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sábado, 9 de julho de 2016

A LÍNGUA DO POVO É O BRASIL



O Brasil é bom demais, mas a gente parece não saber disso. E a gente não sabe porque não quer. E é tudo muito bonito.
Falar inglês, neste nosso país brasileiro, é o que há de melhor, para os bestas.
Não que eu seja contra nós nos entendermos em outras línguas, mas falar na nossa língua, principalmente, é fundamental. Se não nos entendemos na nossa língua, como vamos nos entender nas línguas dos outros...?
Deus do céu, eu fico doido toda vez que volto ao ontem. O Ontem é Hoje... E o analfabetismo continua desde sempre. E nós achando bonito o falar grego dos norte-americanos.
Não sei quanto por cento, mas eu sei que é muito, e muito mesmo, o muito de livros traduzidos em muitas línguas para a nossa língua portuguesa, que deveria ser brasileira...
Os governantes, todos os governantes do nosso país desde sempre, mirabolavam em francês, inglês.
Pois bem, nesse falar, e comportamento, a gente vai se perdendo, e os outros do outro lado do Atlântico vão nos engolindo.
Estou fazendo esse arrodeio todo para, mais uma vez, dizer da importância e beleza do meu país patropi.
Ademilde na Borborema

Toda vez que me chega às mãos um livro como “Para Dançar e Xaxar na Paraíba: Andanças de Rosil Cavalcanti”, de Rômulo C. Nóbrega e José Batista Alves, eu passo a ter certeza de que, mais do que existir, o Brasil é o país de nós, brasileiros.
Mas por que não falamos tanto de nós todos, brasileiros, como deveríamos falar?
Em todas as livrarias, principalmente as dos grandes centros, só aparecem em destaque os grandes autores em tradução. Porém, pergunto: por que os autores brasileiros não aparecem também no destaque merecido?
A colonização é uma desgraça.
Biografias de personalidades estrangeiras ganham no Brasil destaque fenomenal. Por que isso não acontece com personalidades e personagens da vida cultural brasileira?
O mundo é regional, e no seu regionalismo há a universalidade e o particularismo.
Aprendemos com isso ou não. No universalismo e no regionalismo podemos entender a grandeza e pequenez de todos nós.
Luiz Gonzaga toca na Borborema

Quando um autor escreve sobre um artista, em qualquer língua, é porque o artista representa o universalismo.
Rosil Cavalcanti é um autor universal, por traduzir o pensamento comum da universalidade popular. Agora, é o seguinte: como escrever isso, de que forma escrever isso, de que forma dizer de maneira que todo mundo entenda?
Rômulo Nóbrega, economista de formação, num momento de inspiração e municiado pelo acervo do pernambucano José Batista Alves, decidiu trazer à tona um dos personagens mais importantes da cultura musical do Nordeste: Rosil Cavalcanti. Numa linguagem simples, fácil, compreensível para todos os comuns, abundante em informação, provando que é possível escrever de modo natural e direto, sem o academicismo rançoso, chato, que incomoda quem lê o beabá, por não dizer nada.
O livro “Pra Dançar e Xaxar...”, nas suas tantas e tantas páginas, traz personagens muito importantes da história da Paraíba ou que viveram na Paraíba, como Chacrinha, Capiba, Marinês, Luiz Gonzaga... Detalhe: em 1950, Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, lançou em praça pública de Campina Grande o baião “Paraíba”...
O livro de Nóbrega e Alves traz um perfil muito bonito e necessário para compreender a cidade paraibana de Campina Grande, que o multitudo Rosil Cavalcanti escolheu para viver e se eternizar; e não à toa muito bem observado pelo prefaciador, Agnello Amorim. Agnello, em muitos momentos, no seu texto conciso, lembra as atividades múltiplas do biografado.
Agnello Amorim, prefaciador

Marinês dança com Rosil
Rômulo Nobrega fala a fala do povo, falada por Rosil Cavalcanti nos microfones da Rádio Borborema, inventada pelo paraibano de Umbuzeiro Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, aquele que trouxe para o Brasil a televisão.
Não que eu seja contra que se traduzam livros em quaisquer línguas para os nossos olhos, e ouvidos. Mas é importante escrever sobre os personagens da vida cotidiana do nosso País, para nosso deleite e registro histórico.
Acho que deveriam ser escritos livros sobre a vida, e principalmente obra, de Sidney Miller, Gordurinha, Manezinho Araújo, Raul Torres, Billy Blanco e Bahiano; este, especialmente, por ter sido o primeiro cantor profissional que o Brasil teve. Ele nasceu na mesma cidade em que nasceu Caetano...


VIVA DRUMMOND!

O mestre da poesia de Itabira, universal, Carlos Drummond de Andrade, continua sendo homenageado por sua grandeza na memória do povo brasileiro. No último dia 3, mestre Drummond foi mola corrente na memória do país. Como?
Paraisópolis, pequena cidade no sul de Minas Gerais, realizou sua 6ª Caminhada Poética, "Tinha um Drummond no Meio do Caminho”. Ideia de um professor, José Antonio Braga Barros, inspirado na Semana Roseana de Cordisburgo (MG), dedicada à obra de Guimarães Rosa.
Duzentas pessoas, a maioria de fora de Paraisópolis, fazem uma caminhada de três horas, com dez paradas, nas quais o Grupo de Teatro Toque de Arte declama poemas do itabirano. A caçula do grupo é Maria Isabel, de 10 anos. A próxima caminhada será em 2 de julho de 2017.


 
Paraisópolis durante a caminhada (Foto: Vitor Nuzzi)

sábado, 2 de julho de 2016

LIVRO ETERNIZA ROSIL CAVALCANTI

Ele era doce e dócil, inquieto, nervoso, sereno, contraditório, autossuficiente, prepotente e amável. Ele era a mistura de tudo e mais alguma coisa. Era amigo dos amigos. Era solidário. Ele era isso e muito mais. Era jornalista, compositor, arranjador, cordelista, ator, radialista. Ele era isso tudo e muito mais. Tinha amigos e inimigos. Entre seus amigos, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga e Raimundo Asfora (1930/1987), poeta, advogado e deputado pela Paraíba, que fez bem a muita gente.
Estou me referindo ao pernambucano Rosil Cavalcanti (1915/1968), com “i”, pois, na Paraíba e redondezas, quem não é Cavalcanti é “cavalgado”...
Fiquei sabendo disso tudo após história contada no livro Pra Dançar e Xaxar na Paraíba: andanças de Rosil Cavalcanti, de Rômulo C. Nóbrega e José Batista Alves, lançado em fins do ano passado e já praticamente impossível de ser encontrado nas livrarias do Nordeste e, no Sudeste, então...
A obra de Nóbrega e Alves é excepcional sob todos os aspectos.
A história do multitudo Rosil Cavalcanti, dividida em nove capítulos no livro de mais 400 páginas, começa em 1950, numa reunião comandada por Hilton Mota para a escolha do primeiro jornalístico da Rádio Borborema, da rede Associada do paraibano, de Umbuzeiro, Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello (1892 - São Paulo,1968), que nesse mesmo ano presentearia o Brasil com a televisão, que hoje é o que vemos. Hilton Mota, figura impoluta com quem trabalhei na Rádio Correio da Paraíba, no começo dos anos de 1970, era o bam-bam-bam da Borborema, na época de Rosil.
É uma história incrível essa contada no livro Pra Dançar e Xaxar na Paraíba. Os autores Rômulo Nóbrega e José Batista Alves, passaram mais de duas décadas para concluir a tarefa que se propuseram a fazer. O resultado pode ser medido pelo volume enorme de matérias publicadas pela imprensa nacional.
Antes desse livro, confesso que desconhecia a trajetória do biografado e a importância real que ele significa para a música popular brasileira, especialmente no tocante aos ritmos nordestinos ou regionais que ele tão bem desenvolveu.
O primeiro intérprete a registar em disco as composições de Rosil Cavalcanti foi o paraibano, de Alagoa Grande, Jackson do Pandeiro. Aliás, Jackson estreou em disco com uma música de Rosil: Sebastiana. Isso foi em 1953.
Depois de Jackson, vieram Luiz Gonzaga e inúmeros outros intérpretes.
O livro de Nóbrega e Alves é de um conteúdo riquíssimo, que vai ao extremo das minúcias. Os autores falam de Macaparana, o berço de Rosil. Falam da sua trajetória por boa parte do Nordeste, incluindo Alagoas e Sergipe. E falam, naturalmente de Campina Grande, a cidade que recebeu de braços abertos o autor de Sebastiana e Faz Força, Zé, essa última, lançada em disco pelo Rei do Baião.
Rosil Cavalcanti compôs pouco mais de 80 músicas, 24 delas lançadas por Jackson do Pandeiro.
Entre os clássicos populares deixados por Rosil, destaque para Tropeiros da Borborema. Essa música, uma toada, foi feita em parceria com Raimundo Asfora.
Todos os capítulos Pra Dançar e Xaxar na Paraíba, enriquem no seu conjunto, a obra e a trajetória do biografado. Detalhe: o nono capítulo, o final, traz curiosidades impagáveis sobre Luiz Gonzaga. E chega. Deixo pra vocês leitores ou futuros leitores que descubram essas curiosidades.
Pra Dançar e Xaxar na Paraíba, é um livro deliciosíssimo que traz à tona, com fidelidade, a beleza da cantiga nordestina. 




sábado, 25 de junho de 2016

SEMANA TUMULTUADA E VIVA HERMETO PASCOAL!

Os últimos sete dias foram agitados, no Brasil e no resto do mundo. No começo da semana, Cunha reuniu a imprensa para tornar verdade as suas mentiras. Isso foi em Brasília. Também em Brasília, durante a defesa de Dilma, o advogado Cardoso botou os pés pelas mãos e disse uma besteira. Na verdade, ele cometeu uma gafe infantil que levou o senador Cássio Cunha Lima a lembrar o lendário poeta repentista Zé Limeira.
Zé Limeira, chamado de O Poeta do Absurdo, era muito admirado por outro poeta, esse paulistano, Paulo Vanzolini, autor dos sambas Ronda e Volta Por Cima, imortalizados por Inezita Barroso e Noite Ilustrada.
Logo no começo da semana, o presidente pendurado da Câmara Federal, o Cunha, foi mais uma vez tornado réu pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Foi, de fato, agitada a semana que finda hoje.
A população que forma a União Europeia acordou, se é que acordou, estarrecida com o resultado do plebiscito realizado pelo governo – parlamentarista – do Reino Unido. Isso foi no último dia 23 e o resultado chocante leva os ingleses a saírem da União Europeia, que existe há mais de 60 anos.
Em Havana, Cuba, a Colômbia firmou acordo de paz com as FARC. Os guerrilheiros da FARC depõem as armas depois de mais de 50 anos. Ambos eventos são históricos, sem dúvida. Mas o plebiscito que faz os ingleses deixarem o bloco europeu é o mais importante; pois, com isso, a União Europeia pode estar registrando o início do seu fim. Tomara que não...
Ah, mais um outro grande evento ocorreu na semana que passou e pouca gente registrou: o aniversário do mestre Hermeto Pascoal. Hermeto, nascido na cidade alagoana de Olho D’Água das Flores, completou 80 anos de idade no último dia 22. E tão importante quanto a sua idade, é a quantidade de músicas que ele compôs até aqui: oito mil.

E, por falar nele, assista uma conversa que tivemos em São Paulo. Dela também participam Aline Morena e a Rainha do Baião, Carmélia Alves. Veja neste papo Hermeto explicando o que é baião. 

sábado, 18 de junho de 2016

KAFKA NO RIO SE SENTIRIA EM CASA...

O Rio de Janeiro, fevereiro e março, amanheceu em estado de calamidade pública. É novidade histórica, isso nunca aconteceu. Um horror! As balas perdidas continuam zunindo no pé-do-ouvido dos inocentes. Quer dizer, tudo anda na mesma, ou seja: a Bahia da Guanabara permanece fétida, o trânsito e pedestres seguem firmes na sua loucura descomunal. E é roubo pra cá, roubo pra lá... Kafka no Rio se sentiria em casa; e nem precisaria escrever nada pra se sentir em casa, pois o absurdo da sua ficção aparece lá como pura realidade.
Ouço no rádio que os estabelecimentos hospitalares estão a cada instante cerrando suas portas e deixando à míngua quem deles precisa. E aí é gente baleada morrendo, é gente doente sucumbindo abandonada e mulher grávida parindo na rua a cada hora do dia ou da noite. Fora isso, tem a onda “tsunâmica” de crianças e adolescentes, principalmente, abusadas no mato, favela ou no seio familiar. Aliás, estatísticas indicam que a cada duas horas uma jovem é atacada por tarados em grupo, no Rio; e nas demais partes do País, uma mulher é atacada a cada três horas. O dia tem 24 horas e façam as contas do total de mulheres sexualmente violentadas por ano. E tem ainda um pequeno detalhe: a quantidade de vítimas que deixa de denunciar à polícia os abusos sofridos, por medo ou vergonha.
Agora tem o seguinte: eu e muita gente mais ou menos informada, achamos que “estado de calamidade pública” é o estado que o governante municipal, estadual ou federal anuncia diante de uma grande catástrofe natural, por exemplo. Bom, mas pensando bem, o que acaba de ser decretado no Rio é, de fato, uma catástrofe única, original, sem precedentes. O descaso lá é histórico e contínuo, daí a justificativa para o estado de calamidade anunciado ao País. As justificativas são todas: falta de pagamento ao funcionário público, falta de recursos para manutenção dos hospitais, escolas, etc. Até a coleta de sangue nos órgãos especializados foi suspensa. É ou não é um horror o que está acontecendo no Rio de Janeiro a um mês e meio da Olimpíada? A esse estado de calamidade se acham tragédias “miúdas”, como o desabamento da ciclovia em São Conrado, causando mortes...
Os políticos, um bando enorme deles, não se envergonham de “chupar o sangue” dos contribuintes. E eles roubam, roubam... Enquanto isso, os bancos de sangue continuam escassos em todo o País. Em São Paulo mesmo. Em Salvador, Bahia, estão se distribuindo folhetos de cordel conscientizando a população a doar sangue. É uma campanha bonita essa.
Agora me vem um pensamento kafkiano: e se o Lula e a Dilma selassem um acordo de delação premiada junto a quem de direito, hein? E se isso acontecesse, quem sabe o Brasil se reencontrasse com seus pecados e seguisse o rumo da beleza gigante em benefício de si próprio e de nós todos, cidadãos trabalhadores, pacatos, que pagam em dia seus impostos para uma vida melhor?  

TRIO MARAYÁ
Mais um amigo partiu para a Eternidade. Dessa vez foi o potiguar Behring Leiros, integrante do Trio Marayá. Faz hoje uma semana que ele partiu. Quem me deu a notícia foi Lenita, agora viúva. Tinha 81 anos de idade. O trio chegou ao Rio de Janeiro no final dos anos de 1950 e pelas mãos do pernambucano Luiz Vieira, recebeu os primeiros “empurrões” na carreira. Fácil, fácil, Behring e seus companheiros Marconi Campos e Hilton Acioli, chegaram até o paraibano Geraldo Vandré e com ele desenvolveram plenamente a carreira artística. Com Vandré o trio andou por todo o Brasil e diversos países da Europa. Detalhe: o nome do trio foi um presente do estudioso da cultura popular, Luís da Câmara Cascudo (1898/1986).  
  
  
   


sexta-feira, 17 de junho de 2016

JOSÉ CORTEZ SEMEIA SONHOS POR UM NOVO PAÍS




O Brasil está pegando fogo. E, pelo jeito, muita surpresa nos alcançará, no campo da política. Do corpo ministerial de Temer, caíram os titulares das pastas do Planejamento, Transparência e Turismo. Isso dá, na média matemática, um a cada 12 dias... E tem pendurados, de cabeça pra baixo, os presidentes do Senado e da Câmara. E já há vazamentos que indicam que ambos vão encarar a tal delação premiada prevista em lei, aprovada no desgoverno da Dilma. E se isso acontecer, o que deve acontecer, aí sim: será o deus-nos-acuda, como no dito popular.

Eu tenho um amigo que me veio com uma fala interessante, interessantíssima. Imagine, meu amigo, minha amiga, ele sugere que se crie o contraponto do MST: o MSP, que vem a ser nada mais, nada menos, o movimento dos sem-propina.

É como diria meu amigo e conterrâneo Genival Lacerda: nóis sofre, mas nóis goza...



Sonia, Assis e Alceu (Foto: Vitor Nuzzi)

A chuva forte que molhou o chão de São Paulo no sábado 4 trouxe até a mim os professores Alceu e Sonia Chébel Mercado Sparti, pais de duas meninas e avós de quatro crianças, duas das quais gêmeas.

Em maio de 1968, quando o mundo estava pegando fogo e muita gente ficando doida, com queima de sutiã e guerra no Vietnã, Sonia integrava o Centro Acadêmico Santo Tomás de Aquino (Casta), da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, atual Universidade de Sorocaba (Uniso).

Sorocaba é uma cidade paulista, distante da capital 90 quilômetros. É terra de violeiros, como mestre Raul Torres (1906-1970), tema do novo CD do grupo paulistano Gato com Fome.

Àquela época o cantor e compositor Geraldo Vandré se achava no auge da carreira, com o LP Canto Geral. Nesse disco, encangado no pensamento do autor alemão Bertolt Brecht (1898-1956), o artista paraibano dizia na contracapa:

“Vós que vireis na crista da onda em que nos afogamos, quando falardes de nossas fraquezas pensai também no tempo sombrio a que haveis escapado”.




E o que é que tem a ver Sonia Chébel com essa história?
A Sonia, investida de sua condição de membro do Centro Acadêmico, um dia pegou o telefone e convidou Vandré a fazer uma palestra em Sorocaba. E ele foi, e de graça. Dá para pensar isso nos dias de hoje?
No livro Geraldo Vandré – Uma Canção Interrompida (editora Kuarup, 352 págs., 2015), o autor, o paulistano Vitor Nuzzi, conta um pouco dessa história registrada pela então estudante Sonia Chébel:

“O cantor e compositor falou de comunicação, de arte, do festival de 1967 (Eu cantei muito mal, disse, referindo-se a Ventania. Eu nunca canto desse jeito. Eu cantei desesperado, perdido.) E afirmou algo que repetiria meses depois ao pesquisador Zuza Homem de Mello, com outras palavras: A canção que eu canto tem um texto que eu quero dizer coisas, a canção popular é texto, antes de tudo.

E foi essa mulher, acompanhada do seu companheiro Alceu, que chegou junto com a chuva.
Ah!, e a Sonia, anos depois, ali pelo começo dos anos 1970, fez mestrado e doutorado em Psicologia da Educação na PUC. Por esse tempo, o potiguar José Cortez iniciava-se como fornecedor de livros para estudantes que nele encontravam um amigo e um apoio. Entre esses amigos, a Sonia, conhecida à época por “Sorocaba”.



José Cortez virou, com o tempo, um dos editores mais importantes e respeitados do País. É dele a editora que leva o seu nome. Nome também de uma escola pública: Escola Estadual José Xavier Cortez, localizada no extremo sul da cidade de São Paulo.

José Cortez, nordestino do Rio Grande do Norte, é uma espécie de Dom Quixote. Moderno. Ele sai constantemente por aí afora, Brasil afora, fazendo palestra e contando história de vida e de educação, não só dele. Cortez fala do Brasil de baixo, como lembra o poeta cearense Patativa do Assaré, quando falava dos nossos dois Brasis, o de cima e o de baixo.

Cortez (foto acima) semeia palavras, para dessas palavras surgir, quem sabe, o Brasil que todos nós sonhamos. O Brasil para todos, sem discriminação. O Brasil cidadão, em que todos são todos e iguais, como reza a Constituição.


DINHEIRO NO BOLSO E NO BANCO

Uma menina vítima da vida do mundo carioca, de 16 anos, caiu na boca do mundo. Não sei o nome dela e seu nome, cá no caso, não vem ao caso.
Estou tentando entender o mundo dessa menina violentada.
Vivemos a violência de um tempo que jamais eu poderia pensar que pudesse viver.
Nós todos sabemos tudo do que ocorreu lá atrás, no tempo das cruzadas.
Naquele tempo, como hoje, as pessoas eram mortas à toa. Lixo. Ninguém era de ninguém. Bastava pensar diferente da Igreja para acordar no outro mundo. E num tempo até recente, fins do século 19, as mulheres eram escravas de quem tinha mais no bolso ou no banco. Meu Deus, quanta tristeza, sofrimento e ignorância!
O tempo passa, o tempo passa, e insistimos em não entender nada. E parece que insistimos em não entender nada.
Aristóteles identificou, uns cinco séculos antes de Cristo, que existia/existe vida vegetal e vida animal, que é aquela, por exemplo, em que a onça corre em fuga quando percebe perigo à vista para se livrar do agressor.
E Aristóteles também identificou a vida dos animais humanos, que somos nós.
Aristóteles, portanto, antes de todo mundo identificou que nós, humanos, somos diferentes por saber o que pensar.
Voltemos à menina de 16 anos...
Os estupros são totais desde sempre.
Desde sempre, nos violentam de todas as formas.
O homem é violentado nos seus direitos e razões. Direitos e razões que têm a ver com tudo.
E a mulher?
E o que é que uma tempestade, um tsunami, fazem conosco?
Nós, homens e mulheres, somos, todos os dias, violentados de todas as formas.
Meu Deus, até quando?
Puxa vida...
Pessoas incríveis, da minha vida, continuam a frequentar as minhas ideias.
Agora vou falar de beber samba e dançar poesia com o trio Gato com Fome, vocês sabem o que é isso?
Pois bem, o Gato com Fome é um grupo musical que sabe o que é vida e arte.
No dia em que nós, brasileiros, entendermos que a vida é simples, tudo vai ficar melhor.
A violência está no não saber.
E o Gato com Fome chegou, como sempre chega ao Instituto Memória Brasil, tocando e cantando as coisas de Kid Morengueira, Paulinho da Viola, Zé Kéti, Osvaldinho da Cuíca, Paulo Vanzolini, Eduardo Gudin e o nosso caipira do samba Raul Torres. O Gato com Fome cantou samba, breque, moda de viola...
E, de repente, o cartunista Fausto chega...
Fausto, como outros amigos que vocês todos conhecem: Fortuna, Jaguar, Ziraldo, sei lá... E outros que fizeram parte da minha vida no tempo do Pasquim e Folhetim.
E Fausto chegou.
Nada combinado, a fala fluindo, e Fausto com sua caneta registrando cantos e pensamentos...



ANASTÁCIA

Dia desse, o apresentador do programa Pintando o 7 (Rádio Imprensa FM), Luiz Wilson, aportou aqui em casa com o argumento de que eu não poderia faltar às comemorações pelo aniversário dos 76 anos da querida Anastácia, chamada de Rainha do Forró e autora, junto com Dominguinhos, de 213 composições devidamente gravadas em LP, CD etc, incluindo Eu só Quero um Xodó e Tenho Sede. Essa música se chama no LP Refazenda, do baiano Gilberto Gil. O cantor, aliás, voltou hoje a internar-se no hospital paulistano Sírio-Libanês. E lá fomos. Anastácia, como sempre, estava maravilhosa. Lá, com ela, muita gente bonita, como a cantora Fatel. Tomei água de coco e petisquei uns camarões maravilhosos. Tim-tim. E viva Anastácia!




sábado, 28 de maio de 2016

MATUTO, LOGO EXISTO...





Matutando cá com meus botões, indago: quem vive mais, os calhordas ou as pessoas de bem?
Ainda cá com meus botões, matuto: para o Brasil ficar bom, é preciso apostar na educação, no respeito ao próximo, na formação cidadã e na cultura popular.
Muita gente boa, das minhas relações, partiu, foi embora misturar-se às estrelas. Um dia eu chego  lá.
O meu querido Paulo Vanzolini (1924-2013), doutor em cidadania, partiu, foi-se embora. Sobre ele, eu escrevi este poeminha:

Um dos últimos encontros de Paulo e Assis, na casa do Paulo








Manezinho, no dia dos seus 80 anos







Moraes Sarmento, um dia lá em casa...











O BRASILEIRO VANZOLINI

Vanzolini foi-se embora
Rumo à eternidade
Ele deixou obra completa
E em nós muita saudade
Foi mestre, compositor,
Cantou a alegria e a dor
Com galharda liberdade

Ele lutou por igualdade
E fez da música oração
Da ciência o seu caminho
Fortaleceu-se na razão
Vanzolini foi artista
Nascido em terra paulista
Foi ele exemplar cidadão

Fez samba, toada e canção,
Leilão e Volta por Cima,
Idem Napoleão e Ronda
Foi autor de boa rima
Craque da cantiga e ciência
Estudou com paciência
Mudanças do nosso clima

Vanzolini está acima
Do banal e do rasteiro
Pela vida ele passou
Como grande brasileiro
Fez o que tinha de fazer
Sem desistir do prazer
Foi ele de fato guerreiro

Poeta do Brasil inteiro
Vanzolini soube ser
Na sua morcega vida
Como aranha foi coser
Uma bela teia pra morar
Brincar, pensar, viver, amar,
E jamais essa teia descoser

Antes de Paulo – o Vanzo, como nós próximos falávamos –, foram de encontro às estrelas Moraes Sarmento (1922-1998) e Manezinho Araújo (1910-1993). Sarmento foi um grande nome do rádio e um cidadão que valorizou tudo o que era bom. 
Manezinho, o rei da embolada, foi outro que fez o bem, a partir da sua obra musical e pictórica. Mané era um pintor primitivo, como a gente chama os artistas do pincel que pintam no gênero naîf, descoberto pelo grande cearense Aldemir Martins (1922-2006).
Foram-se embora Sarmento, Manezinho, Paulo... Mas aí Deus queria uma deusa caipira ao seu lado. Foi quando olhou pra Pedro pedindo que ele convocasse a paulistana violeira Inezita Barroso (1925-2015), porque o céu estava ficando muito monótono, acho, e assim o Brasil e todos nós perdemos; e assim foi a vez de Inezita chamar Fernando Faro e Papete, para junto com ela fazer a festa no céu.


A última vez que estive com Faro,
ele dando bola para mim na TV Cultura





Sobre Inezita, escrevi o livro “A Menina Inezita Barroso” (Cortez Editora, 2011), que abre com um poeminha que eu lhe dediquei e que Papete, com muita categoria, musicou, para nossa alegria. O poeminha é este:

                                                   A BRASILEIRA INEZITA                          

O Brasil tem muita gente
A começar pelo Sudeste
Desde Inezita Barroso
E até cabra da peste
Tem causos de Trancoso
Revividos no Nordeste

Cantar o que se canta
É uma coisa bem bonita
Que nos faz acreditar
Na riqueza infinita
Deste Brasil brasileiro
Da talentosa Inezita

Viva Inezita Barroso
Essa grande brasileira
Que por si própria se fez
Uma rainha violeira
A cantar as coisas nossas
Tal e qual uma guerreira

Pois é, os meus amigos todos estão indo embora. Estou ficando sozinho. Quem fica só é solitário, e a solidão é coisa braba.
Outro dia, um amigo me disse que, cada vez que um amigo vai embora, ele vai junto. É como se chegasse ao céu em pedaços. É, acho que tem a ver...
Depois que a Inezita partiu, partiu também o querido Fernando Faro. Sobre ele, eu também escrevi um poeminha. Este:

                                        Fernando Faro partiu.
 Foi pra eternidade.
 Foi brincar com as estrelas.
 E foi brincar de verdade!
          Fernando, “Baixo”, partiu.
         Deixando muita saudade.

        Só que saudade tanta assim
        Não é certo alguém querer.
        É saudade demasiada
       Que vai muito além do ser.
       É saudade que machuca
       E essa ninguém quer ter.

E agora vai o Papete.
Eu conheci o Papete há muitos anos. Na minha vida, ele foi presente no correr de três décadas, pelo menos.
Papete, como Belchior, frequentou a minha casa no tempo em que minha filha Clarissa engatinhava... Mas, como diz Gisele – a companheira de sempre do Papete –, “Deus sabe o que faz”.

O Papete foi embora
Deixando muita saudade
O Papete foi embora
Meus Deus, é realidade...

Uma emissora do Maranhão hoje lembrou, com muita categoria, a grandeza de Papete; Papete, aliás, é o apelido que deu a ele Aldemir Martins.




Gisele ficou o tempo todo ao lado do seu companheiro, enfrentando as intempéries que a vida nos brinda. Ele foi, ela fica, como exemplo de dedicação ao outro.
Agora, cá com meus botões, eu fico pensando: essas pessoas queridas, que nos deixaram sem previamente avisar, devem estar fazendo festa no céu. Ficamos mais pobres, é claro, mas o céu ficou mais rico. Aliás, este é um pensamento de um grande amigo jornalista, de nome Vitor Nuzzi.
Os bons pensamentos, as boas ideias, o bom do bem-bom, têm de ser compartilhados.
A propósito, na Internet, no seu instrumento Facebook, as pessoas curtem, curtem, curtem... Poxa, além de curtir por que não opinam, não falam, não dizem o que pensam? É tão bom pensar...
E eu, cá com meus botões, matuto pensando que o Brasil pode melhorar, pode ficar bom, com gente que pensa e que vive educação.
  




quinta-feira, 26 de maio de 2016

ADEUS, PAPETE!

Assis Ângelo e Papete num dedo de prosa
O dia amanheceu frio, feio e triste. E eu também amanheci assim: Frio, feio e triste.
A razão disso?
Terça feira passada eu e Ivone falamos muito sobre Papete. Ela lembrava de um prato especial que o Papete lhe pedira meses atrás pouco antes de ser levado por Gisele para uma “temporada” no Hospital Oswaldo Cruz. Esse prato era uma dobradinha com costelinha e fava verde.
Ontem telefonei para Gisele com o intuito de saber como Papete andava de saúde. O telefone tocou, mas ninguém o atendeu.
Hoje cedo, bem cedo, Celia e Celma me dizem pelo telefone que Papete morreu.
Papete morreu no começo da madrugada de hoje, dia de Corpus Christi. Muita gente morre nesse dia, mas Papete era pra mim, uma pessoa que jamais morreria.
Na verdade, Papete não morreu: Papete encantou-se.
A nossa amizade, minha e de Papete, estendeu-se por uns trinta anos. Ele frequentava muito a minha casa. Proseávamos e cantávamos. Falávamos muito dos rumos do Brasil. Ele torcia e sonhava por um País melhor do que o país que vivemos sob a batuta de oportunistas da raia política...
Papete era um cara incrível.
Cá em casa, proseávamos com Théo de Barros, Tinhorão, Oswaldinho da Cuíca, Osvaldinho do Acorden, Geraldo Vandré, Ana, Joel, Celia e Celma...
A última composição de Papete foi feita em parceria com as irmãs Celia e Celma. A música é um Calango já gravada em disco a ser lançado em breve. Música anterior a essa, A Brasileira Inezita Barroso, foi composta por mim e ele. Ficou linda, chegando a arrancar lágrimas da homenageada.No começo dos anos de 1970, Papete e Oswaldinho da Cuíca compuseram o samba Vai Corinthians, lançado num compacto simples pela extinta gravadora Continental.
Adeus Papete, que Deus o tenha em bom lugar.
Há sim! Pepete é o apelido de José de Ribamar Viana dado pelo pintor cearense Aldemir Martins.

domingo, 22 de maio de 2016

O BRASIL É UM BARCO FORTE

O Brasil é um barco forte, mas cheio de furinhos.
Vamos fazer de conta que esses furinhos estão se alargando rapidamente e pondo em risco a vida dos seus ocupantes.
E vamos fazer de conta que lá pras tantas ocorre, entre dois ocupantes, uma pequena discursão. A discussão é para decidir quem pega o remo para tirar o barco da iminência de um naufrágio.
A discursão cresce e cresce. Uma das partes ganha a discussão, pega o remo e começa a remar. A parte que “perdeu”, não se conforma e diz:
_ Não vai dar certo, não vai dar certo!
Pois é, estamos assim: torcendo para o barco afundar. Datalhe: Só que estamos todos nesse barco, um barco furado; mas é nele que estamos e temos que torcer para não naufragarmos.

Hoje, por volta das 08h00min, ouvi na Rádio Bandeirantes o ex-ministro da educação, Janine Ribeiro, dizer que uma de suas metas na pasta que ocupou antes de ser substituído por Aluizio Mercadante era trocar o livro por tablet nas escolas da rede pública de todo o País. A princípio eu não quis acreditar no que ouvi. Mas era verdade: Janine queria acabar com o livro impresso... Que coisa?
Cá eu com meus botões ficamos a imaginar: isso seria o fim da picada.
Como acabar com o livro? Se isso um dia acontecer, e tomara que nunca aconteça, o mundo vai ficar mais burro.
Se acabarem com o livro, a partir das escolas, as pessoas deixarão de escrever de próprio punho. Isso já começou, é verdade, mas não dá, pra fazer isso de modo incentivado pelo Estado.
Uma loucura não é?
Eu sou de um tempo em que professor ensinava a ler e a escrever e o aluno aprendia.
Eu sou de um tempo em que o saber era fundamental na vida de um cidadão. E o saber nos vinha pelo saber do professor ou da professora.
Eu sou de um tempo em que havia até tabuada.
Eu sou de um tempo muito recente, de um tempo em que todos se respeitavam e procuravam o saber como trilha para toda uma vida. Mas reconheço que muita coisa mudou...
É preciso investir na leitura, no conhecimento, no saber.
É preciso investir na educação e na cultura, na formação do cidadão.
Há! Eu sou do tempo em que professor estudava para ensinar e pesquisador ia a campo para pesquisar. Hoje tem Google...
Luis da Câmara Cascudo e Mário Souto Maior, que conheci de perto, foram, provavelmente, os últimos dois grandes pesquisadores que levaram o ensino e a pesquisa a sério.
E pensar que a origem da escrita data do tempo em que o homem habitava as cavernas. Esse homem morreu e agora querem matar a escrita.
Que coisa doida!
O que dirá o educador e editor potiguar José Côrtez diante de tal tragédia anunciada?
Somos um barco à deriva e temos que lutar e torcer para que não afundemos.
E chega da máxima que reza pela cartilha do “quanto pior melhor!”




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