São Paulo e Rio de Janeiro foram fundadas
em 1554 e 1565, respectivamente, pelos primeiros jesuítas que chegaram à nossa
terra. A terra carioca foi capital nacional entre 1621 e 1815.
Por muito tempo tentou-se criar uma
certa rixa entre a população das duas
cidades. Bobagem. É verdade que São Paulo cresceu mais depressa, recebendo
grandes levas de migrantes e imigrantes a partir do século 19. Espanhóis e
italianos foram os primeiros.
A presença nordestina em São Paulo e no Rio de
Janeiro se intensificou e é marcante até hoje.
A “rixa” entre São Paulo e Rio de Janeiro,
se houve, terminou em 1965, quando os cariocas comemoraram o quarto centenário
da cidade. Na ocasião, o conjunto musical Demônios da Garoa faturou o 1º lugar
no concurso musical promovido pela prefeitura da cidade. Música premiada: Trem
das Onze, do paulista de Valinhos, Adoniran Barbosa. Detalhe: Trem das Onze foi
gravada em agosto de 1964.
Anos antes, em 1954, a programação
comemorativa aos quatro séculos de fundação de São Paulo foi toda recheada de
artistas do Rio, entre eles, mestre Pixinguinha (1897-1973).
Há cerca de duas décadas, a Rede
Globo, em São Paulo, desenvolveu pesquisa para saber da população qual a música
de sua preferência: deu na cabeça Trem das Onze.
Essa história eu conto em detalhes no
livro Pascalingundum! Os Eternos Demônios da Garoa.
Exposição Roteiro Musical da Cidade de São Paulo
Essa história eu também contei num debate
com Paulo Vanzolini (1924-2013) e Eduardo Gudin
promovido como parte da programação Roteiro Musical da Cidade de São
Paulo, que ocupou por uns três ou quatro meses um bonito espaço no Sesc
Santana.
Essa exposição contou a história de
três mil músicas que têm a cidade de São Paulo como tema.
Você sabia que ainda não há um hino
oficial para a cidade de São Paulo?
Por várias ocasiões, escrevi a
respeito da importância de um hino oficial para a cidade. Cheguei até a sugerir
o título São Paulo de Todos Nós, de Peter Alouche e Téo Azevedo.
Pois bem, o estado de São Paulo tem
hino escrito pelo poeta Guilherme de Almeida e Spartaco Rossi. Ouça:
E dentre os demais estados
brasileiros, tem um que também não tem hino: Minas Gerais.
Você estará errado se acreditar que Oh! Minas Gerais,
canção de origem napolitana, é o hino oficial dos mineiros.
Por três vezes, governos em tempos
diferentes promoveram concursos para escolha de hino do Estado. Em vão.
O hino que muita gente crê
ser o oficial do estado, Oh! Minas Gerais (abaixo), traz o nome do pernambucano
Manezinho Araújo e do mineiro José Duduca Morais.
Texto
do repórter Júlio Maria informa, hoje, em matéria de capa do Caderno 2 do Estadão, que
a vida me reservou o mistério da surpresa.
Sim,
estou cego.
O
descolamento de retina, depois de várias intervenções cirúrgicas no Hospital
das Clínicas e em outros lugares, levou-me ao mundo da escuridão.
Sim
estou cego, mas não vejo nisso nenhum problema. O problema é a adaptação nesse
novo mundo ao qual ingresso com a ajuda de amigos queridos e da equipe da
Associação Brasileira de Assistência a Pessoa com Deficiência Visual, mais
conhecida como Laramara.
O
pior, já passou.
Verdade
que morri nove vezes e nove vezes ressuscitei; agora, como a Fênix, das cinzas
estou ascendendo.
Vez ou
outra, de João Pessoa, Vital Farias me telefona para saber como estou.
Vez ou
outra, de Teresópolis, Vandré me
telefona para saber como estou.
Quase
sempre, esses telefonemas são de longa duração.
Pelo
menos uma vez por semana, José Ramos Tinhorão e Célia e Celma me visitam para
saber como estou. E entre uma cachacinha e outra, Tinhorão me diz um monte de
coisas interessantes a respeito deste nosso Brasil tão ruído e corroído por ratos de plantão. E conversamos e conversamos.
Célia
e Celma são ótimas no fazer chá da tarde.
Também
com alguma frequência tenho a alegria de receber Papete, Osvaldinho da Cuíca,
Téo Azevedo, Luiz Wilson e os rapazes do
Tri Gato com Fome.
Com essas
pessoas, eu me sinto em festa.
E como
se não bastasse, ainda tem Luiz Guerrero que me leva, quase sempre atropelando
as minhas falas, até a Laramara.
Na
Laramara, tenho me sentido em casa.
Até
aqui aprendi que posso ver através das mãos, das pernas, dos pés, pelo pensar e
pelo ouvir das vozes que até mim chegam.
Eu perdi
a luz dos meus olhos, mas ganhei a nova vida que me levará aos caminhos do bem
fazer e educar e aprender; aprender para ensinar; aprender para educar.
O
resumo disso é Cidadania.
E
pensar que a gente reclama de tanta coisa...Se chove, a gente reclama. Se faz
sol, a gente reclama.Se faz frio, a gente reclama. Se faz calor, a gente
reclama.
Agora mesmo ouço no rádio a notícia de
mais uma chacina ocorrida em bairros de Osasco, uma das 39 cidades da chamada
Grande São Paulo. A chacina resultou em 20 mortos e seis pessoas gravemente
feridas, internadas em hospitais da região.
Entre os mortos, trabalhadores, pais
de família.
E por que essas pessoas morreram?
Essas pessoas morreram, não só pelo
fato de estarem vivas, mas porque precisavam ser mortas por algozes que certamente
permanecerão impunes, pois assim se sentem desde sempre.
A impunidade na vida brasileira é fato
comum, que praticamente nem chama mais a atenção de ninguém.
Isso tem a ver com cultura, com
cultura popular?
A cultura popular é a digital de um povo,
eu já disse.
Cultura popular é tudo o que é feito
pelo povo anônimo de um país.
O capeta inverteu as virtudes, os
valores que enriquecem o cidadão.
Num conto de Machado, o capeta diz que
a ira, por exemplo, é uma das mais importantes “virtudes” que o ser humano
poderia ter e que sem ela, sem a fúria de Aquiles, não existira a ilíada de
Homero. Um horror, não?
Para o capeta, a venalidade – outra ‘qualidade’
para o rei dos infernos - “é o exercício de um direito superior a todos os
direitos”, por isso o homem pode, antes de vender a alma, vender a própria
palavra, a opinião, a fé e o voto.
O que o Renan teria vendido para cair
no colo da presidente da República?
E o que estaria movendo Cunha para
detonar a República através da sua representante maior, Dilma?
Ontem, no Palácio do Planalto, um
representante de movimento popular disse, em discurso, que se faz necessário ir
às ruas domingo 16 armados para enfrentar quem estiver contra seus interesses.
Meu Deus! Felizmente, vivemos no
sistema democrático em que a ordem está garantida na Constituição, e na
Constituição está claro que cabe às Forças Armadas cuidarem da paz do País.
Mas o que violência tem a ver com
cultura popular?
Num país onde a educação e a cultura
são atiradas na lata de lixo, o que se pode esperar?
São muitas as crises que vivemos.
Somos um país com o maior número de
impostos e um dos mais caros do mundo.
Cabemos na máxima “do pão & circo”.
Cerca de 12 milhões de brasileiros,
mesmo vendo com os olhos da cara, são incapazes de distinguir um “ó” de uma
roda. Além desses analfabetos totais há mais algo em torno de 25 milhões de
analfabetos que leem sem saber o que estão lendo. São os tais “analfabetos
funcionais”. O capeta está solto e o circo sem lona, com os palhaços nus, sem
graça.
Para o País andar é preciso que os
cidadãos trilhem pelo caminho da educação e cultura.
Sem educação e cultura, a nação
continuará pobre.
Há uns sete ou oito anos, fui
convidado para encerrar um seminário no Congresso Nacional. Aproveitei a
ocasião para repetir o que sempre repeti nos meus programas de rádio e
televisão, ou seja: que a educação e a cultura podem ser enriquecidas com a
música no currículo escolar. Dois anos depois, projeto nesse sentido foi
aprovado no Senado e promulgada pelo presidente Luiz Inácio da Silva (acima).
Detalhe: essa lei, porém, não está sendo respeitada porque, segundo dizem “não
há pessoas capacitadas para ensinar a matéria”.
Ouça:
E o avião, era de quem?
Há um ano e meio, exatamente, um avião
subia aos céus do Rio de Janeiro para despencar com toda violência possível na
terra de Santos. A bordo estava o presidenciável Eduardo Campos e um punhado de
assessores. Ninguém escapou. Os estragos foram grandes, inclusive para o PSB.
Hipocritamente Lula, Dilma, Aécio e outras sumidades da vida nacional choraram
lágrimas de crocodilo. Coisas do Hermógenes. Campos estava sendo “trabalhado”
para ser a salvação da lavoura. As mídias o colocavam como um sujeito reto etc
e tal. Pessoalmente, eu o achava esquisito.
Meses antes da tragédia, eu almocei com ele e Ciro Gomes num restaurante
em São Paulo. Falei de cultura popular, da importância disso para o País. Falei
até de uma conterrânea sua, a cantora e compositora Anastácia. Disse-lhe da
importância dela para a música popular. Ele disse que não sabia quem era. Foi
minha vez: Por que a secretaria de Cultura do seu estado, Pernambuco, não
publicava um livro a seu respeito, por exemplo? E, como todo político, prometeu
que alguém entraria em contato com ela e comigo. Até hoje!
Dia desses fui dormir
com a notícia de que dona Dilma se reunira com vinte e poucos governadores,
para discutir os destinos do Brasil e de si própria. Falou-se de apoio político
e coisas que tais. E se ouvi bem, ouvi
também uma palavra mágica: travessia.
Pensei, atravessar o
quê?
Pensando bem, faz
sentido atravessar... Atravessar um tempo difícil, uma situação difícil, uma
doideira qualquer. E é o que estamos vivendo: uma doideira.
A palavra travessia
dita de modo quase desesperado, me fez lembrar uma situação interessantíssima,
que foi o primeiro encontro de Diadorim e Riobaldo, personagens do clássico
nacional Grande Sertão: Veredas, do mineiro, de Cordisburgo, João Guimarães
Rosa (1908-1967).
Cheguei a imaginar,
em sonho, que Dilma era Diadorim; Riobaldo, o povo; e nessa representação toda,
a canoa era o Governo.
E aí acordei rindo,
meio cantarolando a velha marchinha carnavalesca que diz:
“Se a canoa não virar, olé, olé, olá;
Eu chego lá...”.
No primeiro encontro de Diadorim e Riobaldo,
Riobaldo é convidado por Diadorim para atravessar o mar de água do São
Francisco. A canoa, feita de madeira de lei, era daquelas que ao virar leva
para o fundo das águas os seus ocupantes. No caso, Riobaldo não sabia nadar. E
por não saber nadar, pediu arreglo a Diadorim, que foi perguntado se não tinha
medo. A resposta foi mais ou menos esta:
“E devera de ter?”
Diadorim, descobre-se nos finais da história, que
é uma mulher, uma bela mulher.
O
que mais dói, uma mentira de homem, mulher ou menino?
Todo
tipo de mentira dói, mas dói menos a inventada e contada por uma criança. E por
pescador.
Quem
já não ouviu uma história de pescador?
José
Dias não era pescador, era um desses personagens inventados pela imaginação de
um dos nossos maiores escritores, Machado de Assis (1839-1908).
Um
dia, nos fins da primeira parte do século 19, José Dias bate à porta em uma
fazenda e cura com remédios adquiridos sabe-se lá onde, um feitor e uma
escrava. E não cobra nada dos pacientes e nem do seu dono, pai de Dentinho.
Dentinho,
como todo mundo sabe ou deveria saber, vinha a ser Dom Casmurro.
Ilustração de Luciano Tasso para a obra Meus romances de cordel.
Dias
acaba por morar na fazenda do pai de Dentinho. Um dia, com a consciência
pesada, resolve dizer que não era médico coisa nenhuma, mas sim um charlatão; e
que escolhera esse caminho por ser o menor caminho que encontrara para ajudar
quem dele necessitasse. Dito isso, foi
perdoado.
Quer
dizer, há mentiras curiosas, engraçadas, que não fazem mal e não levam a nada;
e quando leva, leva para o bem do outro.
Mentira
de pescador faz mal?
Mentira
de criança faz mal?
E
mentira de homem e mulher, quando especialmente a mulher ou homem mente para
tirar proveito próprio em prejuízo de uma sociedade, por exemplo?
Pois
é, o Brasil vive numa embatucada: perdoar ou não perdoar, eis a questão.
A
Democracia é um sistema político que, nas origens, foi criada para o bem de
todos.
Quem
não dá bola à lei e comete crime, qualquer crime, deve pagar pelo que fez ou
faz, é ou não é?
Muita
gente não dá bola às leis. Getúlio Vargas, por exemplo, dava de ombros e dizia
que a lei era para os inimigos, “para os amigos, tudo”.
Mentir
é coisa grave.
A
mentira leva à degradação.
Detalhe:
José Dias era daqueles que opinavam com
obediência.
O banco de dados construído pela
sabedoria popular é riquíssimo e acessível a todo aquele que decida ou deseja
aprender.
Aprender será sempre uma decisão
brilhante.
Quando determinada situação é grave,
diz-se: “o mar não tá pra peixe”.
No caso, a referência é o tubarão.
Mas é o caso de também dizer que em
mar revolto até tubarão sucumbe.
A política costuma gerar grandes e
insaciáveis tubarões; mas tubarões, por maiores e mais perigosos que sejam
também sucumbem em águas revoltas.
O alimento dos tubarões quase sempre
está nos campos minados da corrupção construídos pela mentira.
A mentira, quando não mata, aleija.
Certa vez, mestre Luís da Câmara
Cascudo (1898-1986), brincando, me disse ser a mentira uma coisa feia. “Mas é
tão bom mentir!”.
Mas é claro que ele estava
pilheriando, ‘tirando uma’, como se diz no jargão popular.
Mentir brincando, de brincadeira,
claro que pode. O que não pode é mentir de verdade, como fazem tantos políticos
desta nossa terra tão judiada pelo mal da sacanagem, canalhice, da corrupção...
Mas mentir até ‘profissionalmente’ é algo tão corriqueiro no Brasil quanto
aspirar o ar poluído das ruas.
Dilma mentiu.
Por mentir, enganar e destruir o sonho
de tanta gente, a presidente da República no seu segundo mandato corre o risco
de pagar um preço alto pelo que fez, ou seja: mentir, mentir, mentir.
Mentir, como disse Cascudo, é uma
coisa muito feia.
Por isso, está se desenhando mais uma
grande manifestação popular, prevista para o próximo domingo. Essa manifestação
tem a ver com as crises diversas que temos enfrentado.
Hoje os integrantes da CPI do BNDES
apresentarão o cronograma de trabalho.
Nessa cumbuca, tem coisa. Mas, que
prevaleça a verdade!
A vida pede que tenhamos meta e
respeito ao próximo.
Enquanto lá na
América do Norte Barak Obama tenta convencer seu Congresso e eleitores da
importância e necessidade de se firmar o
acordo nuclear com o Irã, por razões diversas; o sádico ditador da Coréia do Norte, Kim Jong-un pinta e borda
assustando o mundo com gestos e caretas. Aqui, por essas bandas, políticos
viciados em corrupção, que são muitos, pulam miudinho feito calango em
frigideira fervente, tementes que as garras da lei os alcance.
O mundo ferve.
Há bombas nucleares
nos depósitos de Israel, Rússia e mais uma meia dúzia de países...
Diante disso tudo, a ‘maquininha
de fazer doido’, que é como chamava a televisão mestre Stanislaw Ponte-Preta, ainda
nos oferece alguns motivos de alegria, como, por exemplo, o programa Viola,
Minha Viola.
Até parece que
Inezita nem foi embora. Ela estava ótima ontem na telinha da TV Cultura,
mostrando Daniel cantando Disparada, de Vandré, e duplas do gabarito de Zé
Mulato e Cassiano, amigos nossos lá das quebradas do Planalto.
E por falar em
Planalto, deixa pra lá.
Assis Ângelo e Silvio Santos
Ainda na programação
dominical da ‘mardita’ telinha, o filósofo popular Silvio Santos continua
bombardeando a plateia feminina com aviõezinhos no valor de até cento e cinquenta
reais. E, entre uma brincadeira e outra que o dono do SBT faz com suas ‘Silvetes’,
desafia seus convidados a responderem perguntas que podem lhe render, no
conjunto, até meio milhão de reais... E com seu inefável sorriso ele, ao chamar
os comerciais, diz:
– Vou-me já!
Que coisa a nossa
língua, hein?
Na programação
dominical do SBT não há crise, crise nenhuma para os telespectadores. Mas houve uma vez, que Silvio detectou
problemas políticos/econômicos em São Paulo, pelo menos. Foi quando ele
concorreu ao cargo de governador do Estado.
Neste
2º domingo de agosto, países como a Argentina, Itália e Rússia, além do Brasil,
comemoram o dia de todo pai, inclusive eu.
A
referência à Babilônia dos versos que teci acima, tem razão de ser. Mas foi há
uns dois mil anos depois que, na América do Norte, um cara ficou viúvo e com a incumbência
de criar seus seis pimpolhos, entre os quais uma donzela que ao virar adulta reconheceu
a dura tarefa de criar filhos. A garota confeccionou algo como um cartão e nele
escreveu palavras de elogio ao pai, lembrando que ele ao cria-la e aos seus
irmãos desenvolveu também a função da mãe.
A
ideia dessa jovem levou outros filhos a parabenizar o pai num dia do mês de
junho.
Isso,
ali pela 1ª década do século passado.
Em
1972, o Presidente norte-americano Richard Nixon oficializou a data e o mercado
de consumo aplaudiu.
Pelo
menos nisso, ficamos à frente dos gringos do Norte.
No
Brasil, o Dia dos Pais está fazendo 60 anos.
O
meu pai se chamava Severino e a minha mãe, Maria.
Agosto chegou faz uma semana trazendo
no bojo alegria, lembranças de tristezas, como o dia da morte da
portuguesinha-brasileira Carmem Miranda; as bombas que destruíram Hiroshima e
Nagasaki matando cerca de 200 mil pessoas
e provocando o fim da guerra mais sangrenta da história, que foi deflagrada em
1939 e finda há 70 anos e da qual também
participou o Brasil.
Essa guerra encontrou no Brasil o
ditador gaúcho Getúlio Vargas. Dessa guerra, além da memória, sobrou a Canção do Expedicionário, do poeta
Guilherme de Almeida e do maestro Spartaco Rossi.
Vargas suicidou-se com um tiro no
peito na madrugada de 24 de agosto de 1954. Sete anos depois, no dia 25 de
agosto, o mato-grossense Jânio Quadros, depois de um porre, cometeu outro
tresloucado gesto: renunciou à Presidência da República, deixando órfãos mais
de seis milhões de almas que nele acreditavam.
A República Velha, a República Nova e
essa que eu não sei se é Velha, Nova ou Novíssima, tem nos trazido, desde 1889,
surpresas às mais diversas.
O que poderá vir por aí, hein?
Ontem, o vice-presidente Michel Temer,
com a voz engasgada e um tanto trêmula, pediu apoio e compreensão dos seus
colegas de legenda (PMDB), Eduardo Cunha e Renan Calheiros, presidentes
respectivamente da Câmara e do Senado.
Na ocasião, disse que “é
preciso que alguém tenha capacidade de reunificar a todos, de reunir a
todos...”.
Quem será esse “alguém”, o próprio
Temer?
Pois é, é bomba pra todo lado: em
Hiroshima, Nagasaki; nos anos de 1970 cartas-bomba, e hoje pautas-bomba na
Câmara, com gatilhos acionados para explodir a qualquer momento.
Sim, é grave o momento!
O PT abandonou seu Dirceu e os partidos
de base do governo estão também dando no pé ou abandonando o barco como fazem
os ratos.
Eu conheço essa história.
Não é hora de dona Dilma debruçar-se na
leitura da história e da história tirar ensinamentos?
Eu
convido vocês para uma conversa sobre cultura popular em que a viola é o
destaque. Estarei lá, logo mais às 20 horas, no auditório da Livraria da Vila,
para o lançamento do livro Conversa de
Violeiro, do violeiro Chico Lobo e do escritor Fábio Sombra, e do CD Cantigas de Violeiro, de Chico Lobo.
Segue
o prefácio do livroConversa de Violeiro
Livraria da Vila Rua Fradique Coutinho, 915 Pinheiros, São Paulo.
UM PASSEIO PELO MUNDO DA VIOLA
Assis Ângelo
Como o forró, a moda de viola pode ser
definida como um bisaco de cego, no qual se acham os mais diferentes
badulaques. No caso, ritmos e gêneros musicais.
Em 1949, o rei do baião Luiz Gonzaga
encontrou no seu conterrâneo José Dantas o parceiro que o ajudaria a dar forma
musical ao forró.
Num ano que se perde na história, algo
parecido aconteceu com a moda de viola.
O ritmo/gênero moda de viola passou a
ser conhecido pelo público fora do campo, da roça, no começo do século passado,
quando o brincante tieteense Cornélio Pires, com a ajuda de seu sobrinho
Ariovaldo Pires, o Capitão Furtado, procurou o representante do extinto selo
musical Columbia, no Brasil, Alberto Byington Jr..
A conversa entre Cornélio e o velho
Byington foi, digamos, nada estimulante no primeiro momento para Cornélio.
A todo custo Cornélio tentava
convencer o empresário a lançar discos com modas de viola. Num certo momento
Cornélio perguntou quanto custava fazer um disco e levá-lo ao mercado. Era
muito caro etc.. Para encurtar a história: Cornélio arrumou uma montanha de
dinheiro e com ela convenceu Byington a lhe abrir as portas da gravadora.
E foi assim que, entre 1929 e
comecinho de 1931, Cornélio Pires levou à praça a série de 52 discos de 78
voltas com seu próprio nome.
Pois bem, além de se transformar no
primeiro produtor musical do Brasil, Cornélio Pires abriu veredas para os violeiros
anônimos que com seus sons originais encantavam os ouvidos do povo nas tardes
compridas dos fins de semana. Assim, desbravado o caminho, a moda de viola,
incluindo toadas, cateretês etc., passou a ser apreciada por um público novo e
ilustrado até então acostumado a ouvir Bahiano, Cadete, Eduardo das Neves e
outros nomes cujas vozes que rodavam nos pesados gramofones, uma grande
novidade da época.
Estamos falando dos primeiros anos do
Século XX.
Em novembro de 1944, o Capitão Furtado
entrava no estúdio da recém-criada Gravadora Continental – hoje extinta- para
produzir o primeiro de uma longa série de discos da dupla Tonico e Tinoco, que
ele acabara de descobrir e que se tornaria lendária entre nós.
Claro que anos antes muitos discos com
modas de viola já haviam sido lançados ao comércio com grande sucesso e muitos
autores e intérpretes viveram financeiramente bem com o que faziam.
Não dá para esquecer de Raul Torres,
Florêncio, Serrinha, Rielinho, Carreirinho e tantos mais que em 1994 ganharam
uma série própria: Som da Terra (Warner/Continental).
Muitas histórias permeiam o mundo da
viola e dos violeiros.
No exterior, até hoje, todo
instrumento que se parece com violão é comumente chamado de violão ou guitarra.
Das matas do Ceará, um dia, saíram os
irmãos Mussaperê e Herundy.
Num ano qualquer os irmãos, ainda
meninos, acharam um violão ou viola e com ela passaram a se entender
musicalmente, e com este instrumento gravaram bem depois, em setembro de 1953,
na velha Continental, o primeiro de muitos discos com o baião Tambor Índio e o
galope Acara Cary, de autoria deles.
Mussaperê e Herundy, dois dos trinta
filhos de um cacique, ficariam mundialmente famosos pelo nome de Índios
Tabajaras.
Neste livro, o mineiro Chico Lobo e o
carioca Fábio Sombra deixaram por instante as violas no canto da parede e
mergulharam no universo caipira e de lá nos trazem informações valiosas de todo
tipo sobre a viola e violeiros. Já no primeiro capítulo, Viola Caipira - Duas pequenas
histórias, Lobo e Sombra falam de folclore e origens do instrumento. No último
capítulo, Retirada, os autores se despedem do leitor com muita graça e alguma
fantasia.
E tome história!
Constituído por 11 partes, o livro Conversa
de Violeiro – Viola Caipira: tradição, mistérios e crenças de um instrumento
com alma brasileira, escrito de forma bem natural conquista o leitor muito
rapidamente, desde os primeiros parágrafos. É como se estivéssemos ouvindo a
prosa e o ponteio dos autores. Saborosos são os causos e o modo como Sombra e
Lobo nos apresentam as crenças, as simpatias, as curiosidades e tudo o mais que
consta do rico, belo e agradável universo da cantoria dos violeiros do Brasil
que ainda, e felizmente, se espalham por aí a fora.
No Rio Grande do Sul temos o trovador,
equivalente ao cantador nordestino, que por sua vez tem também muito a ver com
o cururueiro de São Paulo e o calangueiro de Minas Gerais.
O mundo do caipira ou do matuto, como
se diz no nordeste é, sem dúvida, de grande riqueza. Nesse mundo cabe tudo, até
o que não deveria caber: a mistura das cantigas de viola feitas de modo natural
com a contaminação provocada por instrumentos eletrônicos, iniciada nos fins
dos anos de 1960 por duplas como Léo Canhoto e Robertinho. Exemplos? Basta
ligar o rádio.
A boa viola e o bom violeiro existem
desde os tempos de antanho.
Ali pela virada do século XIX para o
XX, em Canudos, BA, soldados matavam de dia os seguidores de Conselheiro e à
noite, sob as insuspeitas estrelas do céu se transvestiam de violeiros, e
pungentemente cantavam e tocavam em roda para afogar as mágoas, antes de
virarem bicho com a cara cheia de cana.
A música, seja ela de que tipo for,
existe em qualquer lugar; a partir, mesmo, do vento, do mar e até do coração
humano, que bate em compasso binário.
A palavra “caipira” vem do tupi ka'apir ou kaa - pira, língua que o português
Marquês de Pombal decidiu acabar, mas o que não acaba é a moda de viola
representada por muitos ritmos e gêneros vindos da viola, que com sua magia
inspira o tocador a expor suas alegrias e saudades.
Depois de Cornélio Pires e do
musicólogo paulistano Mário de Andrade autor da obra-prima Viola Quebrada, a
moda de viola como tal concebida nos primeiros registros fonográficos continua
sendo apreciada cada vez mais por um público que se multiplica. Isso, não custa
dizer, que se deve a iniciativas de artistas que marcaram presença entre nós:
Tião Carreiro & Pardinho, Bambico (o Dourado da dupla Dourado &
Douradinho), Zé do Rancho, Renato Andrade, Cacique & Pajé, Almir Sater,
Ivan Vilela, Roberto Corrêa, Fernando Deghi, Tião do Carro, Téo Azevedo,
Rodrigo Mattos, Helena Meirelles, Juliana Andrade e Inezita Barroso, por
exemplo.
Inezita, que não tinha na viola o seu
principal instrumento e sim o violão, deixou um legado
muito importante.
Através do seu programa Viola Minha
Viola (TV Cultura), que ficou no ar durante 35 anos ininterruptos, ela
descobriu e incentivou nomes que o tempo confirmaria de real importância, como
a dupla de mineiros Pena Branca & Xavantinho - e Bruna da Viola, sua última
descoberta.
Antes de Inezita Barroso, não havia
orquestras de violeiros como a de Mauá, Osasco, Campinas, etc.
O livro Conversa de Violeiro - Viola
Caipira: tradição, mistérios e crenças de um instrumento com a alma do Brasil,
é para ser lido num fôlego só, de preferência com um disco de Chico Lobo e
Fábio Sombra tocando na sala.
E tenho dito!
Ah! Dizem as más línguas que violeiro
é que aquele sujeito que passa metade do tempo cuidadosamente afinando sua
viola e a outra metade tocando desafinado.
Um País que não dá bola à educação e à
cultura para no tempo, quando não volta ao tempo mais atrasado da Idade Média.
Infelizmente, é o que se vê hoje no Brasil.
Particularmente, eu gostaria de saber
qual o pensamento dos garotos e garotas nascidos nos últimos 13 anos, e dos
jovens em geral. Se a programação do rádio e da televisão forem amostras disso
estaremos perdidos.
Que futuro teremos, se o futuro for
amanhã?
Há poucos dias, o editor potiguar José
Cortêz voltou de um giro pelo nordeste. Contou-me de algumas surpresas que
teve.
Em Acari, cidadezinha localizada a 201
quilômetros de Natal, ele contou que palestrara para estudantes. A surpresa que
teve em Acari foi quando lhe disseram que a prefeitura local estava
desenvolvendo um projeto pra lá de curioso: toda criança que nasce na cidade
tem como padrinhos pessoas achegadas à leitura. Essas pessoas assumem o
compromisso de presentear seus afilhados a cada aniversário, com livros, com
boas leituras.
Interessante, não?
Tomara que esse projeto pegue.
Noutra cidade da região, São Tomé, a
101 quilômetros de Natal, Cortêz constatou um dos inúmeros absurdos do nosso
“Brasil brasileiro”, como diria o compositor mineiro Ary Barroso.
Em São Tomé, Cortêz constatou que
havia duas pontes construídas dentro do mato, com dinheiro público. Uma ligando
à outra e outra ligando a canto nenhum, ou seja, a-b-a-n-d-o-n-a-d-a-s.
Ainda no seu giro pelo Rio Grande do
Norte, o editor proferiu palestra noutra cidade (São Miguel do Gostoso),
incluindo um matador de aluguel e um traficante, presos e condenados, mas
cumprindo pena em regime aberto. Os dois o ouviram por alguns minutos, viraram
as costas e foram embora sem nada dizer.
E assim é o nosso País, e é assim que
sucede nos grotões do nosso País.
A educação, não custa dizer, é a
salvação da lavoura humana.
Sem educação e cultura nós, filhos do
Brasil, estaremos todos perdidos; é o que se vê, aliás, no dia a dia do nosso
Brasil brasileiro.
Meu Deus, até quando continuaremos
cegos, perdidos no universo das crises e da falta de respeito ao próximo?
Não à toa, o cantor e compositor
paraibano Geraldo Vandré, autor da pérola Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores
(acima), continua de luto, recusando-se a cantar em público. Quer dizer, além
de luto, ele permanece em greve por um País melhor.
O Brasil anda em
crise há mais de 500 anos. A primeira ocorreu com a invasão dos portugueses a
partir da Costa da Bahia. Naturalmente, e como não poderia deixar de ser, as
primeiras vítimas foram os primeiros habitantes do nosso País. E outras crises
se seguiram, com a invasão dos holandeses, franceses, ingleses, espanhóis,
norte-americanos... Os americanos do Norte aprontaram e aprontaram e continuam
aprontando.
Atualmente, nesta
década e meia do terceiro milênio, as crises continuam a infernizar a vida de
nós pobres mortais, “sem dinheiro no banco, sem parentes importantes...”.
(Belchior)
Mas uma coisa
curiosa: mesmo sufocados por crises seculares e contínuas, continuamos vivendo,
abraçados à esperança...
E assim, temos
motivos inúmeros para rirmos e choramos ao mesmo tempo.
Inegavelmente, somos
um País rico de todas as formas: em dor, miséria, tristeza e tudo mais.
O poeta baiano Castro
Alves dizia que a praça é do povo. Ele era, seguramente, um otimista imbatível
em prosa e verso, um poeta incrível; enfim, um poeta da Paz e da Liberdade. Ele
era um pouco de nós...
O Brasil é rico
também na forma ou formas de criar, de fazer arte.
No comecinho dos anos
de 1950, o rei do baião Luiz Gonzaga (1912/1989) e seu parceiro Humberto
Teixeira (1915/1979), depois de gerarem duas dezenas de grande sucesso, como os
baiões ‘Paraíba’ e ‘Asa Branca’, geraram também o fado-toada ‘Ai, Ai Portugal’,
originalmente lançado à praça pela portuguesinha Estér de Abreu (1921/1997). E
por falar em Luiz Gonzaga, não custa lembrar que domingo (2) fez 26 anos do seu
desaparecimento entre nós. Nesse dia fui levado ao bairro paulistano do Caxingui
, na zona Sul, para falar umas palavras a seu respeito e a respeito da cantora
mineira Fatel Barbosa, que aniversariava nesse mesmo dia. E lá encontrei amigos
como Luiz Wilson, Anastácia, Tio Joca, do Trio Sabiá, entre outros.