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sábado, 15 de março de 2025

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (172)


De todas as regiões do Brasil, estatisticamente o Nordeste é a mais sofrida. A seca chegou lá e lá ficou.

Apesar das intempéries, o Nordeste e sua gente continuam insistindo em viver. Com graça, inclusive. Os exemplos são muitos. 

Chico Anísio fez sucesso e deixou saudade e pupilos como Tom Cavalcante.

São muitos os artistas talentosos que andam por aí espantando mau olhado, mau humor e desgraças de todo tipo que nos incomodam no dia a dia. 

Quando ouço Jessier Quirino declamando acho sempre graça. Das boas. O cabra tem presença. 

Quando ouço Jessier Quirino declamando lembro do Chico Pedrosa e do velho Patativa do Assaré. 

Quando ouço Jessier Quirino declamando lembro do querido Orlando Tejo, que usou seu talento para recriar Zé Limeira e sua obra. 

Digo isso com firmeza. 

E digo mais: quando ouço Jessier automaticamente lembro de outras belas figurinhas carimbadas como Rolando Boldrin, João Cláudio Moreno e Klévisson Viana, por que não?

Pois bem, Jessier Quirino traz consigo o talento do mundo. É autor e declamador de alto nível. Nasceu na Paraíba. Tem livros e discos lançados na praça. 

Outro dia peguei Jessier de jeito e tasquei-lhe perguntas que você meu amigo, minha amiga, pode conferir lendo o que segue aí abaixo:


ASSIS ÂNGELO — Como você vê a questão da licenciosidade nos dias atuais?

JESSIER QUIRINO — Licenciosidade partindo de quem se revela um desregrado moral, vejo como algo deplorável a qualquer tempo. Já o licencioso como objeto, texto, música etc., mesmo ferindo questões de virtude, educação e tudo mais, se estiver dentro de certas regras (fugir do escatológico), modos e circunstâncias, me parece palatável e digno de risos e aplausos. Destacando que sempre carece de uma boa embalagem para ser dita, escrita e representada. 


ASSIS Vê hipocrisia em condená-la? 

JESSIER — Acho que há uma boa dose de hipocrisia sim, devido ao quão falso são o caráter e a moralidade das pessoas, principalmente aquelas supostamente mais importantes, educadas, cheias de recatos e princípios religiosos, que a condenam até mesmo na arte. Mas foi me valendo da licenciosidade verbal que sobrevivi em colégio noturno e até botei o pé na poesia e nos palcos da vida.


ASSIS Como se deu isso?

JESSIER — Eu, rapazote de 16 anos, me beneficiei e muito por fazer uso da dita imoralidade em verso e prosa. Isso para despistar uma timidez aguda em território hostil de sala de aula no turno da noite no Colégio Pio XI, em Campina Grande. Eu trabalhava durante o dia e estudava no 3º turno onde a faixa etária dos colegas era muito desigual. Isso me obrigou, a bem dizer, ser artista e abrir os braços pra não ser engolido. Por quem? Por quem fumava, bebia, raparigava,  brigava, tinha carro e inda por cima era conquistador. Os bambambãs do lugar.


ASSIS Como foi conviver com isso na cabeça? 

JESSIER — Eu, coitado, zero tiquinho de pessoa, não tinha nenhum desses predicados. Na devassidão, eu era o mindinho do pequeno polegar e no comportamento era amoitado que só carneiro que tomou bicho na capação. E assim mesmo precisava sobreviver.  Era o segundo caçula de Seu Quirino - um homem cordial, poeta, de bons modos, culto e afável – fui dando de garra da poesia fescenina de domínio público que aprendia com a molecada do bairro. E tome paródias, declamação e loas em corredor de escola e só assim consegui ser respeitado. Depois virei declamador com a “pegada” matuta, depois virei poeta.


ASSIS Frequentou cabaré?

JESSIER — Penso, talvez, que ser putanheiro é uma aptidão que se herda. Um “talento” que nunca tivemos lá em casa. Éramos quatro filhos homens. Já entrei em cabaré pra tomar cerveja e me fazer de escroto. Mas tinha lá certa vontade de ver a música e dança da noite: Apolo na bateria e Jaime no piano, no Luz-Vermelha de Cazé lá em Campina Grande.

Fui lá, subi a escadaria, fiz cera, mas ainda era cedo pra tal música ao vivo.  


ASSIS Os cabarés de hoje já não são lá essas coisas…

JESSIER — A concorrência pesada derrotou o seguimento e a decadência impera. Mas como bom roteirista que sou e prestador de atenção da experiência alheia, boto olho de tejo no assunto e ouvido na escuta. É material de pesquisa. 

Um amigo meu chegou a morar durante três anos dentro dum cabaré aqui em Itabaiana. Exímio raparigueiro, pouca grana e bom de papo, convenceu a dona a ocupar o único espaço vago da casa: um quarto de duas portas, na esquina da sala para o corredor, que tinha uma radiola engavetada na porta da frente e que cantarolava pra sala. Morou nesse quarto e conta que nos domingos de manhã debulhava feijão verde no quintal arrodeado de quenga entre fuxicos e risadas. Pode?


ASSIS Que outras lembranças você tem?

JESSIER — Poucas. Basicamente a música. O sotaque dançante dos boleros, o brilho dos azulejos do boteco e portas de pano estampado. Mas a música é realmente o que marca. Só agora dou fé do quanto havia de produção naqueles discos: arranjos bem feitos, músicos talentosos, pianos e demais instrumentos. Uma mini orquestra.

  

ASSIS — Você lembra algum poema escrachado?

JESSIER — Lembro sim, dos mais ingênuos até um retrato-falado vaginal. 


A Ingênua é uma musiquinha:


Dona Maria o seu gato deu

Vinte cinco pirocada na bunda do meu

De novo!

Dona Maria o seu gato deu

Vinte cinco pirocada na bunda do meu


Já deu tá dado

Piroca de gato, não faz mal a ninguém

Já deu tá dado

Piroca de gato, não faz mal a ninguém


O Retrato Falado Vaginal é:


A buceta é uma gruta

De cabelo arrodeado

Tem parte que é enxuta

E tem parte que é molhada

É o roçado da puta

Consolo do vagabundo

Fica a dois dedos do fundo

Mas, pra aqueles que vêm nascendo

É a porteira do mundo


ASSIS - Nos velhos cabarés sempre teve música de putaria nos mais diferentes rítmos… 


JESSIER- Músicas, além dos boleros dançantes e samba canção, eram os sambas de latada ou samba de gafieira tocados nos bares. Lembro também de Abdias dos 8 baixos cantando Minha ex-Mulher: Coiatada da mulher que já foi minha / Hoje vive tão sozinha / Perambulando na rua  / Ninguém me ama / Ninguém me quer / E como sofre minha ex-mulher


E tem ainda o clássico de João Silva, Pra Não Morrer de Tristeza:


Mulher 

Deixaste tua moradia

Pra viver de boemia

E beber nos cabarés...


Na Rádio Borborema de Campina Grande o programa Forró do Zé Lagoa, do mestre Rosil Cavalcanti, tocava o clássico de Jackson do Pandeiro Forró em Campina que cita nomes dos cabarés (e de prostitutas) da época: 


Ó linda flor, linda morena

Campina Grande, minha Borborema

Me lembro de Maria Pororoca

De Josefa Triburtina e de Carminha Vilar

Bodocongó, Alto Branco e Zé Pinheiro

Aprendi tocar pandeiro nos forrós de lá


ASSIS — Na sua formação cidadã como entrou a licenciosidade?

JESSIER — Antes de mais nada, a mulher tem que ser respeitada. Havia sim um padrão Seu Quirino de civilidade na família. Na comissão de frente: educação, honestidade e respeito, sem exageros. Tinha de tudo um pouco do que tinha no Colégio. Os temas devassos eram assuntos de rua, de conversa de calçada e dos famosos “bacuraus”, que eram encontros noturnos de conversa fiada em esquinas estratégicas no esfriar da noite. 

E assim cresci. Dizer qualquer coisa pesada e com arte, como citei no início, era uma questão circunstancial. O acessório principal viria a ser a composição declamada com segurança. O texto pronto, a personagem e o tempo. Dizer quando? A qualquer momento a depender das circunstâncias. Aí nasce o compositor. Mas, mulher tinha que ser respeitada.


ASSIS — Alguma curiosidade autoral na área da licenciosidade? 

JESSIER — Algumas histórias autorais viraram clássicas.  Ex: O Matuto Doente das Partes, que conta a cirurgia de hemorroidas e outras mais:

 

UM RAPAZINHO FODAZ   -   (publicado no livro Bandeira Nordestina Editora Bagaço)

MATUTO DOENTE DAS PARTES  -  Cirurgia de hemorroidas  ( publicado no livro Agruras da Lata d´água – Editora Bagaço)

RELEMBRANDO A CHUPADELA  -  História de Bill Clinton e Mônica Lewinsky  ( Inédito)

SE ACHAR RUIM, COITE-SE!  - Um poema fescenino, baseado no clássico poema “SE” do poeta inglês Rudyard Kipling (1865 – 1936).   (Inédito)

MANIFESTO DA FUDENE (publicado e posteriormente retirado do livro Agruras da Lata D´água)


UM RAPAZINHO FODAZ

Jessier Quirino 


De primeiro, uma revista

Era a maior das conquistas

Dum rapazinho fodaz

Amaridado com ela

Era aquela coisa bela

Sonhando de paz em paz


Ele sorria e beijava

E ela de puta ria

Era revista rameira

Flor de lodo, messalina

Biscaia, franga, dadeira

Tolerada e pistoleira

Com semblante de felina


Sem cancha pra vadiagem  

Ou pra luz de cabaré

O jeito pra o rapazinho 

Era correr pro migué


Migué de porta fechada

E a revista escancarada

Querendo se desfolhar:

Tanta coisa em coisa-fofa

Tanto fruto proibido

Maçã de Adão provar...


Tanta matinha encantada

Tanto ventre, tanta furna

E tantos lábios vulvares

Pro mundo se envaginar


Tanta peça mamalhuda

Peitudinha, bundudinha

Luz-em-cu sem pirilampo

Tanta feira de mulher...


Tanto estrabismo nos olhos

Tantas vogais pelos lábios

Tanto fêmur almofadado

Antes de ser oboé


E o rapazinho fodaz

Amativo pela vista

Namorava essa revista 

Gozando de paz em paz

De garra com os possuídos

De punho masturbativo

Era aquela liberdade 

Misturada com prisão:


Teje solto, teje preso

Teje solto, teje preso

Teje solto, teje preso

Teje solto, teje preso...


A professora chega...

– Menino?!

– Professora! 

A senhora não morre tão cedo


MATUTO DOENTE DAS PARTE 

Jessier Quirino


No tronco do ser humano

Nos finá mais derradêro

Tem uma rosquinha enfezada

Que quando tá inflamada

Incomoda o corpo inteiro


Se tossir se faz presente

Se chorar se faz também

O cabra não pode nada

Com nada se entretém

Eu lhe digo meu cumpade

Não deseje essa maldade

Pra rosca de seu ninguém


Não sei o nome da cuja

Desta cuja eu tiro o “ja”

O que resta é quase nada

Bote o “nada” na parada

Quero ver tu aguentar?!


Eu lhe digo meu cumpade

Que é grande humilhação

Um cabra do meu quilate 

Adoecido das parte

Fazer uma operação


Não suportando mais dor

O meu ato derradeiro

Foi procurar um doutor

Do “Bocá do Arenguêro”


Do Bocá do Arenguêro

Fejoêro,  Fiofó

Bufante, Frescó e Lôrto

Apito, Brote e Bozó


De Furico, Fedegoso

Piscante, Pelado e Bóga

Fosquete, Frinfra e Sedém

Zuêro, Ficha e Vintém

De Ás de Copa e de Fóba


De Oití, Ôi de Porco 

Ané de Couro e Caguêro

De Gira-Sol e Goiaba

Roseta, Rosa,  Rabada

Bôto, Zero e Mialhêro


De Nó dos Fundo e Buzéco

De Sonoro e Pregueado

Rabichol, Furo e Argola

Ané de Ouro e de Sola

Boca de Véia e Zangado


Um doutô de Aro Treze

De Peidante e Zé de Bóga

Que não aperte o danado

Nem deixe com muita folga


Um doutô piscialista

Em Bocá da Tarraqueta

Doutô de Quinca e Dentrol

Zebesquete e Carrapeta


Doutô de Rosca, Rosquinha

Tareco, Frasco e Obrom

Ceguinho, Butico e Zero

Tripa Gaitêra e Fon-Fon


Mialhêro e Mucumbuco

Buraco, Brôa e Boguêro

For Ever, Cruaca, Urna

Gritadô, Frande e Fuêro.


Cano-de-Escape e Pretinho

Rodinha, X.P.T.O. 

Zerinho, Subiadô

Tripa Oca e Fiofó.


Um doutô de Helidório

Ou de Boca de Caçapa

Que não seja inimigo

Também não seja meu chapa

Tratador de Canto Escuro

De Boréu ou de Cheiroso

De Formiróide e Alvado

De Parreco e de Manhoso


De Chambica e Cibazol

Apolonio e Fobilário

Bilé, Briôco e Roxim

Fresado, Anílha e Cagário

Vazo Preto, Zé Careta

Olho Cego e Espoleta

Fuzil, Fiôto e Fuário


Não é doutô de ovário

É doutô de Oriol

De Cá-pra-nós e  Bostoque

De Futrico e de Ilhó


De Culiseu e Caneco

Roscofe, Forno e Botão

De disco, de Farinheiro

De Jolí, Fundo e Fundão

De Quo-Vadis e Fichinha

Que não venha com gracinha 

E que que não tenha  dedão


Um doutô de Zé de Quinca

Canal 2 e Cagadô

Buzina, Vesúvio e Cego

Federá e Sim-sinhô

Fagulhêro e Zé Zoada

Rosquete, Fim de Regada...

...Eu só queria um doutor


O doutô se preparou

Parecia Galileu

Aprumou um telescópio

Quem viu estrela fui eu

Ele disse arribe as perna

- Tenha calma, sonho meu!

A partir daquela hora

Perante Nossa Senhora

Não sei o que sucedeu


C`as força da humildade

Já me sinto mais milhó

Me desejo um anus novo 

Cheio de verso e forró 

Pros cumpade, com franqueza

Desejo grande riqueza:

Saúde no fiofó


RELEMBRANDO A CHUPADELA                   

Jessier Quirino

 ( Inspirado no mote de Alan Sales )


Foi na sala oval da Casa Branca

Que Biu Clinton hasteou seu berimbau

Chupistério maior não teve igual

E o mondrongo Lewinsky quase arranca

Presidente saiu botando banca

Pau-babado, machudo e comilão

A bruaca tacou-lhe uma versão

Que foi vítima daquele pau viril

O chupão que a Lewinsky deu em Biu

Custou caro para o Clinton garanhão


Ao desencaralhar seus possuídos

Da garganta daquela estagiária

Carimbou uma nódoa ordinária

E orgasmática no colo do vestido

Uma prova cabal de ter havido

Boceteio, ou qualquer xumbregação

E a bruaca fez a reclamação

Com a impressão genital do seu xibiu

O chupão que a Lewinsky deu em Biu

Custou caro para o Clinton garanhão


Viciado em rolhar uma perseguida

Pela cuja se achava perseguido

Biu-femeeiro, broxado e deprimido

Prometeu nunca mais foder na vida

Toda livre-fodança foi banida

Das alcovas e salas da mansão

E o Pentágono fez uma preleção:

“Putaria que é bom nem mais um piu”

O chupão que a Lewinsky deu em Biu

Custou caro para o Clinton garanhão


Nesta casa tão cheia de brancura

Já se viu muita escolhambatriz

A Lewinsky, fregona e meretriz

Por ali puteou e quis ser pura

Fuxicou pruma amiga de aventura

Que entregou à justiça a gravação

Foi fuxico no cu desta nação

E a nação dando corda ao mulheril

O chupão que a Lewinsky deu em Biu

Custou caro para o Clinton garanhão.


Êta feladaputa de azar

É o coitado do dito presidente

Bolofôtica, rameira e indecente

Foi a tipa que o leso quis champrar

Paula Jones foi outra que a chorar

Quis “pensão de priquito” de um milhão

Se disser que comeu vai pra prisão

Se mentir, toma dentro pois mentiu

O chupão que a Lewinsky deu em Biu

Custou caro para o Clinton garanhão


Ô país invocado é os Isteites

Machear ninguém pode machear

Se o sujeito quiser gavionar

Tem que vir pro Brasil mamãe-de-leite

Puteagem-política tem aceite

Pelas vias-urinárias da razão

Vaginosa ou macheira de plantão

Foi escrota a justiça faz psiu!

O chupão que Lewinsky deu em Biu

Custou caro para o Clinton garanhão.


MANIFESTO DA FUDENE

Fudedeiras Desenvolvendo o Nordeste

Jessier Quirino


Meus amigos fudedores

Gigolôs e cachaceiros

Ilustres raparigueiros

E todos da região!


Se a FUDENE não fudesse

Não fosse mulher bolida

Se não quengasse na vida

Não tava na eleição

Disputou com puta a puta

Mas trouxe no fim da briga

Um coral de rapariga

Pra cima do caminhão


Trouxe Zefa  Pragatão

Trouxe Priquito de Frande

Teinha do Obreiro Baixo

E com licença da palavra

Trouxe Roquete Cuzão


Roquete é feito feijão

Quando esquenta dá o bicho

Mas andará no capricho

No rumo da eleição


Reparem bem o estado

Dessa nossa região:

Do Estreito da Galheira

Do Beco do Pinguelão

Lá do Buraco da Velha

Do Pau Torto e Suvacão


Da Rua do Arrombado

Lá da Taiáda da Jega

Esquina do Lasca e Trinca

Suvaco de Cururú

Atolado da Frieira

Rua da Beira Seca

E do Beco do Tejú

                  

Não queiram ver o estado

Do Apertado da Hora

Da Pinguela do Tauá

Do Beco do Quebra Pote

Da Rua do Quixelau

Rua do Grude e da Merda

Escorrega Lá Vai Um

E Beco do Eita Pau

 

Estão levando na zona

A nossa zona sofrida

Zonaram da nossa zona

Nunca nos deram carona

No trem que sobe na vida


Mas esta bacafuzada

Tá com seus dias contados

Quem ganha a vida fudendo

Levando e sendo enganado

De tanto saber gemer

Quer “tanto assim” pra fuder

Prefeitos e Deputados


Vote em nossa bandeira

De Norte Sul Leste Oeste

Vamos votar na FUDENE

A redenção verdadeira

Que são essas Fudedeiras

Desenvolvendo o Nordeste


Finalizo estas palavras

Clamando de braço aberto

Aos companheiros de luta

Que vamos votar nas putas

Pois nos filhos não deu certo


quarta-feira, 12 de março de 2025

EU E MEUS BOTÕES (79)

"Pois é, pessoal. Essa história é terrível e aconteceu na nossa terra, interior da Bahia. Muita gente morreu à bala, à facada, a tiro de canhão e de tudo mais. Até de doença muita gente morre...".

Ooopa! Puxa vida, estou gostando. Continue, continue. 

"Cheguei há pouco, tomei água que me ofereceram e, na verdade, eu pretendia esperá-lo", fala em tom de justificativa a historiadora Flor Maria. A essa altura, todos os botões estão de pé. Lampa pede a palavra:

"Seu Assis, a gente não aguentou e passou a fazer pergunta à dona Flor. Biu e Barrica queriam saber de Carnaval e Quaresma. Eu, bom, queria saber era da história dos Canudos que teve um cearense como herói".

Enquanto puxou um tamborete pra eu sentar, a historiadora toma pé da guerra ocorrida no interior da Bahia e vai aos poucos prendendo a atenção de todos. 

"Atenção Lampa e todos aqui: o herói referido tem por nome Antônio Vicente Mendes Maciel , o Conselheiro. A história começa lá atrás, quando o nosso herói cai na estrada em nome de Deus. Por cada lugar que passa, vai ele ganhando adeptos aos milhares. Sua romaria dura mais de 20 anos até que chega ao interior da Bahia e lá funda o que passou a se chamar Arraial de Canudos".

Ouve-se em uníssono a expressão "Puxaaa!".

Zoião, quieto até então, pergunta: "Há pouco a senhora disse que essa história foi um horror, uma coisa horrorosa, que findou com muita gente degolada. Quando essa história se passou?".

Antes de responder, Flor tem a atenção chamada por Zé e Mané: "Quantas pessoas morreram nessa guerra, dona professora?".

Flor Maria ri e logo segue dizendo que a guerra de Canudos durou menos de um ano e ao fim, conta lembrando leitura de Os Sertões, "Os últimos a caírem foram um homem, um velho e uma criança".

Zilidoro, que não perdia uma palavra, aproveitou pra perguntar porque ocorreu tamanha carnificina. 

"Pois é, tudo que o Conselheiro queria pra si e pra todos que o seguiam era paz; e chão pra morar e terra pra morrer. Era só isso que queriam, mas a elite e poderosos da época tinham-no como inimigo feroz que se armaram até aos dentes para impor de volta a monarquia. E aí já viu, né?".

Quietos estavam e quietos ficaram Olavim, Fuinha e Pitoco. 

"Bom,  pessoal. É isso aí!", foi anunciando o fim do papo com os botões entusiasmados e querendo saber mais e mais. 

Barrica levanta o dedo, perguntando: "Esse cara Conselheiro foi um cara arretado, destemido, solidário. Puxa vida! Nem sei o quê perguntar".

Mané acode Barrica e pergunta: "Dona Flor, quando nasceu esse Conselheiro?".

"O Conselheiro nasceu no dia 13 de março de 1830. Satisfeitos?".

In-te-res-san-tís-si-mo. Gostei, Flor Maria. E vocês, o que acharam?

Ao mesmo tempo que batiam palmas, diziam "Ótimo! Ótimo!".





sábado, 8 de março de 2025

SOMOS ALÉM DO QUE PENSAMOS


Perguntas nos endoidam desde sempre. Aliás, não são as perguntas. Talvez seja uma só: de onde viemos...?

A vida, nossa, é bonita e bela e quase sempre nela nos perdemos. 

Bom, no tema esse aqui dá para acrescentar, ainda de modo interrogativo: se viemos sabe-se lá de onde, pra onde vamos?

O Freud passou o tempo que teve tentando explicar essa história...

Essa história tem a ver com tudo referente a seres vivos. São milhares e milhares, na terra, no céu e no mar.

Darwin, Charles Darwin, passou todo o tempo da sua vida a investigar as nossas origens.

Ninguém, nesse campo da história, chegou tão longe quanto ele a nos identificar a relação com todos os viventes desde tempos imemoriais. 

Richard Dawkins, biólogo professor da Universidade de Oxford, foi longe também como Darwin. 

Meus amigos, minhas amigas, ler Richard Dawkins é de importância fundamental para entendermos quem somos. O cara é grandão,  sabe de tudo o que diz com a grandeza do conhecimento histórico. Tá lá ele dizendo tudo isso e muito mais no livro O Maior Espetáculo da Terra, no qual conta coisas inimagináveis para nós comuns mortais.

Richard, cientista reconhecido mundo afora, é declaradamente seguidor do autor do livro A Origem das Espécies. 

LICENCIOSIDADE NA CULTURA POPULAR (171)

O Nordeste brasileiro é um celeiro de cidadãos e cidadãs inspirados e fortes, como certamente diria o impagável fluminense Euclides da Cunha (1866-1909).
Euclides, que tombou à bala ao tentar matar o amante de sua mulher, foi jornalista e escritor de letras brilhante que nos legou a obra prima Os Sertões, que conta magistralmente a história da Guerra de Canudos. 
Com certeza Euclides passou a vida sem pular cerca, deixando porém à mingua a mulher Anna (1872-1951).
Bom, mas não é de Euclides e sua obra que quero aqui falar. 
Os nordestinos, como eu ia dizendo, são inspirados e fortes como o próprio Nordeste. 
No começo do século 19 o Rio Grande do Norte gerou para o mundo Nisia Floresta, a primeira brasileira a brigar por direitos iguais entre homens e mulheres. Já falei disso e dela.
Depois de Nísia, o mesmo Rio Grande do Norte legou ao Brasil Irene Dias Cavalcanti.
Irene foi a primeira poeta nordestina a abordar o erotismo como matéria-prima de grande valor. Nasceu em 1927.
Em 1946, no Ceará, nasceu Joyce Cavalcante. 
Não demorou e Joyce logo mostrou a que veio, exibindo com galhardia o seu talento. Tem uma dúzia de romances e outras criações no campo da literatura. É premiada no Brasil e na França. 
Um dos seus livros marcantes é O Cão Chupando Manga, de 2001. Romance. A história se passa na capital paulista. Um restaurante de nível sofisticado é o lugar onde quase tudo acontece. O garçom, Zezinho, é o cão em pessoa e é também o personagem que inspira o título do livro. Tem paixão, sexo, essas coisas.
De prender a atenção de quem gosta do que é bom é também o provocante Inimigas Íntimas. 
Em Inimigas Íntimas Joyce põe na roda um sujeito prepotente, rico, que vive com quatro mulheres e nelas manda como se nada fossem. É um pega pra capar e mais não digo. 
Joyce é uma brasileira de sensibilidade agudíssima. Cheia de graça e vigor. Não há como não gostar dela. Provocantemente responde a tudo que lhe perguntam. O cabra que duvidar recomendo que leia e espalhe por aí a entrevista que fiz com ela. Esta:

ASSIS ÂNGELO — O sexo se acha na poesia, no romance, na pintura, no cinema, em todas as manifestações artísticas. Mas a hipocrisia não permite que se fale abertamente a respeito desse assunto. 

JOYCE CAVALCCANTE — A hipocrisia é o pilar onde se escoram todas as religiões, como também as demais instituições de poder.  É por essa estratégia que a religião vira política e ninguém se apercebe até ter sido escravizado. Amordaçado.


ASSIS — Joyce, que importância tem o sexo nas artes, especialmente na literatura?

JOYCE — É de uma importância tão grande e abrangente que fica difícil imaginar qualquer expressão artística que não tenha sido alimentada pela energia vital do segundo Chakra, SVADISTHIANA. De cor laranja é o Chakra que gerencia a sexualidade e a criatividade, dois conceitos inseparáveis quando se trata da reverenciar a vida fazendo literatura.


ASSIS — Você teve problema ao abordar esse assunto no começo de sua vida como mulher e profissional da literatura?

JOYCE — Não, nunca tive esse tipo de inibição. Principalmente porque a minha literatura - enquanto oscila entre o sagrado e o profano - se baseia, acima de tudo, na vida, que não pode nunca se dissociar do sexo. Porque o sexo é o ninho de toda manifestação de vida que possa existir. É o sopro primordial. Sem ele não haveria existência. Seríamos todos uns não nascidos.


ASSIS — É mais frequente o sexo na literatura masculina do que na feminina, por quê?

JOYCE — Pelo que já li nessa vida, julgo que acontece uma total equivalência entre ambos os campos sexuais ao produzir suas respectivas literaturas. Existe sim diferença de abordagem, mas não na representatividade numérica. Acho que porque no campo do erotismo é preciso que as parcerias sejam compostas e trabalhem em sinergia, senão qual é a graça? 


ASSIS — Eu estudei em colégio de padres e tive dificuldade para aprender e me divertir com livros cujas histórias tratavam de sexo. Henri Miller, por exemplo, eu li às escondidas. E você? 

JOYCE — Eu também li muito às escondidas, na minha adolescência. É saboroso, demais. 

Meu pai tinha uma enorme biblioteca e muito organizada. Ler era o melhor passatempo na minha casa, porém tinha um severo controle etário, e alguns livros traziam o carimbo: “Impróprio para senhoritas”, nos avisando explicitamente que não era para chegar nem perto daquelas obras. No entanto, havia os livros religiosos os quais éramos incentivadas a ler. Um deles era “A Vida de Santa Terezinha”, que trazia uma sobrecapa em papel brilhante e colorida, ilustrada com a figura de uma linda moça coroada com um diadema de rosas. Enquanto minha mãe pensava que sua filhinha estava virando santa, eu utilizava essa sobrecapa para encobrir a capa de couro vermelho do “Crime do Padre Amaro”, de Eça de Queiroz; “O Vermelho e o Negro, de Stendhal”; “Dona Flor e seus dois Maridos”, de “Jorge Amado”; “O Romance de Tereza Bernard”, de Madame Leandro Dupré” e inúmeras outras maravilhas. 


ASSIS — Todos os grandes escritores brasileiros, incluindo Olavo Bilac e Guimarães Rosa, falaram com naturalidade sobre a relação mulher/homem e tal. Autores estrangeiros também. Os grandões, desde sempre, abordaram essa temática. Aretino, Sade, Baudelaire, Focault e tal e tantos. O que você poderia dizer de Gregório de Mattos e Drummond? 

JOYCE — Todos esses eu fui ler mais tarde e não me emocionaram tanto quanto os romances por mim citados acima. Mas Castro Alves sim, me emocionou. Não obrigatoriamente no épico “Navio Negreiros”, mas nas poesias de “Espumas Flutuantes”. Estudei toda sua obra quando estava no cursinho pré-vestibular. Estava cotado para cair na prova de português do vestibular. Não caiu, mas eu me apaixonei pelo poeta ao ponto de me sentir uma de suas musas. Fiquei fascinada por seus eróticos sonetos de amor, tão exagerados, tão intensos que, muito depois, encontrei nas letras das músicas de Cazuza um quê de Castro Alves.  

Carlos Drumond, Guimarães Rosa e Baudelaire, são mestres.  

E, para não deixar no esquecimento as mulheres, devo citar a melhor de todas: Anaïs Nin. Por imposição da justiça, entre outras a brasileiras: Júlia Lopes de Almeida. 

Porém, não se assuste. Não abrirei essa caixa de Pandora, senão seria inaugurada uma noite sem fim.


ASSIS — A sua obra é pontilhada de erotismo. Fale mais um pouco a respeito disso.

JOYCE — Aí vai. Divirta-se:


PARA TE FALAR DOS MEUS SEIOS


Parceiro,

Eu te contaria toda a história dos meus seios, te falaria deles com menos embaraço, se por acaso tivesse tua mão enganchada na minha complementando minha coragem. (Não ache que é tão fácil ou tão indolor falar assim.)

Derrama com calma um olhar guloso pelo meu decote adentro, mas por favor, não me olhe depois como se pudesse ler meus pensamentos.

Gostaria também muito, nem que fosse por um pequeno segundo, de poder perceber minha imagem refletida na tua íris como se eu fizesse parte de ti. Ao mesmo tempo, ver tua imagem entrando pelos meus olhos, ou seja, eu em ti e tu em mim, numa alucinante projeção infinita.

(Deixa eu falar, nem que pareça tola. Deixa eu falar em paz de minhas vontades e expectativas sem a mínima disciplina. Sem censura largar minha cabeça à toa. Serão os seios o elemento básico de minha anatomia que me torna feminina e nos diferencia?)

Toque-me. Sinta como pulsa rápido meu coração.

Por cima do meu coração estão duas construções de minha geografia que brotaram com a única intenção de te provocar, principalmente quando uso certa blusa preta sustentada apenas por um cadarço. Daí, faço uso de tua imaginação e penso, que se puxas o laço, tudo vai ficar à mostra. E eu serei nada mais do que uma posta de mulher à tua disposição. (Vai ver que neles está nosso traço de união. Um traço atávico, pois não foi de algum seio que retiramos nossa primeira alimentação?)

Vá além da fantasia e me desfrute. Você me quer e eu te preciso.

Se você aqui não concordar, te demonstrarei em detalhes meu propósito, Me despojarei de qualquer roupa, coisa como jogar fora a embalagem que envolve a prenda para libertar a alegria de quem a recebe. É importante livrar-se de todas as prisões seculares que limitam. Aposentarei o antigo espartilho ou o não tão antigo sutiã, engrenagens que me apertam as carnes e me fazem tensa.  Eu não estou conseguindo sozinha desatar tantas presilhas, peço que me ajudes. E desde que me ajudes, estarei quase nua. (Contra nós, são obstáculos essas peças que tentam nos separar na hora do abraço.)

Veja meus seios descobertos, desprotegidos, inteiramente à mercê de tua maldade ou de tua benevolência. É tudo teu.

Será então um momento perfeito aquele em que tu que me desabotoavas ainda há pouco, sentado na beirada da cama  me rodeares a cintura, encaixando teu rosto de perfil, exatamente no hiato que existe entre, acolá. Num acanhado gesto, meio encabulada, dissimulando, vou me movimentar fingindo descompromisso, de forma a encostar tua boca em um dos meus mamilos. (Entretanto, minha intenção é te amamentar. Te sentir dependente, transformado em menino.)

Me suga, amor, enquanto solto um gemido baixinho. Modela com teus lábios meu prazer. Pode mordiscar. Não com muita força.

Seios são iguais as frutas de casca transparente e frágil. Quem com eles quiser brincar tem de ter muito refinamento e exatidão. Mesmo quando o desejo se confundir com a impaciência, é preciso cuidado. Certo dia lhes fizeste uns carinhos mais enérgicos, eu me lembro. Fiquei com os olhos cheios de água. Não era dengo nem exagero, não. É que eu fico sempre vulnerável quando está vindo minha menstruação. (Componente essencial da metafísica dos seios.)

Vamos deitar. Uma vez deitados, esconde teu nariz neles, quase te provocando um asfixiamento, ou um afogamento, já que pra ti eles se parecem com o mar.

Além de ser o mar, eles podem ser duas luas bêbadas e desorganizadas que oscilam quando faço movimentos tentando me enroscar em ti só para ganhar a sensação gostosa de teu peito cabeludo se roçando no meu. Gostas de te divertir com essas luas particularmente aos domingos pela manhã, quando acordamos. E eu nada mais quero das manhãs de domingo que eu tiver na vida a não ser tal ondulado, tal preguiça, tal contato. (Área na qual teu talento jamais será esquecido. Até no tempo em que eu não estiver mais contigo.)

Estou prontinha para amar, porém não tenho pressa. Deixa primeiro eu terminar de falar: quero propor um jogo diferente que retrate nossa imagem, nossa semelhança.

Foi por isso e por tanto que essa mulherzinha se permitiu inventar um jogo novo para te dar de presente. Não tenha receio, é um jogo bonito. No amor, todo ludismo é permitido. Vem cá. Deixa-me segurar teu sexo como se quisesse guardá-lo no peito. Devolvo a ti todas as folias que fizeste em mim. Esfregue-me, portanto. Do atrito de nossas peles, quem sabe eu consiga colher a intensidade do teu brilho num instante e o produto espalhar pelo meu pescoço, face, barriga, axila, por várias partes do meu todo.

No amasso demorado do fim, teu esperma secando vai se encarregar de nos unir suavemente, nos deixar misturados. Que loucura que é ficar assim: ser dois. (Porque em princípio a gente é solidão; junto fazemos a exceção).


ASSIS — Agora, Joyce, fale um pouco de você e da realidade que vive a mulher na nossa sociedade. Houve evolução? Que futuro você prevê?

JOYCE — Estou completamente comprometida em escrever minha biografia. Isso quer dizer que, devido a tal escolha, me obrigo a ser mais passado do que presente e muito menos futuro.

Vou escrevendo com a maior isenção, como sempre fiz com todos os meus romances. O objeto é inspirar quem vier em seguida. Já estou em pleno emprego vendo o passado o presente e o futuro se desenrolarem na minha frente como se fosse um filme colorido e emocionante, mas não é nada disso. Aqui está a mesma Joyce.

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