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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

ARNALDO ROSA, SAUDADE

Hoje 11 faz exatamente 22 anos que a morte levou o paulistano Arnaldo Rosa, um dos fundadores mais bem humorados do grupo musical Demônios da Garoa.
Arnaldo tinha 21 anos de idade quando ele e seu grupo gravaram a 1ª música: Sanfoneiro Folgado, de Mário Zan e Motinha.
O tempo transformou Mário Zan no rei da sanfona.
Eu conheci Arnaldo Rosa num ano qualquer da década de 1980.
Antes de conhecê-lo, fui convidado pela extinta Continental a escrever a contracapa do Disco Demônios da Garoa - 50 anos, que saiu em 1994.
Depois de ler a contracapa do disco, um LP, Arnaldo disse algo como "você sabe muito mais sobre nós (Demônios), do que nós. Por que você não escreve um livro sobre o nosso grupo?".
Findei escrevendo Pascalingundum - Os Eternos Demônios da Garoa, o único até hoje escrito sobre o grupo. Publicado em 2009, num espetáculo promovido pelo Sesc Pompéia, o livro bem comentado
É isso.
 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

HOLOCAUSTO NUNCA MAIS

O incentivo e a moleza que o presidente Bolsonaro está dando ao tráfico de armas, mobilizaram hoje 10 um grupo de 100 policiais federais para desmonte de uma quadrilha especializada na falsificação de documentos do Exército, no Rio. Esses documentos tinham por finalidade facilitar o acesso a armas de grosso calibre.
É coisa séria.
Bolsonaro é uma pessoa que vive ao lado da morte, armando milicianos e neonazistas. 
Estão os neonazistas há muito tempo do lado do atual presidente, desde os tempos em que ele era um insignificante deputado em Brasília.
A antropóloga Adriana Dias descobriu em 2006 que Bolsonaro já estava, aquele tempo, aliado a grupos radicais, como os neonazistas.
Foi não foi, o assunto volta à baila.
Esta semana um conhecido youtuber, entrevistando um deputado e uma deputada, defendeu a ideia de se criar um partido político com identificação direta ao nazismo. O cara perdeu o emprego e o deputado, um tal de Kim, está ameaçado de perder o mandato.
No rastro da fala do youtuber, um ex-BBB comentarista da Pan, também foi demitido por apoiar a fala do cara que entrevistava o tal Kim. A demissão deveu-se, especialmente, ao fato de o tal comentarista fazer o horroroso gesto de saudação nazista, inventado por Hitler.
Hitler foi o responsável direto pela morte de pelo menos 100 milhões de judeus. 
Armas matam.
É preciso que estejamos sempre de olhos abertos, pois os inimigos se acham perto de nós.
O pior cego é o ignorante.

 

TRIBUNAL INTERNACIONAL DE HAIA

Acabo de me informa, pela revista IstoÉ, o seguinte:

O Tribunal Penal Internacional, em Haia, na Holanda, recebeu nesta quarta-feira (9), o relatório da CPI da Covid do Senado, que investigou a atuação do governo federal no combate à pandemia de Covid-19. As informações são da coluna da jornalista Mônica Bergamo, da Folha.

O documento aponta nove crimes do presidente Jair Bolsonaro (PL), como prevaricação, charlatanismo, epidemia com resultado de morte, infração a medidas sanitárias preventivas, emprego irregular de verba pública, incitação ao crime, falsificação de documentos particulares, crime de responsabilidade e crimes contra a humanidade. 

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

HOJE É DIA DO FREVO. VIVA O FREVO!

 
A riqueza cultural do Brasil é imensa, sem paralelo.
O criador do Baião, Luiz Gonzaga, deixou Pernambuco para inventar o Baião no Rio de Janeiro.
O Baião, como ritmo musical, foi gravado pela primeira vez no dia 22 de maio de 1946. Um ano depois do fim da 2ª Guerra. Nessa empreitada, o cearense Humberto Teixeira aparece como parceiro. 
Gonzaga e Teixeira produziram 20 parcerias. Todas viraram clássicos da música.
Pernambuco é a terra do bandoleiro Lampião. Mas não é disso que quero aqui falar.
Pernambuco, um dos 9 Estados Nordestinos, é uma terra de muita história. De muitas guerras, incluindo a de Guararapes e a de 1817, que teve entre seus líderes Bárbara de Alencar e Frei Caneca.
Bárbara de Alencar, perseguida pelas forças imperiais, morreu anonimamente no Piauí.
Frei Caneca foi fuzilado. Mas não é também sobre isso que quero aqui falar.
Pernambuco é terra bonita, alegre, cheia de graça e cor.
Foi na virada do século 19 que em Pernambuco surgiu a dança do frevo.
O frevo é dança e música e pode ser dividido de três formas: frevo de rua, frevo canção e frevo de bloco.
O frevo de bloco é desenvolvido com instrumentos de pau e corda. E um de sopro: pífano, ou pife.
O frevo canção difere-se muito do samba-canção. É mais agitado, mais colorido.
O frevo de rua, como o frevo canção e o frevo de bloco é uma graça.
Quem dança o frevo é denominado de passista. 
O frevo já foi tombado e reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. A iniciativa foi da Unesco, em 2012.
Não existe um inventor para o frevo. Sabe-se, porém, que foi resultado da mistura da capoeira com a marcha militar. 
O gingado do frevo é especialíssimo, único.
Para dançar o frevo os passistas fazem uso de uma sombrinha estilizada.
Capiba, de batismo Lourenço da Fonseca Barbosa, escreveu muitos frevos. Era pianista. Nasceu em Pernambuco e viveu bom tempo na Paraiba. Eu o conheci em São Paulo e foi em São Paulo, capital, que eu o levei para o programa Gente e Coisas do Nordeste. Esse programa, de grande audiência, eu o apresentava pelas ondas da extinta rádio Atual.
O dia 9 de fevereiro é o Dia do Frevo. 
 
 



terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

QUEM NASCE PRA CASTRO, NÃO CHEGA A TINHORÃO

Nestes tempos horrendos, de pandemia e negacionismo, de Bolsonaro, violência e homofobia, a mim não custa lembrar que cresci ouvindo dizer que "dois corpos não ocupam um mesmo espaço".
Penso nisso até hoje.
Tal máxima poderia ser aplicada à história e jornalismo.
Fui dormir ontem 7 depois das 23. A razão disso foi o Roda Viva, programa de entrevistas da TV Cultura. Na roda que contou com uma excepcional banca de entrevistadores, no destaque Manuel da Costa Pinto, o jornalista e autor de livros Ruy Castro disse um monte de bobaseiras. Desnecessário dizer o que disse, mas a empáfia o domina.
Ruy é mineiro de Caratinga, mesmo torrão do cartunista Ziraldo e do cantor Agnaldo Timóteo.
Ontem 7 Ruy estava com a macaca, metendo bala na cidade de São Paulo.
A pretexto de falar sobre a Semana de Arte moderna, Ruy tascou o pau sem pestanejar nos artistas e intelectuais paulistas. Disse que o Rio de Janeiro não participou da Semana de Arte Moderna de 22 porque não precisava. Segundo ele, o Rio é moderno desde sempre.
O mineiro Ruy, que parece não gostar do lugar onde nasceu, entrou na onda de defender o Rio às cegas. Puro bairrismo.
A Semana de 1922 durou só 3 dias: 13, 15 e 17 de fevereiro. À frente Mário e Oswald de Andrade. A abertura coube a Graça Aranha, que findaria brigando com Mário e Oswald.
Aranha foi o cara que convenceu Paulo Prado a financiar o evento, que não recebeu repercussão nenhuma nos jornais cariocas. De novo puro bairrismo.
Da famosa Semana participaram alguns cariocas, como o poeta Ronald de Carvalho, o compositor e maestro Villa-Lobos e o pintor Di Cavalcanti, que tinha apenas 25 anos de idade.
Eram todos jovens.
Villa, um dos mais velhos, tinha 35 anos.
Oswald tinha 3 anos a menos e Mário, 6.
As ideias fervilhavam como fervilham as ideias em mentes jovens, até hoje.
Na fala de Ruy sobrou pra Cassiano Ricardo, Sérgio Milliet, Oswald, Mário e tal.
Ruy é um bom vendedor de livros. Isso não é crítica, é fato benigno. 
O que não se ajusta bem na fala desvairada do autor de Chega de Saudade é o modo como dispara suas balas, mágoas e preconceitos. Com ódio, raiva, sem humor algum. 
Em Chega de Saudade lê-se que Luiz Gonzaga, rei do baião, era um sanfoneiro de meia-tigela.
E quando fala do jornalista e historiador José Ramos Tinhorão, torce o nariz. E o faz de modo prepotente, arrogante. Lamentável.
Tinhorão, repetirei sempre, fez o que nenhum Ruy Castro fez até hoje: uma bibliografia da cultura popular, com destaque a música.
Ler Tinhorão é fundamental.
Ler Ruy Castro, é opção.
Tinhorão foi um profissional seriíssimo e cheio de graça.
Ruy é um profissional amargo.
Pois é, dois corpos não ocupam um mesmo espaço. E quem nasce pra ser Ruy jamais chegará a Tinhorão.
Bom, não custa dizer: o jornalista João do Rio foi um personagem incrível. Leia:
 
Eu – O senhor começou fazendo textos diferentes dos que se faziam na época...

Ele − Sim, claro. Todo mundo ficava na redação escrevendo coisas. Era assim com Machado (de Assis), por exemplo. Eu gostava dele, mas ele era muito fechado. E com Alphonsus de Guimarães e tantos… Eu sempre me senti muito à vontade nas ruas. Ia pra casa só pra dormir. Mas escrevia nas praças, nos cafés, nos trens. Em todo canto.

Eu − E o Lima Barreto?

Ele − Ah, o Lima era complicado, mas muito talentoso… Era da minha cor. E pobre. A gente não se entendia. Quer dizer, ele não me entendia. Ele dizia umas coisas horrorosas a meu respeito. Não sei por quê. Até me fez personagem de um dos seus livros, o primeiro: Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Não liguei. Pra falar a verdade, eu gostava do Lima. Mas ele era complexado, coitado. Chegou a ser internado com doença de doido. Era mais velho do que eu uns três meses. Morreu em 1922. Assis, não é? Pois bem, seu Assis, pela primeira vez vou dizer uma coisa: não participei, mas assisti aos três dias da Semana de Arte Moderna. Ninguém me reconheceu. Achei foi bom.

Eu − Mas como ninguém o reconheceu, se o senhor era um rosto tão conhecido?

Ele − Parabéns, meu filho. Você é atento ao que ouve. Bem, eu estava meio escondido. Entende? Num canto sem luz. Eu e uma amiga minha.

Eu − O que o senhor achou daquela Semana?


Ele − Interessante, muito interessante. Gostei muito da apresentação do Villa-Lobos com aqueles pezões branquelos à mostra, mas gostei mais foi das vaias que ganhou. O Mário, o Oswald, o Menotti, muito bons. Bons mesmo! E, à parte disso, sempre gostei de São Paulo. Bela cidade.

Eu − E o senhor escreveu alguma coisa a respeito?

Ele − Não, não. Estava ali como espectador. Eu já havia abandonado a carreira de jornalista.

Eu − O senhor mudou a forma de fazer jornal, indo às ruas em busca de notícias. Seguindo seus passos, apareceu uma menina chamada Eugênia Brandão…

Ele − Ah… Eu amava a Geninha. Uma mineirinha muito meiga, muito inteligente, sem preconceito nenhum. Estava em todas. E gostava de um choppinho… Foi com ela que acompanhei a Semana de 22. Ela foi a segunda mulher a escrever num jornal. A primeira foi a maranhense Maria Firmina dos Reis. Negra.
 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

TINHORÃO E CARNAVAL


José Ramos Tinhorão tinha 7 anos de idade quando o Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela ganhou o primeiro concurso de Carnaval do Rio de Janeiro, em 1935. Nesse mesmo ano, a Prefeitura carioca passou a apoiar financeiramente o Carnaval.
A primeira escola de samba, como tal considerada, surgiu no ano do nascimento de Tinhorão: 1928.
Essa escola, Deixa Falar, foi criada pelo compositor Ismael Silva e amigos.
A história é longa. Antes de chamar-se Portela, a escola mais premiada do País chamava-se Vai Como Pode.
O que é que tem Tinhorão a ver com o Carnaval?
Eu já disse e torno a dizer que antes de Tinhorão não havia uma historiografia da nossa música popular. E essa biografia ele começou a fazer entrevistando velhos sambistas do Rio. Até Ismael Silva ele entrevistou.
Pra conhecer o Brasil é preciso ler Tinhorão e arrotar Tinhorão. A propósito, ele costumava dizer que os acadêmicos "leem Tinhorão e arrotam Mário de Andrade".
José Ramos Tinhorão nasceu num 7 de fevereiro.
Viva Tinhorão!

domingo, 6 de fevereiro de 2022

JOÃO RAMALHO: HERÓI OU VILÃO?

Meus amigos, vocês já ouviram falar de um cabra chamado João Ramalho?
Eu disse, João, não Zé.
Esse João chegou ao Brasil do nada.
Há quem diga que João Ramalho foi um náufrago; de qual navio ninguém sabe.
Eu tenho três teses: a primeira, é que ele fugiu ou foi atirado de uma das caravelas do navegador Duarte Pacheco. Pacheco foi enviado ao Atlântico Sul pelo rei Manuel I, de Portugal.
Outra tese é que João Ramalho deixou Portugal a nado, até o Brasil. Por fim, acho que ele chegou ao nosso país — que nem país ainda era — num disco voador.
O fato — e fato é fato — é que João Ramalho chegou por cá na primeira década de 1500. Antes de Duarte Pacheco e de Cabral. Em aqui chegando, atirou-se nos braços das índias e, correspondido, amou e formou um batalhão de filhos. A matriz foi a filha dileta do cacique Tibiriçá, Bartira.
João Ramalho foi herói ou vilão?
Foi esse João quem fundou Santo André e São Bernardo, e tornou-se capitão-mor da Vila de São Paulo de Piratininga.
Corriam os anos de 50 e 60 do século XVI.
Há muitos quilômetros de São Paulo fundava-se a cidade de Nossa Senhora das Neves. Ano: 1850.
Em 1930, Nossa Senhora das Neves viraria João Pessoa.
João Ramalho tem origens em Portugal. Eu, da minha parte, tenho origens fincadas no reino encantado da Parahyba do Norte.
Tudo isso pra dizer o seguinte, respondendo à curiosidade de quem me pergunta por que troquei João Pessoa pela capital paulistana: adoro São Paulo.
São Paulo foi e é, pra mim, um eterno desafio, de vida e morte.
Em 1990, comecei a desenvolver um estudo sobre a música feita em homenagem à cidade fundada pelos jesuítas Nóbrega e Anchieta.
Toda essa história tem a ver com o cabra João Ramalho.
Para a história, João Ramalho é uma incógnita. Eu, não.
É isso.
Muita gente me pergunta qual a música mais bonita composta até hoje pra São Paulo. Indico uma dezena:

São mais de três mil músicas que colhi no decorrer de duas décadas.
Não dá pra esquecer São Paulo, Coração do Brasil, que tão bonitamente gravou Chico Alves.
Não dá pra esquecer a belíssima Sinfonia Paulistana, de Billy Blanco.
Não dá pra esquecer São Paulo de Todos Nós, de Peter Alouche...
Eu, da minha parte, compus e interpretei Declaração de Amor a São Paulo. E noutra ocasião, compus com Gereba Hino ao Céu. Essa música, que chamo de hino, foi gravada pelo inesquecível sanfoneiro pernambucano Dominguinhos.
Ia me esquecendo: cidadãos que, de uma forma ou de outra, colaboram com São Paulo têm um dia reconhecimento pela Câmara Municipal, por exemplo.
Em agosto de 1998, compareci à Câmara de São Paulo para receber o título de Cidadão Paulistano. Fiz discurso e tal. O amigo historiador José Ramos Tinhorão estava presente. E o auditório, lotado. A Banda de Música da Polícia Militar tocou o Hino Nacional e arrepiei-me.
Curiosidade: no Hino Nacional o Ipiranga, riacho e hoje bairro paulistano, é citado.

OLHARES SOBRE SÃO PAULO

SÃO PAULO ME ESCOLHEU, Reynaldo Bessa

Para o especial sobre São Paulo que fiz para este J&Cia, pedi textos a muitos amigos músicos, poetas e romancistas. Muitos atenderam ao pedido. Outros não. E entendo por que não atenderam: a correria constante. Os queridos Rolando Boldrin, Fernando Coelho, Klévisson Viana e poucos mais. Reynaldo Bessa foi um dos primeiros a fazer o que pedi. Só que o texto dele extraviou-se nas entranhas da internet. Recuperado, ei-lo:

"Uma esfinge se precipita no abismo,
tão logo o enigma é decifrado."
- Heinrich Heine

Na época em que decidi tomar o rumo do Sudeste, nada acontecia fora do eixo Rio-São Paulo. Qualquer artista que confiasse no taco das composições que andava fazendo, uma hora teria de aceitar o grande desafio de deixar o lar. Pegar a estrada rumo ao desconhecido. A brincadeira perigosa à qual se referiu Raul Seixas. Não era fácil. Existia sim, a vontade de não ficar — pelo anseio de partir —, mas havia também o medo de ir embora. Como deixar os lençóis limpinhos e cheirosos, o som dos grilos e sapos na madrugada, o céu entupido de estrelas, o café quentinho da  minha mãe e o seu acolhedor beijo de boa noite?
Mas o tempo foi passando, a família foi entendendo mais as minhas inquietações, os amigos foram me
animando, e assim eu peguei marra. Então, precisava decidir se eu iria para o Rio de Janeiro, onde o movimento parecia ser ainda maior — a maioria dos artistas que eu admirava morava lá — ou São Paulo, cidade que eu já admirava pelos programas de TV, como o Som Brasil, com o Rolando Boldrin, o Viola, Minha Viola, com Inezita Barroso. Programas onde pude ver muita gente boa começando — cheguei a fazer os dois. Enfim, fiquei entre as duas cidades. Apesar de que, independentemente da escolha, uma ficava muito próxima da outra. Então, qualquer coisa era só tomar a estrada novamente.
Foi quando, penso eu, São Paulo decidiu por mim. Um primo e uma tia iriam me receber por algum tempo em sua casa, até eu encontrar o meu rumo. Pronto.
Cheguei a São Paulo numa noite muito fria e solitária — conto isso na letra de uma das minhas músicas. Ao descer, logo ao pisar o degrau da escadinha do avião, a primeira coisa que me veio à cabeça foi: “E vou voltar em videoteipes e revistas supercoloridas, pra menina meio distraída repetir a minha voz, e que Deus guarde todos nós”. É um trecho da canção Carneiro, do Ednardo. Um dos artistas que me influenciaram muito no início da minha carreira. Além de Belchior, Fagner, todo o pessoal do Ceará, entre muitos outros.
Ouça: 

sábado, 5 de fevereiro de 2022

SÃO PAULO EM PROSA, VERSO E MÚSICA (FINAL)

 Adoniran Barbosa – O “oriundo” do povo

(reprodução da entrevista publicada na edição nº 27 da revista Homem, de novembro de 1980)


O maior sambista paulistano acaba de completar setenta anos de vida e quarenta de carreira artística, em meio a uma grande festa. Mas ele não está feliz. Seu coração tem mágoa acumulada durante os muitos anos que passou sem ver seu trabalho reconhecido.

 Nóis pega, nóis peguemo, nóis ia, mas num fumo. Óianóis cá travêiz! Cês num ligue não, é assim mermo. Ora, diacho, mas quem danado fala desta forma? – Num sou eu não, garanto. Eu até que falo certo, quem fala errado é o povo. Só que tem um negócio: eu sou Adoniran Barbosa, o Oriundo. 

Então está explicado: Adoniran Barbosa, o que Adoniran Barbosa – O “oriundo” do povo (reprodução da entrevista publicada na edição nº 27 da revista Homem, de novembro de 1980) veio daqui mesmo, do povo. E não duvidem, povo verdadeiramente ele é. 

– Óia, eu fui entregador de marmita, faxinêro, tecelão, serralhêro, garção de casa de ministro e muitas outra coisa eu fiz: rádio, televisão, cinema. Fui calôro e cantei muitas música de Noé Rosa... Hoje tô muito calejado. Sou um artista apusentado. 

Adoniran não é de falar muito e com pouco se enche. É esquivo, escorregadio, mas quando toma “uns mé” – uísque, de preferência – ou se avista com amigos do tempo passado, se transforma numa torrente de palavras. Frequentemente amargo, diz de si: 

– Não sinto mais emoção alguma, o que vier eu traço na maior indiferença. 

 Massificado pela cidade grande, que conheceu tão pequena e pacata? Sim, talvez. Apesar disso, não se fiem muito na conversa desse jovem de setent’anos, não. E uma coisa é certa: ele é incrível. 

Uma vez a repórter Dulce Tupy escreveu que há muitas maneiras de se anunciar Adoniran Barbosa; uma delas: senhoras e senhores, com vocês o incrível, o fantástico, o extraordinário Adoniran Barbosa... Ou então: gente, olha mais um disco do Adoniran, que loucura!... Ou assim: veterano da música popular brasileira lança mais um LP após 40 anos de carreira artística em rádio, cinema e televisão... 

Mas até ser considerado pela crítica como um dos maiores valores da música popular brasileira, João Rubinato – este o seu verdadeiro nome – comeu o pão que o diabo amassou. Muito cedo ele teve de lutar para sobreviver junto com mais cinco irmãos – três mulheres e três homens. A família vivia numa penúria de dar dó. O pai, italiano de Veneza, era ferroviário no Brasil. E, por isso, o pequeno João tinha de sair correndo da escola – fez até o 3º ano primário, em Jundiaí – direto à estação para ajudar o “velho”, que trabalhava sem descanso.

 Lembrando tudo isto, Adoniran Barbosa diz hoje: – A vida me ensinou a viver. De vida ele fez curso e se formou.


A fama chega no trem das onze


perseverante, o pequeno João alimentava a esperança de um dia ser famoso, ser artista. E nas horas vagas, muito poucas, ele dedilhava um violão e compunha coisinhas maravilhosas assim, já nos anos 50: ”

...Eu sou a lâmpida 

E as mulhé é as mariposa, 

Ficam dando vorta 

Em vorta de mim todas noite 

Só pra me beijá...”

 Nessa época João – já Adoniran Barbosa – era homem feito e bastante conhecido em São Paulo. Mas no começo da carreira, ele era conhecido apenas na rua Aurora – onde morou quase dez anos – e proximidades da praça Júlio Mesquita. No mais, não passava de um ilustre cidadão comum anônimo na multidão. Até que, achando o seu nome de batismo – João Rubinato – “difícil de pegar”, resolveu dar um jeito. 

– Foi assim: o Luís Barbosa, cantor de samba carioca, meu amigo, vinha sempre a São Paulo e aqui a gente costumava passear; o Adoniran era um rapaz do Correio, também muito meu amigo. Aí juntei os dois nomes e ficou assim: Adoniran Barbosa. 

Depois disso, a coisa mudou de figura. O pseudônimo deu certo e logo caiu na boca do povo. Quando fez a “operação nominal”, por volta de 1940, ele era locutor – disc-jóquei – de rádio, mas nem por isso tão famoso quanto hoje. Adoniran ficou famoso mesmo foi quando compôs o Trem das Onze, a Saudosa Maloca, a Iracema e, com Vinicius de Moraes, Bom Dia Tristeza, no tempo em que o poeta era embaixador em Paris. Adoniran: 

 – Você lembra de As Mariposa? É assim: Quando chega o frio/Fica dando vorta em vorta da lâmpida/ Pra se esquentá/Elas roda, roda, roda/... Eu sou a lâmpida/E as mulhé é as mariposa... Boa noite, lâmpida/Boa noite, mariposa/Permita de oscular-lhe a sua face/Pois não, mas rápido/Daqui a pouco eles me apaga. Bunita, né?

Pela Colúmbia, Adoniran Barbosa gravou, há muitos anos, a primeira música. Título: Agora Pode Chorar, de Baiton. Sua primeira parceria: Dona Boa, uma marchinha, com Jota Emere. 

Agora Pode Chorar era um samba e começava assim: Chora, chora/-Quem te ensinou a chorá não foi eu/-Chora, chora purque o nosso amô morreu. Depois dessa ele fez e assinou muitas outras parcerias: Guiomar Pafunça, O Casamento do Moacir, Prova de Carinho, Aguenta a Mão, João, Torresmo à Milanesa, etc. etc .etc.. 

– Com Vinicius eu só tenho um trabalho, que é Bom Dia Tristeza. E foi muito engraçado o jeito como nóis fizemo ela. Naquele tempo eu nem conhecia Vinicius, ele tava em Londres, Paris, sei lá, nem me lembro direito. O ano acho que era 56. Apôis bem, ele mandô uns verso numa carta para a sua amiga Aracy de Almeida, dizendo: pode fazer o que você quiser com estes verso. Aí ela me procurou e pediu para eu pôr música. No mesmo dia eu botei, numa hora que eu tava no Nick Bar em cumpanhia do João Maria de Abreu. Musiquei o poema e o João achou muito bom. E disse: dêxa que eu iscrevo a música na partitura. Disse e fêis. Vinicius também adorou. Bom Dia Tristeza foi gravada pela própria Aracy de Almeida, Elizeth e mais um monte de artista.

 Conta-se que Vinicius de Moraes não gostava muito de Adoniran, do jeito como até hoje ainda compõe as letras de suas músicas. Mas, depois de ouvir Bom Dia Tristeza, Vinícius teria mudado de opinião chegando até a dizer: ora, ora, mas como é que pode?... Conta-se também que, ainda por causa de Adoniran, Vinícius teria dito que “São Paulo é o túmulo do samba”, como se somente os cariocas fossem capazes de fazer samba. Porém essa versão é negada pelo autor de Iracema: 

– Nada disso, isso é cunversa fiada. Inclusive, quando ele me conheceu gostou muito de mim, das minhas músicas, das minhas letras. Vinícius achava o meu estilo maravilhoso, inconfundível. Formidável mesmo. Ele dizia que eu sou um grande artista... Deve ser cunversa mole, né? Mas ele falou, tá falado.

Um sujeito muito calejado

Adoniran Barbosa é ciente do valor da sua obra, da sua “bagagem” musical. E, talvez por isto mesmo, costuma dar pouca importância aos elogios que lhe fazem com frequência. Arredio, dificilmente aceita ir a uma festa. E quando a festa é em sua homenagem... nem fala. Meio chateado e com uma indisfarçável pontinha de mágoa, segreda: 

– Quando eu precisava de homenage, de uma força, ninguém tava nem aí. Agora que eu sou cunhecido, vêm com um lenga-lenga sem fim pru lado de mim. Tô sabendo. 

Faz pequena pausa. Passa alguém à nossa volta e ele cumprimenta: “ÔI”. Baixa a cabeça e, indiferente, repete: 

– Sou hoje um sujeito muito calejado. 

Há dois meses, a direção da gravadora Odeon promoveu uma grande festa em homenagem a esse grande e magoado artista. Motivos: o lançamento do seu terceiro LP e o seu 70º aniversário de nascimento. Os amigos, cabreiros, imaginaram, como não poderia deixar de ser, que o jovem Adoniran não compareceria. Ledo engano, ele surpreendeu a todos indo à festa e tudo foi muito bonito, “só que perdi o sossego”, diz, acrescentando: 

– Desde o cumeço do mêis de agosto que tudo quanto é repórter de jorná, rivista, rádio e televisão tem vindo me prucurá querendo intrivista. Sabe, tô tão cansado que já num guento mais. 

Ele não gosta muito de lembrar a passagem do seu 70º aniversário e nem falar de planos futuros. Diz que as coisas estão assim, assim, e quer ver como é que vão ficar. As entrevistas que tem dado, quase que diariamente, começam com ele dizendo, invariavelmente, o tanto que batalhou para chegar onde chegou.

– Meu fio, eu fiz de tudo na vida. O sucesso eu cunheço desde o tempo que eu tinha programas de rádio: Casa de sogra, O crime não compensa, História da maloca, com Charutinho. Na televisão, eu fiz quatro novelas: Mulheres de areia, Os inocentes, Xeque mate e Ovelha negra. E no cinema: O cangaceiro, Candinho, A carrocinha. Entrei no rádio como calôro, por volta de 33. Eu interpretava mais Noé Rosa, que cunheci pessoalmente mas só de passagem, de bom dia, ôi, como vai. O Charutinho que eu fazia no rádio é famoso até hoje. Criei personage de todo tipo: criôlo, italiano, francês, por aí. Mas nenhum foi inspirado em alguém: tudo criação minha. 

E São Paulo de hoje, muito diferente da cidade de ontem? Ele faz um muxoxo, como se dissesse: quá, num quero nem falá! 

– Hoje a minha cidade está completamente transformada, muito diferente daquela que cunheci no cumeço do século. Nem as ruas do meu tempo num ixiste mais, é uma pena. São Paulo era uma cidade muito bonita. Hoje eu procuro São Paulo e não acho, tá tudo mudado, mudou tudo para pior. Tá tudo muito violento, tem muita gente, muito cimento, muito corre-corre, muito automove, muita buzina. Deus do céu!

 Boêmio pobre, mas boêmio

Mesmo assim, Adoniran Barbosa continua sendo o cronista-sambista mor de São Paulo – cidade que, para Lourenço Diaféria, se resume numa questão de fé e “é um arroubo emocional acima de razões e certezas”. Fiel a si próprio, ultimamente Adoniran tem registrado suas reminiscências nas páginas do periódico paulistano Feijão com Arroz. Além disso, ele tem procurado imortalizar os bairros da cidade que conhece tão bem como a palma da mão, através dos seus sambas. Motivo de composições já foram: Mooca, Vila Esperança – uma obra-prima –, Brás, Jaçanã, Casa Verde etc. A avenida São João, claro, o artista não poderia esquecer jamais, como Paulo Vanzolini. E assim, ele continua indo. Aos 70 anos de idade, ainda se considera um “boêmio inveterado”.

 – Sou um boêmio pobre, mas boêmio; de rua, de esquina, de botequim. Pra você ter uma ideia: sou do tempo de serenata na rua. Mas na rua agora não posso mais fazer serenata com violão e tudo, como as serenata eram feita. Serenata na rua a gente fazia antes de São Paulo ficar como ficou: feia e triste. Tudo acabô, foi proibido pelas otoridade. O que se há de fazê agora? 

Adoniran Barbosa lamenta também o fato de as emissoras de rádio e televisão não oferecerem mais bons programas, como antigamente. Para ele, o que se salva ainda é um Chacrinha e mesmo Os Trapalhões. O resto é o resto e nada mais se salva. 

– Chico Anísio é bom, mas saiu da televisão. 

E o samba? 

– Ah, o samba! O samba é tudo pra mim. Quando alguém me pergunta o que é que eu acho do samba, nem sei responder direito: eu sou o samba.

Nostálgico? Não, nem um pouco.

 – A única coisa de que sinto saudade é da carne, do pão bom, enfim: da boa comida de antigamente. Hoje é tudo enlatado, horrive! E o rádio, o cinema? Garante ele que “nunca jamais” voltaria a empunhar um microfone para fazer um programa.

 – Sou um artista apusentado. De positivo, só acha uma coisa: os jornais. E explica: 

– Os jorná de hoje dão muita força a nóis artista. Antigamente num era assim, não. Tão muito bom. Mas eu também num ligo muito para isso não. Num quero mais me preocupá. Quero mesmo é vivê. Eu gosto muito da vida. É pena que eu me judiei muito na minha juventude. Me maltratei mesmo, sabe como é: boêmia, noitada e mais noitada, cigarro, bibida. É, me judiei muito. Hoje cum setent’anos era pr’eu tá mais forte um pouco. Tô forte, graças a Deus, mas era pra tá mais. Num tô arrependido, mas eu não faria tudo outra vêiz do mesmo jeito que fiz. 

 Se João Rubinato não tivesse conhecido o sambista carioca Luis Barbosa e o carteiro Adoniran, dificilmente existiria o artista Adoniran Barbosa. Talvez Jean Rubinê ou Giovanni Rubinato, isso porque o João estava decidido a adotar um pseudônimo. Ele brinca: “Já pensou um artista sendo chamado de João Rubinato?”.Não soaria bem, é o que João achava. Mas, felizmente, surgiram Luis Barbosa e Adoniran e os dois em João estão vivendo muito bem, diga-se de passagem. Para os mais íntimos, o artista Adoniran Barbosa atende pelo apelido de “Rei da Estufa”, que ganhou tempos atrás por gostar muito de pastéis, coxinhas e empadinhas que ficam expostas nas estufas dos bares. Mas, cuidado: tem que ser íntimo para chamá-lo pelo apelido.



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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

PARABÉNS A VOCÊ: 80 ANOS!

No próximo domingo 6 a canção Parabéns pra você completará 80 anos.
Na origem é uma adaptação da canção Happy Birthday to You, publicado num livro do norte-americano Robert Caleman.
Em 1942, essa canção ganhou versão assinada por Bertha Celeste Homem de Mello (1902-1999), ou Léa Magalhães, paulista de Pindamonhangaba concorrente de um concurso musical promovido pelo cantor e radialista carioca Almirante, de batismo Henrique Foréis Domingues.
Desse concurso, levado a efeito pela Rádio Tupi do Rio de Janeiro, participaram centenas de compositores de todo o País.
A canção, desenvolvida em quadrinhas, começa assim:

Parabéns pra você
Nesta data querida
Muita felicidade
E muitos anos de vida...



O TIETÊ TEM SALVAÇÃO?


A sensibilidade do escritor paulistano Mário de Andrade (1893-1945) é incrível. Salta aos olhos, especialmente quando se lê o que escreveu sobre o judiado rio Tietê. Rio esse que corta de ponta a ponta o Estado de São Paulo e, ao invés de correr para o mar, corre no sentido leste-oeste em direção ao seu co-irmão Paraná, fronteira com Mato Grosso do Sul.
Sempre foi assim, sempre foi assim que o rio Tietê correu. Outrora límpido e hoje, lamentavelmente, cheio de porcaria nele despejada pela indústria e todo mundo.
Ah! O Tietê, rio teimoso, independente e rebelde.
Problemas de todos os tamanhos o Tietê começou a enfrentar já na metade do século 20. Tais problemas começaram a se agravar no decorrer dos anos de 1960. 
No passado, quem quisesse se banhar, nada e até pescar com tranquilidade.
Muitos políticos encheram os bolsos e as águas do Tietê com dinheiro do BNDES e do BID, prometendo o que não podiam ou o que não quiseram cumprir.
Em 1992, o governador Luiz Antonio Fleury Filho (ao lado, em vistoria a obras do metrô) prometeu a Deus e o mundo limpar completamente as águas do Tietê. E na promessa, acrescentou, que até 1995 tomaria ele próprio um copo d'água do que chamou de "novo Tietê". Não tomou.
Fleury deixou o cargo de governador, que foi substituído por Mário Covas (1930-2001), que foi substituído por Geraldo Alckmin.
Mais de 20 anos depois de o PSDB mandar e desmandar em São Paulo nada, concretamente, foi feito para despoluir as águas do gigante Tietê. Pena.
O atual governador, João Dória, também prometeu fazer navegável o Tietê. Mais uma promessa.
Enquanto isso, ai ai ai, o povo e as indústrias continuam jogando porcaria nas águas intragáveis do rio Tietê.
o Tietê já foi tema de muitas músicas.
Em 1929, Cornélio Pires (1884-1958) escreveu uma joia chamada Moda do Rio Tietê. Ouça:

SÃO PAULO EM PROSA, VERSO E MÚSICA (12)

Alguns autores de músicas feitas para Sampa

Jarbas Mariz nasceu na estrada, no dia 14 de março de 1952, entre Minas Gerais e Espírito Santo. Foi criado na capital paraibana, onde, em 1967, abraçou a profissão de músico. Em 1968 formou o grupo Pedras Rolantes, que viraria Selenitas, um dos mais populares e requisitados conjuntos de baile do Nordeste, que existiu por sete anos. Em 1977, começou a gravar discos. O primeiro foi um compacto duplo. Dois anos antes, fez show histórico no Teatro Santa Rosa, de João Pessoa, ao lado de Zé Ramalho: Três Aboios Diferentes; e com o próprio Zé e outros artistas, como Lula Côrtes, gravou o mais caro (e raríssimo) disco independente da história da MPB, Paembirú. No Rio de Janeiro, cantou com o rei do ritmo, Jackson do Pandeiro, e com a rainha do forró, Anastácia. Em 1989, e já morando na Capital de São Paulo, foi dirigido por Tom Zé e com ele passou a correr o mundo. Tem músicas gravadas por Marinês e Gilberto Gil. 

Alberto Marino era paulistano da Liberdade, criado no Brás. Nasceu no dia 23 de março de 1902 e morreu em 11 de fevereiro de 1967. Seus pais se chamavam Rosário e Carmella. Foi maestro da Sinfônica do Municipal e professor-diretor do Conservatório Dramático de São Paulo. Compôs Rapaziada do Braz na noite de 20 de novembro de 1917, para Ângela Bentivegna, com quem contrairia matrimônio em 1924. Antes de ser gravada pelo Sexteto Bertorino Alma (anagrama de Alberto Marino) e lançada pela Brasilphone, em 1927, já integrava o repertório dos seresteiros, e por sugestão do cantor Carlos Galhardo ganharia letra de Alberto Marino Jr.. No dia 25 de janeiro de 1968, junto a uma multidão, o prefeito Faria Lima inaugurava o Viaduto Alberto Marino. Prestigiaram o evento Vicente Celestino, Gilberto Alves, Nélson Gonçalves e Demônios da Garoa. É o primeiro clássico musical sobre o Brás, o mais cantado dos paulistanos.

Paulo Vanzolini nasceu na Capital de São Paulo, no dia 25 de abril de 1924 e faleceu em 28 de abril de 2013. Seus pais eram Carlos Alberto, engenheiro civil e eletricista, professor da Escola Politécnica; e Finoco Guidici, dona de casa. Foi criançaprodígio. Tornou-se cientista e um dos mais importantes especialistas em répteis do mundo todo. Shakespeare e Dante, que lia no original, eram seus autores de cabeceira, mais Camões e Bilac. Era PhD de Harvard, EUA. Trazia no currículo a formação de 38 doutores. Antes de concluir o curso de Medicina na USP, em 1947, e se especializar no estudo de vertebrados, serviu o Exército (reservista de 1ª Categoria) entre 7 de junho de 1944 e 14 de novembro de 1945. Um de seus livros, Tempos de Cabo, teve edição ilustrada por Aldemir Martins. Declarava-se apaixonado pela a cidade onde nasceu. Foi o criador dos clássicos Volta por Cima e Ronda, essa com versão até na Suíça. Sua obra musical cabe em quatro CDs.

Zica Bérgami nasceu em Ibitinga (SP), no dia 10 de agosto de 1913 e se criou na capital paulista; faleceu em 16 de abril de 2011. Em 1958, procurou a cantora Inezita Barroso e a ela apresentou várias músicas, entre as quais Lampião de Gás, cuja letra era comprida e foi encurtada para se transformar numa referência musical, a partir de sua gravação. O arranjo coube ao maestro mineiro Hervê Cordovil. Nesse mesmo ano, a valsa recebeu versão japonesa de Kikuo Furuno, gravada por Yoko Abe. Ganhou também o Troféu Zequinha de Abreu. A partir de 1960, passou a expor desenhos e pinturas de estilo primitivista em Portugal, Itália, México, Israel e França. Em 1999, o cantor e instrumentista Filó Machado assinou a produção e direção musical do CD Zezé Freitas Interpreta Zica Bérgami. Em 2001, o mesmo Filó, mais Camila Machado e Zezé Freitas, produziria o CD Salada de Danças, no qual pode ser ouvida sua voz em músicas até então inéditas.

Cacique e Pajé. Cacique nasceu a 25 de março de 1935, em Monte Aprazível (SP). Antes de formar dupla com Pajé, adotou os pseudônimos Peixoto e Rei do Gado. O primeiro disco que gravou foi um compacto duplo, pelo selo Centenário, em 1969. O disco trazia Violeiro Franco, chibata (gênero musical de origem indígena); A Viola e a Guitarra, cururu; Cristão Verdadeiro, moda campeira; e Aliança dos Noivos, valsinha. Em 1970, pelo selo Califórnia, gravou o primeiro LP: Tião Campeiro e Rei do Gado, produzido por Carreirinho. O segundo LP surgiu em 1972, com João Ferreira, pela Fermata. O maior sucesso da dupla, formada originalmente em 1978, ocorreu em 1979, com o LP Patrão e Secretária (220 mil cópias vendidas). O primeiro Pajé se chamava Roque Pereira Paiva (1936-1994) e era paulista de Bofete. O atual se chama Geraldo Aparecido da Silva, também paulista de Itapuí, nascido no dia 29 de julho de 1943.

Costa Senna é cearense de Fortaleza, nascido no dia 30 de novembro de 1955. Filho de Joaquim Raimundo e Raimunda Senna da Costa, ele trocou sua cidade de origem por São Paulo em 1990, dez anos após decidir a trabalhar com cultura popular. Nessa área tem produzido espetáculos e escrito folhetos de cordel. Atuou em peças teatrais e filmes de curta e longa metragem. Também compõe músicas, toca violão e canta. Tem CDs gravados, como Moço das Estrelas e Fábrica de UniVersos, e livros publicados, entre os quais O Doido, O Raulseixismo e Jesus Brasileiro, esse em parceria com o cordelista Marco Haurélio, revisor de textos e consultor da mais antiga e importante editora de folhetos de cordel do País, a Luzeiro. Na música, um de seus parceiros mais frequentes é Cacá Lopes. Em 2007, participou de Educar para Transformar, documentário em vídeo de Tânia Quaresma, sobre o educador pernambucano Paulo Freire.


Téo Azevedo, de batismo Teófilo de Azevedo Filho, é natural de Alto Belo, distrito de Bocaiúva (MG). Nasceu no dia 2 de julho de 1943. Antes de ficar famoso como compositor e violeiro, foi engraxate, camelô, lutador de boxe e soldado corneteiro do 12º RI na capital mineira. Começou a gravar em 1965, pela Discobel. O primeiro LP, independente, lançou no ano de 1974. O último, Guerrilheiro da Natura, duas décadas depois, pela Brasidisc. Tem músicas em discos de Zé Ramalho, Luiz Gonzaga, Sérgio Reis, Dominguinhos, Jair Rodrigues, Genival Lacerda, Banda de Pífanos de Caruaru, Cascatinha e Inhana, Pena Branca e Xavantinho, Tonico e Tinoco, Caju e Castanha e pelo bluesman Charles Musselwhite (Feel it in Your Heart). O poeta Carlos Drummond escreveu Viola de Bolso para seu pai, Tiófo, O Cantadô de um Braço Só. Tem publicados alguns livros, como Literatura Popular do Norte de Minas e Plantas Medicinais.


Sebastião Marinho, de sobrenome Silva, é paraibano de Solânea e filho de Manoel Anulino e Damiana Marinho do Nascimento. Nasceu no dia 10 de março de 1948, e do verso se tornou profissional no dia 15 de novembro de 1968. É presidente da União dos Cantadores, Repentistas e Apologistas do Nordeste (Ucran), entidade criada em 1988. Mora na capital paulista desde 1976. Há anos forma dupla com o pernambucano de São Bento do Una José Saturnino dos Santos, o Andorinha, com quem tem disco gravado. Andorinha participou do 2º Concurso Paulista de Literatura de Cordel, promovido em 2004 pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos e pelo Metrô de São Paulo, no qual classificou o folheto CPTM e Metrô, Orgulho Paulistano, que numa estrofe diz: “Quem vem a São Paulo encontra/Um transporte especial/ Os trens metropolitanos/Trafegam na Capital/Norte, Sul, Leste, Oeste/ Cobrindo a área central”.


Peter Alouche é bacharel em Letras e poliglota. É o que se pode chamar de cidadão do mundo. Embora nascido no Cairo, Egito, terra dos faraós, e apesar de sua pátria cultural ser, como ele mesmo costuma dizer, “a língua francesa”, a sua única e verdadeira pátria de adoção e de devoção é o Brasil. Ser engenheiro de formação e ter dedicado 35 anos de sua vida profissional à tecnologia do Metrô de São Paulo não o impediram de se aventurar nas letras brasileiras e até, pasmem, na literatura de cordel. Em 2002 participou, com o pseudônimo de Pedro Nordestino, do 1º Concurso Paulista de Literatura de Cordel, e classificou, entre duas centenas de concorrentes de todo o País, a história em sextilhas Encontro no Metrô, publicada em folheto cuja capa recebeu a assinatura do cordelista Klévisson Viana. Essa “ousadia ímpar”, segundo ele, só conseguiu “graças ao amor que tanto nutre pelo povo” de nossa terra. 


Durval Souto é instrumentista, compositor, cantor e produtor musical natural da cidade de Itaji (BA), nascido no dia 25 de fevereiro de 1954. Tinha 15 anos de idade quando se apresentou em público pela primeira vez, num circo. Morou em Salvador e Rio de Janeiro, antes de se iniciar profissionalmente na capital paulista. Em 1973, atuou na peça O Homem em Função do Meio, de Alfredo Zonalto, dirigiu o espetáculo Música Popular do Brasil, produzido pelo Grupo Esquema Novo e apresentado nas escolas da capital por seis anos. Ainda em 1973 estreou no disco, gravando um compacto simples que trazia, de sua autoria, a canção Época de todos nós. Participou de vários festivais de música popular, até lançar o seu primeiro LP, em 1981, pela extinta gravadora Continental. Gravou ao lado de Zé Geraldo e Inezita Barroso, lançou oito discos, entre compactos, LPs e CDs. Seu último trabalho, o CD Lobisomem Americano, é de 2002.


Osvaldinho Da Cuíca, de batismo Osvaldo Barro, é paulistano do Bom Retiro, e filho de Benedicta de Almeida e Domingos Barro. Nasceu numa terça-feira de carnaval (12/2/1940). Iniciou-se nos estúdios de gravação em 1957. É o mais famoso cuiqueiro do Brasil. Gravou com os maestros Peruzzi, Léo Peracchi, Chiquinho do Acordeon, George Henri, Erlon Chaves. Seus instrumentos de percussão podem ser ouvidos em discos de Orlando Silva, Nélson Gonçalves, Martinho da Vila, Adoniran Barbosa, Germano Matias, Paulinho da Viola, Cartola, Zé Kétti, Ângela Maria, Clementina de Jesus. Participou da trilha do filme Orfeu Negro, premiado em Cannes, com a Palma de Ouro. Integrou o grupo Demônios da Garoa. Fundou a Ala dos Compositores da Escola de Samba Vai Vai, em 1975. Um ano antes lançou seu LP de estreia e recebeu o título de Cidadão Samba de São Paulo, pela Secretaria de Turismo do Município.

Curiosidades sobre São Paulo

• Você sabia que Rapaziada do Brás, com “z” no original, foi a primeira música dedicada a um bairro da cidade e que seu autor tinha apenas 15 anos de idade quando a compôs?

 • Você sabia que o autor de Rapaziada do Brás, Alberto Marino, era violinista e assinava suas obras com o anagrama Bertorino Alma, também nome de um sexteto criado por ele no início dos anos de 1920? 

• Você sabia que Alberto Marino Jr. foi promotor e desembargador do Estado de São Paulo e que atuou em mais de 300 sessões do Tribunal do Júri? 

• Você sabia que Alberto Marino Jr. levou à cadeia o Bandido da Luz Vermelha e um de seus filhos, o juiz da Vara das Execuções Criminais Alberto Marino Neto, foi quem o libertou, em 2009?

 • Você sabia que Paulo Vanzolini foi um zoólogo muito respeitado no mundo, com PhD em Harvard e também membro da Academia Brasileira de Ciências, desde 1963? 

• Você sabia que Paulo Vanzolini foi por muitos anos diretor do Museu de Zoologia da USP, cuja biblioteca ele formou com os direitos de autor pelo samba Ronda? 

• Você sabia que a cantora Laura Okumura participou do filme de suspense A Dama do Cine Xangai, cantando Ronda em japonês? 

• Você sabia que Mary Buarque foi professora de piano de Inezita Barroso, a primeira cantora a gravar o samba Ronda, em 1953, no seu segundo disco de carreira? 

• Você sabia que a letra do samba Trem das Onze ficou engavetada por cinco anos e quem a desengavetou a pedido do produtor Braz Baccarin foi Arnaldo Rosa, um dos fundadores do conjunto Demônios da Garoa? 

• Você sabia que o rei do baião, Luiz Gonzaga, faz referência a São Paulo em cinco músicas e que até lançou um LP intitulado SP: QG do Baião, em 1971?

Não deixe de ouvir


Ao longo da carreira, Assis Ângelo entrevistou centenas de compositores, cantores e músicos. Para este especial, ele selecionou 18 trechos em que os entrevistados falam sobre São Paulo. Não deixe de ouvir: AlbertoMarinoJr, Antenógenes Silva, Benito di Paula, Billy Blanco e De Athayde, Germano Mathias, Mário Albanese, Mário Zan, Mário Zan e Demônios da Garoa, Moraes Sarmento, Nelson Gonçalves, Osvaldinho da Cuíca, Patativa do Assaré, Paulo Vanzolini, Rielinho, Roberto Fioravanti, Roberto Lapiccirella, Silvio Caldas e Zica Bérgami.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

CAYMMI, O CANTOR DOS ORIXÁS

Dia dois de fevereiro
Dia de festa no mar
Eu quero ser o primeiro
A saudar Iemanjá
Dia dois de fevereiro
Dia de festa no mar
Eu quero ser o primeiro
A saudar Iemanjá
Escrevi um bilhete a ela Pedindo pra ela me ajudar
Ela então me respondeu
Que eu tivesse paciência de esperar
O presente que eu mandei pra ela
De cravos e rosas vingou
Chegou, chegou, chegou
Afinal que o dia dela chegou
Chegou, chegou, chegou
Afinal que o dia dela chegou


O baiano de Salvador Dorival Caymmi (1914-2008) foi o primeiro artista da nossa música popular a compor e a cantar a Orixá feminina Iemanjá, a rainha do mar. Ou dos mares.
Iemanjá é homenageada em dias diferentes no Brasil: 2 de fevereiro, 15 de agosto, 8 e 31 de dezembro.
A homenagem que mais junta gente é em Salvador, BA, no dia 2.
Na Capital cearense, Fortaleza, Iemanjá recebe louvores no dia 15 de agosto.
Na Paraíba, Pernambuco, São Paulo e em outros lugares, o dia dessa entidade é 8 de dezembro.
No Rio de Janeiro o dia escolhido é o último do ano.
A 1ª vez que Caymmi fala numa música sobre Iemanjá, tida como a mãe de todos os Orixás, data de 1939. Título: Caminhos do Mar.
Essa é uma história linda e comprida. IEMANJÁ, RAINHA DOS MARES
O samba Dois de Fevereiro, gravado originalmente em 1957, é um dos muitos clássicos da discografia de Caymmi.
O ilustre baiano deixou uma obra riquíssima, mas não custa lembrar que essa obra foi iniciada, e encerrada, no Rio de Janeiro.
Bom tocador de violão e dono de uma belíssima voz, Dorival Caymmi trocou Salvador pelo Rio com o propósito de ganhar a vida como desenhista e pintor.

Terminava a década de 30, em pleno reinado do rádio, quando chegou ao Rio um novo compositor, praticamente desconhecido do público carioca, que se acompanhava ao violão em músicas de sua autoria. Chegou e vencer, porque não tardou que o povo soubesse de cor as suas canções de linda melodia, que cantavam a Bahia natal do autor no que tinha de mais característica e sedutora. Era Caymmi que tomava o Rio de Janeiro de assalto e logo o país. Os êxitos se contavam pelo número de músicas que ele lançava em rápida sucessão, revelando desde então o compositor inspiradíssimo e versátil que se tornaria mais tarde conhecido internacionalmente, notando-se em suas canções a preponderância do motivo “mar de pescadores”, a refletir a vivência do artista, “um homem do cais da Bahia”, segundo sua própria definição.

(Do livro Cancioneiro da Bahia, Editora Record, 1978)


Como artista plástico, Caymmi teria um grande futuro. Desenhava e pintava muito bem. DORIVAL CAYMMI E CARLOS LACERDA: 100 ANOS
Até hoje não existe, a rigor, ninguém que interprete tão bem a obra de Caymmi como o próprio Caymmi.
Foi um artista bom que só.
Quem quiser saber detalhes da vida e obra do mestre da música de Salvador, recomendo que leia a biografia Dorival Caymmi - O mar e o Tempo, de Stella Caymmi (Editora 34, 2001).
A letra em que o artista fala de Iemanjá pela primeira vez, é esta:

Rainha do mar
Yemanja Odoiá Odoiá

Rainha do mar

O canto vinha de longe
De lá do meio do mar
Não era canto de gente
Bonito de admirar

O corpo todo estremece
Muda cor do céu do luar
Um dia ela ainda aparece
É a rainha do mar

Yemanja Odoiá Odoiá
Rainha do mar Yemanja Odoiá Odoiá
Rainha do mar

Quem ouve desde menino
Aprende a acreditar
Que o vento sopra o destino
Pelos os caminhos do mar

O pescador que conhece
as historias do lugar
morre de medo e vontade
de encontrar

Yemanja Odoiá Odoiá
Rainha do mar
Yemanja Odoiá Odoiá

TIETÊ, UM RIO COM LÍNGUA DE FORA

Água do meu Tietê,Onde me queres levar?
- Rio que entras pela terra
E que me afastas do mar...
É noite. E tudo é noite. Debaixo do arco admirável
Da Ponte das Bandeiras o rio
Murmura num banzeiro de água pesada e oliosa.
É noite e tudo é noite. Uma ronda de sombras,
Soturnas sombras, enchem de noite de tão vasta
O peito do rio, que é como si a noite fosse água,
Água noturna, noite líquida, afogando de apreensões
As altas torres do meu coração exausto. De repente
O ólio das águas recolhe em cheio luzes trêmulas,
É um susto. E num momento o rio
Esplende em luzes inumeráveis, lares, palácios e ruas,
Ruas, ruas, por onde os dinossauros caxingam
Agora, arranha-céus valentes donde saltam
Os bichos blau e os punidores gatos verdes,
Em cânticos, em prazeres, em trabalhos e fábricas,
Luzes e glória. É a cidade... É a emaranhada forma
Humana corrupta da vida que muge e se aplaude.
E se aclama e se falsifica e se esconde. E deslumbra.
Mas é um momento só. Logo o rio escurece de novo,
Está negro. As águas oliosas e pesadas se aplacam
Num gemido. Flor. Tristeza que timbra um caminho de morte.
É noite. E tudo é noite. E o meu coração devastado
É um rumor de germes insalubres pela noite insone e humana.
Meu rio, meu Tietê, onde me levas?
Sarcástico rio que contradizes o curso das águas
E te afastas do mar e te adentras na terra dos homens,
Onde me queres levar?...
Por que me proíbes assim praias e mar, por que
Me impedes a fama das tempestades do Atlântico
E os lindos versos que falam em partir e nunca mais voltar?
Rio que fazes terra, húmus da terra, bicho da terra,
Me induzindo com a tua insistência turrona paulista
Para as tempestades humanas da vida, rio, meu rio!...

(A Meditação Sobre o Tietê, poema de Mário de Andrade, composto entre 30 de novembro de 1944 e 12 de fevereiro de 1945)

O atual ocupante da cadeira presidencial envergonha todos os dias o Brasil e o mundo. Quando abre a boca, o mal cheiro toma conta do ar.
Ele fala, fala e diz só besteira.
Visando seu inimigo governador de São Paulo, disse mais uma besteira atingindo, mais uma vez, o povo.
A sua última fala, ontem 2, foi sobre o importantíssimo rio Tietê, de muitas histórias.
Disse o inqualificável portador da faixa presidencial que viu em São Paulo a transposição do Tietê, numa referência zombeteira à transposição das águas do São Francisco.
Essa é uma fala lamentável sob todos os aspectos, principalmente quando parte de um presidente eleito pelo voto universal.
O rio São Francisco nasce na Serra da Canastra, em Minas. Tem 2.830km e é uma das inúmeras riquezas do nosso País.
O rio Tietê, Rio Grande na língua Tupi, tem 1.136km e passa por 62 municípios. Seu berço é Salesópolis, município distante 117km da Capital paulista. Em Salesópolis, suas águas continuam claríssimas, mas à medida que vai correndo, vai recebendo todo tipo de lixo. Quando chega em Guarulhos, recebe mais de 700 toneladas de tudo quanto não presta. E na Capital, o volume de porcarias ultrapassa 1.100 toneladas. Isso tudo, todos os dias.
Sim, claro, o Tietê está com a língua de fora.
Há poucos dias publiquei um especial sobre São Paulo no newsletter Jornalistas&Cia. Nesse especial, inseri pequenos depoimentos de personagens ligados, de um modo ou de outro, à Capital paulista. Um desses personagens, Bill Hinchberger, escreveu:

I Love that Dirty Water
Em 1991, como correspondente de The Financial Times, fui convidado para fazer parte de um grupo minúsculo de jornalistas, quase todos brasileiros, que se encontraria com o governador Luiz Antonio Fleury Filho. O governador anunciou um empréstimo então recorde do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para a despoluição do Rio Tietê. Fiz uma matéria relativamente extensa para aquele grande jornal inglês. Tanto dinheiro para um projeto ambiental era inédito.
Depois, Fleury prometeu beber água do rio no ano 2005. Nada disso. Em 2007, em parceria com a TV PUC São Paulo, recorri quase todo o rio, desde a fonte (onde, sim, eu bebi um copo de água) até lá longe, no interior, onde o rio finalmente voltava a desfrutar a vida.
Acompanhei uma peça de teatro flutuante dentro da cidade de São Paulo, uma iniciativa que simbolizava a importância cultural do rio para a metrópole. Ao pousar em Guarulhos no final do ano, vindo de Paris, para minha primeira visita desde o começo da pandemia, vi a triste realidade: milhões de dólares e duas décadas depois, o rio continuava morto.
O título acima vem da música de mesmo nome pelo conjunto The Standells, gravada em 1966: THE STANDELLS - DIRTY WATER
Os roqueiros cantavam o Rio Charles, de Boston. Naquela época, quem caía no rio da cidade de Boston era encaminhado para o hospital. Hoje você pode nadar no Rio Charles. Até quando esperar para a volta do Tietê?
 
O São Francisco é personagem de muitas histórias e músicas. O rio Tietê, também.
 

SÃO PAULO EM PROSA, VERSO E MÚSICA (11)

São Paulo Esquina do Mundo, samba pop de Assis Ângelo/Jarbas Mariz 


São Paulo Ponto Chic, 

Viaduto, correria, carros, 

Anhangabaú, Ipiranga, Butantã, 

A garoa dos nortistas 

Pacaembu, Morumbi – gol!!! 

 Vida corinthiana, 

Nos hotéis de mil estrelas, 

Viva Deus, povo do Brás, 

Quanta gente, quanta idade, 

Da Mooca à Liberdade 

São Paulo, São Paulo

 São Paulo, São Paulo esquina do mundo (bis) 

São Paulo, São Paulo São Paulo de todo mundo 

Dos poetas romanticamente 

De Vanzolini à Inezita, 

Que bonito, São Paulo 

De um, de dois, de mil, 

Dos poetas romanticamente 

De Adoniran à Geraldo Filme,

 Que bonito, São Paulo 

De um, de dois, de mil 

São Paulo esperança 

De negro, de branco, de rico 

São Paulo, São Paulo São Paulo, São Paulo esquina do mundo (bis)

 São Paulo, São Paulo de todo mundo...

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Acorda Brasil, samba-enredo de Osvaldinho da Cuíca/Serginho/Namur


No ar.... 

Nosso grito de alerta 

O Bixiga desperta, a cantar 

Acorda Brasil

 É chegada a hora de mudar 


Divina Luz Dos deuses da mitologia 

Clareia... Me conduz a exaltar 

Um anjo que desceu lá na favela 

E hoje traz pra passarela 

Um lindo sonho a realizar 

Viver...

 É amar a esperança 

Lutar E deixar como herança

 Um mundo melhor mais feliz

 Educando as crianças... 

Do nosso País Bate coração 

Bate feliz quando “ti vê”

 É um presente carinhoso 

Do saudoso poeta pra você 

Quero a paz... 

Que a brisa beija e embalança 

Eu quero é mais 

Respeito com nossas crianças 

Numa sinfonia triunfal 

Ver o bem vencer o mal

 Vai-Vai feliz é carnaval

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Declaração de Amor a São Paulo, poema de Assis Ângelo

São Paulo da rapaziada do Brás. 

São Paulo dos passeios, das charretes. 

São Paulo dos segredos e mistérios do Pátio do Colégio e do Mosteiro de São Bento. 

São Paulo das zoadas, rezas e silêncios; dos sambas e batuques dos negros forros. 

São Paulo-babel de todas as cores, sotaques e culturas que se expressam nas falas e gestos. 

São Paulo do Butantã e das cobras e lagartos do poeta Vanzolini. 

São Paulo de Nóbrega e Anchieta; de Tibiriçá e Bartira; de João Ramalho e Borba Gato...

 São Paulo do Patriarca, Bom Retiro, Itaquera, Itaim. 

São Paulo da Saúde, Jaguaré, Penha, Tatuapé. 

São Paulo da Liberdade, Aclimação e Mooca... 

 São Paulo da Fiesp, Bovespa e mais-valia; do cansaço, da correria... 

Ah, São Paulo! Bela e infinita... Deusa, Deus, rainha do pobre e do rico. 

São Paulo do Solar da Marquesa, do Largo de São Francisco, do Masp, USP e dos mirantes a se perder de vista. 

São Paulo dos heróis sem berço e dos profetas e loucos do marco zero da Sé. 

São Paulo dos anjos tortos, caídos, perdidos no breu da noite. 

São Paulo das trevas, cortiços e favelas. 

São Paulo dos lampiões, dos bondes camarão e da garoa fina, finda. 

São Paulo guerreira, das entradas e bandeiras. 

 Ah, São Paulo! Menina-mulher pura e pecadora, durona e conciliadora. 

Esfinge à frente do próprio tempo! No teu leito de vida e morte, 

São Paulo, mão e contramão se chocam contra o irreal e a razão... 

Palitos de aço e concreto te ferem o céu do teu pulmão, que chora poeira, óleo e carvão... 

 São Paulo, São Paulo... 

Em ti, por ti, joões e marias se atiram às cegas na eterna luta pela vida, e ao fim e em uníssono, de todas as formas, todos dizem: 

 Te amo!

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Habitat 

Paulo Garfunkel 


Nascemos aqui, meu irmão e eu. 

Fazer o quê?

 Tanto Brasil pra nascer, tanto mar, tanto céu. 

E a gente deu de aterrissar neste lugar: Babel.

 O horizonte, um paredão.

 Eu e meu irmão, só mais dois “cidadão”. 

Entre outros tantos irmãos e outras tantas irmãs.

 Passando o bastão, nesta corrida vã. 

Sob um véu de fuligem, na vertigem do Tempo. 

Mas se o tempo é voraz, São Paulo é veloz. 

São Paulo é a cara de cada um de nós.

 Avenida São João – de Pratinha, Jean e Paulo Garfunkel

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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

OBRAS DO METRÔ TRAVAM O TRÂNSITO EM SP


Já ruim e problemático sob todos os aspectos, o trânsito na Capital paulista piorou ontem 1, depois das 8 horas, com o gigantesco vazamento de uma galeria de esgoto localizada a vários metros abaixo da Marginal Tietê.
O rompimento pode ter sido provocado por um tatuzão, equipamento enorme e de várias toneladas feito para abrir túneis em profundidade.
Na ocasião do rompimento da galeria havia centenas de operários trabalhando na construção de uma nova linha do metrô: a 6 Laranja, que começa no bairro de São Joaquim e segue por baixo da Bela Vista, 14 Bis, Higienópolis, Angélica/Pacaembu e outros bairros até a Brasilândia, na zona Norte da cidade. Essa linha, que deverá ser inaugurada em 2024, terá 15km e 15 estações.
Ninguém morreu, mas alguns trabalhadores tiveram de ser transportados a hospitais da região. 
O que deverá ter provocado esse acidente?
Para o engenheiro Peter Alouche, ex-professor da FAAP e Mackenzie e um dos fundadores da CIA do Metropolitano de São Paulo (Metrô), o problema está na falta de supervisão nas obras. E "excesso de irresponsabilidade".
O metrô de São Paulo, um dos mais movimentados do mundo, parece estar cansado e perdendo credibilidade.
Inaugurado em setembro de 1974 (trecho Jabaraquara-Vila Mariana), o Metrô paulistano sempre foi uma grande referência para todo o tipo de público.
Os problemas começaram a partir das chamadas PPP (Parceiras Público-Privadas).
Atualmente o metrô administra 3 linhas: Azul, Verde e Vermelha.
Além disso é de responsabilidade da Cia do Metrô Paulistano a administração e operação do monotrilho. Detalhe: monotrilho é um tipo de transporte completamente defasado e descartado noutros lugares do mundo.
"Eu gostaria de saber o que fazem com os pneus do monotrilho", pergunta curioso o engenheiro Alouche.
As linhas administradas pelo metrô paulistano transportam cerca de 4 milhões de pessoas, diariamente.
O metrô já foi o meio de transporte mais admirado pela população e cantado em prosa e música.
Em 1978, o compositor Adoniram Barbosa compôs o belíssimo samba Praça da Sé. Ouça:

SÃO PAULO EM PROSA, VERSO E MÚSICA (10)

São Paulo, poema de Paulo Vanzolini

Nesta minha cidade de São Paulo, 
Neste meu berço, nesta minha arena, 
Eu sou, na noite, uma espécie de poeta das menores e mais fáceis 
Que sai sem rumo e volta sem destino 
Traçando o chão por força do costume e não faltando no braço ao dia a dia. 
Na noite entrante, nas peludas asas da morcega madrugada 
Sobrevoo meu chão, num giro míope, cada vez mais certo 
Na segurança de encontrar sem pressa minha minúcia, meu detalhe, meu flagrante 
O ponto fino de contato e entendimento que é reforço de umbigo e de semente 
Que me marca sem dúvida e que me dá certeza da noite e da manhã de mim. 
Neste meu berço, nesta minha arena, neste meu chão, 
 Nesta minha cidade de São Paulo
 
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Praça da Sé, forró de Durval Souto

A Praça da Sé 
É a praça do povo 
Todo domingo 
É um domingo novo
 
É comedor de gilete
Engulindo fogo 
Cobra venenosa 
Serve de remédio 
Mas a vida dessa gente 
Não se resume num prédio 
Sanfoneiro perdido tocando forró 
Bilheteiro vendendo a idade da avó 

São tantas as esperanças 
Que a vida se trai São tantas as esperanças 
Que a vida é maior 
Pra quem veio com a ilusão de ser engenheiro 
De repente olha a caixa eu sou biscateiro 
Mas meu orgulho de raça 
Olha a sorte que eu tive
 Estou é fazendo um curso de detetive 
Vou escrever para minha mãe 

Que sou importante 
Mas aqui peguei peso como um elefante 
Não vejo a hora de regressar 
Pois tomei consciência vou pro meu lugar 

A Praça da Sé 
 É a praça do povo 
Todo domingo 
É um domingo novo
 
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A Briosa Colônia Nordestina em São Paulo, mote decassílabo Sebastião Marinho e Andorinha

Zona Sul, zona Norte, Leste, Oeste 
Do Tucuruvi a Jabaquara 
Guaianazes a Lapa, Vila Iara 
Em qualquer direção São Paulo investe
A chegada do povo do Nordeste 
Transformou a metrópole da bandeira 
A maior do Brasil e a primeira 
De toda a América Latina 
A briosa colônia nordestina 
Fez São Paulo crescer dessa maneira

Osasco, Guarulhos, Arujá, 
Carapicuíba, Itapevi 
São Bernardo, Poá, Barueri,
Santo André, Diadema e Mauá
Cubatão, Bertioga a Guarujá 
Toda Santos, a região praieira 
Da serra do mar na Cantateira 
A grande São Paulo nos fascina 
A briosa colônia nordestina 
Fez São Paulo crescer dessa maneira

Paulistano da gema come angu 
Vatapá e jabá com gerimum 
Casquinha e pirão de guaiamum 
Xerém tapioca e bijou 
Buchada pirão de aratu 
E sarapatel com macaxeira
Bobó de galinha capoeira 
Carne seca e moqueca de corvina 
A briosa colônia nordestina 
Fez São Paulo crescer dessa maneira

São milhões e milhões de paulistanos 
Divididos em filhos cearenses 
Piauenses, maranhenses 
Pernambucanos, alagoanos 
Potiguares, baianos 
Sergipanos e paraibanos de primeira 
E a megalópole brasileira 
Galopante para o mundo descortina
A briosa colônia nordestina 
Fez São Paulo crescer dessa maneira

São Paulo já tem aboiador 
Forrozeiro nos clubes e shows nas praças
Restaurantes e bares têm cachaças 
Pratos típicos do nosso interior 
Cordelista, coquista, embolador 
Mês inteiro.no parque, praça, feira 
Cantador repentista e rezadeira 
Mamulengo e forró em toda esquina 
A briosa colônia nordestina 
Fez São Paulo crescer dessa maneira

Do Nordeste em São Paulo tem pedreiro
Faxineiros, políticos, cientistas 
Empresários, juristas, jornalistas 
Militares, artistas, engenheiros 
Zeladores, vigias, cozinheiros
Obstetras, doméstica e enfermeira 
Professores de química e capoeira 
Português, matemática e medicina.
A briosa colônia nordestina 
Fez São Paulo crescer dessa maneira
 
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Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, poema de Téo Azevedo

Faculdade de Direito 
Do largo de São Francisco 
Lhe decanto com a viola 
Canção que eu gravei num disco 
Eu relembro seu passado 
No dia onze de agosto 
Quando você foi criada 
Deu São Paulo um fino gosto 
Convento de São Francisco 
Sua oficial morada 
E no estilo barroco 
Você foi edificada 
Lembro de José Arouche 
Seu primeiro diretor 
E na arte do Direito 
Você é mestre e doutor 
Falo de Ademar Brotero 
Que foi o primeiro lente 
E lá no curral dos bichos 
Se encontrava muita gente
O nemine discrepante 
Era o grau de bacharel 
Os Gerais ficou marcado 
Nesse ponto tão fiel 
Manuel Dias Toledo 
O tempo não esqueceu 
E capelo, recebeu 
E o Teixeira de Freitas 
Também foi o seu filho
Leis civis com muito brilho 
No edifício de taipa 
Que foi o velho convento 
Franciscanos, jesuítas 
Do direito um lenimento 
Repúblicas de estudantes 
De todo lugar do mundo 
O Ensaio Filosófico 
E o Ateneu profundo 
Da nossa independência 
E também abolição 
Seu papel foi importante 
Para o bem dessa nação 
O Julio Frank e a Bucha 
Acadêmicos das Arcadas 
Encontros Misteriosos 
Iam até nas madrugadas
Eu lembro filhos ilustres 
O querido Rui Barbosa 
E também Joaquim Nabuco 
Castro Alves verso e prosa 
O Álvares de Azevedo 
E o Fagundes Varela 
Maria Augusta Saraiva
Uma mulher muito bela 
Viva Monteiro Lobato 
Viva Oswald de Andrade 
E o Menotti Del Picchia 
O Paulo Eiró, que saudade 
Salve Olavo Bilac 
E o José de Alencar 
Pois são tantos vultos juntos 
Que não dá para contar 
Viva o Centro Acadêmico
De idade tem cem anos 
Dia onze de agosto 
A pindura tá nos planos
Salve o território livre 
Piqui, piqui e meia hora
No direito de ir e vir 
É que o rá-tchim-bum chora
 
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São Paulo Antigo, moda campeira
Caetano Erba/Cacique

Lendo um livro de um velho amigo 
Meu São Paulo antigo pude rever 
Histórias concretas, gravuras pintadas 
Muito bem narradas no meu entender
 No Beco dos Barbas, caminho dos homens
Que hoje seu nome é “porto geral” 
Tamanduateí, caminho dos barcos
 Foi o grande marco na era imperial. 

Quem viveu nos Campos Guaré 
Que hoje, então, é o bairro da Luz 
Não são fantasias que faz o poeta
 São coisas concretas que a história traduz 
A igreja da Sé com suas torres quadradas
 Uma obra arrojada no estilo imperial 
Mil e novecentos, pois foi demolida 
Para ser erguida a nova catedral. 

Tanque no zuniga hoje é o Paissandu
 Ladeira do Açú, hoje é a São João 
E no Martinelli mudou-se bastante 
Esquina importante no Café Brandão. 
Lá no Ouvidor, seu nome era assim 
Largo do Capim no tempo que foi 
Lugar que passavam gente da roça 
Charretes, carroças e carros de boi. 

Seresta se ouvia pela noite adentro 
Nas ruas do centro à luz do lampião 
Nasceu outro centro do lado de lá 
Viaduto do Chá fez a ligação 
Saudade ficou do velho bondinho
 E novo caminho aqui se implantou 
Os trilhos montados subterrâneo 
E o paulistano já tem o metrô.

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