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terça-feira, 23 de janeiro de 2024

HOMEM TEM 93 ANOS COM CARA DE 40 DE IDADE

A vida corrida que todos nós temos, cansa.
Embora canse essa vida corrida que temos, preciso é que acordemos para o bem bom da vida. E o bem bom é vivermos em paz. Nos alimentando com a menor quantidade possível de veneno, dormir mais ou menos na hora e não deixarmos de por o corpo em movimento.
Noutras palavras: o exercício físico nos faz bem e o corpo e a alma agradecem.
O Brasil é um país ainda novo, com os seus mais de 8,5 km². O clima é bom e o povo, também.
A população brasileira já passa da casa de 200 milhões de pessoas. Desse total, pelo menos 30 milhões se acham na faixa etária compreendida de 0 a 14 anos.
Os brasileiros com mais de 60 anos chegam a 32 milhões, mais ou menos.
Dados colhidos recentemente pelo IBGE dão conta de que há cerca de 37 mil homens e mulheres com 100 ou mais anos de idade.
Tudo isso pra dizer que hoje 23 ouvi no rádio notícia de um norueguês de 93 anos com a aparência de 40. Com seus 74 kg e  80% do corpo de músculos, Richard Morgan começou a fazer exercícios há exatos 20 anos. Considera-se um cidadão comum, mas mesmo assim médicos estão de olho nele. Querem saber segredos que tem para manter-se tão bem.
É isso!

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

E A SANTA, QUEM SUMIU COM ELA?

Manoela todo mundo sabe que é um nome bonito, personagem de música espanhola.
E Manela, hein?
Manela é uma personagem que perde o pai e a mãe bem no começo da vida. Órfã é adotada por uma tia de nome Adalgisa.
Adalgisa, Dadá, é uma descendente de espanhóis com chatice de altíssimo grau. Considera-se católica, apostólica, romana. É fanática. Politicamente podemos classificá-la de nazi-facista.
Essas duas personagens fazem parte do universo feminino do escritor baiano Jorge Amado (1912-2001).
Manela e Dadá movimentam-se no romance O Sumiço da Santa. A santa, aqui, é Bárbara. Nos dois sentidos.
Manela é enfiada num convento de freiras aos 15 anos para pagar pecados que nunca teve, só na imaginação da tia. Ai, ai.
Jorge Amado pega a santa Bárbara como pretexto pra desenvolver a história que tem disputa por terrenos ou terreiros. De um lado a polícia, do outro o povo representado pelo fantástico e imaginário bloco de Orixás criados em África e adotados no Brasil.
Jorge Amado dá amostras nesse livro de que de fato foi um autor de extrema importância para a literatura brasileira.
O Sumiço da Santa, cujo texto foi iniciado  nos anos de 1960, é de certo modo um documentário que tem no povo baiano o seu personagem principal.
Como quase sempre ocorre na obra amadiana, O Sumiço da Santa tem um quê de realismo. 
Jorge Amado cita entre os personagens desse livro nomes do cotidiano como Dorival Caymmi, Elisete Cardoso, Dalva de Oliveira, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Capinan, Morais Moreira, Maria Betânia, Gal Costa. Isso na música. Fora da música: mestres Bimba, Besouro e Pastinha; Mário Cravo, Ariano Suassuna, Waly Salomão, Carybé... Entrevistei Carybé ali pelos fins dos anos 80, mas essa é outra história.
É um enredo interessantíssimo esse escolhido pelo nosso grande autor baiano.
Nesse roteiro de santo Jorge a santa sai do altar e vai caminhando pelas ruas de Salvador, subindo e descendo, até ali pelo final bater à porta do convento e de lá tirar a virgenzinha Manela.
Fim bonito! Êpa-êpa, babá!

domingo, 21 de janeiro de 2024

O BOI NOSSO DE TODO DIA (3, FINAL)


 — A cena do boi indo pro sacrifício é feia, o moço aí já viu? Ele adivinha que vai morrer, tanto que dos cantos dos seus olhos escorre lágrima. Pode ver. E numa rápida manobra, o carrasco, poft!, dá cabo à vida dele. Tem gente que disfarça, que olha de banda; que não quer olhar. Eu olhei e chorei, como muitos amigos meus, meninos do meu tempo; de um tempo que já vai longe, e como vai!

— Jamais vou esquecer o boi entrando no matadouro, escorregando no sangue de outros bois e caindo pesado, num baque seco, surdo, sem um mugido sequer. O difícil, depois, é achar entre os corpos esquartejados a carne do boi de carro, de estimação, de brinquedo; do boi querido, do boi amigo, do boi quase irmão, do boi que virou calemba, bumbá, mamão; do boi que virou apenas uma lembrança, uma dolorosa e triste lembrança no mais fundo de nós. 

— Mas é essa a sina do boi: depois de passar a vida toda puxando carro ou arando de sol a sol, morre pelas mãos assassinas do homem. Com Jesus também não foi diferente: veio para nos salvar e nós o matamos. Sem pena, sem piedade. 

— Foi assim, é assim e será sempre assim. Não tem jeito. O homem é mau, o 
boi é bom. 

Carro de boi 
Boi de carro 
Carro que geme 
Boi que cala 
Seja no cipé, 
Seja na bala 

E boi, é gente 
É gente, é boi 
Carro, boi, gente 
Na vida do sertão 
- Meu coração! 
Gente e boi 
Boi, gente 
E tudo um pedaço, 
Um pedaço que sente, 
Que sente que vida 
É suor, é semente 

Seja boi-de-reis 
Seja boi-de-carro 
Seja boi-calemba 
Seja boi-de-barro 

Seja boi-bumbá 
Seja boi-mamão 
Seja, meu Deus! 
Bois do coração 

É boi de cá 
É boi de lá 
Tudo é boi 
É boi pra se amar 

No sol e na poeira 
Na subida e na ladeira 
Segue o homem 
Segue o boi 
O carro puxando 
Sobre pedra 
Sobre barro 
Ora aqui 
Ora acolá 
Sem nada reclamar 

O carro, o boi, o homem 
O homem, o boi, o carro 
O carro geme a dor do homem 
Que geme a dor do boi 
Que puxa o carro do homem 
Sem preguiça 
— Justiça! 
Sem ódio 
Sem rancor 
Segue assim o homem 
Andando, correndo 
Comendo poeira 
No silêncio do trabalho 
Ó, Deus! 
Segue assim o homem o seu destino 
A sua sina... 
No cangote doido da vida Severina 

(chiado de carro de boi fecha a narração)

sábado, 20 de janeiro de 2024

O BOI NOSSO DE TODO DIA (2)

 — Ah! Sim, todo mundo sabe: coração de sertanejo é duro de doer. É calejado, cheio de marca que nem seus pés e suas mãos. Olha aqui as minhas mãos, tá vendo? Todas cheinhas de calo de tanto amargar o cabo da enxada de sol a sol. Doem... E os pés? Olha aqui. Tudo rachado que nem a terra seca a espera de água da chuva que nunca vem.

— É, coração de sertanejo não é mole, não; mas quando dá de doer, seu moço, de machucar feito moenda com toras de cana ou aquelas maquininhas de repuxar agave, no muque, ah!, danou-se! E fique certo: o sofrimento é tanto que lembra dor de dente em hora de meio-dia, sob a danação da seca pesada. É de lascar!

— Por essas bandas tudo é triste. O nosso andar, a nossa fala puxada, o nosso riso, até o nosso espirro é triste. Pode reparar. Tudo é triste na gente. Menos a esperançca. Ah! Essa, não. É tudo que nos resta... Mas que a nossa vidinha por aqui é braba, lá isso é. Daí a tristeza. Deus que me perdoe, mas acho que até ele esquece da gente. E né não? 

— Mas eu tava falando mesmo era dos carros de boi. Quando os carros de boi param, tudo para. Até o tempo. Eita tristeza danada é a falta do gemido, do choro inacoluto do carro de boi!... Eu sempre quis falar esta palavra: inacoluto... 

— Essa história de carro de boi é triste, mas é bonita. Nem sei se pelo carro ou pelo boi. Prus meninos do sertão, o boi não é só um bicho trabalhador, não. É amigo, amigo mesmo! Boa companhia. Bem comparando, é que nem cão e gato na cidade grande. Mas um dia tudo se acaba. Nós, inclusive. E os bois. De morte morrida ou de morte matada, não interessa. Isso é detalhe. Quando o boi morre de morte matada, a sua carne é vendida no açougue. Que fazer? Das duas, uma: ou se morre de barriga cheia ou se morre de barriga vazia...

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

O BOI NOSSO DE TODO DIA (1)

O carro de boi foi o primeiro meio de transporte de tração animal do Brasil. Chegou ainda no século 16, quando o nosso país foi "achado" por Cabral e sua turma. Desse modo no País começou a se plantar e a colher o "de comer" nos vastos campos virgens que começava a receber colonizadores.
O boi tem sua história iniciada lá pelas bandas do Oriente Médio e Ásia.
Foram turcos, persas e iraquianos, tudo indica, que domesticaram os primeiros bovinos. 
São muitos os tipos de bois. Centenas e centenas. Alguns: Tabapuã, Senepol, Guzerá, Gir, Brahman e Nelore, esse último de origem indiana.
A Índia, o Brasil e a China são hoje líderes de criação bovina.
O rebanho brasileiro contado em 2023 chegou a 34,5 milhões de cabeças.
É longa a história dos bovinos no Brasil, especialmente.
Além de servir de alimento, calçados e bolsas, o boi faz parte do rico folclore brasileiro.
O boi se acha na música, na dança, na poesia, no romance.
Há alguns anos escrevi texto do documentário Boi, que narrei no referido filme.
O documentário Boi foi muito premiado mundo afora.
Na Turquia, Boi foi exibido em praça pública e em praça pública traduzido.
Fica o registro.
No texto que se segue, descrevo melhor o boi e a sua importância na vida brasileira.

★★★

(chiado de carro de boi abre a narração) 

— Esse barulhinho aí é esquisito, não é? Eu ouvi esse barulhinho quando era menino, e ele nunca mais saiu daqui da minha cachola. Sim, é o barulhinho do carro de boi; chorando, gemendo estrada afora. Qual menino do meu sertão não ouviu esse chorar e viu o lento rodar dos velhos carros de boi? Qual, qual menino nunca viu isso? 

— Pois é. Dia de feira, dia de festa, de gente pra lá e gente pra cá; de gente vinda de tudo quanto é lugar, numa agitação dos infernos. Gente gritando, rindo, moleque chorando, outros vendendo e comprando fosse o que fosse. E à distância, o carro de boi... on, on, on... Sendo envolvido na poeira levantada pelo tropel dos cavalos. 

— Nesses dias tinha também os bebuns, uma coiseira à parte e à toa. Mas o que fica no fundo da memória é o chiado do carro de boi. Esse chiado ai esquisito, mas familiar... choroso, diferente do choro de gente. Um choro chorado mais do que devera ser. Um choro triste, melancólico, que vem de lá nem sei de onde. 

— Esse choro entristecia a gente. Ainda entristece. Para ter tristeza e chorar num precisa ser frouxo, não. Cabra macho também chora. Seu Nonô mesmo, que era raçudo e tinha lá nas costas uma penca de morte feita a bala e faca, um dia, escondido, eu o vi chorar. Aliás, até os bois choram. Choro demais chega a ferir o coração da gente... 

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

É PRECISO RIR!

 A desgraceira que ocorre no Brasil e no resto do mundo tem impedido que as pessoas comuns, como nós, abramos a cara para um belo sorriso. 

O que vem a nossa cara é tristeza provocada pelos horrores do dia a dia.

Dito isso, digo mais: é preciso que não nos rendamos aos horrores provocados pelos poderosos de plantão que o tempo todo só pensam em destruir países e nações a troco do vil metal.

Dinheiro é poder, poder é dinheiro a qualquer custo. Daí as guerras...

Diante do exposto insisto: é preciso resistir a todas as desgraças advindas de conflitos e guerras de todo tipo. Vejam como andam Rússia, Ucrânia, Israel, Cisjordânia...

É isso!

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

FORRÓ EM ARACAJU



A pandemia da Covid-19 já foi pro espaço, mas deixou variantes pra marcar presença.
Muita coisa boa e muita coisa ruim acontece no dia a dia do Brasil e do mundo. Destaquemos as coisas boas, não é mesmo?
A música popular brasileira está indo pra casa do chapéu, se é que já não foi. Na verdade, eu acho que foi.
O forró de Gonzagão mostra a sua cara aqui e acolá. Ainda. Em programas de rádio até que ainda o forró é tocado, porém raramente a gente escuta os clássicos do gênero. Gonzaga, Jackson, aqui e acolá Dominguinhos e Flávio José. 
O forró é coisa muito boa. É ritmo que faz o coração bater bonito e pelas pernas nos levar à alegria. 
No começo de junho de 2005, andei abrindo o Fórum de Forró de Aracaju, CE. Lá estavam o Trio Nordestino, com nova cara, Anastácia e Marinês. Lá também estava o grande já esquecido Edgar Ferreira, autor da pérola Forró em Limoeiro que Jackson do Pandeiro gravou no seu primeiro disco em 1953. Gravadora: Copacabana. 
O Fórum ocorreu no disputadíssimo espaço do Teatro Atheneu.
Foi bom demais!
Aqui em Sampa, a agitadora cultura Isabel Soares corre à frente de um movimento importantíssimo de forró por ela criado. Entre as conquistas que comemora está o forró como patrimônio imaterial. 


terça-feira, 16 de janeiro de 2024

HOJE É DIA DE QUIXOTE


Há 419 anos o espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616) revolucionava a literatura mundial com o livro Dom Quixote, contando a história fantasiosa envolvendo o personagem título e o seu inseparável escudeiro Sancho Pança. 
A história de Cervantes foi baseada nos romances de cavalaria, que no Brasil teve como seguidores o escritor paraibano Ariano Suassuna e o músico baiano Elomar.
Sem dúvida, o livro de Cervantes é interessantíssimo. Trata-se de um personagem pra lá de idealista. No seu delírio vê-se como verdadeiro guerreiro em luta incansável contra inimigos só existentes na sua imaginação. 
Quixote, um cidadão de posses que bem poderia viver a vida sem problemas, resolve ir "à luta" para impressionar a amada Dulcinéia. 
E mais não conto sobre essa obra lançada originalmente em 1605, em Madrid, foi até hoje traduzida em dezenas e dezenas de idiomas.
Só mais uma coisinha: o conto A Ilha Desconhecida, do português Saramago, tem um quê de Quixote no personagem anônimo que bate à porta de um rei pedindo, quase exigindo, que lhe desse uma embarcação possante com a qual pretendia chegar a tal ilha.
Esse personagem tem como companheira uma simples servidora de um palácio real.
Viva a boa literatura!

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

DEMÔNIOS NA RÁDIO ROQUETE PINTO

O grupo musical Demônios da Garoa, paulistano, é o mais antigo em atividade no Brasil e comercialmente do mundo.
Essa história e muitas outras eu conto no livro Pascalingundum — Os Demônios da Garoa, que publiquei na primeira década deste tumultuado e violento século 21.
O Demônios foi criado em 1943 e seis anos depois gravou a sua primeira música em disco. Era uma rancheira intitulada Sanfoneiro Folgado de Mário Zan e Motinha.
É uma história longa e interessante essa do Demônios.
Na noite do último sábado 13, na rádio Roquete Pinto, RJ, falei bastante sobre o grupo no programa Memórias do Samba. Compartilho com vocês:

DEU BODE NA CPTM!

A minha querida avó Alcina, que já está no Céu, costumava contar histórias pra eu dormir. Eu era moleque, menino ainda de calças curtas.
Vó Alcina contava-me histórias de Trancoso.
Trancoso foi um inventor português de histórias pra boi dormir.
Histórias pra boi dormir era o que mais a minha avó contava. Eu gostava e por gostar sentia-me logo embalado a sonhar com os olhos em sono e a cara a sorrir.
Eu era um anjo e disso nem desconfiava, vejam só!
Pois bem, a minha vó com as suas histórias de Trancoso, era uma santa.
Pensei logo nela hoje quando ao ligar o rádio ouvi a notícia que tinha um bode por personagem. Seu nome: Fumaça.
Fumaça é um bodinho de 5 meses, mais folgado e metido que só!
Dizia a notícia que fumaça, cansado de casa pegou um trem da CPTM e foi ver como anda a periferia paulistana.
Esse bode está dando o que falar. Está famoso. Olha ele aí!

domingo, 14 de janeiro de 2024

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (69)

FOLHETIM — Delegado, qual o número de hotéis suspeitos catalogados até agora pela Polícia em São Paulo?
PINHEIRO MACHADO — Há aproximadamente 1.500 estabelecimentos de hospedagem registrados na Delegacia de Hotéis, sitos somente no município da Capital. São todos eles "casas" legalmente estabelecidas. Assim, não se pode acusar ou classificar um hotel de "suspeito" sem provas suficientes, sem o risco de se cometer uma injustiça ou até um crime. O próprio Decreto 1358/73 em seu artigo 23 dispõe expressamente que "os flagrantes ou inquéritos deverão conter provas suficientes do desvirtuamento das finalidades do estabelecimento". Destarte, se de um lado não se pode publicamente, sem provas suficientes classificar ou catalogar um hotel legalmente constituído, de "suspeito", de outra parte, se houver provas suficientes, não será ele também catalogado como estabelecimento "suspeito", pois conforme dispõe o parágrafo 2, do artigo 18: "parágrafo 2: O Apurado o desvirtuamento, será cassado o Alvará de registro e aplicada a multa máxima do artigo 17". Assim, já não teríamos, na hipótese última, um estabelecimento "suspeito", mas ex-estabelecimento de hospedagem. Pelo exposto, verificamos que a figura do "estabelecimento suspeito", tratada sob o ângulo oficial, é por demais transitória. E, publicamente, no próprio interesse das investigações, a rigor, só se pode afirmar que a "suspeição" não era infundada, por ocasião da cassação do alvará
FOLHETIM — Este ano, quantos hotéis (e motéis) foram autuados pela Polícia?
PINHEIRO MACHADO — Somente no município da Capital, por variadas infringências ao Decreto 1358/73, foram autuados este ano mais de duas centenas de estabelecimentos de hospedagem (hotéis, motéis, casas de cômodos, pensões). De 1970 até esta data foram cassados 119 estabelecimentos.
E a "Boca do Lixo" está em fase de extinção? Não, ela não morreu. Ao contrário, continua crescendo e hoje já ocupa quase 1.500km2. Porém, não há mais lugar para figuras temidas e endeusadas pelas prostitutas e marginais de um modo geral, como Hiroito, Xodó, Quinzinho, Gibi, Carlinho Bang-Bang, Osny, Pedrinho, Nelson Brás, Joãozinho Americano.
As prostitutas são outras, mas o comportamento é o mesmo.
Exemplo:
Certa noite num Distrito, o delegado fazia triagem das mulheres apanhadas durante uma "blitz". Na delegacia, umas choravam, outras riam, outras permaneciam em silêncio, outras conversavam com outras simplesmente. O delegado chama uma delas, a que menos parecia se importar com a situação.
— Qual é o seu nome? 
— Izilda da Conceição.
O delegado levantou-se de onde estava. Olhou a mulher, com raiva:
— Ainda ontem você disse que se chamava Rosália.
— Pois é, doutor. Isso foi ontem.

Foto e reproduções de Flor Maria e Anna da Hora

sábado, 13 de janeiro de 2024

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (68)

FOLHETIM — Prender e soltar mulheres e rufiões resolve o problema de prostituição? Em caso negativo, por que a Polícia age assim?
PINHEIRO MACHADO — Cumpre assinalar que a Policia no exercício da sua mecânica de rotina, de averiguação e triagem de prostitutas, não com o objetivo de resolver o problema gerado pela prostituição, salvo melhor juízo, ele se enquadra numa problemática social. Tal procedimento, para a Polícia, visa tão somente a tomada de uma medida de caráter preventivo. Visa evitar o recrudescimento da prostituição, na medida do possivel, evitando consequentemente atos anti-sociais e mesmo delitos mais gra- ves. Evidentemente, se não há culpa formada, no que tange a crimes ou contravenções penais, uma vez que a prosti- tuição em si não é crime, as prostitutas têm que ser liberadas. Quanto aos rufiões, se não houver prova concreta no que concerne ao rufianismo, capitulado em nosso Código Penal, e nem referente a outro delito, também terá que ser solto, após as averiguações facultadas legalmente pelo poder específico de Polícia. 
FOLHETIM — Quais as penas aplicáveis às prostitutas presas, que sejam primárias ou reincidentes?
PINHEIRO MACHADO — Já dissemos acima, que a prostituição em si não é crime. Assim, se a prostituta foi presa é porque feriu dispositivo do Código Penal, respondendo portanto pelo crime que cometeu, obedecendo às normas de primariedade ou reincidência dos delitos cometidos.
FOLHETIM — Qual a capacidade dos xadrezes que recebem prostitutas?
PINHEIRO MACHADO — As prostitutas não são recolhidas em xadrezes comuns. Ficam retidas na Delegacia apenas o tempo necessário para que se efetuem as averiguações necessárias, e permitidas por lei, isto é, detenção enquanto se verifica quanto às ligações a crimes em investigação, e ainda, aguardando informações dos competentes órgãos da Secretaria da Segurança, para se saber inclusive se interessam ou não à Justiça, ou seja, se têm mandados de prisão a cumprir.
FOLHETIM — Há poucos dias, o Juiz Corregedor, dr. Renato Laércio Talli, recebeu em seu gabinete de trabalho um grupo de prostitutas que denunciou o 2.° DP, situado no bairro do Bom Retiro, de extorsão. Elas afirmaram, inclusive, que foram espancadas por policiais do citado Distrito. O que o sr. tem a dizer sobre isto?
PINHEIRO MACHADO — As denúncias desde que tenham fundamento são sempre recebidas. Os fatos são apurados em sindicâncias regulares, e, ao final, se provada a culpabilidade, os responsáveis, sejam de que nível forem, são punidos na forma da lei. No caso em concreto, não será diferente pelo fato de as vítimas serem prostitutas, não haverá nenhuma atenuante, pelo contrário, é até uma agravante. Porém, é necessário que haja suficientes provas da culpabilidade dos denunciados
Como tudo, há prostitutas de todos os tipos e níveis. A maioria, entretanto, não teve condições de estudar. Um grande número delas em São Paulo, Capital, é procedente do Interior e de outros Estados.
"Fiquei grávida na cadeia, na Casa de Detenção, para ser exata. Foi engravidada por um funcionário. Ele era o diretor. Isso ocorreu em 1964. Ninguém nunca soube disso. Naquela época eu era meio besta". (Baiana).
"Sou de família pobre. Eu sempre achei que a coisa mais bacana era ajudar os meus pais. E foi por isso que entrei nesta vida". (Nevinha).
A mulher torna-se prostituta por uma série de fatores: sonho de riqueza, promessa de casamento, curiosidade, incompreensão dos pais. Os hotéis, motéis e "drive-in" facilitam as coisas.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

JARBAS MARIZ ADERE AO CORDEL

O amigo e parceiro musical paraibano Jarbas Mariz é um cara surpreendente. A palavra é esta mesmo: sur-pre-en-den-te.
Jarbas tem uma trajetória artística excepcional. Como todos ou quase todos da sua geração, teve alguma influência da música estrangeira. Principalmente a americana. Rock na parada.
Jarbas começou a carreira tocando e cantando em ambientes de baile, na Paraíba. 
Ali pela metade dos anos de 1970, Jarbas foi convidado e topou participar do primeiro álbum duplo do craque Zé Ramalho. O disco, dois bolachões, saiu pela extinta gravadora Rosenblit, de Recife. Título: Paembiru.
Jarbas tem muitas músicas gravadas por gente boa.
A surpresa agora é que Jarbas Mariz não negou fogo ao convite que recebeu dos responsáveis pela cachaça Volúpia. 
O convite foi para que fizesse um folheto de cordel abordando a boa cana colhida e espremida num engenho de Areia, PB.
Areia é uma belíssima cidade localizada há mais de 600 metros acima do nível do mar. Foi lá que nasceram o pintor Pedro Américo e o escritor e político José Américo de Almeida.
Esses dois nomes, diga-se depresssa, nada tem familiarmente em comum.
Desafio feito, Jarbas Mariz de bate pronto escreveu Degustando o Cordel. São 23 estrofes de 6 versos. Começa assim:

Eu recebi um convite
Do meu amigo Vicente
Para escrever sobre um tema
Sedutor e pertinente.
Claro que esse desafio
Me deixou muito contente. 

E termina assim:

Termino saudando o povo
Desse chão hospitaleiro.
E Alagoa Grande, terra
Do bom Jackson do Pandeiro.
Em nome dele saúdo
Nosso povo brasileiro.

Em parceria, Jarbas e eu compusemos:


ENTREVISTA
Amanhã sábado 13 estarei falando na rádio Roquete Pinto (FM 94,1), do Rio, sobre a trajetória do grupo musical paulistano Demônios da Garoa. O programa começa às 23h. É isso! Pode também ser acessado pela Internet.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

VIVA A POESIA E ANTÔNIO MARINHO!

Há pouco fabulando com Dona Bibiu, Aninha e JP peguei-me surpreso com a informação de que a já dita inteligência artificial, vai tomar conta do mundo, depois de tomar conta da nossa raça humana.
Num momento a querida comadre Dona Bibiu, mum riso um tanto debochado pediu em voz alta que o tal Google contasse uma piada. E lá veio o bicho fantasma Dr Google: 
— Você sabe quem é a mãe de Mingau?
E o tal mesmo respondeu em seguida:
— É maisena.
Piadinha desgracenta, sem graça. Ai, ai, ai.
Dona Bibiu com o sorriso mais debochado ainda pediu que o tal doutor declamasse um poema de improviso. E o tal declamou uma porcaria por ele considerada poesia.
Bom, o amigo Rômulo Nóbrega telefona pra dizer que esteve em São José do Egito, ali pelas bandas de Pernambuco. Foi pra lá com o intuito de assistir o festival de repentistas dedicado anualmente a Louro, um dos três irmãos do Clã Batista.
Foi algo maravilhoso, disse meu amigo.
"Tinha lá tudo de bom: lançamentos de livros, discos e tudo mais. Teve até uma cantoria com Alceu Valença", contou Rômulo. 
No Festival Louro do Pajeu teve apresentação de muitos cantadores repentistas e poetas de grande categoria como Antônio Marinho Neto.
@cordelepoesia Antônio Marinho Neto recita Os Trabalhadores de Rogaciano Leite - Thadeu Filmagens #poesia #cordel #pernambuco #nordeste #sertao #fyp #fypシ #leftiktok #esquerda #esquerdabrasil #lula #bolsonaro ♬ som original - Cordel & Poesia

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

ADEUS, ZAGALLO!


Morreu ontem 7 e foi sepultado hoje, no Rio, o ex-jogador e técnico de futebol Zagallo (Ilustração acima). Tinha 92 anos de idade e fez o que muito jovem ainda não fez e certamente nunca fará, além das quixotescas polêmicas.
Na Copa das Américas, em 1997, Zagallo num desabafo cunhou a famosa frase: "Vocês vão ter que me engolir!".
Como jogador de campo, Zagallo foi campeão pela seleção brasileira duas vezes: em 1958 e 1962. 
Como técnico da Seleção brasileira em 1970, Zagallo conquistou o tricampeonato mundial de futebol para o Brasil. Essa, aliás, foi a última Copa de Pelé que também nos deixou há pouco tempo.
Foi fundamental a presença de Zagallo na conquista do tetracampeonato, em 1994.
Deixou saudade e mais não digo porque todo mundo sabe e se não sabe, paciência.

ESTRELAS NO CÉU

Aos poucos estão se indo os grandes craques do futebol mundial. Hoje 8 mudou de andar o alemão Franz Beckenbauer, aos 78 anos de idade.
Antes de Beckenbauer, partiram Croiff (Holanda), Maradona (Argentina), Bob Charlton (Inglaterra).

domingo, 7 de janeiro de 2024

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (67)

FOLHETIM — É legal prender e soltar prostitutas? A polícia continua praticando o que se convencionou chamar de "prende- e-solta"?
PINHEIRO MACHADO — Já dissemos, as formas de encaminhamento às delegacias e triagem são um meio legal. A retenção provisória do indivíduo, desde necessária a uma averiguação policial, é perfeitamente legal. É o exercício do chamado poder de Polícia. O que não seria legal era deter e não liberar após todas as averiguações procedidas uma vez que, repetimos, a prostituição em si não é crime. A frequência de averiguações e triagem depende do interesse policial e das circunstâncias concernentes ao setor ora em foco, de cada Distrito Policial, que como já afirmamos, atendem às mais diversas espécies de delito.
"Averiguação. Esse papo não cola. Eu tive um filho há 16 dias. Mostrei até o atestado médico. Eles disseram que iam me tirar o filho e levá-lo ao Juizado de Menores. Ali eu disse que podia criar o meu filho. Ao ouvir isso, um investigador do 2.° DP, eu o reconhecerei em qualquer lugar, jogou-me uma caneca de café no meu rosto e me agrediu com palavrões. Se eu tivesse dado dinheiro, nada disso teria acontecido". (Maria de Lourdes).
"Nesse dia eu estava detida junto com Lu. Eu disse que ia denunciar o fato ao Corregedor. Os policiais falaram que, se fôssemos, arrumariam um flagrante pra gente assinar". (Sueli Aparecida Rizardi).
"Eu também me recusei a dar dinheiro e a assinar Vadiagem (Art. 59, Código Penal). Aí, então, eles me obrigaram a assinar um inquérito. Nem sei o que foi que eu assinei". (Maria Auxiliadora da Silva).
"A Polícia leva mais dinheiro da gente que os rufiões. Cada vez que um rufião cai em cana, os tiras levam cinco paus - Cr$ 5 mil. E o arrepio - medo, alvoroço - começa em novembro e se prolonga até dezembro. Nesse período, eles exigem mais da gente. Então, acontece de cairmos quase todas as noites nos distritos policiais. No entanto, gostaria de dizer que o 3.° e 4.° DPs são os mais honestos. Depois da detenção de rotina, os delegados e investigadores do 3.° (Campos Elísios) e 4.° (Consolação) nos soltam sem exigir nada da gente, mas o 2.° DP..." (Elvira Lopes).
"A campanha da Polícia continuará enérgica, atuante e serena. Continuará até fazer desaparecer totalmente a arrecadação que é feita entre essas pobres infelizes que para serem protegidas, na forma como têm sido até agora, despendem importâncias que sobem globalmente à casa de 4 milhões de cruzeiros semanais Pasme! Cr$ 4 milhões é quanto levam os que se dizem defensores dessas tristes, infelizes figuras do submundo paulistano. Recebem esse dinheiro policiais, funcionários, marginais de toda espécie e até mesmo três ou quatro jornalistas, que se dizem influentes na Polícia para conseguir a proteção desejada pelas mulheres do meretricio". (14/11/63, Aldevio Barbosa Lemos, Secretário da Segurança Pública).

(CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO…)
Foto e reproduções de Flor Maria e Anna da Hora

sábado, 6 de janeiro de 2024

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (66)

Num apartamento alugado num edifício no Centro da cidade, modestamente decorado, a baiana Elvira Lopes de Almeida levanta a blusa, baixa um pouco a saia e mostra várias cicatrizes. Apontando o próprio coração, diz: essa vida só me deu tristeza e desilusão. Hoje, uso um marca passo para sobreviver.
Ela sorri.
"Eu já fui uma mulher rica. Nasci pobre, mas tive tudo que sonhei ter um dia. Agora, estou praticamente na miséria. Possuí casas com piscinas e tudo; vários automóveis, contas em bancos, sítios... agora, não tenho nada. Moro com uma amiga que ajuda a pagar o aluguel do apartamento". E por que perdeu tudo que tinha?
Elvira sorri novamente.
"Os tiras me levaram tudo. Tenho inúmeras passagens pela Polícia, mas nunca pratiquei crime algum". Nunca praticou nenhum crime? Ela pensa: "Só puxei cana uma vez na vida, e digo por que: por explorar o lenocínio. Peguei mais de dois anos na Casa da Detenção".
FOLHETIM — O meretrício em apartamentos é crime? 
PINHEIRO MACHADO - O meretrício em si, não é crime em nenhum lugar. Haverá crime se se configurar a exploração do lenocinio, a mediação para servir a lascivia de outrem, o favorecimento da prostituição, a manutenção de casa de prostituição ou rufianismo
FOLHETIM — Quantas prostitutas existem atualmente em São Paulo? A SSP dispõe de dados estatísticos?
PINHEIRO MACHADO — Não se tratando de criminosas no sentido técnico do termo, uma vez que consoante Jurisprudência já firmada nem sequer estão sujeitas à sindicância por vadiagem, e não havendo uma Especializada de Costumes, que centralize os serviços, os levantamentos estatísticos são precedidos apenas pelos Distritos para servir de subsídios à organização de seus serviços atinentes à matéria dentro dos respectivos territórios. Além disso, são estimativas muito variáveis, dependendo das condições circunstanciais de momento de cada região, embora a maior concentração seja sempre no centro da cidade.

domingo, 31 de dezembro de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (65)

FOLHETIM — Quais as normas adotadas pela Polícia para o combate ao lenocínio? E em que dispositivos legais se baseia a Polícia?
PINHEIRO MACHADO — Com a descentralização da nossa Polícia, não há, atualmente, uma "Especializada" de Costumes. O policiamento pertinente à matéria cabe integralmente, na Capital, aos Distritos Policiais e no Interior, às Delegacias de Município. Essas Unidades Policiais estão incumbidas, na sua área territorial, de combater as mais diversas espécies de delitos. Evidentemente, há uma escala de prioridades, sem se descurar, naturalmente, de nenhum setor. Os crimes mais danosos à sociedade são atendidos, e nem poderia ser diferente, com prioridade (crimes contra a pessoa, contra o patrimônio, tóxicos, etc). Assim, no que tange ao combate dos crimes contra os Costumes em geral, e em especial ao lenocínio, as normas policiais a serem adotadas estão umbilicalmente ligadas à problemática de cada Distrito Policial, focalizando o aspecto em nossa Capital. À guisa de exemplificação, podemos citar os casos do 3.º (Campos Elíseos) ou 2.° Distritos Policiais (Bom Retiro), em con- traposição aos serviços do 46.° (Perus) ou 47.° Distritos (Capão Redondo). Se naqueles, a concentração de estabelecimentos de hospedagem, a existência de "trottoir" ostensivo ao extremo, impõem uma certa norma de policiamento, nestes o problema é quase inexistente. De qualquer forma, porém, deve a Autoridade Policial atender às normas da nossa lei substantiva, agindo com o máximo rigor desde que sejam feridos os dispositivos constantes do nosso Código Penal, constantes dos artigos 227, 228, 229 e 230, a fim de coibir o lenocínio e delitos afins.
"A Polícia não pode resolver o problema da degeneração da bas-fond de São Paulo, mas pode moralizá-la", declarava em novembro de 1963, à imprensa, o general Aldévio Barbosa Lemos, acrescentando: "Resolvi encetar a campanha contra a degenerescência dos costumes que se vem verificando no coração de nossa metrópole, através dos anos, num flagrante e doloroso atentado aos nossos foros de cidade civilizada. Apesar de mal com-preendida por alguns elementos diretamente interessados, pois a prostituição é uma grande fonte de renda…”
Atualmente, há mulheres que "faturam" até Cr$ 6 mil por dia. Há delas que "pescam", em pontos fixos da chamada "Boca do Lixo", 60 homens por dia. E como elas aguentam tanto?
"Aguentando", foi a resposta que ouvi de uma velha prostituta. Mas isso não cansa, não esgota a mulher?
"Que nada. Com o tempo a gente se acostuma e encara a coisa com naturalidade e profissionalismo, como um trabalho qualquer".

(CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO…)
Foto e reproduções de Flor Maria e Anna da Hora

sábado, 30 de dezembro de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (64)

FOLHETIM — O confinamento seria uma forma de minorar o problema em São Paulo?
PINHEIRO MACHADO — O confinamento, decisão administrativa que evidentemente foge da alçada policial, apresenta alguns pontos positivos e em contrapartida, muitos negativos. De certa forma, facilitaria um maior controle em termos de policiamento dos frequentadores das áreas previamente delimitadas, evitando-se com isso a incidência criminal que sempre acompanha, de perto, o exercicio da prostituição. De outro lado, porém, tal medida seria admitir-se, oficialmente, a condição de insolúvel a um problema que é uma verdadeira chaga na sociedade, dando-lhe portanto, cunho legal e robustecendo sua existência com consequências imprevisíveis. Parece-nos mais adequado com a época em que vivemos, com o homem em busca de soluções definitivas aos seus problemas, que fosse feito um estudo sério e responsável, voltado mais para o aspecto social da prostituição, notadamente em busca de suas causas e após identificá-las procurar, através de recursos públicos, minorá-las ou exaurí-las. A conotação prostituição com problema ligado a fatores econômicos e de sobrevivência pessoal nos parece clara e nessa faixa deveria ser equacionada visando sua posterior solução.
FOLHETIM Quais as medidas que apontaria para solucionar o problema, ou, no mínimo, extinguir ou diminuir o "trottoir" no Centro da cidade?
PINHEIRO MACHADO — Não cremos que haja uma solução a curto prazo, a solução poderia haver a médio ou a longo prazo, pois o problema é muito mais social do que policial. O "trottoir" é uma consequência da prostituição, e com o abrandamento desta, aquele poderia ser diminuído e até extinguido. Porém, com a prostituição em grande escala, torna-se impossível extinguir o "trottoir” pelos meios legais que dispomos. Evidentemente, não podemos utilizar meios arbitrários ou ilegais. Dentro dos meios legais a que nos referimos há a triagem, a averiguação, que como já vimos, não resolve o problema, mas em muitos casos, de certa forma, o abranda.

domingo, 24 de dezembro de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (63)

Paris, 6/8/1973, AP - "Marthe Richard, a ex-vereadora de Paris que, em 1946, pregou a extinção dos bordéis na França, disse ontem que mudou de opinião e que agora acredita que a verdadeira libertação da mulher deve incluir, até mesmo,o direito de ganhar a vida como prostituta.
A prostituição não é ilegal na França, mas a exploração de bordéis é punida com severas penas de prisão, por uma lei que tem, exatamente, o nome de Marthe Richard, atualmente com 84 anos.
Numa entrevista a uma emissora de rádio, a sra. Richard disse que os bordéis deveriam ser reabertos e autorizados a funcionar livremente, como na Alemanha Ocidental: a lei que tem meu nome é obsoleta, disse ela, acrescentando: durante toda a minha vida lutei não contra a prostituição, mas sim pela libertação da mulher. E, em 1973, a liberdade da mulher exige que ela seja autorizada a fazer de seu corpo o que bem entender".
"Até aí, tudo bem", disse-me um delegado, no Deic.
"Lógico", emendou outro, "a gente também vive num país livre”.
DELEGADO UM — Agora, o que não pode acontecer é você, junto com a sua senhora ou irmã, ou amiga, ou namorada, sair à rua e se defrontar com os escândalos que essas mulheres aprontam.
DELEGADO DOIS — Um cidadão de bem não pode passar pela avenida São João, por exemplo, sem receber uma pilhéria, uma "cantada". Meu Deus do céu, em que tempos estamos!
DELEGADO UM — Então, é por isso que a Polícia se vê obrigada a efetuar a recolha de prostitutas.
DELEGADO DOIS — E de travestis. Os travestis são mais escandalosos que as prostitutas.
DELEGADO UM — E perigosos. Acho que o confinamento seria uma forma, uma solução para o problema da prostituição em São Paulo. A própria Polícia seria beneficiada com isso, uma vez que o trabalho de vigilância, de investigação, se concentra numa determinada área. Confinamento. 
Procuramos o secretário Enio Viegas, da Segurança Pública, para falar sobre o assunto. Ele, no entanto, desculpou-se dizendo que estava muito ocupado e que entrássemos em contato com o delegado geral de Polícia, Tácito Pinheiro Machado (1926-2005).

(CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO…)
Foto e reproduções de Flor Maria e Anna da Hora

sábado, 23 de dezembro de 2023

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (62)

De 70 para cá o "comércio" das chamadas "mulheres de vida fácil" cresceu assustadoramente, e os seus "pontos ", obviamente, duplicaram. Hoje, é comum deparar-se com grupos de garotas, algumas não tão novas, maquiadas ou não, bem vestidas ou não, "convidando" transeuntes apressados para rápidos instantes de "amor”, a qualquer hora do dia ou da noite.
“É bem sabido que a prostituição é um sub-produto da virtude; esta sociedade que compra tudo e tudo vende, hipocritamente condena os serviços daqueles que são usados para manter intactos os tabus e manter no alto os códigos de moral dessa mesma sociedade. Fabricam-se prostitutas como se fabricam roupas; tudo são bens de consumo: joga-se fora a roupa usada. Essas mulheres analfabetas cujas vidas são envenenadas pela humilhação e a miséria ignoram a rebelião que iria reivindicá-las como seres humanos, numa sociedade diferente, sem tarifas para o amor; mas em troca, encarnam-se a si mesmas, numa espécie de exorcismo ao inverso, e projetam para o plano religioso. Encarnam a mesma imagem que o sistema forjou delas, para usá-las e depreciá-las; mas aí, atenção: esse auto-retrato é impresso em negativo, porque o objeto de desprezo passa a ser o objeto de adoração; a abominação abre caminhos para a devoção, e a prostituta decide que é sagrada. Achavam que eu fosse uma cadela? Pois eu sou uma deusa”. (Eduardo Galeano, autor de As Veias Abertas da América Latina)
"Eu e mais uma centena de mulheres iguais a mim fomos detidas pela Polícia. Os tiras nos levaram para o 2.º DP (Bom Retiro). Lá fomos espancadas e tratadas que nem cachorros. É sempre assim. Exigiram ainda de cada uma de nós a quantia de Cr$ 1 mil. E ameaçaram ou dão esse dinheiro ou assinam o 59 (Art.59, vadiagem. Código Penal). Como não aguento mais ser explorada, eu disse vou contar tudo isso ao juiz corregedor. Ai, então, eu ouvi: se for, a sua vida não valerá um vintém." (Baiana).
Foi numa noite de outubro deste ano. Os policiais da Seccional Centro efetuaram uma "Operação Arrastão" e levaram cerca de 100 prostitutas ao 2.º Distrito para "averiguação", segundo eles. Parte dessas mulheres foram liberadas na manhã do dia seguinte. "Eu até tenho um salvo conduto. Eu e outras colegas minhas. Mas os tiras não quiseram conversar. Eles disseram que usavam os salvo condutos como papel higiênico, porque "o que nos interessa é dinheiro". Não dei o que eles queriam e me bateram. Fui junto com outras mulheres ao Fórum, e contei tudo ao dr. Laércio Talli. Agora, morro de medo de sair às ruas, porque juraram me pegar", afirma Elvira Lopes.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

A PARDA ESCRAVA ISAURA

O instituto brasileiro de geografia e estatística, IBGE divulgou hoje dia 22 pesquisa do ano passado que registra a maioria de pardos na população brasileira. Isso me fez lembrar de uma obra prima de Bernardo Guimarães.

Escrava Isaura é um livro de Bernardo Guimarães conta a história da moça que dá título ao livro. É muito bonita e inteligente; fala corretamente a língua portuguesa e outras duas ou três. Sua simplicidade encanta e provoca raiva e desejo.

Guimarães desenvolve sua trama numa fazenda administrada por um português chamado Miguel que teria um caso com a escrava Juliana. Esse caso resultou no nascimento de Isaura. A mãe de Isaura morre e Isaura passa a ser “propriedade” de Ester, esposa de um certo comendador Almeida. Ester morre e seu marido também.

Se a mãe de Isaura era preta e o pai branco, a conclusão é óbvia. Isaura era parda. 

Com a morte do dono da fazenda e sua mulher, a história ganha fortes emoções. E quando surge Leoncio, filho único de Ester e do Comendador.

Leoncio casa-se por interesse com uma rica herdeira de nome Malvina. É simpática e obediente ao marido, que passa a atormentar Isaura com o propósito de satisfazê-lo na cama. Ela reluta e foge da fazenda junto com o pai, Miguel.

Esse livro foi publicado em 1875, 4 anos depois da chamada Lei do Ventre livre. E mais não conto para não quero quebrar o barato do leitor.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

DORNELES É A BOA NOVA


Eu não sei se é o tal do Espírito de Natal, mas o fato é que o dia de hoje começou e tá terminando de modo muito bonito.
Não é todo dia que o lugar onde moro se enche de alegria por receber pessoas queridas que há tanto meus olhos não veem, como o coleguinha jornalista Manuel Dorneles.
Dorneles fez e faz parte da minha vida profissional e pessoal. Trabalhamos juntos durante anos na velha Folha, ao lado de Zanfra, Celsinho, Zé Luiz, Valmir Salaro, Hipólito, Leivinha, Moschela, esses e outros mais sob a batuta do sempre alegre e inspirado Hely Ivanini, com aquele bigodinho ridículo de Clark Gable.
O lado pessoal a que me refiro já no início do parágrafo acima justifica-se pelo fato de a nossa amizade perdurar até hoje, apesar das tempestades naturais que todos nós enfrentamos no dia a dia.
Dorneles é um cabeção, daqueles que fazem questão de participar de modo intenso e rico da vida. Lê, viaja, ama. Tem uma mulher linda: Silvana; e um filho super rápido na inteligência e imaginação, Vitor Lara. 
"O Vitor é maravilhoso! Ele enche de alegria a minha vida e a vida da Silvana", diz sem se conter o pai coruja Dorneles.
Manuel Dorneles volta a minha casa alegre, como sempre; falando coisas bonitas, de passado e futuro. Mas é o presente, em duplo sentido, o que lhe importa. Ele chegou com um destiladozinho nas mãos...
E papo vai, papo vem, Dorneles contou que participou de um livro de crônicas junto com Zanfra, Nereu, Carlão, Zélia, Padovani e Aurélio. Título: Contando História.
Bom nessa história toda é que Dorneles está escrevendo um livro de memórias, com destaque ao que viu, sentiu, mundo afora. São pelo menos 25 países que ele visitou, entre os quais China, Japão, Rússia, Suécia, Estônia, Dubai, Turquia...
Tudo bem, tudo bem, mas faz tempo que eu peço pra esse cara deixar de preguiça e reunir pelo menos parte das belas e necessárias entrevistas que fez com Jair Rodrigues, Inezita Barroso, Rolando Boldrin, Pena Branca e Xavantinho... Todas, e foram muitas, publicadas na extinta revista Kalunga.
A Kalunga foi uma criação do Dorneles e por Dorneles editada por ininterruptos 28 anos.
Esse Dorneles...

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

POIS, POIS: UM POETA PORNOGRÁFICO

O Brasil tem tudo o que todo mundo quer. No que se refere às artes, inclusive. 

Embora até hoje nenhum autor brasileiro tenha recebido o Nobel de literatura, não são poucos e excepcionais os nossos literatos. 

Pra valer, pra valer mesmo, os nossos primeiros poetas deram o ar da sua graça no século 17. O principal e mais afoito, polêmico e inspirado foi o soteropolitano Gregório de Matos Guerra. 

Esse Gregório desenvolveu temas em quadras, sextilhas, décimas e até sonetos. 

O soneto é modalidade poética que data ali do século 15 ou 16.

O italiano Francisco Petrarca foi o cara que deu ao soneto a forma que tem hoje.

Pois bem, Gregório nasceu de pais bem vividos e afortunados o que lhe possibilitou estudar na Universidade de Coimbra. Voltou doutor, com toda bola. Virou religioso, juiz e promotor na Província baiana. Casou-se com uma mulher chamada Maria dos Povos. Viveram bem, mas ele decepcionou-se com a Igreja e pulou fora.

O fato de ele ter se decepcionado com o catolicismo não bastou para calar-se. Pelo contrário, dedicou-se o quanto pôde a escrever poemas detonando religiosos e a elite dominante da época. Isso o fez odiado por muita gente. 

Por não se comportar como a Igreja queria acabou por se transformar no seu maior crítico. O resultado disso foi uma estadia forçada em Angola. Dois anos antes de morrer, deixaram-no sair de Angola de volta ao Brasil.

Gregório de Matos reconciliou-se com a Igreja, mesmo que não lhe permitissem pôr de novo os pés na Bahia. 

Esse poeta é considerado o mais ferino dentre todos os outros. Foi o primeiro e mais completo poeta pornográfico do Brasil, tendo páreo só no século 19, quando como um anjo torto o fluminense Laurindo Rabelo abriu suas asas e mostrou a que veio.

E de Rabelo o clássico As Rosas do Cume. 

Sacou?

Pouca gente poderosa escapou da pena afiada do retumbante Gregório de Matos. Não à toa ele entrou para a galeria dos literatos tupininquim como Boca do Inferno. Morreu em Reclfe, rogando perdão a Deus. 

Foi num dia como hoje, 20 de dezembro, que Gregório nasceu.





terça-feira, 19 de dezembro de 2023

CAMISETA 100% DA PARAÍBA

Novidades para a melhoria da vida de todos. 
Isso mesmo!
Tudo muda, tudo se transforma, como disse um certo grego num tempo em que eu ainda nem existia. E quando tudo se transforma em algo melhor, melhor ainda.
Acabo de ser presenteado com uma belíssima camiseta feita todinha na Paraíba. É toda de algodão. Isto é: 100% de algodão colorido, inclusive.
Nesse belo presente a mim feito pela coleguinha jornalista Cilene Soares tem até uma frase, que nos remete a Graciliano Ramos: Vidas Secas.
Vidas Secas é um livro clássico escrito pelo alagoano Graciliano Ramos. Esse livro foi publicado no começo dos anos 30 do século 20. Conta esse livro a história de uma família nordestina tentando fugir da seca terrível que sofria. Dessa família, além do casal e seus filhos, tem uma cachorrinha fantástica chamada Baleia. 
Essa é uma história fantástica escrita por Graciliano.
Bom, na camiseta que ganhei tem um pequeno impresso escrito em cinco línguas: Inglês, Francês, Italiano, Alemão e Português. 
O que se lê no impresso é o seguinte:
"Este produto é feito de 100% algodão orgânico da Paraíba que já nasce colorido sem uso de aditivos ou corantes.
Por evitar a etapa de tingimento gera 87,5% de economia de água e baixo consumo de energia no processo seletivo.
O nosso algodão é plantado em assentamentos rurais e comunidades tradicionais com contrato de compra garantida. 
Esta ação da Natural Cotton Color é parte do "Projeto Algodão Paraíba", que inclui o incentivo à agricultura familiar para o desenvolvimento social e econômico local.
O algodão orgânico é certificado pela Ecocert e Friends of the Earth".

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