Como nunca, o Brasil e nós todos, brasileiros, vivemos uma crise profunda. Um dilema quase irracional, de difícil entendimento.
Crise... crise... crise...
O Brasil, e nós todos brasileiros, vivemos crises desde sempre. Desde a chegada dos primeiros invasores.
Em 1808, D. João VI chegou ao Brasil. Com ele, veio a prática da roubalheira, da usurpação, do 'tudo pra mim'. Ao fim e ao cabo, D. João VI e seus apaniguados retornaram a Portugal levando o que puderam do nosso País.
E não aprendemos nada?
São dezenas de políticos graduados, hoje, no Brasil que vivem a prática de D. João VI...
Eduardo Cunha, caiu.
Mas será que, com Cunha, caiu também a prática horrorosa de roubar o povo do nosso País?
O Congresso Nacional está levando, quarta-feira, Dilma para o limbo.
Hoje faz exatamente 190 anos que o Congresso Nacional brasileiro foi criado.
Com isso, tomara, que pela data simbólica, hoje registrada no Congresso, esteja renascendo um Brasil com uma cara mais bonita.
O grupo paulistano Gato com Fome no show de reverência ao baiano Riachão
Tem
coisas que eu não entendo na vida.
Como
jornalista, eu conheci meio mundo e meio. Conheci pessoas incríveis. Pessoas
que atuam e atuaram em todas as áreas do viver cotidiano. Lembro do Gonzaga, uma
pessoa que me orgulho ter tido como amiga; lembro do Mario Zan, que Gonzaga o
fez Rei da Sanfona; lembro do Zé Ketti, que chorou quando lhe mostrei Máscara
Negra, dele, em inglês; do Sivuca e de tanta gente que a memoria ainda
guarda... Câmara Cascudo, Eleazar de Carvalho...
Vocês
ainda lembram de Inezita Barroso?
E
do Paulo Vanzolini?
E
do Nelson Gonçalves?
Pois
é, é muito bom lembrar ontem. O ontem, nos faz viver hoje. E aí, de repente, um
amigo acaba de telefonar perguntando se eu sei quem é Manezinho Araújo,
Batatinha e Riachão. Manezinho...
Assis Angelo e Manezinho Araújo, o Rei da Embolada
A
vida tem razão de ser quando a gente quer viver. E vivendo, a gente acha razão
de ser e de viver. Nesse caminho, a gente se multiplica. Quando a gente se
multiplica, e quando se é do bem, a vida fica melhor. Mas não quero perder o
prumo à pergunta que me veio pelo telefone: você conhece Manezinho Araújo, Batatinha
e Riachão?
Na
última vez que Riachão esteve em São Paulo, dia 2 de abril deste ano, eu fui
vê-lo. Até escrevi um texto que não sei por que razão, coisas da Internet, não
foi publicado. O texto é este:
O
Brasil está perdido, mas pode ser achado rapidamente na coisa mais importante
que tem: a cultura popular, que é a representação mais autêntica do povo. Na
sua forma mais bonita, fez-se presente ontem à noite, no teatro da unidade SESC
Pompeia. No palco, uma legenda do samba da Bahia – e do Brasil: Riachão.
Há muito eu não via um artista tão completo
mostrar-se ao povo cantando uma fieira de obras-primas autorais. E foi isso o
que vi fazer o baiano Riachão, de batismo Clementino Rodrigues.
Riachão, aos 95 anos de idade, cantou com voz
firme, afinada, e desembaraço de um jovem cinquentão.
Ele está em plena forma, foi o que mostrou.
Vi-me encantado e surpreso com a performance de
Riachão. A dúzia e meia de músicos que o acompanharam são o suprassumo do samba
de São Paulo, à frente os meninos do grupo Gato com Fome. Não custa lembrar:
Gato com Fome nasceu com as bênçãos de outra grande legenda do samba:
Oswaldinho da Cuíca.
Oswaldinho acaba de ser descoberto pelo grupo de
rock londrino Rolling Stones, mas essa é outra história...
Conheci Riachão há uns vinte anos, e o que pude
constatar é que ele continua o mesmo na sua grandeza de artista popular. Ele já
foi gravado por dezenas e dezenas de intérpretes brasileiros, incluindo Jackson
do Pandeiro, Jamelão, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Ivone Lara e Cassia Eller.
No mais, ele contabiliza umas trezentas músicas suas ainda inéditas.
Riachão é uma fonte de pérolas musicais sem fim.
Ouvindo o autor de Cada macaco no
seu galho, não posso deixar de lembrar do erudito alemão Johann
Sebastian Bach (1685 – 1750).
Bach passou a vida louvando a Deus que, aliás, se
acha presente literalmente em toda sua vastíssima obra. Quem não conhece Jesus a alegria
dos homens?
Medindo as diferenças, o popular Riachão tem a
grandeza de Bach e um ponto em comum: ambos falam de Deus o tempo todo.
Agora meu amigo, agora minha amiga, imagine Deus se
fazendo presente num ser humano. Calma. Não esqueça, que Ele disse que somos no
rigor a sua semelhança. Agora imagine Ele sendo acompanhado por mestres do
samba. Samba como sangue que corre nas veias. A noite que vi Riachão cantando,
sambando sentado, é divino ou não é? Atrás, na frente e no meio, Riachão
cantando com a voz de Deus. Cavaquinho, violão (e 7), trombone, pandeiro,
surdo, tamborim, cuíca, reco-reco, agogô e atabaque. E como se não bastasse, um
coro formado por vozes que parecia ter vindo de outro mundo.
Eu acho que foi a vez que o grupo musical Gato com
Fome se saciou por completo.
Intimado a produzir uma ilustração para este blog em dois minutos, Fausto atendeu o desafio e fez a ilustração em menos de dois minutos.
É
bom ter amigos. Quem tem amigos, tem alegria. Amizades são uma boa razão para
viver. Para viver bem. Quem não tem amigos, toma muito remédio de farmácia.
Eu
não me lembro da última vez que entrei numa farmácia. E querem saber de uma
coisa? Depois que fiquei cego, passei a ver melhor. A ver melhor as pessoas que
me cercam. E vendo assim, cada vez mais não preciso ir à farmácia.
Hoje,
a minha casa, templo onde moro, recebeu Fausto e Vitor.
Fausto
é o cartunista que boa parte deste país tão judiado politicamente conhece,
amigo de todos nós. Sensível, de alma encantadora e talento absurdo. Vitor é o
Nuzzi, jornalista, autor do livro mais completo que trata sobre a vida e obra
do conterrâneo Geraldo Vandré: Uma Canção
Interrompida (editora Kuarup).
Fausto
é paulista de Reginópolis. E Vitor, paulistano da Liberdade.
E
conversa vai, conversa vem, lembramos de muitos amigos. Amigos que nunca foram
à farmácia; e se foram, foram poucas vezes.
Anna de Hollanda e Fernando Faro com Assis Ângelo no programa de rádio "São Paulo, Capital Nordeste"
Lembramos
do Fortuna, Fausto, Goethe, Angeli, Baltazar - o “Cabecinha de Ouro”, herói do
Timão em 1954 –, Quarentinha, Sócrates, Garrincha, Tinhorão, Vandré, Inezita, Vinícius, Alcy, Gê,
Ziraldo, Jaguar, Chico, Lula, Temer, Dilma, Fernando Pessoa, Brian de Palma, Rolling
Stones, Téo Azevedo, Marcos Zanfra, José Cortez, Anna de Hollanda, Osvaldinho da Cuíca, Izilda Alves, Edu
Lobo, Lucy Alves, Erico Verissimo, Luís Dantas, Joel dos Santos, Carla Maio, João Henrique, Cecília Thompson.
E também as três ceguinhas da Paraíba: Maroca, Pondoca e Indaiá.
Conversa
que vai e vem é conversa que quase nem termina, de tão gostosa que é. Ah! Inda
lembramos de alguns personagens que também viveram sem farmácia e que partiram
este ano, como o teatrólogo Naum Alves de Souza, o jornalista Sandro Vaia, os
atores Umberto Magnani e Flávio Guarnieri e o multi-tudo sergipano Fernando
Faro...
A
última vez que estive com Faro faz uns dois anos. Estávamos com Vandré, Peter
Alouche, Paulo Benitez e outros amigos, comendo uma saborosíssima paella. Lembro-me que, ao sairmos, no
carro ele contou, sem eu perguntar, sobre um show musical que produziu para o
PT em fins dos anos 1970, no Juventus. O partido estava em formação. O
resultado desse espetáculo, segundo ele, foi lamentável. Ele passou a detestar
Lula desde então. Grana na parada, desviada.
Quanta
história a contar.
Poucas
horas antes de o Brasil tomar conhecimento do passamento de Faro, por esses
inexplicáveis da vida, o Vandré telefonou para saber como estou. E, como
sempre, conversa vai, conversa vem, falamos de muita coisa. Ele gargalhando do
outro lado, e eu deste também. Ele acha que tenho de dar aulas, que tenho de
voltar ao rádio.
Uma
coisa puxa a outra, e não há como eu não tecer os versos que se seguem:
Fernando
Faro partiu.
Foi
pra eternidade.
Foi
brincar com as estrelas.
E
foi brincar de verdade!
Fernando
“Baixo” partiu.
Deixando
muita saudade.
Só
que saudade tanta assim
Não
é certo alguém querer.
É
saudade demasiada
Que
vai muito além do ser.
É
saudade que machuca
E
essa ninguém quer ter.
...
A
tarde de quem não precisa de farmácia é sempre uma boa tarde, e a de hoje foi
uma boa tarde. Falamos, eu, Fausto e Vitor, sobre tudo; até sobre a formação do
mundo. Falamos até de Copérnico, Isaac Newton, Albert Einstein, pés de maçã, de
jaca. Só não falamos de pé de minhoca. Depois disso, fomos comer um baião de
dois, que ninguém é de ferro. E lá encontramos Regina, Nilson e outras pessoas
queridas. De lambuja, eu trouxe pra casa uma garrafa de manteiga de garrafa.
Fernando
Faro representou o pensamento mais lúcido da intelectualidade cultural do nosso
País. Prova disso foi a sua presença inestimável desde os primeiros anos da
televisão brasileira, trazida pelo paraibano Francisco de Assis Chateaubriand
Bandeira de Mello, em 1950. Não dá para esquecer a interferência de Faro em
programas musicais como Móbile e MPB Especial, que virou Ensaio. Só nesse
último, ele entrevistou mais de setecentos artistas de nossa música, entre os
quais Adoniran, Elis,Baden, Chico e
Tim, aliás, a única vez que o Tim chegou no horário. Só por isso,ele é merecedor de todos os aplausos e
reconhecimento. Portanto, acho que o tema Fernando Faro não pode nunca ser
esquecido.
Fernando
Faro partiu
Foi
para a Eternidade
Foi
brincar com as estrelas
E foi
brincar de verdade!
Fernando
“baixo” partiu
Deixando
muita saudade...
Fernando
Faro permaneceu na TV Cultura de São Paulo por dois séculos e meio, pelo menos.
E na nossa memória, para sempre.
José Antônio Severo ladeado pela cantora Celia e o diretor de cinema Tabajara Ruas
Milhares de quilômetros separam o Brasil
da Grécia. Não, milhões de quilômetros...
Na verdade, correm tempo adentro os
quilômetros que separam o Brasil da Grécia.
Cerca de cinco séculos antes de Cristo, a
Grécia era chamada de O País da Filosofia e Atenas, a Cidade da Sabedoria, ou
do Saber.
Ano passado, o Brasil foi apelidado de A
Pátria Educadora. Mas isso não tem nada a ver com a Grécia, com filosofia,
saber ou sabedoria.
Você, amigo, sabe que um dos nossos 5.570
municípios é conhecido como “uma cidade que lê?” Pois é, essa cidade existe
desde 1831 e fica ao sul do País, mais precisamente a 259 km de Porto Alegre.
Seu nome? Caçapava do Sul. Desnecessário dizer que os caçapavanos são um povo
feliz.
O escritor paulista Monteiro Lobato (1882/1948)
cunhou a frase definitiva que traduz a importância da leitura e de quem lê:
“quem lê sabe mais”.
Termina no próximo dia 1º, a 26ª Feira do
Livro de Caçapava do Sul, dedicada à Simões Lopes Neto (1865/1916). Claro, essa
feira reúne muitos bam-bam-bans do ponto e vírgula nacionais. O patrono dessa
feira, este ano, é o jornalista e escritor José Antônio Severo, autor de vários
títulos fundamentais para o conhecimento da epopeia gaúcha desde tempos
d’antanho.
Severo é de Caçapava do Sul.
Detalhe: no segundo dia da feira, os
caçapavanos aplaudiram de pé a exibição do filme Os Senhores da Guerra
(adaptação do livro homônimo de Severo), dirigido por Tabajara Ruas e que conta
com um grande elenco encabeçado por Rafael Cardoso e participação das irmãs
cantoras, Celia e Celma. O filme entrará em circuito nacional no próximo mês de
junho.
Essa história de golpe já está enchendo a paciência, pois até cego como eu sabe perfeitamente que golpe não há no caso que põe Dilma como irresponsável e praticante do crime das “pedaladas” amplamente por aí difundido. O processo de impeachment assinado por Bicudo, Reale e Janaina está minuciosamente justificado, tanto que foi aceito pela grande maioria das excelências da Câmara Federal. Aliás, foi um espetáculo horroroso... o pior disso tudo são as mentiras alardeadas aos quatro ventos pela presidenta, que se acha em Nova Iorque para de dizer, na ONU – e à imprensa local -, que está sendo vítima de golpe no Brasil. Terrível. Ela corre o risco seriíssimo de ser levada à chacota e, de tabela, também o nosso País.
A fala de Dilma é uma fala frouxa que deixa o nosso País em maus lençóis.
Por que a nossa mais alta representante fala mal da gente, fala mal do Brasil aqui e lá fora? Isso me faz lembrar de d. Helder Câmara que, para os militares, falava muito mal de nós no Exterior. Na verdade, ele denunciava a violência injustificada dos militares contra nós, brasileiros.
Ah! Sim! Na última eleição eu votei em Dilma, Erundina, Suplicy e Alessandro Azevedo,- o palhaço Charles - e deu no que está dando...
A fala repetitiva de Dilma sobre o suposto golpe de que se considera vítima me faz lembrar o personagem o Grilo Falante da cultura popular; faz-me também lembrar o ministro da Propaganda de Hitler, Goebbels (1897-1945), que deixou no ar a frase famosa: a mentira tantas vezes repetida torna-se verdade. Mas, no caso da Dilma, a mentira que diz é impossível de tornar-se verdade, pois o crime praticado está previsto em artigo constante da Constituição em vigor.
O pior cego é o que não quer ver... aliás, Dilma usa muitos ditos da cultura popular que ela mesma não leva a sério. Alguns:
- vamos por os pingos nos is
- nem que a vaca tussa
- é hora da onça beber água
A cultura popular é a alma de um povo... essa é de minha autoria e no original é: a cultura popular é a identidade de um povo.
E eu não ia falar hoje nada disso do que acabei de falar. Eu ia falar sobre cultura popular, praia em que navego com algum desembaraço. Eu ia falar, por exemplo, das três irmãs que nasceram cegas na minha terra, a Paraíba. Elas são incríveis! Cantam bem e tocam bem o ganzá. Eu estive com elas recentemente, em companhia da minha filha, Ana, e do amigo Chico Pereira, pró-Reitor da Universidade Estadual da Paraíba, UEPB. Vejam, clicando abaixo:
Para
uns, o tempo passa rápido. Pelo menos, é essa a impressão.
Para
uns a semana, por exemplo, passa rápido. No momento todo mundo vê que a
política no Brasil está pegando fogo. O Planalto Central é um fogaréu só. A
Dilma sai, a Dilma não sai. Eu acho que sai. Eu e a torcida do Flamengo e do
Treze de Campina Grande; ou do Botafogo Paraibano de Geraldo Vandré.
Quando
ontem eu disse que domingo 17 começou segunda 11, é porque domingo que vem está
se apresentando como um domingo
interminável...
Quando
o Presidente da Comissão de Ética da Câmara pôs ponto final no seu relatório,
ouvimos na própria Câmara muitas excelências cantando desafinados a cantiga “Cielito
Lindo”, na versão em português do carioca Henricão:
Ai ai ai ai Está chegando a hora O dia já vem raiando meu bem E eu tenho que ir embora
Em 1992, quando Collor caiu por força de
processo de Impeachment o que se cantou muito nas ruas foi a Guarania “Para não
dizer que não falei de flores”, de Vandré. Aliás, essa cantiga era alternada
com o hino nacional brasileiro, cujo dia foi ontem.
Domingo 17, começou segunda 11.
17 Domingo, é quando a Câmara apresentará ao Pais o resultado da votação oficial do processo de Impeachment contra a presidente Dilma.
Quando digo que domingo 17 começou na segunda 11, é porque naquele dia, 11, começou o martírio da quela de quem a maioria dos brasileiros tem dito horrores.
Quase todo mundo quer ver a Dilma de costas.
Os principais jornais e cadeias de rádio e tv espalhados mundo afora têm dito que Dilma não se sustentará por muito tempo.
Tudo que tenho dito a respeito do assunto é de me cortar o coração. Pois na verdade, na verdade, jamais se quer imaginei poder presenciar o processo de derrubada de dois chefes da minha Nação. O primeiro foi Collor em 1992...
Estou triste.
CAMPINA GRANDE
Quinta feira passada falei a alunos e professores da Universidade Estadual da Paraíba, UEPb, em Campina Grande. Falei sobre cultura popular e cidadania. Falei do Instituto Memória Brasil, IMB.
Falei da importância do nosso Pais, da importância de se fazer política; de participar emfim da vida brasileira. Tudo nessa nossa vida é politica, já dizia Brecht . A minha ida da Campina deveu-se a programação comemorativa aos 50 anos de fundação da UEPb. Gostei basante. Revi amigos, como, o reitor Rangel Junior e o vice reitor Chico Pereira. Também revi o colega jornalista Fernando Moura, coautor de um livro sobre o paraibano Jackson do Pandeiro, e Ajalmar e Rilávia, criadores do Troféu Gonzagão, que me levaram a farrear no Manoel da Carne de sol. Alegria enorme foi também poder abraçar o amigo Rômulo Nóbrega, autor de um belíssimo livro sobre o pernambucano Rosil Cavalcanti. Rômulo teve tempo de me levar para saborear uma fava com cana no Qdoca. A minha cicerone foi minha filhona Ana Maria...
De quebra ainda proseei com três maravilhosas artistas do povo: Maroca, Poroca e Indaiá (foto acima, no clic de Ana Maria).
Eu
sou de um tempo recente, mas de um tempo que homem fumar era coisa elegante.
Era charmoso e denotava independência e até masculinidade. Pois é. Hoje quem fuma vive no pior dos
mundos, vive arreliado, perseguido. Na verdade, quem fuma hoje, vive no
inferno. Beber pode.
Eu
sou de um tempo em que a solidariedade existia pra valer, ao contrário de hoje.
Em
1953, Luiz Gonzagagravou
o baião Vozes da Seca. Obra-prima dele e do seu conterrâneo, Zé Dantas. Começa
assim:
Seu dotô os
nordestino têm muita gratidão
Pelo auxílio
dos sulista nessa seca do sertão
Mas dotô uma
esmola a um homem qui é são
Ou lhe mata de
vergonha ou vicia o cidadão...
Não
era bem esse tipo de solidariedade que se praticava àquela época. E não é
também o tipo de solidariedade a que me refiro. Esse tipo de solidariedade aí,
que Dantas e Gonzaga de modo poético contestam, não é propriamente a
solidariedade no seu estado mais puro que vi, vivi entre amigos, vizinhos, desconhecidos
em geral. Esse tipo aí, no baião gonzagueano, já é o tipo de solidariedade
político/partidário, praticado pelos políticos de hoje, com bolsa disso, bolsa daquilo.
O que todos nós queremos, mesmo, é trabalho, respeito e que a Constituição nunca
mais seja violentada.
Mas
como eu ia dizendo, eu sou de um tempo recente em que fumar era coisa elegante.
No
ano em que nasci, 1952, o Rei do Baião –no mês de abril- lançou Cigarro de
Páia, de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti. Cavalcanti era general. Ops!
O
poder continuado leva à tirania, em qualquer tempo ou lugar.
A
democracia nascida na Grécia, país hoje arrasado pela má administração politica,
é uma forma de governo que prioriza a pessoa.
Demos em grego é povo e cratos é poder, ainda na velha
língua de Platão, o professor do gênio Aristóteles.
Democracia
é, pois, é o que dá poder ao povo ou para o povo.
Democracia
é tudo de bom que a vida nos permite no cotidiano. Tratar bem, para ser bem
tratado. Essa é a lógica. As leis servem como meio de organização social.
Há
quem goste do vermelho e há quem goste do azul.
Não
sei se o Chico ainda gosta de mim, mais eu ainda gosto dele, tim tim.
Chico
dá a vida pelo PT.
Outro
dia conversando cá em casa com o Vandré, o assunto foi o Brasil.
Vandré
gosta do Brasil, mas não gosta do PT. Ele acha a Dilma um horror e que ela não
merece o Brasil. Nem ela e nem o Lula.
Daí
a importância da democracia, que permite a boa convivência entre os contrários.
Tomara
que a democracia, que reconquistamos há
trinta e cinco anos, não esteja correndo o menor risco de sobrevivência.
O
editorial de hoje do Times novayorquino mostra espanto na explicação da
presidente brasileira, Dilma, para a escolha do ex-presidente Lula para o cargo
de Ministro-Chefe da Casa Civil. Diz o editorial que Dilma está totalmente
desacreditada perante a população e, pois, sem cacife para justificar o que
tentou justificar e que terminou brecado por decisão, ontem à noite, do juiz Gilmar
Mendes, do STF.
A
opinião do jornal leva-me a pensar sobre as enormes dificuldades que os
jornalistas estrangeiros estão enfrentando para explicar a seus leitores a situação
política e econômica que o Brasil e os brasileiros estão ora enfrentando. É kafquiana
a situação.
O
vendaval de novidades que ouvimos no rádio e na televisão chega a ser
assustador. A cada instante nos chegam notícias que estarrecem o mais apolítico
dos cidadãos. Ele é ministro, não é ministro, o que é que ele é? Ele é Lulla.
Collor
aprontou o diabo e caiu empurrando um carro Elba.
Dilma
pode cair por causa de um Santana e otras
cositas más...
O
pernambucano Luiz Inácio Lula da Silva nasceu pobre de marré-marré e ficou,
embora rico, pobre. Mas, tem muitos amigos de posses estratosféricas.
A
biografia de Lula é uma biografia incrível, até certo ponto.
Lula
enfrentou milhões de problemas, familiares inclusive, mas sobreviveu a todas as
intempéries que a vida lhe impôs como desafio. Dançou forró na casa de
espetáculos de Pedro Sertanejo, na Vila
Carioca, SP, fez bicos, virou metalúrgico em São Bernardo, fez animação de
comícios como personagem central antes de ser deputado Constituinte e
Presidente da República. De tabela, transformou-se numa das personalidades mais
conhecidas e respeitadas do planeta. Mas, aparentemente, borrou essa biografia com
atos que a sociedade civilizada condena. Improbidade, por exemplo.
Aristóteles foi o cara que nos trouxe
à luz os fundamentos necessários para o bom-viver em sociedade. Mas ele foi
muito mais, ele fez muito mais. Sua teoria de causalidade universal abriu a
mente do homem desde seu tempo. Depois de estudar a vida humana, a natureza, a
astronomia, ele empacou numa figura invisível, sem nome pra ele, mas que outros
filósofos entendem como Deus. Aristóteles identificou as virtudes humanas e
definiu a Justiça como meio de apaziguamento social. A ética para ele é algo
muito importante na vida, ao contrário do que pensa o pernambucano Luiz Inácio
Lula da Silva.
Ler como divertimento ou para entender
o que a nós se apresenta como incompreensível, é fundamental. Mas Lula não
gosta de ler, ele mesmo já disse isso publicamente.
É do escritor paulista Monteiro Lobato
a frase: “quem lê mais, sabe mais”.
Aristóteles falou com excelsa
propriedade sobre tudo ou quase tudo que hoje conhecemos.
A Grécia era conhecida como a Pátria
da Filosofia e Atenas a Cidade do Conhecimento.
O Brasil de Dilma é a Pátria
Educadora. E que pátria!
No Brasil, o rádio deu o ar da sua graça em 1922. À época o presidente do País era o paraibano
Epitácio Pessoa. O primeiro discurso de um político levado ao ar pelo rádio foi
o do Presidente Pessoa.
Em 1922, comemorava-se o centenário da independência do
Brasil.
O ano de 22, foi um ano marcante não só pelo fato de o rádio
dar a sua graça no País. Nesse ano, em
São Paulo comemorava-se um grande evento cultural, que entraria para a história
como A SEMANA DE 22, liderada pelo escritor
e musicólogo paulistano Mário de Andrade.
É muita história.
Em 1924, São Paulo é cenário de uma revolução. Em 29 o chefe do governo paraibano, João
Pessoa, é assassinado em Recife. Ele
integrava a chapa que disputava a presidência da república ao lado do gaúcho
Getúlio Vargas. Um ano antes, o
paraibano Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, de Umbuzeiro, inaugurava a
revista semanal O Cruzeiro.
O Nordeste, de grandes lutas passava a aparecer, com destaque,
no cenário nacional. Inclusive, através
da música.
O pernambucano Luiz Gonzaga, que iniciara a carreira musical
em março de 1941, firmava-se como cantor e sanfoneiro com a toada-baião Asa
Branca. Isso, em 1949.
Entre 1922 e 1949, passaram-se 27 anos. Nesse ano Chateaubriand se deslocava do Rio
de Janeiro até Campina Grande, na Paraíba, para inaugurar a quinta emissora de
rádio da rede Associada no Nordeste: Rádio Borborema, ZYO-7 , AM.
Hoje, mais de três mil emissoras de rádio na frequência AM
estão espalhadas Brasil afora. É claro
que muitas encerraram suas atividades e outras permanecem na origem...
Muitas emissoras de rádio, e de televisão a partir de 1950,
integraram a Rede Associada.
Eu comecei a minha carreira profissional de jornalista no
jornal O Norte, de João Pessoa.
O Norte, não existe mais em papel.
O Norte fez parte da Rede Associada, como o Diário da
Borborema.
O Diário da Borborema, do qual fui colunista na primeira
parte dos anos de 1970, também não existe mais em papel.
A Rádio Borborema, e velha e boa Rádio da Borborema, que
teve na sua programação nomes brilhantes como Hilton Mota, Leonel Medeiros,
Ramalho Filho, Deodato Borges, Genésio de Sousa e Rosil Cavalcanti.
Eu trabalhei com Genésio de Sousa, Hilton Mota e Deodato
Borges. Todos estão no céu.
O livro PRA DANÇAR E XAXAR NA PARAÍBA: andanças de Rosil
Cavalcanti , (Gráfica Marcone, 444 páginas; 2015), de Rômulo C. Nóbrega e José
Batista Alves, trata das origens da Rádio Borborema no capítulo VII. Aliás, esse é um livro de fundamental
importância para se conhecer um pouco da cidade de Campina Grande e,
principalmente, o pernambucano-campinense Rosil Cavalcanti, autor de
verdadeiros clássicos da música popular brasileira. Entre esses clássicos, estão Sebastiana, Cabo
Tenório, Faz Força Zé e Tropeiros da Borborema.
Rosil, que deixou 82 músicas gravadas por Jackson do Pandeiro,
Luiz Gonzaga, Marinês, Genival Lacerda, Abdias e até Teixeirinha, partiu para a
Eternidade carregando no peito uma decepção.
Meu Cariri ganhou uma parceira que, a rigor, nunca existiu: Dilú Mello.
A Rádio Borborema nunca fechou suas portas mas durante um
tempo ia ao ar como Rádio Clube. Hoje,
na verdade, desde terça-feira última, seus ouvintes foram alegremente surpreendidos
com o anúncio do seu verdadeiro nome: Rádio Borborema; melhor ainda: Rádio Borborema de Campina
Grande
A Rádio Borborema é um marco de extrema importância para os
paraibanos.
Aristóteles
dizia que política é o esforço da realização da ética na vida social.
O
cientista e compositor musical Paulo Emílio Vanzolini, meu amigo, também achava
isso.
O
doutor Paulo, especialista em hepatologia – ramo da Zoologia - vivia arte e ciência o tempo todo. Incluindo
ai, a política.
No
correr da ditadura militar, o doutor Paulo ajudou a tirar do Brasil muitos
perseguidos políticos. O doutor Paulo odiava o PT. Aliás, ele não autorizou a
produção do filme Lula, o filho do Brasil (Direção Fabio Barreto, 2009) a
incluir na trilha sonora o Samba Volta Por Cima, de sua autoria. Isso ele me
disse numa das vezes em que saímos tantas e tantas vezes para comemorar a
invenção da cachaça e da cerveja.
Aristóteles
dizia que a justiça é a maior das virtudes.
A
cantora Inezita Barroso considerava-se uma pessoa justa. Ser justo consigo
mesmo, Aristotelicamente falando, é muito fácil. Difícil é o contrário. Mas
Inezita costumava dizer o que lhe vinha à telha. Ela era uma pessoa que não
tinha papas na língua. Era maravilhosa, autêntica.
As pessoas maravilhosas estão todas, partindo em viagem sem volta.
Inezita
Barroso, paulistana do berço do samba, bairro da Barra Funda, também detestava
o PT.
Eu
fui uns dos fundadores do PT.
O
mais importante sambista e cuiqueiro de São Paulo, e do Brasil, Osvaldinho da Cuíca,
tem a mesma política que tinha Inezita Barroso.
Osvaldinho
da Cuíca é um mestre da música popular.
A
Paraíba, minha terra, deu muita gente importante em todas as áreas da atividade
humana.
A
Paraíba deu o poeta simbolista Augusto dos Anjos, os cordelistas Leandro Gomes
de Barros e Silvino Pirauá, Ariano Suassuna, João Pessoa, Zé Américo de
Almeida, autor do romance regionalista nordestino A Bagaceira, 1922; Zé
Limeira, Zé Ramalho, Deus...
A
Paraíba também deu o cantador violonista Vital Farias, da terra de Ariano
(Taperoá).
Vital
Farias é uma das nossas reservas musicais, intelectuais e humanistas.
Vital
detesta o PT.
Um
dia, um amigo me perguntou se eu sabia que Hitler começou sua carreira no
Partido dos Trabalhadores Alemão. Década de 20. Eu disse que sabia. E eu disse
que sabia, também, de um monte de histórias. Da Carochinha, inclusive.
E
esse mesmo amigo, um provocador de mesa de bar chamado Rodrigo, também me
perguntou sobre o que eu achava ou acho do que está rolando neste Brasil
brasileiro de pobres e ricos, muita desigualdade. Somos campeões nesse item.
Aristóteles
dizia que o equilíbrio é fundamental para o bem de uma sociedade.
Pensar
é fundamental, mas é complicado.
O
HOMEM DA COBRA
A
fala de Lula tornada pública pelo juiz Sérgio Moro é de arrepiar. É de arrepiar pela vulgaridade expressa. É chula,
agressiva, irônica, prepotente. O
palavreado exibido pelo ex presidente da República chega a ser vergonhoso por
sua baixeza e agressividade contra mulheres e pobres e até contra o poder
Judiciário, o que acarretou imediata resposta do decano do STF, Celso de Melo. Fiquei triste. Antes deste quiprocuo, o antecessor da Dilma disse
em tom de desafio aos seus adversários que se quisessem matá-lo teriam que lhe
atingir a cabeça e não o rabo com se faz com uma cascavel. Ele disse isso e logo me lembrei da minha avó
Alcina. Ela falava de um tal “homem da
cobra”, que é simplesmente o camelô das ruas anuciando seus produtos milagrosos
ao público ignorante. Em resumo: é o homem de boa fala, que fala muito e
enrola todo mundo.
INEZITA
BARROSO
No
último dia 8, dia internacional da mulher, completou-se um ano do encantamento
da minha querida Inezita Barroso. Eu
tive a alegria de vê-la feliz lendo o livro que escrevi a seu respeito.
(Cortêz Editora - 2011). Um dia após o seu
desaparecimento, eu e o Zuza Homem de Melo falamos a seu respeito no programa
JC Debate, da TV Cultura.
A cultura popular brasileira é, seguramente, de riqueza
exuberante e das maiores do mundo.
A cultura popular está em todo canto e lugar. Nos palácios,
nas ruas e na garganta de políticos, juízes, de presidentes da República e de
ex-presidentes da República, como Luís Inácio Lula da Silva.
A cultura popular é a digital de um povo, eu já disse isso
muitas vezes. Aliás, na primeira vez que disse isso foi numa entrevista a um
dos jornais de Teresina, no Piauí. Em 2010, no discurso de posse de seu
primeiro governo, a doutora Dilma a usou, com uma modificaçãozinha. Ela disse: A cultura popular é a ALMA de um povo.
Pois bem, no correr da campanha do seu segundo governo, a
atual presidente da República jurou que ninguém mexeria nos direitos
trabalhistas. Ela disse: nem que a vaca
tussa...
E isso é cultura popular.
O cão e a cobra que habitam a alma aristotélica do
pernambucano Luís Inácio Lula da Silva surgiram como que num passe de mágica
ontem, para espanto dos jornalistas que acorreram à sede do PT, em São Paulo, e
ao Sindicato dos Trabalhadores, em São Bernardo, à noite. A cobra era uma
jararaca e se alguém quis dela dar cabo, quebrou a cara. Tinha que dar na
cabeça e não no rabo.
A jararaca era ou é o próprio Luís Inácio, como ele deixou
bem claro.
À noite, em São Bernardo, o ex-presidente disse que todo
mundo aí “tá cutucando o cão com vara curta”.
Pois é, isso é cultura popular.
Quem fala errado, o letrado ou o analfabeto?
Lula fala muito e do jeito que fala, encanta. É uma espécie
de serpente, ou não é?
Há uns 30 anos eu chefiava a reportagem da editoria de
Política do Jornal O Estado de S.Paulo. No Congresso, discutia-se à exaustão a
Constituição que está em vigor. Semanalmente, eu reunia alguns congressistas e
juristas para discutir as questões mais polêmicas do momento. Num desses
debates, Lula deu show (foto acima).
PATATIVA DO ASSARÉ
O poeta cearense Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do
Assaré, nasceu no dia 5 de março de 1909. Hoje é dia 5 de março. Sobre ele
escrevi o livro O Poeta do Povo.
“Eu
voltei ao CTN, a convite de Dona Cristina”, disse-me com alegria a Produtora
cultural Malu.
CTN
é Centro de Tradições Nordestinas, localizado no bairro paulistano do Limão.
Reencontrei
Malu numa reunião com artistas populares promovida pela antropóloga Ana
Carolina, num prédio da Funarte em São Paulo.
Carolina
abriu a reunião explicando aos artistas presentes, que foram muitos, sobre a
importância do tombamento da literatura de cordel e do repentismo brasileiros
como patrimônio cultural e imaterial das coisas do nosso País. Dito o que tinha
de dizer, Carolina nos chamou para falar sobre cultura popular. Falei.
Outras
Pessoas foram chamadas a falar sobre o que fazem no mundo da cultura popular.
Entre estas pessoas o Pernambucano Luiz Wilson.
Luiz
Wilson é uma das figuras mais expressivas da cultura popular do Nordeste. Ele é
cordelista, repentista e apresentador de um dos Programas mais ouvidos nas
manhãs de Domingos do Rádio Paulistano: Pintando o Sete, no ar desde o dia 09
de setembro de 2007.
No
Programa do Wilson tem Gonzaga, Dominguinhos, Anastácia e muitos outros grandes
forrozeiros, cantadores repentistas e muitos outros por quase toda manhã no “dial” da rádio Imprensa FM 102,5.
Mas
eu comecei falando neste texto sobre a produtora cultural Malu. Pois bem, Malu fez-me lembrar o mais
importante filósofo dos últimos tempos da Antiguidade: Aristóteles.
Na
conversa na Funarte, Malu disse-me que “O CTN está sem alma”.
Cinco
séculos antes de Cristo, Aristóteles dizia nos seus manuscritos que a alma
regia energia, que regia movimentos, que regia corpos, que regia a própria
vida.
Isso
tudo está na Teoria das Causalidades Universais.
Para
os gregos, em grego, alma é psiquê.
No
dia em que o CTN entender a importância da sigla que escolheu, essa sigla se
tornará verdadeiramente importante para os milhões de Nordestinos que habitam
a cidade de São Paulo.
Estamos
falando, claro, de Cultura do Nordeste brasileiro.
Ah!
Na reunião promovida por Carolina reencontrei, depois de muito tempo, a grande
cantora mineira Fatel Barbosa.
JOÃO
DE CALAIS
Calais
fica ao norte da França. Ali por perto, nas proximidades do embarque no
Eurotúnel há anos foi criada uma favelona, habitada por umas três mil pessoas.
Pobres, imigrantes com uma mão atrás e outra na frente, foram postas pra correr
pela Policia. Calais ficou famosa fora da França pelo romance de cordel chegado
ao Brasil em fins do século 19. O estudioso da cultura popular Luis da Câmara
Cascudo, autor de cento e tantos títulos, foi seu principal divulgador. João de
Calais, o romance, é um dos Cinco Livros do Povo.
A
antropóloga carioca Ana Carolina marcou ontem um belo tento, ao reunir cerca de
60 artistas populares, muitos deles, de rua. Essa reunião ocorreu num prédio da
Funarte, na capital paulista.
Fazia
tempo que eu não me reunia com tantos artistas verdadeiramente populares e
criativos, como Peneira & Sonhador, Ed
Boy, Luiz Wilson, Cacá Lopes, Costa Sena, Sebastião Marinho, Moreira de
Acopiara, Zé Francisco –decano dos repentistas em São Paulo– Téo Azevedo, Marco
Haurélio, Zé Américo.
Também
compareceram à reunião, que teve por finalidade o tombamento da literatura de
cordel e da poética repentista pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional), Cristina Abreu e Malu, do CTN e produtoras da área
cultural, como Telma Queiroz. Cristina foi bastante questionada sobre o fato de
o CTN não dar a atenção devida a artistas populares. “As portas do CTN estão
abertas”, ela disse.
Representantes
do IPHAN abriram o encontro explicando o interesse de inscrever o cordel e o
repente na tábua de expressões da cultura popular brasileira, como noutras
ocasiões foi feito com o samba de roda, o frevo, o círio de Nazaré e a roda de capoeira.
O
que acho disso?
O
governo quando nada faz, faz de modo incompleto iniciativas que poderiam ficar
definitivamente marcadas para a história. Caso claro é o que se pretende fazer
com o cordel e o repente. Pra valer, mesmo, essa iniciativa poderia ser
enriquecida com uma publicação que registrasse em verbetes dados referentes aos
artistas. Um mapeamento rigoroso enriqueceria mais ainda o tombamento do cordel
e do repente como expressões autênticas da cultura popular brasileira. Mais:
concursos de cordel e de repente, de alcance nacional, patenteariam essa
iniciativa, pois tombar por tombar, não adianta.
Entre
2001 e 2003, com apoio do Metrô e da CPTM, realizamos dois concursos de
literatura de cordel em São Paulo. O resultado disso foram 410 mil folhetos distribuídos
gratuitamente às bibliotecas da rede pública de São Paulo. Antes, em 1997, presidimos
a mesa julgadora do 1º Campeonato Brasileiro de Poetas Repentistas, considerado
até hoje o mais importante do gênero em todos os tempos. A finalíssima foi realizada
no Memorial da América Latina. Cerca de uma centena de duplas de profissionais
do repente, de todo o Nordeste, participou desse festival.
O
IPHAN foi criado no governo Vargas, em 1937. O seu 1º presidente foi o advogado
mineiro Rodrigo Melo Franco de Andrade. No Conselho da instituição se achava o
paulista Mário de Andrade, desaparecido no dia 25 de fevereiro de 1945.
Aristóteles deveria ficar muito bravo
se soubesse que sua teoria sobre governo e democracia sucumbiu ou está
sucumbindo em países de nuestra América. Na Bolívia, Morales ameaça se
perpetuar no poder como Maduro na Venezuela.
Mas não é só desse lado que
governantes insistem em fazer do poder a sua moradia. Isso está acontecendo na
Rússia e mais num monte de lugar.
O Brasil está quebrado. O rombo beira
os três trilhões de reais. É o que dizem os governadores dos estados da Federação.
Aristóteles, aquele “da causa e efeito”,
entendia que política era pra ser desenvolvida por quem se dedicasse às causas
do povo. Ele sabia da importância do Estado. Sabia também que o povo, qualquer
povo, precisava de alguém que o orientasse, que o governasse. Mas para isso,
entendia o pensador, que para governar um povo, o governante teria de ser
alguém pelo povo escolhido e acima de qualquer suspeita.
E aí vieram os reis, e muitos deles se
tornaram déspotas.
Aristóteles não deixou de lado a
aristocracia. E sempre no mesmo raciocínio, ele entendia que justeza e justiça
deveriam caminhar juntas.
Depois de Aristóteles, seguidor
dedicado dos ensinamentos de Platão, surgiu em Atenas um cidadão que passou à
história pelo nome de Diógenes.
Diz a lenda que Diógenes era cego e
aprontava como ninguém. Dizia-se que ele saía, em plena luz do dia, com uma
lanterna acesa e à procura de um homem honesto.
Vocês já pensaram o “sufoco” que
passaria Diógenes no Brasil? Quantos honestos ele acharia, hein?
Eu fiz isto:
Procurar
um ser honesto
Em
plena luz do dia
Com
uma lanterna acesa
Como
Diógenes fazia
É
coisa só pra quem sabe
O
que é cidadania
Cidadania
se faz
É
com democracia
Educação
e cultura
E
um quê de filosofia
Sem
esses “ingredientes”
Não
se faz cidadania
Platão, Sócrates e todos os gregos,
filósofos ou não, tem a ver com povo e democracia. Povo, com democracia ou sem
democracia, existe em qualquer lugar do mundo. Até na Suíça. E onde há povo há,
em tese, cultura popular. Mas pelo andar do andor, povo é “detalhe” que a
globalização e suas consequências estão pondo à beira da vala do inferno.
Outro dia uma francesa, muito
simpática, me veio fazer umas perguntas sobre literatura de cordel e lhe
respondi o que tinha de responder. Aproveitei para lhe perguntar sobre o povo e
a cultura popular franceses. Ela engasgou-se e a socorri, brincando. Na França
já não tem cultura popular, não é mesmo?
E assim vai o mundo, e com ele vou
entendendo que a cultura popular é “a digital de um povo”.
E pensar que eu ia falar hoje sobre a
força tarefa das nossas três forças armadas imbuídas no mesmo objetivo:
combater o mosquito da dengue.
ESTADO NOVO
Eu não poderia esquecer que no dia 22
de fevereiro de 1945, o diário carioca Correio da Manhã publicava ampla e
bombástica entrevista com o paraibano José Américo de Almeida, autor pioneiro
do romance regional (A Bagaceira). A entrevista, assinada pelo capeta Carlos
Lacerda, pôs fim ao Estado Novo, inventado pelo “pai dos pobres” Getúlio
Vargas. Getúlio, como se sabe, foi aquele que deu um tiro no próprio peito
depois de Lacerda receber um tiro no pé.