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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022
ARNALDO ROSA, SAUDADE
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022
HOLOCAUSTO NUNCA MAIS
TRIBUNAL INTERNACIONAL DE HAIA
O documento aponta nove crimes do presidente Jair Bolsonaro (PL), como prevaricação, charlatanismo, epidemia com resultado de morte, infração a medidas sanitárias preventivas, emprego irregular de verba pública, incitação ao crime, falsificação de documentos particulares, crime de responsabilidade e crimes contra a humanidade.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022
HOJE É DIA DO FREVO. VIVA O FREVO!
terça-feira, 8 de fevereiro de 2022
QUEM NASCE PRA CASTRO, NÃO CHEGA A TINHORÃO
Ele − Sim, claro. Todo mundo ficava na redação escrevendo coisas. Era assim com Machado (de Assis), por exemplo. Eu gostava dele, mas ele era muito fechado. E com Alphonsus de Guimarães e tantos… Eu sempre me senti muito à vontade nas ruas. Ia pra casa só pra dormir. Mas escrevia nas praças, nos cafés, nos trens. Em todo canto.
Eu − E o Lima Barreto?
Ele − Ah, o Lima era complicado, mas muito talentoso… Era da minha cor. E pobre. A gente não se entendia. Quer dizer, ele não me entendia. Ele dizia umas coisas horrorosas a meu respeito. Não sei por quê. Até me fez personagem de um dos seus livros, o primeiro: Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Não liguei. Pra falar a verdade, eu gostava do Lima. Mas ele era complexado, coitado. Chegou a ser internado com doença de doido. Era mais velho do que eu uns três meses. Morreu em 1922. Assis, não é? Pois bem, seu Assis, pela primeira vez vou dizer uma coisa: não participei, mas assisti aos três dias da Semana de Arte Moderna. Ninguém me reconheceu. Achei foi bom.
Eu − Mas como ninguém o reconheceu, se o senhor era um rosto tão conhecido?
Ele − Parabéns, meu filho. Você é atento ao que ouve. Bem, eu estava meio escondido. Entende? Num canto sem luz. Eu e uma amiga minha.
Eu − O que o senhor achou daquela Semana?
Ele − Interessante, muito interessante. Gostei muito da apresentação do Villa-Lobos com aqueles pezões branquelos à mostra, mas gostei mais foi das vaias que ganhou. O Mário, o Oswald, o Menotti, muito bons. Bons mesmo! E, à parte disso, sempre gostei de São Paulo. Bela cidade.
Eu − E o senhor escreveu alguma coisa a respeito?
Ele − Não, não. Estava ali como espectador. Eu já havia abandonado a carreira de jornalista.
Eu − O senhor mudou a forma de fazer jornal, indo às ruas em busca de notícias. Seguindo seus passos, apareceu uma menina chamada Eugênia Brandão…
Ele − Ah… Eu amava a Geninha. Uma mineirinha muito meiga, muito inteligente, sem preconceito nenhum. Estava em todas. E gostava de um choppinho… Foi com ela que acompanhei a Semana de 22. Ela foi a segunda mulher a escrever num jornal. A primeira foi a maranhense Maria Firmina dos Reis. Negra.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022
TINHORÃO E CARNAVAL
domingo, 6 de fevereiro de 2022
JOÃO RAMALHO: HERÓI OU VILÃO?
Eu disse, João, não Zé.
Esse João chegou ao Brasil do nada.
Há quem diga que João Ramalho foi um náufrago; de qual navio ninguém sabe.
Eu tenho três teses: a primeira, é que ele fugiu ou foi atirado de uma das caravelas do navegador Duarte Pacheco. Pacheco foi enviado ao Atlântico Sul pelo rei Manuel I, de Portugal.
Outra tese é que João Ramalho deixou Portugal a nado, até o Brasil. Por fim, acho que ele chegou ao nosso país — que nem país ainda era — num disco voador.
O fato — e fato é fato — é que João Ramalho chegou por cá na primeira década de 1500. Antes de Duarte Pacheco e de Cabral. Em aqui chegando, atirou-se nos braços das índias e, correspondido, amou e formou um batalhão de filhos. A matriz foi a filha dileta do cacique Tibiriçá, Bartira.
João Ramalho foi herói ou vilão?
Foi esse João quem fundou Santo André e São Bernardo, e tornou-se capitão-mor da Vila de São Paulo de Piratininga.
Corriam os anos de 50 e 60 do século XVI.
Há muitos quilômetros de São Paulo fundava-se a cidade de Nossa Senhora das Neves. Ano: 1850.
Em 1930, Nossa Senhora das Neves viraria João Pessoa.
João Ramalho tem origens em Portugal. Eu, da minha parte, tenho origens fincadas no reino encantado da Parahyba do Norte.
Tudo isso pra dizer o seguinte, respondendo à curiosidade de quem me pergunta por que troquei João Pessoa pela capital paulistana: adoro São Paulo.
São Paulo foi e é, pra mim, um eterno desafio, de vida e morte.
Em 1990, comecei a desenvolver um estudo sobre a música feita em homenagem à cidade fundada pelos jesuítas Nóbrega e Anchieta.
Toda essa história tem a ver com o cabra João Ramalho.
Para a história, João Ramalho é uma incógnita. Eu, não.
É isso.
Muita gente me pergunta qual a música mais bonita composta até hoje pra São Paulo. Indico uma dezena:
- Rapaziada do Brás
- Perfil de São Paulo
- Quarto Centenário
- Ronda
- Sampa
- Lampião de Gás
- São São Paulo
- Trem das Onze
- Samba do Arnesto
- Vai no Bixiga pra Ver
São mais de três mil músicas que colhi no decorrer de duas décadas.
Não
dá pra esquecer
São Paulo, Coração do Brasil, que tão bonitamente gravou Chico Alves.
Não dá pra esquecer a
belíssima
Sinfonia Paulistana, de Billy Blanco.
Não dá pra esquecer
São Paulo de Todos Nós, de Peter Alouche...
Eu, da minha parte, compus e interpretei
Declaração de Amor a São Paulo. E noutra ocasião, compus com Gereba
Hino ao Céu. Essa música, que chamo de hino, foi gravada pelo inesquecível sanfoneiro
pernambucano Dominguinhos.
Ia me esquecendo: cidadãos que, de uma forma
ou de outra, colaboram com São Paulo têm um dia reconhecimento pela Câmara
Municipal, por exemplo.
Em agosto de 1998, compareci à Câmara de São
Paulo para receber o título de Cidadão Paulistano. Fiz discurso e tal. O amigo
historiador José Ramos Tinhorão estava presente. E o auditório, lotado. A
Banda de Música da Polícia Militar tocou o Hino Nacional e arrepiei-me.
Curiosidade:
no Hino Nacional o Ipiranga, riacho e hoje bairro paulistano, é citado.
OLHARES SOBRE SÃO PAULO
SÃO PAULO ME ESCOLHEU, Reynaldo Bessa
"Uma esfinge se precipita no abismo,
tão logo o enigma é decifrado."
- Heinrich Heine
Na época em que decidi tomar o rumo do Sudeste, nada acontecia fora do eixo Rio-São Paulo. Qualquer artista que confiasse no taco das composições que andava fazendo, uma hora teria de aceitar o grande desafio de deixar o lar. Pegar a estrada rumo ao desconhecido. A brincadeira perigosa à qual se referiu Raul Seixas. Não era fácil. Existia sim, a vontade de não ficar — pelo anseio de partir —, mas havia também o medo de ir embora. Como deixar os lençóis limpinhos e cheirosos, o som dos grilos e sapos na madrugada, o céu entupido de estrelas, o café quentinho da minha mãe e o seu acolhedor beijo de boa noite?
sábado, 5 de fevereiro de 2022
SÃO PAULO EM PROSA, VERSO E MÚSICA (FINAL)
Adoniran Barbosa – O “oriundo” do povo
(reprodução da entrevista publicada na edição nº 27 da revista Homem, de novembro de 1980)
O maior sambista paulistano acaba de completar setenta anos de vida e quarenta de carreira artística, em meio a uma grande festa. Mas ele não está feliz. Seu coração tem mágoa acumulada durante os muitos anos que passou sem ver seu trabalho reconhecido.
Nóis pega, nóis peguemo, nóis ia, mas num fumo. Óianóis cá travêiz! Cês num ligue não, é assim mermo. Ora, diacho, mas quem danado fala desta forma? – Num sou eu não, garanto. Eu até que falo certo, quem fala errado é o povo. Só que tem um negócio: eu sou Adoniran Barbosa, o Oriundo.
Então está explicado: Adoniran Barbosa, o que Adoniran Barbosa – O “oriundo” do povo (reprodução da entrevista publicada na edição nº 27 da revista Homem, de novembro de 1980) veio daqui mesmo, do povo. E não duvidem, povo verdadeiramente ele é.
– Óia, eu fui entregador de marmita, faxinêro, tecelão, serralhêro, garção de casa de ministro e muitas outra coisa eu fiz: rádio, televisão, cinema. Fui calôro e cantei muitas música de Noé Rosa... Hoje tô muito calejado. Sou um artista apusentado.
Adoniran não é de falar muito e com pouco se enche. É esquivo, escorregadio, mas quando toma “uns mé” – uísque, de preferência – ou se avista com amigos do tempo passado, se transforma numa torrente de palavras. Frequentemente amargo, diz de si:
– Não sinto mais emoção alguma, o que vier eu traço na maior indiferença.
Massificado pela cidade grande, que conheceu tão pequena e pacata? Sim, talvez. Apesar disso, não se fiem muito na conversa desse jovem de setent’anos, não. E uma coisa é certa: ele é incrível.
Uma vez a repórter Dulce Tupy escreveu que há muitas maneiras de se anunciar Adoniran Barbosa; uma delas: senhoras e senhores, com vocês o incrível, o fantástico, o extraordinário Adoniran Barbosa... Ou então: gente, olha mais um disco do Adoniran, que loucura!... Ou assim: veterano da música popular brasileira lança mais um LP após 40 anos de carreira artística em rádio, cinema e televisão...
Mas até ser considerado pela crítica como um dos maiores valores da música popular brasileira, João Rubinato – este o seu verdadeiro nome – comeu o pão que o diabo amassou. Muito cedo ele teve de lutar para sobreviver junto com mais cinco irmãos – três mulheres e três homens. A família vivia numa penúria de dar dó. O pai, italiano de Veneza, era ferroviário no Brasil. E, por isso, o pequeno João tinha de sair correndo da escola – fez até o 3º ano primário, em Jundiaí – direto à estação para ajudar o “velho”, que trabalhava sem descanso.
Lembrando tudo isto, Adoniran Barbosa diz hoje: – A vida me ensinou a viver. De vida ele fez curso e se formou.
A fama chega no trem das onze
perseverante, o pequeno João alimentava a esperança de um dia ser famoso, ser artista. E nas horas vagas, muito poucas, ele dedilhava um violão e compunha coisinhas maravilhosas assim, já nos anos 50: ”
...Eu sou a lâmpida
E as mulhé é as mariposa,
Ficam dando vorta
Em vorta de mim todas noite
Só pra me beijá...”
Nessa época João – já Adoniran Barbosa – era homem feito e bastante conhecido em São Paulo. Mas no começo da carreira, ele era conhecido apenas na rua Aurora – onde morou quase dez anos – e proximidades da praça Júlio Mesquita. No mais, não passava de um ilustre cidadão comum anônimo na multidão. Até que, achando o seu nome de batismo – João Rubinato – “difícil de pegar”, resolveu dar um jeito.
– Foi assim: o Luís Barbosa, cantor de samba carioca, meu amigo, vinha sempre a São Paulo e aqui a gente costumava passear; o Adoniran era um rapaz do Correio, também muito meu amigo. Aí juntei os dois nomes e ficou assim: Adoniran Barbosa.
Depois disso, a coisa mudou de figura. O pseudônimo deu certo e logo caiu na boca do povo. Quando fez a “operação nominal”, por volta de 1940, ele era locutor – disc-jóquei – de rádio, mas nem por isso tão famoso quanto hoje. Adoniran ficou famoso mesmo foi quando compôs o Trem das Onze, a Saudosa Maloca, a Iracema e, com Vinicius de Moraes, Bom Dia Tristeza, no tempo em que o poeta era embaixador em Paris. Adoniran:
– Você lembra de As Mariposa? É assim: Quando chega o frio/Fica dando vorta em vorta da lâmpida/ Pra se esquentá/Elas roda, roda, roda/... Eu sou a lâmpida/E as mulhé é as mariposa... Boa noite, lâmpida/Boa noite, mariposa/Permita de oscular-lhe a sua face/Pois não, mas rápido/Daqui a pouco eles me apaga. Bunita, né?
Pela Colúmbia, Adoniran Barbosa gravou, há muitos anos, a primeira música. Título: Agora Pode Chorar, de Baiton. Sua primeira parceria: Dona Boa, uma marchinha, com Jota Emere.
Agora Pode Chorar era um samba e começava assim: Chora, chora/-Quem te ensinou a chorá não foi eu/-Chora, chora purque o nosso amô morreu. Depois dessa ele fez e assinou muitas outras parcerias: Guiomar Pafunça, O Casamento do Moacir, Prova de Carinho, Aguenta a Mão, João, Torresmo à Milanesa, etc. etc .etc..
– Com Vinicius eu só tenho um trabalho, que é Bom Dia Tristeza. E foi muito engraçado o jeito como nóis fizemo ela. Naquele tempo eu nem conhecia Vinicius, ele tava em Londres, Paris, sei lá, nem me lembro direito. O ano acho que era 56. Apôis bem, ele mandô uns verso numa carta para a sua amiga Aracy de Almeida, dizendo: pode fazer o que você quiser com estes verso. Aí ela me procurou e pediu para eu pôr música. No mesmo dia eu botei, numa hora que eu tava no Nick Bar em cumpanhia do João Maria de Abreu. Musiquei o poema e o João achou muito bom. E disse: dêxa que eu iscrevo a música na partitura. Disse e fêis. Vinicius também adorou. Bom Dia Tristeza foi gravada pela própria Aracy de Almeida, Elizeth e mais um monte de artista.
Conta-se que Vinicius de Moraes não gostava muito de Adoniran, do jeito como até hoje ainda compõe as letras de suas músicas. Mas, depois de ouvir Bom Dia Tristeza, Vinícius teria mudado de opinião chegando até a dizer: ora, ora, mas como é que pode?... Conta-se também que, ainda por causa de Adoniran, Vinícius teria dito que “São Paulo é o túmulo do samba”, como se somente os cariocas fossem capazes de fazer samba. Porém essa versão é negada pelo autor de Iracema:
– Nada disso, isso é cunversa fiada. Inclusive, quando ele me conheceu gostou muito de mim, das minhas músicas, das minhas letras. Vinícius achava o meu estilo maravilhoso, inconfundível. Formidável mesmo. Ele dizia que eu sou um grande artista... Deve ser cunversa mole, né? Mas ele falou, tá falado.
Um sujeito muito calejado
Adoniran Barbosa é ciente do valor da sua obra, da sua “bagagem” musical. E, talvez por isto mesmo, costuma dar pouca importância aos elogios que lhe fazem com frequência. Arredio, dificilmente aceita ir a uma festa. E quando a festa é em sua homenagem... nem fala. Meio chateado e com uma indisfarçável pontinha de mágoa, segreda:
– Quando eu precisava de homenage, de uma força, ninguém tava nem aí. Agora que eu sou cunhecido, vêm com um lenga-lenga sem fim pru lado de mim. Tô sabendo.
Faz pequena pausa. Passa alguém à nossa volta e ele cumprimenta: “ÔI”. Baixa a cabeça e, indiferente, repete:
– Sou hoje um sujeito muito calejado.
Há dois meses, a direção da gravadora Odeon promoveu uma grande festa em homenagem a esse grande e magoado artista. Motivos: o lançamento do seu terceiro LP e o seu 70º aniversário de nascimento. Os amigos, cabreiros, imaginaram, como não poderia deixar de ser, que o jovem Adoniran não compareceria. Ledo engano, ele surpreendeu a todos indo à festa e tudo foi muito bonito, “só que perdi o sossego”, diz, acrescentando:
– Desde o cumeço do mêis de agosto que tudo quanto é repórter de jorná, rivista, rádio e televisão tem vindo me prucurá querendo intrivista. Sabe, tô tão cansado que já num guento mais.
Ele não gosta muito de lembrar a passagem do seu 70º aniversário e nem falar de planos futuros. Diz que as coisas estão assim, assim, e quer ver como é que vão ficar. As entrevistas que tem dado, quase que diariamente, começam com ele dizendo, invariavelmente, o tanto que batalhou para chegar onde chegou.
– Meu fio, eu fiz de tudo na vida. O sucesso eu cunheço desde o tempo que eu tinha programas de rádio: Casa de sogra, O crime não compensa, História da maloca, com Charutinho. Na televisão, eu fiz quatro novelas: Mulheres de areia, Os inocentes, Xeque mate e Ovelha negra. E no cinema: O cangaceiro, Candinho, A carrocinha. Entrei no rádio como calôro, por volta de 33. Eu interpretava mais Noé Rosa, que cunheci pessoalmente mas só de passagem, de bom dia, ôi, como vai. O Charutinho que eu fazia no rádio é famoso até hoje. Criei personage de todo tipo: criôlo, italiano, francês, por aí. Mas nenhum foi inspirado em alguém: tudo criação minha.
E São Paulo de hoje, muito diferente da cidade de ontem? Ele faz um muxoxo, como se dissesse: quá, num quero nem falá!
– Hoje a minha cidade está completamente transformada, muito diferente daquela que cunheci no cumeço do século. Nem as ruas do meu tempo num ixiste mais, é uma pena. São Paulo era uma cidade muito bonita. Hoje eu procuro São Paulo e não acho, tá tudo mudado, mudou tudo para pior. Tá tudo muito violento, tem muita gente, muito cimento, muito corre-corre, muito automove, muita buzina. Deus do céu!
Boêmio pobre, mas boêmio
Mesmo assim, Adoniran Barbosa continua sendo o cronista-sambista mor de São Paulo – cidade que, para Lourenço Diaféria, se resume numa questão de fé e “é um arroubo emocional acima de razões e certezas”. Fiel a si próprio, ultimamente Adoniran tem registrado suas reminiscências nas páginas do periódico paulistano Feijão com Arroz. Além disso, ele tem procurado imortalizar os bairros da cidade que conhece tão bem como a palma da mão, através dos seus sambas. Motivo de composições já foram: Mooca, Vila Esperança – uma obra-prima –, Brás, Jaçanã, Casa Verde etc. A avenida São João, claro, o artista não poderia esquecer jamais, como Paulo Vanzolini. E assim, ele continua indo. Aos 70 anos de idade, ainda se considera um “boêmio inveterado”.
– Sou um boêmio pobre, mas boêmio; de rua, de esquina, de botequim. Pra você ter uma ideia: sou do tempo de serenata na rua. Mas na rua agora não posso mais fazer serenata com violão e tudo, como as serenata eram feita. Serenata na rua a gente fazia antes de São Paulo ficar como ficou: feia e triste. Tudo acabô, foi proibido pelas otoridade. O que se há de fazê agora?
Adoniran Barbosa lamenta também o fato de as emissoras de rádio e televisão não oferecerem mais bons programas, como antigamente. Para ele, o que se salva ainda é um Chacrinha e mesmo Os Trapalhões. O resto é o resto e nada mais se salva.
– Chico Anísio é bom, mas saiu da televisão.
E o samba?
– Ah, o samba! O samba é tudo pra mim. Quando alguém me pergunta o que é que eu acho do samba, nem sei responder direito: eu sou o samba.
Nostálgico? Não, nem um pouco.
– A única coisa de que sinto saudade é da carne, do pão bom, enfim: da boa comida de antigamente. Hoje é tudo enlatado, horrive! E o rádio, o cinema? Garante ele que “nunca jamais” voltaria a empunhar um microfone para fazer um programa.
– Sou um artista apusentado. De positivo, só acha uma coisa: os jornais. E explica:
– Os jorná de hoje dão muita força a nóis artista. Antigamente num era assim, não. Tão muito bom. Mas eu também num ligo muito para isso não. Num quero mais me preocupá. Quero mesmo é vivê. Eu gosto muito da vida. É pena que eu me judiei muito na minha juventude. Me maltratei mesmo, sabe como é: boêmia, noitada e mais noitada, cigarro, bibida. É, me judiei muito. Hoje cum setent’anos era pr’eu tá mais forte um pouco. Tô forte, graças a Deus, mas era pra tá mais. Num tô arrependido, mas eu não faria tudo outra vêiz do mesmo jeito que fiz.
Se João Rubinato não tivesse conhecido o sambista carioca Luis Barbosa e o carteiro Adoniran, dificilmente existiria o artista Adoniran Barbosa. Talvez Jean Rubinê ou Giovanni Rubinato, isso porque o João estava decidido a adotar um pseudônimo. Ele brinca: “Já pensou um artista sendo chamado de João Rubinato?”.Não soaria bem, é o que João achava. Mas, felizmente, surgiram Luis Barbosa e Adoniran e os dois em João estão vivendo muito bem, diga-se de passagem. Para os mais íntimos, o artista Adoniran Barbosa atende pelo apelido de “Rei da Estufa”, que ganhou tempos atrás por gostar muito de pastéis, coxinhas e empadinhas que ficam expostas nas estufas dos bares. Mas, cuidado: tem que ser íntimo para chamá-lo pelo apelido.
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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022
PARABÉNS A VOCÊ: 80 ANOS!
Na origem é uma adaptação da canção Happy Birthday to You, publicado num livro do norte-americano Robert Caleman.
Em 1942, essa canção ganhou versão assinada por Bertha Celeste Homem de Mello (1902-1999), ou Léa Magalhães, paulista de Pindamonhangaba concorrente de um concurso musical promovido pelo cantor e radialista carioca Almirante, de batismo Henrique Foréis Domingues.
Desse concurso, levado a efeito pela Rádio Tupi do Rio de Janeiro, participaram centenas de compositores de todo o País.
A canção, desenvolvida em quadrinhas, começa assim:
Parabéns pra você
Nesta data querida
Muita felicidade
E muitos anos de vida...
O TIETÊ TEM SALVAÇÃO?
SÃO PAULO EM PROSA, VERSO E MÚSICA (12)
Alguns autores de músicas feitas para Sampa
Jarbas Mariz nasceu na estrada, no dia 14 de março de 1952, entre Minas Gerais e Espírito Santo. Foi criado na capital paraibana, onde, em 1967, abraçou a profissão de músico. Em 1968 formou o grupo Pedras Rolantes, que viraria Selenitas, um dos mais populares e requisitados conjuntos de baile do Nordeste, que existiu por sete anos. Em 1977, começou a gravar discos. O primeiro foi um compacto duplo. Dois anos antes, fez show histórico no Teatro Santa Rosa, de João Pessoa, ao lado de Zé Ramalho: Três Aboios Diferentes; e com o próprio Zé e outros artistas, como Lula Côrtes, gravou o mais caro (e raríssimo) disco independente da história da MPB, Paembirú. No Rio de Janeiro, cantou com o rei do ritmo, Jackson do Pandeiro, e com a rainha do forró, Anastácia. Em 1989, e já morando na Capital de São Paulo, foi dirigido por Tom Zé e com ele passou a correr o mundo. Tem músicas gravadas por Marinês e Gilberto Gil.
Alberto Marino era paulistano da Liberdade, criado no Brás. Nasceu no dia 23 de março de 1902 e morreu em 11 de fevereiro de 1967. Seus pais se chamavam Rosário e Carmella. Foi maestro da Sinfônica do Municipal e professor-diretor do Conservatório Dramático de São Paulo. Compôs Rapaziada do Braz na noite de 20 de novembro de 1917, para Ângela Bentivegna, com quem contrairia matrimônio em 1924. Antes de ser gravada pelo Sexteto Bertorino Alma (anagrama de Alberto Marino) e lançada pela Brasilphone, em 1927, já integrava o repertório dos seresteiros, e por sugestão do cantor Carlos Galhardo ganharia letra de Alberto Marino Jr.. No dia 25 de janeiro de 1968, junto a uma multidão, o prefeito Faria Lima inaugurava o Viaduto Alberto Marino. Prestigiaram o evento Vicente Celestino, Gilberto Alves, Nélson Gonçalves e Demônios da Garoa. É o primeiro clássico musical sobre o Brás, o mais cantado dos paulistanos.
Paulo Vanzolini nasceu na Capital de São Paulo, no dia 25 de abril de 1924 e faleceu em 28 de abril de 2013. Seus pais eram Carlos Alberto, engenheiro civil e eletricista, professor da Escola Politécnica; e Finoco Guidici, dona de casa. Foi criançaprodígio. Tornou-se cientista e um dos mais importantes especialistas em répteis do mundo todo. Shakespeare e Dante, que lia no original, eram seus autores de cabeceira, mais Camões e Bilac. Era PhD de Harvard, EUA. Trazia no currículo a formação de 38 doutores. Antes de concluir o curso de Medicina na USP, em 1947, e se especializar no estudo de vertebrados, serviu o Exército (reservista de 1ª Categoria) entre 7 de junho de 1944 e 14 de novembro de 1945. Um de seus livros, Tempos de Cabo, teve edição ilustrada por Aldemir Martins. Declarava-se apaixonado pela a cidade onde nasceu. Foi o criador dos clássicos Volta por Cima e Ronda, essa com versão até na Suíça. Sua obra musical cabe em quatro CDs.
Zica Bérgami nasceu em Ibitinga (SP), no dia 10 de agosto de 1913 e se criou na capital paulista; faleceu em 16 de abril de 2011. Em 1958, procurou a cantora Inezita Barroso e a ela apresentou várias músicas, entre as quais Lampião de Gás, cuja letra era comprida e foi encurtada para se transformar numa referência musical, a partir de sua gravação. O arranjo coube ao maestro mineiro Hervê Cordovil. Nesse mesmo ano, a valsa recebeu versão japonesa de Kikuo Furuno, gravada por Yoko Abe. Ganhou também o Troféu Zequinha de Abreu. A partir de 1960, passou a expor desenhos e pinturas de estilo primitivista em Portugal, Itália, México, Israel e França. Em 1999, o cantor e instrumentista Filó Machado assinou a produção e direção musical do CD Zezé Freitas Interpreta Zica Bérgami. Em 2001, o mesmo Filó, mais Camila Machado e Zezé Freitas, produziria o CD Salada de Danças, no qual pode ser ouvida sua voz em músicas até então inéditas.
Cacique e Pajé. Cacique nasceu a 25 de março de 1935, em Monte Aprazível (SP). Antes de formar dupla com Pajé, adotou os pseudônimos Peixoto e Rei do Gado. O primeiro disco que gravou foi um compacto duplo, pelo selo Centenário, em 1969. O disco trazia Violeiro Franco, chibata (gênero musical de origem indígena); A Viola e a Guitarra, cururu; Cristão Verdadeiro, moda campeira; e Aliança dos Noivos, valsinha. Em 1970, pelo selo Califórnia, gravou o primeiro LP: Tião Campeiro e Rei do Gado, produzido por Carreirinho. O segundo LP surgiu em 1972, com João Ferreira, pela Fermata. O maior sucesso da dupla, formada originalmente em 1978, ocorreu em 1979, com o LP Patrão e Secretária (220 mil cópias vendidas). O primeiro Pajé se chamava Roque Pereira Paiva (1936-1994) e era paulista de Bofete. O atual se chama Geraldo Aparecido da Silva, também paulista de Itapuí, nascido no dia 29 de julho de 1943.
Costa Senna é cearense de Fortaleza, nascido no dia 30 de novembro de 1955. Filho de Joaquim Raimundo e Raimunda Senna da Costa, ele trocou sua cidade de origem por São Paulo em 1990, dez anos após decidir a trabalhar com cultura popular. Nessa área tem produzido espetáculos e escrito folhetos de cordel. Atuou em peças teatrais e filmes de curta e longa metragem. Também compõe músicas, toca violão e canta. Tem CDs gravados, como Moço das Estrelas e Fábrica de UniVersos, e livros publicados, entre os quais O Doido, O Raulseixismo e Jesus Brasileiro, esse em parceria com o cordelista Marco Haurélio, revisor de textos e consultor da mais antiga e importante editora de folhetos de cordel do País, a Luzeiro. Na música, um de seus parceiros mais frequentes é Cacá Lopes. Em 2007, participou de Educar para Transformar, documentário em vídeo de Tânia Quaresma, sobre o educador pernambucano Paulo Freire.
Téo Azevedo, de batismo Teófilo de Azevedo Filho, é natural de Alto Belo, distrito de Bocaiúva (MG). Nasceu no dia 2 de julho de 1943. Antes de ficar famoso como compositor e violeiro, foi engraxate, camelô, lutador de boxe e soldado corneteiro do 12º RI na capital mineira. Começou a gravar em 1965, pela Discobel. O primeiro LP, independente, lançou no ano de 1974. O último, Guerrilheiro da Natura, duas décadas depois, pela Brasidisc. Tem músicas em discos de Zé Ramalho, Luiz Gonzaga, Sérgio Reis, Dominguinhos, Jair Rodrigues, Genival Lacerda, Banda de Pífanos de Caruaru, Cascatinha e Inhana, Pena Branca e Xavantinho, Tonico e Tinoco, Caju e Castanha e pelo bluesman Charles Musselwhite (Feel it in Your Heart). O poeta Carlos Drummond escreveu Viola de Bolso para seu pai, Tiófo, O Cantadô de um Braço Só. Tem publicados alguns livros, como Literatura Popular do Norte de Minas e Plantas Medicinais.
Sebastião Marinho, de sobrenome Silva, é paraibano de Solânea e filho de Manoel Anulino e Damiana Marinho do Nascimento. Nasceu no dia 10 de março de 1948, e do verso se tornou profissional no dia 15 de novembro de 1968. É presidente da União dos Cantadores, Repentistas e Apologistas do Nordeste (Ucran), entidade criada em 1988. Mora na capital paulista desde 1976. Há anos forma dupla com o pernambucano de São Bento do Una José Saturnino dos Santos, o Andorinha, com quem tem disco gravado. Andorinha participou do 2º Concurso Paulista de Literatura de Cordel, promovido em 2004 pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos e pelo Metrô de São Paulo, no qual classificou o folheto CPTM e Metrô, Orgulho Paulistano, que numa estrofe diz: “Quem vem a São Paulo encontra/Um transporte especial/ Os trens metropolitanos/Trafegam na Capital/Norte, Sul, Leste, Oeste/ Cobrindo a área central”.
Peter Alouche é bacharel em Letras e poliglota. É o que se pode chamar de cidadão do mundo. Embora nascido no Cairo, Egito, terra dos faraós, e apesar de sua pátria cultural ser, como ele mesmo costuma dizer, “a língua francesa”, a sua única e verdadeira pátria de adoção e de devoção é o Brasil. Ser engenheiro de formação e ter dedicado 35 anos de sua vida profissional à tecnologia do Metrô de São Paulo não o impediram de se aventurar nas letras brasileiras e até, pasmem, na literatura de cordel. Em 2002 participou, com o pseudônimo de Pedro Nordestino, do 1º Concurso Paulista de Literatura de Cordel, e classificou, entre duas centenas de concorrentes de todo o País, a história em sextilhas Encontro no Metrô, publicada em folheto cuja capa recebeu a assinatura do cordelista Klévisson Viana. Essa “ousadia ímpar”, segundo ele, só conseguiu “graças ao amor que tanto nutre pelo povo” de nossa terra.
Durval Souto é instrumentista, compositor, cantor e produtor musical natural da cidade de Itaji (BA), nascido no dia 25 de fevereiro de 1954. Tinha 15 anos de idade quando se apresentou em público pela primeira vez, num circo. Morou em Salvador e Rio de Janeiro, antes de se iniciar profissionalmente na capital paulista. Em 1973, atuou na peça O Homem em Função do Meio, de Alfredo Zonalto, dirigiu o espetáculo Música Popular do Brasil, produzido pelo Grupo Esquema Novo e apresentado nas escolas da capital por seis anos. Ainda em 1973 estreou no disco, gravando um compacto simples que trazia, de sua autoria, a canção Época de todos nós. Participou de vários festivais de música popular, até lançar o seu primeiro LP, em 1981, pela extinta gravadora Continental. Gravou ao lado de Zé Geraldo e Inezita Barroso, lançou oito discos, entre compactos, LPs e CDs. Seu último trabalho, o CD Lobisomem Americano, é de 2002.
Osvaldinho Da Cuíca, de batismo Osvaldo Barro, é paulistano do Bom Retiro, e filho de Benedicta de Almeida e Domingos Barro. Nasceu numa terça-feira de carnaval (12/2/1940). Iniciou-se nos estúdios de gravação em 1957. É o mais famoso cuiqueiro do Brasil. Gravou com os maestros Peruzzi, Léo Peracchi, Chiquinho do Acordeon, George Henri, Erlon Chaves. Seus instrumentos de percussão podem ser ouvidos em discos de Orlando Silva, Nélson Gonçalves, Martinho da Vila, Adoniran Barbosa, Germano Matias, Paulinho da Viola, Cartola, Zé Kétti, Ângela Maria, Clementina de Jesus. Participou da trilha do filme Orfeu Negro, premiado em Cannes, com a Palma de Ouro. Integrou o grupo Demônios da Garoa. Fundou a Ala dos Compositores da Escola de Samba Vai Vai, em 1975. Um ano antes lançou seu LP de estreia e recebeu o título de Cidadão Samba de São Paulo, pela Secretaria de Turismo do Município.
Curiosidades sobre São Paulo
• Você sabia que Rapaziada do Brás, com “z” no original, foi a primeira música dedicada a um bairro da cidade e que seu autor tinha apenas 15 anos de idade quando a compôs?
• Você sabia que o autor de Rapaziada do Brás, Alberto Marino, era violinista e assinava suas obras com o anagrama Bertorino Alma, também nome de um sexteto criado por ele no início dos anos de 1920?
• Você sabia que Alberto Marino Jr. foi promotor e desembargador do Estado de São Paulo e que atuou em mais de 300 sessões do Tribunal do Júri?
• Você sabia que Alberto Marino Jr. levou à cadeia o Bandido da Luz Vermelha e um de seus filhos, o juiz da Vara das Execuções Criminais Alberto Marino Neto, foi quem o libertou, em 2009?
• Você sabia que Paulo Vanzolini foi um zoólogo muito respeitado no mundo, com PhD em Harvard e também membro da Academia Brasileira de Ciências, desde 1963?
• Você sabia que Paulo Vanzolini foi por muitos anos diretor do Museu de Zoologia da USP, cuja biblioteca ele formou com os direitos de autor pelo samba Ronda?
• Você sabia que a cantora Laura Okumura participou do filme de suspense A Dama do Cine Xangai, cantando Ronda em japonês?
• Você sabia que Mary Buarque foi professora de piano de Inezita Barroso, a primeira cantora a gravar o samba Ronda, em 1953, no seu segundo disco de carreira?
• Você sabia que a letra do samba Trem das Onze ficou engavetada por cinco anos e quem a desengavetou a pedido do produtor Braz Baccarin foi Arnaldo Rosa, um dos fundadores do conjunto Demônios da Garoa?
• Você sabia que o rei do baião, Luiz Gonzaga, faz referência a São Paulo em cinco músicas e que até lançou um LP intitulado SP: QG do Baião, em 1971?
Não deixe de ouvir
Ao longo da carreira, Assis Ângelo entrevistou centenas de compositores, cantores e músicos. Para este especial, ele selecionou 18 trechos em que os entrevistados falam sobre São Paulo. Não deixe de ouvir: AlbertoMarinoJr, Antenógenes Silva, Benito di Paula, Billy Blanco e De Athayde, Germano Mathias, Mário Albanese, Mário Zan, Mário Zan e Demônios da Garoa, Moraes Sarmento, Nelson Gonçalves, Osvaldinho da Cuíca, Patativa do Assaré, Paulo Vanzolini, Rielinho, Roberto Fioravanti, Roberto Lapiccirella, Silvio Caldas e Zica Bérgami.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022
CAYMMI, O CANTOR DOS ORIXÁS
Eu quero ser o primeiro
A saudar Iemanjá
Dia dois de fevereiro
Dia de festa no mar
Eu quero ser o primeiro
A saudar Iemanjá
Escrevi um bilhete a ela Pedindo pra ela me ajudar
Ela então me respondeu
Que eu tivesse paciência de esperar
O presente que eu mandei pra ela
De cravos e rosas vingou
Chegou, chegou, chegou
Afinal que o dia dela chegou
Chegou, chegou, chegou
Afinal que o dia dela chegou
O baiano de Salvador Dorival Caymmi (1914-2008) foi o primeiro artista da nossa música popular a compor e a cantar a Orixá feminina Iemanjá, a rainha do mar. Ou dos mares.
Iemanjá é homenageada em dias diferentes no Brasil: 2 de fevereiro, 15 de agosto, 8 e 31 de dezembro.
A homenagem que mais junta gente é em Salvador, BA, no dia 2.
Na Capital cearense, Fortaleza, Iemanjá recebe louvores no dia 15 de agosto.
Na Paraíba, Pernambuco, São Paulo e em outros lugares, o dia dessa entidade é 8 de dezembro.
No Rio de Janeiro o dia escolhido é o último do ano.
A 1ª vez que Caymmi fala numa música sobre Iemanjá, tida como a mãe de todos os Orixás, data de 1939. Título: Caminhos do Mar.
Essa é uma história linda e comprida. IEMANJÁ, RAINHA DOS MARES
O samba Dois de Fevereiro, gravado originalmente em 1957, é um dos muitos clássicos da discografia de Caymmi.
O ilustre baiano deixou uma obra riquíssima, mas não custa lembrar que essa obra foi iniciada, e encerrada, no Rio de Janeiro.
Bom tocador de violão e dono de uma belíssima voz, Dorival Caymmi trocou Salvador pelo Rio com o propósito de ganhar a vida como desenhista e pintor.
(Do livro Cancioneiro da Bahia, Editora Record, 1978)
Como artista plástico, Caymmi teria um grande futuro. Desenhava e pintava
muito bem.
DORIVAL CAYMMI E CARLOS LACERDA: 100 ANOS
Até hoje não existe, a rigor, ninguém que interprete tão bem a obra de
Caymmi como o próprio Caymmi.
Foi um artista bom que só.
Quem quiser
saber detalhes da vida e obra do mestre da música de Salvador, recomendo que
leia a biografia Dorival Caymmi - O mar e o Tempo, de Stella Caymmi (Editora 34,
2001).
A letra em que o artista fala de Iemanjá pela primeira vez, é esta:
Rainha do mar
Yemanja Odoiá Odoiá
O canto vinha de longe
De lá do meio do mar
Não era canto de gente
Bonito de admirar
O corpo todo estremece
Muda cor do céu do luar
Um dia ela ainda aparece
É a rainha do mar
Yemanja Odoiá Odoiá
Rainha do mar Yemanja Odoiá Odoiá
Rainha do mar
Quem ouve desde menino
Aprende a acreditar
Que o vento sopra o destino
Pelos os caminhos do mar
O pescador que conhece
as historias do lugar
morre de medo e vontade
de encontrar
Yemanja Odoiá Odoiá
Rainha do mar
Yemanja Odoiá Odoiá
TIETÊ, UM RIO COM LÍNGUA DE FORA
- Rio que entras pela terra
E que me afastas do mar...
É noite. E tudo é noite. Debaixo do arco admirável
Da Ponte das Bandeiras o rio
Murmura num banzeiro de água pesada e oliosa.
É noite e tudo é noite. Uma ronda de sombras,
Soturnas sombras, enchem de noite de tão vasta
O peito do rio, que é como si a noite fosse água,
Água noturna, noite líquida, afogando de apreensões
As altas torres do meu coração exausto. De repente
O ólio das águas recolhe em cheio luzes trêmulas,
É um susto. E num momento o rio
Esplende em luzes inumeráveis, lares, palácios e ruas,
Ruas, ruas, por onde os dinossauros caxingam
Agora, arranha-céus valentes donde saltam
Os bichos blau e os punidores gatos verdes,
Em cânticos, em prazeres, em trabalhos e fábricas,
Luzes e glória. É a cidade... É a emaranhada forma
Humana corrupta da vida que muge e se aplaude.
E se aclama e se falsifica e se esconde. E deslumbra.
Mas é um momento só. Logo o rio escurece de novo,
Está negro. As águas oliosas e pesadas se aplacam
Num gemido. Flor. Tristeza que timbra um caminho de morte.
É noite. E tudo é noite. E o meu coração devastado
É um rumor de germes insalubres pela noite insone e humana.
Meu rio, meu Tietê, onde me levas?
Sarcástico rio que contradizes o curso das águas
E te afastas do mar e te adentras na terra dos homens,
Onde me queres levar?...
Por que me proíbes assim praias e mar, por que
Me impedes a fama das tempestades do Atlântico
E os lindos versos que falam em partir e nunca mais voltar?
Rio que fazes terra, húmus da terra, bicho da terra,
Me induzindo com a tua insistência turrona paulista
Para as tempestades humanas da vida, rio, meu rio!...
(A Meditação Sobre o Tietê, poema de Mário de Andrade, composto entre 30 de novembro de 1944 e 12 de fevereiro de 1945)
Depois, Fleury prometeu beber água do rio no ano 2005. Nada disso. Em 2007, em parceria com a TV PUC São Paulo, recorri quase todo o rio, desde a fonte (onde, sim, eu bebi um copo de água) até lá longe, no interior, onde o rio finalmente voltava a desfrutar a vida.
Acompanhei uma peça de teatro flutuante dentro da cidade de São Paulo, uma iniciativa que simbolizava a importância cultural do rio para a metrópole. Ao pousar em Guarulhos no final do ano, vindo de Paris, para minha primeira visita desde o começo da pandemia, vi a triste realidade: milhões de dólares e duas décadas depois, o rio continuava morto.
O título acima vem da música de mesmo nome pelo conjunto The Standells, gravada em 1966: THE STANDELLS - DIRTY WATER
Os roqueiros cantavam o Rio Charles, de Boston. Naquela época, quem caía no rio da cidade de Boston era encaminhado para o hospital. Hoje você pode nadar no Rio Charles. Até quando esperar para a volta do Tietê?
SÃO PAULO EM PROSA, VERSO E MÚSICA (11)
São Paulo Esquina do Mundo, samba pop de Assis Ângelo/Jarbas Mariz
São Paulo Ponto Chic,
Viaduto, correria, carros,
Anhangabaú, Ipiranga, Butantã,
A garoa dos nortistas
Pacaembu, Morumbi – gol!!!
Vida corinthiana,
Nos hotéis de mil estrelas,
Viva Deus, povo do Brás,
Quanta gente, quanta idade,
Da Mooca à Liberdade
São Paulo, São Paulo
São Paulo, São Paulo esquina do mundo (bis)
São Paulo, São Paulo São Paulo de todo mundo
Dos poetas romanticamente
De Vanzolini à Inezita,
Que bonito, São Paulo
De um, de dois, de mil,
Dos poetas romanticamente
De Adoniran à Geraldo Filme,
Que bonito, São Paulo
De um, de dois, de mil
São Paulo esperança
De negro, de branco, de rico
São Paulo, São Paulo São Paulo, São Paulo esquina do mundo (bis)
São Paulo, São Paulo de todo mundo...
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Acorda Brasil, samba-enredo de Osvaldinho da Cuíca/Serginho/Namur
No ar....
Nosso grito de alerta
O Bixiga desperta, a cantar
Acorda Brasil
É chegada a hora de mudar
Divina Luz Dos deuses da mitologia
Clareia... Me conduz a exaltar
Um anjo que desceu lá na favela
E hoje traz pra passarela
Um lindo sonho a realizar
Viver...
É amar a esperança
Lutar E deixar como herança
Um mundo melhor mais feliz
Educando as crianças...
Do nosso País Bate coração
Bate feliz quando “ti vê”
É um presente carinhoso
Do saudoso poeta pra você
Quero a paz...
Que a brisa beija e embalança
Eu quero é mais
Respeito com nossas crianças
Numa sinfonia triunfal
Ver o bem vencer o mal
Vai-Vai feliz é carnaval
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Declaração de Amor a São Paulo, poema de Assis Ângelo
São Paulo da rapaziada do Brás.
São Paulo dos passeios, das charretes.
São Paulo dos segredos e mistérios do Pátio do Colégio e do Mosteiro de São Bento.
São Paulo das zoadas, rezas e silêncios; dos sambas e batuques dos negros forros.
São Paulo-babel de todas as cores, sotaques e culturas que se expressam nas falas e gestos.
São Paulo do Butantã e das cobras e lagartos do poeta Vanzolini.
São Paulo de Nóbrega e Anchieta; de Tibiriçá e Bartira; de João Ramalho e Borba Gato...
São Paulo do Patriarca, Bom Retiro, Itaquera, Itaim.
São Paulo da Saúde, Jaguaré, Penha, Tatuapé.
São Paulo da Liberdade, Aclimação e Mooca...
São Paulo da Fiesp, Bovespa e mais-valia; do cansaço, da correria...
Ah, São Paulo! Bela e infinita... Deusa, Deus, rainha do pobre e do rico.
São Paulo do Solar da Marquesa, do Largo de São Francisco, do Masp, USP e dos mirantes a se perder de vista.
São Paulo dos heróis sem berço e dos profetas e loucos do marco zero da Sé.
São Paulo dos anjos tortos, caídos, perdidos no breu da noite.
São Paulo das trevas, cortiços e favelas.
São Paulo dos lampiões, dos bondes camarão e da garoa fina, finda.
São Paulo guerreira, das entradas e bandeiras.
Ah, São Paulo! Menina-mulher pura e pecadora, durona e conciliadora.
Esfinge à frente do próprio tempo! No teu leito de vida e morte,
São Paulo, mão e contramão se chocam contra o irreal e a razão...
Palitos de aço e concreto te ferem o céu do teu pulmão, que chora poeira, óleo e carvão...
São Paulo, São Paulo...
Em ti, por ti, joões e marias se atiram às cegas na eterna luta pela vida, e ao fim e em uníssono, de todas as formas, todos dizem:
Te amo!
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Habitat
Paulo Garfunkel
Nascemos aqui, meu irmão e eu.
Fazer o quê?
Tanto Brasil pra nascer, tanto mar, tanto céu.
E a gente deu de aterrissar neste lugar: Babel.
O horizonte, um paredão.
Eu e meu irmão, só mais dois “cidadão”.
Entre outros tantos irmãos e outras tantas irmãs.
Passando o bastão, nesta corrida vã.
Sob um véu de fuligem, na vertigem do Tempo.
Mas se o tempo é voraz, São Paulo é veloz.
São Paulo é a cara de cada um de nós.
Avenida São João – de Pratinha, Jean e Paulo Garfunkel
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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022
OBRAS DO METRÔ TRAVAM O TRÂNSITO EM SP
SÃO PAULO EM PROSA, VERSO E MÚSICA (10)
Nesta minha cidade de São Paulo,
A Praça da Sé
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Intriga, suspense, confusão, mentira, emoção atentado contra a ordem e a lei e otras cositas mas . O cantor, compositor e instrumentista To...