauí pelo Rio de Janeiro e depois por São Paulo. Por quê? Jorge Mello − Quando ainda pequeno, com nove anos, em Piripiri, no Piauí, minha cidade natal, eu já me decidi por ser músico, artista. Eu ajudava meu pai na bodega que ele tinha na Praça do Mercado. Ele saía pra pegar mantimentos em nosso sítio, para vender, e me deixava muitas vezes sozinho, cuidando do atendimento no balcão. Ele vendia de tudo, até sanfonas. E nessas saídas dele, eu pegava na sanfona e dedilhava as canções que tinha na cabeça. Um dia ele me pegou tocando. E daquele dia em diante ele me botou para trabalhar do lado de fora do estabelecimento, tocando sanfona para atrair a freguesia. Logo saí de casa e fui buscar meu sonho, em Teresina, depois Fortaleza. Até que percebi que ele estava aqui no chamado “Sul Maravilha”. Vim para o sul, obedecendo à lei da gravidade. E realizei meu sonho de ser um artista, um músico, um compositor.
Assis − Você fez parte do grupo Pessoal do Ceará. Que grupo foi esse, e qual a sua importância?
Jorge − Nos tempos da universidade em Fortaleza, eu, buscando os espaços para mostrar a minha música, encontrei outros interessados nisso reunidos na Faculdade de Arquitetura, Física e Direito (o curso que eu frequentava). Eram estudantes interessados em música, poesia e nos festivais locais. Logo estávamos nos bares, e foi no Bar do Anísio, o local principal onde essa tropa se reunia. Fui contratado pela TV Ceará para a direção musical de um programa local onde utilizava essa mão de obra e essa tropa cheia de talento, semanalmente, nos programas que dirigi: Porque hoje é sábado e Gente que a gente gosta. Com o tempo fomos reconhecidos como Pessoal do Ceará. Fui um dos primeiros a me mudar para o Rio de Janeiro, e em minha casa moraram Belchior, Fagner e Cirino. Depois chegaram Ednardo, Rodger e Tety. E aconteceu o reconhecimento dessa massa de compositores, com o sucesso do LP Pessoal do Ceará, gravado em São Paulo. Ednardo foi o primeiro a ter esse reconhecimento popular. Depois os outros foram tendo oportunidades, como aconteceu comigo.
Assis – Você, parceiro de Belchior em quase 30 músicas, e ele, um cearense que amava São Paulo, como você. Sei que você chegou a musicar o famoso poema de Mário de Andrade Garoa do meu São Paulo; conta essa história... Quais são as outras músicas que escreveu sobre a capital paulista? Fale de alguma que tenha sido feita pelo seu parceiro Belchior.
Jorge – Bem, são quatro perguntas numa só: A história da parceria com Belchior vem dos tempos da universidade, em Fortaleza. E, também pelo fato de termos morado juntos por anos. E ainda porque fomos sócios em duas empresas: Paraíso Discos, uma gravadora, e Constelações, uma editora musical. Essa aproximação me levou a ser o maior parceiro de Belchior em volume de obras escritas em parceria. Sobre o poema do Mário de Andrade, posso dizer que gosto de musicar poemas clássicos. Sou parceiro de outros como de Olavo Bilac, Hermes Fontes, José Albano, Raimundo Correia... A canção com Mário de Andrade Garoa do meu São Paulo está gravada no meu álbum de 1980, intitulado Dengo Dengue. Adoro!!! Sobre quais outras músicas escrevi sobre a capital paulista, posso dizer que adoro São Paulo Zero Grau, que está no meu álbum Besta Fera, de 1976. E outra linda canção, intitulada Avenida Paulista, gravada nos meus álbuns Mais que de Repente, de 1977, e Claramente, de 2001. Falar de alguma música escrita por meu parceiro Belchior para São Paulo é fácil adoro a canção Passeio, gravada por ele em 1974.
Assis – O que mais encanta você em São Paulo?
Jorge − Adoro as pessoas, também por ser um lugar onde se encontra de tudo que se deseja comer. Tem comidas nordestinas, mineiras, nortistas. Tudo de frutos do mar. Sou pego pelo estômago. E tem as oportunidades que se espera para a carreira que escolhi. Também aqui fiz grandes e inesquecíveis amigos, que hoje tenho como irmãos...! É uma capital cultural!!!
Assis – Conte um pouco sobre você, sua obra e sua história.
Jorge − Pelas minhas atividades na arte e na música, posso dizer que sou um artista nordestino, compositor, produtor, cantor, poeta, repentista, escritor, arranjador, e fora isso também atuei na advocacia, porque sou advogado, especialista em Direitos Autorais. Fiz durante a vida toda milhares de shows e produzi pelo menos 250 álbuns de outros colegas cantores/compositores. Também escrevi trilhas de teatro, cinema e de publicidade. Agora cuido do Acervo Jorge Mello, lugar onde guardo em torno de 80.000 documentos que contam a história da música de minha geração. Tenho hoje mais de 200 obras gravadas, obras que escrevi com mais de 20 parceiros. Gravei três dezenas de álbuns (discos em vinil, CDs e fitas e vídeos). E sei que farei isso até o último dia de minha vida, porque não sei parar.
O aniversário da “Folha da Noite” faz-me lembrar muita coisa, pois tive o prazer de trabalhar com Olival Costa, Mariano Costa, Pedro Cunha e Antônio dos Santos Figueiredo.
Isso foi no fim de 1922, se a memória não falha.
A redação ainda estava instalada nos altos do Teatro Boa-Vista, à rua do mesmo nome, esquina da Ladeira Porto Geral. No rés-do-chão, havia uma casa de máquinas suíças. Dínamos e motores de diversos tipos estavam sempre expostos no salão aberto; quem passava na rua podia tocar-lhes com a mão.
Entrávamos no jornal pela porta do teatro. Transpúnhamos um corredor enfeitado de quadros, cartazes e anúncios das peças em cena, ou prometidas para breve. Ao lado da bilheteria, gaiola de arame com guichê, embocávamos por uma escada escura, íamos desembocar no corredor de cima, ladeado de escritórios. Depois, caminhávamos para o lado da Rua Boa-Vista e virávamos à direita. Ali, o jornal mantinha duas salas: a da gerência, com a sua meia-porta envernizada, e a da redação, sempre escancarada e acolhedora.
No fundo, à direita, diante de uma mesa grande, atulhada de papéis, sentava Olival Costa. Ele andava sempre de preto e já tinha cabelos grisalhos. Era de alegria comunicativa. Gabava- -se de cultivar os maus trocadilhos, porque os bons, geralmente, não tinham graça nenhuma. As outras mesas da redação eram menores, de desenho estranho, com suas pernas abertas, escarranchadas…
Olival Costa admitia na redação todo bicho-careta que quisesse trabalhar. Poucos ficavam, muitos desistiam. Havia excesso de redatores. Por isso, sentavam dois ou mais em cada mesa. Ainda lembro de alguns deles: Taciano de Oliveira e Miranda Rosa, na parte esportiva. Correia Júnior, na Sociedade. Aristides Ávila redigia serenos comentários. Paulo Gonçalves que, escrevendo a parte artística, vivia cercado de poetas, pintores e comediantes. Lá iam com frequência Moacir Pisa, Silvio Floreal, Cleomenes Campos, Alberto Seabra, Belmonte, Cucê, Bernardino Pereira, Gino Bruno, Manzo, tantos outros. Foi lá que conheci Olegário Mariano, numa de suas viagens a São Paulo. E Benjamim Costallat. Gastão Barroso fazia a secção teatral. Eurico Branco Ribeiro, então estudante, especializara-se em reportagens sensacionais. E Filemon Assunção, Sabóia, João Silva, Carlos Monteiro Brisola, Luís Pisa Sobrinho. Mas ainda havia outros, muitos outros, de quem neste momento não consigo lembrar nomes.
Antônio dos Santos Figueiredo escrevia a abertura de futebol − uma nota que fez época − e os sueltos políticos, muito em moda na nossa imprensa. Pedro Cunha era o homem dos sete instrumentos: desunhava artigos, desempenhava funções de gerente e, na rua, dava pulos para alcançar uma publicidade que − naquele tempo − podia ser chamada de arisca.
Eu estava num canto, perto da janela, por causa da claridade. Fazia alguma coisa: reportagens, artiguetes assinados etc. Mas o forte era a secção de queixas. Como o jornal ainda estivesse nos cueiros, com escassa circulação (escassa, porém, deveria duplicar de ano para ano), eu mesmo, para manter aquela coluna das lamentações, arredava cartas de leitores, protestando contra isto ou aquilo. Então, eu arregaçava a manga e entrava pela política, pela questão social, pela literatura…
Lembro-me de que certo troglodita manifestou desagrado por essa secção do jornal:
— Vocês já repararam que só gente suspeita escreve para a coluna de queixas? Essa secção está-se tornando perniciosa!
Mas, apesar de tudo, foi naquela “Folha da Noite”, de 1922 a 1924, cujo cabeçalho ainda se apresentava em caracteres manuscritos, que eu me fiz notado em outras redações da Capital. Certo dia, chegou-me aos ouvidos aquela proposta: trabalhar num matutino, ganhando 450$000 mensais. E, na manhã de 5 de julho de 1924, ao acordar-me, comuniquei aos meus botões:
— Hoje, sim, vou mudar de vida!
E mudei sim, mas antes não mudasse. Quando cheguei à Praça Antônio Prado, notei um diz-que-diz-que, um corre-corre. Logo depois, a cidade estava revolucionada. Pipocar de tiros no bairro da Luz, troar de canhões no bairro de Pinheiros. Boatos e mais boatos. Sustos e correrias. Um pandemônio. Hoje lembro, com saudade, aqueles primeiros anos da “Folha da Noite”. Foi uma aventura, uma façanha esportiva em que, de alto a baixo, todos deram, alegremente, o melhor do seu esforço. Bons tempos aqueles! Ganhava-se pouco mas, em compensação, trabalhava-se prá-xuxu.
Chovia desesperadamente desde outubro. Quando as crianças chegavam da escola tiveram os sapatos e as meias encharcadas, faziam-lhes fricções nos pés com toalhas felpudas e calçavam outras meias e sapatos.
Enchiam-nos os sapatos molhados com pedaços de jornal. Levados à estufa do fogão de lenha, depois do jantar, na manhã seguinte estavam secos.
Tudo se repetiu nos dias seguintes.
Quem passasse pelo Viaduto durante alguma “estiada”, veria o córrego Anhangabaú alagando o vale. As verduras da Chácara da Baronesa de Itapetininga tinham desaparecido n’água.
Os jornais noticiaram as enchentes. A Várzea do Carmo (Parque Pedro II), os bairros marginais do Tamanduateí (Mooca, Cambuci, Ponte Pequena) foram invadidos pela água. As zonas da atual Vila Maria, do Carandiru e do atual Campo de Marte estavam inundadas. Na Ponte Grande (a primitiva Ponte Grande), a cujo lado estavam a chácara e observatório do General Couto de Magalhães, as águas alcançavam três palmos abaixo do piso.
O corpo de bombeiros socorria, em canoas, os moradores desses bairros, para o edifício da Imigração, na Rua Visconde de Parnaíba, e para a Santa Casa de Misericórdia, na rua Cesário Motta.
Uma tarde, em fins de dezembro, apareceu um sol coado. Na manhã seguinte, um pouco mais fria, o sol brilhou.
À tarde tomamos na esquina da Rua dos Andradas o bonde a tração animal da Rua Vitória, que passou pela estação da Luz, recém-construída, cuja imensa torre podia ser vista de qualquer ponto da cidade, e entramos pela Rua Florêncio de Abreu. No lugar onde há hoje uma ponte sobre a Rua Anhangabaú, atrelaram mais um burro ao bonde, para facilitar a subida da ladeira. Ao chegar ao Largo de São Bento soltaram o burro, que desceu a ladeira sozinho. Daí tomamos o da Ponte Grande, no qual já havia diversas famílias, e pelas seis horas víamos passar as águas do Tietê. Com a ponta da bengala podiam-se deter destroços das plantas que flutuavam.
Nos três dias seguintes fez calor forte. As águas baixaram.
Recomeçaram as chuvas. A enchente subiu e continuou até março.
Durante uma semana cessaram as comunicações ferroviárias para Santos, porque estava inundado o leito da estrada, na Várzea da Mooca.
Seguindo a luz, que desliza célere, os jovens, em seus equipamentos de transporte, esporte e diversão, bicicletas, skates e patinetes, não conseguem alcançá-la. Há muito deixaram o medo para trás. Agora, a curiosidade é a fonte maior de energia que os mantém determinados a segui-la, através das vias tomadas por ela.
A vantagem é que, mantendo-se num determinado raio de distância do epicentro do círculo formado por sua luminosidade, não são sugados pela escuridão do blecaute que tomou conta da cidade de São Paulo.
O mais estranho é que sons de tambores, muitos tambores, e de outros instrumentos de percussão, com sonoridades as mais variadas, das mais agudas às profundamente graves, fazem trilha sonora para essa jornada, no mínimo, insólita. Sons que ressoam em forma de palavras, na mente de cada um deles, formando um discurso que se inicia com: “Afinal, que Luz é essa que, noite após noite, atravessa os portões de ferro do Cemitério da Consolação...” e que se encerra com: “São Paulo de ontem? Não, de hoje, de sempre...”. E que, continuamente, retorna ao começo.
De repente, no Largo São Francisco, bem em frente às arcadas da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, a luz estanca. O grupo para bem próximo dela, junto ao halo luminoso avermelhado, que toma boa parte daquele logradouro público.
Agora, no centro da luz, já se consegue vislumbrar um vulto de homem. Um homem imponente, solene, de cabeça erguida e de queixo barbudo elevado.
— Onde foi que já vi este homem? —, indaga-se Naomi. Quanto mais o observa, mais tem certeza de já tê-lo visto. A imagem vai adquirindo nitidez e, na mente da garota negra, vai se associando ao aroma de flores.
— Lembrei! Foi no dia em que fui comprar rosas. Era aniversário de minha mãe.
Todos olham assustados para ela.
— Eu o reconheço é aquele busto do Largo do Arouche, pertinho do Mercado de Flores. Olhem! Não é o mesmo homem? A mesma altivez? —, questiona a menina.
— Reparando bem se parece com ele sim —, concorda Shizuka, a amiga nissei inseparável, que estava em sua companhia na compra das rosas.
— Você está falando do busto de Luiz Gama, Naomi? —, pergunta Pedro,
o professor.
Ao ouvir o nome, Luiz Gama, o homem se volta para o grupo e, pela
primeira vez, parece perceber que não está só...
(*) Texto extraído do catálogo da exposição Memorial Luiz Gama – Caixa Cultural/São Paulo, 2014 –, do mesmo autor. Ouça!
No dia 30 de dezembro de 2021, Assis reuniu em sua casa para um bate-papo sobre São Paulo quatro dos depoentes desta edição: Bill Hinchberger, Carlos Silvio Ramos, Darlan Zurc e Moacir Assunção. Carlos gravou o encontro e o postou no canal do seu programa Paiaiá na Conectados no YouTube.