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domingo, 6 de março de 2011

FOI BONITA A FESTA, PÁ!

Filmaço, esse Lope que acabei de assistir no Espaço Unibanco, na Augusta!
Poderia ser Lope de Vega.
Mas, paciência, só Lope o intitularam.
Lope de Vega foi um poeta espanhol que fez da sua vida uma grande poesia.
Na verdade, ele marcou a comédia espanhola.
Deixou milhares de textos, incluindo centenas de peça para teatro.
Viveu como pode; brincou, brigou, brilhou e fez felizes muitas mulheres do seu tempo (1562-1635).
Hora ou outra, porém, ele deu uma piradinha; principalmente quando uma de suas preferidas, Marta de Navares, a Amarilis de muitos de seus versos, se despediu da vida sem lhe dizer adeus.
Aí ele entrou em combustão e virou oficial da Inquisição, entre outras loucuras; detalhe que o filme não mostra.
Lope, o filme, tem por diretor o brasileiro Andrucha Waddington e no elenco os também brasileiros Selton Mello e Sônica Braga – maravilhosa!
Mas não é sobre esse belo drama que quero hoje falar.
Eu quero falar é da noite de quinta 3 na Livraria Cortez, na rua Bartira, ao lado da PUC, no bairro de Perdizes.
Noite inesquecível com equipe da TV Cultura dando ar de sua graça e transmitindo ao vivo.
Mais do que nunca, Inezita estava linda, vestida como rainha e com aquele sorriso que todo mundo conhece.
Nessa noite, eu lancei A Menina Inezita Barroso, um livro que classifico de infanto-juvenil.
E ela esteve lá, a Menina.
E também amigos jornalistas como Zé Hamilton Ribeiro, Pedro Vaz, Miriam Ramos, Rivaldo Chinen, Rogério Gama, Mera Teixeira, Marilu, Carina; artistas queridas como As Galvão e Irmãs Volpi; o Regional do Viola Minha Viola, liderado por Joãozinho; Valdeck de Garanhuns, Cacau Brasil, Aguinaldo Timóteo, Cris Aflalo, Socorro Lira, Neimar Reis, Marcos Mendes, Yassir Chediak, Silvio Brito, Moreira de Acopiara, cordelista; Papete, que musicou a Guerreira Inezita, que abre o livro, sobre versos meus; produtores, como o legendário Pelão; e outros amigos meus e da Inezita, entre os quais Osmar Santos, Sidney Oliveira, Darlan Ferreira, Tati Fraga, Júlio e Geraldo Magela, além do próprio Cortez, feliz ao lado das filhas e do seu staff, incluindo o professor Amir.
Muita gente bonita, incluindo Marta, filha de Inezita; e Marcelo, um de seus primos.
A Andrea estava linda, junto com Pedro e Marina.
Até Clarissa e Daniel, marcaram presença.
Nos dedos, se contados, umas 400 pessoas me disseram.
A noite terminou no começo da madrugada, que foi regada a guaraná, suco, água e, claro, muito uísque.
Também teve bolo e “Parabéns pra Você”.
Mas senti falta de amigos queridos, como Peter Alouche, Paulo Benites, Roberto Marino, Oswaldinho do Acordeon, Nestor Tupinambá, Jarbas Mariz, Tom Zé, Paulinho, Dominguinhos, Vandré, Miguel, Marcus, Marco, Marcelo, Nêumanne, Tinhorão, Herência, Alessandro, Izidio, David, Roniwalter, Expedito, Gregório, Miriam, Patrícia, Nei, Aluizio, Atílio, Fabiana, Hilton, Caio, Ferrari, Celia, Celma, Anastácia (tá perdoada, pois disse que estaria cantando forró e frevo em Recife) e uns mais.
Alkimin mandou dizer em papel timbrado do Palácio que tinha outros compromissos...
Mas de tanta gente presente, não sobrou espaço para o Regional do Viola se apresentar.
Foi bonita a festa, pá.

quinta-feira, 3 de março de 2011

NA LIVRARIA CORTEZ, A MENINA INEZITA BARROSO

É hoje!
Chegou, enfim, o dia/noite de lançamento do livro A Menina Inezita Barroso, na Livraria Cortez, que fica ali bem ao lado da Pontifícia Universidade Católica, PUC, esquina das ruas Bartira e Monte Alegre, bairro de Perdizes.
A história da menina começa num 4 de março, há 86 anos, hoje, menos um dia.
Antes de contar a bonita história de Inezita, na infância chamada por familiares e amigos de Zitinha, eu traço um panorama da cidade de São Paulo dos anos de 1920 e 1930, que ainda engatinhava.
Lembro da distância de tudo, dos bairros nascendo, dos operários, dos barões do café, da Semana de 22 e seus personagens, como Brecheret, Menotti Del Picchia, que conheci e entrevistei para o suplemento do Diário Oficial do Estado, Leitura; Monteiro Lobato e Di Cavalcanti, entre outros.
Conto da timidez que impediu a menina de conversar com Mário de Andrade.
E por aí segue a leitura, até o dia que Zitinha assiste a um espetáculo da portuguesinha Carmen Miranda e Grande Otelo no extinto Cassino Atlântico, no Rio de Janeiro.
O livro tem belas passagens ilustradas pelo talento do xilogravador Ciro Fernandes.
Numa página e noutra aparecem nomes da música caipira, como Raul Torres.
E Carlos Gardel?
O que tem Carlos Gardel a ver com Inezita Barroso?
Saiba lendo o livro.
Pois então, vamos todos cantar parabéns pra Inezita e comer bolo e beber guaraná das boas?
Joãozinho do Regional do programa Viola Minha Viola, Papete e mais um monte de gente bonita da nossa música vão estar por lá, ali na Livraria Cortez, a partir das 19 horas.
Quem chegar por último é filho do padre.

terça-feira, 1 de março de 2011

POIS É, UM LIVRO SOBRE INEZITA BARROSO

Um colega de jornal me pergunta por que resolvi escrever um livro infanto-juvenil sobre Inezita Barroso.
Simples, respondi: porque até agora ninguém se capacitou a escrever livro nenhum sobre ela; e ela, Inezita, é simplesmente uma grande brasileira, uma grande estudiosa do nosso folclore, uma grande cantora, intérprete; atriz de cinema, apresentadora de rádio e televisão.
Para quem ainda não sabe: o seu Viola Minha Viola está ininterruptamente no ar há três décadas através da TV, canal 2, da Fundação Padre Anchieta.
Nas manhãs de sábados, a Rádio Terra, de São Paulo, apresenta O Programa da Inezita; outra jóia que deve ser apreciada por todos quanto gostam do que é bom.
E como se não bastasse, ela, Inezita, é uma pessoa incrível; um exemplo muito bonito de cidadã, respeitadora das gentes e culturas; uma guerreira, como digo nos versos abaixo que escrevi, em sextilha, e que o amigo José de Ribamar Viana, o Papete, acaba de musicar para um clipe que já, já estará por aí:

O Brasil tem muita gente
A começar pelo Sudeste
Desde Inezita Barroso
E até cabra da peste
Tem causos de Trancoso
Revividos no Nordeste

Cantar o que se canta
É uma coisa bem bonita
Que nos faz acreditar
Na riqueza infinita
Deste Brasil brasileiro
Da talentosa Inezita

Viva Inezita Barroso
Essa grande brasileira
Que por si própria se fez
Uma rainha violeira
A cantar as coisas nossas
Tal e qual uma guerreira

Papete, meus amigos, também um belo exemplo de cidadão brasileiro, artista de invulgar talento, é tido por meio mundo como um dos maiores percussionistas do planeta.
A sua história também é comprida.
Maranhense de Bacabal, safra de novembro de 47, estreou em disco (LP Berimbau e Percussão) em 1975, via Marcus Pereira. De lá para cá, e após andar se apresentando pelo mundo todo, a sua voz e instrumentos se acham em dezenas e dezenas de discos.
O LP que ele, Papete, gravou com Toquinho, em 1982, é primoroso.
E o que dizer, então, do DVD (capa acima) que os mesmos Papete e Toquinho gravaram na Suíça, em 1983?
Viva o Brasil!
Diante disso, já não era tempo sobrando de alguém publicar um livro sobre essa extraordinária mulher/artista?
Pois, pois, quinta 3 estarei na Livraria Cortez, ali na Rua Bartira, autografando A Menina Inezita Barroso.
Claro, ela, a menina, estará lá conosco comendo bolo e bebendo guaraná das boas; e todos nós a aplaudindo por tudo quem tem feito, e pelos 86 aninhos que completará no dia seguinte.
Vamos lá engrossar o coro, junto com o Regional do programa Viola Minha Viola liderado pelo violeiro Joãozinho?
Ah! Diz o Papete:
- Se Inezita tivesse nascido nos Estados Unidos, o mundo todo já teria tomado conhecimento da sua bonita história.
Ao dizer isso, perdoem a minha gabolice, lembro o trompetista Winton Marsallis dizendo na minha cara redonda da Paraíba:
- Se você tivesse nascido na minha terra, você teria todas as condições de escrever o que escreve a respeito do seu País.
Fiquei mudo, sem saber como rebater essa fala.
Marsallis é de Nova Orleans e considerado um dos maiores do mundo no seu instrumento.
Viva Inezita Barroso!

O DISCURSO DO REI. ASSISTAM-NO.

Maravilhoso!
Gostei muito do filme O Discurso do Rei, um belo drama dirigido por Tom Hooper – de quem nunca ouvi falar.
Cabra bom!
Melhor ou tanto quanto o ator que interpreta Gerge VI, na intimidade de Lionel, Berty; um gago príncipe que vira rei e entusiasma no fim os seus súditos, na convicção de um discurso em prol da liberdade e da esperança.
A história toda transcorre nos princípios da década do século passado.
É bonito o filme.
Boas imagens e tudo o mais.
Mereceu a glória conquistada ontem na noite do Oscar.
Lembrei de Nélson Gonçalves e do conterrâneo Assis Chateaubriand.
No cinema, o Reserva Cultural, que já foi Cine Gazeta, meia dúzias de assistentes. Talves, uma dúzia.
Assistam-no.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

QUINTA 3, LANÇO LIVRO SOBRE INEZITA BARROSO

É coisa rara no calendário gregoriano o carnaval cair no mês de março.
A justificativa dá-se pelo fato de a Páscoa ser comemorada no domingo imediato à primeira luz cheia do outono.
E foi num mês como este que nasceu nun dia 4 a paulistana Ignez Magdalena Aranha de Lima, conhecida em todo o País por Inezita Barroso, folclorista, cantora, atriz premiada e líder de audiência da TV Cultura como apresentadora do programa Viola Minha Viola, há 30 anos ininterruptos no ar.
Na infância, Ignez era chamada por familiares e amigos de Zitinha.
E é a história de Zitinha que conto no livro a Menina Inezita Barroso, a ser lançado na próxima quinta 3, a partir das 19 horas, na livraria Cortez, que fica ali na Rua Bartira, 317, ao lado da Pontifícia Universidade Católica, PUC, no bairro de Perdizes.
Sou suspeito, mas digo sem receio algum: o livro, todo ilustrado pelo xilogravurista Ciro Fernandes, está muito bonito.
Vamos todos lá à livraria do Cortez para comer bolo, beber guaraná e cantar parabéns para Inezita, com coro puxado pelo regional que a acompanha no Viola, liderado pelo violeiro Joãozinho?

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

NA PROSA COM INEZITA, LEMBRANÇA DE PAPETE

Ontem, à boca da noite, tive vontade e fui bater à porta da querida Inezita Barroso (foto,de Andrea Lago), que mora pelas bandas de onde moro, cá entre Santa Cecília e Campos Eliseos.
Num dedo de prosa e outro; uma molhadinha no bico com uisquinho e tal, sem gelo - claro - lembramos de um monte de coisas boas ocorridas nos tempos de ontem; nos tempos que ela e Morais Sarmento, grande radialista e amigo meu, e dela, foi não foi iam os dois na minha casa, na Armênia e lados do Butantã depois; nos tempos que meus filhos eram inda meninotes.
Lembramos entre risos de cervejas tantas, e quentes, que ambos, Sarmento e ela, Inezita, levavam nos porta-malas de seus carros com a desculpa de as solvermos sem gastar o gogó; sim, assim quente.
Não é à toa, pois, que ela, Inezita, mantém o vozeirão lindo que a consagrou em todo o País.
Sarmento está no céu, mas com a voz em dia...
Lembramos também das noites passadas no velho restaurante Parreirinha, com endereço ali na Gal. Jardim, bairro da Vila Buarque, centro velho da cidade, de propriedade do notívago e sempre querido e receptivo Miro.
Ah! Quantas histórias vividas ao lado de tanta gente bonita, meu Deus do céu; como Arley Pereira, Robertinho do Acordeon, Ronald Golias, Noite Ilustrada, Miécio Caffé, Nélson Gonçalves, Adoniran Barbosa, Jamelão, Miltinho e mais e mais que nem a memória hoje cansada traz de volta.
Com Golias bebericando umas lá no Parreirinha, ocorreu que ele, me vendo com uma mulher, brincou, a seu jeito:
- Pôxa, essa é mesmo bonita. Parabéns, você tem mesmo bom gosto.
Chiii. Era a minha mulher.
O pau cantou, a mesa virou e garrafas de cerveja e vinhos voaram chão.
Tempos de lembranças
No Parreirinha, varávamos noites e entrávamos madrugadas adentro boemiando...
Na troca de verbos com Inezita, falei de Xerém, da dupla com Bentinho.
Ela lembrou que fez show em São Paulo com ele e que ele era maravilhoso.
E aí falei da neta, Cris Aflalo: “Essa menina é maravilhosa, apenas lhe falta atenção e direção”, ela disse.
E contei:
- O Papete vai almoçar comigo manhã.
E aí, disse:
- Esse é muito bom, faz tempo que não o vejo.
Ao me despedir dela, uma surpresa:
- Leve essa cachaça e a beba com ele.
Bebi.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

CRIS AFLALO: DEPOIS DE SÓ XERÉM, QUASE TUDO DÁ

Voz bem colocada e claríssima, dicção perfeita; agudos nos trinques.
A dona desses atributos é a paulistana Cris Aflalo, uma profissional de alto quilate do ramo musical.
Cris demonstra firmeza e definições no repertório que interpreta. Ela chega a impressionar, mesmo com pouco tempo de carreira: estreou em disco no ano de 2003, com o CD Só Xerém, seu avô famoso.
De batismo Pedro de Alcântara Filho, cearense de Baturité, Xerém deixou marca indelével na carreira de músico e humorista que abraçou lá pelos idos de 1920, ano que trocou sua terra pela terra dos cariocas, onde logo se destacaria como gaitista contratado da Rádio Mayrink Veiga e, depois, da Rádio Nacional onde formou dupla “caipira” com a irmã Tapuya e, em seguida e mais assiduamente com Bentinho, que no bordão do radialista César Ladeira, o bam, bam, bam da época, o identificava como integrante da “dupla que é uma naváia”; e isso, num tempo que brilhavam no firmamento musical nomes que iam desde Chico Alves, o Rei da Voz; a Dorival Caymmi, Orlando Silva e Lamartine Babo, entre tantos.
A primeira gravação em disco de Xerém e Tapuya e sua Tribo, como se apresentava, foi feita no dia 2 de julho de 1937.
A música?
Uma quadrilha feita em parceria com o talento chamado Pequeno Edson, que, como se diz, partiu antes do tempo.
No primeiro CD, Cris Aflalo ponteou um repertório cujo destaque era parte da obra do seu famoso avô, intitulado Só Xerém.
Agora, ela volta à estrada e brinda os ouvidos de bom gosto de gente inteligente com um CD melhor do que o outro: Quase Tudo dá.
Uma pérola leve, bonita.
Nesse disco, Cris prova com A + B que não é só Xerém; é mais, ela é muito mais, e para isso dá sobejas amostras de até onde pode e quer chegar com a bela voz que Deus lhe deu.
A produção do novo disco, como o anterior, traz a assinatura de Luiz Waack, um craque em vários instrumentos e sensibilidade musical acima da média.
Agora, uma coisa: eu se fosse você, meu amigo, iria correndo às lojas especializadas à procura de Só Xerém e de Quase Tudo dá.
Quem procura, acha.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

ESCOLA DE SAMBA HOMENAGEIA O NORDESTE

É bom saber que uma escola de samba da capital de São Paulo, a Acadêmicos do Tucuruvi, está homenageando no carnaval deste ano a raça nordestina que ajudou a construir a 5ª maior cidade do mundo, esta: a capital dos bandeirantes e dos nordestinos, São Paulo.
É a primeira homenagem a respeito.
Muito bom, não é?
O samba-enredo OXENTE, O QUE SERIA DA GENTE SEM ESSA GENTE? SÃO PAULO: A CAPITAL DO NORDESTE!, de Vaguinho, Edu Leão, Doutor, Rigolon e André União. O intérprete é Fredy Vianna.
Diz a letra:

Sou cabra da peste, vim lá do Nordeste
São Paulo é minha capital
Levando alegria, eu vou por aí
Eu sou valente, sou Tucuruvi
Vou embarcar nessa aventura
Em busca de um lugar ao sol
Trago no peito desafio e esperança
Na bagagem a lembrança,
Sonho ou realidade.
Vou construindo ilusão,
Erguendo os pilares da cidade,
Deixando marcas da minha tradição:
Ao som do tambor, a fé em louvor, religião
Oxente festeira, acende a fogueira, é São João.
Vem, vem provar
O sabor que vem de lá
Esse gosto, esse tempero
É de fato brasileiro.
Da sanfona um acorde tocou forte o coração
Olha o povo dançando pra lá,
Arrastando a sandália pra cá,
O forró tá danado de bom
Um sorriso é a moldura do meu traço cultural
Quando a gente se encontra, a mistura é natural.
Carrego na alma a bravura
E o orgulho de ser quem eu sou
Vai meu samba, vai! Reconheça o meu valor!

Ano passado desfilei a minha beleza - hahahaha! - nas alturas de um carro alegórico da X9 Paulistana, entoando o enredo Do Além-Mar, a Herança Lusitana nos Une. Saí de português, junto com os poetas Celso Alencar e Álvaro Alves de Faria. A escola perdeu, mas a culpa não foi minha...
Na foto, o papai lá em riba todo pimpão.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

GRANDE DOMINGUINHOS! E VIVA O CANTO DA EMA

Eu disse que ia, fui.
Hoje, domingo, há uma semana extamente e mais ou menos nesta hora que ponho no mundo estas linhas, tive a alegria de rever amigos que não via há muito tempo, no lugar de ouvir coisa boa e dançar forró e arrasta-pé dos bons denominado Canto da Ema, dos meus amigos Zé e Paulinho.
Um desses amigos revistos domingo hoje há uma semana foi Waldonys, de batismo Waldonys José Torres de Menezes, nascido no dia 14 de setembro de 1972, em Fortaleza.
Um menino ele, com jeito de gente grande.
E é, talentosíssimo.
Waldonys eu conheci no século passado e até a sua casa uma vez eu fui; e bem recebido.
Grande pessoa, grande cidadão, exemplar profissional em dia com a profissão de sanfoneiro é o Waldonys.
Filhote, no melhor sentido, do rei do baião Luiz Gonzaga.
Waldonys é Dominguinhos de ontem, com orgulho ele deve se achar.
Pois bem, fui ver Dominguinhos fazer setent´anos no Canto da Ema e me deparei com ele, Waldonys, e também com Anastácia, Fuba e outros.
Lá reencontrei a conterrânea Elba Ramalho, linda, solta como sempre, forrozando...
Canto de sabiá ela tem.
Corpo elástico, dançarina no palco e tanto, ela!
Pra minha surpresa, lá estava também o querido Oswaldinho, parceiro bissexto que promete por melodia numa letra que lhe dei há pouco sobre o Corinthians.
Oswaldinho, agora quase magrelo, falou e falou, riu, e mostrou que a sanfona é parte de tudo em si próprio.
Eita!
Não é pra ficar feliz?
Foi, sim, bom rever os amigos.
Ah! Mas o calor fez a pressão de Dominguinhos subir ao céu e ao palco ele não subiu.
O Ciço, seu empresário e amigo, ficou preocupadíssimo.
Todos nós.
Mas vamos cobrar de Dominguinhos a sua presença no Canto em fevereiro do ano que vem.

PS- A foto aí de cima tem uma semana que foi feita.
Fica o registro.
......................

VILLA-LOBOS
Outro registro: o compositor, pesquisador e maestro carioca Heitor Villa-Lobos foi quem mais foi lembrado nos teatros, nos concertos, nas rádios e televisões do mundo inteiro no ano passado. Noutras palavras: foi o autor brasileiro com obras mais executadas nas emissoras de rádio do mundo todo, em 2010.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

JOSÉ DOMINGOS DE MORAES, 70. VIVA!

Dominguinhos, de batismo José Domingos de Moraes, pernambucano de Garanhuns, nasceu num dia de hoje, 12 de fevereiro, há exatos 70 anos.
Bem cedo integrou um triozinho musical chamado Os Três Pinguins, formado por mais dois irmãos: Moraes, na sanfona; e Valdomiro, na zabumba, também chamada de male; e ele próprio, no pandeiro.
Tudo molecote, incluindo ele, Dominguinhos, com seis anos.
Tocavam nas feiras livres e portas de hotéis. E foi numa dessas portas, em Garanhuns, que os três irmãos foram vistos pelo rei do baião, Luiz Gonzaga, que se emocionou ao ouví-los tocar.
Resultado:
- Seu Gonzaga - lembra Dominguinhos - disse pra gente procurar ele no Rio de Janeiro, quando pudesse, que ele nos ajudaria.
Esse primeiro contato com Gonzaga ocorreu em 1948.
Seis anos depois, Dominguinhos e a família, incluindo o pai Chicão, pegaram um pau-de-arara e foram bater à porta do Rei do Baião, que os recebeu muito bem e, de cara, presenteou Dominguinhos, chamado até então de Neném, com uma sanfona das boas, bonitona, lustrosa.
Tinha ele 17 anos quando Gonzaga, numa entrevista a uma revista carioca declarou numa longa reportagem que ele seria o seu sucessor.
O resto se sabe.
Amanhã, eu vou dançar forró no Canto da Ema, ali na Avenida Faria Lima, do meu amigo Paulinho.
Boralá todos?
ah! A foto aí de riba foi batida no programa São Paulo Capital Nordeste e serviu para ilustrar reportagem assinada por Severino Mendes, alter ego do jornalista Moacir Japiassu, da extinta e valorosa revista Jornal dos Jornais, em agosto do ano 2000.

ROBERTO CARLOS AGORA NA RÚSSIA

Numa boa?
Pois, tá: lamentável o fato de integrantes da chamada torcida organizada do Corinthians fazerem o que fizeram com o lateral-esquerdo Roberto Carlos, ao ameaçarem-no de agressão e à sua família, pelo desempenho considerado pífio no jogo válido a pré-classificação à Libertadores há poucos dias diante do fraco Deportes Tolima no estádio Manuel Murillo Toro, na Colômbia, cujo resultado foi 2 x 0.
Mas jogo é jogo e outras partidas virão como a de amanhã contra o Paulista, em Jundiaí.
Não gostei.
Fica o registro.
Ah! Roberto Carlos agora vai jogar na Rússia, ganhando três vezes mais do que ganhava no Parque São Jorge.
Quem perde?

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

NO EGITO, CAI MAIS UM DITADOR

Olharam o relógio?
Pois é, caiu há minutos mais um fela.
Sim, ele mesmo: Mubarak, do Egito, depois de três décadas de judiação contra um povo que o mundo todo sabe oprimido desde tempos de antanho.
O velho ditador dissera há cerca de 40 horas atrás, em pronunciamento pela televisão, que não largaria o osso pelo menos até a próxima primavera. E, oportunista e ardiloso, acenou com aumento em torno de 5% no salário da população, desde que todos voltassem a seus lares, comportadinhos.
Mas ninguém se comportou como ele queria e o que se viu é o que se ver: a vitória do povo, neste primeiro momento.
Portanto, a estratégia do “cala boca” não pegou e Mubarak fugiu com o rabo entre as pernas, como o seu coleguinha Ben Ali, da Tunísia, no final da primeira parte do mês passado.
O grito de libertação continua se alastrando pelo mundo árabe.
Agora é acompanhar os desdobramentos - e o movimento norte-americano - e ver quem assume o novo poder no Egito.

O POVO UNIDO ETC. TORÇAMOS PELO EGITO

Não faz muito, eu disse que o mundo árabe é um barril de pólvora prestes a explodir. E é.
Hoje, 18 dias passados de intensos e compreensíveis protestos populares nas ruas a favor da liberdade, o Egito se mostra um caos absoluto; e o exército, caso opte por ficar do lado de Mubarak - figura áspera e enjoativa que manda por lá há 30 anos, sob os auspícios do governo norte-americano -, um massacre a almas humanas sem precedentes poderá ocorrer no país.
Mas é improvável que o exército fique contra o povo. É mais provável que assuma o poder, após possível renúncia ou mesmo fuga do ditador Mubarak.
Os egípcios estão fazendo bonito, eu disse também. E estão.
São milhões de pessoas nas ruas tentando romper os grilhões que lhes prendem há séculos...
Conversando há pouco com um amigo, o engenheiro paulistano de origem egípcia, do Cairo, Peter Alouche (foto), arrisca prognósticos após a crise que está deixando os Estados Unidos loucos e o planeta em estado de alerta.
São quatro as possibilidades que Peter aponta:
1ª) Ditadura militar mais ferrenha do que a de Mubarak.
2ª) Regime teocrático islamista, do tipo de que vê no Irã.
3ª) Democracia laico-islâmica, aos moldes da que há na Turquia.
4ª) Invasão de Israel (como a vislumbrada na 1ª possibilidade).
A probabilidade de a 1ª e a 2ª possibilidades ocorrerem, Peter avalia em 40%; e a 3ª, 15%.
Israel está esfregando as mãozinhas santas para controlar a situação.
Suas possibilidades ainda segundo Peter, é de algo em torno de 5%.
A Liga Árabe, de Amr Moussa, que representa 200 milhões de pessoas espalhadas em 22 países da região, poderá assumir o Egito. O grupo ou partido Fraternidade Muçulmana, que existe há mais de 60 anos e a direita ocidental diz que não presta, também poderá assumir o poder. Nesse caso, o nome mais cotado é o do prêmio Nobel de 2005, Mohamed ElBaradei.
Eu, hein!
No nosso Nordeste, a temperatura é mais amena.
E fiquemos de olho no relógio.

PS - Antes de Peter avaliar a situação que o Egito vive no momento, ele disse, em tom de profunda tristeza: "Estou sem dormir direito há dias, pois o meu país está ferido". Fica o registro.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

MARINOS EM FESTA COM A MATRIARCA YARA

Pessoalmente não conheci o violinista Alberto Marino, hoje nome de viaduto no bairro do Brás; mas conheci o filho, Júnior, de quem nos tornamos amigos.
Júnior, de idade, está fechando a casa dos 80, como Paulo Vanzolini.
Conheci também um de seus quatro filhos, Roberto.
Somos amigos.
Aliás, conheci boa parte da família; como dona Yara Azeredo, mãe do Roberto e mulher-companheira pela vida toda de Marino Jr., até hoje.
O “até hoje”, leiam-se: 60 anos.
Dona Yara é da turma de formandos de 1950 da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, a mais antiga do País (a segunda mais antiga é a de Recife, PE, onde estudou o poeta paraibano, meu conterrâneo, Augusto dos Anjos, autor de um só livro, de poesias: Eu, um clássico do gênero e o mais lido da língua portuguesa).
É o caso: conversa vai, conversa vem, o que se leva desta vida, digo: é o que deixamos, ou seja: a amizade que se tem e que o peito mantém.
Pois bem, a primeira vez que falei com Marino Jr., por telefone, foi ali no redor dos anos 90, por telefone. Um pouco antes, talvez; ainda nos tempos em que eu exercia a função de repórter da Folha de S.Paulo.
Pessoalmente nos conhecemos na década passada, quando fui atendido por Roberto, advogado e uma pessoa incrível.
O velho Marino era o titular do Sexteto Bertorino Alma, anagrama que inventou para se esconder da turba elitista da sua época, que considerava artista popular uma espécie de pária da sociedade.
Vejam só!
Estamos falando dos começos dos 900...
Alberto Marino, entre várias composições instrumentais, nos deixou Rapaziada do Braz (com “z”), homenagem à namorada Ângela Bentivegna, com quem se casaria e viveria por toda a vida.
Marino partiu em 1967.
Rapaziada, uma valsa-choro, foi gravada originalmente pelo Sexteto Bertorino, por volta de 1927, num selo chamado Brasilphone; e logo depois pelo Sexteto Piratininga, via selo Arte-Fone, ambos de curtíssima duração.
Em 1960, o cantor argentino naturalizado brasileiro Carlos Galhardo pediu a Marino Jr. que compusesse uma letra para a melodia do pai, o que foi feito da noite para o dia.
Foi, podemos dizer, a beleza se juntando à beleza. Resultado: a perfeição numa obra popular.
Mas o que é que eu quero dizer com este arrodeio todo?
Primeiro: que Rapaziada do Braz foi o primeiro clássico musical da capital de São Paulo.
Mais: que é um clássico com o nome de um bairro paulistano, o primeiro dentre dezenas, hoje.
E mais: que o autor, de família italiana, nascido no bairro da Liberdade, geraria filhos e netos de grande importância para a vida brasileira; quase todos advogados.
Os Marinos juntaram a Arte ao Direito.
É coisa pra se aplaudir, não é?
E por que mais faço este arrodeio?
Ora, para dizer simplesmente que dona Yara Azeredo Marino, da safra de 26, e cuja história passa pela guerra do Contestado, está aniversariando hoje.
Tim, tim.
Parabéns e meus respeitos e carinho a dona Yara.
Ah! Mas o que tem a ver Paulo Vanzolini com esta história?
Simples: é dele o samba-canção Ronda, lançada por Inezita Barroso em 1953 e logo tornada um clássico do cancioneiro paulistano, não basta?
E viva o Brasil!

Na foto acima, de 1953, o jovem Alberto e a jovem Yara, nas Arcadas de São Francisco.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

JOSÉ RAMOS TINHORÃO, 83. VIVA!

O historiador José Ramos Tinhorão, que neste 7 de fevereiro de sol e calor completa 83 anos de vida, muitos dos quais vividos em meio a polêmicas provocadas por seus escritos originais e necessários à compreensão da formação do Brasil, não cansa de voltar seus olhos de lince e aguda inteligência ao campo minado da cultura musical.
É desse campo que ele extrai dados para o esclarecimento de questões como as que dão conta de que o fado não é português, o samba não é baiano e a modinha e o lundu foram, por exemplo, os primeiros gêneros musicais urbanos saídos daqui e levados a Portugal nos fins do século 18 pelo violeiro carioca Domingos Caldas Barbosa, a respeito de quem, aliás, escreveu e publicou primeiramente em Lisboa um belo e elucidativo livro, em 2004.
São muitas as pesquisas e descobertas que tem feito desde os começos dos anos 50, ainda nos tempos de copidesque aplaudido do Jornal do Brasil.
Não à toa, ele é, sem dúvida, o nosso principal historiador.
E digo mais, embora sem procuração para tal: já passa da hora de o Brasil reconhecer a sua obra, o seu talento e dedicação no campo da investigação histórica, lhe prestando bem-vindas e oportunas homenagens.
Flores em vida.
Pergunto: por que o governo ou uma entidade qualquer, privada ou não, não cria um prêmio de incentivo às pesquisas em torno da música e da cultura popular com o seu nome?
E por que também seus livros não são adotados nas escolas?
Já é hora...
Acho até que Tinhorão merece um monumento em praça pública, por sua intensa e longeva dedicação à historiografia brasileira.
Seu pecado: afirmar lá atrás, nos anos 60, que a bossa nova nunca foi uma criação genuinamente brasileira, mas, sim, a derivação de um tipo de música norte-americana.
Ora, ora, e não é verdade?
E isso já não está mais do que provado?
O próprio Carlos Lyra, do movimento bossa-novista de João Gilberto & Cia., chegou a compor uma música a respeito, Influência do Jazz, que a desconhecida Célia Reis lançou em março de 1962 pela Philips. A letra diz já no início:

Pobre samba meu
Foi se misturando
Se modernizando e se perdeu
E o rebolado, cadê?
Não tem mais
Cadê o tal gingado que mexe com a gente?
Coitado do meu samba mudou de repente
Influência do jazz...

Criticam José Ramos Tinhorão, mas negar o seu valor de historiador, ou mesmo questionar as suas investigações no campo da cultura e descobertas, ninguém faz.
Que tal ler melhor e mais e mais os seus livros e consultar o seu acervo no Instituto Moreira Salles?
Não é coisa pouca: a obra desse santista nascido em 1928 se estende por quase 30 livros publicados desde 1966, aqui e em Portugal.
Viva Tinhorão!

PS - Na foto este escrevinhador em Lisboa, ciceroneado por Tinhorão.
..................
CARNAVAL
Um incêndio de grandes proporções atingiu há poucas horas a chamada Cidade do Samba, na Rua Rivadávia Correa, na Gamboa, zona portuária do Rio de Janeiro. Com isso, é quase certo que o carnaval carioca tenha virado cinzas.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O MUNDO ÁRABE É UMA BOMBA

Sim, o mundo árabe é uma bomba prestes a explodir a qualquer minuto. E o detalhe bonito e curioso é que o povo egípcio protesta para mudar sua vida com sorriso na cara, irônico, brincando de viver livre na Praça Tahrir.
Até o nome da praça tem a ver com graça... Tahrir...
Bonito, sim, o exemplo que o povo oprimido do tirano Mubarak está mostrando para o mundo dito civilizado.
Um exemplo e tanto!
E os Estados Unidos que se cuidem.
Tudo começou em fins do ano passado, precisamente no dia 17 de dezembro, na Tunísia, quando o tunisiano Mohamed Bouazizi vendia frutas e vegetais na rua e foi agredido e preso sem razão por uma policial, que lhe confiscou a barraca igual a tanta e tantas que existem no Brasil, em cidades como São Paulo.
Revoltado e cansado de cabresto, Mohamed ateou fogo ao próprio corpo.
A partir daí, o mundo árabe começou a pegar fogo.
O ditador da Tunísia, Zine Bem Ali, diante de protesto provocado por milhares e milhares de tunisianos, se viu acuado e obrigado a fugir.
A constatação é: um povo unido e decidido pode derrubar cara feia quando decide...
Já passamos por isso.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

PLÁGIOS E A ALMA DO POVO, O FOLCLORE

Como Águas de Março, lançada no projeto Disco de Bolso, do Pasquim, em 1972, há muitas e muitas músicas recolhidas do folclore e assumidas integralmente ou com variações por artistas dos mais diversos calibres.
Asa Branca, assinada por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, entra no rol.
Leiam o livro Patativa do Assaré, o Poeta do Povo.
Há coisas interessantes, lá.
Há casos muitos, muitíssimos, de apropriação pura e simples.
Em 1982, por exemplo, o capixaba Roberto Carlos pegou uma bobagem intitulada Loucuras de Amor, de um obscuro Sebastião Braga, e a gravou como se fosse sua, com o título O Careta.
Deu pau e o reclamante ganhou o que quis, na Justiça.
Mas nem tudo vai parar na casa dos homens togados.
Em 1976, o cearense Belchior gostou do que leu no livro Zé Limeira Poeta do Absurdo, de Orlando Tejo e, sem creditar, deu de garra dos últimos dois versos da sextilha do doido (maravilhoso Zé) para compor a canção Sujeito de Sorte. A referida sextilha (forma de encaixar versos de sete a 11 sílabas em estrofes rimando o segundo com o quarto e o sexto) é esta:

“Eu já cantei no Recife
Dentro do Pronto-Socorro
Ganhei duzentos mil réis
Comprei duzentos cachorro
Morri no ano passado
Mas esse ano eu não morro”.

Pior, porém, fez o alagoano Djavan em 1992, que pegou uma dezena de versos seguidos do poeta pernambucano Manuel Bandeira e deles se apropriou totalmente, na maior, incluindo o título: Violeiros, que pode ser conferido no LP Coisa de Acender.
E está lá pra quem quiser ler, abrindo o lado 2 com crédito à letra e à música: Djavan.
Casos assim são diferentes de alguém ler num jornal uma frase, um título, e desenvolve um poema ou compõe uma canção como fez o baiano Caetano Veloso ao se deparar com matéria da extinta revista Manchete tratando dos conflitos de rua em maio do agitado 68: “Il est interdit d´interdire”, que resultou na polêmica canção tropicalista É Proibido Proibir, inscrita no III Festival Internacional da Canção.
Também é diferente Chico Buarque escolher Tom como parceiro para Sabiá.
Sabiá, uma bela canção, foi inspirada no poema Canção do Exílio, do maranhense Gonçalves Dias.
E diga-se: esse é o poema com maior número de poemas nele inspirados até hoje no Brasil.
Sabiá ganhou o 1º lugar do III FIC, na noite de 29 de setembro do ano do bode(1968), no Maracanãzinho, quando alvoraçada a multidão presente ouviu o paraibano Geraldo Vandré dizer, alto e bom som:
- Antônio Carlos Jobim e Chico Buarque de Hollanda merecem o nosso respeito!
Vandré ganhou o 2º lugar, com Caminhando ou Pra Não Dizer que Não Falei de Flores.
É Proibido Proibir ficou no 5º lugar na eliminatória paulista, realizada no Tuca.
Mas plágios, enfim, são feitos no mundo todo.
Normal e aceitável?
Não.
O paulista Maurício Alberto Kaisermann, o Morris Albert, um dia ouviu a canção Pour Toi, do francês Loulou Gasté e gostou.
Daí trocou o título para Feelings e gravou em 74.
O resto se sabe.
Há milhares de gravações e versões em muitas línguas dessa música.
Até The Voice a gravou.
Há casos inversos, ou seja: de brasileiros plagiados no Exterior.
Um dos mais notários é o caso de Jorge Ben, vítima do escocês Rod Stewart.
Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira também foram vítimas de gringos do Norte.
O fato aconteceu no começo dos 50, quando os norte-americanos Harold Stevens e Irving Taylor se apropriaram do baião Juazeiro e deram para A Voz da América Peggy Lee gravar, com o título Wandering Swallow.
Teixeira, que era letrado e poliglota, denunciou a safadeza nos Estados Unidos, mas não adiantou: perdeu o processo.
Gonzaga e Teixeira também foram engalobados, num primeiro momento, quando a portuguesinha maravilhosa Carmen Miranda gravou Baião (Ca-room-pa-pa) para a trilha sonora do filme roliudiano Nancy Goes to Rio (Romance Carioca), sem seus nomes no bolachão de 78 rpm (foto).
Mas um processo ajeitou as coisas.
E tem até Bob Dylan, que já disse e repetiu que várias músicas que assina foram garfadas do folclore escocês, como The Times They Are A-Changin, título do seu 3º disco, lançado no ano de 64.
Águas de Março tem raízes no folclore, se sabe.
Asa Branca também.
No livro Dicionário Gonzagueano de A a Z, eu lembro de mais alguns casos do folclore que ganharam paternidade inesperada.
Lembro, por exemplo, do batuque O Canto da Ema, gravado pelo rei do ritmo paraibano Jackson do Pandeiro, mas na origem alagoana um baião muito bonito intitulado Contramestra, que existe desde, pelo menos, 1920.
Enfim, essa é uma história sem fim.
O maestro Villa-Lobos bebia no folclore, mas dizia isso.
Exemplo são suas cirandas, numa delas com parceria pós-morte de Teca Calazans: Caicó.
Há pouco assistindo o filme As Bachianas, o meu nome é Villa-Lobos, ouvi do perfilado Villa:
- Um compositor sério deverá estudar a herança musical do seu país; a geografia, a etnografia, sua e de outras terras; o folclore quer sob o aspecto ideário, quer sob o aspecto político. Só dessa maneira se pode entender a alma de um povo.
Certo!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

É PAU, É PEDRA/É PLÁGIO/É O FIM DO CAMINHO...

Leio no jornal que sítio de Tom Jobim, compositor e músico carioca nascido nos miolos americanos, talentoso que só, e de mil manhas, some na lama em São José do Vale do Rio Preto, área das serras do Rio atingida pela tromba d´água descomunal que engoliu inocentes e pecadores há poucos dias, deixando no rastro destruição e medo medonhos, impossíveis de serem esquecidos, pelo menos, nos próximos cem anos.
Mas o que me chamou a atenção na tragédia não foi isso.
E também não foi o fato de ele, Tom, gostar de passar férias lá no sítio dele e receber, naturalmente, com honras e canas pra bate-papos amigos e informais de bossa nova o esquisito João Gilberto.
Sim, ele mesmo: o das caretinhas engraçadas de Bim, Bom, que não citou Gonzaga mas fez baião; mesmo um "baiãozinho"...
O que me chamou a atenção, na verdade, foi a informação incorreta de que ele, Tom, compôs lá, no sítio dele, pelo menos três músicas: Águas de Março, Dindi e Matita Perê.
Tom até pode ter composto Dindi e Matita Perê lá, no sítio, mas Águas de Março, não.
No máximo, ele, Tom, teve o trabalho apenas de re-arranjar a música que ficaria famosa no mundo e pôr o seu nome no crédito como ilustração.
Explico melhor: essa música é do nosso rico balaio folclórico, adaptada por Inara Simões de Irajá; com arranjo do maestro Antônio Sergi, o Totó, autor do Hino do Palmeiras, lançada originalmente em 1956, no LP 5 Estrelas Apresentam Inara.
Nesse disco, uma das “estrelas” é a norte-americana de Santos, SP, Leny Eversong.
Eversong canta com o purismo dos anjos... Águas do Céu.
Águas do Céu tem a ver com Águas de Março.
Os versos iniciais dizem:
“É chuva de Deus/É chuva abençoada/É água divina/É alma lavada...”.
O ritmo é um pouco mais levado do que a música assinada por Tom.
Só.
Um dos meus poucos amigos mais antigos, seu José, lembra que essa música tem origens num ponto de macumba dos anos de 1930, que diz, e ele cantarola:
- É pau, é pedra/Seixo miúdo/Roda baiana por cima de tudo... Pois é, 1938, Carlos Galhardo:


Vou dar uma remexida no meu acervo e voltarei ao assunto.
Pois, pois.
Lembrando, antes: Villa-Lobos, grande maestro procurou no folclore a riqueza do País.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

LIXO NAS RUAS DO BRASIL E NA SUIÇA

Outro dia, cá neste espaço, encerrei texto dizendo estar na hora de pararmos de jogar lixo na rua.
Agora, lendo o blog do amigo Carlos Brickmann, competente língua de fogo do jornalismo pátrio, fiquei sabendo que o confrade Mauro Chaves, editorialista do Estadão e sanfoneiro nas horas vagas, como me disse um dia na casa do pianista João Carlos Martins, indagou num dos seus escritos a razão de não jogarmos lixo nas ruas da Suíça e os suíços jogarem lixo nas nossas ruas.
Ora, as leis de lá são outras.
Lá nas lonjuras suíças não se pode jogar lixo nas ruas, mas aqui tudo ou quase tudo pode sem que se cumpra o rigor da lei.
Ora a lei!
Questão de educação, não é?
Nas plataformas e interior dos trens do Metrô paulistano não se vê lixo, já logo à saída...
Brickmann cita Chaves para falar dos políticos de São Paulo e do Rio, diante das tragédias provocadas frequentemente pelas chuvas. Ele fala do lixo dos rios Tietê e Pinheiros e lembra que Alckmin governador chegou a elogiar o seu antecessor por retirar cerca um milhão de metros cúbicos de lixo das águas fedorentas dos rios, mesmo deixando lá outros quatro milhões e tralalá que promete retirá-los até o fim do seu mandato.
É esperar pra ver.
Com relação ao Rio, o nosso língua de fogo lembra que a ex-secretária de Serviços Sociais de Lacerda, Sandra Cavalcanti, tentou extinguir casas e casebres das encostas dos morros, mas não conseguiu. Houve até show em protesto e uso de música (Opinião), de Zé Kétti, que diz:

Podem me prender,
Podem me bater,
Podem até deixar-me (sic) sem comer
Que eu não mudo de opinião.
Daqui do morro eu não saio, não.
Se não tem àgua,
Eu furo um poço
Se não tem carne,
Eu compro um osso e ponho na sopa
E deixa andar, deixa andar...

E outra (Ave Maria no Morro) que fala da vida da gente que vive pendurada nos barracos, nos barrancos, de Herivelto Martins, que diz:

Barracão de zinco,
Sem telhado,
Sem pintura, lá no morro,
Barracão é bangalô.
Lá não existe
Felicidade de arranha-céu,
Pois quem mora lá no morro
Já vive pertinho do céu.
Tem alvorada,
Tem passarada...

A primeira foi feita especialmente para o show Opinião e gravada no LP nº 632.732 A Opinião de Nara, Philips, e depois inserida no LP nº 632.775 Show Opinião, Philips, gravada ao vivo no dia 23 de agosto de 1965; enquanto a segunda, anterior a Opinião, foi gravada originalmente em disco de 78 rpm Odeon, no dia 5 de junho de 1942, pelo Trio de Ouro, à época formado por Nilo Chagas, Dalva de Oliveira e Herivelto Martins.
Pois é, na Suiça a educação e o bom-senso recomendam não jogar lixo nas ruas.

CHICO BUARQUE
Recebo e-mail esculhambando o compositor Chico Buarque de Hollanda. Pois é, aí está: até os nossos grandes artistas são apedrejados irracionalmente, injustificadamente, em carta sem identificação do autor. Opinar sem se identificar é covardia, minha gente. Por que isso, alguém explica?

PS - Na foto, Zé Kétti com o blogueiro num ano que não sei qual.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

CACHORROS DÃO EXEMPLOS NA VIDA E NA FICÇÃO

Faz hoje uma semana que o fim do mundo chegou de cara feia, amarrada, arrastando tudo que encontrou pela frente na região serrana do Rio de Janeiro, sem perdoar nem pobres nem ricos, negros ou brancos, gordos ou magros, homem, mulher ou criança.
Um horror!
Gatos, cachorros e outros bichos, domésticos ou não, tiveram também a vida abreviada de forma abrupta.
Entre os estragos, destaque para milagres e fatos inusitados, como o que li nos jornais a respeito de um jovem casal, casado há pouco, encontrado morto e de mãos dadas nos escombros de Teresópolis.
De cortar o coração.
Li também que um pai salvou o filho - um bebê de sete meses - dando-lhe sua própria saliva, enquanto durante horas e horas estiveram ambos soterrados e dados como mortos, a exemplo da mulher e também da sua mãe, que jaziam ao lado.
Também de maneira fantástica, inacreditável mesmo, li que uma mulher de idade ganhou o noticiário internacional ao ser içada de uma tromba d´água por vizinhos solidários. Para salvar-se, ela amarrou-se a uma corda em segundos. Detalhe: nunca, na vida, ela deu um nó sequer numa corda ou num cordão.
Outras cenas igualmente incríveis foram anotadas na operação de socorro urgente desenvolvida por bombeiros e pelo exército de voluntários que rastreiam em busca de corpos e sobreviventes a região escolhida como alvo da violência, de origens naturais, que desabou num piscar de olhos e diante de meio mundo.
Mas o episódio que me tocou sobremaneira foi o referente a um cachorro que não abandonou o dono nem na hora da morte.
Ele ficou o tempo todo no local onde o dono fora encoberto pela danação e lá achado sem vida.
E nem lá, no cemitério, o cachorro o abandonou.
Fez-me lembrar a história do vaqueiro pernambucano Raimundo Jacó, primo do rei do baião Luiz Gonzaga.
Jacó foi encontrado morto sob uma árvore, em julho de 1954.
A seu lado, um fiel vira-lata.
E como no caso do cachorro do Rio, o cachorro de Pernambuco acompanhou o dono ao cemitério e lá, ao lado da cova, permaneceu por vários dias; até que também foi encontrado morto, sem tocar na água e na comida que lhe deram numa cumbuca.
Tanto na vida quanto na ficção, há histórias fabulosas envolvendo cachorros.
Graciliano Ramos, por exemplo, no seu romance Vidas Secas, dos anos de 1930, dá vida a uma cachorra chamada Baleia.
Sugiro leitura.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O HOMEM, A CHUVA E AS TRAGÉDIAS

Eu não ia falar sobre esse assunto, por estar ele em tudo quanto é jornal, rádio, TV e Internet. De qualquer modo, vamos lá.
Partes do Sudeste deste Brasil brasileiro, belo e frondoso, estão se afogando em água e lama sem que, de fato, nada se faça para impedir que tal ocorra.
Casas e edifícios inteiros estão desabando que nem pecinhas de brinquedo ou de papel.
Estradas estão sendo destruídas pela violência incomum dos vendavais e trombas d´água.
Gentes e bichos têm desaparecido em piscares d´olhos, em frações de segundo.
Onde havia bairro, o que se ver agora, com infinita tristeza, é um amontoado de paus, vigas, pedras, lixo, barro.
Terrível, sem dúvida.
Ensaio do apocalipse?
E de Deus é que não é a culpa.
Em São Paulo, nem sei quantos já se foram.
Em Minas também há desaparecidos desabrigados aos milhares e dezenas de cidades com estado de calamidade decretada.
Na região serrana do Rio de Janeiro, o fim do mundo é um desenho concreto e feio.
Assustador é tudo o que se vê em volta, de qualquer ângulo.
Um coleguinha repórter, desses tapados, toupeira, fazendo balanço da cobertura ao vivo, na televisão, disse parecendo vibrar:
- Começamos o programa com 381 mortos. Uma hora depois, esse número subia para 397. Agora já são 423!
Ele falava como se torcesse para que ocorresse algo pior. E dizia, ainda eufórico:
- Essa é a maior tragédia do Brasil!
Eu, com meus pacatos botões, retruquei quieto na poltrona: cala a boca, peste!
As tragédias brasileiras são muitas e de todos os tipos e magnitude, infelizmente; e ocorrem desde os tempos das invasões estrangeiras no nosso território, com os celerados de Cabral, por exemplo, prendendo, arrebentando, escravizando, estuprando e matando inocentes.
Ocorreram milhares de tragédias entre nós, como a de Canudos; mas a besta que disse asneiras na TV parece não leu nem ouviu falar do massacre do Exército contra pobres desavalidos do sertão da Bahia da virada do século 19 para o século 20: 25 mil mortos.
No livro Os Sertões, o carioca de Cantagalo Euclides da Cunha (foto) escreve, ao fim, sobre a grandeza dos brasileiros mais humildes, mesmo aparentemente vencidos por forças gigantes:
- Canudos não se rendeu (...) Eram quatro apenas: um velho, dois homens e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados (pág. 611, 9ª edição corrigida, Livraria Francisco Alves; 1926).
Aquela não foi uma tragédia como a que assistimos agora, claro.
Mas alguém de sã consciência ou minimamente informado pode dizer que o que está ocorrendo em Teresópolis, Petrópolis e noutras cidades do Sudeste é a maior tragédia do Brasil?
Claro que não.
O que pode é dizer que o que assistimos pela TV é uma tragédia natural, climática, que de certo modo poderia ser evitada, pelo menos em parte, se as autoridades dessem a devida importância ao povo e que o povo fosse instruído, orientado, para não construir, por exemplo, imóveis em locais de risco, como as encostas de morros.
Pode dizer também que já está mais do que na hora de o governo parar de investir em resgate e reconstrução.
Pode ainda dizeder que está mais do que na hora investir na prevenção etc., pois sabemos que é ao homem possível fazer chover, mas não a ele é dado o dom de fazer parar de chover.
Ah, sim! E paremos de jogar lixo na rua.

domingo, 9 de janeiro de 2011

UMA HISTÓRIA PRONTA PARA O CINEMA

Há coisas no nosso mercado editorial que, confesso, eu ainda não entendo.
Um exemplo?
Este:
Por que danado a Editora Brasiliense demorou tanto para levar às livrarias o romance policial As Covas Gêmeas, tão bom?
Aliás, até prova em contrário, o mercado carece desse tipo de livro.
Sua trama chama de cara a atenção do leitor pela forma intrincada como se desenvolve no correr de 250 páginas.
As Covas Gêmeas é um livro que nasce fadado a ir às telas de cinema, anotem. E, detalhe: ele marca a estréia de pelo menos dois grandes personagens: a do próprio autor, o paulistano Marco Antonio Zanfra, e a do anti-herói Marlowe, criado para dar cabo nessa história de marginais que têm sob seu poder um dos garotos de desesperada mãe pobre e sem marido.
Marlowe, típico policial de carreira, surge logo nas primeiras páginas.
Ele é casado, pai de uma menina, separado e beberrão, e embora afastado de suas atividades policiais por um corregedor que o persegue, após acidente de automóvel que deixou pregado a uma cadeira de rodas um velho colega de profissão, finda por dar conta da tarefa a que se propôs: resgatar o garoto...
No Brasil, são ainda poucos os autores que enveredam pelo campo da literatura policial.
Por que, não sei.
Mas só esse fato deveria chamar a atenção das editoras, imagino.
Zanfra estréia com o pé direito.
É sucinto, curto nas frases.
E isso é bom.
O leitor gosta de frases assim, de parágrafos idem, e que os personagens se movimentem com rapidez.
O único “mas” que vejo no livro é: não custaria o autor informar as origens de frases que o inspiraram aqui e ali. Sua criatura Marlowe, por exemplo, diz que há pessoas que estranham quando ouvem o seu nome esquisito e cita:
“Nossos ídolos ainda são os mesmos, dizia o poeta” (pág. 21).
O poeta no caso é o cearense Belchior e o verso citado enriquece a música Como Nossos Pais, que a cantora gaúcha Elis Regina lançou em 1976.
O texto de Zanfra traz também frases bonitas, literárias, como:
“(...) longe, muito longe, sons de um tráfego que parecia fluir cuidadosamente para não acordar os mortos” (pág. 92), que Marlowe pronuncia como narrador da história de que faz parte.
Há também frases do balaio da cultura popular, como esta:
“A necessidade é a mãe de todas as virtudes” (pág. 221).
E esta:
“Vamos em frente, que atrás vem gente”, ditada pela delegada Maria Marge (pág. 229).
No entanto, isso tudo está longe de ofuscar a originalidade da história de Zanfra.
Acho só uma coisa: que Marlowe deveria ter sobrenome que o identificasse como brasileiro. Tudo bem que ele goste de músicas erudita e até de assobiar “alguns acordes de Noturno nº 1, de Chopim”, enquanto caminha perigosamente à noite por uma rua de uma cidadezinha cheia de cabras doidos para lhe por fim à vida (pág. 89).
Parabéns, Marco Zanfra! E traga o durão e sortudo Marlowe no próximo livro.
O doutor referido pelo bêbado da rodoviária é o delegado corregedor André Wolff?

sábado, 8 de janeiro de 2011

POESIA POPULAR, CORDEL E REPENTE

Ontem fiz referência à décimas de Allan Sales e Zé Limeira.
Allan Sales é um cearense de atividades culturais múltiplas, nascido na cidade de Crato, CE. É professor de violão, compositor e poeta popular, com várias músicas gravadas e autor de cerca de 300 folhetos de feira publicados a partir de 1997, quando passou a se dedicar a esse gênero literário e também a ensinar o que tem aprendido ao longo do tempo. Mora na capital pernambucana desde 1969.
Zé Limeira, por sua vez, foi um poeta fantástico, sem trocadilhos; paraibano a quem comparo sem favor ou bairrismo com o pintor catalão Salvador Dalí.
Pois bem, décimas são formas literárias desenvolvidas desde os tempos da Idade Média.
Há pelo menos dois, três ou quatro tipos de décimas.
As formas que apresentei ontem aqui, neste espaço, de Sales e Limeira, são desenvolvidas em estrofes ou linhas de dez versos setissílabos, ou seja: o primeiro rimando com o quarto e o quinto, o sexto com o sétimo e o décimo e o oitavo com o nono. Exemplo:

O Brasil tem povo bonito
Que não merece sofrer
Pois ele quer é aprender
Tudo com grande gabarito
Sem provocar nenhum atrito
Entre quem quer que seja
O que esse povo todo almeja
É sempre viver em paz
Isso brasileiro é capaz
Porque é tudo que deseja

Há as décimas de duas quintilhas inventadas no século XVI e fácil de achar na obra de Camões e no Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende, como lembra Sebastião Nunes da Silva no opúsculo Poética Popular do Nordeste.
Quintilhas são formadas por estrofes de cinco versos com rimas iguais, sem graça.
Mas há as décimas com decassílabos seguindo a métrica heptassilábica ou de sete sílabas (setissílabo).
Fora isso, há também a décima com rimas idênticas e a décima corrida ou desmancha, própria do cantador ou poeta repentista com viola ao peito, no exemplo de Sebastião Nunes:

1º cantador:

Um só Deus: o Pai dos pais.
Dois caminhos: bem e mal
Três dias de carnaval
Quatro pontos cardeais
Cinco lançados mortais
Seis pontos nos regimentos
Sete grandes sacramentos
Oito incelenças de pena
Nove terços de novena
Dez divinos mandamentos.

2º cantador, desconstruindo a estrofe de traz pra frente:

Dez divinos mandamentos
Nove terços de novena
Oito incelenças de pena
Sete grandes sacramentos
Seis pontos nos regimentos
Cinco lançadas mortais
Quatro pontos cardeais
Três dias de carnaval
Dois caminhos: bem e mal
Um só Deus: o Pai dos pais.

Sem dúvida, é muito rico o mundo do poeta repentista.
E viva a cultura popular!

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

MOURA REIS, SAYAD E ZÉ LIMEIRA

É bom ter amigos, e vejam se não.
O querido piauiense Moura Reis, que anos atrás me substituiu na chefia de reportagem da editoria Política do diário centenário O Estado de S.Paulo, manda mensagem provocadora sob pretexto do que publiquei ontem, neste espaço. Ele escreve:

Caro guru - vejam só -, poeta, nordestinólogo, mestre e o escambal. Seu admirador incondicional, assumo, pela primeira vez, a democrática postura de discordante: discordo com toda a ênfase sua ideia de voltar a misturar o Ministério da Cultura com o da Educação. Era assim no passado, você deve lembrar, e não deu certo. Não vejo razão para o que considero retrocesso. Acredito que devemos apoiar o fortalecimento do Ministério da Cultura neste momento especial sob o comando da Ana Buarque (de Hollanda). Creio que devemos participar do debate sobre direito autoral e da bolsa ingresso, entre outros fatos da atual agenda do Minc. E proponho que você inicie imediatamente campanha para tirar o burocrata João Sayad da TV Cultura. Sugiro o argumento: burocrata no comando de instituição cultural é, no mínimo, sacrilégio à cultura brasileira, portanto insulto à inteligência dos cidadãos e cidadãs brasileiros que vivem e amam São Paulo.

Pois bem, a idéia de fundir o Minc com o MEC (a sigla permanece) se justifica pelo simples fato de cultura ter de andar lado a lado com educação.
Quanto à questão sobre autorais acho de extrema necessidade o prosseguimento da discussão. Pra começar, acho que uma obra deveria cair em domínio público no máximo 50 anos, e não 70, após a morte do autor.
E pronto!
Campanha?
Não sou do ramo, mas acho que o presidente da Fundação Padre Anchieta deve entender que o novo é filho do velho; portanto o argumento de que Ensaio é velho, cai por terra. Ora, o programa Ensaio - não custa repetir - é um dos mais belos e importantes da nossa TV. E tomara que não passe pela cabeça do Sr. Sayad a idéia de jogar fora os discos de 78 rpm da Fundação, como fizeram muitos diretores de emissoras de rádio do País, justificando ser “tudo coisa velha”.
Muitos artistas, e também escritores, não guardam seus discos, é sabido. Eu mesmo já dei 78 rpm a Paulo Vanzolini com música de sua autoria, no caso Volta Por Cima. E também a Inezita Barroso, com a gravação de Ronda. E até eu já recebi de presente livro de minha autoria, como Eu Vou Contar Pra Vocês. Isso, porém, não é razão para que se jogue no lixo livros e discos de 78 rpm.
Neles se acha a história do Brasil.
Toco nesse assunto por uma razão: já me disseram que a Fundação Padre Anchieta há muito não aceita doação de discos nesse formato e nos formatos de compactos e LPs.
Eu, hein!
Para encerrar, uma décima do poeta repentista Allan Sales:

Zé Limeira viu Sayad
Certo dia vendo Ensaio
Disse sim é do caraio
Quando viu sua cumade
Pois Sayad virou pade
Mas sem ganhar bom salaro
Mas andava de camaro
Do timão usando um gorro
Não precisa ser cachorro
Para dar valor ao Faro.

Zé Limeira foi o poeta dos disparates, uma espécie de Salvador Dalí das letras e idéias em estado bruto. Sobre ele, o jornalista e advogado paraibano Orlando Tejo escreveu o livro Zé Limeira, o Poeta do Absurdo. Curiosidade: depois de Shakespeare, é Zé Limeira o mestre da preferência de Paulo Vanzolini, de quem, aliás, declama estes versos feitos de improviso e na forma de décima:

O velho Tomé de Souza
Governador da Bahia
Casou-se e no mesmo dia
Passou a pica na esposa
Ele fez que nem a raposa
Comeu na frente e atrás
Chegou na beira do cais
Onde o navio trefega
Comeu o padre Nobrega
Os tempos não voltam mais.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

FERNANDO FARO E AINDA ANA DE HOLLANDA

Somente agora, passeando por blogs de alguns amigos, como Luiz Nassif, eu tomei conhecimento de um lamentável encontro do novo presidente da Fundação Padre Anchieta, que mantém o rádio e a TV Cultura, e funcionários.
Diz texto, capturado do blog de Nassif:

Em reunião ontem, na TV Cultura, com o pessoal da área de musicais, João Sayad afirmou que o programa Ensaio – o mais importante programa de música da história da televisão brasileira – está ultrapassado e será revisto, porque ele não gosta e o modelo é de quarenta anos atrás.
Um dos funcionários rebateu:
- O senhor é um economista, acostumado com calculadoras e planilhas. Nós aqui dos musicais estamos acostumados com sonhos, música e sentimentos. E a gente se espelha não em números, mas nesse senhor aqui do lado, que se chama Fernando Faro.
Justamente o pai do Ensaio e do programa Mobile (que foi desativado).
Sayad virou-se para um assessor do lado e cochichou:
- Quem é?
Não sabia quem era Fernando Faro, o “Baixo”, um dos mais importantes personagens da música e da cultura brasileira das últimas cinco décadas. O programa símbolo da TV brasileira, que documentou a música brasileira ao longo de tantas décadas foi julgado e condenado… pelo Sayad, que nem sabia quem era Faro e o que representa o Ensaio.

O que mais dizer?
...E pensar que a cultura popular, que é a reunião de formas e meios pelas quais o povo se manifesta e faz história, se acha nas mãos de figuras como essa é, de fato, de se lamentar.
O que se pode vislumbrar a partir desse encontro da burocracia fria e insensível com a história é que o povo corre o risco seriíssimo de ter seus meios (e formas) de manifestação interrompidos.
Um recadinho ao presidente da Fundação:
Não há o novo sem o velho, que é a base de tudo, incluindo a história.

AINDA ANA
Tenho recebido alguns e-mails sobre o que escrevi ontem a respeito da nova ministra da Cultura. Num deles, assinado pelo jornalista Marco Zanfra, uma fria:
- Proponho que Ana de Hollanda crie uma secretaria para assuntos de cultura nordestina e convide o compadre Assis Ângelo para pilotá-la.

Já pensou a ministra ter que criar secretarias para assuntos de cultura gaúcha, nortista etc.?
Eu, hein!

LITERATURA DE CORDEL
Este é de um cidadão chamado Matias, que quer saber se há por aí, fácil de achar, folhetos de cordel e discos de poetas repentistas:
- Meu nome é Matias, sou de Jundiaí, e assisti as entrevistas que você deu à Recordnews e, na semana passada, a que passou no Globo Rural. Tenho bastante curiosidade e interesse em cantadores repentistas nordestinos e em cordel. Ouço o programa do Geraldo do Norte, na Rádio Nacional, só para esperar a hora do repente, que dureza! Não confundir com Castanha e Caju. Tem uns caras que falam coisas inimagináveis de tão profundas. A partir daí me interessei, tipo Ivanildo Vila Nova... Tem alguma forma de cordel e algum material sonoro desses repentistas?

A dica é a seguinte, e serve para o Matias e para outros eventuais interessados no assunto: folhetos de cordel às centenas podem ser adquiridos nas editoras Luzeiro (editoraluzeiro@com.br), com Gregório, e Tupynanquim (tupynanquim_editora@ibest.com.br), com Klévisson Viana.

PS - Na foto acima, de 2001: Ana de Hollanda, Fernando Faro e este escrevinhador em prosa das boas, ao vivo, no extinto São Paulo Capital Nordeste, programa de rádio que produzi e apresentei durante seis anos e meio, na Capital.

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