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domingo, 9 de fevereiro de 2025

ADEUS, VITAL FARIAS



 Já disseram e certamente ainda hão de dizer que "a vida é de morte".

E é mesmo, pois nascemos, vivemos e morremos. 

Ninguém nasce pra ser semente, tirante o fato de que como bichos humanos nos perpetuaremos até o fim dos tempos. E está perto, bem perto, bem pertinho... Pois, os poderosos donos do mundo em que vivemos continuam brincando com bombas atômicas e outros que tais igualmente mortíferos. O fato de momento é que nossos dias estão contados pelo Homem lá de riba.

A cada dia que passa penso estar ficando mais e mais só, pois os amigos têm partido sem se quer se despedir. Agora mesmo foi o querido Vital Farias, cuja carreira acompanhei desde o início. 

Antes, bem antes de Vital, foram-se Manezinho Araújo, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Rolando Boldrin, Téo Azevedo, Otacílio Batista, Sebastião Marinho, João Paraibano, Valdir Teles, Patativa do Assaré, Luiz Vieira, Chico Salles, Audálio Dantas, José Ramos Tinhorão, Paulo Vanzolini, Inezita Barroso, Marinês, Carmélia Alves...

Tem hora, confesso, que pego o telefone pra ligar pra uma dessas pessoas aí citadas. Há tempo caiu em mim dando conta de que fulano e beltrano já não se acham perto de mim.

A última vez que Vital me telefonou faz um mês ou pouco mais ou menos de um mês. Dizia que estava se preparando pra me abraçar cá em Sampa, mas aí o coração o traiu, levando-o para a Eternidade. 

Neste Blog tem muita coisa que escrevi sobre Vital e mais os amigos aqui citados. 

Vital Farias foi o 51° filho de um mesmo pai. Partiu com 82 anos de idade e deixou, pelo menos, uma dezena de rebentos de seu próprio sangue. 


terça-feira, 29 de outubro de 2024

VIVA NELSON CAVAQUINHO!

Eu tinha um amigo chamado José Ramos Tinhorão (1928-2021). Esse Zé, de uma inteligência analítica fora do comum, via na vida brasileira o fazer da arte popular. 

Esse Zé era jornalista e cheio de onda. Provocava.

Eram poucas as pessoas que ele admirava trocando ideias. 

Esse Zé levava porrada de tudo quanto era artista da música popular. 

Uma vez eu disse pra ele, Zé, que na nossa música popular há e sempre haverá grandes e anônimos artistas perdidos nas esquinas da vida. 

E aí eu disse que gostava muito de um cabra chamado Nelson Cavaquinho.

Foi de repente, que vi pela primeira vez uma pessoa arregalando os olhos pra mim. Surpresa. 

Pois é, essa surpresa era Zé: José Ramos Tinhorão. 

Tinhorão era um cara completamente apaixonado por Nelson Cavaquinho. 

Eu disse com-ple-ta-men-te...

Por que estou falando disso agora?

É que Magrão, um queridíssimo amigo telefonou perguntando se eu gostava do Nelson Cavaquinho. 

Pois é, eu conheci de perto Nelson Cavaquinho. Bebemos juntos um conhaquinho e um uisquinho. De lado, ao nosso lado, meu querido Fernando Coelho. 

O resto é história. 

Nelson nasceu no dia 29 de outubro de 1911.

Um dos grandes amigos do Nelson foi Cartola, que nasceu no dia 11 de outubro de 1908.

Em 1908 partiu para a eternidade o grande Machado de Assis. 

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

ESSE 22 DE AGOSTO É HISTÓRICO!


O dia 22 de agosto é um dia muito importante na minha vida. 
Esse dia é importante por muitas razões. A primeira delas diz respeito a minha chegada em Sampa.
Hoje faz exatamente 48 anos que pisei o solo paulistano, vindo diretamente da capital paraibana.
Vim a passeio, depois de receber alta de um hospital em João Pessoa. Na ocasião eu estava aparentemente livre dos bacilos de Koch.
Depois disso devo lembrar que o dia 22 de agosto foi o dia, em 1942, que o Brasil declarou guerra contra a Alemanha nazista e contra a Itália fascista, cuja pronúncia é "fachista".
O Brasil declarou guerra depois de ter cinco navios mercantes afundados por forças submarinas alemãs. Foi aí que o governo Vargas tomou providências mandando pracinha botar pra quebrar na terra de Caruso. 
O dia 22 de agosto foi também, pra mim, dia importante porque foi o dia que a história registrou a morte do ex-presidente JK.
JK morreu carbonizado após seu carro perder a direção e chocar-se frontalmente contra uma carreta carregada de gesso. Foi na Dutra, Km 165. Eu vi o estrago resultante desse choque, pois estava eu no ônibus que me trouxe à capital paulista.
Notícia leve: o dia 22 de agosto marca o Dia Internacional do Folclore. 
Eu já falei muito sobre folclore cá nesse Blog e em livros. 
No dia 22 de agosto de 1998, por iniciativa da Câmara Municipal de São Paulo, fui agraciado com o título de Cidadão Paulistano. O meu já encantado amigo José Ramos Tinhorão estava lá formando à mesa de ilustres convidados no nobre salão da Câmara.  Falou de improviso enaltecendo valores que duvido ter até hoje. Isso tudo dito após a apresentação da Banda da Polícia Militar, tocando o Hino Nacional. 
Nesses anos todos de vida (nasci em 52) poderia eu dizer que já posso morrer em paz, certo? Errado!
Se depender de mim jamais morrerei até porque julgo ter ainda muito o que dizer. E se não bastasse, ainda tenho uma bela flor para cuidar... No meu jardim, esse flor recebeu o nome de Maria.
Bom, à Sampa eu cheguei para ficar. 

segunda-feira, 15 de julho de 2024

A CULTURA POPULAR PERDE SÉRGIO CABRAL

Clique para ler a reportagem de Tinhorão e Sérgio Cabral

O mundo cultural está de luto: morreu Sérgio Cabral.
O jornalista e estudioso da cultura popular do Rio de Janeiro Sérgio Cabral morreu ontem, aos 87 anos.
Sérgio iniciou a carreira de jornalista no Diário da Noite, quando tinha 20 anos de idade. Trabalhou no JB e noutros jornais. Deixou muitos livros publicados sobre o samba carioca. Além disso, escreveu biografias de Tom Jobim, Pixinguinha, Nara Leão e Eliseth Cardoso, a Divina. 
No começo dos anos de 1960, Sérgio Cabral se achava trabalhando no Jornal do Brasil. Nesse jornal ele chegou a assinar uma coluna com José Ramos Tinhorão (1928-2021) intitulada Primeiras Lições de Samba (acima).
O jornalista estava internado num hospital do Rio há três meses. Sofria de Alzheimer.
Em fevereiro de 1997, Sérgio foi o convidado do programa Roda Viva da TV Cultura. Foi falar da sua tragetoria profissional. Naquele ano estava lançando o livro As Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Para entrevistá-lo na Roda estavam Paulo Vanzolini, Leci Brandão, Rosângela Petta, Nenê da Vila Matilde, Sérgio Roveri, João Máximo e eu. Confira abaixo:



quinta-feira, 11 de julho de 2024

A CEGUEIRA NÃO É O FIM

Conheci no correr da vida muita gente bonita. E feia também. Porém entre feias e bonitas, creio que destaque maior fica para as bonitas. Inda bem, né?
Na infância conheci bons professores e professoras e gente mais da lida cotidiana.
Conheci gente de todo tipo, enquanto ganhava forma e mais vontade de viver. 
Aprendi muita coisa com pessoas de profissões diversas portadoras de saber. 
Entre a gente que conheci se acham cordelistas e cantadores de viola. 
No mundo da sabedoria se acham pessoas fisicamente tortas e desprovidas de visão via olhos.
Quem já não ouviu falar da obra do grande gênio mineiro Aleijadinho?
Quem já também não ouviu falar do cego Homero dos tempos gregos, autor de Ilíada e Odisséia. 
E Camões, hein?
Camões perdeu um dos olhos e continuou a ver as coisas da vida...
O argentino Jorge Luis Borges, escritor de grande categoria, seguiu fazendo história depois de pelos olhos nada mais ver.
Mais pra cá surgiram cegos Aderaldo, Sinfrônio...
Não conheci pessoalmente nenhuma dessas pessoas, mas conheci Patativa do Assaré, José Ramos Tinhorão, Paulo Vanzolini, Luiz Gonzaga. 
O poeta Patativa perdeu os olhos nos seus tempos de infância no Assaré, CE.
O jornalista Tinhorão, estudioso da nossa música, deixou que lhe escapasse a visão de um olho. 
Quando eu próprio estava para perder os olhos, o cientista e compositor bissexto da boa música pediu que eu o olhasse bem nos olhos. E perguntou: "Está vendo aqui, no olho esquerdo, por ele já não vejo nada". 
O sanfoneiro Luiz Gonzaga, Rei do Baião, perdeu o olho direito num acidente de automóvel. 
Nunca, em nenhum momento, ouvi dessas pessoas qualquer lamentação referente à visão parcial ou total perdida. Ao contrário, até brincavam.
Pouco tempo antes de elevar-se às nuvens, em tom de galhofa, disse-me Tinhorão: "Estou ficando que nem você. Daqui a pouco vamos estar dois ceguinhos andando tontos pelas ruas".
E Lampião, hein?



domingo, 9 de junho de 2024

FOI UMA FESTA, PÁ!

Ricardo Kotscho e Assis
Nos últimos anos, o Brasil e brasileiros têm comido o pão do diabo.
Quando digo brasileiros quero dizer brasileiros de bom juízo, de bom senso.
Quando digo brasileiros quero dizer de brasileiros e brasileiras que vislumbram na boa luta um país melhor para todos.
A discordância entre nós brasileiros é lamentável.
Será que somos meros vira-latas que ladram e brigam à toa sem entender e sem aprender nada?
Fico matutando tudo isso cá com meus botões...
Gostei de estar na noite de sexta 7 última batendo palmas pra meu querido amigo e colega de profissão Ricardo Kotscho, que recebia como prêmio o troféu Audálio Dantas de Jornalismo. Foi no Salão Nobre da Câmara Municipal de São Paulo, onde em agosto de 1998 os vereadores desta fantástica cidade me agraciaram com o título de Cidadão Paulistano. Mas essa é outra história.
Assis Angelo e amiga Denise
No Salão Nobre da Câmara estiveram cerca de duas centenas de coleguinhas. Houve pequenos discursos e tudo mais. Lá estavam Vanira e Mariana, viúva e filha de Audálio. Mais: os vereadores Eliseu Gabriel (PSB) e Luna Zarattini (PT); Juca Kfouri, Jorge Araújo, Dácio Nitrini, Serjão (Sérgio Gomes), Valmir Salaro, Denise, Markun...
Luna Zarattini foi a única petista a comparecer ao evento.
Paulo Markun tem importância fundamental na história do jornalismo de São Paulo. Entre tantas funções e cargos ocupados no correr da vida, Markun chegou à  presidência da Fundação Padre Anchieta à qual está ligada a TV Cultura (Canal 2).
A última vez que Markun e eu nos encontramos faz uns seis anos. Foi no Museu da Imagem e do Som, MIS. Na ocasião estava sendo lançada a série O Brasil Toca Choro, de que participei. 
Hoje Markun mora em Portugal. Figura e tanto!
Bom, cheguei à Câmara pelas mãos do amigo Magrão, que lá me deixou e seguiu pra compromisso em Pinheiros, zona oeste da Capital.
Na Câmara fui abraçado por muita gente bonita e lá mesmo fiz um novo amigo de infância: Júnior do Peruche, que disse estar escrevendo um livro sobre samba. Contei-lhe que fui amigo de Geraldo Filme e que tenho comigo ainda uma boa reportagem que escrevi sobre ele, publicada no extinto tabloide D.O. Leitura. Matéria Grande de duas páginas. A capa da publicação foi feita para ilustrar belo texto sobre o samba paulista assinado pelo craque José Ramos Tinhorão (1928-2021).

Denise, Assis Angelo, Paulo Markun; Ricardo Kotscho, Assis e Jr do Peruche

Fazia tempo que Kotscho e eu não nos encontrávamos. E não custa dizer e repetir à exaustão: Kotscho é um jornalista que honra a profissão.
Foi uma noite bonita.
É isso!
Ah! Ia me esquecendo: voltei pra casa pelas mãos de Júnior do Peruche, que imita a voz do amigo Oswaldinho da Cuíca como ninguém.

sexta-feira, 7 de junho de 2024

KOTSCHO RECEBE PRÊMIO AUDÁLIO DANTAS


Logo mais às 19h30, no Salão Nobre da Câmara Municipal de São Paulo, será entregue o Troféu Audálio Dantas de Jornalismo a Ricardo Kotscho.
Kotscho, como Audálio, destacou-se brilhantemente na profissão de jornalista desde a Capital paulista. Está de "molho", aposentado.
A ideia de se criar esse troféu para homenagear grandes profissionais do Jornalismo surgiu em 2016. O titulo original foi Indignação, Coragem e Esperança, entregue uma única vez ao próprio Audálio, em 2017.
Audálio Dantas nasceu em Alagoas e encantou-se no dia 30 de maio de 2018, em São Paulo. Trabalhamos juntos. Frequentou a minha casa e eu, a dele.
Não me recordo bem quando fui convidado pra gravar um "piloto" de um programa que eu deveria apresentar na Rádio Globo. Convidei Audálio, os repentistas Sebastião Marinho e Luzivan Ferreira e a rainha do forró Anastácia (foto acima).
O pretendido programa na Globo "miou", depois que tive a desdita de deixar de continuar vendo a vida em cores através dos meus olhos.
"Meu Jesus amado! Assis, tudo isso pra dizer que você ficou cego?", cutuca-me com um sorriso sarcástico a querida Anninha da Hora que tanto bem me faz ouvindo as minhas lorotas e digitando-as para o deleite de quem me lê aqui e alhures. 
Houve um tempo em que eu reunia, sempre às terças-feiras na minha casa, amigos como Audálio, Vandré, Célia/Celma, Tinhorão, Fausto (ilustração aí em riba), Téo Azevedo, Theo de Barros, Roniwalter Jatobá, José Cortez (Cortez Editora), Belchior, Jorge Melo, Inezita Barroso, José Hamilton Ribeiro (aí na foto com Kotscho e eu). Aí abaixo, pequeno registro de um desses encontros que eu costumava fazer cá em casa, quase sempre uma feijoada, uma carne de sol com macaxeira, rabada (vocês precisavam ver Tinhorão deglutindo uma excepcional rabada com Vandré, feita pela mineira Ivone...).
O derradeiro livro de Audálio foi As Duas Guerras de Vlado Herzog, 2012, contando a história desse jornalista assassinado pelas forças da repressão em 1975, em São Paulo. 
Estarei lá batendo palmas para o querido amigo Kotscho.



Audálio Ferreira Dantas
Jornalista, cidadão
Lutador de boas lutas
Na cidade e no sertão
Nascido em Tanque D'Arca
Pra orgulho desse chão 

Da safra de vinte e nove
Desbravou sertão e mar
Mostrando como se faz
Dos perigos escapar
Audálio sabe bem
O bem que nos faz ensinar

domingo, 12 de maio de 2024

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (97)

Histórias loucas de paixão ocorrem desde os primeiros tempos em que os primeiros humanos ganharam forma. Em todas as línguas.

No Brasil também há histórias incríveis envolvendo homens, mulheres e todos os sexos.

Dom João VI foi quem foi, com amantes.

O filho de Dom João, Pedro I, foi além do pai, sexualmente falando. Casou-se e teve sei lá quantas amantes!

Historiadores dão conta de que Pedro I sofria de priapismo, coitado! Terrível.

O priapismo e a safadeza que herdou do pai o levaram a pular cerca igual um bode. Dizem seus biógrafos que pôs no mundo 50 rebentos no mínimo.

O filho do primeiro Pedro, o Segundo, também não se satisfazia com uma mulher só. Sua mulher, Teresa, foi  arranjada por correspondência e quando a viu, desesperou-se.

Teresa Cristina de Bourbon-Duas Sicílias não era plasticamente uma mulher bonita. Ele esperneou quando a puseram no colo, dizendo que fora traído.

E a história segue por aí.

Mas voltemos a Dumas.

Machado de Assis escreveu texto crítico sobre a bela história de Dumas publicado na revista O Espelho, RJ, edição de 8 de janeiro de 1860:


A Dama das Camélias é o drama realmente filosófico, verdadeiramente piedoso; resolve uma questão social, ao mesmo passo que se revela uma magnífica obra d'arte. É tocante aquela figura de Margarida, purificada como Eva, pelo arrependimento, cheia de amor e de piedade, martirizada pela doença, prostrada aos pés da sociedade, como Madalena aos pés do Cristo, mas que a sociedade repele e condena.


Não custa lembrar que o pai de Alexandre Dumas foi também um grande escritor, autor dos clássicos juvenis Os Três Mosqueteiros e o Conde de Monte Cristo.

Também é bom que se lembre que foi Alexandre pai quem inaugurou o dito romance de folhetim no Brasil, em 1838, sob o título Capitão Paulo. Mas há controvérsias.

O jornalista e historiador José Ramos Tinhorão, no seu livro Os Romances em Folhetins no Brasil, à pág. 36, diz que antes de 1838, em Recife, PE, já se publicava esse gênero literário: “...começaria a ser publicado a 29 de junho de 1837 o periódico Relator de Novelas, publicação de pequeno formato destinada ‘ao entretenimento de todas aquelas pessoas apaixonadas por ler novelas, com especialidade o belo sexo, de quem espera toda a proteção’”.

Os textos publicados nesse periódico não traziam identificação de autor.


Foto e reproduções de Flor Maria e Anna da Hora

domingo, 28 de abril de 2024

SEM EDUCAÇÃO NÃO HÁ CIVILIDADE

 As datas comemorativas constantes no calendário de qualquer país para lembrar ao cidadão, fale ele que língua fale, que há história. 

História é história. 

Um país faz história, com guerras e mortes.

As datas começam em quaisquer calendário já no dia 1° de janeiro. 

O 1° de janeiro é o dia mundial da Paz.

Em fevereiro, no Brasil, quase sempre é Carnaval. 

Mais importante do que o Carnaval em fevereiro é o dia do nascimento do historiador santista José Ramos Tinhorão. É dele o dia 7 desse mês. O 12 seguinte é o dia de nascimento do cuiqueiro paulistano Osvaldinho.

Março 8 é o Dia da Mulher.

Como se não bastasse, o mês de março nos traz a triste lembrança da escuridão total provocada pelos militares a partir desse mês em 64.

Maio marca o Dia do Trabalhador e da Abolição.

Triste, muito triste, o longo tempo que durou a submissão forçada dos negros trazidos de África pata o Brasil.

Junho é o mês dos três mais famosos santos do calendário católico: Antonio, João e Pedro. De tabela, Paulo.

Julho é importantíssimo por ser o mês do nascimento de Clarissa.

Agosto nos traz a lembrança da importância da cultura popular. 

Setembro é importante por ser o mês da Primavera. 

E outubro, hein?

Esse belo mês de vento livre, leve e solto nos leva à reflexão da importância das crianças na formação do mundo. 

Ah! Nesse mesmo mês de outubro os católicos brasileiros param para pensar e rezar em memória da santa Aparecida. 

Depois de Aparecida em outubro, logo em seguida vem o Dia do Professor: 15. 

Foi em novembro de 1889 que os militares puseram no poder o marechal Deodoro. Com isso, caiu o Império e no seu lugar ganhou forma a República. 

Dezembro, finalmente, nos traz a lembrança do nascimento do Rei do Baião. 

"Você não falou do mês de abril", observa Flor Maria.

Concordo e adianto: o mês de abril nos lembra o dia dos povos indígenas (19), o dia da chegada do navegador português Cabral na Bahia (22) e o Dia da Educação (28).

O dia 28 de abril é o dia nacional e mundial da educação. 

A educação no Brasil e no mundo engatinha com dificuldade. 

O que será do Brasil e do mundo sem educação?

Sem educação não há compreensão, nem respeito entre as pessoas. 


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

O CARNAVAL DE 24 ESTÁ CHEGANDO...

Assis e Tinhorão
O Carnaval no Brasil começou ali pelo século 16. Foi trazido pelos colonizadores portugueses.
A primeira manifestação carnavalesca no nosso País foi o Entrudo, que tinha por base emporcalhar os "foliões".
Mas o Carnaval data de tempos imemoriais. Vem da Roma antiga, da velha Grécia, por aí.
Era pagã a festa denominada Carnaval.
Confete, serpentina, essas coisas vieram da França.
A figura do personagem mascarado tem origem no Carnaval italiano. De Veneza, notadamente.
A música pra Carnaval principiou do batuque africano e ganhou forma com a compositora e maestrina Chiquinha Gonzaga pondo letra na primeira marchinha: Ó Abre Alas.
Antes do surgimento das escolas de samba, surgiram cordões e tal.
A primeira escola de samba foi criada no Rio de Janeiro, em 1928, e chamou-se Deixa Falar.
Os sambas de enredo ganham forma no começo da segunda parte dos anos de 1950.
O jornalista Sérgio Cabral escreveu sobre esse assunto. E Tinhorão, também.
O jornalista e historiador paulista José Ramos Tinhorão (1928-2021) praticamente esgotou o assunto Carnaval nas suas minuciosas e ricas pesquisas. Aliás, se ainda estivesse entre nós, estaria fazendo aniversário. Ele nasceu num dia como hoje: 7 de fevereiro.
Ouça a marchinha Ó Abre Alas com Dircinha e Linda Baptista:



terça-feira, 30 de janeiro de 2024

QUEM NÃO TEM SAUDADE HEIN?

Saudade é uma palavra de sete letras, de origem latina.
Filólogos e poliglotas daqui e d'além mar dizem que tal palavra só existe na língua nossa do dia a dia: a portuguesa.
Quem é que nunca sentiu saudade? 
Saudade tem a ver com alegria e tristeza, com momentos bons que vivemos num tempo qualquer da nossa vida.
Eu já senti e continuo sentindo saudade.
Pessoas queridas como Paulo Vanzoline, Inezita Barroso, Papete, Belchior, Taiguara, Sergio Ricardo, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Carmélia Alves, Theo de Barros, Zé Keti, Paulinho Nogueira, Zika Bergami, Nelson Gonçalves, Silvio Caldas, Rolando Boldrin, Audálio Dantas, Tinhorão, Eleazar de Carvalho, Otacílio Batista, Patativa do Assaré, Ionaldo Cavalcanti e Elifas Andreato e tantos e tantos outros artistas que encantaram esta cidade de São Paulo e o Brasil de modo geral.
Eu conheci um cara chamado João de Barro, o Braguinha, compositor de primeira linha. Partiu na casa dos 100 anos.
Barro nos legou grandes composições musicais, como A Saudade Mata a Gente. Eu o conheci. Era uma figurinha e tanto! 
Dói, saudade dói.
Quem parte para o andar de cima, não volta mais.
No livro Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles que acabo de ouvir tem uma personagem que diz a outra que o corpo por si só se acaba e a alma não, volta.
Esse mesmo pensamento tinha o gênio da matemática Pitágoras, ele achava que a alma é imortal e volta no corpo de um bicho selvagem ou num corpo humano.
Pois é, a filosofia é coisa séria. 
Kardec criou o espiritismo e o Chico Xavier foi instrumento de contato com a alma dos corpos que vão embora.
Ai, ai.

domingo, 19 de novembro de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (53)

Não será ou seria exagero dizer que entre tantos profissionais de áreas diversas se acha o psicanalista alemão Sigmund Freud (1856-1939). Não foi Freud que certa vez disse que "Vivemos sob o princípio do prazer"?
Rétif de La Bretonne foi um cara que despertou antipatia e discussão, amor e raiva. O seu tempo foi o tempo do Iluminismo. Brilhou. Era poeta bissexto, político sem grande expressão, mas tinha lá seus admiradores. Não foi vítima nem algoz da Revolução Francesa. Era, digamos, um defensor dos oprimidos e dos vagabundos de rua. Pelas narrativas, era um devasso. Teve centenas de mulheres e um número expressivo de filhos, embora não se saiba exatamente quantos. Espécie de Casanova?
É possível que Casanova tenha inspirado Kierkegaard a escrever o Diário de um Sedutor, que no rigor do termo é uma bobagem. 
Tinhorão, no seu texto para o Diário Carioca, lamenta que o nome de Bretonne não fosse ainda conhecido no Brasil.
Em 1989, o diplomata e ensaísta carioca Sérgio Paulo Rouanet (1934-2022) publicou pela Companhia das Letras, SP, o livro O Espectador Noturno, com o subtítulo A Revolução Francesa através de Rétif de La Bretonne no qual discorre sobre a vida e obra deste autor. O destaque é para a política, mesmo assim afirma que "Rétif é dominado pelo fantasma da paternidade e, se defende o incesto, é em parte porque ele permite a cada família produzir um número ilimitado de filhos. Nisso ela se distingue do aristocrata Sade, que representa o consumo, e não a produção, que defende o incesto na perspectiva do consumidor - fonte de gozo, e não de filhos - e que de resto advoga a sodomia porque ela constitui um freio para a natalidade".
Para se contrapor ao livro Justine, de Sade,
Bretonne escreveu e publicou o livro Anti-Justine. No seu livro Sade falava de política social, criando uma personagem que perde os pais prematuramente e sofre todas as injustiças possíveis que alguém possa sofrer. Mas ao fim dessa história, o bem vence o mal. Enquanto isso, na vida real, Bretonne soltava o tesão e refestelava-se na cama com quem estivesse mais próximo. Por isso e outras coisas foi que José Ramos Tinhorão encerra seu artigo para o Diário Carioca dizendo que:
"Rétif de La Bretonne precisa ser lido novamente. O precursor do romance realista, que Lavater, o criador da fisiognomonia, chamava de 'Richardson francês' - embora outros preferissem chamá-lo de 'Voltaire das criadas de quarto' - não faria má figura, num tempo onde ainda se vende tanto as Confissões de Rousseau e as Memórias de Casanova".
Na vasta obra de Bretonne destacam-se vários títulos, entre os quais Le Palais-Royal, Le Paysan et La Paysanne Pervertis, As Noites Revolucionárias e Anti-Justine.
A sua biógrafa Elizabeth Lorenzotti, Tinhorão disse alto e bom som: 
"Fui eu quem, muitos anos antes de Sérgio Rouanet, revelou o Rétif de La Bretonne, grande ícone da literatura  libertina francesa, e um cronista da Revolução".
A vida e obra de José Ramos Tinhorão tem conteúdo e são extensas. Atuou em vários
jornais e revistas, ora com contrato fixo ora como freelancer. Como free chegou a publicar na revista Chuvisco e no Jornal dos Sports. 
Em maio de 1965, Tinhorão publicou no Jornal dos Sports o artigo As Dúvidas do Gênesis ou a Gênese da Dúvida. Na página onde aparece esse texto, aparecem também propagandas das extintas boates Pigalle e Moulin Rouge. E mais uma: da rádio Mayrink Veiga anunciando na programação a presença do seu astro rei do baião Luiz Gonzaga. 
E Tinhorão não bastou-se nos jornais e revistas do Rio, também apresentou um programa de entrevistas, Tudo é Música, na TV Brasil.
No cinema, Tinhorão aparece curiosamente como um dos personagens de Nelson Rodrigues. O filme, Asfalto Selvagem, deu o que falar. A respeito da "participação" de Tinhorão, o jornalista Ruy Castro escreveu no livro O Anjo Pornográfico:
"O futuro historiador da música popular, José Ramos Tinhorão, então copy desk do Jornal do Brasil, era mostrado como um jovem sátiro a bordo de um calhambeque e mantendo um caderninho onde anotava os nomes de suas conquistas - a maioria das quais iludia com a promessa de que Accioly Neto mandaria fotografá-las para a capa de O Cruzeiro".
Tinhorão gostou.

Foto e reproduções por Flor Maria e Anna da Hora

domingo, 12 de novembro de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (52)

Diário Carioca
José Ramos Tinhorão era um jornalista dono de uma bagagem intelectual invejável. Era um erudito, podemos dizer. Saia-se bem em espanhol, italiano, inglês e francês, que conseguia falar sem sotaque e escrever sem erros gramaticais. Deixou publicados 29 livros, todos tratando a fundo sobre música popular, o primeiro (Música Popular - Um Tema em Debate) lançado em 1966.
Era propósito de Tinhorão fechar o ciclo de pesquisas que iniciou em fins dos anos de 1940 com um livro sobre licenciosidade ou "putaria", como dizia fazendo graça aos amigos mais próximos. 
Ele achava um barato e como tal respeitava os cordelistas, também chamados de "poetas de bancada". 
De fato, os cordelistas são grosso modo bastante inspirados.
A literatura de cordel é classificada por ciclos temáticos: religião, cangaço, guerra, política, personalidades, esporte, erotismo, feitiçaria, gracejo e tal.
Dentre o material "garimpado" para fechar seu próprio ciclo como pesquisador ou historiador como preferia ser chamado e não como crítico musical, Tinhorão começou a reunir folhetos de cordel e livros nacionais e estrangeiros que tratassem de putaria. Foi assim que caíram em suas mãos Manoel Monteiro, Franklin Maxado, Klévisson Viana, Bastinha Job, Dalinha Catunda e outros.
No folheto de oito páginas Um Jumento e Duas Doidas as autoras, em peleja, se desafiam numa quase agressão. Começa assim:

DALINHA CATUNDA 

Eu sou nordestina
Da cabeça chata
Raiva não me mata
E nem me alucina
Olhando sua crina
Pensei em montar 
Se me derrubar 
Não tem nem talvez
Até lhe amansar


BASTINHA JOB

Também sei montar
Cedinho aprendi
Jamais esqueci
Achei bom trepar
Melhor é gozar
De tanto prazer
Corpo e alma gemer
Sentir alegria
Que até contagia
Quem meu verso ler!...


O paraibano Manoel Monteiro sustentou a família publicando e vendendo folhetos Nordeste afora. Era chegado a gracejos e até explícito nas suas incursões que fazia no campo erótico. Em Mulher Gosta de Ouvir, por exemplo, indicava já na capa ser "impróprio para menores de 90 anos". Veja:

Qual a mulher que não gosta
De ter o homem que ama
Com o corpo nu sobre o seu
No vai e vem duma cama
Ofegante e meio torpo 
Com as mãos a roçar-lhe o corpo 
E a boca a sugar-lhe a mama?...

(CONTINUA…)

Foto e reproduções de Flor Maria e Anna da Hora

sábado, 4 de novembro de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (50)

Como expressão artística, a licenciosidade se acha em tudo quanto é língua no vasto campo da cultura popular e erudita. Seja na música, na dança, na poesia, no romance e em todo canto mais.
A poesia popular é a poesia feita por pessoas não letradas, sem nenhuma ou pouca frequência nos bancos escolares; ao contrário do que podemos classificar de erudito ou erudita.
Olavo Bilac, Manuel Bandeira, Drummond eram eruditos, por exemplo. 
A licenciosidade como tal conhecemos e chamamos se acha nas culturas espontâneas ou fabricadas desde os
tempos de tresontonte, também conhecido como tempo em que galinha tinha dente e voava que nem águia. 
Até hoje o Brasil gerou centenas de ótimos poetas populares como Leandro Gomes de Barros, Zé da Luz, Patativa do Assaré, Manoel Monteiro,  Franklin Maxado, Klévisson Viana, Marco Haurélio.
Populares aí falei de homens, mas não são poucas as mulheres que se aventuram nesse campo. Entre essas Dalinha Catunda (Maria de Lourdes Aragão Catunda), Bastinha Job (Sebastiana Gomes de Almeida Job), Nevinha (Maria das Neves), que entrou para a história da cultura popular ao publicar o primeiro folheto intitulado O Violino do Diabo ou o Preço da Honestidade. Ela usava o pseudônimo do marido. Mas essa é outra história. 
José Ramos Tinhorão era um jornalista dono de uma bagagem intelectual invejável. Era um erudito, podemos dizer. Saia-se bem em espanhol, italiano, inglês e francês, que conseguia falar sem sotaque e escrever sem erros gramaticais. Deixou publicados 29 livros, todos tratando a fundo sobre música popular, o primeiro (Música Popular - Um Tema em Debate) lançado em 1966.
Era propósito de Tinhorão fechar o ciclo de pesquisas que iniciou em fins dos anos de 1940 com um livro sobre licenciosidade ou "putaria", como dizia fazendo graça aos amigos mais próximos. 
Ele achava um barato e como tal respeitava os cordelistas, também chamados de "poetas de bancada". 
De fato, os cordelistas são grosso modo bastante inspirados.
A literatura de cordel é classificada por ciclos temáticos: religião, cangaço, guerra, política,
personalidades, esporte, erotismo, feitiçaria, gracejo e tal.
Dentre o material "garimpado" para fechar seu próprio ciclo como pesquisador ou historiador como preferia ser chamado e não como crítico musical, Tinhorão começou a reunir folhetos de cordel e livros nacionais e estrangeiros que tratassem de putaria. Foi assim que caíram em suas mãos Manoel Monteiro, Franklin Maxado, Klévisson Viana, Bastinha Job, Dalinha Catunda e outros.
No folheto de oito páginas Um Jumento e Duas Doidas as autoras, em peleja, se desafiam numa quase agressão. Começa assim:

DALINHA CATUNDA 

Eu sou nordestina
Da cabeça chata
Raiva não me mata
E nem me alucina
Olhando sua crina
Pensei em montar 
Se me derrubar 
Não tem nem talvez
Até lhe amansar


BASTINHA JOB

Também sei montar
Cedinho aprendi
Jamais esqueci
Achei bom trepar
Melhor é gozar
De tanto prazer
Corpo e alma gemer
Sentir alegria
Que até contagia
Quem meu verso ler!...


O paraibano Manoel Monteiro sustentou a família publicando e vendendo folhetos Nordeste afora. Era chegado a gracejos e até explícito nas suas incursões que fazia no campo erótico. Em Mulher Gosta de Ouvir, por exemplo, indicava já na capa ser "impróprio para menores de 90 anos". Veja:

Qual a mulher que não gosta
De ter o homem que ama
Com o corpo nu sobre o seu
No vai e vem duma cama
Ofegante e meio torpo 
Com as mãos a roçar-lhe o corpo 
E a boca a sugar-lhe a mama?...


(CONTINUA…)

Foto e reproduções de Flor Maria e Anna da Hora

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

REGINÓPOLIS EM BOAS MÃOS

Seja qual for a sua área de atuação, o artista pertence a uma categoria de pessoas sempre inspiradas e prontas, naturalmente, a inspirar outras pessoas.
Cantor, compositor, bailarino, ator, cineasta e até assoprador de apito, me entusiasmam.
E o que dizer de desenhista, pintor, escultor e cartunista?
O cartunista Fausto Bergocce é um dos mais sensíveis e criativos artistas do traço que conheço. 
Fausto está sempre com uma ideia nova nos fazendo pensar e rir.
Ele leva tudo ou quase tudo na brincadeira, mas sempre com olhar arguto, crítico. "Estou deixando um pouco de lado o cartum. Não é por nada, não. É que estou chegando neste mês de novembro aos 71 anos de idade. Quero relaxar mais", ele diz.
Fausto e eu acabamos de levar à praça o livro Histórias de Esquina. O prefácio é assinado pelo craque da batuta Julio Medaglia.
E como quem não quer nada, rindo, Fausto conta que acaba de gerar mais uma exposição com suas ideias e quer espaço para mostrá-la.. Trata-se de Reginópolis em Boas Mãos.
Já pelo título, posso afirmar que essa exposição dará muito o que falar. Não à toa, os 41 personagens nela enfocados são parte da nossa história recente. São eles: Rivelino, Oswaldo Mendes, Inácio de Loyola Brandão, Maurício de Souza, Júlio Medaglia, Paulo Carneiro, Lázaro Ramos, Vitor Nuzzi, José Augusto Lisboa, Assis Ângelo, Rubens Chiri, Alexandre de Paula e Caio Miranda, Trio Gato com Fome, Custodio Rosa, Santiago, Zélio Alves Pinto, Ridaut Dias Jr, Eulália Pinheiro, Odair Batista, Jose Ramos Tinhorão, Nani, José Maria Mayrink, Antonio Moura Reis, Hermano Henning, Oswaldinho da Cuíca, Xavier de Lima, Jorge Nagao, Carlos Alberto Barbosa, Dilené Barreto, Cris Tomaz, Anastácia, Fátima de Morais, Célia e Celma, Kydelmir Dantas, Ziraldo, Henrique Perazzi de Aquino, Edson Mauro, Levi Ramiro, Paulo Vitale, Valdek de Garanhuns, Fausto Bergocce, Solenne Deringound, Rômulo Nóbrega.
Todo o conteúdo da exposição Reginópolis em Boas Mãos, integrará o acervo Escola Municipal Regina Olinda Martins Ferro. "Nessa escola eu estudei e fiz boas amizades no meu tempo, digamos, de juventude. O mínimo que posso fazer é deixar essa exposição para que os novos alunos conheçam um pouquinho de São Paulo e do Brasil através dos seus personagens", finaliza Fausto.
Cá pra nós, essa exposição tem tudo para circular Brasil afora. É isso aí!
O município paulista de Reginópolis fica a cerca de 400km da Capital paulista.











domingo, 22 de outubro de 2023

VIVA O CHORO E OS CHORÕES!

Callado e Patápio 
Mais o craque Pixinguinha 
Ao Choro deram formas
Diferentes da modinha

Quem sabe tocar choro
É chamado de "chorão"
O Choro vem da flauta 
Do cavaco e violão 

Quem não sabe tocar choro
Se quiser pode aprender
Impossível isso não é 
Para tanto é só querer 

O caso é que o choro
É bonito e delicado
Foi feito por Patápio 
Pixinguinha e Callado!

Foi o tempo em que as mídias, como rádio e jornal, tinham interesse de divulgar tudo o que ocorria no campo das artes.
Esse interesse acabou.
O rádio hoje divulga basicamente tudo o que não presta. O mesmo faz o jornal, sem falar em revista e TV.
Quando completou 90 anos de idade, o jornalista e historiador José Ramos Tinhorão declarou em entrevista a Wilson Baroncelli que a MPB já não existia e por isso considerava concluída a sua bibliografia de temática musical. 
A MPB, na visão de Tinhorão, foi-se acabando aos poucos.
Ligo o rádio e a TV e não escuto lhufas com cheiro de qualidade musical.
É uma droga o que se ouve ora no rádio. Só bobagens a ferir ouvidos e sensibilidades. A programação da USP e da Cultura ainda respeita o ouvinte, tanto da área popular quanto da área erudita.
O Choro como ritmo e gênero caiu na vala comum dos mortos. Pena. 
Aqui não custa lembrar da importância de Joaquim da Silva Callado, Patápio Silva e Pixinguinha. 
Patápio nasceu no dia 22 de outubro de 1880 e morreu 26 anos depois. Deixou uma obra pequena em quantidade e enorme em qualidade. Com sua flauta ele ia do popular ao erudito. Os discos que gravou saíram pela pioneira Casa Edison, do Rio.
O ano do nascimento de Patápio foi o mesmo da morte de Callado, que nasceu em 1848. 
Callado, que era funcionário público no Império, foi o cara que juntou amigos para cantar e tocar. Os instrumentos do grupo eram flauta, cavaquinho e violão. Foi daí que nasceu o embrião do Choro.
Na primeira década do século 20, Pattápio achou o ponto e começou a gravar Choro. 
Em 1898, nascia Alfredo Vianna Filho que entraria para a história com o pseudônimo de Pixinguinha. 
Pixinguinha foi o cara que deu o acabamento necessário ao choro.
Um clássico de Callado é Flor Amorosa. 
Um clássico de Patápio é Primeiro Amor. 
Um clássico de Pixinguinha é Carinhoso. 
Fica o registro.
 

domingo, 15 de outubro de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (47)

Tinhorão não cita, mas é do século 18 uma das raríssimas reedições do livro Sonetos Luxuriosos do italiano Pietro Aretino. Era bocudo, obsceno até a medula. Por esse caminho foi muito mais longe do
que o nosso baiano Gregório de Matos e Guerra. Para lembrá-lo, não custa:
Diverti-me ... escrevendo os sonetos que podeis ver ... sob cada pintura. A indecente memória deles, eu a dedico a todos os hipócritas, pois não tenho mais paciência para as suas mesquinhas censuras, para o seu sujo costume de dizer aos olhos que não podem ver o que mais os deleita.
O livro Sonetos Luxuriosos, traduzido para o português pelo poeta paulista de Taquaritinga José Paulo Paes (1926-1998), é um bom começo para um mergulho no pensamento e obra do debochado e desbocado italiano Pietro Aretino (1492-1556).
José Ramos Tinhorão dedicou-se abertamente à pesquisas sobre as origens da música popular brasileira, mas isso não o impediu de cavucar outros temas. Escreveu e publicou 29 livros. O 30° livro poderia ter sido sobre encontros e desencontros provocados pelos impulsos sexuais. Gostava disso e se interessava por tudo que tivesse no meio um quê de sacanagem.
Eu achava graça quando Tinhorão usava termos como putaria, safadeza, libertinagem e hipocrisia. "Somos hipócritas! Qual é o homem que não deseja levar para a cama uma mulher bonita e sensual?"
Mais de uma vez lembrei que a licenciosidade se acha em todo canto, até na literatura de cordel e nos quadrinhos. E conversa vai conversa vem, apresentei-lhe um amigo que poderia contribuir nessa questão. Esse amigo, Rômulo Nóbrega, passou a mandar-lhe folhetos de sacanagem. "O Tinhorão foi um cara surpreendente", diz Rômulo.
O encontro de Tinhorão com Rômulo aconteceu na tarde de agosto de 2017, na capital Paulista. Desse encontro participou também o cartunista Fausto. Houve um momento que Fausto sacou seu celular e mostrou um monte de fotos e vídeos eróticos. Tinhorão: "Qual é o homem que não gosta disso?".

Sempre alçando voos mais altos, me incumbiu de garimpar cordéis que abordassem o tema da  sacanagem, da putaria, em alto estilo, e assim caí em campo nas cidades fontes dessa literatura nos estados do Nordeste.
Conheci Tinhorão num prazeroso encontro na casa do jornalista Assis Ângelo em São Paulo, quando fui presenteado com um de seus livros, ao mesmo tempo em que recebi comentários sobre a edição da  biografia do compositor Rosil Cavalcanti feita por mim. O tema já vinha sendo abordado há anos por Tinhorão de forma suave, quando publicamente era quase que proibido se falar em putaria, em sacanagem, em sexo explícito, a menos nos famosos “catecismos” elaborados por Carlos Zéfiro −  pseudônimo, mais tarde descoberto, de Alcides Caminha −, vendidos a sete chaves.
Tinhorão, especialista em análise musical, daria um verdadeiro furo com o tema em pauta, o que não era estranho nem novidade para um jornalista do seu quilate.
- Rômulo Nóbrega
Em algumas entrevistas que deu ao completar 90 anos, José Ramos Tinhorão chegou a dizer que desejava encerrar sua bibliografia com um livro que tratasse do interesse de todos pelo sexo.
À pergunta sobre quantos livros tinha publicado e se havia algum em andamento, Tinhorão respondeu a Wilson Baroncelli, editor do newsletter Jornalistas&Cia:

"Não sei de cabeça, acho que uns 30. O mais recente foi um ensaio biográfico sobre Ismael Silva. Não sei se vou escrever mais algum. Estou em fim de vida (risos). Se fizer não será sobre MPB, pois esta não existe mais. Tenho pesquisado, juntado material sobre literatura erótica, livros proibidos. Quem sabe?".
Leia a entrevista completa de Tinhorão a Baroncelli: Os 90 anos de José Ramos Tinhorão
Leia na íntegra o texto Galanteria, originalmente publicado na extinta revista Senhor e anos depois, inserida no livro Crítica Cheia de Graça:
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O século XVIII, na França, foi um século de galanteria iluminado pelas luzes da razão filosófica.
Como os grandes pensadores haviam chegado à conclusão de que à filosofia cabia a tarefa de indicar o caminho da felicidade para o homem, os amantes depreenderam que ao amor cabia indicar, logicamente, o caminho do prazer. E foi assim que, numa síntese perfeita, metade do pensamento e da literatura francesas de 1700 à Grande Revolução surgiu dentre lençóis, não sendo por acaso que o médico e filósofo La Mettrie (1709-1751) publicaria em 1751 o seu conhecido livro L’Art de Jouir (A Arte de Gozar).
Certos termos julgados até então antiéticos se conciliariam a tal ponto, aliás, que Rétif de la Bretonne — o precursor de Nabokov — poderia escrever um dia, estendendo as conclusões da filosofia ao campo da moral, que "o prazer era a virtude sob um nome mais alegre".
Não era sem razão, também, que antes de serem denominados filósofos, os maiores pensadores do início
Marquês de Sade
do século, como Saint-Évremmond (1613-1703), haviam sido chamados de libertinos.
O Dr. Eugênio Duehren, escrevendo sobre o Marquês de Sade um livro feito expressamente para intrigar a França com o resto do mundo, declarou que o século XVIII francês foi "o século da concupiscência erigida em sistema".
No que se refere aos representantes da nobreza decadente que se reuniam nos célebres salões dos Deffand, Necker, Lespinasse, Geofrin ou Grandval, pelo menos, a afirmação não deixa de ser verdadeira.
Mme. d'Epinay conta no primeiro volume das suas "Memórias" que era muito comum nas tertúlias dos Duclos ou Saint-Lambert a conversa recair sobre assuntos como a virtude ou o pudor. Era quando se travavam diálogos animados, como este que ela descreve citando as falas entre aspas — embora omitindo os nomes das personagens — e em que uma senhora diz, entre risadas:
— "Veja, marquês: o meu pudor é como o meu vestido; só o prendo em mim por alfinetes que, ao menor esforço..." E, unindo o gesto à palavra - é Mme. d'Epinay quem conclui - abre suavemente as sedas que lhe encobrem o seio, numa gentil demonstração do seu argumento".
Não havia nessas cenas a mínima intenção de escândalo: em Paris, sob a aparência fácil da libertinagem, fazia-se então o amor para provar princípios filosóficos.

Foto e ilustrações por Flor Maria e Anna da Hora.

sábado, 14 de outubro de 2023

O PAPO É BOM: FORRÓ PRA TODO LADO!

Você sabe de onde vem o forró?
Se eu disser que o forró vem das quebradas do Sertão é certo que não estarei dizendo tudo. Mas se eu disser que o forró como ritmo e gênero musical vem da sensibilidade dos pernambucanos Luiz Gonzaga e José Dantas, aí sim, estarei mais do que nunca dizendo coisa com coisa.
E se eu lhe perguntar, meu amigo, minha amiga, qual a origem da expressão forró, o que você responderia? É certo que não tem nada a ver com "for all"...
Luiz Gonzaga é o artista mais biografado na história da nossa música popular. Em 1950 ele levou à praça, pela extinta RCA Victor, a música Forró de Mané Vito. Depois disso, especialmente a partir do anos 60, vários livros estamparam na capa a palavra forró. Nessa linha, há muitas curiosidades.
Em 1964 o jornalista Antonio Callado (1917-1997) publicou o texto pra teatro intitulado Forró no Engenho Cananéia, que trata da vida nordestina e dos trabalhadores notadamente. Até então os trabalhadores tinham pouca ou nenhuma segurança no trabalho que faziam. No livro de Callado tem na trilha um belo balanço musical.
Ah! Sim, somente em 1963, há 60 anos portanto, os trabalhadores do campo conquistaram oficialmente o seu Estatuto.
Em 2013, o jornalista paraibano Ricardo Anísio fez polêmica com o livro Forró de Cabo a Rabo (acima). À propósito, Forró de Cabo a Rabo é título também de um LP do Rei do Baião.


Vocês já ouviram falar de Chiquinha Gonzaga e dos craques do teatro de revista Carlos Bittencourt e Luiz Peixoto?
Vocês já ouviram falar do filólogo Cândido de Figueiredo?
Bom, questões como estas serão por mim abordadas no correr da prosa que farei logo mais às 13h na sede paulistana do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, IPHAN, ali na Av. Angélia,  626.
Encarque nos links aí abaixo e saiba algo mais sobre o forró. É coisa boa!
Pra embalar os links, dois forrozinhos que fiz com Jorge Ribbas: FORRÓ PRA ANASTÁCIA • FORRÓ NA LUA
E por falar em Lua, logo mais às 15h quem quiser pode ver o eclipse solar total.


ASSIS ANGELO FALA DE FORRÓ COM CACÁ LOPES • PALESTRA VIDA E OBRA DE LUIZ GONZAGA • PROGRAMA SOU FORRÓ

domingo, 8 de outubro de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (46)

Que mal haverá em contemplar um homem a possuir uma mulher? Serão os mesmos animais mais livres do que nós? Não é mister ocultar órgãos que engendraram tantas criaturas belas. Seria antes mister ocultar nossas mãos, que nos dissipam o dinheiro, fazem juramentos falsos, emprestam a juros usurários, torturam a alma, ferem e matam.
PIETRO ARETINO

O interesse pelas coisas do sexo não é de hoje, nem de ontem.
O interesse pelas coisas do sexo o homem e a mulher carregam consigo desde tempos imemoriais.
O falo sempre despertou a atenção de gregos e troianos e de todos em todo o mundo. Essa parte do homem sempre provocou admiração e prazer. Virou símbolo da fertilidade e como tal adorado e festejado em rituais pagãos na velha Grécia, na velha Roma...
Ao contrário do homem, a mulher sempre andou à sombra do próprio destino. Raramente pôde ou pode expressar seus desejos mais íntimos, como o prazer concebido pelo sexo.
O machismo não é brincadeira, não.
O sexo sempre foi objeto de especulação e também de estudo.
O polêmico Freud dizia que “O desejo sexual é uma força vital que nos impulsiona a buscar conexão e intimidade com os outros”.
O resumo da ópera freudiana é simples: tudo na vida gira em torno de sexo.
Em 1962 o paulista de Santos José Ramos Tinhorão tinha 34 anos. Com essa idade teve suas atenções voltadas ao comportamento do povo. Quis saber a origem do que se cantava e dançava nas ruas e salões, por exemplo. Foi fundo nas pesquisas. Já publicava caprichados textos em jornais e revistas.
A Tinhorão não passava em brancas nuvens o que fazia ou deixava de fazer a nobreza e a plebe de séculos passados.
Num artigo intitulado Galanteria, publicado em setembro de 1962 na extinta revista Senhor, Tinhorão discorre com desembaraço sobre licenciosidade e sexo no século 18. Atém-se à Europa, munido de
dados históricos colhidos em livros que devorou com o prazer de quem ama o que faz. Começa assim:
"O século XVIII, na França, foi um século de galanteria iluminado pelas luzes da razão filosófica".
Ao texto de Tinhorão não nos passa despercebida a forma rápida e direta que o consagraria. Era cáustico e delicado ao mesmo tempo. Adorava garimpar palavras nos dicionários, sem perder de vista a fala viva do povo. Já aqui ele tasca "galanteria" como título que tira do primeiro parágrafo da matéria que escreve. Diz que os galanteios dos varões muito facilmente conquistavam as mulheres.
Galanteios ontem, são lábias hoje.
No 2° capítulo da Primeira parte do clássico romance Madame Bovary, o autor Flaubert usa o narrador da história pra dizer lá pras tantas o seguinte:

... E pôs-se a rebuscar em cima da cama, atrás das portas, debaixo das cadeiras, tinha caído no chão, entre os sacos e a parede. A Menina Emma descobriu-o, curvou-se por cima dos sacos de trigo. Charles, por galanteria, correu e, estendendo também o braço no mesmo movimento, sentiu o peito roçar nas costas da rapariga, curvada debaixo dele. Ela endireitou-se muito corada e olhou-o por cima do ombro, entregando-lhe o chicote.
O referido livro começou a ser escrito em 1851 e cinco anos depois foi publicado em capítulos no periódico Revue de Paris, a partir de 1º de outubro.
No texto Galanteria, Tinhorão prossegue:
"Como os grandes pensadores haviam chegado à conclusão de que à filosofia cabia a tarefa de indicar o caminho da felicidade para o homem, os amantes depreenderam que ao amor cabia indicar, logicamente, o caminho do prazer. E foi assim que, numa síntese perfeita, metade do pensamento e da literatura francesas de 1700 à Revolução surgiu dentre lençóis, não sendo por acaso que o médico e filósofo La Mettrie (1709 - 1751) publicaria em 1751 o seu conhecido livro L'art de Jouir (A arte de gozar)".
Pois bem, no texto para a extinta Senhor Tinhorão continua com o propósito de fazer um retrato da sociedade do século 18 na Europa. Cita filósofos, poetas e pintores. A Paris daquele século é destaque. De um modo ou de outro ele insere em ambientes de putaria personagens como Sade, Casanova, Luís XV. Cita autores como Rétif de la Bretonne e a memorialista Mme. d'Epinay, que a certa altura de suas narrativas destaca a fala de uma mulher:
"...Veja, marquês: o meu pudor é como o meu vestido, só o prendo em mim por alfinetes que, ao menor esforço... E, unindo o gesto à palavra - é Mme. d'Epinay quem conclui - abre suavemente as sedas que lhe encobrem o seio, numa gentil demonstração do seu argumento".
O nome completo de Mme. d’Epinay era Louise Florence Pétronille Tardieu d'Esclavelles d'Épinay (1726-1783), nasceu em Valenciennes e como escritora tornou-se famosa no seu tempo. Entre seus amigos se achavam Diderot, Rousseau e Voltaire.

Foto e ilustrações por Flor Maria e Anna da Hora.

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