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quarta-feira, 6 de maio de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (28)

 

O grande poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973) deixou uma obra enorme, em todos os sentidos. 

Ainda na adolescência costumava escrever dois a cinco poemas diariamente. 
Com a idade de quinze ou dezesseis anos, Neruda publicava seus escritos em periódicos da sua terra, em capítulos. 
Em 1923, o mestre chileno das letras estreava no mundo da poesia com o livro Crepusculário. Nesse livro se acha o soneto Velho Cego, Choravas. Ei-lo:

"Velho Cego, choravas quando a tua vida
era boa, quando possuías nos teus olhos o sol:
mas se o silêncio já chegou, o que é que esperas,
o que é que esperas, cego, desta maior dor?

Em teu rincão pareces menino nascido 
sem pés para a terra e sem olhos de mar
e como os animais dentro da noite cega
- sem dia e sem crepúsculo - cansas de esperar.

Porque se conheces o caminho que leva
em dois ou três minutos para a vida nova,
velho cego, o que esperas, que podes esperar?

E se pela amargura mais dura e destino, 
animal velho e cego em caminho e tino,
eu que tenho dois olhos saberei te ensinar".


Neruda andou por nossas plagas entre 1945 e 1954, ciceroneado pelo bom baiano Jorge Amado. E não custa dizer que, ao contrário do argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), detestava poderosos de direita. E ao contrário de Neruda, que era declaradamente comunista, Borges que tinha especial admiração por poderosos fardados, desenvolveu toda a sua literatura sem a visão dos olhos. É dele o poema Um Cego. É muito bonito:


"Não sei qual é a face que me fita
Quando observo a face de algum espelho;
No seu reflexo espreita-me esse velho
Com ira muda, fatigada, aflita.
Lento na sombra, com as mãos exploro
Meus invisíveis traços. O mais belo
Fulgor me atinge. Vi o teu cabelo 
Que é já de cinza ou é ainda de ouro.
Repito que perdi unicamente 
A superfície sempre vã das coisas.
O consolo é de Milton e é valente,
Mas eu penso nas letras e nas rosas,
Penso que se pudesse ver a cara
Saberia quem sou na terra rara".


O mestre argentino tinha entre seus leitores o conterrâneo que virou papa: Francisco. 
Outro grande poeta que findou seus dias cego foi o inglês John Milton (1608-1674).
John Milton escreveu muita coisa bonita em línguas diversas: latim, italiano, inglês, francês, alemão etc. Entre seus escritos poéticos se acha Paraíso Perdido de 1667, no qual há um embate entre Deus e o Diabo. 
Ainda não foi dito, creio, que o nosso Machado de Assis inspirou-se em Milton para escrever o conto A Igreja do Diabo de 1884. Tanto numa como na outra obra, o Diabo acaba onde sempre deveria ou deverá estar: no Inferno. 
É em Paraíso Perdido, poema desenvolvido em 10.565 versos brancos, que se lê a famosa frase "É melhor reinar no Inferno do que servir no Céu".
Atenção meus amigos e amigas, pergunto: o Milton a quem nos referimos é o Milton nascido e crescido na Inglaterra. Enfim, lá na terra dele chegou a ser preso político por criticar a monarquia. Detestava esse tipo de governo. E por defender o que defendia politicamente, pagou caro: seus direitos foram cassados, inclusive o da profissão que exercia como professor. 
O mais importante épico poético na língua inglesa de Shakespeare foi feito por John Milton e nasceu de modo ditado quando já estava completamente cego.

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