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quarta-feira, 20 de maio de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (34)

Assis Ângelo entrevista Glauco Mattoso

É sério, como se vê, o papo cego, este papo cego que iniciamos no

dia tal neste nosso Jornalistas&Cia. Há pouco, enviei uma dúzia de perguntas ao camarada Glauco Mattoso. O cabra é bom. Bom, não: é ótimo. 

As perguntas que pediram respostas podem não ser o suprassumo de um caboco como eu, mas as respostas são pra lá de ótimas. Dividimos este papo pelas ondas da Internet em duas partes. Na primeira, Glauco conta de si e dos outros findando com citação ao mestre inglês John Milton. Esse Milton, autor do clássico Paraíso Perdido nasceu no 9 de dezembro de 1608. E deste planetinha despediu-se em no dia 8 de novembro de 1674. Bom, vamos nessa edigam o que acharam.

1. Glauco, conte-nos um pouco sobre a sua vida incluindo filiação, irmãos etc...

GM - Ja fallei e escrevi muito sobre tudo isso e muito ja escreveramsobre mim. Mas neste caso nossa conversa é como si fossebattepappo entre collegas no bar. Vale repisar toda a coisa. Paracomeçar, quem lê para você vae reparar que escrevo pela antigaorthographia neste computador fallante. A orthographia é uma deminhas muitas manias e faz parte da rebeldia que me characteriza. Nocaso, contra um sacco de gattos pingados que se acha no direito decagar regras a toda uma communidade lusophona. Ser retrô, àsvezes, significa ser anarchista, até vanguardista. Mas vamos la. SouFerreira da Sylva só por parte do avô paterno, mas os outros antepassados são italianos, os Canettieri e os Torrezani. Sou da ZonaLeste de Sampa, redondezas da Mooca. Mais velho de trez irmãos. Só eu nasci com glaucoma, como o Ray Charles e o filho do Roberto Carlos. Ray Charles não era rico e perdeu a visão ainda creança. O filho do Roberto, mesmo rico, tambem accabou perdendo.

Eu, da classe media baixa, passei por oito cirurgias, perdi primeiro o olho direito e, ja muito myope, o olho esquerdo depois dos quarenta. 

Suppondo que ficaria cego, e sem poder fazer tudo que a molecada fazia, virei leitor e escriptor desde cedo. Melhor alumno tambem, claro. Por causa disso sempre me bullyingavam, dentro e fora da eschola, e por causa disso virei sadomasochista: me fizeram lamber pés e chupar paus. 

Molecada typica de peripheria: nos annos cincoenta os arredores da avenida Sapopemba ainda eram muito baldios e os mattagaes o melhor scenario para curras entre moleques. Trauma duplo, o da deficiencia visual e o das curras, mas a litteratura serviu para desabbafar e a poesia para glosar. Para gozar, bastava a punheta. Até que eu encontrasse minha turma, nos annos septenta, nos gruppos de theatro e de militancia gay. Emquanto isso, me formei bibliothecario, trabalhei como bancario e desbundei como um dos poetas "marginaes" daquella geração. O que me destaccou foi um poezine muito anarchico, chamado JORNAL DOBRABIL (parodiando o JORNAL DO BRAZIL), que era uma folha dobravel, ou seja, "dobrabil". Recyclei a anthropophagia oswaldiana, mas, como sou mais escatologico, a minha foi uma "coprophagia". Durante a dictadura, tal irreverencia chamou a attenção dos artistas e intellectuaes. Virei discipulo do Augusto de Campos e do Millor Fernandes, que me davam força. Até Caetano Velloso deu. Esse pamphleto virou livro e se tornou meu chartão de visita. Em seguida escrevi um romance autobiographico, o MANUAL DO PODOLATRA AMADOR: ADVENTURAS E LEITURAS DE UM TARADO POR PÉS, onde narro essa porra toda. Mas o que eu queria mesmo era ser poeta. 

Junctei os poemas do DOBRABIL em livro, mas não eram os sonnettos que hoje faço. Essa disciplina e esse rigor vieram depois da cegueira completa, ou talvez por causa della, ja que a metrica e a rhyma adjudam a memorizar e a compor na cabeça antes de passar para o computador fallante. Prompto, fallei, por fallar nisso.

2. Sei que o seu nome de batismo é Pedro José Ferreira da Silva.

Como surgiu o pseudônimo Mattoso? Conte detalhes.

GM - Paresce piada prompta. O portador de glaucoma é

glaucomatoso. Claroque eu percebi a analogia com Gregorio de

Mattos, outro satyrico e fescennino. Mas a intenção era usar meu

logar de falla como deficiente para sacanear todas as deficiencias

como parte duma "missão" sadomasochista, ja que meu pae era

kardecista e eu, embora não siga nenhuma chartilha, me tornei uma

mixtura de antagonismos: sou exsistencialista e espirita. A


contradicção e o paradoxo são outra de minhas manias. Gosto de

explorar os conflictos humanos, a dupla personalidade, entre a

perversão e a perversidade, entre a compaixão e a

humanidade, en tudo e em todos. Por isso desdenho das censuras,

que só visam a apparencia pornographica exterior, ignorando

contehudos mais profundos. Nem sei o que é peor, a censura de

"bons costumes" da direita ou a "politicamente correcta" da esquerda.

Para mim, pisar no callo dos excluidos me irmana a todos os

injustiçados, os da graça divina e os da desgraça humana.


3. Particularmente, tenho muita dificuldade de aceitar com

naturalidade o problema que me causou o descolamento de retina. Eu

estava entrando na casa dos sessenta. Fui submetido a nove cirurgias

em vão. E você como recebeu a

notícia dos médicos dando conta de que você estava cego? Passou

por tua cabeça a ideia de suicídio?

GM - Como eu dizia, passei por oito cirurgias, a primeira aos oito

annos e a ultima aos quarenta e quattro. A cada operação, os medicos

repetiam que, si eu continuasse enxergando, estaria no lucro, pois

meu glaucoma congenito é fatal. Perdi o olho direito depois dos vinte e

o esquerdo depois dos quarenta. Ja sem visão no direito, fui morar no

Rio para poder trabalhar como bibliothecario no Banco do Brazil, mas

na verdade eu queria sahir da casa dos paes para não me suicidar

emquanto la morasse, a fim de poupar a familia do choque directo.

Elles receberiam a noticia à distancia. No Rio os abysmos são faceis

de accessar e eu queria seguir o exemplo de outros artistas que se

precipitaram. Para mim a perda do olho esquerdo viria logo, mas não

veiu e segui tocando a vida, mas ja convivendo com gente do meio

artistico e intellectual. Foi la que comecei a editar o DOBRABIL. Isso

me entreteve e accabei addiando o suicidio. Na volta a Sampa,

comecei a morar em appartamento (no Rio a pensão ficava num

casarão), primeiro num segundo andar, depois num nono,

donde planejei me jogar assim que perdesse o olho esquerdo. Depois

da perda total, mamãe veiu morar commigo uns mezes e addiei de

novo. Mais tarde, percebi que conseguia me virar sozinho dentro de

casa e, de repente, o sobrenatural interferiu. Traduzi Borges juncto


com o professor Jorge Schwartz, ganhamos um Jaboty pela

traducção, e adquiri meu primeiro computador fallante, installado com

o programma DOSVOX, da UFRJ, editor de texto que uso até hoje.

Esse programma me permittiu digitar tudo que vinha na cabeça,

inclusive uma poesia rhymada e metrificada que eu nem imaginara

poder compor. No primeiro anno, passei dos trezentos sonnettos e, no

terceiro, dos mil. Hoje passei dos quattorze mil poemas, interrompi

varias vezes a producção poetica para escrever e publicar outras

coisas e, depois de duzentos livros, entendo que esse affan me

dissuadiu do suicidio, appesar duma cegueira cada vez

mais soffrida com a chegada da velhice e de outras doenças, como a

neuropathia diabetica. Entretanto, a coincidencia com Borges não foi

só na cegueira progressiva e na perda em meia edade: foi tambem na

vida conjugal, ja que, a exemplo da Maria Kodama, tambem me casei

com um japonez, cuja companhia me reforçou a decisão de ir

addiando o suicidio,

que não está definitivamente deschartado, ja que a morte assistida do

Antonio Cicero me suggere que agora a coisa fica mais viavel.

4. Pra falar a verdade, ainda não me considero com a cabeça

totalmente no lugar. Ainda entro em depressão... A literatura me faz

bem. É como se fosse remédio. Ouço livros e dito textos a pessoas

queridas como a historiadora Flor Maria. E você ouve muito livro,

mexe na Internet com facilidade?


GM - Não gosto de audiolivros. Prefiro ler/ouvir um texto no

computador fallante, digitado por mim mesmo ou por outros auctores.

Meu esposo lê para mim, inclusive jornaes, e ouço radio para me

informar do noticiario. Tambem ouço muita musica em CD e cheguei a

produzir CDs de punk rock em sociedade com o membro duma

dessas bandas. Um desses CDs, chamado MELOPÉA, junctou gente

que musicou meus sonnettos, desde Arnaldo Antunes ao cearense

Falcão. Mas o DOSVOX só me permitte trocar emails,

pois nas redes é meu esposo Akira, alem do meu editor Lucio

Medeiros, quem monitora o facebook, o instagram e o twitter. Nada

disso remedia a depressão, a insomnia e a angustia exsistencial,

todavia. Continuo maldizendo a cegueira e, ao contrario de Borges,

não acho que seja uma dadiva divina. Dadiva foi a veia poetica,


graças à assistência espiritual de Borges, Homero, Milton, Joyce, sem

fallar no Cego Adheraldo...

5. Eu sempre li autores diversos, nacionais e estrangeiros. E você, de

quais autores mais gosta? E gêneros literários como romance, conto,

poesia...?

GM - As influencias directas são do Augusto de Campos na poesia e

do Millor no livre pensar. Com elles convivi e dialoguei. Mas as

influencias remotas vão da sexualidade violada à cantoria violeira,

passando por Sade, Masoch, Aretino, Bocage, Gregorio e chordelistas

da "litteratura de bordel", practicantes da chamada glosa fescennina,

herdeira dos epigrammas latinos e dos goliardos medievaes. Sou,

portanto, um legitimo expoente da tradição pornographica na litteratura

canonica, ja que sou estudado em theses de universidades nacionaes

e extrangeiras. Na prosa tambem curto Genet, Henry Miller, Orwell e

Burgess, mas, como tenho a cultura encyclopedica dos bibliothecarios,

apprecio muitos classicos universaes, de Boccaccio a Rabelais.

6. Acabei de escrever uma série sobre licenciosidade na cultura

popular. Nesse trabalho, que pretendo que vire livro sob o título Do

Popular ao Erudito: o Sexo como Expressão Artística, tem de tudo,

incluindo obras de autores como Gregório de Matos e Guerra, Dalton

Trevisan, Hilda Hilst, Marquês de Sade, Restif de La Bretonne, entre

muitos outros. Você é um apaixonado pelo Boca do Inferno. O que

você tem escrito sobre ele? E no campo propriamente poético, de que 

você mais gosta: quadra, redondilhas, sextilhas, décimas ou sonetos?

GM - Estou nas principaes anthologias eroticas, inclusive a da Eliane

Robert Moraes e a do Alexei Bueno, subtitulada DE GREGORIO DE

MATTOS A GLAUCO MATTOSO. Em Gregorio sigo a linha satyrica,

não só sexual mas tambem politica, alem do modello sonnettistico

camoneano. Minha producção mais volumosa é de sonnettos (onze

mil, um recorde), mas já glosei muito motte e pellejei com gente de

respeito, como o Moreira de Acopiara, que publicou nosso folheto.

Não satisfeito, inventei gêneros alternativos, como o dissonnetto de

quattro quartettos ou o "infinitilho" de estrophes illimitadas, cada

estrophe sem limite de versos, mas rhymadas na sequencia das

anteriores, typo ABCDEFG... O exemplo barroco de Gregorio é


instigante no sentido de crearmos jogos de palavras e eschemas

estrophicos/rhymaticos engenhosos. O concretismo tambem me

estimulou nesse terreno. Em alguns cyclos narrativos mais

longos usei formatos estrophicos variados, como decima seguida de

quartetto, oitava camoneana e verso livre, mas a cegueira sempre

predominando como thema, como em "São Sansão, Sancta Dalilah",

"Evangelho de Judas Izrahiah" ou "Historia da cegueira", estes

reunidos no livro OBSCURAS ESCRIPTURAS, satyrizando a

mythologia biblica, a exemplo do John Milton, que revisitou a lenda de

Sansão.

Meu amigo, minha amiga: você está gostando desse nosso papo?

Tem mais. Aguarde...

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