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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

UM HOMEM RIDÍCULO

Não tinha Covid nem nada, mas queria morrer. Matar-se. Para isso comprou um revólver e balas, mesmo com a grana curta e morando numa espelunca.
Faltava a hora exata para a vida com os miolos estourados. 
A hora estava chegando. 
Era noite, umas onze.
Lá fora caia uma chuva fina, fininha, muito gelada.
Olhando para o céu, descobriu uma estrela lá longe. Parecia piscar-lhe. E ele pensou: é hoje. 
Estava a caminho de casa. 
De repente, uma menina de uns oito anos correu a seu encontro tremendo e pedindo ajuda. Ele não deu bola e apressou o passo. A menina implorou. Mas ele fez-se ouvido de mercador. 
Chegou na espelunca em que vivia e arriou numa poltrona. 
Na espelunca tinha um divã, uma mesa e duas cadeiras, além da poltrona. 
Sobre a mesa, alguns livros. 
Na gaveta da mesa, um revólver carregado esperava seu dono. 
Todo mundo o achava ridículo, mas não ligava. Até gostava. 
Fora ridículo desde sempre, desde os 7 anos.
Ninguém sabia o seu nome, sua profissão ou idade. 
Era recatado o homem ridículo que queria matar-se, faltando escolher apenas dia e hora. 
O local era onde morava.
Nada nem ninguém incomodava esse homem. Seu vizinho era um capitão esquisito, que vivia jogando cartas com amigos igualmente esquisitos. O homem dessa história naquela noite rapidamente adormeceu. E sonhou que enfiara um tiro no peito e que esse tiro o levou a outra dimensão onde surpreendeu-se com os habitantes. Todos seres felizes, lindos, alegres, sem dor, sem nada. Um lugar perfeito, onde o amor imperava.
Foi nesse sonho que o homem encontrou o sentido da vida.
Quanto a menininha que tirlintava de frio quando o procurava, perdeu-se no tempo. E mais não contarei. Fica o suspense e a dica para os leitores de bom gosto procurarem o conto O Sonho de um Homem Ridículo, escrito por Dostoievski em 1877. 
Fiódor Dostoievski nasceu há dois séculos e morreu 1881 aos 60 anos de idade. 
 

 
 

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