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quarta-feira, 1 de julho de 2026

O CEGO NA HISTÓRIA (46)


A onda de cristãos-novos começou na última década do século 15 em Portugal, quando o rei D. Manuel I determinou que judeus e muçulmanos assumissem a fé católica. 

O Brasil foi um dos países mais procurados pelos novos cristãos, que aqui desejavam retomar a vida que viviam especialmente em Portugal e Espanha. Mas nem tudo ocorreu como queriam.
Centenas de cristãos-novos foram do Brasil levados para Portugal onde tiveram seu fim.
Há casos curiosos e até legendários referidos na nossa história, como o que trata de Branca Dias.
Branca, dizem alguns, nasceu em Portugal e viveu entre Pernambuco e Paraíba. Era detentora de muitos bens e esse detalhe deixava os inquisidores de olhos arregalados de tanta cobiça.
Há quem diga que Branca era brasileira e acabou-se em 1761, ardendo numa fogueira. 
A história dessa mulher é muito confusa, embora seja ampla a literatura a seu respeito em Portugal e no Brasil. 
O dramaturgo baiano Dias Gomes (1922-1999) escreveu, sem compromisso com a história, a peça O Santo Inquérito (1966). Ótima. A personagem central é Branca Dias.
Não há referência direta à eventual cegueira física de Branca, mas são muitas e muitas as referências figuradas ou metafóricas de quem nada enxergava da selvageria praticada pelos criminosos do Santo Ofício. Aliás, é história, os inquisidores prendiam e torturavam suas vítimas de todas as formas. Havia até um instrumento especial para cegar pessoas. 
O escritor e poeta Edgar Allan Poe andou pondo no papel suas impressões sobre o tema cá em questão. Vale a pena ler ou reler o conto O Poço e o Pêndulo, de 1842.
Bom, voltando a Branca Dias: o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) publicou texto de rara beleza incluído no livro Discurso de Primavera e Algumas Sombras (1978), enaltecendo essa controvertida personagem.  Este:

Branca Dias
paixão de frade
em seu engenho
da Paraíba
repele o amor
pecaminoso.
O amor se vinga:
é acusada
de judaísmo.
Já vão prendê-la.
Atira joias
e prataria
na correnteza.
A água vira
Riacho da Prata.
Morre queimada
no santo lume
da Inquisição
em Portugal.
Reaparece
na Paraíba
em Pernambuco
sob o luar
toda de branco
sandálias brancas
cinto azul-ouro.
Branca Dias
— garantem livros —
nunca existiu,
é lenda pura
de lua cheia.
E a Inquisição
provavelmente
outra ilusão.

Não foram poucos os literatos brasileiros que se debruçaram sobre o tema judeus e cristãos-novos.
Machado de Assis, uma das nossas glórias literárias, não deixou por menos. No seu livro Americanas (1875), de poesias, se acha a pérola que intitulou A Cristã-Nova. Um trecho:

....

Quatro vultos na câmara paterna

Eram. O pai sentado,

Calado e triste. Reclinada a fronte

No espaldar da cadeira, a filha os olhos

E o rosto esconde, mas tremor contínuo

De um abafado soluçar o esbelto

Corpo lhe agita. Nuno aos dois se chega;

Ia a falar, quando a formosa virgem,

Os lacrimosos olhos levantando,

Um grito solta do íntimo do peito

E se lhe prostra aos pés: “Oh! vivo, és vivo!

Inda bem... Mas o céu, que por nós vela,

Aqui te envia... Salva-o tu, se podes,

Salva meu pobre pai!” Estremecendo

Nela e no velho fita Nuno os olhos,

E agitado pergunta: “Qual ousado

Braço lhe ameaça a vida?” Cavernosa

Uma voz lhe responde: “O santo ofício!”

Volve o mancebo o rosto

E o merencório aspecto

De dois familiares todo o sangue

Nas veias lhe gelou...

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