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sábado, 4 de dezembro de 2021
MOVIMENTO TENTA APAGAR O NOME DE AUDÁLIO DA HISTÓRIA
sexta-feira, 3 de dezembro de 2021
DEPOIS DIZEM QUE O CEGO SOU EU
quarta-feira, 1 de dezembro de 2021
ROBERTO LUNA 92, VIVA!
domingo, 28 de novembro de 2021
ATENÇÃO! TEM ROMANCISTA POLICIAL NA ÁREA
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Marco Zanfra com sua trilogia em mãos |
Eu acabara de pôr sobre os ombros o blazer e quando já saía, barrou meus passos um cidadão de cara redonda, cabelos em desalinho e barba de dois dias, carente de corte. Exalava um forte odor de álcool. Entre os dedos da mão direita, um cigarro no fim. O desconhecido, de voz tonitruante, apresentou-se: “Eu sou Marlowe e o meu trabalho é trazer à tona histórias que assassinos e prepotentes tentam esconder da sociedade”.
Achei esquisita aquela apresentação, mas abri conversa querendo saber o que ele queria comigo. O que me trouxe aqui, foi-se explicando, “foi um pedido do Zanfra. Ele quer falar com o senhor. Diz ser urgente”.
Quando a ficha caiu, achei graça.
Foi através de Marlowe que fiquei sabendo que Zanfra, com quem há muito não falava, estava morando no Sul e que se transformara num grande escritor de enredos policiais.
Mas enfim, o que o Zanfra queria comigo?
Dias depois não só mantive contato com Marco Antonio Zanfra, como li seu livro de estreia: As Covas Gêmeas, no qual Marlowe aparecia como incansável investigador de uma trama envolvendo pessoas simples do nosso cotidiano. E logo eu quis saber o por quê do meu amigo optara a seguir carreira de romancista policial. Ele:
Há uma ruptura necessária quando o repórter de polícia passa a ser um autor de ficção policial. Necessária e óbvia, porque, se ao repórter cabe fidelidade apenas ao que é real, ao escritor cabe ser fiel ao mundo, aos personagens e à trama que ele criou. Ainda que a realidade não esteja necessariamente fora desse entrelaçamento. Se essa ruptura é traumática ou não, cabe a cada um que vivencia a experiência avaliar.Confesso que me surpreendi com o seu livro de estreia. E a respeito, cheguei a escrever uma resenha: UMA HISTÓRIA PRONTA PARA O CINEMA.
No meu caso, a ruptura assemelhou-se mais a uma transição, porque minha ideia inicial de obra tinha fundo jornalístico: propus a um editor transformar em livro uma matéria especial, de duas páginas tamanho standard, que havia feito para o extinto ANcapital, suplemento florianopolitano do jornal joinvilense A Notícia. A matéria tratava dos crimes violentos ocorridos nos últimos dez anos na Ilha de Santa Catarina e que à época continuavam sem perspectiva de solução.
Eu não trabalhava mais na área, mas ainda não havia desvestido minha capa de repórter, e precisaria aprofundar o trabalho de pesquisa e apuração para transformar as 18 laudas originais da matéria num calhamaço que garantisse pelo menos duzentas páginas num livro. Só que o editor não aceitou minha sugestão. Disse que nós estávamos carentes era de ficção policial, que livro-reportagem qualquer um era capaz de fazer e que só os bons escritores conseguiam criar uma trama daquelas que você não consegue parar de ler.
Minha transição começou naquele momento, quando ele me desafiou a ser esse escritor. Deixei minha capa de repórter na rua Esteves Júnior, onde me encontrara com o editor, rumei para a biblioteca pública da Tenente Silveira e iniciei naquela tarde meu relacionamento íntimo, que duraria quase um ano, com os mestres da literatura policial clássica, especialmente noir. Devorei Raymond Chandler, Rex Stout, Dashiell Hammett e Ross Macdonald. Numa segunda etapa, conheci Georges Simenon, Michael Connelly, Dennis Lehanne, Lawrence Block e Henning Mankell.
Isso aconteceu em 2004. Ao final de 2005, concluí meu livro de estreia, As Covas Gêmeas. O livro deveria ser publicado pela editora desse meu amigo, mas uma série de circunstâncias impediu a realização do plano. Em 2007, parti em busca de outras editoras e, setembro de 2008, Danda Prado, então diretora-presidente da Brasiliense, telefonou para me dar a boa notícia. O livro só foi lançado, porém, em dezembro de 2010.
Depois disso, Marlowe me telefonou. Disse que gostou do texto etc e tal. Entusiasmado, teceu loas e loas sobre Zanfra. Até estranhei, mas fazer o quê?
Bom, aproveitei pra perguntar a Marlowe o que ele andava fazendo ao lado de Zanfra.
Com aquela fala mansa, de bobo aparente próprio de investigador, Marlowe puxou fumaça do cigarro e respondeu, pigarreando: “Bom, ele me põe em enrascadas. Melhor, ele me põe pra resolver enrascadas. Ele acha que sou o melhor policial do mundo, que não há investigador melhor do que eu. Essas coisas de amigo...”.
Marlowe aparece à frente de investigações nos 3 primeiros livros de Marco Zanfra. “Agora ele me deu férias. Diz que fechou, comigo, uma trilogia. Mas já estou sabendo, e não através dele, que já está engendrando mais uma tarefa a que dará o título de Bachianas nº4. Quer dizer, vai sobrar pra mim. De novo!”.
Não custa lembrar, que Marlowe é um policial altamente intelectualizado e até sensível no que diz respeito às artes. Figuraça!
Numa das suas vindas a São Paulo, o Zanfra procurou-me pra dizer que continuava a criar e a recriar histórias misteriosas, intrigantes. A tarefa, porém, não tem sido fácil. Ele:
Passei um largo tempo sem pensar em escrever. Só concluí ‘A Rosa no Aquário’ no começo de 2017 e consegui sua publicação pela Editora Unisul (da Universidade do Sul de Santa Catarina) em abril de 2018. Dali a nove meses, tocado pelo entusiasmo da experiência, terminei ‘O beijo de Perséfone’, que considero minha história mais bem elaborada. Este terceiro livro foi lançado, também pela Unisul, em abril de 2019.Marco Antonio Zanfra escreve como poucos. É direto, raciocínio rápido. Texto enxuto, sem “linguiça”. Trabalhei com ele na Folha. Fins dos anos 70. Fazíamos reportagens policiais e entrevistas com bandidos e mocinhos.
Mas, ao contrário do que aconteceu com o livro anterior, ‘O beijo...’ foi um fracasso, e me desestabilizou. Demorei meses para começar a botar no papel uma nova história, embora tivesse a trama montada na cabeça, fui escrevendo aos trancos e barrancos e só terminei Agora e na Hora de Nossa Morte para inscrevê-lo no Prêmio Kindle de Literatura. Não ganhei nada, mas, entre mais de dois mil concorrentes, não esperava nada, mesmo!
O tempo passou e jamais pude imaginar que Zanfra pudesse se transformar num grande romancista, como se tornou.
Como fazer isso, como começar?
O ponto de partida é, naturalmente, saber escrever. Depois, saber o que quer dizer. Saber o que quer dizer e a quem dizer.
Uma reportagem mal feita, mal escrita, não prende a atenção de ninguém. Além do texto, que deve ser primoroso, tem que ter título igualmente primoroso e um bom chamariz.
Nascido no dia 12 de abril de 1956, o paulistano de Pirituba Marco Zanfra é marido de Mary Kazue e pai de Mariana e Mayara, que já lhe deram dois netos: Murilo e Eduardo, o Dudu.
Zanfra é um cara incrível e a sua urgência de querer falar comigo, no entendimento de Marlowe, era motivada pela saudade.
O amigo jornalista, agora também escritor de renome, disse que perdera a mãe Anna. O pai, Armando, fora-se antes. Mas ainda lhe restam os irmãos Rui e Ana Luíza.
O autor de As Covas Gêmeas é autor também de um Manual de Repórter de Polícia. Esse manual, que deveria ser lido por estudantes de jornalismo e jornalistas da área, tem ao todo 77 verbetes. Foi escrito em 2001, mas até agora não ganhou versão em papel.
E mais não digo, pois desnecessário é dizer o óbvio: Marco Antonio Zanfra é o cara do romance policial do Brasil, hoje.
Viva Zanfra!
sábado, 27 de novembro de 2021
IMPRENSA NEGRA, RESISTENTE E HEROICA: PARTE VIII (FINAL)
Magalhães foi o introdutor do romantismo no Brasil, poeticamente falando. É dele o livro Suspiros Poéticos e Saudades, lançado por Brito em 1836.
Um ano antes, o autor se achava em Paris. Foi lá que ele fez a introdução do livro citado.
Até aí nada demais, a não ser o pioneirismo do seu editor.
Problema viria quando ele, Magalhães, resolveu lançar o poema indianista intitulado Confederação dos Tamoios.
O autor era protegido por Pedro II.
Por causa desse poema, José de Alencar jogou todas as lanças contra o autor, ensinando-o publicamente a fazer um épico.
E o sol escureceu em pleno dia com os debates nos jornais, incluindo o imperador.
Do poeta Gonçalves Dias, que era do Maranhão e autor da famosa Canção do Exílio, Paula Brito publicou a primeira edição do livro Últimos Cantos.
Fora isso, Paula Brito também compôs músicas. Uma delas em parceria com o maestro Francisco Manuel da Silva: Lundu da Marrequinha.
Manuel da Silva é o autor da melodia do Hino Nacional Brasileiro.
É também de Paula Brito, em parceria com o mineiro José Joaquim Goiano, a canção Ponto Final.
Como editor Paula Brito também publicou folhetos e partituras musicais, dentre as quais A Noite de São João.A Noite de São João, uma opereta em 2 atos, tinha como autor José de Alencar (1829-1877). A melodia dessa obra foi assinada pelo paulista de Itú Elias Lobo (1834-1901) e regida pelo compositor e maestro campineiro Antônio Carlos Gomes (1836-1896). Isso ocorreu na noite de 14 de dezembro de 1860. Local: Teatro São Pedro. Na plateia, a família Real.
Em 1870, na Itália, Gomes apresentar-se-ia para o mundo regendo a Ópera O Guarany, baseada em romance homônimo de Alencar.
A área dessa Ópera chegou a ser gravada pelo tenor Caruso (1873-1921).
“Carlos Gomes foi o mais importante compositor operístico das Américas”, diz o maestro paulistano Júlio Medaglia. Que acrescenta: “Carlos Gomes era negro. A cultura brasileira é negra e devemos aos negros a cultura brasileira”.
Medaglia lembra que além de Gomes, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, foi de grandeza espontânea e gigantesca na formação cultural do nosso País: “Aleijadinho era negro, filho de português com escrava”.
Nessa mesma linha, o fotógrafo profissional Jorge Araújo, que desconhecia o termo “Imprensa Negra”, diz: “A informação no estado direito não tem raça. O Brasil no século passado, pós-abolição, era um canal subversivo de informação para a raça negra que chegaram nos porões dos navios e continuam nos porões de uma sociedade racista camuflada, ainda no século 21. A mesma informação, garimpada por jornalistas brancos ou negros, tem que conter a ética da informação”. Concluindo, Araújo diz não entender a divisão entre brancos e pretos na nossa sociedade.
Mais de 130 anos depois de a princesa Isabel assinar a Lei Áurea, que oficialmente livrou as pessoas do cativeiro, a discriminação e o preconceito continuam em vigor no Brasil de 2021.
Notícia do Sindicato Nacional dos Docentes das instituições de Ensino Superior, o ANDES, dá conta que:
De janeiro a setembro deste ano, 1.015 pessoas foram resgatadas em situação de trabalho análogo ao de escravo. Os dados estão disponíveis no site Radar SIT, da Subsecretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), do Ministério do Trabalho e Previdência (...) Os números desse ano superam o total de 2020, com 936 pessoas resgatadas, e se aproxima do registrado em 2019, 1.131 casos.
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Foto cedida pelo repórter fotógrafo Jorge Araújo |
O Supremo Tribunal Federal, STF, decidiu em sessão do dia 28 de outubro transformar em lei o crime
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Foto cedida pelo repórter fotógrafo Jorge Araújo |
de injúria racial:
O Supremo Tribunal Federal
(STF) decidiu nesta quinta-feira (28), por 8 votos a 1, que o crime de injúria
racial pode ser equiparado ao de racismo e ser considerado imprescritível, ou
seja, passível de punição a qualquer tempo. De acordo com o Código Penal,
injúria racial é a ofensa à dignidade ou ao decoro em que se utiliza palavra
depreciativa referente a raça e cor com a intenção de ofender a honra da
vítima.
O caso é sério, sempre foi.
O Juiz Onaldo Queiroga, titular
da 1ª Vara da Comarca de João Pessoa, PB, lembra da dívida histórica que temos
com índios e negros: “A dívida que o Brasil tem com os índios e negros tem que
ser paga. Demore o tempo que durar, mas tem que ser paga. Devemos muito a eles
e a sociedade, junto com a Justiça, tem de tomar as rédeas desse processo
histórico”.
O radialista baiano Carlos Silvio, diz: “O racismo é algo a
ser combatido. Ao racista, punição e o desprezo. Não são poucos os negros com
papel de destaque na história do Brasil. Muitos foram esquecidos ou,
propositalmente, não são mais citados pelos movimentos e grande mídia”.
O
historiador Darlan Zurc, contido nas suas apreciações, crer ser simplesmente
legítima a iniciativa de os negros tomarem o seu rumo. “A escravidão humana é
uma chaga na História, desde a Antiguidade. E o problema piorou quando ela, na
Idade Moderna, se voltou contra os negros. Ou seja, a cor se transformou em
moeda de troca”, conclui Zurc.
No campo da música, folheto de cordel e
repentismo destacaram-se no Império e pós-Império grandes artistas negros:
Domingos Caldas Barbosa (RJ) e José Maurício Nunes Garcia (RJ), o primeiro popular e o segundo
erudito.
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Nas fotos com Assis Angelo, Carlos Silvio (esq.) e Darlan Zurc (dir.) |
Caldas Barbosa foi o criador do gênero musical modinha.
José Maurício Nunes Garcia destacou-se na Corte por tocar viola e escrever peças religiosas.
Inácio da Catingueira era um escravizado, como o Fabião das Queimadas. Ambos conseguiram comprar a própria alforria.
Inácio tocava pandeiro e Fabião, rabeca. Fabião morreu aos 68 anos de idade, em 1928.
O Repentismo teve uma rainha: Chica Barrosa, de batismo Francisca Maria da Conceição (1867-1916), filha de escravos. Foi esfaqueada por um pretendente de nome José Pedro da Silva.
O preconceito racial é uma praga antiga. E continua.
O preconceito também aparece nos folhetos de cordel, entre os quais Peleja do Cego Aderaldo e Zé Pretinho do Tucum e na Peleja Manuel do Riachão com o Diabo.
E, claro, não custa lembrar a importância da maestrina Francisca Edviges Neves Gonzaga (1847-1935), autora e criadora do gênero marchinha (Ó Abre Alas), Joaquim Antônio da Silva Callado Júnior (1848-1880) e Patápio Silva (1880-1907).
Callado e Patápio Silva foram de fundamental importância na construção do chorinho como gênero musical.
E Pixinguinha, hein?
E o samba, hein?
O samba começou a ganhar forma na música brasileira na casa da Tia Ciata.
Curiosidade 1: O nome Zumbi dos Palmares, líder guerreiro, só foi descoberto em 1970 e em 1983 a data da sua morte (20 de novembro) escolhida como o Dia da Consciência Negra.
Curiosidade 2: Castro Alves escreveu o seu mais famoso poema (O Navio Negreiro) em São Paulo, no ano de 1868, no tempo em que estudava Direito no Largo de São de Francisco. Uma parte desse poema foi especialmente musicado pelo compositor e maestro Jorge Ribbas, professor de música da Universidade Estadual da Paraíba. Uma pérola. Ouçam:
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Esse texto foi originalmente escrito para o Newsletter Jornalistas & Cia. Já os conhece? Confira: Jornalistas&Cia, especial Perfil Racial da Imprensa Brasileira
Confira também o portal do IMB, Instituto Memória Brasil!sexta-feira, 26 de novembro de 2021
IMPRENSA NEGRA, RESISTENTE E HEROICA: PARTE VII
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Oswaldo de Camargo |
Muitos autores do século 19 tomaram a escravatura como tema. E até hoje, como Oswaldo de Camargo.
Camargo tem um livro de importância fundamental para entender a questão negritude: Negro Disfarce (2020).
Nesse livro, o autor põe em questão os conflitos entre pretos. Benedito e Deodato são os personagens centrais.
Outros livros importantes de Oswaldo são A Razão da Chama (1986) e O Negro Escrito (1987).
Entre 1975 e 1979, Oswaldo de Camargo foi um dos responsáveis do caderno Afro-Latino-América, ao lado de Hamilton Cardoso e Neusa Pereira.
Esse caderno, de importantíssima existência, integrou o periódico Versus, editado pelo gaúcho Marcos Faerman (1943-1999).
Ainda há muitas publicações direcionadas ao público afro, no Brasil. Entre essas se acha Raça Brasil, lançado em setembro de 1996.
O jornalista Oswaldo Faustino foi um dos editores dessa revista, que chegou a vender nas bancas cerca de 300 mil exemplares/mês.
Faustino, junto com a também jornalista Celma Nunes e o ator, cantor e maestro Estevão Maya Maya (1943-2021), editou na virada dos anos 70 o micro jornal Chama Negra. “Foi uma ótima experiência essa que tivemos ali entre 1979 e 1980. Nossa luta contra o racismo e em prol da inclusão social continua”, diz.
Faustino, além de jornalista, é autor de uma dúzia de livros sobre a negritude. Entre esses A Luz de Luiz e Ah! Se Eu Pudesse Voar.
A Luz de Luiz conta a história romanceada do baiano Luiz Gonzaga Pinto da Gama, que assinava textos para jornais sob o pseudônimo de Afro, Getulino e Barrabás.
O livro Ah! Se Eu Pudesse Voar, resume o autor: “É sobre um jovem carnavalesco campeão, com uma história de vida periférica e repleta de tragédias, decide criar um enredo para uma escola de samba sobre o sonho humano de voar. Para realizar suas pesquisas, viaja à África, Berço da Humanidade, em busca das origens do ser humano, suas histórias, seus sonhos e de si próprio.”
E outros sonhos há na história deste livro e noutros livros de Oswaldo Faustino.
Em 2010, o jornalista e fotógrafo Nabor Jr. tomou para si o desafio de relançar O Menelick.
Em 2015, O Menelick 2º Ato teve lembrado o seu lançamento em edição especial. Nessa edição, Nabor escreveu:
Apesar das facilidades do mundo virtual registradas nas primeiras décadas do século 21 com o início da popularização da internet, a imprensa negra impressa, ou escrita, por sua vez, segue sobrevivendo com dificuldades financeiras e estruturais. Nada muito diferente das fases iniciais que marcaram a sua trajetória ainda no final do século 19.
Em São Paulo, tirando algumas revistas e jornais que dedicam com certa regularidade edições ou seções especiais sobre o universo negro em suas páginas, como as revistas Fórum, Caros Amigos e Rebosteio, por exemplo, as revistas O Menelick 2° Ato, Raça Brasil, Crioula, Tribuna Afro Brasileira e a recém lançada revista Legítima Defesa, idealizada pelos atores Sidney Santiago e Lucelia Sergio da cia. Os Crespos, são as poucas iniciativas da Imprensa Negra Paulista que buscam manter a chama desta imprensa acesa no Estado.
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Francisco de Paula Brito, pelos traços de Fausto Bergocce |
Audálio, descobridor de Maria Carolina de Jesus (1914-1977) para a literatura nacional, era o superintendente da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, IMESP. Na apresentação do livro, cujo projeto original visava a republicação de todos os periódicos relacionados ao público afro, escreveu à guisa de apresentação que a chamada Imprensa negra foi “persistente, heróica”.
Francisco de Paula Brito dedicou-se completamente a essa questão, a questão negra. Morreu como nasceu, pobre e cheio de dívidas que a mulher, Rufina Rodrigues Costas, pagou o quanto pode a quem devia.
Sobre Paula Brito, escreveu Machado de Assis no jornal Diário do Rio de Janeiro, edição de 24 de dezembro de 1861, após a sua morte:
Paula Brito foi um exemplo raro e bom. Tinha fé nas suas crenças políticas, acreditava sinceramente nos resultados da aplicação delas; tolerante, não fazia injustiça aos seus adversários; sincero, nunca transigiu com eles.Nesse ano, 1861, nascia no atual estado de Santa Catarina, o poeta simbolista Cruz e Sousa.
Era também amigo, era, sobretudo, amigo.
Amava a mocidade, porque sabia que ela é a esperança da pátria, e, porque a amava estendia-lhe quanto podia a sua proteção.
Em vez de morrer, deixando uma fortuna, que o podia, morreu pobre como vivera graças ao largo emprego que dava às suas rendas e ao sentimento generoso que o levava na divisão do que auferia do seu trabalho.
Nestes tempos de egoísmo e cálculo, deve-se chorar a perda de homens que, como Paula Brito, sobressaem na massa comum dos homens.
Sousa lutou a vida toda pela sua liberdade e pela liberdade dos negros brasileiros. E escreveu:
De dentro da senzala escura e lamacenta
aonde o infeliz
de lágrimas em fel, de ódio se alimenta
tornando meretriz
A alma que ele tinha, ovante, imaculada
alegre e sem rancor;
porém que foi aos poucos sendo transformada
aos vivos do estertor...
De dentro da senzala
aonde o crime é rei, e a dor — crânios abala
em ímpeto ferino;
Não pode sair, não,
um homem de trabalho, um senso, uma razão...
e sim, um assassino!
(Senzala de Cruz e Sousa)
Em 1885, em Santa Catarina, Cruz e Sousa lançou o jornal O Moleque.
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Esse texto foi originalmente escrito para o Newsletter Jornalistas & Cia. Já os conhece? Confira: Jornalistas&Cia, especial Perfil Racial da Imprensa Brasileira
Confira também o portal do IMB, Instituto Memória Brasil!quinta-feira, 25 de novembro de 2021
IMPRENSA NEGRA, RESISTENTE E HEROICA: PARTE VI
Maria dos Reis era negra, morreu cega e pobre na casa de uma amiga.
A primeira dramaturga brasileira foi Maria Angélica de Sousa Rego, que assinava simplesmente como Maria Ribeiro. Escreveu 2 dezenas de peças. A primeira publicada em livro em 1866, Cancro Sociais. Morreu em 1880, aos 50 anos de idade.
O primeiro livro, em versos, publicado na terra brasileira foi Marília de Dirceu (1812), do português de Porto Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810).
Esse Gonzaga fez parte da conjuração mineira, que terminou na morte por enforcamento/esquartejamento de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746-1792).
Como no Rio de Janeiro, em São Paulo o clima político e libertário também era de novidades. No campo jornalístico, principalmente.
Em 1827, surgiu naquela província o primeiro jornal impresso: O Farol Paulistano, editado por José da Costa Carvalho (marquês de Monte Alegre; 1849-1852). Durou até 1831, ano da abdicação de Pedro I ao trono.
Em 1829, o italiano naturalizado Libero Badaró fez circular o jornal a que deu o título de O Observador Constitucional. O jornal, como o editor, era de linha liberal e contra a monarquia. Polêmico.
Na noite de 20 de novembro de 1830, quando caminhava de volta pra casa, Badaró teve os passos interrompidos por 4 desconhecidos que o alvejaram com tiros de bacamarte. Antes de morrer teria dito: “Morre um liberal, mas não morre a liberdade”.
Badaró era um grande crítico do imperador Pedro II.Os jornais se multiplicavam País afora.
Em São Paulo no ano de 1864, o caricaturista de origem italiana Angelo Agostini (1843-1910) e o baiano Luiz Gama fundaram o primeiro periódico de linha editorial humorística: Diabo Coxo, que durou um ano e pouco e deu vez ao Cabrião, também humorístico e também com textos e caricaturas de Gama e Agostini. Esse durou até o fim de 1866.
No decorrer dos anos de 1860, o jovem escritor Aluísio de Azevedo publicava seus primeiros textos nos jornais A Flecha, O Pensador e A Pacotilha, no Maranhão sua terra. Eram textos contra a Igreja e contra a escravatura.
A história registra que o padre Vieira atuou durante anos no Maranhão e do Maranhão, os poderosos de plantão o expulsaram para Portugal, onde permaneceu durante alguns anos e retornou para concluir sua missão de evangelizar indígenas e mexer com a cabeça dos negros…
O ano de 1870 chega com Aluísio tentando sucesso no Rio de Janeiro.
No Rio, publica seu primeiro livro, O Mulato, que deixa de cabelos de pé a sociedade conservadora. Não à toa. Nessa obra, o autor cria um personagem diabólico, o padreco a quem dá o nome de Diogo. Sacana, sem escrúpulos. A violência come solta nas páginas desse texto.
Diabólico também era o personagem Pedro na polêmica peça de teatro O Demônio Familiar, de José de Alencar.
Essa peça estreou no dia 5 de novembro de 1857, no ginásio Dramático, RJ.
Três anos depois, Alencar continuaria a provocar polêmica com a peça Mãe. Belíssima.
A personagem central é Joana, uma negra. É quando Joaquim Nabuco acusa o autor de escravocrata. O pau come, até porque José de Alencar nas suas falas como deputado e representante da Elite, achava ser necessário o trabalho escravo para o crescimento do Brasil. Defendia que a libertação dos escravos fosse feita paulatinamente, lenta e gradual.
A essa altura, o imperador já o havia chamado de “teimoso” e “filho de padre”, “de valor, porém muito mal-educado”.
A mãe negra é uma personagem fortíssima na nossa literatura e música. O baiano Dorival Caymmi compôs e gravou em 1957 uma canção sobre essa temática. Assim:
Na hora em que o sol se escondeE o sono chega
O sinhozinho vai procurar
Hum, hum, hum
A velha de colo quente
Que canta quadras e conta histórias
Para ninar
Hum, hum, hum
Sinhá Zefa que conta história
Sinhá Zefa sabe agradar
Sinhá Zefa que quando nina
Acaba por cochilar
Sinhá Zefa vai murmurando
Histórias para ninar
Peixe é esse meu filho, peixe é esse meu filho
Não meu pai
Peixe é esse mutum, manganem
É toca do mato guenem, guenem
Suê filho ê
Toca aê marimbaê(História pro Sinhozinho)
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quarta-feira, 24 de novembro de 2021
ZÉ LIMEIRA COMO INSPIRAÇÃO
IMPRENSA NEGRA, RESISTENTE E HEROICA: PARTE V
E os humanos de África continuam a chegar ao Brasil, de maneira violenta.
Milhões de africanos foram atirados vivos ao mar por doentes estarem.
Intelectuais pretos e pardos, e brancos também como José Maria da Silva Paranhos (1819-1880), o Visconde do Rio Branco, depois Barão, continuavam de mangas arregaçadas e sempre prontos pra luta.
A violência também continuava a correr solta, de braços dados com a discriminação e o preconceito.
Jornais continuavam a ser empastelados por publicar o que o Imperador não aprovava. Muitos, muitos.
Luís Augusto May (1782-1850), fundador do jornal A Malagueta, teve as mãos quebradas pelos oponentes de suas ideias liberais. Seu jornal, que acabaria destruído, teve o primeiro número lançado em 1821. Durou 11 anos.
May, de origem militar portuguesa, tinha o hábito de negociar textos com o imperador. Interesses pessoais. Aqui e ali, dava-se bem.
Diferenças à parte, May foi uma espécie de Hipólito José da Costa.
Outros jornalistas foram violentamente agredidos e seus jornais destruídos até às vésperas da proclamação da República. E depois, também.
Era assim que a coisa funcionava.
E morriam aqueles que insistiam em lutar pela liberdade.
Eram muitos os partidos políticos que havia naquela época.
Havia Moderados e Exaltados, por exemplo.
Os Moderados queriam a volta de Pedro I. Os Exaltados queriam a liberdade, pura e simplesmente.
Os Exaltados eram os mais afoitos, desse grupo participavam Francisco de Paula Brito e Machado de Assis.
Tinha também o partido Conservador. Desse partido participava José de Alencar.
Alencar, formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, SP, em 1850, ganhou carreira no Rio de Janeiro.
Em 1853, por aí, José de Alencar entrou para a história no mundo Jurídico ao criar o Habeas Corpus, HC Preventivo. Logo depois iniciou carreira de jornalista no Correio Mercantil de onde logo saiu por ter parte de um texto seu censurado.
Em 1855, Alencar virava chefe de redação e um dos sócios do Diário do Rio de Janeiro.
Antes de fundar O Homem de Cor, Paula Brito fundou A Mulher do Simplício ou A Fluminense Exaltada. Dirigida ao público feminino, essa publicação durou 14 anos (de 1832 a 1846). Falava de moda e de comportamento, com muita poesia e arte.
Pioneiro no campo da impressão, Paula Brito também foi o primeiro editor a dar emprego ao escritor fluminense Machado de Assis. Emprego e oportunidade para publicar o seu primeiro texto de jornal. Um poema, intitulado Ela. Este:
Seus olhos que brilham tanto,
Que prendem tão doce encanto,
Onde com rara beleza,
Se esmerou a natureza
Com meiguice e com primor.
Suas faces purpurinas
De rubras cores divinas
De mago brilho e condão;
Meigas faces que harmonia
Inspira em dose poesia
Ao meu terno coração!
Sua boca meiga e breve,
Onde um sorriso de leve
Com doçura se desliza,
Ornando purpúrea cor,
Celestes lábios de amor
Que com neve se harmoniza.
Com sua boca mimosa
Solta voz harmoniosa
Que inspira ardente paixão,
Dos lábios de Querubim
Eu quisera ouvir um - sim -
Para alívio do coração!
Vem, ó anjo de candura,
Fazer a dita, a ventura
De minh'alma, sem vigor;
Donzela, vem dar-lhe alento,
Faz-lhe gozar teu portento,
"Dá-lhe um suspiro de amor!"
(12 de janeiro de 1855, no jornal Marmota Fluminense, edição 539)
À época o autor tinha 15 anos, 1 mês, 3 semanas e 5 dias de idade.
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Esse texto foi originalmente escrito para o Newsletter Jornalistas & Cia. Já os conhece? Confira: Jornalistas&Cia, especial Perfil Racial da Imprensa Brasileira
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terça-feira, 23 de novembro de 2021
O DELÍRIO DE UMA EX-ATRIZ
Quando teremos o Dia da Consciência Branca , Amarela, Parda…?
Quanto tempo vamos ainda nos vitimizar ao peso de anos, de séculos de dor por culpas antepassadas ? Quando vamos parar de olhar pra trás e enfrentar o hoje e nós olharmos com a coragem da cara limpa? maduros, evoluídos , conscientes de nossa luta , irmanados em nossa capacidade, de sermos … HUMANOS?
Simplesmente IRMÃOS?
Pois é, essa atriz ou ex-atriz integrou o governo de um presidente sem noção.
IMPRENSA NEGRA, RESISTENTE E HEROICA: PARTE IV
O texto desse livro é uma ode às belezas do Brasil. Mais: retrata a pureza nacionalista do autor. Chega aos píncaros do nacionalismo com a cor da ingenuidade.
Depois do fim da censura prévia, o governo de Deodoro criou formas para combater o que se chamou de excesso jornalístico.
Não havia a censura prévia explícita, mas havia renhida perseguição a jornais e jornalistas que não seguiam as normas. Essas normas, em resumo, tinham a ver com os “contra” e os “a favor”.
Não era brincadeira o que acontecia no fim do Império.
Rigorosamente falando haviam os Republicanos e os Monarquistas.
A República estava começando e quem estava com a República, estava ganhando.
Uma curiosidade: Quintino Bocaiúva foi o primeiro e o único jornalista a virar General de Brigada (honorário).
Outra: Em 1893, o sergipano Quintino de Lacerda, botou pra quebrar e virou o primeiro e único Major (honorário) do Exército Brasileiro.
Esse Quintino nasceu em 1839, mesmo ano do nascimento do escritor Machado de Assis e morreu em 1898. Mais: depois de comprar a própria alforria, foi eleito o primeiro vereador negro do Brasil pela cidade de Santos, SP. Não assumiu.
Dentre todos os jornalistas da época, talvez o mais combativo tenha sido o baiano Cipriano Barata.
Barata formou-se em medicina em Portugal. O jornalismo, porém, foi a profissão que assumiu para justificar a sua passagem por cá.
Barata foi preso muitas vezes e jamais rendeu-se às ameaças dos poderosos do seu tempo.
Foi fundador do jornal Sentinella da Liberdade, que ganhou leitores, admiradores e seguidores em várias partes do País. Escrevia até na cadeia e da cadeia em Pernambuco, Bahia e outras províncias, conseguia publicar o seu Sentinella.
Em 1823, escreveu:
Toda e qualquer sociedade, onde houver imprensa livre, está em liberdade; que esse povo vive feliz e deve ter alimento, alegria, segurança e fortuna; se, pelo contrário, aquela sociedade ou o povo, que tiver imprensa cortada pela censura prévia, presa e sem liberdade, seja abaixo de que pretexto for, é escravo, que pouco a pouco há de ser desgraçado até se reduzir ao mais brutal cativeiro.
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BRASIL, LULA E NEGROS
IMPRENSA NEGRA, RESISTENTE E HEROICA: PARTE III
Na primeira edição do jornal O Homem, lançado em Recife no dia 13 de janeiro de 1876, podia-se ler:
Há tempo de calar e há tempo de falar. O tempo de calar passou, começou o tempo de falar. A classe dos homens de cor, sem dúvida nenhuma, a mais numerosa e a mais industriosa do Brasil, parece atualmente voltada ao ostracismo pelos homens que nos governam, contra toda a justiça, contra a própria lei fundamental do país.Mesmo depois da Lei Eusébio de Queiróz e com a violência de sempre, os africanos continuavam sendo laçados e trazidos em navios negreiros sob as rédeas dos portugueses, principalmente.
Embora os particulares tratem-nos com as atenções merecidas, embora muitos dentre eles se achem ligados conosco pelos laços da mais sincera amizade, todavia os fatos denunciam que o partido que há tempos predomina na província parece manter o propósito desleal de ir apartando dos empregos públicos aqueles nossos que para eles haviam sido nomeados por consideração de seus talentos e virtudes, conforme preceitua a Constituição do Império.
Essa vergonha, esse drible contra a Lei, durou mais 2 ou 3 anos.
Não sabiam os traficantes que estavam trazendo também cultura ao Brasil.
Em 1889, um ano depois da Lei Áurea, foi lançado em São Paulo o jornal A Pátria, cujo epíteto era: “Órgão dos Homens de Cor”. Logo depois, em 1897, foi lançado o jornal O Progresso, também em São Paulo.
Detalhe: No dia 13 de maio de 1888, um menino de 7 anos era levado pelos pais a assistir a solenidade de anúncio da Lei Áurea pela princesa Isabel (1846-1921), no Paço Imperial, RJ.
Esse menino era Lima Barreto, um preto pobre que virou um grande escritor. Referência da nossa literatura.
Um dia, Barreto escreveria para o jornal Gazeta da Tarde, edição de 4 de maio de 1911:
Estamos em maio, o mês das flores, o mês sagrado pela poesia. Não é sem emoção que o vejo entrar. Há em minha alma um renovamento; as ambições desabrocham de novo e, de novo, me chegam revoadas de sonhos. Nasci sob o seu signo, a treze, e creio que em sexta-feira; e, por isso, também à emoção que o mês sagrado me traz, se misturam recordações da minha meninice.
Agora mesmo estou a lembrar-me que, em 1888, dias antes da data áurea, meu pai chegou em casa e disse-me: a lei da abolição vai passar no dia de teus anos. E de fato passou; e nós fomos esperar a assinatura no Largo do Paço.
Na minha lembrança desses acontecimentos, o edifício do antigo paço, hoje repartição dos Telégrafos, fica muito alto, um sky-scraper; e lá de uma das janelas eu vejo um homem que acena para o povo.
Não me recordo bem se ele falou e não sou capaz de afirmar se era mesmo o grande Patrocínio.
Havia uma imensa multidão ansiosa, com o olhar preso às janelas do velho casarão. Afinal a lei foi assinada e, num segundo, todos aqueles milhares de pessoas o souberam. A princesa veio à janela. Foi uma ovação: palmas, acenos com lenço, vivas...
Fazia sol e o dia estava claro. Jamais, na minha vida, vi tanta alegria. Era geral, era total; e os dias que se seguiram, dias de folganças e satisfação, deram-me uma visão da vida inteiramente festa e harmonia.
Houve missa campal no Campo de São Cristóvão. Eu fui também com meu pai; mas pouco me recordo dela, a não ser lembrar-me que, ao assisti-la, me vinha aos olhos a "Primeira Missa", de Vítor Meireles. Era como se o Brasil tivesse sido descoberto outra vez... Houve o barulho de bandas de música, de bombas e girândolas, indispensável aos nossos regozijos; e houve também préstitos cívicos. Anjos despedaçando grilhões, alegorias toscas passaram lentamente pelas ruas. Construíram-se estrados para bailes populares; houve desfile de batalhões escolares e eu me lembro que vi a princesa imperial, na porta da atual Prefeitura, cercada de filhos, assistindo àquela fieira de numerosos soldados desfiar devagar. Devia ser de tarde, ao anoitecer.
Ela me parecia loura, muito loura, maternal, com um olhar doce e apiedado. Nunca mais a vi e o imperador nunca vi, mas me lembro dos seus carros, aqueles enormes carros dourados, puxados por quatro cavalos, com cocheiros montados e um criado à traseira.
Eu tinha então sete anos e o cativeiro não me impressionava. Não lhe imaginava o horror; não conhecia a sua injustiça. Eu me recordo, nunca conheci uma pessoa escrava. Criado no Rio de Janeiro, na cidade, onde já os escravos rareavam, faltava-me o conhecimento direto da vexatória instituição, para lhe sentir bem os aspectos hediondos.
Era bom saber se a alegria que trouxe à cidade a lei da abolição foi geral pelo país. Havia de ser, porque já tinha entrado na consciência de todos a injustiça originária da escravidão.
Quando fui para o colégio, um colégio público, à rua do Resende, a alegria entre a criançada era grande. Nós não sabíamos o alcance da lei, mas a alegria ambiente nos tinha tomado.
A professora, Dona Teresa Pimentel do Amaral, uma senhora muito inteligente, a quem muito deve o meu espírito, creio que nos explicou a significação da coisa; mas com aquele feitio mental de criança, só uma coisa me ficou: livre! livre!
Julgava que podíamos fazer tudo que quiséssemos; que dali em diante não havia mais limitação aos propósitos da nossa fantasia.
Parece que essa convicção era geral na meninada, porquanto um colega meu, depois de um castigo, me disse: "Vou dizer a papai que não quero voltar mais ao colégio. Não somos todos livres?"
Mas como ainda estamos longe de ser livres! Como ainda nos enleamos nas teias dos preceitos, das regras e das leis!
Dos jornais e folhetos distribuídos por aquela ocasião, eu me lembro de um pequeno jornal, publicado pelos tipógrafos da Casa Lombaerts. Estava bem impresso, tinha umas vinhetas elzevirianas, pequenos artigos e sonetos. Desses, dois eram dedicados a José do Patrocínio e o outro à princesa. Eu me lembro, foi a minha primeira emoção poética a leitura dele. Intitulava-se "Princesa e Mãe" e ainda tenho de memória um dos versos:
"Houve um tempo, senhora, há muito já passado..."
São boas essas recordações; elas têm um perfume de saudade e fazem com que sintamos a eternidade do tempo...
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A princesa Isabel, ao centro, na missa de 17/5/1888 |
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Primeiras edições dos jornais O Clarim e A Voz da Raça |
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IMPRENSA NEGRA, RESISTENTE E HEROICA: PARTE II
O Rio era a sede do Império.
À época, o Rio contava com cerca de 160 mil habitantes. Mais ou menos.
O preconceito e a discriminação eram a marca principal daquele tempo.
Quando o carioca Francisco de Paula Brito nasceu, a Imprensa ou Impressão Régia já existia há 1 ano, 2 semanas e 4 dias.
A Imprensa Régia nasceu no dia 13 de maio de 1808. Nessa data nasceu também a censura prévia, que se estendeu até 1821, ano de fundação do jornal Diário do Rio de Janeiro. Editado por Zeferino de Meireles e Antonio Maria, esse jornal foi o primeiro a publicar anúncios publicitários. Sua linha política pendia para a independência, entre brancos pobres e negros.
Aqueles eram tempos lamentáveis, em que a Elite dizia que “mulheres brancas eram pra casar, pretas para trabalhar e mulatas para fornicar”.
O primeiro jornal brasileiro chamou-se Correio Braziliense, editado por Hipólito José da Costa. O 1º número desse jornal saiu no dia 1º de junho em 1808, em Londres.
Em terras brasileiras, o 1º jornal a ser publicado chamou-se Gazeta do Rio de Janeiro, editado por frei Tibúrcio José da Rocha. Seu 1º número saiu no dia 10 de setembro de 1808. O redator desse jornal, Manuel Ferreira de Araújo Guimarães, lançaria pouco depois o jornal O Patriota. Dentre os colaboradores desse jornal, se achavam Manuel Inácio da Silva Alvarenga e José Bonifácio de Andrada e Silva, o “Moço”.
Naqueles começos de século, o Rio e o Brasil todo ferviam. Turbulência de norte a sul da Colônia. Éramos Colônia. Dom João, acuado por Napoleão Bonaparte, cortou o Atlântico até chegar a nossas terras com a trupe formada por milhares de portugueses, numa esquadra protegida pela força marítima inglesa.
Aqui, seu refúgio.
A escravidão comia solta por cá, desde o começo da 2º parte do século 16. Indígenas e negros, sob
chicote de bandeirantes e fazendeiros, penavam.
Nos finais da 1ª metade
do século 17, militares portugueses se juntaram ao líder indígena Filipe
Camarão e ao negro mestre de campo Henrique Dias. Essa união tinha por
finalidade expulsar os holandeses que invadiram o Brasil. Finalidade
alcançada.
As normas do Exército brasileiro começavam aí, com heroísmo.
Triste heroísmo. Com sangue, muito sangue.
Foram muitas as
revoltas, revoluções, guerras
envolvendo negros, pardos brasileiros.
Dom João volta a Portugal no dia
26 de abril de 1821, atendendo a rogos do povo português.
No Porto
estourara uma revolução braba.
A essa altura, porém, Napoleão já havia
morrido na ilha inglesa de Santa Helena. Segundo Napoleão, no seus escritos de
memórias, Dom João foi o único monarca a lhe “passar a perna”, de acordo com o
que se lê no livro 1808 (Laurentino Gomes, Globo Livros, 2007).
Após
proclamar a Independência do Brasil de Portugal, em 1822, Pedro I prepara
terreno para seguir os passos do pai.
Nesse meio tempo, a vida
continuava tensa na nossa terra agora Império.
Periódicos de várias
tendências criticam e elogiam o comportamento do imperador. Aqui e ali ele se
irrita publicando textos apócrifos em vários jornais, entre os quais O Espelho
e O Analista sob os pseudônimos Duende, Derrete-Chumbo-A-Cacete, Piolho
Viajante e O Espreita.
Os humanos de África continuavam chegando aos
milhares e à força, não só à Corte.
No dia 14 de setembro de 1833, Paula
Brito leva à praça o primeiro jornal que trata das condições em que viviam os
negros à época. Péssimas. Título: O Homem de Cor, de circulação quinzenal.
Durou 5 números, o último lançado dia 4 de novembro daquele ano, que trazia
como subtítulo O Mulato.
Já na 1º edição desse jornal era estampada
referência à Constituição de 1824, outorgada por Pedro I. Dizia, no seu artigo
14: “Todo o cidadão pode ser admittido aos Cargos Publicos Civis, Politicos,
ou militares, sem outra differença, que não seja a dos seus talentos, e
virtudes.”
Francisco de Paula Brito era filho de mãe liberta (Maria). O
pai (Jacintho) era carpinteiro. Fez tudo que um pai faria pelo bem do filho.
Ele fez.
Muito cedo, Paula Brito identificou-se com a profissão de
tipógrafo. Nas tipografias que conseguiu fazer, entre as quais A Fluminense,
imprimiu vários jornais, quase uma centena. Um desses, O Restaurador, por
pouco não o levou à bancarrota.
Política e ideologicamente, Paula Brito
mostrava-se a favor da liberdade. Lutava por ela.
Nos fins do dia, numa
sala contígua a sua tipografia, Brito reunía-se com clientes e amigos para
discutir os rumos da vida que viviam. Entre esses amigos,
Machado de Assis, José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo (A Moreninha), em início de
carreira literária. E até Eusébio de Queiróz, que transformaria a vida do
Brasil ao conseguir ter aprovada no Congresso uma lei que impediria o tráfico
de escravos. Importantíssima.
O barão do Rio Branco era presença
constante nessas reuniões.
O Reino Unido teve participação fundamental na
aprovação da Lei Eusébio de Queiróz, como ficou conhecida a Lei nº 581 de 4 de
setembro de 1850.
História.
Antes disso, no dia 7 de novembro de
1831, o Parlamento brasileiro aprovou uma Lei que extinguia o tráfico de
africanos para o Brasil.
Essa Lei ficou conhecida como “Para inglês ver”.
Quer dizer, essa Lei (Feijó) nunca funcionou. Funcionou a Lei Eusébio
de Queiróz.
Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto o braseiro,
no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em
pranto
Saudades do seu torrão...
De um lado, uma negra
escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E
à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez,
pr'a não o escutar!
Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta
terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!
O sol faz lá
tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver
de tarde a papa-ceia!
Aquelas terras tão grandes,
Tão
compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de
pensar...
Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A
gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro.
O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo
estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
P'ra não acordar
com o pranto
O seu filhinho a sonhar!
.............................
O
escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes
do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois
bastava escravo ser.
E a cativa desgraçada
Deita seu filho,
calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não
viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!
(A Canção do Africano, de Castro Alves; 1863, Recife, PE)
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