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sábado, 22 de fevereiro de 2025

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (169)

Dante Alighieri teve uma Beatriz como musa inspiradora. Não foi correspondido.

Francesco Petrarca teve uma Laura como musa inspiradora. Não foi correspondido.

O fato, porém, de esses italianos não terem sido correspondidos pelas respectivas musas não significa que guardassem qualquer tipo de ressentimento. Ao contrário. Tanto Dante quanto Petrarca escreveram belos textos inspirados nas duas musas. Quer dizer: ambos platônicos.

A expressão “amor platônico” data de tempos um tanto distantes, quando filósofos reuniam-se para beber e discutir a vida na velha Grécia. Platão na parada, Sócrates na parada e tantos outros abrindo portas para entendermos as complicações provindas da nossa alma.

Quem leu o Banquete sabe disso. Essa história nos leva a entender os passos que quase sempre damos pra trás. 

Quando há correspondência do amor entre amantes a vida certamente fica muito melhor. Para ambos.

Sorte essa teve o paraibano José Nêumanne Pinto. Apaixonado pela musa querida Isabel tem sido completamente correspondido no amor a ela dedicado. 

Dito isto, digo mais: Eros, Dalila e Sansão misturam-se num banquete com caju, inhame, cuscuz e ovos, queijo de manteiga e carne de sol, castanhas de caju primorosamente preparados e servidos pelo poeta, que também adora comer tudo isso.

Pra ficar melhor ainda esse banquete de amor e alegria, uma violinha ao fundo enfeita tudo.

Nós, pobres mortais, temos mais é que tecer louvores pela existência de dona Isabel por ter inspirado tão belo poema. E chega de prosa, vamos aos versos:


Manual de pintura, cartografia e anatomia

Ou melhor: corpo, alma, dengos e coração da mulher amada


Aqui entre nós Maria Isabel,

a rainha, a mãe, a tia,

a neta, a filha, a poesia;

Pimentel de Castro,

herdeira de engenho,

norte de bússola,

linha do Equador.

Recolhida ao solar de taipa

dos Pinto do Rio do Peixe,

que não tem água nem peixe,

balança na rede de Mãe-Inda,

egressa de outras trempes,

outros cantos, outros tempos

e mais cem anos de solidão.

À sombra das mangueiras,

em moagens de rapadura,

alfenim e cana de cabeça,

na Baixa Verde do clã Ferreira;

e à mesa farta de fruta e pão

de Maria Moreira, na feira sem beira

lá do sem fim do sertão.


Ao norte, esta minha amada

tem dois cérebros de pensar:

um é o templo da deusa Clio,

com seu passado em ordem.

O outro, o altar do bobo Eros,

sob desordens do amor a fazer,

oculto na cortina de cabelos,

que envolve seu crânio

em novelos de fios de ouro,

finos, macios e lisos,

a vigiarem esmeraldas

- dois sóis de ondas do mar,

dois canhões de raios laser,

um casal de araras mudas,

um par de periquitos de estimação.

Os olhos canavieiros de Isabel

ninguém consegue esquecer.

A testa da mestra amada

é feito caixa de Pandora,

proibida de ser aberta,

pois abriga legiões de César,

dispara guilhotinas de Marat,

espouca em cometas e fogos,

revela os segredos de Fátima

e espera dom Sebastião chegar.

As sobrancelhas de Isabel,

que a coroam rainha de Sabá,

protegem a harpa de Davi,

caçoam do saber de Salomão

e contêm a arca da aliança,

da nova e da velha aliança,

da Bíblia, da Cabala, do Alcorão.

No desenho dos lábios que beijo

o Criador traçou as rotas

de caravanas cruzando desertos

a buscarem oásis perdidos

sonhados em delírios nômades

dos contos de Sheherazade,

esquecidos ao acordar.

E boca mais linda não há!

(A voz grave que a esta chega

direto das cordas vocais

- com sensual toque masculino -

dá aulas do que passou

e fantasia o que virá.

Sua palavra traduz o que sente

e entrega o que promete.

Suas sentenças reproduzem

o que aprendeu e o que viverá).

E a perfeição vive em plena

e complexa harmonia

entre os lábios que a compõem

e o queixo em que se precipita

- à frente, o pescoço esguio

e atrás, a nuca solerte e alerta.

Mas tudo seria incompleto

sem seu nariz imperfeito,

que não aponta pra cima

para a ninguém humilhar.

E sem o labirinto das orelhas,

com curvas de risco

e contornos imprevistos,

que nunca levam ao Minotauro.


Sob a cabeça da amada,

ombros sustentam o peso do mundo

com a malícia de Dalila

no corte das madeixas de Sansão.

Seu colo é o vale de lágrimas,

o Muro das Lamentações

de uma Jerusalém particular.

É, também, o adro da devoção

onde o Crucificado agoniza

antes de o lavar o pranto da mãe.

Dos ombros partem braços,

endereços de nosso abraço,

que abarca a história inteira

quando ela vem se repetir:

meus bancos no seminário,

as aulas de português

de Argentina e Francisca Neuma

no Estadual da Prata,

seus passeios de bicicleta

com Cacá, no Junco do Seridó,

onde eu costumava tomar café

no posto de João Galo,

com inhame, cuscuz e ovos,

queijo de manteiga e carne de sol,

castanhas de caju à beira do asfalto

nas curvas da Serra da Viração,

onde almas penadas dançam o baião.

Deles pendem duas mãos pequenas,

com palmas fofas e cheirosas

sob dorsos firmes e bem feitos,

onde pousam aves e beijos

e descem foguetes e aviões.

Mãos que indicam caminhos

e entregam dádivas,

dedos que encurtam distâncias

e recolhem afagos

com suas unhas de cor viva

e nós fortes de massame.

Mãos de menina simples

com meneios de mulher

e feitiços de anjo-bruxa.

Suas clavículas foram feitas

somente para impedir

aos ousados o acesso abusado

a seios sensíveis ao toque

e aptos ao exercício de sugar

e lamber e beijar e chupar

para apenas um par de mãos

e uma língua só que desvende

mistérios de um gozo secreto

que ela pensava ter perdido.

Não é pra qualquer um,

É pra pouco, é só pra um.

(Dentro do peito pulsa o coração,

músculo de bondade e malícia,

capaz de muito mais amar

e se deixar amar em profusão).

(Lá dentro do tal órgão vital,

sopra sua alma capaz

de se entregar e se integrar,

mas só a quem decida amar).


No meio do ventre de Isabel,

o umbigo é o centro do universo.

Foi lá que Marco Polo achou

a trilha do Adriático ao Oriente.

E nele o genovês descansou

antes de singrar ondas no Caribe.

É o miolo do cogumelo atômico,

que caiu em Hiroshima, meu amor.

O reverso do dorso desta mulher

são suas costas de planícies

e nelas a vista se perde

sem tropeçar em contrastes

nem escorregar em lombadas.

Costas sem areia ou pedras

às quais o mar só chega

se ela chegar ao mar.


De um lado, a cintura de Isabel

introduz a gruta de mucosas

sob um bosque de pelos

e é ali que Eros foi morar

com sua destilaria de mucos,

que só ao iniciado cabe provar,

e sua confusão de odores

que uma inteira encarnação

não basta para identificar.

A origem de minha vida

passa por pétalas de rosas

que não me canso de admirar.

Do lado de trás, o Aleph,

orifício de onde tudo se vê,

mesmo o que não existe,

mesmo até o que não se vê,

artifício de uma beleza peculiar

que a nada mais é dado ter.

É o vale mais profundo

entre dois morros simétricos

que o ocultam e lhe dão valor.

Nada é demais ou de menos

nas nádegas de minha mulher:

na parábola de suas ancas,

em que convivem em paz

formas de côncavo e convexo,

tudo está em perfeita ordem,

embora elas provoquem o caos,

a desídia e o conflito nuclear.


Na vida toda nunca pude ver

membros inferiores tão belos

como os que ela tem, acredite.

Em palco, tela, sala ou cama,

mesa, desfile ou via pública,

onde mais pudesse haver,

nada me pareceu ter existido

com que se pudesse comparar:

nem as coxas de Norma Bengell

no filme exibido no Capitólio.

nem as pernas de Cyd Charisse

dançando com Fred Astaire.

Entre coxas e pernas

joelhos discretos, de matar

de inveja os de Nara Leão.

Quando vi pela primeira vez,

julguei que fossem miragem,

que nem pudessem existir.

E a ninguém careço convencer.

Pois é assim que vejo.

E assim é que são:

do magnífico traseiro,

de que descem,

aos pezinhos delicados,

com que só pisam o chão

depois de esmagar minha dor

e perdoar minha perdição.

Seus pés são asas de andorinhas,

sem as quais o inverno não parte,

sem as quais nunca chega o verão.


Ao sul Maria Isabel se dirige

para partilhar o maná caído do céu

e o pão que o diabo amassou,

a par de que vida é pra viver

e não há tempo que se possa perder.


Poema extraído do livro Antes de Atravessar

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

NEGROS E ÁRABES, UMA HISTÓRIA


Cruz e Sousa não foi o primeiro e nem o último poeta negro a morrer com uma mão atrás e outra na frente. Pobre. Antes dele, Luiz Gama marcou época. 

Nascido em 1830, Gama foi vítima de um pai português que o vendeu quando tinha apenas 10 anos de idade. Com o tempo descobriu a tragédia em que fora metido. Alfabetizou-se, virou jornalista e aprendeu o quanto pôde os mistérios das letras jurídicas vigentes na época, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, SP. Na condição de rábula, Luiz Gama defendeu centenas de pessoas negras como ele. A história é longa.

O tráfico de negros para o Brasil começou em 1530, quando Martim Afonso de Sousa chegou ao país trazendo centenas de cativos oriundos da Guiné.

Em 1534, o rei João III de Portugal dividiu o território nacional em 14 capitanias. A maior delas, Pernambuco, foi dada de mão beijada ao capitão Duarte Coelho Pereira. 

Pereira chegou ao Brasil em 1535 e logo providenciou que trouxessem de África mão de obra escrava.

O tráfico de escravos para o Brasil intensificou-se a partir de 1550.

No correr de pouco mais de 300 anos de tráfico intenso, chegaram às nossas terras cerca de cinco milhões de africanos.

Antes dos portugueses, foram os árabes mulçumanos que invadiram o continente negro e de lá levaram na  marra pelo menos um milhão de pessoas. 

Ao Brasil, o primeiro árabe desembarcou no Paraná. Foi no início da segunda parte do século 19. E foram chegando, chegando.... Hoje são mais de 7 milhões, incluindo descendentes. 

Os árabes trouxeram consigo cultura, religião e tal.

Não são poucas as palavras árabes que constam do nosso vocabulário. 

A presença de personagens árabes na literatura brasileira é marcante. 

O escritor mais prolífico na criação de personagens árabes foi o baiano Jorge Amado. O mais conhecido é Nacib, de Gabriela, Cravo e Canela. 

Entre os autores árabes ou descendentes, no nosso país, podem ser citados Raduan Nassar, Salim Miguel, Willian Argel de Mello, Miguel Jorge, Carlos Najar, Antônio Nássara, Raimundo Asfora, Ivan Bichara, Antônio Houaiss, Mário Chamie.

E Milton Hatoum...

Hatoum é autor de poucos, mas densos livros. Um deles, Dois Irmãos (2000), conta a história de dois jovens que cresceram se odiando. Tal e qual ocorreu com os personagens bíblicos Caim e Abel.

Voltarei ao assunto. 


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

CRUZ E SOUSA, UM MESTRE DO SIMBOLISMO


Pois é, morreu pobre e decepcionado com a recepção que teve das pessoas brancas no mundo em que viveu.

O pai e a mãe de Cruz e Sousa (1861-1898), Guilherme e Eva, eram alforriados. 

O "dono" da mãe do poeta, Xavier de Sousa, ficou com o casal alforriado durante muito tempo. 

A mulher de Xavier, Clarinda Fagundes Xavier de Sousa, não tinha filhos e por isso acabou adotando o menino filho de Guilherme e Eva.

Xavier era "coronel", pessoa rica e bajulável. 

Dito isso, acrescentemos: o menino filho de Guilherme e Eva teve assim oportunidade de estudar num colégio da elite da terra onde nasceu, Florianópolis. Aplicado, aprendeu latim e grego.

João de Cruz e Sousa, sobrenome herdado do coronel, foi repudiado por mundo e meio só pelo fato de ser negro. 

Já adulto, Cruz e Sousa apaixonou-se pela literatura poética. Fundou jornais e em 1885 dividiu o primeiro livro,  Tropos e Fantasias, com o colega jornalista Virgílio Várzea. 

A carreira solo poética de Cruz e Sousa foi marcada, a princípio, pelos livros Missal e Broqueis lançados em fevereiro e agosto de 1893, respectivamente. 

As obras aí citadas foram as únicas publicadas em vida do poeta. De Broqueis, ressalto o poema Múmia: 

Múmia de sangue e lama e terra e treva,                                                              Podridão feita deusa de granito        Que surges dos mistérios do Infinito Amamentada na lascívia de Eva

Tua boca voraz se farta e ceva      Na carne e espalhas o terror maldito, O grito humano,  o doloroso grito      Que um vento estranho para os limbos leva.

Báratos, criptas,dédalos atrozes      Escancaram-se aos tétricos, ferozes    Uivos tremendos com luxúria e cio...

Ris a punhais de frígidos sarcasmos    E deve dar congélidos espasmos        O teu beijo de pedra horrendo e frio!...


Curiosidade: a palavra mais citada por Cruz e Souza nos seus poemas é virgem. Ou ainda virgindade ou virginal.

Como todo poeta simbolista, Cruz e Souza fala de amor, vida e morte. O mesmo fariam Alphonsus de de Guimarães (Ismália) e Augusto dos Anjos (Versos Íntimos).

Cruz e Souza é dos poucos poetas que li o que mais falou de música, dança etc. Exemplo é o bonito e provocativo Dança do Ventre.

Torva,febril, torcicolosamente,        Numa espiral de elétricos volteios,    Na cabeça, nos olhos e nos seios      Fluiam-lhe os venenos da serpente. 

Ah! que agonia tenebrosa é ardente!    Que convulsões, que lúbricos anseios,  Quanta volúpia e quantos bamboleios,  Que brusco e horrível sensualismo quente.  

O ventre, em pinchos, empinava todo    Como réptil abjecto sobre o lodo,      Espolinhando e retorcido em fúria.

Era a dança macabra e multiforme      De um verme estranho, colossal, enorme,                                Do demônio sangrento da luxúria!              

A dança do ventre é uma dança de origem muito distante, talvez do tempo do grego Homero. Ou seja, ali pelo século 8 a.C. O berço, Egito. A simbologia tem a maternidade como alvo. Nessa dança, a mulher "usa" o corpo para expressar a alegria da vida. Parece-se com uma serpente em movimentos eróticos.

A dança do ventre espalhou-se rapidamente por todos os países do chamado mundo árabe.

A língua que falamos tem muitas locuções de origem árabe. Fica o registro. 

Cruz e Sousa casou-se no final da última década do século 19 com Gavita Gonçalves, com quem teve quatro filhos. 

Os três primeiros filhos do poeta morreram prematuramente vítimas de tuberculose, mal que também mataria o pai e a mãe. Detalhe: Cruz e Sousa morreu no interior de Minas e o seu corpo foi transportado num trem de carga até o Rio de Janeiro onde foi sepultado. Os custos do enterro correram por conta de amigos como José do Patrocínio. 

sábado, 15 de fevereiro de 2025

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (168)

Maquiavel, Camões, Alighieri, Petrarca, Ariosto

Os tempos medievos na França, Inglaterra, Portugal, Espanha, Itália…

Camões, o sempre admirável Camões, foi um dos grandes literatos portugueses que enriqueceram a língua que adotamos no Brasil e noutros oito países: Angola, São Tomé Príncipe, Moçambique…

Entre os grandes responsáveis pelo brio que tem a língua da Itália se acham Dante Alighieri, Francesco Petrarca, Ariosto, Maquiavel…

De Nicolau Maquiavel (1469-1527) é o clássico O Príncipe, cuja leitura deve ser sempre recomendada a todos e a todas. É política o conteúdo. Mas dele também é o livro A Mandrágora, publicado em 1518.

A história inventada por Maquiavel envolve uma mulher casada. Assim: Calímaco apaixona-se por Lucrécia, que é casada com o legista Nícia. Esse, infértil, recebe um médico para resolver a situação. O médico é falso e amigo de Calímaco que convence o maridão a dar um chá de mandrágora para a esposa. O porém nessa história é que quem primeiro relacionar-se com a mulher, morre, pois além de afrodisíaca a erva é venenosa. O fato é que, ao final, Calímaco se sai bem e deixa na estrada a ver navios mais um corno.

Quanto a Ariosto, de nascimento Ludovico Ariosto (1474-1533), foi um dos mais inspirados e corretos poetas da Idade Média. Deixou uma obra brilhante.

Um dos marcos da literatura de cavalaria é lido até os dias atuais. Título: Orlando Furioso.

Essa obra é constituída de 46 cantos, 4.822 estrofes e 38.576 versos decassílabos. Tudo em oitava, também chamada de Medida Nova. Foi nessa onda decassilábica que Camões desenvolveu os dez cantos que formam o seu clássico Os Lusíadas.

Para ilustrar, um trecho do grande poema de Ariosto:


De Orlando, ao mesmo tempo, direi eu

O que nunca se disse, em prosa ou rima,

Que o amor o pôs em fúrias de sandeu

E lhe tirou de homem cordato a estima;

Isto, se a que igual ma quase me deu

E o pouco engenho me corrói qual lima,

Assentir em poupar-me em tal medida,

Que eu possa dar a obra prometida.


E não custa dizer, ou lembrar, que nessa história criada originalmente por Ariosto movimentam-se figuras encantadas e tal e coisa.

Orlando fica doidamente apaixonado por uma certa Angélica, princesa do Catar, que o provoca de todas as formas.

O juízo do personagem, tomado pelo ciúme, foi parar na Lua. Lá pras tantas, outra figurinha do romance, um certo Astolfo, ganha asas e vai pegar no céu o que falta na cabeça de Orlando.

Tem briga a dar com pau nesse romance.


Foto e ilustrações de Flor Maria e Anna da Hora

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

PRESENTE PERIGOSO


Pois bem, a história começa exatamente quando a menina Cândida recebe de presente do padrinho uma escrava de 12 anos para ser sua mucama. Quando ela recebe esse "presente", a casa onde vive com seus pais Florêncio e Leonídia e o  irmão Liberato é toda festa. Enfim, a garotinha estava completando 11 primaveras.

Antes de prosseguir, devo dizer aos queridos leitores e leitoras que o primeiro dos 55 capítulos que formam o episódio Lucinda, a Mucama é todo feito com uma grotesca explanação do autor Joaquim Manuel de Macedo. 

No texto de abertura do referido episódio, Macedo demonstra ou finge demonstrar desconhecimento dos ritos e crenças africanos. Na verdade, ele mete o pau a torto e a direito na formação do povo de África. Isso mesmo, deixando pra lá de claro a necessidade urgente de se pôr fim à escravidão reinante na sua época. 

Bom, dito isso digo um pouco mais a respeito do enredo dessa história. 

A pequena Cândida, entusiasmadíssima com o presente que lhe foi dado pelo padrinho, Plácido, não se contém e logo procura fazer amizade perguntando o que a sua mucama sabia fazer. Resposta foi que sabia lavar, passar, cozinhar e fazer boneca de pano.

Os dias, semanas e meses passam-se formando anos. 

Cândida tinha lá seus 15 anos quando parecia já conhecer de sobra a vida mundana. A influência da mucama sobre ela era muito grande. 

Foi Lucinda do alto de seus 16 ou 17 anos, quem atiçou prematuramente fantasias eróticas a sua "senhora".

E foi assim que, de uma hora pra outra, Cândida caiu na boca de meio mundo. Entre cochichos, diziam ser ela já uma grande "namoradeira". 

Os namoros ou namoricos de Cândida eram arrumados pela Mucama. Tudo de modo sutil, disfarçado. 

De repente, cai nas suas graças um francês aventureiro, Souvanel. Por ele, ela fica doidinha. Perde o juízo, literalmente. E por pouco, por muito pouco, não vira prostituta ao ser levada pelo amado a um cortiço. É salva no último instante.

Uma coisinha a mais: é com desespero que Cândida descobre ser o francês amante da mucama.

Ao tomar conhecimento da história, o irmão da menina tenta dar uma surra no vilão. Mas, não dá tempo, pois o tal francês é deportado ao seu país ao ser descoberto como criminoso procurado. 

Quanto à mucama... Bom, procurem ler o livro As Vítimas-Algozes. 

No seu tempo, Joaquim Manuel de Macedo chegou a ser acusado de racismo.

No seu tempo, também,  não custa dizer que o poeta catarinense Cruz e Souza foi acusado de omissão por não envolver-se no movimento abolicionista. Foi vítima, e é verdade, de racismo. Morreu pobre, vítima de tuberculose, em 1898. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

FEITIÇO CONTRA FEITICEIRO



Ainda bem novo, Nabuco trocou o Rio por São Paulo para fazer Direito. Não concluiu o curso preferindo fazê-lo na capital pernambucana, onde nasceu. 

Ao mesmo tempo que Nabuco voltava a Recife, desembarcavam no porto paulista de Santos Rui Barbosa e Castro Alves. 

Barbosa e Castro Alves foram, pois, colegas na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. 

Bom, é sabido que Joaquim Nabuco e Rui Barbosa eram amigos. Jovens amigos. Os três aqui lembrados tinham a ideia fixa de acabar com a vergonha do escravismo. 

O combate ao escravismo era compartilhado por vários romancistas, incluindo Joaquim Manuel de Macedo. 

A obra de Macedo é extensa e pluralíssima.

O livro As Vítimas-Algozes reúne, como já disse, três textos identificados pelo autor como novelas. 

Esse livro de Macedo começa com o personagem título Simeão. Termina em tragédia, eu também disse.

O segundo texto do livro Pai-Raiol, o Feiticeiro, é um tabefe na cara de quem até hoje gosta de humilhar seja quem for. 

O personagem central é o pai aí citado nominalmente. O demônio em pessoa. Ruim que só. O tal manipula como quer a amante Esméria, uma crioula assim chamada pelo autor. É doida por sexo e transa com tudo quanto é escravo da fazenda onde vive, cujas terras são de um cara chamado Paulo Borges. Quarentão. É casado com uma mulher mais nova do que ele, Tereza. O casal tem três filhos. A história segue. 

O feiticeiro aloprado convence Esméria a seduzir Paulo, que cai na rede dela. A mulher de Paulo endoida.

E por aí vai o enredo tramado por Macedo. Crianças são envenenadas pelas mãos... O próximo programado para morrer também envenenado era, ninguém mais ninguém menos...

O final dessa história é um barato. Tem duelo e nesse duelo morre pelas mãos de outro escravo o tal feiticeiro. 

Lembro que também há um feiticeiro no romance A Carne (1888) de Júlio Ribeiro (1845-1890).

O feiticeiro desse romance, Joaquim, vive matando gente com ervas daninhas. Quando finalmente é descoberto, sai-se mal: é morto queimado pelos próprios companheiros de desgraça. 

É um livraço!

Pouca gente sabe, por isso não custa lembrar, que o bom baiano Castro Alves começou a escrever e a publicar poemas num jornal recifense: A Primavera. Nesse jornal saiu o belíssimo poema Canção do Africano, em 1863.

Por essa mesma época, o poeta baiano escreveu A Destruição de Jerusalém. 

Meu amigo, minha amiga, você sabia que O Navio Negreiro foi escriro em São Paulo?

Castro Alves escreveu esse poema em abril de 1868. No ano seguinte, foi publicado num jornal literário do Rio de Janeiro. 

Um ano antes de morrer, em 1871, Castro Alves publicou o livro Espumas Fluctuantes.

O Navio Negreiro, antes de ser publicado em livro saiu a público na forma de folheto, em 1880. Três anos depois, no livro póstumo Os Escravos. 

A terceira novela do livro As Vítimas-Algozes tem por título Lucinda, a mucana. Começa com uma festa de aniversário. A aniversariante, uma garotinha de 11 anos,  ganha de presente do padrinho uma escrava de 12 anos. 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

AS VÍTIMAS-ALGOZES...JÁ LEU?


Há muita coisa boa pra se ler, muitas dessas coisas reunidas em livros do século 19 pra cá. E de pouco antes até.

São muitos os romances, crônicas, poemas, contos, biografias e tal. Assuntos variados, desde amor e filosofia a fatos históricos no Brasil e mundo afora. 

Aqui e ali tenho falado sobre o bravo Joaquim Nabuco, que não mediu tempo nem distância para defender do jeito que pôde as pessoas escravizadas no Brasil desde tempos d'antanho, aqui e alhures.

A escravidão sempre foi um mal que por longo tempo resistiu à liberdade. Isso desde a Antiguidade. 

Muitos povos foram dominados e escravizados por outros povos. Mundo cão. Sempre. 

Até fins do século 18 o que chamamos hoje de EUA eram 13 colônias pertencentes à Inglaterra. Houve discussão, briga. O pau cantou. Em resumo: o primeiro presidente de lá foi George Washington. O segundo foi John Adams e o terceiro, Thomas Jefferson. 

O Jefferson aí citado foi, antes de virar presidente, o principal redator da Declaração de Independência (1776) do seu país e governador da Virgínia. Depois disso, dividiu a chapa presidencial com John Adams. E atenção: a figurinha aí ao morrer deixou em testamento 246 dos 600 escravos que tinha. Fora isso, gerou meia dúzia de filhos com uma de suas escravas.

O mundo está sempre dando voltas.

O livro Minha Formação é um livro autobiográfico, que foge dos padrões comuns. Nele o autor, Joaquim Nabuco, conta tudo e mais um pouco do que viu e ouviu. No correr do tempo em que viveu. Lembra a grande influência que a madrinha Ana Falcão teve na sua vida. De modo não linear, Nabuco conta dos ídolos da escrita que o influenciaram. O principal desses foi o francês Ernest Renan, sobre quem chegou até acescrever um livro.

Joaquim Nabuco passou a ter o nome mais divulgado pela imprensa inglesa, a partir do momento que denunciou o trabalho escravo numa empresa do Reino Unido.

Essa é mais uma razão pra se ler Minha Formação. 

Antes de Nabuco abraçar a causa abolicionista, autores como Antônio Gonçalves Teixeira e Souza, autor do primeiro romance brasileiro (O Filho do Pescador; 1843) e Joaquim Manuel de Macedo, autor de A Moreninha (1844), abordaram com grande propriedade a temática escravagista nas suas obras. Outros autores os seguiram, como José de Alencar e Machado de Assis. 

É de doer na alma o livro As Vítimas-Algozes (1869), de Manuel de Macedo. Esse livro reúne três contos ou novelas que têm personagens negras de comportamento ou sina como tal sugere o título. Começa com Simeão, uma criança negra adotada por um casal de brancos: Domingos Caetano e Angélica, pais de uma menina linda chamada Florinda. 

Nas duas dezenas de capítulos bem resolvidos, a história finda em tragédia. 

Meu amigo, minha amiga, esse livro é pra lascar! Leia-o.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

NABUCO, O PAPA E OUTRAS HISTÓRIAS



Olá, pessoal. Pergunto: quem de vocês aí teve a oportunidade de ler o livro Minha Formação?

Nesse livro o autor, Joaquim Nabuco, conta o que viu e viveu no Brasil e no Exterior na segunda metade do século 19.

Entre tantas coisas que diz, registra a audiência particular que teve com o papa Leão 13 (1810-1903). Esse encontro ocorreu na sexta-feira 10 de fevereiro do ano de 1888. Conversa vai conversa vem, Nabuco finda por convencer o Pontífice da necessidade de o Brasil acabar de vez com a vergonha que representava a escravidão de homens e mulheres em nosso território. 

Finda a audiência, o papa prometeu produzir uma Encíclica apoiando integralmente a causa abolicionista.

Promessa feita, promessa cumprida. 

O detalhe disso tudo é que a Encíclica,  datada de 5 de maio de 1888, só chegou aos bispos do Brasil dias depois da assinatura da Lei Áurea assinada pela princesa Isabel. 

Curiosidade: o primeiro brasileiro a ser recebido por Leão 13 foi Nabuco e o segundo foi  padre Cícero. 

O livro, Minha Formação, conta exatamente o que sugere o título: o nascimento em Recife e a infância até os oito anos no engenho Massagana, ao lado da madrinha Ana Rosa Falcão. E vai, vai, vai até 1900. É nesse ano que publica o referido livro que tanta atenção chamou da gente sabida da Corte e redondezas. 

Nas páginas de Minha Formação, Nabuco conta suas idas e vindas à Europa e EUA. 

Numa dessas viagens, o famoso e mais aguerrido abolicionista pernambucano dá de encontro com uma belíssima carioca, bem vestida e rica que só.

A jovem fez bater aceleradamente o seu coração: Eufrásia Teixeira Leite. Ela tinha 21 anos e ele 22. Foi paixão à primeira vista, mas o prurido do mancebo o fez desistir de um possível enlace matrimonial. Financeiramente, achava-se pobre.

Enamorada, Eufrásia mandava com frequência cartas a seu querido. Dele, porém, recebia poucas respostas. 

Realmente é muito bom esse livro. Lá estão passagens pela política. Foi deputado. Conta seus estudos nas faculdades de Direito de São Paulo e Olinda, PE.

Entraram para os anais da história discursos que fez em momentos decisivos para a libertação dos escravos.

E, fisicamente, como era esse personagem?

O jornalista, poeta, romancista e professor de Direito Afonso Celso Junior, também deputado e filho do Visconde de Ouro Preto, descreveu Nabuco como sendo um homem alto, branco, bigode provocativo e bem cuidado que costumava cofiá-lo enquanto ouvia amigos e amigas. Simpático, era um bom ouvinte. 

Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo nasceu no dia 19 de agosto de 1849. E morreu em Washington no dia 17 de janeiro de 1910. Foi o primeiro embaixador do Brasil nos EUA. Falava inglês, francês, italiano e latim. Casou-se em 1889 com Evelina Torres Soares Ribeiro, com quem teve cinco filhos: Carolina, Mariana, Maurício, Joaquim e José. 

Bom, se alguém aí ainda não leu Minha Formação, recomendo que leia-o.




domingo, 9 de fevereiro de 2025

ADEUS, VITAL FARIAS



 Já disseram e certamente ainda hão de dizer que "a vida é de morte".

E é mesmo, pois nascemos, vivemos e morremos. 

Ninguém nasce pra ser semente, tirante o fato de que como bichos humanos nos perpetuaremos até o fim dos tempos. E está perto, bem perto, bem pertinho... Pois, os poderosos donos do mundo em que vivemos continuam brincando com bombas atômicas e outros que tais igualmente mortíferos. O fato de momento é que nossos dias estão contados pelo Homem lá de riba.

A cada dia que passa penso estar ficando mais e mais só, pois os amigos têm partido sem se quer se despedir. Agora mesmo foi o querido Vital Farias, cuja carreira acompanhei desde o início. 

Antes, bem antes de Vital, foram-se Manezinho Araújo, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Rolando Boldrin, Téo Azevedo, Otacílio Batista, Sebastião Marinho, João Paraibano, Valdir Teles, Patativa do Assaré, Luiz Vieira, Chico Salles, Audálio Dantas, José Ramos Tinhorão, Paulo Vanzolini, Inezita Barroso, Marinês, Carmélia Alves...

Tem hora, confesso, que pego o telefone pra ligar pra uma dessas pessoas aí citadas. Há tempo caiu em mim dando conta de que fulano e beltrano já não se acham perto de mim.

A última vez que Vital me telefonou faz um mês ou pouco mais ou menos de um mês. Dizia que estava se preparando pra me abraçar cá em Sampa, mas aí o coração o traiu, levando-o para a Eternidade. 

Neste Blog tem muita coisa que escrevi sobre Vital e mais os amigos aqui citados. 

Vital Farias foi o 51° filho de um mesmo pai. Partiu com 82 anos de idade e deixou, pelo menos, uma dezena de rebentos de seu próprio sangue. 


LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (167)

O Brasil foi o último país a descravizar pessoas.

Essa é informação que dói na alma.

Pela primeira vez, o dia 20 de novembro foi considerado oficialmente data nacional: Dia da Consciência Negra. Isso ocorreu em 2024.

O dia 20 de novembro é o dia da morte de Zumbi.

Zumbi, na pia batismal recebeu o nome de Francisco.

Quem deu esse nome a Zumbi, foi um padre que o criou: Antônio Melo.

Essa questão ainda hoje é discutida por muita gente boa.

Há nas cadeias do Brasil mais pretos e pardos do que brancos. E pobres de marré, marré, marré.

O médico Dráuzio Varella surpreendeu os leitores brasileiros com o seu bombástico livro Estação Carandiru, lançado em 1999. Foi enorme a polêmica. Esse livro como os dois outros que se seguiram, Carcereiros e Prisioneiras, talvez tenham contribuído para a decisão do então governador Geraldo Alckmin em demolir o velho presídio de que tratam os livros de Varella.

A leitura de Estação Carandiru dói e mexe com nossas ideias, principalmente no ponto que conta a invasão policial que resultou em 111 mortos.

Há muitas histórias nesse livro. Uma delas:


Mulher de cadeia casada jamais circula pela galeria, e para descer ao pátio, só acompanhada. Para casar, o marido deve estar em boa situação financeira, pois a ele cabe o sustento da casa; a ela, a submissão ao provedor. De forma velada, alguns condenam, mas a união é respeitada socialmente. O parceiro passivo não é considerado do sexo masculino. Nos estudos que conduzimos, não bastava perguntar se mantinham relações homossexuais. Era preciso acrescentar: e com mulher de cadeia? Antes das visitas íntimas, a homossexualidade era prolífica. Uma vez, dei o resultado positivo do teste de AIDS para um ladrão desdentado e perguntei-lhe se havia usado droga injetável no passado: 

— Nunca. Peguei esse barato comendo bunda de cadeia. Muita bunda, doutor! 


A vida na cadeia é uma vida inimaginável pra quem está fora dela.

Varella não minimiza nenhuma piscada registrada por seus olhos.

Pela memória de Dráuzio Varella circulam em Carandiru problemas profundos e almas de gente, de pessoas.

Na cadeia, a vida de um pobre preto ou de uma pobre preta é a mesma. Dura, duríssima.

Imaginem, pois, uma mulher negra, gay, prostituta, pobre…

A sociedade, não só no Brasil, condena de olhos fechados a miséria de quem vive pobre e aparentemente sem futuro. Principalmente quando esse pobre sem futuro é negro ou negra.

Nessa linha de realidade e interpretação segue Dráuzio Varella no livro Prisioneiros.

Nessa mesma toada segue a leitura do livro Presos que Menstruam. A autora, Nana Queiroz, leva às páginas a história de mulheres que caem no crime e são presas e condenadas a cumprir pena na cadeia. Começa com Júlia que cedo perde a infância, engravida e coisa e tal. Nana não mede palavras pra contar o que conta nesse livro.

Pois é, a realidade é terrível aqui e alhures. Mas até no mundo da fantasia há histórias que nos levam a pensar e a sofrer por contingências diversas.


Foto e ilustrações de Flor Maria e Anna da Hora

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