Foi num dia como hoje, segunda-feira, que nasceu o carioca Francisco Buarque de Hollanda. O ano era 44 e o mês, junho. Dezenove de junho. O tempo passou, pois não para de passar, esse Francisco virou Chico Buarque. Compositor, cantor, uma fera da arte musical no campo popular. Chico é uma sumidade na profissão que abraçou. Como cidadão, Chico é completo. Sempre soube o que quis, para si e para o Brasil. Sua obra enriquece a nossa música popular. Tem centenas de títulos registrados em compactos simples e duplos, LPs, CDs e DVDs. Incomodou os milicos que tomaram as rédeas do destino do Brasil durante 21 anos, a partir de 1964. Fora isso, Chico Buarque é também nome de destaque no campo da literatura. Tem vários romances e peças de teatro, como Gota D'água, Roda-Viva e Calabar. Seu pai, Sérgio Buarque, deixou marcas na área da História e Sociologia. Um dos seus livros clássicos tem por título Raízes do Brasil, cuja primeira edição data de 1936. A primeira composição musical de Chico Buarque foi intitulada Canção dos Olhos. Tinha 15 anos de idade. O sonho de Chico, digamos assim, era compor tão bem como o seu chamado "maestro soberano", Tom Jobim. A primeira composição musical de Chico foi gravada pela cantora Maricenne Costa, em 1964. Título: Marcha para um dia de Sol.
Discos e livros de Chico Buarque têm sido publicados em vários países e nas línguas mais diversas: francês, inglês, alemão, japonês, italiano, espanhol, grego...
O cartunista Fausto e eu acabamos de dar ponto final ao livro Histórias de Esquina. Já está no prelo e até o começo do próximo mês, nas nossas mãos. O prefácio traz a assinatura do maestro paulistano Júlio Medaglia. Uma amostra desse livro está aí embaixo.
A morte não tem idade, mas tem vida. Num dia qualquer de fim de ano ocorre num país imaginário a continuidade da vida sem prazo para parar, por iniciativa da morte. Pois é, derrepentemente as pessoas param de morrer. Criança continua crescendo e os crescidos, homens feitos, continuam suas trajetórias rumo à imortalidade. Velhos continuam velhos, cada vez mais velhos; e doentes, doentes com a possibilidade de não morrer. O livro As Intermitências da Morte, de José Saramago (1922-2010), começa com a morte tirando férias e as pessoas, homens e mulheres, vivendo a possibilidade de nunca morrerem. É pra lascar, né não?
Não é de hoje que, na realidade, muita gente sonha com a imortalidade em vida. O tema se acha na literatura de todo canto.
Desse assunto trata um dos livros do checo Milan Kundera, A Imortalidade. E por aí vai.
O Nobel português Saramago abordou o tema com leveza e certa graça. Já nas primeiras páginas do livro, a população do país imaginado pelo autor não morre nem a pau, nem a tiros. Todos lá estão condenados a viver eternamente.
O afastamento da morte em vida preocupa, porém, autoridades de todos os setores do cotidiano. A começar pelo Clero, representado por um cardeal que procura o Primeiro Ministro do imaginado país para expor suas preocupações óbvias: sem morte não há ressurreição e sem ressurreição não há igreja.
E assim segue o enredo do livro que tem, lá pras tantas, um violoncelista como personagem de grande destaque. Esse personagem não tem nome, mas fica-se sabendo que tem 50 anos de idade. A Morte se apaixona por ele e ele, por ela. Terminam na cama.
Depois do rola-rola, nenhum dos dois morreu.
Saramago não dá nome a nenhum de seus personagens, mas o narrador de As Intermitências da Morte cita Bach uma dezena de vezes, Chopin três ou quatro, Beethoven duas ou três, e o escritor francês Marcel Proust, autor do livro Em Busca do Tempo Perdido (1917)
Curiosidade: Saramago, que era ateu, cita na sua obra Deus em 16 ocasiões.
Quem conhece a obra de José Saramago pode até dizer, como eu, que a morte não o matou.
Ah! Sim: a leitura do livro As Intermitências da Morte dura sete horas e alguns minutos, ininterruptamente.
A pernambucana Marinês, nomeada Rainha do Xaxado por Luiz Gonzaga, transformou em clássico o forró Peba na Pimenta, de Adelino Rivera, João do Vale e José Batista. Também transformou em sucesso Só Gosto de Tudo Grande, de Adélio da Silva e Adolpho de Carvalho. Diz: "Eu sou pequenininha/ Mas gosto de tudo grande/ Só gosto de tudo grande…/ Na minha terra botei gente pra correr/ Meio quilo de moleque/ Só gosto de tudo grande…". A mineira Maria Alcina fez estrondoso sucesso com Bacurinha, depois de regravar Prenda o Tadeu. Até a rainha do baião, Carmélia Alves, cantou a seu modo verso de duplo sentido. A música foi Trepa no Coqueiro, de Ari Kerner. Um trecho: “Oi! Trepa no coqueiro!/ Tira coco!/ Jipe, jipe! Nheco, nheco!/ No coqueiro olirá/ Papai, cadê Maria?/ Maria foi passiá/ Os passeios de Maria/ Faz papai e mamãe chorar”. A rainha do forró, Anastácia, pegou o bonde dessa história e mandou ver no forró O Sucesso da Zefinha, em que diz: “A Zefa é moça bonita/ Bem apetitosa e ajeitadinha/ Usando a calça bem justa/ Cintura apertada fica bonitinha/ Os homens ficam quase doidos/ Querendo dançar só com a Zefinha/ E ela por si não dá conta/ Trocando de par a noite inteirinha”. Quem também fez grande sucesso cantando bobagens foi a atriz Dercy Gonçalves. Uma das músicas que lhe renderam sucesso foi A Perereca da Vizinha, dela mesma e de Jonatan. Começa assim: "A perereca da vizinha tá presa na gaiola!/ Xô, perereca! Xô, perereca!/ A vizinha é boa praça/ A vizinha é camarada/ Vai soltar a perereca/ Pra alegrar a garotada!!!". No mundo da cantoria ao som de viola e pandeiro há interessantes e curiosos registros em modalidades diversas, como embolada. As irmãs Terezinha e Lindalva fizeram muitos marmanjos rirem com Baiana Sulá, gravada no lado A do LP Olha o Palavrão, de 1992. Elas usam palavras de baixíssimo calão para se "agredirem". Embora engraçados, os versos são pesados. Terezinha e Lindalva gravaram vários discos e até participaram de um filme intitulado Saudade do Futuro, baseado no livro Eu vou contar pra vocês, que publiquei em 1990. Desse filme, inédito no Brasil, também participaram os emboladores Peneira e Sonhador. Mais leves do que Terezinha e a irmã são Caju e Castanha. Falam de corno. Adoram esse tema. O Corno Conformado é uma graça. Ouça:
Menos violento do que se ouve em Maria Chiquinha é o Vampiro Doidão de Tukley Ganzert, que muita gente pensa ser Raul Seixas. Começa assim: "Puta que pariu!/ O meu gato pôs um ovo/ Mas gato não põe ovo/ Puta que pariu de novo!...". De Raul é o engraçado Rock das Aranhas, em que narra a relação sexual entre duas mulheres. Fez grande sucesso, virando clássico do gênero: https://www.youtube.com/watch?v=rRj-9xhlXuQ O trem dessa história segue por aí, aos solavancos. Em 1929, a cantora e atriz do teatro de revista Aracy Cortes encheu de tesão os marmanjos que a viam no palco. Deu muito o que falar com as pernas nuas e os trejeitos sensuais. Um ano antes ela gravou o samba Jura, de Sinhô, que lá pras tantas diz: “... Daí então dar-te eu irei/ O beijo puro na catedral do amor/ Dos sonhos meus/ Bem junto aos teus/ Para fugirmos das aflições da dor”.
Aracy Cortes
Aracy foi quem lançou o gênero samba-canção, criado por Luiz Peixoto, Marques Porto e Henrique Vogeler. Título: Ai Ioiô (Linda Flor), gravada em disco Parlophon, em 1929. Em 1935, a cantora Carmen Miranda botou pra quebrar com o samba Eu Dei..., de Ary Barroso. Gracioso, fez sucesso. Em 1936 Noel Rosa compôs o samba Dama do Cabaré que Marília Batista gravaria em 1954. O personagem descarta uma namorada pela tal dama, com quem sai. Apaixona-se e passa a vida a procurá-la nos bailes da vida. É o contrário do que se sucede com a personagem do samba-canção Ronda, que o paulistano Paulo Vanzolini comporia. Essa música foi lançada em 1953, por Inezita Barroso. Mais recentemente muitas cantoras se divertiram cantando coisas maliciosas.
Todo e qualquer tema se acha no repertório popular da nossa música desde 1902, quando o bom Bahiano, Manuel Pedro dos Santos, gravou o lundu Isto é Bom. É uma graça. O tempo passou e ele, Bahiano, também gravou uma cantiga do Norte, quer dizer: do Nordeste, intitulada O Meu Boi Morreu. Eu disse e repito: todo e qualquer tema se acha na nossa música popular desde o nascimento, vida e morte de quem quer que seja. A morte está presentíssima no repertório popular da nossa música. Todos os grandes compositores geraram músicas com base nessa temática.
Acho um barato Quando o Samba Acabou, de Noel Rosa, interpretado por artistas do naipe de Marília Batista. Ela gravou esse samba no ano em que eu nasci: 1952. O ilustrado poeta Vinícius de Moraes falou de tudos nos seus versos, até de suicídio.
No poema O Dia da Criação, Vinícius diz que no sábado tudo pode ser feito. Ouça:
A População de humanos deste nosso planetinha já passa de 8 bilhões. Diariamente nascem cerca de 200 mil pessoas e morrem a metade disso. Quer dizer, continuamos a nos multiplicar como disse Deus, na Bíblia. E se não morrêssemos o que seria da morte, hein? Desde tempos imemoriais rola na boca do povo, e em todas as línguas, histórias que põe a Morte como imorrível e sábia. Dela ninguém escapa, é claro. Nas histórias contadas pelo povo sempre aparecem malandros querendo passar a perna na morte. E perdem, claro. O escritor paulistano Ricardo Azevedo reuniu num livro quatro histórias originárias de Portugal. São ótimas. Começa com o personagem procurando padrinho para o seu sétimo filho. É pobre, afunhenhado. Numa estrada dá de cara com alguém que se identifica como Morte. Vira a madrinha do filho. A segunda história adaptada por Azevedo e inserida no seu livro Contos de Enganar a Morte trata de dois jovens, um deles ganancioso e o outro tranquilo, pacato, trabalhador, de profissão ferreiro. E não vou contar mais a respeito. Mas foi em histórias desse tipo que o escritor português José Saramago inspirou-se para nos presentear com o livro As Intermitências da Morte, publicado originalmente em 2005. No livro, o fabulista Saramago cria um país onde, de repentemente, ninguém morre. E de repentemente as pessoas se multiplicam, se multiplicam, se multiplicam. Caos. As funerárias vão à falência, os hospitais ficam atulhados de pacientes que envelhecem e não morrem. Preocupado com a situação, o cardeal liga para o primeiro ministro dizendo que sem morte não há ressurreição e sem ressurreição não há igreja. A morte se acha em todas as narrativas, em todas as histórias desde sempre. Desde que mundo é mundo. Há histórias sobre a Megera, como também é chamada a Morte, no folclore de todos os países. Lá pras bandas da Europa há história do Cavaleiro Sem-Cabeça. As versões da história desse Cavaleiro variam. Contam que o tal foi decapitado pelo próprio pai. Há filmes a respeito. No Brasil, que é rico de histórias de Trancoso e tal, tem a Mula Sem-Cabeça. Teria surgido no Nordeste. Fala-se de uma mulher que fora amaldiçoada por Deus, ou sei lá por quem, pelo fato de envolver-se sexualmente com um padre. Tem também a história de um certo Corpo Seco. No caso um cara mão de vaca e mau. Xingava todo mundo, batia em todo mundo. Canalha. Ao morrer a terra recusou-se a comê-lo. Não foi parar no Inferno e tampouco no Céu.
Há casos reflexivos no vasto manto do folclore nacional. O Negrinho do Pastoreio é um desses casos. Cenário é uma fazenda no Sul. O Negrinho do título deixa escapar um animal e por isso é punido pelo patrão, um fazendeiro maldito. Ele apanha e tem o corpo ferido num formigueiro onde fora posto. Ressuscita montado num bonito cavalo e, como herói da história, liberta as pessoas escravizadas pelo fazendeiro. E o Saci-Pererê, hein? O Saci, nosso Saci, aparece pela primeira vez em histórias escritas num livro do paulista Monteiro Lobato. Foi também Monteiro Lobato que deu voz em livro à Mula Sem-Cabeça. Vale sempre a pena ler e reler as histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Um dos mais queridos personagens folclóricos é João Grilo. Grilo é cheio de onda, esperto. Tira proveito de quem esbanja fortuna e tal. Esse conseguiu vencer a morte. Nessa façanha, teve a mão santa de Nossa Senhora. Provoca boas gargalhadas. Foi morto por um cangaceiro, mas retornou ao convívio entre os vivos. Rouba cenas da peça O Auto da Compadecida, que virou filme. A população mundial continua se multiplicando. O número de pessoas que nascem é o dobro das pessoas que morrem. No auge da pandemia o Brasil registrou a média de 7 mil morte/dia. Nascem mais homens do que mulheres, os dados são do Country Meters. No Brasil nascem cerca de 7.700 crianças diariamente, segundo o IBGE. Mas e se não morrêssemos, o que seria da morte?
A boa economia, equilibrada, faz qualquer país ser respeitado por todos. País que anda mal é aquele que tem a economia mal administrada. E assim sendo, corroída pela praga da inflação. Poetas populares do cordel, como Leandro Gomes de Barros, apresentaram na sua arte os malefícios da inflação. Inflação, leia-se: horror, morte, principalmente pra quem é pobre. História.
A indústria fonográfica no Brasil começou a dar seus primeiros passos no ano de 1902. A primeira música, um lundu, tinha duplo sentido sacana e a presença da sombra maldita da morte. O autor, o ator Xisto Bahia, escreve para o cantor moleque Bahiano, o primeiro profissional do ramo, cantar os seguintes versos em quadra: "Isto é bom, isto é bom, isto é bom que dói.../ 'Vá saindo seu coió sem sorte!'/ Iáiá você quer morrer/ Se morrer, morramos juntos/ Eu quero ver como cabe/ Numa cova dois defuntos...".
A rigor, a música popular brasileira é triste, tem até violência e tal.
A tristeza da morte na nossa música começa pra valer a partir do gênero samba-canção. Intérpretes desses gênero, mulheres principalmente, marcaram época: Dolores Duran, Maysa, Waleska... Muitas.
Uma vez, não lembro exatamente quando, o compositor, cantor e instrumentista Tom Jobim falou a respeito do que acabo de falar: que a nossa música é, à rigor, triste. Mas aí surgiu, em 1958, a Bossa Nova.
Chico Alves
Tom disse que até tiros poder-se-iam ouvir em discos.
Tom estava certo.
Meses antes de morrer em Nova Iorque, em 1994, falei com ele por telefone dizendo que queria um encontro pessoal. O tema eram dois: Tom e a Bossa Nova.
À época, eu estava pronto para escrever um livro sobre a música brasileira gravada no Exterior.
O primeiro grande compositor brasileiro a ter músicas gravadas em outras línguas foi o mineiro Ary Barroso. Tom disse: "Estou viajando semana que vem aos EUA. Vou ficar pouco tempo por lá, quando voltar a gente conversa".
O livro ia se chamar ou vai se chamar se houver tempo, O Brasil dá o Tom.
O material para esse livro se acha no meu acervo.
E Tom tinha razão quando falou que a nossa música popular tem contornos tristíssimos.
O samba-canção representa a maior tristeza da nossa música.
A Bossa Nova é exatamente o contrário do que se canta no samba-canção.
O meu amigo José Ramos Tinhorão, sempre uma referência na história da nossa música, não gostava da Bossa Nova. Dizia que era coisa de gringo norte-americano.
Não discuto questões pessoais, quando trato de história. Aqui, devo dizer, que não só aprendi como tenho a maior admiração pelo Zé. Nossas discussões foram louváveis.
Voltando: a música popular é de uma tristeza imensa.
A morte está sempre presente na nossa música popular.
Em 1934, o carioca Francisco Alves gravou Vivo Deste Amor, de Alcebíades Barcelos e Armando Marçal; e Quero Morrer Cantando, de Walfrido Silva, que lá pras tantas diz: "Quero morrer cantando um samba/ No meio de uma roda bamba/ Quero zombar da própria morte/ Cercado das pequenas/ Que me deram inspiração e sorte...".
De certo modo, a morte aqui apresentada por Chico Alves é interessante sim, por que não? Um tanto suave.
A Bossa Nova também falou de morte, de dor e solidão. É bom que se diga, é bom que se lembre.
No Soneto da Fidelidade diz o autor Vinícius de Moraes: "... E assim, quando mais tarde me procure/ Quem sabe a morte, angústia de quem vive/ Quem sabe a solidão, fim de quem ama...".
Houve muito disse-me-disse na ocasião da morte de Vinícius. Até que ele tinha optado, pessoalmente, por entregar-se nos braços da morte enquanto tomava seu whiskinho rotineiro deitado na banheira do seu banheiro do apartamento em que vivia.
Conversando hoje 15 com o escritor João Carlos Pecci, irmão de Toquinho e autor do livro Vinícius Sem Ponto Final, ouvi dele a declaração final:
"Vinícius não matou-se. Vinícius estava se recuperando de um AVC e como consequência aconteceu o que todos nós não queríamos. Meu irmão, que estava hospedado no seu apartamento, no Rio, tentou ainda reanimá-lo, mas quando o médico chegou já não havia mais tempo. A primeira pessoa que notou alguma coisa estranha em Vinícius foi Rosinha, a cuidadora da casa. O resto é história".
Em 1919, Chico Alves gravou Pé de Anjo, de Sinhô. É uma marcha. As marchinhas estavam começando a serem compostas. A primeira foi da Chiquinha Gonzaga... Enfim: "... A mulher e a galinha/ São dois bichos interesseiros/ A galinha pelo milho/E a mulher pelo dinheiro".
Entre samba e Bossa Nova há ainda a canção Praieira inventada pelo baiano Dorival Caymmi. Ele: "É doce morrer no mar/ Nas ondas verdes do mar/ A noite que ele não veio foi/ Foi de tristeza pra mim/ Saveiro voltou sozinho/ Triste noite foi pra mim".
A morte não vive à toa.
Geralmente, quase sempre, a depressão antecede a morte pelo suicídio. Eu não tenho nada a ver com isso, mas como sempre não tenho o que fazer, fiz:
Torquato Neto foi um dos mais importantes compositores do Brasil, nascido em Teresina, PI.
A vida vivida por Torquato foi uma vida triste, sorumbática. Sofreu na alma o que o corpo não sofreu: a crítica exagerada contra si e sua obra, enquanto vivo.
Em 1968, Torquato compôs com Edú Lobo Pra Dizer Adeus. A letra e a melodia são uma flechada envenenada nos corações românticos. A denominada rainha da fossa, Waleska (1941-2016), gravou essa canção que lá pra frente, diz: "Adeus/ Vou pra não voltar/ E onde quer que eu vá/ Sei que vou sozinho/ Tão sozinho amor/ Nem é bom pensar/ Que eu não volto mais/ Desse meu caminho...".
Nessa mesma linha, profundamente denunciante do estado espiritual vivido, a cantora Maysa (1936-1977) cantou com a voz cheia de lágrimas Bom Dia Tristeza, do carioca Vinícius e do paulista Adoniran. Um pedaço da letra morrente, este: "Bom dia tristeza/ Que tarde tristeza/ Você veio hoje me ver/ Já estava ficando/ Até meio triste/ De estar tanto tempo/ Longe de você...".
Antes dos tempos acima citados, em 1956 a carioca Dóris Monteiro gravou coisas tocantes aos corações dos apaixonados, suicidas ou quase suicidas.
A canção Melancolia, de Fernando César, traz a tristeza no seu estágio maior: o anúncio do suicídio. Um trecho: "Melancolia/ Tristeza e pena não sei de quem/ Melancolia/ Saudade amarga talvez de alguém/ Melancolia/ Que chega um dia para ficar/ Fica morando e torturando até matar...".
Melancolia faz parte do disco de 10 polegadas, Confidências de Dóris Monteiro, produzido pelo compositor mestre Braguinha (capa lado).
A morte está em tudo quanto é lugar. Até na imaginação dos doidos, e desde sempre. Desde que vida é vida. E falar de morte tem ou tinha de ser algo natural, como falar de sexo e medo.
A morte, repito está em todo lugar. E em todos os pensamentos.
Acho que foi o filósofo Camus que um dia perguntou, num texto que escreveu, não lembro qual: Quem nunca pensou em suicídio?
Eu mesmo, quando fiquei cego dos olhos, pensei ir pra casa do caralho. Moro no 7º andar de um prédio localizado no bairro de Campos Elíseos, em São Paulo. Fui ajeitando a cabeça e, por incrível que pareça, acho que ainda estou vivo. SIM, A VIDA É DE MORTE
O
poeta mineiro Alphonsus de Guimaraens teve uma vida muito triste.
Apaixonou-se por uma prima que morreu com 17 anos de idade. Casou-se e
teve vários filhos e filhas. Duas se suicidaram como ele, em 1921. Tinha
51 anos.
Um dos poemas mais famosos de Guimarães é Ismália, que
teve três versões. Duas dessas versões traziam como título do poema
Ofélia. Somente em 1923, há 100 anos portanto, é que se tornou
conhecida a versão intitulada Ismália. É dolorosamente linda.
Simbolista, o texto poético trata de um suicídio.
Uma
das
gravações mais bonitas dessa obra foi feita pela cantora paulistana
Inezita Barroso e mais recentemente pelo rapper Emicida que teve
a companhia ilustre da atriz Fernanda Montenegro, declamando.
Ouça: https://youtu.be/4pBp8hRmynI
O
famoso poema de Alphonsus de Guimaraens ganhou versão especial para
animação, desenvolvida pelo quadrinista Reinaldo Bruxxo. Confira: https://youtu.be/WKazkwgbA14
Em alguns textos musicais autores como Fernando Brant
optam por devolver a vontade de viver a pessoas ou personagens inclinados ao
suicídio. Caso desse tipo se acha, por exemplo, na canção Travessia,
imortalizada pelo cantor Milton Nascimento. Lá pras tantas diz a letra:
"... Eu não quero mais a morte/ Tenho muito o que viver/ Vou querer amar
de novo...".
Mas nem tudo é morte o tempo todo na nossa música
popular. Aqui e acolá, há até umas gracinhas como cantou o cearense
Belchior: "Ano passado eu morri/ Mas esse ano eu não morro..." (Sujeito de Sorte). Isso foi em 1976, do LP Alucinação.
Em
2019 Emicida, mais uma vez Emicida, fez uma revisita à canção do cearense
Belchior. A gravação rebatizada à moda do rapper, Amarelo, contou com a presença da
cantora Majur e Pabllo Vittar. Lá pras tantas, depois de dizer que
"Belchior tinha razão!", manda ver: "... Rancor é igual tumor, envenena raiz/ Onde a plateia só deseja ser feliz/ Com uma presença aérea, onde a última tendência/ É depressão com aparência de férias...".
Atenção! Atenção!
Dados
do Datasus mostram que nos últimos 20 anos o número de suicídios dobrou
no Brasil. Foram de 6.780 a 14.840, de 2000 a 2021. Esses números são
superiores aos de mortes provocadas por acidentes de moto e HIV. Na
região Norte se suicidam mais homens com idade superior a 60 anos. No
Nordeste, são mulheres que mais se matam a partir dessa idade.
E como sempre, por não ter o que fazer, fiz hoje o poemeto abaixo:
Mesmo em textos não explícitos, a morte costuma aparecer sorrateiramente em canções que falam de solidão.
A
cantora e compositora Dolores Duran marcou época cantando a dor que
certamente vem bem antes da morte. Em Solidão, por exemplo, ela diz
quase chorando que "Ai, a solidão vai acabar comigo...".
Na Canção da Tristeza, feita em parceria com Edson Borges, Dolores canta com o coração na mão: "... E mais além, se eu te lembrar/ Terá de ser assim/ Com mágoa e dor/ Que eu viva para sempre/ A morte deste amor...".
Os vozeirões do passado cantaram a morte de várias maneiras.
Na canção Céu Moreno, de Uriel Lourival e gravada em 1935 por Orlando Silva, ouve-se: "... Senhor, deixai quando eu morrer/
Minh'alma em penitência/ Aqui mesmo sofrer/ Não quero a vossa santa
luz...".
Mas, é claro, que há na nossa música popular textos fortíssimos referentes à morte.
O
roqueiro Lobão, de batismo João Luiz Woerdenbag Filho, cresceu num
ambiente cheio de dores. O pai e a mãe mataram-se. Ele próprio tentou o
suicídio mais de uma vez. A última em 1999, quando ficou sem gravadora.
Num congresso de psiquiatria em Florianópolis, realizado em 2015, ele disse:
"As pessoas precisam ter mais coragem para falar sobre isso. Precisam ter
opiniões mais contundentes. O maior problema que se pode ter é perceber
que se tem um problema que não está resolvido [...] Para mim, a arte é um processo de cura. Ela organiza a cabeça, expande o
conhecimento. Lido com criatividade e preciso de
equilíbrio e ausência de ansiedade. Ou você adquire isso ou não faz bem o
seu trabalho"
No LP O Inferno é Fogo, de 1991, Lobão canta: "... Parceiros de
suicídio/ Um vício sentimental/ Um acidente fatal/ Eu uivo pra Lua
cheia/ E a felicidade vacila/ E por mais que a lua ilumine/ Continuará
vazia..." (Bem Mau).
O baiano Raul Seixas, envolvido em drogas até
aqui não era definitivamente uma pessoa alegre. Irritava-se com
facilidade e não media palavras quando queria xingar alguém. Era da pá
virada como se diz. Perseguiu a morte como pôde, sempre de modo
perigoso. Ele: "... Ao lado de Herodes/ Comandou o genocídio/ Mas quando
acorda assustado/ Está pronto pro suicídio..." (O Suicídio Parte II).
No dia 10 de novembro de 1972, com 28 anos de idade e um dia, o compositor Torquato Neto despediu-se da vida aspirando gás.
Torquato (foto ao lado) foi figura importante no movimento Tropicalista, que teve a frente Caetano, Tom Zé...
Em 2000, a mestranda Anay Oliveira dos Anjos apresentou dissertação à banca de professores do curso de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP sob o título A Morte na Obra de Torquato Neto: uma análise semiótica. Ela:
No caso de um artista, podemos acompanhar esta constante presença da morte em sua obra, e Torquato não é exceção. A morte é uma constante em sua vida e obra. Ele já havia tentado se matar diversas vezes e cada uma era como um tributo à própria arte. Existe um ponto em que a criação artística torna-se de tal modo importante para a vida do artista que elas se confundem. Ela só existe por sua causa mas à medida em que sua criação se estrutura o artista se vê na posição contrária. Ele passa a depender da obra para existir tanto quanto ela depende dele para fluir. A morte aparece aqui como um tributo a ser pago à arte, uma experiência limite que permite ao sobrevivente o relato pleno de sua incursão pelos obscuros e perigosos caminhos do inconsciente.
Ainda na sua convincente dissertação acrescenta Anay:
Sua atividade criativa estava aquecidíssima e ele tinha inúmeros planos de futuro. "Experimentar" a morte era como encarar de frente aquela que o colocava constantemente numa cilada. O artista é aqui uma vítima voluntária da própria arte. Caso ele sobreviva terá em seu desenvolvimento artístico um salto qualitativo talvez apenas possível por ter tomado a opção do sacrifício. Um ritual que ressuscita, como o próprio corpo do sobrevivente.
Existem pérolas no repertório da nossa música popular relacionadas à morte.
Num ano que não me lembro com firmeza, conversei e bebi bastante com o craque Nelson Cavaquinho.
Nelson tem obras-primas que fazem alusão à morte. Particularmente encontro enorme identificação com os sambas Quando Eu Me Chamar Saudade e Juízo Final. Quando Eu Me Chamar Saudade diz:
Sei que amanhã, quando eu morrer
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha um bom coração
Todos os grandes compositores cantaram a morte. Chico, por exemplo, disse na canção Funeral de Um Lavrador baseada na peça Vida e Morte Severina, do pernambucano João Cabral de Melo Neto:
Esta cova em que estás com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida
É de bom tamanho nem largo nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio...
Nessa mesma linha e batuque, em 1951, a paulistana Inezita Barroso estreou em disco com a canção Funeral de um Rei Nagô, de Murilo Araújo e Hekel Tavares. Ouça: https://youtu.be/jsd1OtCJKJo
Falei do Chico e também posso falar do Gil, Caetano e Vandré cantando a morte. Gil:
Não tenho medo da morte
Mas sim medo de morrer
Qual seria a diferença
Você há de perguntar
É que a morte já é depois
Que eu deixar de respirar
Morrer ainda é aqui
Na vida, no Sol, no ar
Ainda pode haver dor
Ou vontade de mijar...
E o mano Caetano, disse:
Morre-se assim Como se faz um atchim E de supetão Lá vem o rabecão...
E Vandré, hein?
Nas músicas Réquiem para Matraga, Disparada e Terra Plana, Geraldo fala de morte com todas suas cinco letras e consequências gerais. Diz ele em Terra Plana:
... Se um dia eu lhe enfrentar
Não se assuste, capitão
Só atiro pra matar
E nunca maltrato não...
No dito rock brasileiro há letras bastantes interessantes do tema morte.
Renato Russo e Cazuza, por exemplo, falaram muito sobre o tema.
Renato:
Os mortos não podem voltar
Os mortos não vão mais falar mal de vocês
Nem da madeira, nem do ferro em brasa
Choques elétricos e ameaças
Crianças que desaparecem
Frases perfeitas, palavras cegas
Escritas em cartazes tropicais
Cadê meu pai?
Meu irmão?...
E por aí vai. A história é longa.
Tudo há o que se procurar na discografia brasileira, desde de o começo do século 20. Sim, não podia aqui deixar de falar da gauchinha Elis Regina. Ela cantou com a beleza da sua voz a cantiga Lapinha. É de Baden Powell e Paulo César Pinheiro. Foi na I Bienal do Samba. Aqui Elis cantando: https://youtu.be/v_fBw6EHebA
A história da morte está na história.
Meu amigo, minha amiga, você sabia que Cleópatra se suicidou?
Em 1942, o austríaco Stefan Zweig e sua esposa, Zweig Lotte, firmaram um pacto de morte, suicidando-se. As razões, não sei...
Pra viver, a morte precisa da vida. E nós, da morte.
O tema é tabu e por ser tabu, polêmico. Desde sempre. Esse tema se acha em todos os quadrantes do pensamento humano, desde sempre. Falar da vida, falar da morte e de sexo não é fácil. É difícil, e por ser assim, polêmico, polêmico. Não é fácil falar das coisas fáceis. A morte, por exemplo, está na nossa cara como na nossa cara está a vida. E vida como tal, sexo. O sexo reproduz a vida e a morte, não é mesmo?
Mas poeta eu não sou não. Poeta é Zilidoro Poeta é Riachão Que do nada fazem versos E se brincar até canção...
A morte, como a vida, se acha profundamente presente nas mais diversas formas da cultura popular. Na música, inclusive. O roqueiro Raul Seixas e o escritor Paulo Coelho assinam um tango interessantíssimo, cantado por Raul. Este: https://youtu.be/FHZpAnagMkc O tema morte na música popular brasileira é antigo, antiquíssimo. Em 1933 o carioca Noel Rosa escreveu e cantou Fita Amarela. Diz:
Quando eu morrer Não quero choro, nem vela Quero uma fita amarela Gravada com o nome dela...
Isso, pois, há 90 anos!
Mas a temática morte na nossa música popular é anterior à Fita Amarela. Porém não custa lembrar que nesse ano, 33, os compositores J. G. Fernandes e L. Marques compuseram o fado A Morte da Ceguinha, que o português com raízes brasileiras Manoel Monteiro gravou com muita graça, digamos assim. Antes dos 30, os cantores Paraguassu e os Irmãos Eymard gravaram Morrer de Amor e Morrer Por Ti. A primeira é uma modinha e a segunda, uma polca. Polca, aliás, é um gênero musical muito bem assimilado pelo sanfoneiro e compositor, também cantor, Luiz Gonzaga.
Em 1953, há 70 anos, o Rei do Baião gravou do caruaruense Nelson Barbalho a toada A Morte do Vaqueiro. Obra-prima. Ouça: https://youtu.be/jSWwftxuSQQ
Antes dessa música, Luiz Gonzaga compôs um samba com Ari Monteiro. Essa samba foi gravado em disco de 78rpm pelo carioca Cyro Monteiro. Título: Meu Pandeiro. Ela começa assim:
Quando eu morrer, quero um braço de fora Pra tocar o meu pandeiro, ô O meu pandeiro cravejado de marfim Quando eu morrer, quero um braço de fora Pra tocar o meu pandeiro, ô Em homenagem às morenas que gostam de mim
Num ano qualquer da década de 50, João Pacífico a mim contou que escreveu uma moda a que deu título de Cabocla Tereza. Clássico do gênero.
Cabocla Tereza foi gravada originalmente em 1959 pelo parceiro de João, Raul Torres. É gravação linda, lamentavelmente linda, feita pelo já referido Raul e seu parceiro de viola Florêncio.
À época Raul Torres formava dupla com Florêncio. Famosa.
O tempo passou e continua passando, que não é besta.
A morte está presentíssima na música popular brasileira.
É fácil falar da morte, difícil é viver a vida que ora o mundo vive com guerras e putaria de todos os tipos.
Sandro Becker, que durante a carreira era chegado a paródias, emplacou sucessos sacanas como A Picada da Cobra. E como quem não quer nada, do rádio saía a voz de Zé Duarte cantando Velho Sapeca. Olhe a gracinha: "Meu pai vivia triste, andava descontente/ Hoje vive sorridente e a tristeza não existe/ Queria que você visse como ele tá legal/ Tá nascendo cabelo na cabeça do meu pai/ Que beleza, que legal...". O jornalista, teatrólogo e advogado carioca Geysa Bôscoli, sobrinho da maestrina Chiquinha Gonzaga, compunha músicas nas horas vagas. Uma dessas músicas, Maria Chiquinha, foi gravada pela primeira vez por Sonia Mamede e Evaldo Gouveia no ano de 1962. Outras gravações dessa música foram feitas, inclusive pelos irmãos Sandy e Junior. A letra é aparentemente ingênua, mas o personagem desconfia que está sendo traído pela mulher. Pior: ele a ameaça cortar-lhe a cabeça. Horror! Há muitos casos de feminicídios na literatura e na música. Em 1982 entrevistei Chico Buarque e dele ouvi opinião a respeito desse assunto, condenável sob todos os aspectos. Leia a entrevista completa: REVISTA HOMEM - EDIÇÃO DE ANIVERSÁRIO Maria Chiquinha chegou a integrar o repertório da música infantil. Esse repertório incluiu títulos até da animação Shrek. Num desses títulos, a petizada canta: "Aqui em Duloc é tão bom viver/ Nossas regras já vamos lhe dizer/ No jardim não pisar/ Todos cumprimentar/ Duloc é especial/ Na cabeça shampoo, lave bem o seu pé/ Duloc é, duloc é/ Duloc é especial". Até a chamada "rainha dos baixinhos" Xuxa, hoje sessentona, dançou e cantou ao som do duplo sentido. Exemplo é a música Turma da Xuxa, de Reinaldo Waisman e Robson Stipancovich, gravada no LP Xou da Xuxa em 1986. A letra diz: "E o Betão apaixonado/ Foi beijar a Marieta/ Errou a sua boca/ E beijou sua… bochecha…". Xuxa, aliás, chegou a ser "homenageada", em 1988, pelo grupo Trem da Alegria. Os pixotes desse grupo, hoje extinto, começam cantando assim: "Cada dia mais eu me apaixono e te acho mais linda/ Eu fico imaginando, quero ser seu namorado/ Mas fico com vergonha do meu pai que está do lado/ Você é a culpada do meu banho demorado…".
Contando nos dedos: 31, 41, 51... Eu nasci em 1952... 61... Jânio Quadros na parada como representante da República... 71... Ditadura militar, sete anos antes... 81, 91, 2001, 2011, 2021...
Se vivo estivesse entre nós o baiano João Gilberto estaria completando 91 anos de idade. É isso mesmo?
Pois é, não tem como dizer o contrário: o baiano de Juazeiro João Gilberto, com a sua pancadinha leve ao violão e sua voz suave e afinada, foi quem criou um nome gênero musical brasileiro, mesmo com uma célula do jazz norte-americano. Ouso aqui dizer que esse João foi tão importante quanto o pernambucano de Exu Luiz Gonzaga, que para o mundo ficaria conhecido como o Rei do Baião. O novo ritmo criado por João Gilberto chamou-se Bossa Nova. O mundo inteiro conhece esse gênero, esse ritmo, essa pancada sonora inventada pelo baiano João. A primeira gravação de Garota de Ipanema, carro chefe do movimento bossa-novista, foi gravada no Brasil no dia 26 de março de 1963, lançada em julho num disco de 78 rpm pela gravadora Odeon. O intérprete, de quem privei amizade, foi o carioca Pery Ribeiro. Pery era filho da deusa da nossa música Dalva de Oliveira e do cínico Herivelton Martins, porém sem dúvida um grande letrista e melodista da nossa música popular. É dele, por exemplo, a canção Ave Maria no Morro. Essa canção foi gravada em muitas línguas. Em muitas línguas, quase todas, foi também gravada Garota de Ipanema. A primeira versão em inglês de Garota de Ipanema coube à baiana de Salvador Astrud Gilberto. Essa gravação Astrud fez no dia 12 de março de 1963, num estúdio de Nova Iorque lançada no ano seguinte, num single, sem créditos à intérprete. Não houve contrato na ocasião. Da parte dela, de Astrud, por ingenuidade ou amadorismo.
Astrud foi mulher de papel passado de João Gilberto, mas João a traiu e a deixou com uma criança pra criar.
Não custa lembrar que João inspirou quase todo mundo no Brasil, como Luiz Gonzaga.
Seis meses depois da gravação de Garota de Ipanema por Pery Ribeiro, foi a vez do grupo Tamba Trio fazer a gravação dessa música. Pela gravadora Philips (ao lado). No começo da carreira, João brigou com muita gente. Até com Geraldo Vandré. Mas o tempo passou e a amizade entre os dois voltou. O primeiro LP de Vandré tem a marca bossa-novista. Não é mesmo, maestro Júlio Medaglia?
Dizem que a Bossa Nova morreu, eu também acho. No Brasil.
A cantora inglesa Amy Winehouse (1983-2011) gravou Bossa Nova, claro! Você não sabia, meu amigo?
Winehouse gravou Garota de Ipanema, pouco antes de partir não sei pra onde. Confira:
O dia 10 de junho é o Dia de Camões, poeta português que legou ao mundo a obra-prima Os Lusíadas. A respeito dele e do livro andei proseando na Biblioteca Mário de Andrade, cá em Sampa. Foi sábado 3/6. Particularmente, gostei. Contei isso ao amigo Geraldo, que perguntou porque eu não lhe avisei dessa palestra. É isso. Quem não compareceu à Biblioteca Mário de Andrade, pra me ver e ouvir falar sobre o legado português para o Brasil, e para o mundo, ainda é hora de ver e ouvir o que lá falei. Clique:
O carioca Dicró, de batismo Carlos Roberto de Oliveira (1946-2012), também deitou e rolou cantando em duplo sentido. Olha a Rima e Cama de Pau Duro. Como muitos, também brincou com a sogra. Humor puro e cheio de graça. Na batida do samba estilizado tem o grupo Só pra Contrariar, que interpreta A Barata, de Alexandre Pires, gravado no seu primeiro LP (1993), que vendeu cerca de meio milhão de cópias. Putaria só, só. Nessa linha é também o sertanojo A Garagem da Vizinha, da dupla Sandro e Gustavo, que diz: “Lá na rua onde eu moro/ Conheci uma vizinha/ Separada do marido/ E tá morando sozinha/ Além dela ser bonita/ É um poço de bondade/ Vendo meu carro na chuva/ Ofereceu sua garagem…”. E, claro, não dá pra esquecer das baixarias do grupo É o Tchan! Além das letras picantes, É o Tchan marcou pela coreografia extremamente sensual. Era o caso de até fazer crianças saírem da frente dos aparelhos de TV. Coisa de "boquinha na garrafa" e tal. O cantor Alípio Martins, paraense, também marcou época interpretando coisas de duplo sentido, falando de cornos e gays. Rolando Boldrin tem uma parceria muito bonita com o bom baiano Tom Zé, A Moda do Fim do Mundo. Nessa moda, os dois falam da necessidade de recomeçar o mundo como tudo começou: um macho transando com uma fêmea. Pois, pois.
O bem humorado cantor de forró Manhoso saiu da miséria depois de gravar várias músicas de fundo malicioso, entre as quais Umbu Azedo e O Tico-Tico. Na primeira, ele canta: "Menina eu nunca vi umbu ser tão azedo/ Menina eu nunca vi umbu ser tão azedo/ Zezinho eu nunca vi umbu ser tão azedo/ porque eu nunca vi umbu ser tão azedo…" . E na segunda: "Tico mia na sala, Tico mia no chão/ Tico mia na cozinha, encostado no fogão/ Tico mia no tapete, Tico mia no sofá/ Tico mia na cama, toda hora, sem parar…". O apelido Manhoso, nome verdadeiro de Edson Correia da Fonseca (1935-2023), foi dado pelo apresentador de programa de TV Flávio Cavalcanti (1923-1986).
No Brasil, inúmeras cidades litorâneas estão sumindo. O motivo é que as águas dos mares estão subindo de nível. E à medida que o nível das águas sobe, aumenta o calor que só no ano de 2022 matou pelo menos 15 mil pessoas na Europa. Não são números exatos, mas são assustadores.
Sabemos que este nosso planetinha tão zoado é dividido em seis continentes: América, África, Ásia, Europa, Oceania e Antártida.
O continente africano é formado por 54 países. O maior de todos em número de países. E o maior, territorialmente falando, é o asiático.
O continente africano tem 31 milhões de km².
O continente asiático é formado por 51 países.
Aprendi na escola que nesse nosso planetinha existem 7 mares.
Depois, os mares se transformaram em oceanos.
Disseram-me, porém, que existe apenas um oceano e que o número total de mares não são sete, beira a casa dos 100.
Meio complicado tudo isso, não é mesmo?
Levando a memória ao passado, resgato a informação de que o Atlântico é o maior dentre todos os oceanos. Vejam só!
Dizem-me que o maior de todos os oceanos não é mais o Atlântico, é o Pacífico.
E o Índico, hein?
Aprendi que foi pelo oceano Índico que Vasco da Gama navegou rumo às Índias e lá chegou, precisamente em Calicute, no ano de 1498. Mas essa é outra história...
Chego a conclusão, diante disso, que continuo totalmente leigo na questão mares/oceanos.
Você sabe meu amigo, minha amiga, qual a diferença entre mares e oceanos?
A craque Anna da Hora olha-me nos olhos fixamente e diz professoralmente: "Assis, a diferença entre oceano e mar é que os mares são cercados por continentes e os oceanos cercam os continentes", acrescentando rindo que tirou essa conclusão de um site que agora não me recordo.
Quanto ao total de oceanos, ainda Anninha bradando informação na minha cara: "Há cinco bacias oceânicas no mundo: Ártico, Atlântico, Índico, Pacífico e
Antártico. Entretanto, existe somente um Oceano Global, que cobre 71%
da superfície do planeta Terra".
É muito pra minha cabeça!
Como se não bastasse, Anna da Hora exibe uma relação com os 10 mares localizados neste nosso planetinha prestes a explodir:
Mar de Coral - 4.183.510 km² (localizado na Oceânia, águas do Oceano Pacífico).
Mar do Sul da China - 3.596.390 km² (localizado no sudeste asiático, águas do Oceano Pacífico).
Mar do Caribe - 2.834.290 km² (localizado na América Central, águas do Oceano Atlântico).
Mar de Bering - 2.519.580 km² (localizado entre o Alasca e a Sibéria, águas do Oceano Pacífico).
Mar Mediterrâneo - 2.469.100 km² (localizado entre a Europa meridional, Ásia ocidental e África setentrional, águas do Oceano Atlântico).
Mar de Okhotsk - 1.625.190 km² (localizado no nordeste da Ásia, nas águas do Oceano Pacífico).
Golfo do México - 1.531.810 km² (localizado na América Central e América do Norte, águas do Oceano Atlântico).
Mar da Noruega - 1.425.280 km² (localizado a noroeste da Noruega entre o Mar do Norte e o Mar da Groelândia, nas águas do Oceano Atlântico).
Mar da Groelândia - 1.157.850 km² (localizado entre a Groelândia e Islândia, águas do Oceano Ártico).
Mar do Japão - 1.008.260 km² (localizado entre o Japão, oeste da Península Coreana e o norte da Rússia, águas do Oceano Pacífico).
Por não ter cá o que fazer, andei compondo um poema a que intitulei O Menino e o Mar na Trilha do Etéreo.
O referido poema traz um personagem criança, sem nome. Mas garanto que é uma figurinha e tanto! Ouçam:
Entrei na casa do botão Zilidoro, um poeta nato, dei bom dia e ele, também.
O meu bom dia e o bom dia do Zilidoro, provocaram em uníssono, um bom dia de todos e para todos presentes: Zé, Mané, Biu, Barrica, Lampa, Jão e Zoião, além de Zilidoro.
Zoião foi o primeiro a falar, coisa rara. Ele a mim: "Seu Assis, disseram que o Zilidoro tem um parente de nome Riachão, é verdade?".
Eu disse que a melhor resposta a essa pergunta seria do próprio Zilidoro. E Zili: "É verdade. Riachão é um primo a quem respeito muito. Grande poeta!".
Barrica, atento, fez uma revelação ao grupo: "Seu Assis é um cara que parece viver o tempo todo na moita, na dele...".
Mané, um tanto enigmático: "Se bem entendo o que você fala, não estou entendendo o conteúdo".
Achei graça, vendo e ouvindo Mané tão quieto dizer o que disse. Antes que eu dissesse alguma coisa mais a respeito, o irmão de Barrica, Biu levantou a mão pedindo pra falar. E falou: "Vocês estão fazendo um arrodeio danado. E acho que já sei onde vocês querem chegar. Outro dia eu li um poema do seu Assis no qual faz referência à existência de Riachão. E confesso que gostei do Riachão! E olha que não sou poeta nem nada".
Jão, mexendo na internet, por acaso, falou eufórico, quase gritando: "O blog do seu Assis já passa de um milhão e meio de acessos. Poxa! É muita gente!". E, ainda eufórico, achou isso aqui: "Dizem que sou poeta/ Mas poeta eu não sou, não/ Poeta é Zilidoro/ Poeta é Riachão/ Que do nada fazem versos/ E se brincar até canção...".
Zilidoro deu uma risada e revelou: "Eu já vi isso e gostei. A próxima estrofe começa assim: Zilidoro e Riachão/ São da lira popular/ Fazem versos de cordel/ Pra o povo apreciar/ São versos bem bolados/ Que dão pra rir, dão pra chorar...".
Poxa vida! Vocês me surpreendem o tempo todo, eu disse.
Lampa, lá do seu canto, levantou uma sobrancelha e atrevido murmurou algo ininteligível. Baixou a cabeça e, como sempre, continuou cutucando as unhas com seu inseparável punhalzinho.
"Seu Assis, mudando de pau pra cacete: o bicho tá pegando em Brasília. Na Câmara, no Senado, no STF, no STJ, no palácio do governo... Uma loucura! Os povos originários do nosso país estão correndo risco de perder suas terras. O que o Sr. acha disso?", perguntou de sopetão o alagoano Zé.
Sem me fazer de rogado, fui dizendo que é um absurdo tudo isso. A Câmara e o Senado estão com maioria de direita. A situação é minoria. Não acho impossível os indígenas perderem mais essa parada. O bolsonaro afunhenhou tudo e todos. Vai ser duro o Brasil voltar à normalidade. Alimentemos a esperança, que não deve morrer nunca!
Jão, botão pouco afeito às coisas da Internet, disse que ouviu uma música minha falando sobre coisas absurdas no sentido lato termo. Disse que tinha por título algo como não-sei-que-lá Erudito. Eu ri. E a título de explicação, acrescentei: Xote Erudito é o título dessa música feita por Jorge Ribbas e eu. Essa aqui, ó:
O artista plástico francês Gauguin foi elogiado no seu tempo e nos tempos atuais, deselogiado.
Velhos tempos, novos tempos: é assim mesmo, fazer o quê?
Em abril, dia 24, foi inaugurada no Museu de Arte de São Paulo, MASP, a exposição Paul Gauguin: O Outro e Eu, que pode ser visitada de quarta a domingo no período das 10h às 18h. É de graça às terças.
Gauguin deixou uma obra muito bonita aos olhos dos amantes das artes. Retratou o cotidiano que viveu fora da França, em países como o Taiti. Dos seus pincéis saíram figuras femininas nuas e seminuas. E masculinas, também. Isso vem chocando o público que o visita ou revisita. É um comportamento próprio de quem acha erro em tudo. A propósito, na exposição do MASP, há pelo menos um quadro proibido de ser fotografado.
Censura na parada!
O artista francês corre risco de ter a sua obra "cancelada", pelo público aqui referido.
Diante disso, de olhares enviesados que descobrem pelo em casca de ovo, sugiro que se ilustrem melhor para entender a arte pictórica de autores em qualquer tempo e lugar.
Não foi fácil a vida de Gauguin.
"Na câmara de eco da internet, com seu gosto por rótulos genéricos,
Gauguin agora é denunciado como um mulherengo predador, um agente do
colonialismo e até um agressor sexual cuja arte deveria ser ‘cancelada’.
Essa imagem está se estabelecendo no pensamento popular crítico, apesar
dos recentes esforços de acadêmicos que desafiam esse alinhamento de
Gauguin a um conjunto de valores patriarcais que, agora sabemos, ele
denunciou abertamente", disse Norma Broude, autora do livro Gauguin’s Challenge, em email a Folha de S.Paulo. E acrescentou:
"As ideias radicais de sua avó Flora Tristan, defendendo o empoderamento das mulheres, eram
ideias que Gauguin conhecia, compartilhava e em que se baseava, tanto em
seus escritos quanto em sua arte".
A propósito até o final deste mês de junho, deverá chegar as nossas mãos o livro Histórias de Esquina, gerado pelo cartunista paulista Fausto Bergocce e este paraibano, que sou eu. No livro escrevi:
Paul Gauguin (1848-1903) e Vincent Van Gogh (1853-1890) A vida do pintor francês Paul Gauguin foi muito atribulada, cheia de altos e baixos. No começo teve a pintura como passatempo, enquanto ganhava a vida no mercado financeiro. Ao perder o emprego, passou a dedicar-se às artes plásticas. Viajou bastante. Era filho de um jornalista e de uma escritora feminista. Corriam os anos de 1880. Conheceu o holandês Van Gogh em Paris no ano de 1888. Chegaram a dividir ateliê em Arles. Desavenças entre os dois terminou em briga e em afastamento. Numa de suas viagens, Gauguin foi acusado e preso por desacato a militares. Morreu doente e preso numa cadeia de Atuona, Oceania. Van Gogh, antes de dar um tiro no próprio peito, pode-se dizer que morreu de depressão. Tinha mania de perseguição e isso fez com que cortasse um pedaço da orelha e o mandasse de presente num envelope para Gauguin. Deixou centenas de pinturas e desenhos, mas apenas um quadro conseguiu vender em vida. Assim mesmo através do irmão mais novo Theo,que morreria também poucos meses depois.Um quadro de Van Gogh, Cena de Rua em Montmartre, leiloado em 2021 pela Sotheby’s alcançou a cifra de 14 milhões de euros. Morreu pobre, aos 37 anos de idade.
A soteropolitana Astrud Gilberto, de batismo Astrud Evangelina Weinert despediu-se do mundo ontem 5 na Filadélfia, EUA, onde morava desde 1959. Sofria do coração. Deixou dois filhos, um deles, Marcelo, fruto da união com o cantor e compositor João Gilberto. Astrud e João ficaram casados durante cinco anos, de 59 a 64.
A carreira artística de Astrud começou nos Estados Unidos em 1963. Mais precisamente no dia 18 de março, dias antes de ser desencadeado o golpe que levou ao poder no Brasil os generais. Astrud foi a primeira cantora a gravar o samba balanceado chamado de bossa nova, Garota de Ipanema. Essa música, gravada em inglês, levou às paradas o LP Getz/Gilberto. Quer dizer, a soteropolitana Astrud morreu no ano que completou seis décadas de sua estreia em disco.
Muitos compositores brasileiros tiveram obras gravadas por ela. Entre essas Aruanda de Geraldo Vandré e Carlos Lyra; e Beach Samba, de Pery Ribeiro e Geraldo Cunha. Curiosidade: Pery foi o primeiro cantor a gravar Garota de Ipanema, num disco de 78rpm.
Detalhe lamentável: o nome de Astrud foi omitido do LP Getz/Gilberto e pela gravação ela recebeu míseros 120 dólares e menos de um ano depois o maridão cantor, papa da Bossa, a trocaria por uma das irmãs do Chico, Miúcha, com as mãos abanando e uma criança para criar. Astrud Gilberto morreu no fim da noite de segunda-feira. Ouça Astrud cantando Aruanda:
VANDRÉ
Geraldo Vandré compôs duas músicas com Carlos Lyra, Aruanda e Quem Quiser Encontrar o Amor. Aruanda é a primeira faixa do lado B do LP The Best of Astrud Gilberto (nas minhas mãos, foto acima). Ontem 5 estivemos numa prosa, cá em casa. Papo bom, solto, amigo. Minha filha Clarissa registrou o momento (ao lado).
Indignação, Coragem, Esperança. Esse é o triplé mágico e necessário de identificação do cidadão nacional. Faz parte do troféu Audálio Dantas, de reconhecimento dos profissionais do jornalismo. Pela 4ª vez o troféu Audálio Dantas é entregue a jornalistas que têm marcado a vida brasileira. Os agraciados deste ano são Rene Silva, Juliana Dal Piva, Bruno Paes Manso, Leonardo Sakamoto, Gregório Duvivier e Valmir Salaro. Desses nomes aqui citados, lembro que trabalhei na folha com Valmir Salaro. Grande Valmir! Eu e Valmir Salaro fazíamos parte de uma equipe de profissionais que cobriam, principalmente, o setor policial da já referida Folha. Muitas histórias. O alagoano Audálio Dantas foi um querido amigo. Foi não, é. Os grandes não morrem, desaparecem derrepentemente. Jornalismo é fundamental para a manutenção da democracia de qualquer país. O troféu Audálio Dantas nasceu por iniciativa do querido Serjão, da OBORÉ, que baseou-se em ideia como sempre original da também querida Laerte. Com Laerte tive também o privilégio de trabalhar, na Folha. Viva a Liberdade! Todos nós estamos convidados a comparecer logo mais, às 19h, na Câmara Municipal de São Paulo onde o troféu será entregue aos colegas acima citados. Aí está o convite:
Não é de hoje, infelizmente, que nós brasileiros estamos perdidos, afunhenhados, abandonados pelo poder público.
Pois é, que estamos lascados, ao Deus dará.
O desemprego come solto na buraqueira.
A educação foi arrasada, em todos os sentidos. Professor, e tenho uma filha professora, come o pão que o diabo faz nos fornos do Inferno. Trabalha e trabalha por uma merrequinha ao fim do mês. Como se não bastasse, vivemos um tempo em que aluno xinga, bate e até mata professor e professora.
A área da saúde, por sua vez, está inteiramente devastada. As filas de doentes portadores de câncer e de outros males dobram esquinas e quarteirões. Uma lástima!
Sábado 3 o diário Folha de São Paulo estampou chamada na 1a. página sobre o abandono da saúde no Brasil. Título: SP descumpre lei para iniciar tratamento de câncer em até 60 dias.
A matéria, de página inteira, tem a assinatura do repórter Fábio Pescarini.
Ao mesmo tempo que nos dói ler a reportagem fica claro o abandono das pessoas que precisam de atendimento do SUS, Sistema Único de Saúde.
Foi legal a recepção que tive sábado 3 no auditório da Biblioteca Mário de Andrade. Fazia tempo que eu não palestrava. Abordei, na Mário de Andrade, o tema Camões e a herança cultural que Portugal nos legou. Falei, falei e falei. O radialista Carlos Silvio, sempre prestativo, registrou o evento. Acompanhem:
CAMÕES
No decorrer do papo, contei que fiz a adaptação da obra-prima Os Lusíadas. Esse livro foi publicado em março de 1572. No próximo ano boa parte do mundo sensível e ilustrado deverá comemorar os 500 anos de nascimento de Luís Vaz de Camões. Leia:
Ney Matogrosso canta com elegância músicas como Freguês da Meia-Noite, de Criolo (Kleber Cavalcante Gomes) e Folia no Matagal, de Eduardo Dusek. A primeira fala de um caso num restaurante francês localizado no bairro paulistano do Arouche. É simples, bonita. A segunda trata de, digamos, um enorme e curioso bacanal em que os personagens são pés de coqueiro e outras plantas e árvores. Começa assim: "O mar passa saborosamente a língua na areia/ Que bem debochada, cínica que é/ Permite deleitada esses abusos do mar/ Por trás de uma folha de palmeira/ A lua poderosa, mulher muito fogosa/ Vem nua, vem nua/ Sacudindo e brilhando inteira…". O primeiro grande sucesso de Ney foi Homem com H, do já lembrado Antônio Barros. Chico Buarque sempre foi de elegância irretocável como Milton, Djavan, Belchior e seu parceiro mais frequente, o piauiense Jorge Mello. É de Jorge, por exemplo, Eu Falei pra Você, de 1977. Um trecho: "Tô no ôco do mundo, moro em Copacabana/ acredite que é como estar noutro planeta/ Se meta, se mate na pressa, no túnel/ No túnel, na pressa, se mate, e se meta./ No mar mais azul, a coisa ficou preta/ Tem carro, tem gente querendo passar:/ na rua, na praia, em todo lugar/ É cachorro-quente ao invés do almoço/ Lhe falta a vida, o banho no poço/ e a viola gemendo pra gente cantar…”. Noutra música, Observando o Lual, Jorge faz um engraçado trocadilho. Veja: “... Você já vai? Pergunto:/ E vai, por quê?/ Ela responde:/ — Vou-me já. Antes de você!”. Nordestino como Jorge Mello, o pernambucano Luís Wilson é cheio de nove-horas no tocante a duplo sentido. Exemplos se acham nos forrós Dê Lembranças à Dona França e O Grilo da Prima. No primeiro, como o segundo em parceria com Duval Brito, ele canta: “Se Você for me faça me faça um favor dê lembrança a Dona França, não vá se esquecer…/ Eu não queria que você fosse embora, mas você quer ir agora, se for dê/ Dê lembrança a Dona França não vá esquecer!!!”. No segundo forró, diz: “A minha prima parece que ficou louca/ qualquer dia levo ela pro asilo/ Com tanto bicho bonito pra se criar e ela foi inventar de criar agora um grilo/ Ela da banho no grilo, da massagem no grilo. Bota perfume no grilo e puxa na barba do grilo…”.