Já faz um tempo enorme que inventaram o mundo. Na
verdade, na verdade, ninguém sabe quem fez o mundo. Tudo quanto foi filósofo,
incluindo o grande Aristóteles tentou dar credibilidade e autoria ao dono do
mundo.
Quem foi ou quem é o dono do mundo?
Obama, Putin, ou quem?
Digamos que foi... Deus.
Quem foi Deus, quem é Deus?
Quando crianças, aprendemos que Deus foi e é o
criador de tudo; do mundo, inclusive.
Eu sempre gostei de Deus.
Eu estudei em colégio de padres seguindo os
ensinamentos divinos, crendo que Deus criou tudo. Inclusive eu, meu pai, minha
mãe, meus avós, os avós dos meus avós, todos e tudo!
Pois bem, Deus sempre soube tudo e por isso é
único. Independentemente do nome que lhes dão noutras línguas, além do
português/brasileiro.
Que Deus sempre soube de tudo, isso soube –e sabe.
E sabe também que o bom gosto é fundamental na boa convivência humana. Pra ter
bom gosto, tem que ter cultura. Este, o ponto!
Deus fez o mundo porque se não o fizesse faria algo diferente do seu gosto
pessoal.
Deus é criador, é artista.
Eu tenho um monte de amigos artistas. O cartunista
Fausto, por exemplo, não viveria feliz se não fizesse cartum. E o tempo todo. A
isso damos o nome de necessidade visceral. As cantoras Celia e Celma, eu não
imaginaria, nunca, vivendo sem cantar; mesmo a alma alheia.
Dá pra pensar em fortuna sem fazer cartum? Sem
Ziraldo fazer cartum? Sem Jaguar fazer cartum? Sem Alcy fazer cartum? Angeli,
Paulo e Chico Caruso... E Glauco, hein?
Aliás, acabo de saber pela querida Chris Rufatto,
e Fausto, que boa parte da obra do Glauco está sendo exposta nas dependências
do Itaú Cultural, ali na Av. Paulista.
A vida que Deus nos deu, e nos dá, é incrível.
Incrível sob qualquer aspecto.
Da segunda metade do século passado até os dias
atuais, a minha profissão de jornalista, levou-me a conhecer, em parte, o mundo
e pessoas que Deus criou. Eu conheci todos os nomes aqui citados e dele
tornei-me próximo.
Continuo recebendo muita gente bonita no lugar
onde moro. Tinhorão, quando vem aqui – e vem pelo menos uma vez por semana –
conversamos sobre tudo e mais e mais. O mesmo acontece quando aqui chegam
Fausto, José Cortêz, Vitor Nuzzi, Zé Hamilton Ribeiro, José Pinto, Osvaldinho
da Cuíca, Rômulo Nóbrega, Téo Azevedo, Jackson Antunes, Jorge Ribbas, José Antonio
Severo, Celia e Celma...
É fantástico o mundo que Deus criou, incluindo
este Brasil...
A tarde de hoje foi pouca pra Fausto e eu
entendermos a sinuca em que o mundo de Deus hora se transformou. A Europa tá
como tá, com gente morrendo, se lascando pelo individualismo...
A xenofobia e a homofobia são males que o mundo
passou a identificar recentemente e as vítimas estão na casa dos milhões,
talvez bilhões. Pois nesse mundo de Deus há mais de 7 bilhões de almas morrendo
e renascendo todos os dias. Aliás, daqui a duas semanas a Cortêz Editora porá
nas livrarias, um livro tratando desse gravíssimo assunto que é a xenofobia.
Pois é, ou salvamos o mundo que Deus criou, ou
morremos com ele, o mundo.
Em
dimensões territoriais, o Brasil ocupa o 5º lugar entre todos os países identificados
pela ONU (Organização das Nações Unidas). Em termos populacionais, o Brasil
está na lista dos dez mais. Quer dizer, o nosso é um país e tanto! Aqui tem de
um tudo, como diria a minha avó Alcina, do alto da sua sabedoria. E tem de um
tudo mesmo. Por exemplo, tem ladrão a dar com pau e nossas riquezas são tantas
que não acabam nunca. É o que parece, não é mesmo?
E
sobre a nossa história, a história do nosso país, hein?
As
escolas estão muito aquém da necessidade. Alunos de todas as idades estão
aprendendo por conta própria, ou seja: na universidade livre da vida.
Seria
muito importante se todos nós soubéssemos da história do nosso País. Para quem
ainda não sabe e é fácil não saber, o Brasil foi invadido e sucateado há pouco
mais de 500 anos, por Cabral e celerados.
Essa
história pode ser ouvida através da nossa música popular.
Os
primeiros registros fonográficos que foram feitos no Brasil datam de 1902. A
primeira gravação já traz citação em um dos nossos Estados: Rio Grande do Norte.
Pois
bem, na música popular brasileira se acha praticamente toda a história do nosso
País, mas pouca gente sabe disso, por incrível que pareça.
Na
nossa música se acha a nossa história em detalhes. Basta ouvir Ary Barroso,
Luiz Gonzaga, Geraldo Vandré, Chico Buarque, João do Vale, Noel Rosa e Rosil Cavalcanti.
Você
conhece a obra do pernambucano Rosil Cavalcanti, cujo centenário de nascimento
completou-se em dezembro do ano passado? Para saber mais, sugiro a leitura do
livro “Para dançar e xaxar na Paraíba - andanças de Rosil Cavalcanti”, de Rômulo C. Nóbrega e José Batista Alves.
Ah,
Jorge Ribbas e eu fizemos uma pequena homenagem a esse grande compositor, autor
de pérolas gravadas por Jackson do Pandeiro e algumas mais pelo Rei do Baião.
O Brasil é bom demais, mas a gente parece não
saber disso. E a gente não sabe porque não quer. E é tudo muito bonito.
Falar inglês, neste nosso país brasileiro, é o que
há de melhor, para os bestas.
Não que eu seja contra nós nos entendermos em
outras línguas, mas falar na nossa língua, principalmente, é fundamental. Se não
nos entendemos na nossa língua, como vamos nos entender nas línguas dos outros...?
Deus do céu, eu fico doido toda vez que volto ao
ontem. O Ontem é Hoje... E o analfabetismo continua desde sempre. E nós achando
bonito o falar grego dos norte-americanos.
Não sei quanto por cento, mas eu sei que é muito,
e muito mesmo, o muito de livros traduzidos em muitas línguas para a nossa
língua portuguesa, que deveria ser brasileira...
Os governantes, todos os governantes do nosso país
desde sempre, mirabolavam em francês, inglês.
Pois bem, nesse falar, e comportamento, a gente
vai se perdendo, e os outros do outro lado do Atlântico vão nos engolindo.
Estou fazendo esse arrodeio todo para, mais uma
vez, dizer da importância e beleza do meu país patropi.
Ademilde na Borborema
Toda vez que me chega às mãos um livro como “Para
Dançar e Xaxar na Paraíba: Andanças de Rosil Cavalcanti”, de Rômulo C. Nóbrega
e José Batista Alves, eu passo a ter certeza de que, mais do que existir, o
Brasil é o país de nós, brasileiros.
Mas por que não falamos tanto de nós todos,
brasileiros, como deveríamos falar?
Em todas as livrarias, principalmente as dos
grandes centros, só aparecem em destaque os grandes autores em tradução. Porém,
pergunto: por que os autores brasileiros não aparecem também no destaque
merecido?
A colonização é uma desgraça.
Biografias de personalidades estrangeiras ganham
no Brasil destaque fenomenal. Por que isso não acontece com personalidades e
personagens da vida cultural brasileira?
O mundo é regional, e no seu regionalismo há a
universalidade e o particularismo.
Aprendemos com isso ou não. No universalismo e no
regionalismo podemos entender a grandeza e pequenez de todos nós.
Luiz Gonzaga toca na Borborema
Quando um autor escreve sobre um artista, em
qualquer língua, é porque o artista representa o universalismo.
Rosil Cavalcanti é um autor universal, por
traduzir o pensamento comum da universalidade popular. Agora, é o seguinte:
como escrever isso, de que forma escrever isso, de que forma dizer de maneira
que todo mundo entenda?
Rômulo Nóbrega, economista de formação, num
momento de inspiração e municiado pelo acervo do pernambucano José Batista
Alves, decidiu trazer à tona um dos personagens mais importantes da cultura musical
do Nordeste: Rosil Cavalcanti. Numa linguagem simples, fácil, compreensível
para todos os comuns, abundante em informação, provando que é possível escrever
de modo natural e direto, sem o academicismo rançoso, chato, que incomoda quem
lê o beabá, por não dizer nada.
O livro “Pra Dançar e Xaxar...”, nas suas tantas e
tantas páginas, traz personagens muito importantes da história da Paraíba ou
que viveram na Paraíba, como Chacrinha, Capiba, Marinês, Luiz Gonzaga...
Detalhe: em 1950, Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, lançou em praça pública de
Campina Grande o baião “Paraíba”...
O livro de Nóbrega e Alves traz um perfil muito
bonito e necessário para compreender a cidade paraibana de Campina Grande, que
o multitudo Rosil Cavalcanti escolheu para viver e se eternizar; e não à toa muito
bem observado pelo prefaciador, Agnello Amorim. Agnello, em muitos momentos, no
seu texto conciso, lembra as atividades múltiplas do biografado.
Agnello Amorim, prefaciador
Marinês dança com Rosil
Rômulo Nobrega fala a fala do povo, falada por
Rosil Cavalcanti nos microfones da Rádio Borborema, inventada pelo paraibano de
Umbuzeiro Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, aquele que trouxe
para o Brasil a televisão.
Não que eu seja contra que se traduzam livros em
quaisquer línguas para os nossos olhos, e ouvidos. Mas é importante escrever
sobre os personagens da vida cotidiana do nosso País, para nosso deleite e
registro histórico.
Acho que deveriam ser escritos livros sobre a vida,
e principalmente obra, de Sidney Miller, Gordurinha, Manezinho Araújo, Raul
Torres, Billy Blanco e Bahiano; este, especialmente, por ter sido o primeiro
cantor profissional que o Brasil teve. Ele nasceu na mesma cidade em que nasceu
Caetano...
VIVA
DRUMMOND!
O mestre da poesia de Itabira, universal, Carlos
Drummond de Andrade, continua sendo homenageado por sua grandeza na memória do
povo brasileiro. No último dia 3, mestre Drummond foi mola corrente na memória
do país. Como?
Paraisópolis, pequena cidade no sul de Minas
Gerais, realizou sua 6ª Caminhada Poética, "Tinha um Drummond no Meio do
Caminho”. Ideia de um professor, José Antonio Braga Barros, inspirado na Semana
Roseana de Cordisburgo (MG), dedicada à obra de Guimarães Rosa.
Duzentas pessoas, a maioria de fora de
Paraisópolis, fazem uma caminhada de três horas, com dez paradas, nas quais o
Grupo de Teatro Toque de Arte declama poemas do itabirano. A caçula do grupo é
Maria Isabel, de 10 anos. A próxima caminhada será em 2 de julho de 2017.
Paraisópolis durante a caminhada (Foto: Vitor Nuzzi)
Ele era doce e dócil, inquieto, nervoso, sereno,
contraditório, autossuficiente, prepotente e amável. Ele era a mistura de tudo
e mais alguma coisa. Era amigo dos amigos. Era solidário. Ele era isso e muito
mais. Era jornalista, compositor, arranjador, cordelista, ator, radialista. Ele
era isso tudo e muito mais. Tinha amigos e inimigos. Entre seus amigos, Jackson
do Pandeiro, Luiz Gonzaga e Raimundo Asfora (1930/1987), poeta, advogado e deputado pela
Paraíba, que fez bem a muita gente.
Estou me referindo ao pernambucano Rosil Cavalcanti (1915/1968),
com “i”, pois, na Paraíba e redondezas, quem não é Cavalcanti é “cavalgado”...
Fiquei sabendo disso tudo após história contada no
livro Pra Dançar e Xaxar na Paraíba: andanças de Rosil Cavalcanti, de Rômulo C.
Nóbrega e José Batista Alves, lançado em fins do ano passado e já praticamente
impossível de ser encontrado nas livrarias do Nordeste e, no Sudeste, então...
A obra de Nóbrega e Alves é excepcional sob todos
os aspectos.
A história do multitudo Rosil Cavalcanti, dividida
em nove capítulos no livro de mais 400 páginas, começa em 1950, numa reunião
comandada por Hilton Mota para a escolha do primeiro jornalístico da Rádio
Borborema, da rede Associada do paraibano, de Umbuzeiro, Francisco de Assis
Chateaubriand Bandeira de Mello (1892 - São Paulo,1968), que nesse mesmo ano presentearia o Brasil com
a televisão, que hoje é o que vemos. Hilton Mota, figura impoluta com quem
trabalhei na Rádio Correio da Paraíba, no começo dos anos de 1970, era o
bam-bam-bam da Borborema, na época de Rosil.
É uma história incrível essa contada no livro Pra
Dançar e Xaxar na Paraíba. Os autores Rômulo Nóbrega e José Batista Alves, passaram
mais de duas décadas para concluir a tarefa que se propuseram a fazer. O
resultado pode ser medido pelo volume enorme de matérias publicadas pela
imprensa nacional.
Antes desse livro, confesso que desconhecia a
trajetória do biografado e a importância real que ele significa para a música popular
brasileira, especialmente no tocante aos ritmos nordestinos ou regionais que
ele tão bem desenvolveu.
O primeiro intérprete a registar em disco as composições
de Rosil Cavalcanti foi o paraibano, de Alagoa Grande, Jackson do Pandeiro.
Aliás, Jackson estreou em disco com uma música de Rosil: Sebastiana. Isso foi em 1953.
Depois de Jackson, vieram Luiz Gonzaga e inúmeros
outros intérpretes.
O livro de Nóbrega e Alves é de um conteúdo
riquíssimo, que vai ao extremo das minúcias. Os autores falam de Macaparana, o
berço de Rosil. Falam da sua trajetória por boa parte do Nordeste, incluindo
Alagoas e Sergipe. E falam, naturalmente de Campina Grande, a cidade que
recebeu de braços abertos o autor de Sebastiana e Faz Força, Zé, essa última, lançada em disco pelo Rei do Baião.
Rosil Cavalcanti compôs pouco mais de 80 músicas,
24 delas lançadas por Jackson do Pandeiro.
Entre os clássicos populares deixados por Rosil,
destaque para Tropeiros da Borborema. Essa música, uma toada, foi feita em parceria
com Raimundo Asfora.
Todos os capítulos Pra Dançar e Xaxar na Paraíba,
enriquem no seu conjunto, a obra e a trajetória do biografado. Detalhe: o nono
capítulo, o final, traz curiosidades impagáveis sobre Luiz Gonzaga. E chega.
Deixo pra vocês leitores ou futuros leitores que descubram essas curiosidades.
Pra Dançar e Xaxar na Paraíba, é
um livro deliciosíssimo que traz à tona, com fidelidade, a beleza da cantiga
nordestina.
Os
últimos sete dias foram agitados, no Brasil e no resto do mundo. No começo da
semana, Cunha reuniu a imprensa para tornar verdade as suas mentiras. Isso foi
em Brasília. Também em Brasília, durante a defesa de Dilma, o advogado Cardoso
botou os pés pelas mãos e disse uma besteira. Na verdade, ele cometeu uma gafe
infantil que levou o senador Cássio Cunha Lima a lembrar o lendário poeta repentista Zé Limeira.
Zé
Limeira, chamado de O Poeta do Absurdo, era muito admirado por outro poeta,
esse paulistano, Paulo Vanzolini, autor dos sambas Ronda e Volta Por Cima,
imortalizados por Inezita Barroso e Noite Ilustrada.
Logo
no começo da semana, o presidente pendurado da Câmara Federal, o Cunha, foi
mais uma vez tornado réu pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Foi,
de fato, agitada a semana que finda hoje.
A
população que forma a União Europeia acordou, se é que acordou, estarrecida com
o resultado do plebiscito realizado pelo governo – parlamentarista – do Reino
Unido. Isso foi no último dia 23 e o resultado chocante leva os ingleses a saírem
da União Europeia, que existe há mais de 60 anos.
Em
Havana, Cuba, a Colômbia firmou acordo de paz com as FARC. Os guerrilheiros da
FARC depõem as armas depois de mais de 50 anos. Ambos eventos são históricos,
sem dúvida. Mas o plebiscito que faz os ingleses deixarem o bloco europeu é o
mais importante; pois, com isso, a União Europeia pode estar registrando o
início do seu fim. Tomara que não...
Ah,
mais um outro grande evento ocorreu na semana que passou e pouca gente
registrou: o aniversário do mestre Hermeto Pascoal. Hermeto, nascido na cidade alagoana
de Olho D’Água das Flores, completou 80 anos de idade no último dia 22. E tão
importante quanto a sua idade, é a quantidade de músicas que ele compôs até
aqui: oito mil.
E,
por falar nele, assista uma conversa que tivemos em São Paulo. Dela também participam Aline Morena e a Rainha do Baião, Carmélia Alves. Veja neste papo Hermeto explicando o que é baião.
O Rio de Janeiro, fevereiro e março, amanheceu em
estado de calamidade pública. É novidade histórica, isso nunca aconteceu. Um
horror! As balas perdidas continuam zunindo no pé-do-ouvido dos inocentes. Quer
dizer, tudo anda na mesma, ou seja: a Bahia da Guanabara permanece fétida, o
trânsito e pedestres seguem firmes na sua loucura descomunal. E é roubo pra cá,
roubo pra lá... Kafka no Rio se sentiria em casa; e nem precisaria escrever nada
pra se sentir em casa, pois o absurdo da sua ficção aparece lá como pura
realidade.
Ouço no rádio que os estabelecimentos hospitalares
estão a cada instante cerrando suas portas e deixando à míngua quem deles
precisa. E aí é gente baleada morrendo, é gente doente sucumbindo abandonada e
mulher grávida parindo na rua a cada hora do dia ou da noite. Fora isso, tem a
onda “tsunâmica” de crianças e adolescentes, principalmente, abusadas no mato,
favela ou no seio familiar. Aliás, estatísticas indicam que a cada duas horas uma
jovem é atacada por tarados em grupo, no Rio; e nas demais partes do País, uma
mulher é atacada a cada três horas. O dia tem 24 horas e façam as contas do
total de mulheres sexualmente violentadas por ano. E tem ainda um pequeno
detalhe: a quantidade de vítimas que deixa de denunciar à polícia os abusos
sofridos, por medo ou vergonha.
Agora tem o seguinte: eu e muita gente mais ou
menos informada, achamos que “estado de calamidade pública” é o estado que o
governante municipal, estadual ou federal anuncia diante de uma grande catástrofe
natural, por exemplo. Bom, mas pensando bem, o que acaba de ser decretado no
Rio é, de fato, uma catástrofe única, original, sem precedentes. O descaso lá é
histórico e contínuo, daí a justificativa para o estado de calamidade anunciado
ao País. As justificativas são todas: falta de pagamento ao funcionário
público, falta de recursos para manutenção dos hospitais, escolas, etc. Até a
coleta de sangue nos órgãos especializados foi suspensa. É ou não é um horror o
que está acontecendo no Rio de Janeiro a um mês e meio da Olimpíada? A esse estado
de calamidade se acham tragédias “miúdas”, como o desabamento da ciclovia em
São Conrado, causando mortes...
Os políticos, um bando enorme deles, não se
envergonham de “chupar o sangue” dos contribuintes. E eles roubam, roubam...
Enquanto isso, os bancos de sangue continuam escassos em todo o País. Em São
Paulo mesmo. Em Salvador, Bahia, estão se distribuindo folhetos de cordel
conscientizando a população a doar sangue. É uma campanha bonita essa.
Agora me vem um pensamento kafkiano: e se o Lula e
a Dilma selassem um acordo de delação premiada junto a quem de direito, hein? E
se isso acontecesse, quem sabe o Brasil se reencontrasse com seus pecados e
seguisse o rumo da beleza gigante em benefício de si próprio e de nós todos,
cidadãos trabalhadores, pacatos, que pagam em dia seus impostos para uma vida
melhor?
TRIO MARAYÁ
Mais um amigo partiu para a Eternidade. Dessa vez
foi o potiguar Behring Leiros, integrante do Trio Marayá. Faz hoje uma semana
que ele partiu. Quem me deu a notícia foi Lenita, agora viúva. Tinha 81 anos de
idade. O trio chegou ao Rio de Janeiro no final dos anos de 1950 e pelas mãos
do pernambucano Luiz Vieira, recebeu os primeiros “empurrões” na carreira.
Fácil, fácil, Behring e seus companheiros Marconi Campos e Hilton Acioli, chegaram
até o paraibano Geraldo Vandré e com ele desenvolveram plenamente a carreira
artística. Com Vandré o trio andou por todo o Brasil e diversos países da
Europa. Detalhe: o nome do trio foi um presente do estudioso da cultura
popular, Luís da Câmara Cascudo (1898/1986).
O
Brasil está pegando fogo. E, pelo jeito, muita surpresa nos alcançará, no campo
da política. Do corpo ministerial de Temer, caíram os titulares das pastas do
Planejamento, Transparência e Turismo. Isso dá, na média matemática, um a cada
12 dias... E tem pendurados, de cabeça pra baixo, os presidentes do Senado e da
Câmara. E já há vazamentos que indicam que ambos vão encarar a tal delação
premiada prevista em lei, aprovada no desgoverno da Dilma. E se isso acontecer,
o que deve acontecer, aí sim: será o deus-nos-acuda, como no dito popular.
Eu
tenho um amigo que me veio com uma fala interessante, interessantíssima.
Imagine, meu amigo, minha amiga, ele sugere que se crie o contraponto do MST: o
MSP, que vem a ser nada mais, nada menos, o movimento dos sem-propina.
É
como diria meu amigo e conterrâneo Genival Lacerda: nóis sofre, mas nóis goza...
A chuva forte que molhou o chão de São Paulo no sábado 4 trouxe até a mim os
professores Alceu e Sonia Chébel Mercado Sparti, pais de duas meninas e avós de
quatro crianças, duas das quais gêmeas.
Em
maio de 1968, quando o mundo estava pegando fogo e muita gente ficando doida,
com queima de sutiã e guerra no Vietnã, Sonia integrava o Centro Acadêmico Santo
Tomás de Aquino (Casta), da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, atual
Universidade de Sorocaba (Uniso).
Sorocaba
é uma cidade paulista, distante da capital 90 quilômetros. É terra de
violeiros, como mestre Raul Torres (1906-1970), tema do novo CD do grupo
paulistano Gato com Fome.
Àquela
época o cantor e compositor Geraldo Vandré se achava no auge da carreira, com o
LP Canto Geral. Nesse disco, encangado no pensamento do autor alemão Bertolt
Brecht (1898-1956), o artista paraibano dizia na contracapa:
“Vós
que vireis na crista da onda em que nos afogamos, quando falardes de nossas
fraquezas pensai também no tempo sombrio a que haveis escapado”.
E
o que é que tem a ver Sonia Chébel com essa história?
A
Sonia, investida de sua condição de membro do Centro Acadêmico, um dia pegou o
telefone e convidou Vandré a fazer uma palestra em Sorocaba. E ele foi, e de
graça. Dá para pensar isso nos dias de hoje?
No
livro Geraldo Vandré – Uma Canção Interrompida (editora Kuarup, 352 págs.,
2015), o autor, o paulistano Vitor Nuzzi, conta um pouco dessa história
registrada pela então estudante Sonia Chébel:
“O
cantor e compositor falou de comunicação, de arte, do festival de 1967 (Eu cantei muito mal, disse, referindo-se
a Ventania. Eu nunca canto desse jeito. Eu
cantei desesperado, perdido.) E afirmou algo que repetiria meses depois ao
pesquisador Zuza Homem de Mello, com outras palavras: A canção que eu canto tem um texto que eu quero dizer coisas, a canção
popular é texto, antes de tudo.
E
foi essa mulher, acompanhada do seu companheiro Alceu, que chegou junto com a
chuva.
Ah!,
e a Sonia, anos depois, ali pelo começo dos anos 1970, fez mestrado e doutorado
em Psicologia da Educação na PUC. Por esse tempo, o potiguar José Cortez
iniciava-se como fornecedor de livros para estudantes que nele encontravam um
amigo e um apoio. Entre esses amigos, a Sonia, conhecida à época por
“Sorocaba”.
José Cortez virou, com o tempo, um dos editores mais importantes e respeitados do
País. É dele a editora que leva o seu nome. Nome também de uma escola pública:
Escola Estadual José Xavier Cortez, localizada no extremo sul da cidade de São
Paulo.
José Cortez, nordestino do Rio Grande
do Norte, é uma espécie de Dom Quixote. Moderno. Ele sai constantemente por aí
afora, Brasil afora, fazendo palestra e contando história de vida e de
educação, não só dele. Cortez fala do Brasil de baixo, como lembra o poeta
cearense Patativa do Assaré, quando falava dos nossos dois Brasis, o de cima e
o de baixo.
Cortez (foto acima) semeia palavras, para dessas
palavras surgir, quem sabe, o Brasil que todos nós sonhamos. O Brasil para
todos, sem discriminação. O Brasil cidadão, em que todos são todos e iguais, como reza a Constituição.
DINHEIRO
NO BOLSO E NO BANCO
Uma
menina vítima da vida do mundo carioca, de 16 anos, caiu na boca do mundo. Não sei
o nome dela e seu nome, cá no caso, não vem ao caso.
Estou
tentando entender o mundo dessa menina violentada.
Vivemos
a violência de um tempo que jamais eu poderia pensar que pudesse viver.
Nós
todos sabemos tudo do que ocorreu lá atrás, no tempo das cruzadas.
Naquele
tempo, como hoje, as pessoas eram mortas à toa. Lixo. Ninguém era de ninguém. Bastava
pensar diferente da Igreja para acordar no outro mundo. E num tempo até
recente, fins do século 19, as mulheres eram escravas de quem tinha mais no
bolso ou no banco. Meu Deus, quanta tristeza, sofrimento e ignorância!
O
tempo passa, o tempo passa, e insistimos em não entender nada. E parece que
insistimos em não entender nada.
Aristóteles
identificou, uns cinco séculos antes de Cristo, que existia/existe vida vegetal
e vida animal, que é aquela, por exemplo, em que a onça corre em fuga quando
percebe perigo à vista para se livrar do agressor.
E
Aristóteles também identificou a vida dos animais humanos, que somos nós.
Aristóteles,
portanto, antes de todo mundo identificou que nós, humanos, somos diferentes
por saber o que pensar.
Voltemos
à menina de 16 anos...
Os
estupros são totais desde sempre.
Desde
sempre, nos violentam de todas as formas.
O
homem é violentado nos seus direitos e razões. Direitos e razões que têm a ver
com tudo.
E
a mulher?
E
o que é que uma tempestade, um tsunami, fazem conosco?
Nós,
homens e mulheres, somos, todos os dias, violentados de todas as formas.
Meu
Deus, até quando?
Puxa
vida...
Pessoas
incríveis, da minha vida, continuam a frequentar as minhas ideias.
Agora
vou falar de beber samba e dançar poesia com o trio Gato com Fome, vocês sabem
o que é isso?
Pois
bem, o Gato com Fome é um grupo musical que sabe o que é vida e arte.
No
dia em que nós, brasileiros, entendermos que a vida é simples, tudo vai ficar
melhor.
A
violência está no não saber.
E
o Gato com Fome chegou, como sempre chega ao Instituto Memória Brasil, tocando
e cantando as coisas de Kid Morengueira, Paulinho da Viola, Zé Kéti, Osvaldinho
da Cuíca, Paulo Vanzolini, Eduardo Gudin e o nosso caipira do samba Raul Torres.
O Gato com Fome cantou samba, breque, moda de viola...
E,
de repente, o cartunista Fausto chega...
Fausto,
como outros amigos que vocês todos conhecem: Fortuna, Jaguar, Ziraldo, sei lá...
E outros que fizeram parte da minha vida no tempo do Pasquim e Folhetim.
E
Fausto chegou.
Nada
combinado, a fala fluindo, e Fausto com sua caneta registrando cantos e
pensamentos...
ANASTÁCIA
Dia
desse, o apresentador do programa Pintando o 7 (Rádio Imprensa FM), Luiz
Wilson, aportou aqui em casa com o argumento de que eu não poderia faltar às comemorações pelo aniversário dos 76 anos da querida Anastácia, chamada de Rainha do Forró e
autora, junto com Dominguinhos, de 213 composições devidamente gravadas em LP,
CD etc, incluindo Eu só Quero um Xodó e Tenho Sede. Essa música se chama no LP Refazenda, do baiano Gilberto Gil. O cantor, aliás, voltou hoje a internar-se no hospital paulistano Sírio-Libanês. E lá fomos. Anastácia, como
sempre, estava maravilhosa. Lá, com ela, muita gente bonita, como a cantora
Fatel. Tomei água de coco e petisquei uns camarões maravilhosos. Tim-tim. E
viva Anastácia!
Matutando
cá com meus botões, indago: quem vive mais, os calhordas ou as pessoas de bem?
Ainda
cá com meus botões, matuto: para o Brasil ficar bom, é preciso apostar na
educação, no respeito ao próximo, na formação cidadã e na cultura popular.
Muita
gente boa, das minhas relações, partiu, foi embora misturar-se às estrelas. Um dia eu chego lá.
O
meu querido Paulo Vanzolini (1924-2013), doutor em cidadania, partiu, foi-se
embora. Sobre ele, eu escrevi este poeminha:
Um dos últimos encontros de Paulo e Assis, na casa do Paulo
Manezinho, no dia dos seus 80 anos
Moraes Sarmento, um dia lá em casa...
O
BRASILEIRO VANZOLINI
Vanzolini
foi-se embora
Rumo
à eternidade
Ele
deixou obra completa
E
em nós muita saudade
Foi
mestre, compositor,
Cantou
a alegria e a dor
Com
galharda liberdade
Ele
lutou por igualdade
E
fez da música oração
Da
ciência o seu caminho
Fortaleceu-se
na razão
Vanzolini
foi artista
Nascido
em terra paulista
Foi
ele exemplar cidadão
Fez
samba, toada e canção,
Leilão
e Volta por Cima,
Idem
Napoleão e Ronda
Foi
autor de boa rima
Craque
da cantiga e ciência
Estudou
com paciência
Mudanças
do nosso clima
Vanzolini
está acima
Do
banal e do rasteiro
Pela
vida ele passou
Como
grande brasileiro
Fez
o que tinha de fazer
Sem
desistir do prazer
Foi
ele de fato guerreiro
Poeta
do Brasil inteiro
Vanzolini
soube ser
Na
sua morcega vida
Como
aranha foi coser
Uma
bela teia pra morar
Brincar,
pensar, viver, amar,
E
jamais essa teia descoser
Antes
de Paulo – o Vanzo, como nós próximos falávamos –, foram de encontro às
estrelas Moraes Sarmento (1922-1998) e Manezinho Araújo (1910-1993). Sarmento foi
um grande nome do rádio e um cidadão que valorizou tudo o que era bom. Manezinho, o rei da embolada, foi outro que fez o bem, a partir da sua
obra musical e pictórica. Mané era um pintor primitivo, como a gente chama os
artistas do pincel que pintam no gênero naîf, descoberto pelo grande cearense Aldemir Martins (1922-2006).
Foram-se
embora Sarmento, Manezinho, Paulo... Mas aí Deus queria uma deusa caipira ao
seu lado. Foi quando olhou pra Pedro pedindo que ele convocasse a paulistana
violeira Inezita Barroso (1925-2015), porque o céu estava ficando muito monótono, acho, e assim o
Brasil e todos nós perdemos; e assim foi a vez de Inezita chamar Fernando
Faro e Papete, para junto com ela fazer a festa no céu.
A última vez que estive com Faro, ele dando bola para mim na TV Cultura
Sobre
Inezita, escrevi o livro “A Menina Inezita Barroso” (Cortez Editora, 2011), que
abre com um poeminha que eu lhe dediquei e que Papete, com muita categoria, musicou, para nossa alegria. O poeminha é este:
A
BRASILEIRA INEZITA
O
Brasil tem muita gente
A
começar pelo Sudeste
Desde
Inezita Barroso
E
até cabra da peste
Tem
causos de Trancoso
Revividos
no Nordeste
Cantar
o que se canta
É
uma coisa bem bonita
Que
nos faz acreditar
Na
riqueza infinita
Deste
Brasil brasileiro
Da
talentosa Inezita
Viva
Inezita Barroso
Essa
grande brasileira
Que
por si própria se fez
Uma
rainha violeira
A
cantar as coisas nossas Tal e qual uma guerreira
Pois
é, os meus amigos todos estão indo embora. Estou ficando sozinho. Quem fica só
é solitário, e a solidão é coisa braba.
Outro
dia, um amigo me disse que, cada vez que um amigo vai embora, ele vai junto. É
como se chegasse ao céu em pedaços. É, acho que tem a ver...
Depois
que a Inezita partiu, partiu também o querido Fernando Faro. Sobre ele, eu
também escrevi um poeminha. Este:
Fernando Faro partiu.
Foi pra eternidade.
Foi brincar com as estrelas.
E foi brincar de verdade!
Fernando, “Baixo”, partiu.
Deixando muita saudade.
Só que saudade tanta assim
Não é certo alguém querer.
É saudade demasiada
Que vai muito além do ser.
É saudade que machuca
E essa ninguém quer ter.
E
agora vai o Papete.
Eu
conheci o Papete há muitos anos. Na minha vida, ele foi presente no correr de
três décadas, pelo menos.
Papete,
como Belchior, frequentou a minha casa no tempo em que minha filha Clarissa
engatinhava... Mas,
como diz Gisele – a companheira de sempre do Papete –, “Deus sabe o que faz”. O Papete foi embora Deixando muita saudade O Papete foi embora Meus Deus, é realidade... Uma emissora do Maranhão hoje lembrou, com muita categoria, a grandeza de Papete; Papete, aliás, é o apelido que deu a ele Aldemir Martins.
Gisele
ficou o tempo todo ao lado do seu companheiro, enfrentando as intempéries que a
vida nos brinda. Ele foi, ela fica, como exemplo de dedicação ao outro.
Agora,
cá com meus botões, eu fico pensando: essas pessoas queridas, que nos deixaram
sem previamente avisar, devem estar fazendo festa no céu. Ficamos mais pobres, é claro, mas o céu ficou mais rico. Aliás, este é um pensamento de um grande
amigo jornalista, de nome Vitor Nuzzi.
Os
bons pensamentos, as boas ideias, o bom do bem-bom, têm de ser compartilhados.
A
propósito, na Internet, no seu instrumento Facebook, as pessoas curtem, curtem,
curtem... Poxa, além de curtir por que não opinam, não falam, não dizem o que
pensam? É tão bom pensar... E eu, cá com meus botões, matuto pensando que o Brasil pode melhorar, pode ficar bom, com gente que pensa e que vive educação.